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17/09/2014

O seu relacionamento amoroso está oco, mas você não consegue terminá-lo?

Dê uma nota de 0 a 10 para o quanto você concorda com cada uma das afirmações abaixo (0 = não concordo nada; 5 = concordo mais ou menos; 10 = concordo totalmente). Elas ajudarão a verificar se o seu relacionamento perdeu boa parte do seu conteúdo e está sendo mantido por conveniências ou por comodismo.

1- O amor entre você e a sua parceira minguou: agora, ele nem se compara com o que já foi um dia: nada de olhos nos olhos, beijos românticos prolongados, telefonemas só para ouvir a sua voz, mil mensagens só para dizer que está pensando nela...

2- A sua atração sexual pela parceira diminuiu muito. Fazer sexo com ela deixou de ser extremamente prazeroso e passou a ser uma obrigação ou, até mesmo, um momento temido e evitado.

3- A amizade entre você e a sua parceira está muito fraca. Aquele prazer em contar as boas novidades para ela já não existe. Conversar com ela deixou de ter aquele encanto. Você deixou de contar para ela muitas coisas que são importantes para você. Agora só dá para sair com ela se houver um programa muito bom que prenda a atenção dos dois ou amigos que animem a conversa.

Se você deu nota maior que cinco para qualquer uma das três questões acima, o seu relacionamento está oco no tipo de conteúdo que trata a questão.

Se você deu mais que cinco para duas ou para as três questões acima, o seu relacionamento está muito oco. Quanto mais próximas de 10 foram as suas notas, mais oco ele está. Leia o texto abaixo e reflita sobre o que está acontecendo.

Neste artigo, vou usar a expressão “relacionamentos ocos” para me referir aos relacionamentos amorosos que são mantidos mesmo quando o amor, a atração sexual e a amizade já terminaram. São relacionamentos mantidos por uma estrutura externa, mas não pelo que acontece nas interações cara a cara entre o casal. Por isso, o nome “oco”.

Existem evidências que indicam que o esvaziamento é a principal causa das separações, tendo superado as traições (segundo lugar) e as brigas (terceiro lugar).

Muitos casais, no entanto, não se separam mesmo quando seus relacionamentos já se esvaziaram. Isto acontece porque existem outras amarras externas que mantêm esses relacionamentos sem conteúdo interno.

Em um artigo anterior, examinei algumas das principais causas do esvaziamento do relacionamento (veja a citação deste artigo, na Nota 1, no final deste artigo).

Neste artigo vamos examinar: (1) alguns dos principais tipos de esvaziamentos que um relacionamento pode sofrer (esvaziamento do amor, do sexo e da amizade) e (2) alguns dos motivos que ajudam a manter esses relacionamentos ocos.

Um exemplo de relacionamento oco

O seu relacionamento entre Marlene e o André, seu esposo, estava oco. Ele havia perdido toda a cumplicidade: eles não tinham mais nada para dizer um para o outro. O conteúdo das suas conversas agora consistia em cumprimentos formais, lembretes das obrigações que cada um tinha que cumprir, notícias imprescindíveis e comentários desanimados sobre fatos do cotidiano. A presença do outro não trazia nada de significativo. Era chato. Nada que o outro fizesse ou dissesse era muito interessante ou prendia atenção. Só era possível permanecer na companhia do outro cônjuge quando havia algo externo para prender a atenção: assistir um programa de televisão que interessava a ambos, visitar alguém, viajar para locais onde que tivessem atrações para manter suas atenções. Era um casal do tipo que um cônjuge lê o jornal no café da manhã enquanto o outro assiste televisão. Outro exemplo: aquele casal que sai para jantar, mas durante o tempo, os cônjuges  ficam manipulando seus celulares.

Marlene e André deixaram de compartilhava seus sentimentos, apreensões, satisfações. Nas raras ocasiões que um deles compartilhava algo que era significativo para si, fazia isso de forma desvitalizada e telegráfica.  Tal compartilhamento geralmente era recebido com monossílabos igualmente desvitalizados pelo outro.

Há muito, cada um deles havia deixado de querer impressionar o outro e a opinião do outro não era procurada como era fonte de validação ou de alívio. Eles não mais se admiravam, não sentiam atração mútua e não se sentiam estimulados pela presença do outro.

Claro que cada um deles continua a sentir e a pensar continuamente em coisas que era significativa: fatos, objetivos para serem alcançados, incômodos, preocupações, acontecimentos que traziam alegria e decepções no dia a dia, pessoas que encontraram e que lhes disseram coisas que os afetaram. Mas, cada um deles passou a achar que não valia a pena falar do que estava se passando consigo para o outro.

Esvaziamento do amor

Robert Levine, professor da Universidade Estadual da Califórnia, e colaboradores (veja a citação deste artigo na Nota 2, no final deste artigo),  perguntou para pessoas de 11 países (o Brasil era um deles) se elas casariam sem amor com um parceiro que tinha tudo que elas queriam. Os participantes tinham três opções de resposta: “Sim”, “Ficaria em dúvida” e “Não”. As respostas variaram bastante dependendo se o país era “individualista” (os interesses dos indivíduos eram considerados mais importantes do que os coletivos) ou “coletivista” (os interesses do grupo eram considerados mais importantes do que os interesses dos indivíduos). Nos países individualistas (geralmente países ocidentais ou ocidentalizados) mais de 80% das pessoas disseram que não se casariam sem amor (no Brasil, 86% disseram que não casariam, 10% que ficariam em dúvida e 4% que se casariam sem amor com um pretendente bem qualificado). Nos países coletivistas, uma percentagem bem maior de pessoas disse que se casaria ou ficariam em dúvida com tal pretendente do que nos países individualistas.

Em seguida, os autores dessa pesquisa apresentaram outra pergunta: Após o casamento, se você deixasse de amar o parceiro, você se separaria? A grande maioria das pessoas de todos esses países, inclusive daqueles que eram individualistas disse que não se separaria. Ou seja, nos países ocidentais, o  amor não é um requisito muito importante para manter um casamento.

Esvaziamento da atração sexual

Geralmente, quando há o esvaziamento do amor, também há um esvaziamento do interesse sexual. Isso é verdade principalmente por parte das mulheres.

Elas até podem continuar a fazer sexo, mas as atividades sexuais geralmente são iniciadas por pressão dos maridos e elas cooperam porque elas sabem que o sexo é necessário para manter a harmonia do relacionamento e para evitar traições por parte deles.

Muitas dessas mulheres até acabam se excitando durante o sexo e chegando ao orgasmo. As mulheres que se excitam dessa forma são aquelas cujos desejos “pegam no tranco” (veja o meu artigo, neste Blog, “Mulheres que pegam no tranco”, que trata deste assunto). Também estou convencido que existem muitos homens que “pegam no tranco”: são aqueles que não sentem desejo antes do início das atividades sexuais. Para despertar o desejo, estes homens usam artifícios (ver filmes pornôs, masturbação, pensar em outra pessoa, etc.) e também podem usar algum tipo de artifício para ajudar a manter a ereção (medicações que têm esse efeito).

Esvaziamento da amizade

A amizade é bastante complexa. Ela é regida por uma espécie de contrato que estipula muitos direitos, deveres e sentimentos.

Um estudo realizado por Robert Sternberg e Grajek (Veja a citação deste artigo na Nota 3, no final deste artigo) verificou que a amizade amorosa é constituída pelos seguintes elementos:

1- Desejar promover o bem estar do amado

2- Ficar feliz por ter aquela pessoa como parceiro amoroso

3- Ter alta consideração pelo amado

4- Ser capaz de contar com o amado em tempos de necessidade

5- Haver compreensão mútua com o amado

6- Compartilhar a intimidade e as posses com o amado

7- Receber suporte emocional por parte do amado.

8- Dar suporte emocional para o amado

9- Ter uma boa comunicação íntima com o amado

10- Valorizar o relacionamento que existe com o amado

Não existe bem material que supere a satisfação que a intimidade proporciona.

Esvaziamento da amizade: desinteresse pelo que se passa com o cônjuge

Um relacionamento onde o cada cônjuge deixou de se interessar pela vida psicológica do outro (o que ele anda sentindo, pretendendo, preocupado, satisfeito, etc.) está oco. Muitas vezes, neste tipo de relacionamento, ainda persiste uma preocupação e cuidados com o bem estar físico e material do outro cônjuge. Mas quando o que o cônjuge pensa e sente deixou de ser interessante para o outro, ele se tornou uma casca e perdeu a sua visibilidade psicológica. É como possuir um objeto de arte: ele não fala, não tem desejos, não tem preocupações, não faz planos, etc., mas é bom de ser visto, tem que ser cuidado e exibido.

Fatores que seguram os relacionamentos ocos 

Muitos casamentos são mantidos mesmo sem amor, amizade e interesse sexual porque, depois de um tempo de vida de casado, o casal estabeleceu outra estrutura para mantê-lo.

Fatores externos que podem segurar relacionamentos ocos

O relacionamento pode se enraizar em diversas direções. Algumas delas são  as seguintes:

- Fatores econômicos: o casal constitui uma unidade econômica: os custos e benefícios econômicos de um cônjuge afetam o outro.  Os custos para manter um casal que vive junto geralmente são menores do que a soma para manter cada um dos dois cônjuges que vivem em casas separadas (por exemplo, não é necessário pagar dois condomínios ou acender duas luzes para iluminar a mesma  sala).

- Filhos: o futuro genético do casal fica definitivamente interligado através dos filhos. As obrigações e o amor pelos filhos podem ajudar a segurar um relacionamento oco.

- Relacionamentos com familiares dos dois lados. O relacionamento com os familiares do cônjuge podem ajudar a manter ou a acabar com o casamento.

- Sentido na vida. Geralmente há uma redefinição psicológica e social daqueles que se casam. Cada cônjuge, em certa medida, incorpora o outro ao seu eu: eles deixam de ser “eu” e “tu” e passam a ser “nós”.

- Identidade pessoal: cada cônjuge passa a definir-se conceber-se como “marido” ou “esposa”, “pai”, “genro” ou “nora”. Essas definições têm consequências psicológicas e práticas (ajuda mútua, lazer, apoio psicológico e social, etc.).

