Blog do Ailton Amélio

Busca

25/04/2015

Autocontrole: você consegue atingir seus objetivos?

Por que é difícil:

- Parar de fumar?

- Perder peso?

- Fazer ginástica?

- Fazer regime?

- Estudar para passar em um concurso?

- Se esforçar para ser promovido em um emprego?   

- Economizar para se prevenir contra tempos difíceis?

            Duas das principais respostas para todas essas perguntas são as seguintes:

1- “As consequências imediatas controlam mais nossos comportamentos do que as consequências mais distantes”. Quanto mais imediata é uma consequência, maior o seu poder de controle sobre o comportamento que a produz.

2- Certas pessoas têm mais “resistência à frustração” do que outras. Ou seja, certas pessoas toleram um grau maior do desconforto do que outras para fazer esforços para atingir seus objetivos. Em outras palavras, certas pessoas conseguem tolerar melhor o desconforto que é provocado por fazer coisas desagradáveis para obter benefícios futuros (trabalhar duro, fazer ginástica, estudar arduamente, etc.) ou conseguem se abster de benefícios imediatos para obter uma quantidade maior de benefícios no futuro (por exemplo, se abstêm do prazer imediato de fumar para terem mais saúde no futuro; renunciam ao prazer imediato do descanso e fazem regime e ginástica para ficarem mais saudáveis e bonitas no futuro, etc.).

Neste artigo vamos examinar esses dois fatores que controlam os nossos comportamentos.


“Força de vontade”

Vontade férrea para cumprir promessas

Carmem tinha uma vontade férrea! Nas festas de fim de ano, ela sempre engordava um pouquinho. Mas, logo em seguida, ela dizia: “Em poucos dias, voltarei à forma”. Dito e feito! Poucos dias depois, lá estava ela com aquele corpinho de sempre. A sua força de vontade também aparecia em outras áreas: estudou sozinha, durante dois anos, para um concurso público muito concorrido. E passou! Para conseguir passar, ela, todos os dias, seis dias por semana, estudava três horas aquelas malditas apostilas que havia comprado na internet. Durante todo esse tempo, não quebrou esse hábito nenhuma vez. Quando tentavam convencê-la para abrir uma exceção, ela sempre dizia “Primeiro o dever e, depois, o prazer”. Vá ser determinada assim naquele lugar.

Pouca determinação para cumprir promessas

Davi não conseguia largar o cigarro e agora estava ficando obeso. Já havia tentado várias vezes largar o cigarro e perder peso. No começo, ia bem. Logo em seguida, admitia uma exceção, depois outra...mais algumas e ...pronto: os maus hábitos haviam voltados e os bons, interrompidos! Em outras épocas da sua vida, Davi já havia conseguido parar de fumar e perder muitos quilos. Esses sucessos, no entanto, só foram conseguidos à base de remédios. Ele não conseguia fazer esses tipos de mudanças só com base na sua força de vontade.


As consequências imediatas controlam mais nossos comportamentos do que as consequências distantes

Nós, como todos os outros animais, somos mais controlados pelas consequências imediatas de nossos comportamentos do que pelas suas consequências mais distantes. Quando ambas essas consequências são convergentes, tudo certo, o útil se junta ao agradável. No entanto uma grande quantidade de problemas surge quando as consequências em curto prazo são más conselheiras, ou seja, elas influenciam os nossos comportamentos em uma direção que produzirá males em médio e longo prazo. Isso acontece com todos os vícios, preguiça, protelações, falta de persistência. Por exemplo, fumamos e comemos demais porque o prazer imediato é um mau conselheiro e produz grandes problemas estéticos e de saúde em médio e longo prazo.

Com a faca nos dentes

Recentemente assisti um filme na televisão apresenta a história de sobreviventes de um acidente de avião no Alasca (“A Perseguição”, dirigido por Joe Carnahan). Mais no final desse filme, alguns dos sobreviventes saem à procura de ajuda. O que interessa aqui é a persistência deles para lutar contra aquela situação bastante desesperadora: continuavam a caminhar na neve, embora sentissem fome, dor, cansaço, sono e medo. Todos esses sentimentos e sensações pressionavam para que desistissem da caminhada. A área racional de seus cérebros, no entanto, havia concluido, clara e acertadamente, que se pararem morreriam em pouco tempo: como já haviam se afastado do local da queda do avião, provavelmente não seriam localizados com vida e sobreviveriam por pouco tempo naquelas condições hostis. As consequências imediatas mandavam que parassem de caminhar, mas as consequências mais distantes eram mais sofrimento e a morte! (Não vou contar o final. Caso você se interesse, assista o filme! Rs).

Ter força para agir contra aquilo que é indicado por sentimentos e sensações negativas imediatas não ocorre apenas em situações dramáticas como estas mostradas no filme. Essa motivação para agir está presente no nosso dia a dia: levantamos da cama quando o sono ainda nos diz para ficar; enfrentamos o trânsito para encarar um trabalho pouco atraente, quando gostaríamos de ficar em casa ou de passear; comemos aquela saladinha meio sem sabor, quando o nosso apetite nos faz sonhar com aquela comida gordurosa e altamente calórica; corremos em uma esteira para ficar no mesmo lugar só para fazer ginástica, etc.

Muitas vezes, no entanto, nos rendemos e abandonamos muitas batalhas que poderiam, perfeitamente, serem ganhas. Neste caso, agimos assim porque as recompensas pelos maus comportamentos são imediatas e certas (mas danosas em médio e longo prazo) e as recompensas pelos bons comportamentos são apenas prováveis e só virão em médio e longo prazo.


Resistência à frustração

Um estudo americano mostrou que aos quatro anos de idade, as crianças já são bastante diferentes entre si na capacidade de adiar um prazer imediato para ganhar outro maior, mais tarde. Neste estudo, os experimentadores colocaram cada uma dessas crianças sentadas em uma cadeira em frente a uma mesa. Na mesa havia um marshmallow dentro de um prato.  Os experimentadores informaram essas crianças que, se não comessem aquele marshmallow até eles voltarem, elas ganhariam mais um e, ai, poderiam comer os dois. Em seguida eles saiam da sala. As crianças eram filmadas o tempo todo. Esse estudo mostrou que algumas crianças conseguiram adiar o prazer imediato de comer o marshmallow que já estava ali na sua frente para conseguir ganhar dois algum tempo depois.

Vários aspectos dos desempenhos dessas crianças foram monitorados durante muitos anos após esse experimento inicial. Esse monitoramento mostrou que aquelas crianças que conseguiram adiar a gratificação tendiam a ser mais eficientes em diversas tarefas como nos seus desempenhos acadêmicos e sucesso na vida adulta.

A educação é a principal causa do desenvolvimento da resistência à frustração.

Aqueles pais que satisfazem imediatamente todos os desejos de seus filhos estão contribuindo fortemente para que eles não desenvolvam uma boa capacidade para tolerar a frustração.


Autocontrole: controle por consequências distantes

Alguns estudiosos veem o autocontrole como um conjunto de procedimentos que uma pessoa adota em um momento, quando está sob efeito de determinadas percepções e motivações, para se controlar em outros momentos, quando ela está sob efeito de outras percepções e motivações. Por exemplo, uma pessoa coloca o despertador longe da cama para aumentar as chances de se levantar no horário previsto, no outro dia.


Fatores que afetam as chances das promessas serem cumpridas

Existem pelo menos quatro fatores que afetam as chances de que as promessas sejam ou não cumpridas:

1- Avaliação do grau de exequibilidade da promessa

Muitas promessas são apresentadas antes da realização de uma boa avaliação das dificuldades para cumprir o compromisso que ela apresenta. O grau de dificuldade da tarefa pode ser mal avaliado, tanto para mais ou para menos.

Após a promessa ter sido apresentada, ela pode ser avaliada por quem a apresentou como muito difícil de ser cumprida. Este tipo de avaliação é desmotivador e reduz drasticamente as chances de que ela seja cumprida.

2-  Habilidade para programar o cronograma de execução da tarefa

Um erro muito comum que é cometido por quem assume tarefas difíceis ou muito trabalhosas é marcar uma data para e completá-las integralmente. Esse tipo de compromisso pode levar ao desânimo porque é necessário muito esforço e esperar muito tempo antes da obter a recompensa que virá em uma dose única com o término bem sucedido da tarefa.

O melhor é assumir um cronograma de execução que preveja que pequenas partes da tarefa total devem ser concluídas e recompensadas em pequenos intervalos de tempo. Isso garante a motivação para um esforço continuado e que é recompensado frequentemente, ao invés de um esforço imenso e demorado que só recebe sua recompensa no final da tarefa.

Por exemplo, vamos supor a meta final de uma pessoa é perder dez quilos. Neste caso é melhor ela comprometer-se a perder meio quilo por semana e programar recompensas para acontecerem no final de cada um desses períodos de sucessos parciais como cumprimentar-se, comunicar o sucesso para outras pessoas que a cumprimentarão e mostrarão respeito e admiração por cada um desses sucessos parciais (os Vigilantes do Peso adotam um sistema parecido).

