Blog do Ailton Amélio

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01/10/2014

A síndrome que toma conta daqueles que descobrem que estão sendo traídos

"Prefiro continuar ouvindo suas mentiras /Do que viver sem você"

(Tradução livre dos versos da música: Are You Lonesome Tonight? Elvis Presley)

A traição amorosa acontece quando o parceiro é enganado na área romântica ou na área sexual. Não é o ato em si que caracteriza a traição, mas sim o engano. Por exemplo, flertar na internet com uma terceira pessoa, sem o conhecimento do parceiro, é um tipo leve de traição. Transar com outra pessoa na frente do parceiro, com a sua anuência e cumplicidade, não é traição.

Embora as reações à descoberta da traição variem bastante, geralmente ela é muito traumática para o traído. Grande parte dos relacionamentos não sobrevive à traição (Betzig, 1989 - veja a Nota, no final deste artigo), . Muitos dos traídos ficam precisam ser medicados devido à intensidade dos distúrbios que os acometem quando ficam sabendo da traição.

É importante conhecer os distúrbios causados pela descoberta da traição porque cada um deles requer cuidados adequados para abreviar o sofrimento, evitar cicatrizes graves e aumentar as chances de salvação do relacionamento, quando isso é desejável e possível.

Vamos examinar neste artigo alguns dos principais distúrbios que são causados na pessoa traída pela descoberta da traição. Vamos abordar também alguns dos fatores que aumentam as chances de sobrevivência do relacionamento após a descoberta da traição.

A síndrome que acomete aqueles que descobrem que estão sendo traídos

Quem é traído geralmente passa por diversos estados psicológicos muito intensos e desagradáveis. Logo que a traição é descoberta, os estados emocionais do traído se alteram muito no decorrer de um único dia. Em certos momentos, a pessoa traída é tomada pela dor da perda, pelo sofrimento diante da possibilidade de terminar o relacionamento e pela baixa da autoestima. Em outros momentos, prevalecem a raiva pelo traidor, a indignação de ter sido enganado e os pensamentos sobre as medidas que vai tomar para lidar com a situação. Em outros momentos, ainda, o traído pode sentir alívio por estar se livrando do relacionamento com o traidor e com a possibilidade de começar uma nova vida. 

Os principais estados psicológicos que se alternam nas pessoas que descobriram recentemente que foram traídas são os seguintes:

1- Necessidade de informações sobre a traição. Quem foi traído quer saber tudo sobre a traição. Os homens e as mulheres traídos têm diferentes graus de necessidade quanto aos dois seguintes tipos de informações: as mulheres traídas querer saber se houve envolvimento emocional entre o traidor e a rival. Elas dão mais importância para isso do que os homens. Quanto mais envolvimento do traidor, maior o sofrimento. Os homens traídos querem sabe se houve sexo e se ele foi bom. As confirmações dessas informações funcionam como punhaladas em seus corações!

Tanto os homens como as mulheres têm necessidade de informações sobre as circunstancias da traição: quando, como, onde começou o caso e onde aconteceram as traições. Houve provocação por parte da rival?

2- Necessidade de confrontar o traidor. Quem foi traído sente a necessidade de  expressar raiva e indignação e de mostrar o seu sofrimento para o traidor.

3- Procura por evidências que indiquem o término ou a continuidade da traição. Aqueles que foram traídos procuram arduamente por evidências que indiquem se a traição cessou ou se ela continua. Não ter certeza sobre isso é uma das maiores causas da insegurança e do sofrimento que acometem quem foi traído.

4- Obsessão por pistas que indiquem novas traições. Todo mundo faz coisas que poderiam ser interpretadas como sinais de traição: conversas com pessoas atraentes, tentar agradar pessoas que poderiam ser parceiras amorosas, adicionar no Facebook pessoas que poderiam ser possíveis amantes, etc. Essas coisas que acontecem cotidianamente na vida de todo mundo passam a ser alarmantes para quem já foi traído quando observa que estão acontecendo com o traidor.

5- Vigilância contínua. A pessoa traída fica com a sensação de que o traidor pode estar traindo de novo e a qualquer momento. Por isso, ela está continuamente vigilante para as pistas que possam indicar o que o traidor está fazendo. Examina seus e-mails, fica atenta para o que ele diz que vai fazer ou estava fazendo, etc. Só sossega quando ele está à vista.