- Consequências legais: o casal passa a funcionar como uma unidade jurídica: assume direitos e deveres legais.

- Divisão de tarefa: muitos esposos acabam se especializando em atividades práticas e sociais complementares: pagar as contas, supermercado, levar os filhos à escola, lembrar datas comemorativas, etc.

- Unidade social: o casal passa a ser visto como uma unidade social: por exemplo, ninguém pensaria em convidar apenas um deles para uma festa ou viagem.

- Companhia. Só a presença do outro cônjuge, mesmo quando o relacionamento já está oco, ainda faz diferença: sensação que está casado, segurança de poder contar com alguém em caso de muita necessidade, etc.

- Medo de não conseguir outro relacionamento.

O seu relacionamento está oco? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTAS

1- AMÉLIO, A. O esvaziamento é a principal causa das separações. ailtonamélio.blog.uol.com.br (postado em 30/07/2014)  

2- LEVINE, R.; SATO, S.; HASHIMOTO, T.; VERMA, J. Love and marriage in eleven cultures. Journal of Cross-Cultural Psychology, v. 26, No. 5, p. 554-71,1995.

3-  STERNBERG, R. J. and GRAJEK, S. (1984). The nature of love. Journal of Personality and Social Psychology, 47, 312 – 329.

Por Ailton Amélio às 08h13

11/09/2014

Para melhorar o sexo: homens mais cúmplices e românticos e mulheres mais eróticas

Pouca cumplicidade, pouco romantismo, pouca sensualidade e poucas preliminares sexuais são reclamações frequentes das mulheres sobre os homens.

Exigências excessivas para iniciar sexo (jantares, longas conversas, etc.) e restrições excessivas para variações sexuais são algumas das reclamações frequentes dos homens sobre as mulheres.

Os homens geralmente não aprenderam a apreciar boas conversas, sensualidade, erotismo e preliminares sexuais prolongadas. As mulheres geralmente não gostam de erotismo puro. Quando os homens tentam fazer sexo por sexo, elas se sentem "usadas", "como um pedaço de carne" e acham que eles têm algum problema para querer tal coisa. A vida sexual pode ser muito melhorada se ambas as partes aprenderem a apreciar um pouco mais o que a outra parte gosta.

Tenho escrito bastante sobre a qualidade do relacionamento fora da cama. Por isso, neste artigo vou tratar mais do relacionamento sexual: como homens e mulheres podem melhorar seus relacionamentos na cama e, assim, também melhorar seus relacionamentos fora da cama.

Os homens e as mulheres podem mudar

Não devemos considerar que a nossa forma de ser e agir é imutável. Essa afirmação se aplica também à área sexual. Podemos modificar bastante aquilo que gostamos e que achamos excitante no sexo. Os homens podem aprender a apreciar e a contribuir para que o relacionamento seja amistoso, romântico e sensual e as mulheres, a encarar sexo por sexo como algo prazeroso e legítimo.

Seria muito útil que homens e mulheres se afinassem melhor, se tornassem mais semelhantes tanto no relacionamento fora da cama como na cama.

Cada dupla de parceiros amorosos pode e deve ajustar muitas coisas para melhorar a vida sexual. Quando as práticas sexuais que trazem satisfação para um cônjuge são muito diferentes daquelas que trazem satisfação para o outro, um ou ambos sairão frustrados.

Os homens podem aprender a apreciar mais a cumplicidade, a eroticidade e as preliminares

Vou usar aqui o termo “eroticidade” para me referir ao clima que é produzido por olhares sedutores, insinuações sexuais, declarações e expressões de desejo e conversas pessoais sobre temas sexuais.

Vou usar aqui o termo “preliminares” para me referir às práticas sexuais que antecedem aquelas que levam ao orgasmo.

Claro que muitos homens gostam da eroticidade e das preliminares. No entanto, a grande maioria deles gosta mais das práticas sexuais que levam ao orgasmo e, por isso, abrevia os momentos de eroticidade e preliminares. 

Apreciadores da eroticidade e das preliminares

Os verdadeiros apreciadores da eroticidade e das preliminares são aquelas pessoas que acham a eroticidade tão ou mais prazerosa do que as práticas sexuais que levam diretamente ao orgasmo.

Embora os apreciadores da eroticidade também acabem pondo em ação as práticas que levam ao orgasmo, estas práticas, no entanto, têm para eles importâncias relativamente reduzidas e funcionam mais como a cereja em cima do bolo: é deliciosa, mas pequena e dura pouco tempo na boca.

Os homens que não aprenderam a produzir e a apreciar a eroticidade são toscos na área sexual: depois de poucos minutos de clima erótico e de preliminares, iniciam as práticas sexuais que levam ao orgasmo. Essa maneira de proceder é comparada, pejorativamente, com a cópula dos galos: sem preparação, rápida e direta ao ponto.

Esta forma de proceder também lembra aquelas pessoas que tomam de uma só golada um copo de um vinho excelente ou enchem a boca e engolem sem sequer mastigar uma comida deliciosa.

Essa forma tosca de proceder geralmente não satisfaz as parceiras.

Vantagens dos apreciadores da eroticidade

Saber estabelecer, prolongar e usufruir a eroticidade proporciona muitos benefícios. Alguns deles são os seguintes:

- Prazer intenso e prolongado. Como a eroticidade não leva ao orgasmo, os momentos de eroticidade podem ser prolongados e apreciados indefinidamente.

- Firma o desejo pela parceira. Experimentar, repetida e demoradamente, a eroticidade que é produzida ou inspirada pela parceira ajuda a estabelecer e a desenvolver o desejo por ela.

- Firma e aumenta o desejo sexual. Permanecer um bom tempo em um clima erótico faz que o desejo cresça e permaneça firme.

- Proporciona momentos de intimidade física entre os parceiros. Este tipo de clima erótico geralmente estimula troca de carinhos e beijos.

- Proporciona momentos de intimidade psicológica entre os parceiros. O clima de eroticidade estimula o compartilhamento de sentimentos e pensamentos íntimos através da comunicação verbal  e da comunicação não verbal. Esse tipo de compartilhamento e o seu acolhimento adequado ajudam a fortalecer a ligação entre o casal.

- Melhora a autoestima: verificar o próprio poder para provocar o desejo da parceira aumenta a confiança nos próprios méritos e na própria capacidade para atrair.

As mulheres podem aprender a apreciar por sexo por sexo

Vou usar aqui a expressão “sexo por sexo” para me referir ao desejo sexual que é provocado por atividades e situações sexuais e não pelo envolvimento ou pelo sex appeal do parceiro. Este tipo sexo geralmente começa diretamente, sem uma historinha que lhe dê contexto. Este tipo de sexo geralmente é impessoal, mesmo quando praticado com o cônjuge: as práticas sexuais são mais importantes do que a identidade dos parceiros com quem elas estão acontecendo. Esse tipo de sexo pode ser realizado com estranhos ou em grupo.

O desejo de sexo por sexo, por exemplo, é aquele desejo que é provocado observação de vídeos pornográficos, pela adoção de certas práticas como amarrar o parceiro ou observar a parceira usar um vibrador.

Para praticar sexo por sexo é necessário desvincular a ligação entre o desejo e o contexto afetivo do relacionamento.

Os estudos sobre fantasias e práticas sexuais geralmente indicam que o sexo por sexo é um dos tipos de fantasias que são mais frequente entre os homens do que entre as mulheres. A maioria das mulheres não gosta muito desse tipo de sexo. Uma autora americana afirma que os vídeos que mostram esse tipo de sexo e as conversas sobre esse tipo de sexo geralmente não são muito eficientes para excitar as mulheres. Para elas, as propostas de sexo por sexo pode ser bem vindo depois que elas já estão excitadas e não como uma forma inicial de provocar a excitação. Essa autora sugere para os homens que só tentem introduzir esse tipo de prática sexual quando as mulheres já estiverem bastante excitadas.

Benefícios do sexo por sexo

É inevitável que a vida sexual decline à medida que o tempo de relacionamento vai aumentando, que a idade vai aumentando, que o romantismo entre o casal vá diminuindo, que as obrigações vão aumentando, que nascem os filhos e o tempo disponível para intimidades entre o casal vá diminuindo?

 Todos esses motivos contribuem para diminuir a motivação e a disposição física para o sexo e para encher a cabeça com preocupações. Esses acontecimentos são incompatíveis com pensamentos sensuais e eróticos.

Existe alguma coisa que possa ser feita para combater ou atenuar os efeitos negativos desses fatores sobre a sexualidade? Uma certa dose de sexo por sexo parece ter esse efeito.

O sexo por sexo pode tornar todo o circuito sexual mais robusto e imune a uma série de acontecimentos que geralmente enfraquecem a atividade sexual.

Além disso, o gosto por sexo por sexo ajuda a prevenir e a reparar vários tipos de problemas sexuais. Quando estamos muito motivados por uma coisa, ela se torna menos perturbável por outras. Por exemplo, quando estamos assistindo um programa de televisão ou lendo um livro que gostamos muito, mantemos muito mais facilmente a nossa atenção na atividade que nos agrada. Isso acontecer mesmo em condições relativamente perturbadoras: sono, barulho, temperatura desagradável.

Quando o sexo por sexo tem efeitos positivos

O desenvolvimento de um bom grau de desejo por sexo por sexo beneficia:

- Homens e mulheres que têm pouco desejo sexual.

- Homens que têm dificuldade para manter a ereção porque temem desagradar a parceira caso falhem ou não mostrem um ótimo desempenho.

- Homens e mulheres que têm parceiros que não são muito atraentes.

- Homens e mulheres que só chegam ao orgasmo através de um procedimento rígido (determinada sequencia sexual, determinada posição, determinadas práticas).

- Mulheres e homens que associaram demais seus desejos com o bom estado do relacionamento (por exemplo, para aquelas que não aceitam sexo quando estão experimentando um pequeno grau de insatisfação com o parceiro).

Como desenvolver o gosto por sexo por sexo

Os caminhos para o desenvolvimento do gosto por sexo por sexo ainda não são bem conhecidos.  A literatura desta área, no entanto, apresenta várias sugestões para esta finalidade. Algumas delas são as seguintes:

- Expor-se a material que mostra práticas sexuais: ver filmes eróticos, ler romances eróticos, praticar sexo descontextualizado.