3- Assumir publicamente a promessa. Geralmente o cumprimento de uma promessa assumida em público implica no reconhecido por parte daqueles que ficaram cientes da sua formulação e o seu descumprimento, na perda de credibilidade perante essas pessoas, o que produz consequências desagradáveis para quem a descumpriu.

4- Assumir intimamente a promessa. Algumas pessoas sentem-se muito realizadas quando cumprem o que prometeram e muito frustradas e culpadas quando não o cumprem. Essas pessoas possuem um sistema interno de comprometimento muito poderoso porque aprenderam a liberar consequências psicológicas internas severas para o cumprimento de compromissos.

Além disso, todos nós também experimentamos bons sentimentos quando terminamos as tarefas que nos propusemos realizar e frustração quando tais tarefas são abandonadas e ficam inconclusas.

Problemas para atingir suas metas? Procure a ajuda de um psicólogo!

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 11h34

19/04/2015

O que você faz para mudar seus estados psicológicos?

Algumas pessoas não sabem o que fazer para alterar seus estados psicológicos e ficam prisioneiras deles. Outras sabem o que fazer para se livrar de maus estados e para induzirem estados positivos. Esse é o assunto que vamos tratar neste artigo.

O que você faz para alterar seus estados psicológicos?

Para ter uma ideia do que você faz para alterar seus estados psicológicos, responda as seguintes perguntas:

Quando estou em um dos seguintes estados de espírito, tomo as seguintes providências para alterá-lo:

1- Estou desanimado. Faço.....

2- Estou com medo de enfrentar uma determinada situação social. Faço....

3- Estou desmotivado para iniciar uma tarefa que, uma vez iniciada, poderá tornar-se motivadora. Faço.....

4- Estou infeliz, embora nada grave tenha ocorrido. Faço.....

5- Estou com muita raiva. Faço.....

6- Estou de mau humor. Faço.....

Providências para alterar diretamente o estado psicológico ou providências para alterar suas causas?

Podemos tentar alterar diretamente o estado de espírito ou alterar suas causas. Para tentar combater diretamente o estado de espírito, podemos pensar ou dizer coisas encorajadoras para nós mesmos (“Sou uma pessoa bem sucedida socialmente”, “Não preciso do sucesso nesta situação”, etc.), produzir alterações corporais para alterar o estado de espírito (por exemplo, adotar uma postura corporal típica de alguém seguro e dominante) ou lançar mão de substâncias que acalmem ou combatam o medo (álcool, calmantes, etc.).

Por exemplo, para diminuir o medo de enfrentar uma situação social, podemos adotar, por alguns minutos, uma postura corporal dominante (queixo para cima, costas eretas, barriga para dentro) ou tentar combater as causas desse medo: mudar a nossa percepção da situação ameaçadora; melhorar nossa autoestima, etc.

No futuro, aprenderemos a alterar nossos estados psicológicos

No futuro, desde a infância, aprenderemos vários métodos para lidar com nossos estados psicológicos mais leves e cotidianos. Aprenderemos métodos para diminuir ou sair de estados psicológicos negativos e métodos para produzir estados psicológicos positivos. Aprenderemos a fazer isso em nós mesmos e em outras pessoas.

Será considerado um ato de impolidez e falta de educação induzir desnecessariamente estados negativos em outras pessoas, deixar de contribuir para introduzir e para manter estados positivos em outras pessoas ou deixar de tomar medidas para reduzir nossos estados negativos e para aumentar nossos estados positivos que afetam outras pessoas.

Os estados psicológicos mais graves e duradouros, para que sejam mudados substancialmente, exigem intervenção profissional. Essa intervenção é necessária, por exemplo, para alterar características de personalidade, combater traumas psicológicos, modificar estilos de apego, aperfeiçoar a capacidade para conversar e para combater a depressão.

Conhecimentos atuais para alterar estados psicológicos

Todo mundo conhece algumas medidas para diminuir a intensidade de estados psicológicos negativos, os próprios  e os de outras pessoas. Também conhecemos algumas maneiras de induzir estados psicológicos positivos.

No entanto, em muitas situações, não sabemos como agir, ou agimos erroneamente, para alterar esses estados. Por exemplo, muita gente não sabe o que dizer para apoiar ou consolar uma pessoa que acabou de receber uma notícia grave.

Algumas medidas para alterar estados psicológicos

Acabei de localizar na internet vários “métodos” para alterar estados psicológicos. Embora ainda não existam comprovações científicas sobre a eficácia desses métodos, aqui estão alguns deles:

1- Gargalhar

Há alguns anos, virou moda rir durante um tempo para provocar mudanças em nosso estado de espirito. Segundo os proponentes dessa medida, gargalhar, mesmo que forçadamente, produz alterações bioquímicas que muda.

2- Respirar profunda e pausadamente

A inspiração profunda tem efeitos calmantes: inspirar profundamente usando os músculos do abdômen e expirar lentamente acalma!

3- Praticar Yoga

Existe certo consenso que a prática do yoga contribui para diminuir a tensão.

4 – Ginástica leve

As pessoas que praticam ginástica relatam que isso lhes faz muito bem.

Certos exercícios podem trazer modificações psicológicas imediatas. Por exemplo, usar certas técnicas de “esquentamento” antes do envolvimento em interações sociais melhora esse tipo de envolvimento e o grau de satisfação com a participação.

4- Tirar uma soneca

Quando dormimos, o nosso cérebro dá uma desligada ou atenuada nos “programas” que estavam rondando no estado de vigília. Pessoas que estão em um mau estado psicológico podem se sentirem aliviadas e começar a pensar em outras coisas após a soneca.

5- Adotar posturas corporais dominantes e confiantes

Assumir essas posturas pode contribuir para sentir-se mais dominante e confiante.

6- Recitar fórmulas positivas

 Por exemplo, repetir três vezes a seguinte sentença: “Cada dia, em todos os sentidos, vou cada vez melhor” – mantra adotado por pessoas que creem no “poder do pensamento positivo”.

Como você faz para produzir um bom estado psicológico?

(Algumas dessas ações são as mesmas usadas para sair de maus estados psicológicos).

1- Sabe procurar situações animadoras e motivadoras: viaja, vai a programas culturais, se encontra com os amigos, permite-se desfrutar de coisas boas da vida.

2- Tem autocontrole para começar atividades pouco motivadoras que se tornarão motivadoras (“pegar no tranco”): sai para correr sem vontade, começa a estudar sem vontade, começa a trabalhar sem vontade, levanta da cama sem vontade.

3- Vai fazer compras

4- Come coisas saborosas

5- Veste uma roupa que lhe cai muito bem

6- Posta no Facebook coisas que são bem recebidas pelos seus amigos

7- Procura sair com amigos

8- Tem um encontro romântico ou sexual

9- Assume posturas corporais que aumentam a autoconfiança

10- Pensa em coisas que melhoram a autoimagem

11- Ouve música que alteram o seu estado de espírito

12- Conversa com alguém que “põe você para cima”

13- Executa atos que que colocam você para cima.

14- Age assertivamente em pequenas situações para mudar seu estado de espírito. 

Agir para mudar o estado psicológico

William James, famoso psicólogo americano do século 19, dizia que as ações é que provocam as emoções e não o vice-versa. Ele dizia, por exemplo, que ao ver um urso, “Tenho medo porque corro e, não, corro porque tenho medo”.

Sabemos hoje, que as ações e as emoções funcionam em uma via de dupla mão: tanto as emoções alteram os comportamentos como os comportamentos alteram as emoções.

As pessoas que concordam com William James tentam mudar suas formas de agir para provocar mudanças em seus estados psicológicos. Elas procuram se portar como se estivessem em outro estado de espírito para ver se, de fato, passam a se sentir da forma como estão se portando.

Atuar no corpo para alterar o estado psicológico

Os adeptos da ginástica, da corrida, da yoga, das massagens, do shiatsu, da acupuntura, da sensibilização sistemática, das técnicas de relaxamento atuam no corpo para alterar estados de espírito.

A atuação no organismo para afetar o psicológico tem seus limites. Por exemplo, por mais que as técnicas de relaxamento ajudem a acalmar o tímido, essas técnicas não o ensinarão a conversar melhor, a não deixar o assunto morrer. Da mesma forma, medicação, yoga ou ginástica poderão acalmar um homem que está sendo abandonado pela esposa, mas essas medidas não vão lhe ensinar como melhorar o relacionamento.

Diferentes graus de alterações dos estados psicológicos

Os estados psicológicos são complexos e constituídos por muitos componentes: temperamento, características de personalidade, hormônios, bioquímica cerebral, estados fisiológicos (sono, cansaço), acontecimentos externos ao organismo (termino de um casamento, perda do emprego, perda de um ente querido, sucesso profissional).

As durações dos estados psicológicos são muito variadas. Alguns duram a vida toda, outros mudam lentamente e outros ainda mudam em segundos.