6 – Perda da confiança no traidor.  Perdoar não é a maior dificuldade para voltar a relacionar-se com o traidor. O mais difícil é voltar a confiar nele.

7- Sentimentos de culpa pela possibilidade de ter empurrado o traidor para a traição. O traído sente a necessidade de examinar a sua história com o traidor para verificar se teve parte da responsabilidade pela ocorrência da traição. O primeiro movimento é culpar o traidor. Posteriormente, quando as emoções amainam, o traído começa a se perguntar o que fez ou deixou de fazer para ser traído.

8- Necessidade de identificar os sentimentos do traidor. Quem foi traído é assaltado por sérias dúvidas sobre os sentimentos do traidor. Existe uma crença de que quem ama não trai. Essa crença é parcialmente verdadeira. Quem ama pode trair, sim, por vários motivos: privação sexual, vingança, variação de parceiro, melhorar autoestima, etc.

Devido a esta dúvida sobre os sentimentos do traidor, a pessoa traída procura arduamente por pistas que indiquem quais são os motivos que o levaram a não querer deixar o relacionamento: a maior dúvida é se ele faz isso porque ainda ama quem traiu ou, na pior das hipóteses, porque para ele é mais cômodo ou vantajoso continuar o relacionamento.

9 – Ciúme. O ciúme atinge duramente aqueles que foram traídos. Por exemplo, imaginar a parceira transando ou trocando beijos apaixonados com o rival é muito dolorido. Saber detalhes da traição pode acentuar e prolongar o sofrimento.

10 - Baixa na autoestima. A pessoa traída se sente preterida. Logo, ela deve ser pior do que o rival. A pessoa traída se pergunta continuamente: “O que a rival tem que eu não tenho?” “Não sou tão atraente para a minha parceira como eu imaginava?” Na realidade, o que o rival tem de diferente, na maioria das vezes, é o fato de ser novidade.

Mesmo a traição por uma parceira que já não era muito querida pode provocar profundos distúrbios. É parecido com o que acontece com uma pessoa  que ia pedir demissão do emprego, mas é despedida antes do seu pedido. Esta dispensa traz várias mensagens desagradáveis sobre o próprio valor e imagem da pessoa despedida.  

11- Recuperação da atração pelo traidor. A traição pode revigorar temporariamente os sentimos e o desejo sexual do traído pelo traidor. Parece aquela história popular da criança que não brinca mais com um brinquedo até que outra criança se interesse por ele. Ai o brinquedo desprezado volta a ser muito interessante para ela. Passa a ser foco da atenção. O interesse de outra pessoa pelo traidor funciona como uma espécie de certificado de valor do traidor (“Iso 9000”) que foi fornecido pelo rival: se este se interessou por ele, é porque ele é interessante.

Pode ocorrer um aumento do desejo sexual do traído pelo traidor. Geralmente este aumento de desejo é temporário. Os motivos deste aumento não são claros.

12- Perda de motivação por todas as outras áreas da vida. O trabalho, a conversa com os amigos, os planos, o convívio com os filhos, tudo isso perde boa parte do sentido.

13- Distúrbios do sono, do apetite e dos vícios. O sono fica agitado, leve, abreviado e não descansa direito. Isso contribui para que as tarefas que têm que ser realizadas se transformem em torturas. As alterações do apetite seguem as tendências que já existiam antes da descoberta da traição: aqueles que tinham tendência para comer pouco, definham; aqueles que tinham tendência para comer muito atacam a comida e engordam! Os vícios que estavam sob controle desandam: fumar, beber, etc. disparam.

14- Perda do senso da confiança na própria capacidade de avaliar os atos do traidor. A pessoa que foi traída passa a duvidar da própria capacidade para perceber os significados dos atos do traidor. Tudo que ele faz pode ter vários significados. O passado com o traidor também pode ser visto sob outros ângulos. Tudo pode ter sido uma bela enganação!

Fatores que aumentam as chances de sobrevivência do relacionamento após a descoberta da traição

A traição é uma das principais causas da separação em quase todas as culturas (outras duas causas importantes são o esvaziamento do relacionamento e as brigas).

Atualmente, uma boa percentagem dos relacionamentos onde aconteceram traições sobrevive. Vamos apontar aqui alguns dos fatores que contribuem para que o relacionamento sobreviva à traição.

1- Indissolubilidade do relacionamento. Dependendo das crenças, principalmente das crenças religiosas, o casamento pode ser visto como indissolúvel ou dissolúvel. Aqueles que acreditam na indissolubilidade têm menor probabilidade de separarem-se devido a uma traição.