- Praticar sexo mais frequentemente. Antes, durante e depois do sexo, o organismo produz várias substâncias que conduzem a estados prazerosos. É possível viciar-se nessas substâncias e passar a fazer sexo para produzi-las (tal como acontece com a ginástica, onde o organismo produz endorfinas e, por isso, muita gente vicia em esportes).

- Conversar sobre sexo. Geralmente esse tipo de conversa produz excitação, estimula a fantasia e libera inibições.

- Capitalizar a excitação produzida por outros eventos para fins sexuais. Por exemplo, diversas situações não sexuais fazem que o organismo produza adrenalina. A adrenalina aumenta o ritmo cardíaco, o ritmo respiratório e a pressão sanguínea. Os estados fisiológicos e psicológicos produzidos por estas situações têm vários componentes que também aparecem em situações eróticas. Certas pessoas aprendem a usar essas situações como potencializadores  do desejo  sexual. Por exemplo, aprendem a usar a excitação que é produzida por transar nas escadas do prédio, em banheiros de bares, etc. O risco de ser pego produz diversas alterações fisiológicas e psicológicas que são da mesma natureza que as alterações produzidas pelo desejo e excitação sexual e podem ser confundidos com esta.

- Resposta vicariante. Ver outras pessoas excitadas ou praticando sexo geralmente excita os observadores porque temos a capacidade de experimentar coisas “por tabela”: sentir aquilo que outras pessoas estão sentindo. Os filmes comerciais exploraram muito isso: o expectador sente algo parecido com aquilo que o personagem está “sentindo” na tela: medo, tristeza, alegria. Por isso, ver outras pessoas ou filmes onde pessoas estão praticando sexo pode aumentar o desejo sexual.

Perigos do sexo por sexo

O sexo por sexo, quando se torna o principal tipo de sexo praticado pelo casal, pode esfriar o relacionamento afetivo entre os cônjuges. O sexo com afeto e com amor fortalece esses sentimentos. O sexo é um momento de fusão com a pessoa amada. O sexo por sexo despersonaliza um pouco o relacionamento. Assim sendo, o sexo por sexo deve ser combinado com o sexo com amor e com afeto para produzir o máximo de efeitos positivos e não estabelecer muitos efeitos negativos.

Problemas sexuais? Procure a ajuda de um psicólogo.

Venha participar do "Psicoteatro". Leia neste blog, o meu artigo "Psicoteatro: método para desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais". Escreva para o meu email (abaixo) e manifeste o seu interesse.

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Por Ailton Amélio às 08h22

02/09/2014

Sexo: como melhorar o seu desempenho e evitar problemas

Responda às seguintes questões. Elas lhe ajudarão a pensar sobre como anda a sua vida sexual:

1- Você está plenamente satisfeito com a sua vida sexual?

2- O sexo é uma fonte de intimidade e de prazer para você e sua parceira?

3- Você ou sua parceira têm problemas sexuais?

4- A sua frequência sexual é baixa? Caso sim, você justifica o seu pouco apetite sexual dizendo que está cansado, que anda estressado ou que anda sem tempo?

5- Para você, o sexo virou uma obrigação e não uma grande fonte de prazer?

6- Para você, o sexo sempre acontece do mesmo jeito?

7- Para você, o sexo é apenas uma forma de "satisfazer uma necessidade biológica"?

8- Você anda pensando em outras pessoas porque o sexo com a sua parceira é muito insatisfatório?

Tenha em mente as suas respostas às questões acima ao ler este artigo e tente achar uma resposta para o que está acontecendo na sua vida sexual.

Funcionamento natural do sexo, interferências negativas e desenvolvimento sexual

Encarar o sexo naturalmente dá muito prazer e resolve grande parte dos problemas sexuais. Helen Singer Kaplan, famosa sexóloga americana, autora do livro “A Nova Terapia do Sexo (veja a citação na Nota 1, no final deste artigo)”, afirmou que o sexo foi feito para funcionar. Se não está funcionando, é porque está sofrendo alguma interferência. A terapia sexual consiste na identificação e na eliminação destas interferências.

Claro que não nascemos com a capacidade para o "funcionamento sexual" totalmente desenvolvida, bastando, para que essa capacidade se manifeste, a ausência de interferências negativas. O sexo pode ser muito melhorado com a aprendizagem e com o desenvolvimento de atitudes corretas quanto a ele.  Essa melhoria pode ser observada naquelas pessoas que aperfeiçoaram suas práticas e, por isso, aumentaram suas satisfações,  a tal ponto que passaram a achar que o sexo é a maior fonte de prazer nas suas vidas. Outras pessoas, que não tiveram esse aperfeiçoamento, afirmam que poderiam passar ser ele e que "existem outras coisas bem mais importantes no casamento". A maioria fica entre esses dois extremos.

Principais semelhanças e diferenças entre homens e mulheres na área sexual

O funcionamento sexual dos homens e das mulheres apresenta muitas semelhanças e algumas diferenças importantes.

Principais semelhanças entre homens e mulheres na área sexual

Os homens e as mulheres apresentam muitas semelhanças sexuais. Algumas delas são as seguintes:

- Eles e elas sentem muito prazer com o sexo.

- A resposta sexual masculina e feminina é constituída por quatro fases: desejo, excitação, orgasmo e período refratário (este período é mais marcado para os homens do que para as mulheres).

- O desejo sexual é constituído por três elementos motivadores (impulso, motivação e querer) e um inibidor (proibições, culpas, tabus, etc.).

- O desejo sexual de homens e mulheres pode “pegar no tranco”: surgir quando começam as práticas sexuais, mas não antes.

Principais diferenças entre homens e mulheres na área sexual

Os homens e as mulheres apresentam diversas diferenças na área sexual. Algumas dessas diferenças têm um forte componente biológico. Todas elas são influenciadas pelas práticas sociais e pela história de vida de cada um.

Algumas das diferenças entre homens e mulheres são as seguintes:

- O funcionamento sexual das mulheres geralmente depende mais do estado do relacionamento com o parceiro e do contexto (gostar do parceiro, admirar o parceiro, ter um bom relacionamento com o parceiro fora da cama) do que o funcionamento sexual masculino (para os homens, o sexo por sexo é mais atraente e pode ser excitante mesmo quando o relacionamento com a parceira não vai bem, a parceira não é muito atraente, etc.).

- As incidências de parafilias (desejar e só se excitar com coisas diferentes do comum) geralmente são maiores para os homens do que para as mulheres (elas aderem a várias delas para cooperar com eles).

- A percentagem de homens que chega ao orgasmo é maior do que a das mulheres.

- Os problemas mais comuns dos homens são as dificuldades de ereção (conseguir e manter a ereção por tempo suficiente para um bom relacionamento sexual) e, os problemas mais comuns das mulheres são  a falta de desejo e dificuldades para chegar ao orgasmo.

Principais "interferências" que atrapalham o funcionamento sexual

Abaixo estão algumas das principais “interferências” que atrapalham o funcionamento sexual:

- A preocupação em funcionar bem ou em impressionar a parceira é inimiga da ereção.  

- Ficar à vontade para “brincar”, para explorar a sexualidade e usufruir a parceira sem nenhuma preocupação para ir adiante ou para consumar o sexo ( atingir ou proporcionar o orgasmo) contribuem fortemente para o pleno funcionamento sexual. Não é bom encarar sexo como algo que deva ter início, meio e fim toda vez que é iniciado.

- Para as mulheres, a obrigação de fazer sexo é inimiga do desejo. Ter que fazer sexo pode implicar em fingir e, por isso, em sentir coisas desagradáveis só para satisfazer o companheiro. Agir sob esse tipo de motivação é um caminho certo para a perda do desejo.

- No sexo, o “caminho” deve tão prazeroso e importante quanto a “chegada”. Por exemplo, conversar animadamente, conversar sensualmente, conversar sexualmente e conversar durante o sexo são atividades prazerosas em si mesma. Cada uma dessas atividades, mesmo se ela não avançar para o estágio seguinte, já proporciona muito prazer e mesma e vale a pena por si só.

- Se você só pega “pega no tranco”, então você está com problemas de desejo. O desejo sexual pela parceira geralmente deve anteceder o início de qualquer atividade sexual com ela. Por exemplo,  antes do encontro, você fica pensando nela; fica relembrando o prazer de fazer sexo com ela; fica esperando a hora que vai encontrá-la para o sexo; pensa no que poderia fazer com ela durante o sexo. Se o desejo não aparece antes do início das práticas sexuais, mas ele aparece quando você começa alguma atividade sexual com ela, então o seu desejo “está pegando no tranco”. (Semelhante a um carro que está sem partida e só pega quando empurrado).

- Preocupação e medo são incompatíveis com desejo e prazer. Enquanto você está preocupado ou com medo, fica difícil sentir desejo. A falta de desejo atrapalha a excitação. A falta de excitação geralmente impede o orgasmo.

- Na alimentação, o desejo de comer depende da fome (quanto tempo passou desde a última alimentação), do apetite (quanto você gosta da comida que está servida, quão cheirosa e bonita ela é, etc.) e dos pensamentos despertados pela oportunidade de comer e daquela comida (ela é saudável, não engorda, é nutritiva, etc.). Com o desejo sexual acontece algo similar: quanto tempo já passou desde a última vez que houve sexo; quão atraente é a parceira e quão tranquilo, seguro e legítimo é fazer sexo com ela (veja a citação 2, na Nota, no final deste artigo)

- Dentro de certos limites, a relação entre hormônios e desejo não é muito forte: a frequência, duração e qualidade do sexo só dependem em parte das doses de  hormônio. Uma evidência que corrobora esta afirmação: a relação entre a frequência e duração do sexo, por um lado, e a idade, que é fortemente relacionada com as dosagem hormonal, por outro lado, não é muito forte e está longe de ser linear.

- Se você funciona bem quando se masturba e se masturba regularmente, é bastante provável que você não tenha problemas orgânicos que atrapalhem a sua sexualidade. Da mesma forma, se você não tem problemas sexuais com uma determinada parceira, mas tem com outra, então é altamente provável que você não tenha problemas orgânicos, mas sim, problemas com a parceira com quem você não funciona (falta de atração por ela, jeito dela faz sexo, temor das suas críticas, etc.).