Exemplo de estado que pode variar em segundos: você recebe uma má notícia. Nota, em seguida, que foi um engano! A mensagem não era para você. O susto provocado por essa má interpretação dura pouco e é substituído pelo alívio.

Certos estados podem ser alterados em uma hora de terapia: quando a pessoa vê claramente o que tem que fazer, quando ela desabafa e é acolhida com compreensão e desabafo o seu estado psicológico pode mudar significativamente. Outros estados podem demandar anos de terapia para serem alterados significativamente.

Alguns estados só podem ser mudados através de muita terapia. Outros são mudados através de medicamentos, outros ainda, através do autocontrole.

Escreva para nós e relate o que você faz para mudar o seu estado psicológico!

Na sua vida existem mais estados psicológicos negativos do que positivos? Procure um psicólogo.

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 10h45

12/04/2015

Por que muitas mulheres têm dificuldade com o orgasmo e muitos homens, com a ereção?

Segundo a professora Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudo da Sexualidade (ProSex), 51% dos homens e 56% das mulheres daqui do Brasil estão insatisfeitos com suas vidas sexuais. Segundo essa professora, cerca de 25% dos homens sofrem de ejaculação precoce. Os problemas de ereção atingem de 30% a 45% da população masculina, dependendo da faixa etária. Entre as mulheres, um terço nunca chegou ao orgasmo e muitas reclamam da falta de desejo sexual.

Neste artigo vamos examinar algumas das principais causas desses problemas.

Causas dos problemas sexuais

Segundo Helen Singer Kaplan, famosa autora e estudiosa dos problemas sexuais, o sexo funciona satisfatoriamente quando não há interferências negativas.

Medo, preocupações e expectativas distorcidas são interferências que atrapalham o desejo e o desempenho sexual de homens e mulheres. Essas interferências prejudicam, principalmente, o desejo das mulheres e suas capacidades para o orgasmo e a ereção masculina e, consequentemente, seus desempenhos sexuais subsequentes.

Essas interferências geram problemas e diminuem o prazer sexual, mesmo quando o funcionamento orgânico é “normal”.

As duas seguintes histórias ilustram algumas dessas interferências sexuais e os problemas que elas causam.

André se preocupa com o seu desempenho e não consegue ereção

André foi para um encontro com Marina.

Ele estava louco por ela. Por isso, tinha muito medo de não agradá-la. Além disso, em outros relacionamentos, ele já teve problemas de ereção.

Durante o encontro, o clima entre eles começou a esquentar. Ele estava com muito desejo sexual por ela e, ao mesmo tempo, com muito medo de desagradá-la. Ele tinha esse tipo de medo porque tinha dúvidas quanto ao seu desempenho sexual e, o pior de tudo, porque tinha medo de não conseguir uma ereção firme o suficiente para penetrá-la ou, ainda, perder a ereção durante o relacionamento sexual.

Todos esses medos impediam a sua entrega ao prazer que as intimidades, cada vez mais intensas, com ela poderiam estar proporcionando.

Como não conseguia se entregar, a sua excitação não era muito grande e a sua ereção deixava muito a desejar. Falhou!

Janaina sentia mais apreensão e obrigação do que atração

Janaina é cheia de pré-requisitos para se envolver com sexo:o relacionamento tem que estar muito bom, tem que haver um bom tempo de preparo antes do início das atividades sexuais, etc.

Para Janaina, não é nada simples se entregar aos prazeres sexuais. Na hora do sexo, a sua cabeça fica cheia de apreensões, obrigações e regras. Por exemplo:

- Para ela, o prazer sexual do seu namorado é mais importante do que o seu.

- Ela tem medo de demorar muito para chegar ao orgasmo e essa demora cansar e aborrecer o namorado. Por isso, finge mais prazer do que está sentindo e, muitas vezes, finge que chegou ao orgasmo.

Fingir é uma tarefa que atrapalha muito se entregar ao prazer: essa tarefa exige atenção e esforço. Além disso, fica com medo de ser pega, sente culpa por estar fingindo,

- Ela sente medo de estar com problemas de desejo e medo de não ter muita atração pelo namorado.

- Tem medo de o namorado perceber que ela não está com muito desejo, não está muito excitada.

Todos esses temores e obrigações equivocadas não permitem que Janaina relaxe se entregue aos excitantes que estão presentes no encontro.


Maneiras de combater as interferências negativas na sexualidade

As interferências negativas na hora do sexo não deixam muito espaço para a ação dos excitantes sexuais. Por exemplo, ficar com medo do julgamento do parceiro sobre algum detalhe do corpo ou sobre o desempenho sexual não é nada excitante e atrapalha a entrega ao clima erótico e acontecimentos sexuais.

Três ótimas maneiras de combater as interferências negativas na sexualidade são as seguintes:

- Tomar conhecimento delas e admitir que elas estão presentes.

- Corrigir as distorções das percepções das importâncias dos fatos que geram temores, preocupações e expectativas distorcidas.

- Conversar com o parceiro sobre as práticas sexuais que acontecem entre eles, suas fantasias, temores e inibições. Vamos abordar agora, um pouco mais, esse tipo de conversa.

Muita gente não consegue conversar sobre sexo com o parceiro

Raros casais conversam minuciosa e frequentemente sobre as seus desejos e fantasias sexuais, sobre suas inibições e sobre o que se passa em seus relacionamentos sexuais.  Conversar sobre “sexo em geral” ajuda, mas não substitui conversar minuciosamente sobre o que está se passando no momento das relações sexuais.

É mais fácil fazer sexo do que conversar sobre ele

Conheço muita gente casada há muito tempo e que praticamente nunca conversou detalhadamente sobre sexo com o parceiro. Conversar frequentemente com ele sobre isso é muito mais raro ainda. Essas pessoas não sabem o que estão perdendo!

Muitas dessas pessoas levam uma vida sexual medíocre porque deixam de lado esse tipo de conversa que é o meio mais importante para tomar e dar conhecimento daquelas coisas que as atraem ou as constrangem sexualmente e um meio para aperfeiçoar suas vidas sexuais. Além disso, esse tipo de conversa pode ser excitante!

Não é muito útil falar sobre sexo em geral. O mais produtivo é falar sobre si e sobre o que acontece consigo durante as relações sexuais com o parceiro. Também é muito importante saber ouvir o parceiro.

Falar com estranhos, neste nível de detalhes, é tabu. Falar com o parceiro pode ser muito delicado porque muita coisa está em jogo para quem fala, para quem ouve e para o relacionamento entre eles.

Os parceiros escondem um do outro coisas boas e ruins. Eles escondem seus desejos, suas fantasias. Escondem que não gostam e o que não gostam de fazer com e pelo parceiro. Eles mantêm em segredo mil medos, mil desejos, mil fantasias e mil suposições sobre o outro e sobre sexo.

O medo e o constrangimento para conversa sobre a própria vida sexual é muito maior do que se imagina. Esse tipo de inibição é a causa de grande parte dos problemas sexuais. Ele é a causa do prazer sexual ser subaproveitado.

A revelação de desejos dá variabilidade para a vida sexual. Cada dia, estamos de um jeito diferente nesta área. A comunicação para o parceiro dessa variabilidade afasta a monotonia e enriquece a vida sexual.


Porque as mulheres fingem orgasmo

A pressão sobre as mulheres na hora do sexo é tamanha que muitas delas fingem o orgasmo. O relato de pesquisa resumido em seguida dá uma ideia do que se passa na cabeça daquelas mulheres fingem orgasmo.

Motivos que levam as mulheres a fingir orgasmo

 “Uma pesquisa conduzida por publicado na revista científica Journal of Sex Research afirma que mais de 70% das mulheres não atingem o orgasmo durante as relações sexuais. Outro estudo verificou que entre 53 a 65% das mulheres fingem orgasmo durante as relações sexuais.”

Um estudo recente levantou alguns dos principais motivos que levam uma boa percentagem de mulheres a fingir orgasmo. Este estudo foi realizado com pequenos grupos de discussão cujos participantes eram homens e mulheres americanos na faixa dos vinte anos. (Veja uma apresentação mais completa dessas estatísticas e dessa publicação no artigo cujo link é oferecido na Nota 1, no final deste artigo).

Algumas das principais conclusões desse estudo são os seguintes:

1. A mulher é responsável por se preparar psicologicamente para o orgasmo.

O homem é responsável pela estimulação física das zonas erógenas da mulher.

2. O orgasmo feminino não é necessário para a mulher ficar sexualmente satisfeita.

Essa crença empurra as mulheres para se preocuparem mais com o orgasmo masculino do que com seus próprios orgasmos.

3. A mulher precisa cuidar do ego masculino durante o sexo.

Quando a mulher não tem orgasmo, isso afeta a autoimagem do homem. Ele sente que não é tão desejável ou tão hábil para excitar a mulher. Por isso, ela tem que tomar cuidado para que ele não se sinta ameaçado. Fingir prazer e orgasmo tranquiliza o homem.