2- Grau de compromisso dos cônjuges com o relacionamento. À medida que o relacionamento vai se solidificando, geralmente vai aumentando o grau de compromisso dos parceiros com a sua manutenção. Por isso, um relacionamento que está sendo iniciado tem menos chance de sobreviver á traição do um casamento do que um relacionamento que já está bem estabelecido. Quando os sentimentos ainda não estão solidificados e poucas áreas da vida dos parceiros estão integradas, as chances de rompimento são maiores quando a traição é descoberta.

3- As condições econômicas do traído que permitem que ele saia do relacinamento? Um dos principais preditores da separação são as condições econômicas daqueles que gostariam de sair dele. Quanto maior as dificuldades econômicas que alguém vai ter que enfrentar devido a separação, menor a sua chance de separar-se.

4- Estrutura do relacionamento. Da mesma forma que certos prédios resistem melhor a terremotos do que outros, certos casamentos resistem melhor à traição do que outros. Um dos fatores que mais contribui para a sobrevivência dos relacionamentos quando acontece uma traição é o quanto ele proporciona de coisas boas em relação ao que ele proporciona de coisas ruins para quem está pensando em deixa-lo.

5- Quão excepcional foi a traição. A traição que aconteceu uma única vez e ocorreu em circunstâncias excepcionais (durante uma viagem ou quando o traidor havia bebido muito, por exemplo), com uma pessoa inexpressiva (um desconhecido ou com uma garota de programa, por exemplo) geralmente é considerada bem menos grave do que a traição continuada e que aconteceu durante um romance com uma pessoa muito qualificada.

6- Quanto a pessoa traída contribuiu para a traição. A traição é considerada menos grave quando a pessoa traída se convence da sua parcela de culpa na sua ocorrência. Por exemplo, a pessoa traída reconhece que descuidou do relacionamento, recusava sexo, deixou de cuidar da aparência, etc. Essa sua maneira de agir “empurrou” o traidor para a traição.

7- A maneira de lidar com os distúrbios causados pela traição é eficiente. Quanto melhor o traidor e o traído conseguem lidar com as causas e com os distúrbios provocados pela traição, maior as chances de sobrevivência do relacionamento. Por exemplo, quando o traidor mostra arrependimento, aceita penitencias, ouve pacientemente tudo que o traído tem para falar e mostra que entendeu os danos que causou, tudo isso contribui para aumentar as chances de sobrevivência do relacionamento.

A ajuda de um psicólogo contribui para diminuir o sofrimento e para abreviar os danos provocados por uma traição.

Venha participar do "Psicoteatro". Leia neste blog, o meu artigo postado em 28/08/2014,  "Psicoteatro: método para desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais". Escreva para o meu email (abaixo) e manifeste o seu interesse.

Nota 

Betzig, L. (1989). Causes of conjugal dissolution: A cross cultural study. Current Anthropology, 30, 654 - 676.

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Por Ailton Amélio às 08h26

24/09/2014

Você é bem sucedido ou fracassa nas suas conversas amorosas?

Você é daqueles que:

1- Não consegue ser atraente nos bate-papos, tanto naqueles que acontecem cara a cara, como naqueles que acontecem através de aplicativos para iniciar e desenvolver relacionamentos?

2- Atrai de longe, mas quando vai conversar logo leva um fora?

3- Os inícios dos seus relacionamentos não passam do primeiro encontro?

4- Não sabe usar a conversa para trazer satisfação para os seus relacionamentos?

5- Não sabe usar a conversa para desenvolver e manter relacionamentos?

Você respondeu "Não" para todas essas perguntas? Parabéns! Você deve ser muito bom de papo. Leia este artigo e confira as suas habilidades!

Você respondeu "Sim" para uma ou mais que uma dessas perguntas? Leia esse artigo e tente identificar o tipo de erro que você está cometendo nas suas conversas.

A conversa é o principal tipo de relacionamento social

A maioria das interações humanas acontece através da conversa. Além disso, a conversa é capaz de proporcionar grandes satisfações ou grandes sofrimentos para os interlocutores. Por esses dois motivos, a boa conversa é um dos principais pilares de todos os tipos de relacionamentos pessoais.

Para haver uma boa conversa, é necessário que a comunicação não verbal seja eficiente, ouvir ativamente, falar coisas interessantes e agradáveis e não falar coisas inapropriadas.