- O desejo do homem é muito mais relacionado com a intensidade da sua excitação do que o desejo da mulher com a própria excitação. Os autores de uma pesquisa apresentaram filmes pornográficos para homens e mulheres e mediram as intensidades de suas excitações e de seus desejos. A excitação de homens e mulheres foram medida através de aparelhos. O melhor índice de excitação masculina é a intensidade da ereção do pênis e o das mulheres, o intumescimento, lubrificação e alargamento da vagina. A intensidade do desejo de homens e mulheres foi medida através de um questionário. Esse estudo mostrou que o desejo relatado pelos homens é fortemente relacionado com a intensidade das suas excitações. A relação entre intensidade da excitação e o desejo das mulheres é bem mais fraca. O desejo feminino depende bastante do contexto e não só da excitação.

- O desejo da mulher pelo seu companheiro é despertado, em grande parte, pelo estado do seu relacionamento com ele. Ou seja, o desejo feminino é fortemente afetado pelo que acontece fora da cama. Também não adianta o imediatismo: as mulheres não gostam de homens que só ficam atenciosos e carinhosos quando querem sexo.

- Muitas vezes, o que está errado não é sua falta de desejo, mas sim, a falta de sensualidade da sua parceira ou seus poucos atrativos corporais. Você não é obrigado a sentir desejo pela sua parceira. Depende de como ela é com você fora da cama e na cama. Depende também, dos seus atrativos corporais, da sua personalidade e do seu desejo. Isso é válido tanto para os homens como para as mulheres.

- O desejo, em boa parte, depende mais das características de cada pessoa e menos das circunstâncias ou da pessoa desejada. As pessoas que têm muito interesse por sexo continuam querendo transar mesmo quando a situação é adversa: quando elas estão tensas ou preocupadas, quando a parceira não é muito boa de cama ou não está receptiva, etc.

Quando a pessoa não tem muito gosto por sexo, o seu desejo é muito mais facilmente perturbável por qualquer um desses acontecimentos.  

- Uma boa dose de atração de sexo por sexo pode ter efeitos benéficos. Um dos maiores segredos das pessoas que mantêm grande atração por sexo mesmo em condições adversas é o interesse que elas têm em sexo por sexo. Por exemplo, mesmo quando a parceira deixou de ser fisicamente ou psicologicamente atraente, quem tem interesse em sexo por sexo ainda pode ter grande interesse em transar com ela.  

O interesse em sexo por sexo torna o desejo relativamente independente da saciação sexual (é o desejo produzido pelo apetite e não pela privação sexual), das características da parceira (idade, peso, beleza, atributos físicos) e dos próprios hormônios (isso acontece com os “viciados em sexo”: o desejo se torna relativamente independente da dosagem hormonal do viciado). 

Problemas sexuais?  Procure a ajuda de um psicólogo.

Venha participar do "Psicoteatro". Leia neste blog, o meu artigo "Psicoteatro: método para desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais". Escreva para o meu email (abaixo) e manifeste o seu interesse.

NOTAS

1- Kaplan, H. S (1977). A Nova Terapia do Sexo (2a. Edição). Editora Nova Fronteira.

2- Levine, S. B. (1988). Intrapsychic and individual aspects of sexual desire. In S. R. Leibrum and Rosen, R. C. (Edits),  Sexual Desire Disorders. New York, The Guilford Press, pp. 21 - 43.

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Por Ailton Amélio às 09h08

29/08/2014

Psicoteatro: método para o desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais

Você é um bom profissional, bom amigo, bom marido, bom pai, bom amante, um ótimo sedutor? Talvez, nem tanto! Claro, nem poderia. A maioria de nós nunca teve a oportunidade de desenvolver esses papéis de maneira sistemática e planejada.

Psicoteatro

Estou desenvolvendo um conjunto de técnicas psicológicas-teatrais (“psicoteatro”) para ajudar os participantes a criar, desenvolver, aperfeiçoar e incorporar características pessoais, habilidades sociais e papéis sociais. Essas técnicas também ajudarão a alterar motivações e a combater inibições que impedem os desempenhos sociais desejados.

Cada um de nós desempenha vários papéis no dia a dia: profissional, amigo, pai, amante, sedutor, etc. Podemos aperfeiçoar esses papéis e desenvolver outros papéis que gostaríamos de desempenhar na vida real.

Existem várias características de personalidade que estão envolvidas na composição dos papéis sociais ou que dão um colorido pessoal para eles: desenvoltura, sociabilidade, eficiência, amorosidade, amistosidade, sex appeal, romantismo, carisma, segurança, autenticidade, honestidade, etc. Essas características podem ser aperfeiçoadas ou criadas através de técnicas psicoteatrais apropriadas.

Cada papel social é constituído por vários tipos de habilidades: ouvir ativo, falar de forma interessante, empatia, argumentar, persuadir, negociar, etc. Essas habilidades podem ser desenvolvidas através de treinamentos específicos.

Os desempenhos dos papéis sociais e as manifestações de características de personalidade dependem de motivações e inibições que lhes são relevantes. Essas motivações e inibições podem ser alteradas através de procedimentos terapêuticos.

Ausência de tratamento sistemático para desenvolver papéis sociais

Quase ninguém recebeu tratamento sistemático para desenvolver papéis sociais, características de personalidade e habilidades sociais. Poucas pessoas passaram por um trabalho psicológico sistemático que lhes ajudassem a entender e a lidar com suas motivações e inibições que afetam os seus desempenhos sociais.

O desenvolvimento de papéis sociais e dos seus ingredientes geralmente acontece de forma não programada e não planejada. Esse desenvolvimento geralmente acontece através da observação e imitação de pessoas que estão desempenhando papéis na vida real, na televisão ou em filmes. Ele também é influenciado pelos romances, pelas biografias e pelas descrições orais dos modos de agir e das características de personalidade de personagens que são admirados ou condenados.

Esses papéis e seus ingredientes também recebem certa dose de polimento através de elogios, críticas e sugestões quando são desempenhados na vida real.

Através desses tipos de aprendizagens assistemáticas, todos nós acabamos desenvolvendo e incorporando papéis, características pessoais, habilidades sociais, motivações e inibições para agir socialmente que deixam muito a desejar em termos de eficiência e satisfação.

Geralmente temos pouca de consciência dos aspectos da nossa atuação social que são eficientes ou ineficientes. As pessoas com quem interagimos não sabem bem o que fazer para ajudar melhorar a nossa atuação social e, quando sabem, muitas vezes preferem não fazer nada porque temem nos ofender, ou agem de forma punitiva, o que também não contribui muito para o nosso aperfeiçoamento.

Mesmo quando temos consciência das deficiências na nossa atuação social, ainda assim, é difícil superá-las porque não sabemos como produzir mudanças em nós mesmos.

Devido a essas dificuldades para tomar consciência na nossa forma de agir socialmente e para mudá-la, acabamos acreditando que  “somos assim”, “este é o nosso jeito de ser” e “não podemos mudar a nossa essência”.

Semelhanças e diferenças entre o psicoteatro e o teatro

Segundo, Irving Gofman (veja a citação na Nota, no final deste artigo), famoso estudioso da vida social, todos nós desempenhamos personagens, quase o tempo todo, em situações sociais. A vida social seria como um teatro, onde cada um finge que é um personagem e a plateia finge que acredita nele. As coisas feias ficam nos bastidores tanto no teatro como na vida real.

Algumas diferenças importantes entre o psicoteatro com o teatro são as seguintes:

-  No teatro, o ator e a plateia sabem que os participantes estão representado papéis e acontecimentos que não são reais. Eles sabem também que assim que o ator sair do palco ele vai se desvencilhar do papel que estava representando. No psicoteatro, o participante está tentando desenvolver um personagem para incorporá-lo ao seu jeito de ser na vida real.

- No teatro, o personagem e suas características são desenvolvidos para produzir um bom espetáculo e não, especificamente, para beneficiar o ator na vida real. Este benefício é o principal tipo de objetivo a ser alcançado no psicoteatro

- No psicoteatro, o participante é analisado psicologicamente desde o início. Por exemplo, essa análise tenta responder perguntas do tipo: porque o participante quer desenvolver um determinado personagem? Quais características ele gostaria que esse personagem tivesse? Quais facilidades e dificuldades são apresentadas pelo participante durante o desenvolvimento do roteiro e do personagem? Quais as facilidades e dificuldades foram apresentadas pelo participante para incorporar um determinado personagem e para representar as cenas? Quais são as facilidades e dificuldades dos participantes para transferir aquilo que ele treinou para a vida real?

Diferenças e semelhanças entre psicoteatro e terapias pela palavra

- A palavra é usada como ferramenta de análise e para promover mudanças tanto no psicoteatro como na maioria das terapias.

- O psicoteatro usa a representação como principal ferramenta de análise e de mudança, ao passo que a maioria dos outros tipos de terapias usa a conversa com estas mesmas funções.

- No psicoteatro, boa parte dos fenômenos psicológicos que são analisados são aqueles que aparecem devido às estimulações produzidas pelo processo de escolha dos personagens, produção dos textos para os diálogos, composição dos personagens, ensaios, atuação, pós-atuação e transferência para a vida real das habilidades treinadas. Nas terapias pela palavra, os fenômenos psicológicos analisados são aqueles foram estimulados pela memória de acontecimentos ou, quando muito, estimulados pela relação entre terapeuta e paciente.

- No psicoteatro, a atuação teatral, o roteiro e os diálogos ajudam os participantes a aperfeiçoar e substituir os seus modos de atuação social que eram ineficientes por outros modos que mais eficientes. A atuação e a análise psicológica das facilidades e dificuldades que surgiram durante a preparação das cenas, dos personagens e dos roteiros também ajudam a incorporar a nova maneira de agir e a adotá-los na vida real, no dia a dia.

Podemos mudar o nosso jeito de ser?

Podemos, sim. Na vida real mudamos drasticamente a nossa forma de agir pensar e sentir, quando isso é necessário. Podemos fazer mudanças muito drásticas acontecem em várias circunstâncias.