4. A mulher pressupõe que está sendo julgada pelo homem, mas raramente comunica essa preocupação.

Ela se preocupa com o que ele está pensando a seu respeito e a respeito do seu desempenho sexual. Ela evita falar sobre isso. Essas preocupações afetam a sua capacidade para sentir desejo, ficar excitada e chegar ao orgasmo.

5. A mulher valoriza mais o prazer do homem do que o seu próprio prazer

Para ela, a intimidade já é bastante satisfatória. O orgasmo é um privilégio mais difícil e raro.

6. É mais aceitável fingir orgasmo em um encontro casual.

Fingir orgasmo com o parceiro fixo é menos aceitável do que em um encontro casual. Como ela espera pouco do encontro casual e sente menos culpa com os fingimentos, fica mais fácil fingir nesta situação.

Você tem tem pouco desejo, dificuldade para chegar ao orgasmo ou problemas de ereção?

Você não consegue conversar com o parceiro (a) sobre sexo? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA 1

AlyssaGraceMagsano. Fake It ‘till You Make It: Lust, Language, and Talking to Turn You On. http://alyssagracemagsano.com/category/archive/ (Consultado em 11/04/2015).

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 13h23

10/04/2015

A construção de relacionamentos prazerosos e duradouros

Um relacionamento amoroso bem sucedido é aquele que traz satisfação, é vibrante e duradouro.

Você está satisfeito com o seu relacionamento amoroso atual? Ele produz mais satisfações ou mais aborrecimentos? Você vê mais atrativos fora do seu relacionamento do que nele? Você investe muito para construí-lo? Quais são os obstáculos psicológicos, sociais e materiais que impedem você de deixá-lo? Cada uma destas perguntas diz respeito a um dos cinco fatores que diversos estudos apontaram como essenciais para o sucesso de um relacionamento amoroso.

Relacionamento é muito mais que amor e sexo

O relacionamento amoroso envolve muito mais coisas do que romantismo e  sexo, ao contrário do que as novelas, os romances e as letras das músicas românticas querem nos fazer crer. Existem diversos fatores que podem contribuir para que este tipo de relacionamento seja iniciado, progrida para maiores graus de envolvimento e compromisso e traga satisfação para os envolvidos.

Três desses fatores foram identificados por Caril E. Rusbult e B. P. Buunk, dois importantes pesquisadores desta área: satisfação, alternativas e investimentos (Veja a citação dessa publicação na NOTA 2, no final deste artigo). As importâncias de dois outros fatores, a escolha de um parceiro adequado e as barreiras contra a dissolução do relacionamento, foram apontadas por diversos outros estudos. Estes cinco fatores são apresentados detalhadamente no meu livro “Para Viver um Grande Amor”. Vou resumi-los aqui.

Fatores que contribuem para a qualidade, estabilidade e durabilidade do relacionamento amoroso

1. Escolher bem o parceiro

Algumas características pessoais, que são muito importantes para um relacionamento amoroso, são muito difíceis de mudar. Portanto, é melhor selecionar parceiros que as possuam do que tentar mudá-los depois. Uma analogia ajuda a entender este fator: nenhuma empresa que necessite de um engenheiro contrataria alguém que tenha apenas o primeiro grau e investiria longamente na sua formação.

Da mesma forma, nos relacionamentos amorosos, é melhor selecionar um parceiro que já tenha as características desejadas, e trabalhar apenas nos ajustes finos, do que apostar em alguém que inicialmente seja muito diferente do desejado.

Também é desaconselhável aceitar alguém condicionalmente. Por exemplo, é desaconselhável aceitar uma pessoa como parceira amorosa contando que ela vai se tornar mais sociável, deixar um vício, ficar rica, cursar uma faculdade etc. Um parceiro que é aceito condicionalmente já inicia o relacionamento como devedor.

2. Satisfação

John Gottman, autor de vários livros e pesquisas sobre os fatores que contribuem para o sucesso do casamento, afirma que para um relacionamento dar certo é necessário que cada parceiro proporcione para o outro cinco benefícios para cada custo. Embora esta proporção possa ser questionada, parece bastante óbvio que preferimos a companhia daqueles que nos proporcionam mais benefícios do que custos.

A satisfação é importante em todas as fases do relacionamento: escolha do parceiro, início, progresso, estabilidade e término do relacionamento e na sua revitalização. Ela também é importante para diversos tipos de relacionamentos: amizade, relacionamento entre parentes, relacionamento entre pessoas que trabalham juntas e relacionamento amoroso.

O grau de satisfação de um relacionamento é determinado pela proporção entre custos e benefícios. Vários fatores podem ser fontes de custos e benefícios, entre eles:

- Características fixas ou dificilmente mutáveis das pessoas Inteligência, personalidade, sociabilidade, certas características físicas etc.

- Características do relacionamento com o parceiro: desempenho sexual, qualidade e quantidade de comunicação, compartilhamento de pensamentos, humor, etc.

- Compartilhamento de tarefas e responsabilidades Ajudar em tarefas caseiras e nas tarefas de manutenção da casa (fazer supermercado, efetuar pagamento de contas etc.).

- Criação e manutenção de relações sociais Amizades, relacionamentos com parentes etc.

Ilusão positiva. Alguns estudos indicaram que importa mais para a satisfação, a forma como o parceiro é percebido do que como ele é na realidade. Este fenômeno foi denominado de “ilusão positiva”. Neste sentido, um estudo mostrou que aqueles que viam o parceiro melhor do que os amigos o viam estavam mais satisfeitos com os seus relacionamentos. Esta ilusão pode ser bastante ampla, uma vez que nunca chegamos a conhecer bem a pessoa com quem convivemos. Um estudo revelou que as pessoas casadas há muito tempo só conheciam cerca de 50% das características do parceiro. Portanto, há muito espaço para distorções positivas e negativas na percepção das suas características.

3. Alternativas a ficar no relacionamento com o parceiro

Existem melhores opções fora do relacionamento do que nele? Geralmente são considerados dois tipos de opção:

1- Ficar só. Muitas vezes é “melhor ficar só do que mal acompanhado”.

2- Trocar de parceiro. A traição uma das principais causas da separação, segundo um estudo realizado em 186 culturas pela antropóloga Laura Betzig, da Universidade de Michigan.

Como não é possível enfraquecer as atrações que existem fora do relacionamento, o que dá para fazer é melhorar as atrações que existem dentro dele e as forças que dificultam sair dele. Ou seja, devemos cuidar dos outros fatores abordados neste artigo que ajudam o relacionamento ser mais satisfatório e estável.

- Selecionar um parceiro compatível.

- Aumentar as satisfações no relacionamento atual.

- Investir no relacionamento.

- Selecionar parceiros que possuam barreiras contra a dissolução do relacionamento e desenvolvê-las.

4. Investimentos

O juramento apresentado pelos noivos na cerimônia do casamento católico afirma: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...”.

Esta fórmula, sintetiza o princípio que afirma que para um relacionamento dar certo é necessário investir, acreditar e apostar nele. É necessário “entrar com os dois pés na canoa”. Agir desta forma é o oposto do imediatismo do “toma lá, dá cá”. Isto, obviamente, não significa ser ingênuo e apostar em relacionamentos com baixas chances de sucesso.

Cada vez mais acreditamos menos no casamento e, por isso, tentamos nos proteger das consequências do seu fracasso. Esta falta de crença e excesso de proteção contribui para que ele não dê certo. Antigamente o casamento era concebido como uma união plena e duradoura. Por exemplo, o regime do compartilhamento de bens era a comunhão total e ele era considerado indissolúvel. Atualmente o casamento padrão acontece com a comunhão parcial de bens e ele é visto como relativamente descartável. Muitos casais estão optando pela separação total de bens através de um pacto antenupcial.

Existem várias formas de investir em um relacionamento. Psicologicamente isto acontece quando os cônjuges “deixam de ser “eu” e “tu e se tornam um pouco “nós”. Outra forma é a aceitação incondicional do parceiro (o que não significa concordar com tudo o que ele faz). Outras formas de investimento: desenvolver projetos conjuntos (casa, carreira), amparar o outro nos maus momentos, defender o outro publicamente etc.

5. Barreiras

Existem dois tipos de barreiras contra a dissolução de um relacionamento amoroso: as internas e as externas.

As barreiras internas são constituídas pelos valores, crenças e inibições psicológicas que se contrapõem aos términos dos relacionamentos amorosos. Por exemplo, uma pessoa que tenha fortes sentimentos e valores que a impeçam de tomar decisões que causem sofrimentos para a sua família terá mais inibições para sair de um relacionamento amoroso e lutará mais para que ele dê certo do que alguém que tenha um grau menor destas duas características.

Existem duas maneiras de trabalhar com este tipo de barreira para aumentar as chances de que um relacionamento perdure:

- Selecionar parceiros que tenham este tipo de atitudes e valores.

- Fortalecê-las. Por exemplo, dialogar com o parceiro com o objetivo de aumentar a visibilidade das consequências negativas das separações.