Essas grandes mudanças ocorrem várias vezes por dia, quando, por exemplo, mudamos de atividade (guiar, falar com um amigo, namorar, trabalhar, etc.),  mudamos de ambiente (local de trabalho, academia de esportes, balada, etc.) ou de interlocutor (falar com uma autoridade, com uma criança, etc.)

Mudanças mais abrangentes e duradouras ocorrem quando mudamos de cultura (fazer intercâmbio, migrar para outro país, etc.) ou mudamos radicalmente de função ou ambiente.

Quando mudamos de cultura ficamos cientes de muitos hábitos e valores que nos parecem “estranhos”. Depois de certo tempo, esses novos hábitos podem começar a parecer naturais. Depois de mais algum tempo, eles passam a fazer muito sentido para nós, deixamos de perceber o que estamos fazendo e nos sentimos bem agindo da nova forma.

Grandes mudanças também ocorrem quando entramos na pré-escola ou na faculdade, quando saímos de casa para morar em uma república, quando vamos morar com a amada. Alguns autores afirmam que esta última é uma das maiores mudanças repentinas que ocorrem na vida da maioria das pessoas: dormir na mesma cama com outra pessoa, cuidar da casa, cuidar da comida, morar em outro local, ter que se acomodar aos hábitos de outra pessoa, etc.

Portanto, não é correto dizer que não podemos mudar muito o nosso jeito de ser.

Ações programadas podem se tornar "naturais"

Quando falamos em um trabalho para criar ou aperfeiçoar o nossa maneira de atuar situações sociais, vários dos nossos interlocutores apresentam questões quanto à naturalidade ou artificialidade dos comportamentos que está sendo treinados.

Grande parte das nossas ações é aprendida através de esforço consciente e “artificialmente”. Depois, muitas delas vão se tornado automáticas e bastante inconscientes. Por exemplo, datilografar, guiar, falar outras línguas, andar, lecionar, representar geralmente são habilidades que exigem uma boa dose de esforço consciente na fase de aprendizagem. Depois vários aspectos dessas ações são automatizados e se tornam bastante inconscientes. A quantidade da prática e de instrução para automatizar uma ação ou uma estratégia para agir varia muito de caso para caso.

Guiar um carro é um bom exemplo. No início, temos que pensar em tudo que vamos fazer: ligar o carro, pisar na embreagem e no freio, colocar a primeira, soltar o freio de mão, etc. Depois de certo tempo, automatizamos nossas ações e passamos agir automaticamente, sem pensar no que estamos fazendo.

Algo semelhante também acontece nos campos dos valores e atitudes. No início, os nossos comportamentos são apresentados ou deixam de ser apresentados devido às suas consequências externas ou instruções específicas sobre como devemos agir. Depois de algum tempo, quando a nossa socialização é bem sucedida, podemos nos comportar ou deixar de comportar de uma determinada forma porque achamos que ela é certa ou errada, respectivamente. Os sociólogos denominam essa incorporação de valores de “introjeção”: passamos a sentir que determinada forma de agir, pensar e sentir é boa e legítima e que outras são erradas.

As nossas ações, quando apresentadas de acordo com certos padrões “fazem sentido” e não despertam a nossa atenção e consciência. Esse “sentido” é experimentado tanto por quem age como por quem presencia a ação. Por exemplo, um executivo de terno e pasta na mão que se desloque pulando em um pé só é muito chocante, a não ser que haja um motivo óbvio para essa forma de agir.

No psicoteatro acontece algo semelhante: ações são treinadas conscientemente e, depois, elas são automatizadas e se tornam inconscientes. Isso acontece, principalmente, quando elas melhoram os nossos desempenhos sociais e são apresentadas com fluidez e facilidade e nos trazem sucesso e satisfação.

Alguns papéis e características pessoais que poderão ser desenvolvidas através do psicoteatro

Em qualquer grupo de pessoas sempre há uma boa chance dos seguintes temas estarem presentes:

- Sociabilidade: gostar ou não gostar de relacionamentos sociais

- Timidez: tensão e inibição em situações sociais

- Autoestima: apreciação de si próprio. Como anda a sua autoestima?

- Imagem pública. Qual a imagem que estamos tentando projetar? Qual é a nossa imagem para as pessoas? (Serão realizadas medidas da autoimagem e da imagem pessoal de cada participante).

- Autoimagem: imagem que fazemos de nós mesmos

- Conversa eficiente: como age o bom falante e o bom ouvinte?

- Falar em público: características e habilidades de um bom orador.

- Autorrevelação: a revelação adequada de pensamentos e sentimentos é a cola dos relacionamentos sociais.

NOTA

GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana – Petrópolis, Vozes: 2011.

Você está interessado em participar do Psicoteatro? Mande um e-mail para ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 09h29

21/08/2014

Desligue o celular e a televisão e comece a conversar de verdade

Neste artigo vamos apontar como a presença dos celulares mais sofisticados (“smarthphones”) e da televisão estão acabando com as “boas conversas” cara a cara. Também vou sugerir uma nova etiqueta para regular o uso adequado desses dois tipos de tecnologia e, por fim, vou lembrar alguns tipos de comunicação não verbal e comunicação verbal que devem estar presentes em uma boa conversa.

As conversas cara a cara estão perdendo espaço para o celular e televisão

O relacionamento social cara a cara está, cada vez mais, perdendo espaço para o relacionamento virtual. Foi-se a época que as pessoas se encontravam para conversar. Agora, boa parte dos papos rola através da internet.

A mídia está cheia de fotos que mostram pessoas, em todos os tipos de locais,  que, embora juntas, aparecem digitando nos seus aparelhinhos, ao invés de prestar atenção aos seus interlocutores: mesas de bar, pátios de escolas e salas de espera.

Os "selfies" acontecem nos locais mais indiscretos e inadequados como velórios e funerais (até o presidente Obama fez o seu durante o velório de Mandela!) e, até, durante assaltos, onde ladrão e vítima posam para a fotografia!

Também rodou na internet um vídeo que mostra uma professora tomando e jogando no chão o celular do aluno que está recebendo uma ligação durante a aula.

Alguns bares estão tomando a louvável iniciativa de instalar bloqueadores de celular com o objetivo de eliminar este distrativo de seus ambientes e dar a chance dos frequentadores conversarem entre si.

Conversas telegráficas

Como digitar é trabalhoso, estamos, cada vez mais, desenvolvendo a arte de abreviar as mensagens. Neste aspecto, parece que voltamos à época do telégrafo, onde as mensagens eram cobradas por palavras e, por isso, seus tamanhos eram reduzidos ao mínimo possível, para economizar.

Interferências contínuas

Não é só a redução na quantidade de horas de conversas cara a cara que está acontecendo como consequência do uso da internet e televisão.  Agora, durante as parcas horas de interação cara a cara, ocorrem mil interrupções pelas chamadas do celular, pelos sonzinhos típicos de cada tipo de mensagem e pelos ruídos de vibração que avisam sobre a chegada de novas mensagens.

Vantagens e desvantagens da conectividade total

É bom poder comunicar, a qualquer hora, com pessoas fisicamente distantes. Isso aproximou muito essas pessoas. No entanto, essa mesma conectividade a distância e 24 horas por dia está afastando as pessoas que estão fisicamente presentes.

A televisão é outra grande fonte de interferência nas conversas

Com a popularização da televisão, foi-se boa parte da atenção que antes era dedicada à família e aos amigos que nos visitavam.

A disposição do mobiliário mostra quais são as prioridades: o aparelho de televisão reina (os assentos são orientados mais para a televisão do que para os interlocutores). Agora, a conversa fica restrita aos momentos dos comerciais. Os breves comentários durante a programação sempre são proferidos com aquela sensação de medo de estar interrompendo a atenção que o interlocutor está dedicando ao seu programa favorito.

Nova etiqueta para conversar

Estamos precisando criar uma nova etiqueta que regule o uso do celular e da televisão. Por exemplo, essa etiqueta poderia estipular que seria muito rude e intolerável ficar assistindo televisão durante o jantar familiar.

Quanto ao uso do celular, esta nova etiqueta prescreveria que ficar olhando para ele durante a conversa seria considerado rude e ficar digitando mensagens seria considerado grosseiro.

Nesta nova etiqueta, o celular deverá ser deixado no “guarda celulares” - um local que passará a existir logo na entrada de estabelecimentos finos, onde é esperado que as pessoas conversem. Nestes locais haveria uma sala reservada para aqueles que não conseguem se abster do "vício do celular" por um mínimo  de tempo: uma espécie de "celuródromo".

Nada contra a tecnologia.

Nada de saudosismos. A tecnologia trouxe muitos benefícios e veio para ficar. Agora, conseguimos ficar psicologicamente mais próximos de pessoas que estão fisicamente distantes e psicologicamente distantes de pessoas que estão fisicamente próximas.

 

Relembrando como é uma conversa de verdade

Vamos relembrar agora alguns comportamentos e posturas que facilitam, aumentam a eficiência e motivam uma boa conversa.

A comunicação não verbal que facilita a conversa

- Mostrar sinais que está disponível para conversar.

Por exemplo, dizer que está com tempo livre; encostar-se a uma superfície; convidar para sentar; interromper o que estiver fazendo (desligar a tevê, desligar o computador); colocar a pasta ou a bolsa que está portando sobre a mesa; fechar a porta para evitar interrupções.

- Assumir uma distância propícia para conversar.

Não ficar nem muito longe nem muito perto do seu interlocutor. Quando ambos estão em pé, deixar o interlocutor estabelecer a sua distância preferida. Depois que ele fizer isso, caso você queira “esquentar” um pouco o relacionamento, se aproxime dele mais um pouquinho (puxe a sua cadeira para mais perto ou dê um passinho na sua direção, mas não exagere).

- Evitar barreiras físicas ente si e o interlocutor.

Barreira é a presença de um obstáculo entre os interlocutores. Existem dois tipos de barreiras: (1) corporal. Por exemplo, as pernas cruzadas de um interlocutor estão interpostas entre ele e o outro; (2) objeto: os interlocutores ficam separados por uma mesa um balcão. É comum colocar uma pasta ou bolsa entre si e outra pessoa quando ambas sentam-se em um mesmo sofá.

- Assumir posições semelhantes às do interlocutor.

Por exemplo, os dois interlocutores permanecem sentados ou os dois ficam em pé; ambos se encostam a uma parede. É importante manter os olhos na mesma altura dos olhos do interlocutor. Assumir posições diferentes daquela adotada pelo interlocutor contribui para quebrar o clima positivo da conversa. Por exemplo, quando um está sentado e o outro em pé, isso contribui para esfriar a conversa.

- Apresentar padrão típico de olhar do ouvinte atento: o ouvinte geralmente olha mais para o falante do que vice versa; olhar para o rosto do interlocutor (olhos, testa, boca); não ficar muito tempo olhando para o ambiente ou outras pessoas.

- Evitar dar atenção para outros acontecimentos que estão ocorrendo no ambiente. Por exemplo, não ficamos olhando demais para as outras pessoas que estão passando próximo do local onde você está conversando. Quando algo absorve a nossa atenção, deixamos de prestar atenção a outros fatos e acontecimentos presentes.

- Orientar a frente do corpo na direção do interlocutor.

Voltar toda a frente do corpo (rosto, peito, púbis, joelhos e pés) na direção do interlocutor. Caso fique desconfortável essa orientação, devido ao excesso de intimidade que ela produz, mantenha um pequeno ângulo entre a frente do seu corpo e o interlocutor.

- Inclinar o tronco na direção do interlocutor (quando estiver sentado).

Quando sentado, o tronco do bom ouvinte deve ser ligeiramente inclinado na direção do interlocutor (inclinado para frente ou para a lateral quando o ouvinte está ao lado ou à frente, respectivamente).

- Sincronizar a emissão dos sinais de recepção e outras intervenções com momentos oportunos da fala do interlocutor. Por exemplo, esperar ele terminar de expor uma ideia antes de posicionar-se a favor ou contra ela.

- Não atrapalhar a comunicação do interlocutor

- Anuir frequentemente com movimentos de cabeça.

Este é um dos principais comportamentos que indicam que o ouvinte está acompanhando, entendendo e concordando com o que está sendo dito.  Este comportamento geralmente é apresentado periodicamente e, principalmente, assim que o falante termina de apresentar uma ideia ou quando esse olha para o ouvinte.

- Emitir vocalizações curtas em reação ao que está ouvindo.

Por exemplo, o ouvinte emite grunhidos e exclamações que indicam que ele está acompanhando o que está sendo dito e que informam como ele está reagindo ao que está sendo dito.

A comunicação verbal durante uma boa conversa

O ouvinte ativo faz pequenas intervenções verbais que contribuem para motivar, direcionar e fornecer feedback para o falante, sem atrapalhar muito o que este está dizendo. As principais destas intervenções são as seguintes.

-    Repetir, com um tom de interrogação, palavras chaves, frases e ideias apresentadas pelo falante, de maneira sintética para estimulá-lo a expandir o que disse. (Fazer perguntas e pedir para explicar tem efeitos similares à esse tipo de repetição). Por exemplo, o falante diz: “Ontem peguei o maior congestionamento quando cheguei da viagem.” O ouvinte diz “Viagem?”. Este procedimento induz o falante a expandir, corrigir, aperfeiçoar ou completar o que disse.

-  Ajudar o falante a elaborar o que está dizendo.

-   Pedir esclarecimentos de pontos obscuros. Não entender o que está sendo dito provoca a perda do envolvimento com a conversa, impossibilita reações corretas ao que foi dito e causa embaraços. Pedir esclarecimento também é um sinal de interesse no que está sendo dito e um sinal que deseja continuar ouvindo. Por exemplo, diga: “Não entendi”; “Explique melhor isso”, “dê um exemplo”.

- Pedir mais detalhes sobre o que foi dito. Por exemplo, diga: “Fale um pouco mais sobre este fato”.

-  Mostrar empatia pelo ponto de vista do falante e pelas suas emoções. Uma maneira de fazer isso é "refletir" os sentimentos do falante. Por exemplo, faça comentários do tipo: “Isto deve ser muito chato para você.”, “Parece que você ficou muito contente com esta notícia”, “Você deve estar feliz com isso.”

- Usar palavras de compreensão que não comprometam você com aprovação do conteúdo do que está sendo dito. Por exemplo, dizer: “Vejo que você está muito convencido desta ideia”, “Parece que você ainda não se decidiu”.

- Resumir as principais ideias e conceitos sobre aquilo que ouviu. Por exemplo, dizer: Você está em um dilema: ficar em um emprego que paga melhor ou ir para um emprego que paga menos, mas que você gosta mais.” É muito motivador para o falante ouvir um resumo do que ele disse. Ele mostra que o ouvinte estava motivado para ouvir, prestou atenção, entendeu e quer continuar a conversa.

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Por Ailton Amélio às 09h06

10/08/2014

Um bom casamento vale mais do que bens materiais

Você sabia que um bom casamento traz um aumento na felicidade que equivale a aumentar quatro vezes o tamanho do salário?

Você sabia que uma boa amizade traz um aumento na felicidade que equivale a aumentar três vezes o salário?

Quem faz essas afirmações e outras mais é Robert Putnam, professor de políticas públicas da Universidade de Harvard (ver o link para uma entrevista deste autor na Nota, no final desse artigo).

As duas afirmações acima provavelmente são válidas para pessoas que já ganham, pelo menos, o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas. Para aquelas pessoas cujos ganhos são insuficientes para satisfazer essas necessidades, o aumento dos rendimentos contribui, sim, bastante para o aumento da felicidade. Por exemplo, quando alguém está passando fome, passando frio, não tem onde dormir, não tem vestuário adequado ou seus parentes estão doentes e não podem se tratar por falta de dinheiro, o aumento de rendimento aumenta significativamente a sua felicidade.

Como vamos ver neste artigo, não é o casamento em si que traz felicidade. Tem que ser um bom casamento. Um mau casamento pode trazer muita infelicidade. Além disso, o nível de felicidade depende mais da personalidade do que do casamento: quem já era feliz antes do casamento tem maior chance de continuar feliz durante o casamento. Quem já era infeliz antes do casamento tem mais chance de continuar infeliz no casamento!


Possuir mais bens materiais não aumenta a felicidade

Entre 1950 e 2005 os bens dos americanos aumentaram cerca de três vezes. Em 2005, por exemplo, o americano médio possuía computador, celular, ar condicionado e televisão a cores. Muitas dessas coisas nem existiam nos anos 50.  As medições do nível de felicidade, que foram periodicamente realizadas durante este espaço de tempo, mostram que ela não se alterou neste período.

Geralmente a aquisição de bens materiais só aumenta consideravelmente a nossa satisfação na época da aquisição. Por exemplo, quem compra um carrão ou uma casa muito melhor que a anterior fica muito contente antes da compra, com ainda está sonhando com o bem, e logo depois da compra. Tempo depois, aquilo que foi adquirido vai saindo da consciência e deixando de trazer tanta satisfação: a pessoa que fez a compra vai deixando de notar o carro ou a casa. Ela se acostuma com esses bens e começa a pensar em uma nova aquisição. Todos já tivemos a experiências de comprar uma bela roupa e ficarmos muito contente na época da aquisição e, logo após usá-la uma vez ou outra, vamos deixando de pensar nela e podemos até esquecê-la no fundo do guarda roupa.

Outro exemplo: quem ganha na loteria fica muito feliz na ocasião. Depois de certo tempo, o seu nível de felicidade vai voltando ao que era antes, e cerca de um ano depois da premiação, a pessoa que ganhou está tão feliz ou infeliz quanto antes.


Relações sociais podem proporcionar prazer renovado

Claro que também nos acostumamos com as pessoas e elas deixam de ser novidades. Por exemplo, no início de um relacionamento amoroso achamos o parceiro muito excitante e interessante e, após algum tempo, ele perde muito da capacidade para despertar nossa atenção e de nos excitar (este é o famoso “efeito novidade” ou “efeito Coolidge”).

Certas pessoas, no entanto, são capazes de trazer para nós, de forma continuada, uma boa dose imprevisibilidade, vitalidade, e desafio. Outras pessoas passam a nos roubar energia e nos colocar para baixo. A maioria das pessoas fica entre esses dois extremos, neste quesito. Por isso, é bom escolher bem o parceiro e cuidar para que ele continue sempre com a mesma vitalidade que mostrava no início do relacionamento.

Pessoas que não são vitalizadoras

Certas pessoas não contribuem direta ou pessoalmente para dar sentido e energia para nossa vida. Ou elas estão ausentes ou, quando presentes, não são nada energéticas, ou ainda, não estão interessadas em nós. É muito comum ouvirmos afirmações do seguinte tipo sobre essas pessoas ou por parte delas:

- “Ele me dá tudo, mas não presta atenção em mim”.

- “Ele é capaz de fazer qualquer coisa por mim e pelos filhos, mas é muito chato!”

-“Ele não sabe conversar. Não repercute o que eu digo, não compartilha o que está pensando e não inicia assuntos!”

- “Ele não tem sede de viver: não é muito curioso, adora rotinas e odeia surpresas e coisas arriscada”.

- “Ele me ama, mas é impaciente para ouvir minhas opiniões”.

- “Ele me trata como uma obra de arte: gosta de me ver, ama me possuir, cuida de mim, tem orgulho de estar comigo em público, mas não se interessa pela forma como penso, sobre minhas preocupações ou sobre o que gostaria de realizar na vida”.

- “Estou o tempo todo trabalhando e quase não tenho tempo para a família. Faço isso para que proporcionar para eles o melhor conforto possível e segurança econômica”.

Essas frases dizem respeito a pessoas que proporcionam coisas, mas elas próprias não são fontes de vitalidade para seus familiares.

Contribuições de um bom parceiro para a nossa satisfação

Algumas pessoas são verdadeiros espetáculos contínuos. Quando estamos perto delas, não experimentamos o aborrecimento e o desânimo. O cotidiano ao lado delas parece sempre renovado porque elas agem sempre de forma inesperada e viva ao que está acontecendo. Elas são cheias de iniciativas e reagem aos nossos comportamentos de forma verdadeira e, por isso, criativa. Elas usam menos clichês do que outras pessoas para responder ao que dizemos e sempre nos estimulam a ver as coisas de forma diferente do habitual. São verdadeiras usinas de vida.