As barreiras externas são constituídas por aqueles obstáculos impostos por outras pessoas e pelas estruturas sociais contra a dissolução do relacionamento amoroso. Alguns exemplos deste tipo de barreira são a opinião pública e as consequências legais e econômicas.

Creio que o grande aumento nas percentagens de separações que estão ocorrendo se deve, principalmente, ao enfraquecimento de diversos tipos de barreiras externas, entre elas:

- A lei facilitou as separações.

- A opinião pública está aceitando muito melhor os separados e recasados.

- As mulheres se integraram ao mercado de trabalho e não dependem mais dos maridos economicamente.

 

A grande vantagem do enfraquecimento destas barreiras é que ninguém mais é obrigado a ficar em um relacionamento altamente insatisfatório. A desvantagem é que ficou muito mais fácil sair de relacionamentos, o que leva muita gente a descartá-los prematuramente e não investir nas suas melhorias.

As barreiras externas que ajudam a proteger o relacionamento estão relativamente fora do controle individual. O que dá para fazer é escolher pessoas que pertençam a grupos sociais que aprovem e implementem as barreiras desejadas.

Acredito que é possível ter um relacionamento amoroso vivo, criativo e prazeroso com o mesmo parceiro durante toda a vida. Vale a pena construir e viver um relacionamento assim. Não conheço nenhum outro setor da vida que pode nos afetar de forma tão profunda e tão ampla quanto este.

NOTA

1- Este artigo é uma adaptação de um capítulo do meu livro "Relacionamento Amoroso", Publifolha.

2- Rusbult CE, Buunk BP. Commitment processes in close relationships: An interdependence analysis.Journal of Social and Personal Relationships. 1993;10:175–204.

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 10h34

30/03/2015

Como é um rosto bonito?

A ciência oferece algumas respostas parciais para esta pergunta. Vamos examinar neste tópico alguns dos fatores que contribuem para a beleza do rosto. Existem várias hipóteses sobre o que contribui para que um rosto seja julgado belo: o conjunto do rosto, a beleza dos elementos constituintes do rosto, a simetria entre o lado direito e lado esquerdo do rosto, a ausência de sinais de envelhecimento, o fato de o rosto ter características médias em relação aos rostos da população onde vivem os avaliadores.

O rosto que tem partes bonitas é belo 

Existem vários métodos para avaliar a importância dos componentes faciais. Alguns estudos contam o número de vezes que cada componente é mencionado por pessoas que estão falando da beleza da face. Outros estudos pedem para pessoas avaliarem a beleza de cada um dos componentes faciais; outros estudos medem as dimensões de cada um dos componentes de faces, pedem para pessoas julgarem a beleza das faces completas de onde estes componentes foram selecionados e calculam as correlações entre as dimensões de cada componente e as avaliações de beleza das faces de onde eles foram selecionados. Vamos ver abaixo um exemplo de cada um destes tipos de estudo.

Um autor pediu para as pessoas avaliarem vários componentes faciais isolados. Em seguida avaliou as faces completas que continham estes componentes. Os cálculos estatísticos mostraram a seguinte ordem decrescente de importância dos componentes faciais para a avaliação da beleza: boca, olhos, cabelos e nariz. É possível que os olhos tenham uma importância maior do que a mostrada neste estudo. Esta importância aparentemente foi depreciada neste estudo pelo uso dos óculos por parte de participantes.

Um estudo realizado por Cross e Cross (1971) tabulou a frequência que pessoas de 7 a 57 anos citaram diversos componentes faciais como sendo importantes para a beleza facial. A ordem de importância desses componentes, encontrada neste estudo, foi a seguinte: olhos (34%), boca e/ou sorriso (31%), proporções faciais ou configuração geral da face (15%) cabelos (10%), cor da pele (5%) e formato do nariz (5%).

Michael F. Cunningham, professor do Elmshust College, realizou dois quase-experimentos para investigar a relação entre características faciais de mulheres adultas e a atração, atribuição e respostas altruísticas de homens adultos. Este autor mediu 24 características faciais de uma amostra internacional de fotografias de 50 mulheres. Homens avaliaram a atração de cada uma das 50 mulheres. As características faciais mais atraentes eram as seguintes: características de neonatos (olhos grandes, nariz pequeno, e queixo pequeno); características de maturidade dos ossos das bochechas (proeminentes e bochechas estreitas); e as características expressivas (sobrancelhas altas pupilas grandes e sorriso largo). 

O rosto harmônico é belo

A teoria gestáltica afirma que os efeitos produzidos pelo todo são maiores ou qualitativamente diferentes daqueles produzidos pela soma das partes. Uma pessoa pode ter, por exemplo, belos olhos, uma bela boca, um belo nariz, uma bela testa e ainda assim não ser muito bonita ou vice-versa. Para visualizar isso basta imaginar, por exemplo, que a conformação craniana é muito diferente do usual [assimetrias, etc.] ou estes componentes faciais não estão simetricamente distribuídos no rosto.

O vice-versa, dentro de certos limites também parece ser verdadeiro. Contribui para a gestalt a simetria e as proporções nas dimensões das partes.

 

        O rosto médio é belo

Há muito tempo é sabido que o rosto médio (em relação ao rosto das pessoas do mesmo sexo da população do local onde vive o indivíduo) é considerado belo. Recentemente, autores americanos criaram rostos médios a partir de vários outros rostos e verificaram que esses rostos médios eram considerados mais bonitos do que os rostos verdadeiros que lhes deram origem. Os cientistas verificaram também que os rostos médios eram considerados os mais belos em outras culturas, embora as pessoas de cada cultura considerassem mais belos os rostos que eram médios em relação aos rostos de pessoas da própria cultura.

Faces compostas

A atração de faces compostas de mulheres foi notada há muito tempo. Sir Francis Galton, grande cientista inglês do século passado, criou um método muito interessante para estudar a beleza de faces compostas. Sir Galton fotografou vários homens e mulheres ingleses e revelou parcialmente os negativos das mulheres sobre um mesmo papel e a dos homens sobre outro papel. Desta forma, as características mais comuns para cada sexo ficavam mais firmemente registradas nas respectivas revelações, ao passo que as características mais raras praticamente não deixavam as suas marcas no papel. Sir Galton verificou que os rostos que possuem características médias, em relação às características existentes em uma dada população, são mais bonitos do que os rostos que possuem características mais extremadas na mesma população. Por exemplo, um nariz bonito é um nariz de tamanho médio, em relação aos tamanhos de narizes que existem em uma dada população. Um nariz muito menor ou muito maior do que este nariz médio é considerado menos bonito. Esta regra sobre a beleza do médio não era absoluta. Um desvio moderado destas médias de tal forma que acentuassem os sinais de gênero acentuava ainda mais a beleza da montagem fotográfica.

Recentemente, a mídia divulgou belas imagens de rostos humanos criados por computadores. Estas imagens foram criadas utilizando-se os mesmos princípios empregados por Galton há mais de um século. O computador foi alimentado com fotos de várias pessoas. O computador construiu então imagens faciais que eram médias das medidas dos rostos individuais. Por exemplo, os olhos da imagem criada pelo computador tinham um tamanho médio em relação aos das outras pessoas que participaram do estudo. Os autores realizaram então uma pesquisa que mostrou que estas imagens médias eram ainda mais bonitas do que os rostos individuais que lhes deram origem. A beleza dos rostos médios ainda pode ser melhorada caso sejam introduzidas correções nesses rostos que realcem as características de gênero (aquelas características que distinguem o rosto feminino do rosto masculino). O método utilizado para obter fotos mistas é muito semelhante ao utilizado por Galton: o estudo recente utilizou utilizado o computador para produzir fotos que eram as médias de outras fotos as fotos compostas eram muito bonitas.  

J. S. Pollard, um pesquisador da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia) verificou que faces compostas eram julgadas mais bonitas do que as faces simples que lhes deram origem. Este autor utilizou fotos de neozelandeses em sua pesquisa. O interessante é que esta preferência pelas fotos compostas se manifestava quando os juízes de beleza eram neozelandeses e também quando o mesmo conjunto de fotos foi julgado por estudantes chineses residentes na Nova Zelândia e por estudantes chineses, nigerianos e indianos residentes em seus próprios países. Esta preferência pelas fotos compostas, acima do que seria esperado por julgamentos ao acaso, acontecia principalmente quando as fotos eram de mulheres. As fotos compostas de mulheres foram julgadas mais belas do que as fotos não compostas, em uma percentagem acima do que seria esperado pelo acaso, por estudantes de todas as nacionalidades estudas nesta pesquisa. 

O fato de pessoas de diferentes culturas se portarem de forma semelhante na escolha destas fotos compostas indica que algo além da aprendizagem social está influenciando estes julgamentos. De qualquer forma a aprendizagem cultural também é importante neste tipo de julgamento, uma vez que os chineses residentes na Nova Zelândia foram aqueles cujos julgamentos foram os mais semelhantes aos dos próprios neozelandeses.