Quem não gostaria de ter um parceiro que proporcionasse pelo menos algumas das seguintes dádivas:

- Companheiro para tudo na jornada da vida.

- Conversas envolventes, criativas e nutritivas.

- Transmutador da realidade: a paixão amorosa que ele inspira transforma magicamente a nossa realidade.

- Prazer enlouquecedor através do sexo criativo, envolvente e competente.

- Ampliador dos limites do eu: a sua forma de ver a realidade, a todo o momento, amplia a minha forma de perceber as coisas e estimula continuamente o meu crescimento psicológico.

- Apoio ilimitado: “Na saúde e na doença”, “Na alegria e na tristeza” ...

- Fã incondicional: fonte inesgotável de admiração pela minha forma de ser, pensar e agir.

- Sócio nos lucros e perdas: estamos no mesmo barco na luta para conquistar aquilo que a vida oferece de melhor.

- Bem sucedido: bem sucedido na área econômica e social.

- Sempre lutando ombro a ombro: sempre dispostos a assumir os afazeres e obrigações que são necessários para a manutenção do lar e a educação dos filhos.

 

Ter um parceiro que proporcione os benefícios citados acima realmente afeta muito mais o nosso nível de felicidade do que possuir muitos bens ou obter um aumento significativo do nosso rendimento econômico. Da mesma forma, proporcionar essas coisas para o parceiro é extremamente importante.

O nosso tempo e a nossa energia são limitados. Temos que investi-los da melhor forma possível. Temos que decidir quanto tempo e quanta energia vamos usar para tentar obter bens materiais ou para cultivar bons relacionamentos. 

Problemas para valorizar o parceiro amoroso ou o casamento? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Putnam, R. Putnam: ‘Strongest predictors of happiness are social relationships. http://chqdaily.com/2013/07/23/putnam-strongest-predictors-of-happiness-are-social-relationships (Consultado em 10/08/2014).

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Por Ailton Amélio às 08h26

07/08/2014

Análise sexual: uma maneira de tirar a vida sexual do "feijão com arroz"

As seguintes questões vão ajudar você a refletir sobre como anda a sua vida sexual.

1.    Você conversa com o parceiro sobre suas práticas sexuais?

2.    Você conversa com o parceiro sobre sexo, em momentos não eróticos?

3.    Durante o sexo, você orienta o parceiro sobre o que quer que ele faça e sobre o que você quer fazer?

4.    Durante o sexo você se expressa através de sons não articulados que revelam a sua satisfação?

5.    Você conversa com o seu parceiro sobre suas fantasias e tenta colocá-las em prática?

6.    Você sente-se segura e desinibida para conversar com o seu parceiro sobre sexo?

7.    Você e seu parceiro estão sempre inventando novas maneiras de se expressarem durante o sexo?

8.    Você e seu parceiro temem fazer qualquer coisa diferente e isso ser considerado errado ou pervertido?

9.    No sexo, você sabe distinguir o que não gosta do que está inibido ou reprimido?

10. Você sabe produzir um clima sensual e erótico, que pode durar muito tempo e ser tão bom quanto o sexo em si?

11. Você sente desejo antes do sexo e fica esperando ansiosamente o momento que vai transar com seu parceiro?

Quanto mais questões você respondeu positivamente, mais desenvolvido, solto e sofisticado você é na área sexual.

 

Como você desenvolveu a sua sensualidade e sexualidade?

A maioria das pessoas responde essa pergunta com a palavra "naturalmente". Essa palavra geralmente indica que quem respondeu não recebeu nenhuma educação formal sobre esse tema, e o pouco que sabe sobre ele, aprendeu através de conversas com amigos, filmes, leituras e experiências práticas com outras pessoas que também sabiam muito pouco sobre essa área.

Na nossa sociedade é assim que acontece: desenvolvemos "naturalmente", ou seja, “improvisadamente”, essa área tão importante de nossas vidas.

Não é de se admirar que a vida sexual seja tão infestada por tabus, seja tão subaproveitada e seja uma grande fonte de problemas para muita gente.

Cerca de um terço das mulheres nunca teve orgasmo, outro terço só tem orgasmo de vez em quando e o outro terço geralmente tem orgasmo. O problema mais frequente entre as mulheres é a falta de desejo.

Muitos homens têm problemas de ereção. Muitos homens não sabem criar e aproveitar o clima sexual. A grande maioria dos homens não entende como o relacionamento fora da cama afeta profundamente o desejo feminino.

A grande maioria dos homens e mulheres não sabe como criar um clima sensual, erótico e sexual, que dure horas e que seja muito prazeroso.

Já ouvi inúmeras desculpas completamente não convincentes que tentam atribuir a fraqueza da vida sexual do casal ao excesso de trabalho, às interferências dos filhos pequenos ou ao estresse. Essas desculpas não convencem. Quando o desejo é grande, o casal arranja um jeito de satisfazê-lo.


Aprendendo como quem não sabe

Aprender com quem tem conhecimento limitado é como aprender a escrever com pessoas que mal sabem assinar o próprio nome, ou aprender a tocar violão com alguém que mal sabe dedilhar as cordas deste instrumento.

O fato de dominarmos apenas o básico impede que tiremos o máximo proveito de muitas áreas. Por exemplo, todos nós apreciamos a comida do dia a dia,  apreciamos um vinho, apreciamos música e nos arriscamos a falar algumas frases em outras línguas. No entanto, aqueles que se desenvolveram em cada uma dessas áreas podem usufrui-la muito melhor. Por exemplo, quem fez curso de culinária, de enologia, teve educação musical e frequentou uma boa escola de idiomas, respectivamente, tem muito mais condições de apreciar o que se passa em cada um desses setores. Com o sexo também é assim: male e male, quase todo mundo é capaz de fazer o básico. Outra coisa é quem realmente teve a oportunidade de se desenvolver nesta área.

 

Pobreza sexual no casamento

Já atendi muitos casais onde a sexualidade era muito rara, muito básica e muito rápida. O sexo, quando acontecia, tinha mais o objetivo de satisfazer, tão direta e rapidamente quanto possível, as necessidades biológicas ou era feito para atender ao “dever conjugal”, ou ainda, para aliviar a preocupação de que a sua ausência poderia ameaçar o relacionamento e  aumentar a vulnerabilidade à traição.

Os casais geralmente não conversam sobre a sensualidade, eroticidade e o sexo que ocorre ou deixa de ocorrer entre eles. Geralmenteeles  não conversam sobre suas fantasias, suas insatisfações, aquilo que gostam ou que não gostam de fazer na cama. Esse tipo de conversa é tabu. Ela pode revelar coisas desagradáveis sobre si e sobre  outro e, ao mesmo tempo, pode ser excitante.


Porque vale a pena desenvolver-se na área sexual

O motivo imediato para praticar sexo ("causa proximal") não é a procriação. Esta é apenas a sua consequência mais remota (causa distal). A causa imediata mais importante do sexo é o prazer que ele proporciona. Aliás, quando o sexo não é prazeroso, os órgãos sexuais não funcionam direito (não há lubrificação, dilatação da vagina, intumescimento, ereção, etc.). Outra consequência mais imediata da prática sexual é o fortalecimento do vínculo entre aqueles que a praticam. A prática sexual ainda possui muitas outras funções como ajuda para relaxar, melhorar a saúde e recreativa.

 

Os cursos atuais sobre sexo ensinam muito pouco

Os cursos sobre sexo geralmente ensinam muita pouca coisa! A maioria desses cursos ensina um pouco sobre anatomia e fisiologia dos órgãos sexuais. Ensina também um pouco sobre prevenção de filhos e prevenção de doenças sexuais.

Esses cursos não ensinam quase nada sobre como encarar, sem receios, a sexualidade; como maximizar o prazer sexual; como prolongar o prazer sexual; como desenvolver um ótimo clima sensual e erótico com o parceiro...

Imagine uma autoescola que explicasse muito bem como funciona o motor do carro, onde ficam os controles (freio, embreagem, acelerador, setas, luzes, etc.) e os significados dos sinais de trânsito, mas que nunca, nunca mesmo, pusesse você dentro de um automóvel e lhe ensinasse como guiar nas ruas da cidade e nas estradas! Neste caso, você não aprenderia nada de muito prático. Poderia fazer anos de curso de pilotagem teórica e, ainda assim, não saberia guiar. Nada substitui as aulas práticas ministradas por quem realmente como fazer as coisas.

 

Qual escola de desenvolvimento sexual você cursou?

No futuro, as pessoas ficarão abismadas quando encontrarem alguém que não cursou uma escola de desenvolvimento sexual. Se fosse hoje, seria como encontrar alguém que diz que sabe ler, mas é incapaz de interpretar um texto ou alguém que não sabe o nome do governador ou do presidente do local onde vive.


A educação sexual deve ir muito além da aprendizagem de práticas sexuais e evitação de filhos e doenças

A educação sexual é muito mais do que aprender teorias, localizações de zonas erógenas, técnicas para estimular zonas erógenas, posições sexuais e algumas variações sexuais. Além desses conhecimentos, também é  necessário aprender a se envolver, a se permitir sentir,a perceber o que é cabível em cada momento, saber como progredir para um estágio sexual de maior envolvimento, perceber o que ocorre com a parceira e aprender como formar uma unidade geradora de prazer com a parceira.

No estado atual dessa área, antes de qualquer coisa, é necessário combater os descaminhos que já afetaram a maioria das pessoas. Antes de aprender qualquer coisa nova, pode ser necessário limpar o terreno:  trabalhar para eliminar as culpas, constrangimentos, inconsciências e proibições que impedem que as pessoas se soltem, desejem, apreciem, explorem e variem naquilo que lhes dá prazer nesta área.

Esse trabalho não pode ser feito por qualquer um. É necessária uma excelente formação em psicologia para ser capaz de identificar o que se passa com a sexualidade de cada um e, em seguida, saber como dissolver os obstáculos e como estimular o desenvolvimento de uma nova maneira de ser, perceber e se comportar nesta área.