O rosto simétrico é belo

Um dos fatores que contribuem para que uma pessoa seja considerada bela é a simetria entre o formato e as dimensões de todos os detalhes constituintes do lado direito e do lado esquerdo de seu corpo. Uma pessoa simétrica é aquela cujo lado esquerdo do corpo corresponde em tamanho e forma ao lado direito do corpo. Existem várias evidências de que as pessoas que possuem um alto índice de simetria são consideradas mais belas e, por incrível que pareça, mais saudáveis (por exemplo, assimetria nas mamas: distúrbios hormonais). O mesmo se verifica entre os animais (ver exemplos em "seleções").

Itens do lado esquerdo do corpo correspondem às medidas e formatos do lado direito do corpo. Por exemplo, se fotografarmos um rosto e cortarmos a fotografia exatamente no meio e superpusermos as duas metades elas se ajustarão perfeitamente. Se tomarmos todas as medidas de um rosto (tamanho de cada um dos olhos, formato dos olhos, distâncias entre o centro dos olhos e o centro do cavalete do nariz, tamanho e desenho de cada uma das sobrancelhas, tamanho e formato das orelhas, etc.).

O rosto jovem é belo

Vários estudos atuais vêm mostrando que sinais de juventude são considerados belos em quase todas as culturas. Por exemplo, estudos realizados em várias culturas e em várias épocas históricas mostram que os homens preferem se casar com mulheres mais jovens. A teoria psicobiológica afirma que a juventude é valorizada principalmente nas mulheres porque ela é imprescindível para a reprodução. Os homens que preferiam mulheres mais jovens tiveram um maior sucesso reprodutivo do que os homens que preferiam mulheres mais velhas. Nas condições onde a nossa espécie evoluiu era crítico ter muitos filhos para que uns poucos sobrevivessem. Nestas condições escolher como esposa uma mulher cuja idade já tivesse comprometido a sua capacidade se reproduzir plenamente era uma aposta muito arriscada.

O bebê bonito pode não se tornar um adulto bonito

Muitos dos fatores que contribuem para que um bebê seja considerado belo não são os mesmos que contribuem para que um jovem ou uma pessoa na terceira idade seja considerado belo.

A natureza faz os bebês nascerem com certas características físicas que os tornam atraentes e despertem os afetos, principalmente os afetos das mulheres (estas dilatam mais a pupila para bebês do que os homens que ainda não tiveram filhos, o que é uma indicação que elas gostam mais de bebes do que eles). Algumas das características que distinguem um rosto de um bebê de um adulto são:

Formato da cabeça; testa grande, ponte do nariz relativamente menor do que a dos adultos; queixo menos proeminente e olhos relativamente maiores do que os olhos dos adultos.

Existe pouca relação entre a beleza infantil e a beleza do adulto. Embora haja uma tendência para a criança que é bela continuar a ser vista como bela durante a vida, esta relação é fraca: muitas crianças bonitas se tornarão adultos de beleza média ou até feios e vice-versa.

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 10h36

21/03/2015

Rodear é uma maneira de mostrar interesse na outra pessoa

O termo “Rodear” é usado aqui para nomear os esforços de uma pessoa para manter-se próxima a uma segunda pessoa, com a finalidade de facilitar contatos com ela. Por exemplo: ir até o local onde a segunda pessoa se encontra e ficar por lá; empenhar-se na mesma atividade que ela; permanecer na atividade ou no local, enquanto a outra pessoa permanecer ali, e segui-la quando ela mudar de local ou de atividade. 

Essas sincronicidades vão revelando o verdadeiro motivo de quem está rodeando: o interesse na pessoa que está sendo rodeada e não nas atividades que estão sendo realizadas.

Permanência nas proximidades, atividades injustificadas e sincronicidade de ações

Muitas vezes, o tempo de permanência em uma atividade ou local é um bom indicador de que o interesse de alguém está mais na outra pessoa, que também está presente, do que em qualquer outra coisa. Por exemplo, uma moça está examinando livros em uma prateleira. Um rapaz se aproxima e começa a olhar os livros da mesma prateleira. Depois de um tempo, ela deixa esse local e começa a examinar os livros de uma gôndola. Pouco tempo depois, o rapaz se aproxima e também começa a fazer o mesmo. Ai ela vai até o café da livraria. Alguns minutos depois, lá está o rapaz. Começa a ficar cada vez mais claro para a moça que o rapaz, de fato, está rodeando-a e tem algum interesse por ela.

Timothy Perper, autor do livro Sex Signals: The Biology of Love, afirmou que as mulheres que se aproximam de um homem e permanecem na sua proximidade geralmente estão dando uma oportunidade para que ele tome algum tipo de iniciativa.

Muitas vezes, ambas as pessoas estão rodeando uma à outra. Quando isso acontece, pode ser que ambas fiquem muito tempo ocupadas em atividades que nenhuma delas está interessada. Este desinteresse, muitas vezes, pode ser percebido pela forma como se comportam (por exemplo, uma pessoa desinteressada na leitura fica com o livro aberto na mesma página por muito tempo ou o livro está de cabeça para baixo!).

É claro que nem sempre a aproximação e permanência do local onde a outra se encontra acontece porque que ela tem interesse nesta outra. É prudente verificar se existe outro motivo para ela estar ali. Por exemplo, uma pessoa pode ficar muito tempo em um lugar apenas porque marcou encontro com outra pessoa naquele local e está “matando o tempo” enquanto a outra não chega. (Já vi isso acontecer!).

Oportunidades geradas pela proximidade física

Quando nos colocamos nas proximidades de outra pessoa, geramos dois tipos de oportunidade de para contato:

1- Tornamo-nos aptos para aproveitar oportunidades de iniciar contatos que surjam (comentar algo que aconteceu no local, passar um talher, pegar um objeto que caiu, etc.).

2- Facilitamos a iniciativa de contato por parte da outra pessoa: a nossa proximidade pode induzir ou dar a oportunidade para que a outra pessoa inicie o contato conosco. Ela pode, por exemplo, dirigir-nos a palavra ou fazer algum comentário em voz alta que nos dê a chance de responder.

Exemplos de rodeadas

Aproximar-se de um mostruário próximo do local onde outra pessoa se encontra

Uma moça está examinando os CDs de um cantor famoso. Um rapaz se aproxima e começa a examinar esses mesmos CDs. Daí a pouco ela muda para outra prateleira. O rapaz faz o mesmo. Em seguida, o rapaz inicia o seguinte diálogo com ela:

“Desculpe-me! Por acaso você conhece as músicas deste cantor? Eu estou querendo comprar um CD dele para presentear um amigo que é seu fã e não sei qual comprar”.

A moça se dispõe a aconselhá-lo e, daí, nasce uma boa conversa.

Ler o mesmo quadro de avisos e falar em voz alta

Uma moça se aproxima de um colega que está lendo um quadro de avisos e também começa a ler os avisos. De repente, ela comenta em voz alta:

 “Outro aumento!”

O rapaz olha na sua direção e responde:

“É revoltante! Não sei onde isto vai parar!”

Após trocarem alguns comentários a este respeito, eles podem começar a conversar sobre outros temas.

Pegar uma fila logo atrás da outra pessoa

Kleber e Helena estão em um restaurante tipo self-service. Eles não se conhecem. Após sentarem-se em mesas próximas, trocaram alguns olhares interessados. Kleber fica esperando o momento que Helena irá pegar a fila para servir-se. Ele planeja, quando isso acontecer, segui-la e pegar a fila logo atrás dela. Desta forma, ele terá uma chance de aproveitar alguma oportunidade para entrar em contato com ela, como, por exemplo, prestar algum auxílio, comentar sobre alguma das comidas que estão disponíveis ou fazer a gentileza de deixar que ela se sirva primeiro.

Ocupar o lugar ao lado da pessoa em eventos de longa duração

Júlia e Pedro não se conheciam anteriormente. Eles foram convidados para um jantar em comemoração ao aniversário de um amigo em comum. Durante o coquetel, Júlia sentiu muita atração por Pedro e decidiu que aproveitaria a hora do jantar para aprofundar os contatos com ele.  Para conseguir isso, ela pediu para uma amiga que estava sentada na cadeira mais próxima à dele, que trocasse de lugar com ela.

 

Postar-se a uma distância que seria apropriada para conversar

Causação mútua

Existe uma faixa de distâncias interpessoais que é apropriada para conversar informalmente.

Tanto o tipo de relacionamento que está sendo desenvolvido influencia a distância interpessoal que é assumida, como assumir uma determinada distância influencia o tipo de relacionamento que é desenvolvido.

Quando queremos conversar, assumimos automaticamente a distância apropriada para essa atividade. Quando assumimos essa distância, aparece a vontade, e até a pressão, para conversar. A distância apropriada para conversar instiga essa atividade. Nesta distância, é desconfortável não dizer nada. Por exemplo, é difícil pegar o elevador com outra pessoa que mora no mesmo andar e não dizer nada.

A distância apropriada para que uma pessoa permaneça próxima da outra varia de uma situação para outra. Segundo, E.T. Hall, famoso estudioso das distâncias interpessoais, ficar aquém da da apropriada para conversar aumenta a pressão para as pessoas iniciarem um relacionamento íntimo. Ficar além dessa distância, aumenta a tendência para as pessoas tratarem-se impessoalmente: cada uma das pessoas toma conhecimento da presença da outra, mas não fica tentada a falar com ela por influência da distância. Por outro lado, é estranho e inapropriado quando uma pessoa fica próxima demais da outra sem que haja um motivo aceitável para isso. Essa distância pode parecer suspeita e provocar reações defensivas.

Criar oportunidade de contato

Uma boa maneira de aumentar a sociabilidade, fazer amigos e iniciar relacionamentos amorosos é criar oportunidades para aumentar as chances de contato. Por exemplo, chegar um pouco antes do início do trabalho ou da aula e ficar um pouco depois destas atividades, começar a participar do cafezinho em grupo, etc. para criar a chance de encontrar alguém.

Criar semipretextos para facilitar iniciativas de contatos

Dizemos que alguém criou um pretexto para iniciar um contato quando essa pessoa inventa uma desculpa com a finalidade de justificar a sua iniciativa e, assim, não deixar explícito o seu verdadeiro motivo.

O semipretexto é um pretexto intencionalmente não muito convincente, o que dá margem para que o receptor da abordagem desconfie que, realmente, aquilo o que o autor do pretexto está querendo é iniciar o contato.

Uma vantagem do semipretexto é que ele “salva a cara” dos interlocutores. O semipretexto lhes dá uma justificativa para começar a conversar sem ter que assumir o interesse no contato em si. Outra vantagem do semipretexto é que ele oferece um tema para iniciar a conversa.

Ao usar semipretextos os interlocutores poderão “negociar” a continuidade enquanto usam o pretexto para conversar. Por exemplo, uma pessoa aborda outra e pergunta por uma loja. Enquanto elas tratam desse pedido de informação, elas podem avaliar a atração e a receptividade mútua para começar outro tipo de conversa e relacionamento.

De fato, quando há interesse recíproco, é melhor que o semipretexto não seja muito convincente. Ele deve se usado apenas salvar a cara de ambos interlocutores. Quando o semipretexto é muito convincente, fica difícil para quem recebeu a iniciativa perceber o motivo oculto do iniciador e, posteriormente, quando ele é descoberto, pode se sentir enganado.

Existem vários tipos de semipretextos que podem ser utilizados para iniciar contatos. Exemplos:

- Pedir uma informação desnecessária. Por exemplo: perguntar para uma pessoa que está tomando uma bebida se ela é boa ou ele a recomenda (de fato, quem pergunta já conhece a tal bebida).

- Criar um pequeno incidente: por exemplo, dar um esbarrão na pessoa e pedir desculpa; deixar cair um objeto para a outra pessoa possa pegar.

- Fingir que está confundindo uma pessoa com outra conhecida: “Conheço você de algum lugar”.

Inconvenientes da técnica dos pretextos e semipretextos

O uso de pretextos e semipretextos apresentam os seguintes inconvenientes:

- Anulam o principal efeito da iniciativa de contato que é mostrar o desejo de contato com a outra pessoa e a satisfação causada pelo contato.

- Quem utiliza o pretexto pode se sentir um farsante ou acovardado e, por isso, se mostrar menos confiante e culpado.

- Quando o pretexto é obviamente falso ou é descoberto, quem o utiliza pode perder credibilidade. Em geral, quem tem a coragem de tomar uma iniciativa direta de contato é mais valorizado do que quem usa pretextos para iniciar relacionamentos.

- Muitas vezes, fica difícil mudar o conteúdo da conversa ou do relacionamento que foi estabelecido entre os interlocutores com base no pretexto. Por exemplo, pode ser difícil mudar a conversa para assuntos mais pessoais com um desconhecido que foi abordado através de um pedido de informações. O desconhecido não se sente obrigado a conversar sobre outros assuntos e  pode suspeitar das tentativas da outra pessoa para puxar conversa.

- Quando é esperada uma iniciativa explícita de contato, como acontece nos locais de flerte, o uso de um semipretexto após um flerte bem sucedido é considerado sinal de fraqueza ou falta de coragem e, por isso, inapropriado.

Dificuldade para iniciar contatos sociais e amorosos? Procure a ajuda de um psicólogo.

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 12h37

15/03/2015

Quando a rejeição dispara o "amor"

"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

(Groucho Marks)

 

"Quem eu quero não me quer

Quem me quer, mandei embora”.

(Canção “Quem eu quero não me quer”, de Elymar Santos)

 

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém” (Poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade).

 

As pessoas em geral e as inseguras e que têm baixa autoestima, em particular, têm a tendência para valorizar mais aqueles que as rejeitam ou que lhes são indiferentes do que aqueles que as valorizam e as aceitam. A rejeição e a indiferença podem abalar suas autoimagens e autoestimas.

Na área amorosa, a rejeição pode desencadear sentimentos  no rejeitado, em relação ao rejeitador, que são confundidos com o amor. É discutível se tais sentimentos realmente são de natureza amorosa. Por isso, as aspas no título desse artigo.

Este é o tema que será examinado neste artigo.


Demitido do emprego quando ia pedir demissão

Você vai pedir demissão do emprego. Você está seguro e sentindo-se bem com essa decisão.

No entanto, um dia antes de apresentar seu pedido, você é demitido. Isso deixa você mal e produz um belo estrago na sua autoestima. Neste caso, não é a perda do emprego que faz você se sentir mal e com baixa autoestima, obviamente: você já ia pedir demissão e estava satisfeito com isso!

O que provoca suas reações negativas são as mensagens de desvalorização e rejeição que estão implícitas no recebimento da demissão. Ser demitido faz você sentir-se desvalorizado e perceber que não era tão imprescindível para firma quanto imaginava antes. Ser despedido desperta comparações: “Por que você? Por que fulano e sicrano, que são muito menos competentes e dedicados que você, permaneceram no emprego e você foi despedido? Será que você não está percebendo alguma coisa neste fato? Será que você estava superestimando seu próprio valor? Será que você anda distorcendo a sua autopercepção em outras áreas?

Um caso parecido é aquele onde uma pessoa vai pedir demissão e o empregador aceita imediatamente sem pedir para o demissionário considerar o seu pedido. Essa aceitação imediata do pedido de demissão também tem um efeito negativo em quem pediu a demissão semelhante ao efeito de ser demitido antes de pedir demissão, mas a intensidade desse efeito é maior neste caso do que naquele.

Algo análogo à demissão de um emprego também acontece no relacionamento amoroso: levar um fora pouco antes de tomar a iniciativa de terminar um relacionamento amoroso produz efeitos negativos em quem levou o fora. De forma semelhante, a aceitação imediata de um pedido para terminar um relacionamento amoroso provoca efeitos negativos em quem fez o pedido que foi aceito tão fácil e prontamente. Esse tipo de efeito é ilustrado na história abaixo.


Marieta volta atrás quando o seu pedido para terminar o relacionamento foi prontamente aceito por Dráuzio

Diálogo entre Marieta e Dráuzio, seu namorado:

- Acho que nosso relacionamento não está dando certo.

Você não é a pessoa que quero como namorado. Devemos terminar nosso relacionamento.

- Tudo bem! Está terminado!

- Como assim? Você está maluco? Não vai pedir uma chance, não vai questionar se devemos mesmo terminar?

- Não. Obrigado!

- Ah, seu sem vergonha! Não vai se livrar assim tão fácil de mim! Acho que você anda me traindo! Vamos ter que discutir isso muito bem! Agora, quem não quer terminar sou eu! Sabe que sinto uma boa dose de atração por você?

- Pois bem. Mas, para continuar, vamos ter que redefinir nosso relacionamento.

- Tudo bem! Como você quiser!

Este diálogo fictício mostra uma reversão nas manifestações de desejo de terminar o relacionamento por parte de Marieta. Essa reversão pode ter acontecido porque ela ficou insegura diante da pronta aceitação do término apresentada por Dráuzio ou porque ela só estava ameaçando terminar como estratégia para obter concessões por parte dele e para sentir quanto realmente ele a amava! 


Amor ou tentativa de recuperação da autoestima?

Quando algo ameaça a confiança na nossa autopercepção ou rebaixa a nossa autoestima, ficamos muito abalados e, por isso, podemos investir alto para recuperar o nosso equilíbrio psicológico.

As pessoas inseguras e que têm baixa autoestima podem ser muito afetadas pela rejeição. Essa forte afetação pode conectá-las ao rejeitador e fazê-las querer, com toda a força, serem admiradas e desejadas por aqueles que as rejeitaram. Essa forte conecção ao rejeitador acontece não porque o rejeitado ame o rejeitador, mas sim, porque conquistá-lo ou reconquistá-lo é uma maneira de recuperar a autoestima!

Quem é inseguro pode dar menos valor para aqueles os aceitam do que para aqueles que os rejeitam.

Quando a rejeição leva ao apaixonamento

Para muitas pessoas, a rejeição é o mecanismo principal do apaixonamento e não a atração pelos dotes do parceiro.