Análise sexual: técnicas terapêuticas para dissolver inibições e desenvolver a sexualidade

Estou desenvolvendo técnicas terapêuticas para promover a consciência do que se passa na área sexual e para desenvolver  atitudes, habilidades e conhecimentos que ajudem as pessoas a usufruírem plenamente de suas sexualidades e a promoverem uma maior ligação e intimidade com seus parceiros.

Você quer desenvolver a sua sexualidade para além do "feijão com arroz"? Faça análise sexual.

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Por Ailton Amélio às 08h19

30/07/2014

O esvaziamento é a principal causa das separações

Principais causas das separações

 Os pesquisadores de uma enquete realizada pelo instituto inglês Grant Thornton pediram para 101 dos principais advogados da área de família da Inglaterra que apontassem as principais causas da dissolução dos matrimônios (Veja o link para o relato dessa pesquisa na Nota, no final deste artigo). Essas causas e suas respectivas percentagens de citações pelos advogados foram as seguintes:

Principais causas das separações

1- Distanciamento e deixar de amar (denominarei essas duas causas como "esvaziamento do relacionamento") (27%).

2- Relacionamentos extraconjugais (25%)

3- Comportamentos irrazoáveis (17%)

4- Crises da meia idade (10%)

5- Abusos emocionais / físicos (6%)

6- Excesso de dedicação ao trabalho (4%)

7- Tensões familiares (2%)

8- Estresse (2%)

9- Preocupações econômicas (1%)

10- Problemas com os negócios (1%)

11- Outras causas (1%)

 

Os relacionamentos extraconjugais foram a causa de separações mais citada em todas as ocasiões anteriores que essa pesquisa foi realizada. Nesta última pesquisa, realizada em 2010, pela primeira vez, o esvaziamento do relacionamento superou a traição.

Os resultados dessa pesquisa devem ser considerados com cautela, por dois motivos: (1) os participantes eram advogados e não uma amostra daqueles que se separaram e (2) eles foram coletados na Inglaterra e não aqui no Brasil. Por outro lado, essa não é a primeira pesquisa que aponta o esvaziamento como a principal causa das separações.

Neste artigo, vou apresentar alguns dos principais mecanismos que provavelmente causam o esvaziamento dos relacionamentos conjugais.


O que é o "esvaziamento" do relacionamento

O esvaziamento do relacionamento acontece quando os cônjuges se tornam indiferentes um para o outro: acaba o amor entre eles, a conversa entre eles deixa de ser prazerosa, eles deixam de ser mutuamente estimulantes, perdem o interesse pelo que está acontecendo com o outro, não planejam mais nada juntos e desenvolvem vidas independentes.

Mesmo assim, muitos relacionamentos esvaziados são mantidos por outros interesses: filhos, vantagens econômicas, comodidade, etc.


Principais motivos do esvaziamento do relacionamento

Existem muitos motivos para o esvaziamento dos relacionamentos. Alguns dos principais deles são os seguintes:


Monotonia no relacionamento

Nos primeiros anos do casamento geralmente acontece uma nítida diminuição da satisfação dos cônjuges com o relacionamento conjugal. Isso acontece porque há  decréscimos de vários tipos de comportamentos que anteriormente davam vida para o relacionamento: diminuição do sexo, diminuição das manifestações românticas, diminuição das conversas animadas com o cônjuge, etc.

Três fatores que contribuem para a instalação da monotonia conjugal são os seguintes:

1- Diminuição da novidade que é produzida pelos comportamentos do parceiro. Qualquer situação que vai se tornando conhecida e segura vai perdendo um pouco da sua vitalidade e poder para provocar excitação.

2- Aumento na previsibilidade dos comportamentos do cônjuge. À medida que o tempo vai passando, os comportamentos de cada cônjuge vão ficando cada vez mais previsíveis para o outro. A previsibilidade diminui a excitação e o interesse pelo acontecimento.

3- Aumento da segurança quanto à firmeza do compromisso com o parceiro. À medida que os cônjuges vão entrelaçando suas vidas, vai aumentando a segurança sobre a estabilidade do relacionamento. O aumento da segurança vai desligando os comportamentos de atenção e de alerta para os atos do parceiro.

A dose de novidade que é considerada agradável e benéfica varia de uma pessoa para outra e de uma situação para outra. Novidade demais ou de menos pode arruinar o relacionamento. A dose certa de novidade mantém o relacionamento vivo e interessante indefinidamente.

Variabilidade natural: o melhor remédio contra a monotonia

Os manuais de autoajuda prescrevem vários tipos de medidas para combater a monotonia do relacionamento: ir a motéis, viajar, transar em locais diferentes, apimentar o sexo, etc. Todas essas medidas podem ajudar, mas elas não são necessárias.

Para a maioria das pessoas, é necessário acontecer grandes mudanças para que elas notem que algo diferente está acontecendo com o parceiro. Essas pessoas não têm a sensibilidade para notar variações psicológicas mais sutis, mas não menos importantes, que estão ocorrendo com elas próprias e com seus interlocutores.

Nós variamos bastante de um dia para outro e até de um momento para outro: nossas emoções mudam, nosso humor muda, nossas preocupações mudam, nosso apetite muda, nosso desejo sexual muda. Tomar conhecimento dessas variações e usá-las como informações sobre a realidade psicológica que está presente no relacionamento é a única forma de desenvolver um relacionamento de verdade.

As alterações psicológicas que acontecem com todos nós são suficientes para produzir uma boa dose de variabilidade natural e, por isso, para manter o relacionamento vivo e atraente. Basta levar um pouco dessa variabilidade natural para o parceiro e notar melhor a sua variabilidade.


Engessamento do relacionamento

“Todo o dia, ela faz tudo sempre igual”

Engessar o relacionamento é se portar sempre da mesma forma e deixar de prestar atenção nas alterações que o parceiro apresenta.

Tendemos a repetir o que deu certo. Tendemos a tratar o nosso parceiro da forma que deu certo anteriormente!

Tendemos a tirar conclusões sobre o parceiro e, dai para a frente,  passar a vê-lo sob a ótica dessas conclusões. Essas conclusões, tiradas em um dado momento, atrapalham a percepção das mudanças que o parceiro está mostrando nos momentos seguintes.

É um erro muito sério pensar que já conhecemos o parceiro e que, por isso, não precisamos mais prestar atenção nele. Um estudo verificou que cônjuges que já estavam casados há muitos anos só conheciam cerca de 50% do outro cônjuge. Os pesquisadores pediram para cada cônjuge dizer como o outro reagiria em diversas situações, como ele responderia a diversas questões ou quais seriam os suas preferência pessoais em diversas áreas. Esses cônjuges que participara da pesquisa, em média, só acertaram cerca de 50% das suas respostas. Portanto, a fantasia de que já conhecemos o nosso cônjuge e, por isso, não precisamos prestar atenção nele, não corresponde aos fatos.

As pessoas temem mostrar formas de agir que não foram testadas anteriormente e. por isso, serem rejeitadas ou punidas. A repetição de comportamentos que deram certos anteriormente e o congelamento da imagem do parceiro são formas de agir que possuem pouca  vida. Enquanto estou repetindo o que deu certo também estou deixando de expressar o que está acontecendo comigo agora.

Para combater a monotonia do casamento é necessário ter a coragem de compartilhar com o parceiro a variabilidade que está ocorrendo naturalmente com nossos sentimentos e pensamentos.


Desenvolver o relacionamento em áreas onde há pouca energia intrínseca

Em cada momento do relacionamento, é importante se perguntar: onde está o meu verdadeiro ponto de energia e onde está o verdadeiro ponto de energia do seu interlocutor?

Se você não conseguir identificar onde estão essas energias e não centrar o relacionamento onde elas estão, o relacionamento se desenvolve por obrigação e não porque faz sentido. Quando isso acontece, ele não é envolvente, não é prazeroso e não flui.

Estamos, a todo o momento, correndo o risco de não nos deixarmos guiar por esses pontos genuínos de energia e vitalidade e nos resvalarmos para tópicos sem vida.


Desvitalização de um ou de ambos os cônjuges

Certas pessoas são estimulantes. Quando estamos com elas nunca nos entediamos. O convívio com elas atrai mais a nossa atenção do que outros fatos que estão ocorrendo ao redor. Achamos muito interessante como elas veem a coisas. Elas sempre nos estimulam a agir e a pensar de modo diferente. Essas pessoas sabem manter o relacionamento em áreas onde há energia genuína. Essas pessoas são nutritivas, energéticas, fontes de novidades, criativas e inovadoras.

Outras pessoas são amorfas, previsíveis, não têm nada para acrescentar, só dizem lugares comuns e só dançam conforme a música. Mesmo quando se esforçam para nos agradar, elas nos negam o que de melhor poderiam oferecer: o compartilhamento de seus sentimentos e pensamentos, suas sinceras iniciativas, reações às nossas comunicações. São pessoas que “não têm nada a acrescentar”, “nada a declarar”.


Passividade para expressar o que sente e pensa

As pessoas passivas geralmente se tornam desvitalizadas. Passividade é deixar de agir de acordo com o que está sentindo de pensando. A passividade comunicativa talvez seja a forma mais importante de passividade: pessoas que se calam quando não está satisfeitas ou se calam quando estão satisfeitas. Essas pessoas não se expressam e, pior ainda, agem e se expressam da forma como imaginam que agradaria ao interlocutor e não da forma como estão sentindo ou pensando.


Deixar de ativar a dimensão macho/fêmea quando está com o parceiro

Deixar de agir como macho e fêmea transforma o relacionamento conjugal em relacionamento amistoso ou profissional.

Existem várias maneiras de ativar a dimensão macho/fêmea. Por exemplo, cuidar da aparência para ficar mais atraente (cuidar do vestuário, pilosidade, adornos, etc.) e acentuar os sinais de gênero quando está com o parceiro (acentuar aqueles comportamentos que aumentam a feminilidade ou masculinidade: tom de voz, firmeza, gestos mais sinuosos e suaves, etc.).

Não deixe o seu relacionamento se esvaziar! 

O seu relacionamento está desvitalizado? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Link para o relato completo da pesquisa realizada pelo instituto Grant Thornton:http://www.grant-thornton.co.uk/en/Publications/2011/For-richer-for-poorer-Matrimonial-survey-2011/ (consultado em 26/07/2014)

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Por Ailton Amélio às 09h01

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.