Essas pessoas só se apaixonam por aqueles por aqueles que elas têm que batalhar bastante para conquistar. Ter dificuldade para conquistar o parceiro significa que este está se julgando como mais atraente que elas. Muita gente se sente inferior quando alguém se mostra superior a elas. Ou seja, essas pessoas “compram” a avalição do outro.

Certas pessoas usam largamente a tática de se mostrar difícil para conquistar a atenção daqueles são inseguros e têm baixa autoestima. Essa tática é usada não só no campo amoroso, mas em todos os campos da vida social. As pessoas que usam essa tática são aquelas que se mostram difíceis de contentar: elas nunca ficam maravilhadas com você. Elas podem até cumprimentar quando você faz algo excepcional, mas são econômicas nos seus cumprimentos. Sempre fica parecendo que ainda faltou um pouco mais para elas ficarem mais entusiasmadas com você.

Você tem a tendência para amar aqueles que lhe rejeitam? Procure a ajuda de um psicólogo.

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 09h17

08/03/2015

Você tem uma lista de espera para substituir seu parceiro atual?

Você, certamente, já ouviu alguma afirmação do tipo:

“Acabou de sair de um relacionamento e já está em outro”,

“Largou ele pelo outro”,

“Ela está casada, mas tem um fã clube fiel”.

“Se ela sair desse relacionamento, não fica um mês sozinha. Muitos homens estão na fila para se casar com ela”.

Essas frases indicam que muitas pessoas que estão em um relacionamento amoroso têm ciência de outros possíveis parceiros que poderão substituir o atual, caso este relacionamento fracasse.

Neste artigo vamos examinar a famosa “lista de espera para iniciar um relacionamento amoroso”.


Pesquisa do OnePoll sobre listas de espera das inglesas

Você tem uma lista de espera daquelas pessoas que gostariam de iniciar um relacionamento amoroso com você, caso o seu relacionamento atual termine?

O instituto de pesquisa inglês OnePoll apresentou uma pergunta parecida com essa para mil mulheres inglesas. Metade delas afirmou que sabiam sim quais eram as pessoas que gostavam delas e que poderiam substituir seus parceiros atuais, caso seus relacionamentos com eles terminassem (os principais resultados dessa pesquisa foram publicados pelo Mail Online - veja o link para essa publicação na Nota, no final deste artigo).


A lista de espera é mais frequente entre mulheres casadas do que entre mulheres menos comprometidas

A percentagem de casadas que possuía lista de espera era maior do que a percentagem mulheres que estavam em outros tipos de relacionamento.

Provavelmente isso acontece por vários motivos. Dois deles são os seguintes:

- As casadas tiveram mais tempo para construírem tal lista.

- As solteiras precisam menos dessa lista. Para elas, se o parceiro atual deixar de agradar ou se outra pessoa passar a atrair mais do que o atual, é mais fácil terminar o relacionamento e iniciar um novo com a outra pessoa. Existem menos razões para colocar outro parceiro que agrada em uma lista de espera. Sair do relacionamento e começar outro é mais fácil para quem ainda não está seriamente comprometido do que para quem já está casado. Por exemplo, as pessoas que ainda não se casaram provavelmente ainda não tem filhos e não integraram suas vidas econômicas e familiares com parceiro.


Alguns resultados interessantes da pesquisa do OnePoll

O instituto de pesquisa OnePoll coletou outras informações daquelas mulheres que afirmaram que tinham uma lista de espera. Alguns resultados interessantes dessa pesquisa são os seguintes:

- Os homens foram incluídos na lista de espera há sete anos, em média.

- Cerca de quarenta por cento dos homens foram incluídos na lista de espera antes do relacionamento atual ser iniciado. Aproximadamente a mesma percentagem de homens foi incluída nesta lista durante o relacionamento atual.

- O grau de certeza das donas da lista sobre os sentimentos daqueles que constavam da lista ou quanto podiam contar com eles para um novo relacionamento variava. Uma mulher em cada cinco afirmou que tinha certeza de que o parceiro da lista aceitaria um relacionamento com ela, caso o seu relacionamento com o parceiro atual terminasse.

- Uma mulher em cada dez afirmou que o parceiro da lista já havia revelado o seu amor eterno por ela.

- Um quarto das mulheres afirmou que tinha sentimentos tão fortes pelo parceiro da lista de espera quanto pelo atual parceiro

- 12% das mulheres afirmaram que tinham sentimentos mais fortes pelo parceiro da lista do que pelo atual parceiro

- Sete em cada dez mulheres afirmam que tinham contato frequente com o parceiro da lista.


Quem são os incluídos na lista de espera

De acordo com a pesquisa do OnePoll, esses parceiros da lista eram antigos amigos, ex-namorados, ex-maridos, colegas de academia de ginástica.

Existem vários motivos e pretextos que ajudam a manter contato frequente com as pessoas da lista de espera: amizade, participação em equipes de trabalho, amigos em comum, etc.

O convívio justificado pela existência desses outros tipos de relacionamento permite cultivar, administrar e desfrutar, pelo menos parcialmente, os prazeres da presença e do convívio com as aqueles que estão nas listas de espera.


Lista daqueles que devem “esperar sentado”

Não basta ter muito interesse em alguém para estar na sua lista de espera. Muitas pessoas que têm esse tipo de interesse não têm a menor chance de se tornarem titulares do relacionamento porque a dona da lista não tem nenhum interesse por elas! O inverso também acontece: a dona da lista teria o maior interesse em incluir alguém na sua lista, mas essa pessoa não sente nada por ela! Em ambos esses casos, os interessados não correspondidos podem "esperar sentados, porque vão cansar se esperarem em pé!"

Para ser incluído na lista de espera tem que haver interesse recíproco.


Vantagens e desvantagens das listas de espera

Possuir uma lista de espera tem vantagens e desvantagens para a dona da lista.


Vantagens da lista de espera

- Mesmo quando estamos comprometidos, sentimos atração por outras pessoas e nos faz muito bem perceber que também atraímos essas pessoas.

Existe um motivo bastante óbvio para a existência dessas listas de espera: sentimos atração por outras pessoas mesmo quando já estamos comprometidos e amamos alguém.

Quando nos comprometemos, não nos tornamos cegos, surdos e anósmicos para os atrativos de outras pessoas. O compromisso que assumimos é para não deixemos que essas atrações guiem nossos comportamentos. É impossível assumir o compromisso de não sentir atração por mais ninguém!

Também temos necessidade de verificar se somos atraentes para outros possíveis parceiros. Essa necessidade é mais acentuada quando a outra pessoa é atraente para nós: vale mais ser atraente para quem nos atrai do que para quem não nos atrai.

Quando ambas as coisas acontecem, somos atraídos e atraímos uma pessoa, e essas atrações perduram, ai está o embrião de uma lista de espera!

- Fica mais fácil repor a perda do parceiro quando temos uma lista de espera.

Helen Fisher, famosa bióloga americana, afirma no seu livro “A Anatomia do Amor”, que durante a evolução da nossa espécie, aquelas mulheres que tinham lista de espera podiam repor com mais facilidade e rapidez os seus parceiros amorosos. Durante a evolução da nossa espécie a perda de parceiros era muito mais frequente do que agora, porque havia mais chances deles morrerem em lutas contra rivais, inimigos de outros bandos, predadores e doenças.


Desvantagens da lista de espera

Algumas pessoas que consultei declararam, com muito orgulho, que não tinham nenhuma lista de espera e que estavam com os dois pés na canoa do relacionamento atual. Elas tinham apostado tudo neste relacionamento.

- A lista de espera superficializa o relacionamento atual. Aquelas pessoas que não têm lista de espera provavelmente estão mais envolvidas no relacionamento. Como elas apostaram todas as fichas neste relacionamento, elas têm mais a perder caso ele não dê certo! Por isso, elas têm mais motivação para lutar pela qualidade e durabilidade desse relacionamento.

- A lista aumenta as chances de traição. Quando uma pessoa sabe do interesse amoroso de outra e cultiva esse interesse, as chances de traição aumentam: saber, admitir e cultiva incentivam a persistência e ousadias do interessado.


E as listas de espera dos homens?

E a lista de espera dos homens? Infelizmente a pesquisa inglesa tratou apenas da lista das mulheres. Parece óbvio que muitos de nós homens também temos listas de espera. Vamos esperar que elas sejam pesquisadas!

Você tem dificuldade para repor seus parceiros amorosos? Peça a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Link para a matéria do Mailonline sobre a pesquisa das listas de espera das mulheres inglesas:

Half of women have a fall-back partner on standby who has always fancied them, in case their current relationship turns sour

By Deni Kirkova for MailOnline

http://www.dailymail.co.uk/femail/article-2769593/HALF-women-fall-partner-standby-fancied-case-current-relationship-turns-sour.html

Use as ferramentas abaixo para compartilhar esse artigo. Caso você não queira que seus comentários sejam publicados, escreva para o meu e-mail: ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 10h47

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.