Neste artigo, vou tratar dos principais acertos e erros verbais e não verbais que podem acontecer durante uma conversa. Os acertos contribuem para o sucesso do relacionamento. Os erros podem gerar consequências muito desagradáveis como, por exemplo, a reprovação durante as tentativas para iniciar relacionamentos amorosos ou o fracasso das tentativas para manter e desenvolver relacionamentos amorosos.

O teste da conversa para iniciar relacionamentos amorosos

Um relacionamento amoroso pode começar de três formas:

1- Flertar à distância e ser correspondido. Parabéns! Depois disso, é hora de fazer a abordagem e começar a conversar.

2- Ser apresentado para alguém atraente. Que ótimo! Esta é uma boa oportunidade para impressionar bem essa pessoa e, assim, iniciar um relacionamento com ela. Para que isso aconteça, é muito importante sair-se bem na conversa que está sendo iniciada com ela.

3- Já conhecer uma pessoa que seja atraente na área amorosa. Quando surge uma boa oportunidade para conversar com ela, é possível flertar durante a conversa para tentar iniciar um relacionamento amoroso com ela.

Pois bem, nestas três situações descritas acima, a conversa funciona como “teste” obrigatório para passar de fase, ferramenta para cativar a parceira e meio para flertar com ela. Caso a conversa seja bem sucedida, o relacionamento pode passar para o estágio seguinte: foi dado início ao relacionamento amoroso.

O que fazer para desenvolver uma boa conversa

Algumas das principais medidas para desenvolver uma boa conversa são as seguintes:

Mostrar disponibilidade para conversar. Maneiras de fazer isso: dizer ou dar a entender que está com tempo disponível para conversar; pedir para conversar com o interlocutor; parar o que está fazendo para dar atenção para o interlocutor; acomodar-se para conversar confortavelmente por um bom tempo (sentar-se, encostar-se a uma parede, etc.).

Mostrar disposição para conversar: mostrar entusiasmo para conversar, introduzir assuntos, assumir a mesma posição do interlocutor (por exemplo, sentar-se quando ele estiver sentado ou ficar em pé, caso ele esteja em pé), assumir distância apropriada para este tipo de atividade, orientar a frente do corpo na direção do interlocutor.

Apresentar sinais que indicam que você está acompanhando e entendendo o que o interlocutor está comunicando: anuir com a cabeça nas horas certas; emitir vocalizações que indicam que está acompanhando o que o interlocutor está dizendo (hum, hum,), apresentar perguntas pertinentes, etc.

Ajudar o falante a gerenciar a sua comunicação. Para isso, o ouvinte deve apresentar mensagens do tipo: fale mais, fale menos, apresente mais detalhes, explique melhor.

Ajudar o falante a desenvolver a sua comunicação: pedir exemplos, pedir esclarecimentos, resumir o que ele disse (o resumo mostra que o ouvinte entendeu o que o interlocutor comunicou, estimula novos desenvolvimentos dos tópicos já apresentados, fornece “ganchos” para que ele continue a falar, etc.).

Motivar o falante para continuar a falar. Quanto mais o falante verifica que a sua comunicação está produzindo os efeitos pretendidos no ouvinte, maior a sua motivação. Aqueles ouvintes que ajudam a comunicação do falante, que estimulam a sua criatividade e inteligência, são aqueles que mais contribuem para o sucesso do falante.

Erros passivos e ativos cometidos durante a conversa

Um erro é cometido quando a maneira de agir não é coerente com os objetivos de quem age. Por exemplo, um interlocutor está motivado para continuar a conversa, mas age de modo a desestimulá-la.

Os erros cometidos durante o relacionamento podem ser classificados como passivos ou ativos.

Erro passivo: deixar de fazer algo que deveria ser feito. Por exemplo, deixar de reagir a algo interessante que o interlocutor disse e, por isso, desestimulá-lo a prosseguir com o assunto ou com a conversa.

Erro ativo: fazer algo que não deveria ser feito. Exemplos: falar o tempo todo e pressionar o interlocutor para agir em um nível de intimidade que é desconfortável para ele.

Erros passivos

Alguns dos principais erros passivos que são cometidos na conversa são os seguintes:

Conversar em um lugar que não dê para interagir satisfatoriamente com o interlocutor: um lugar barulhento, por exemplo. Para completar o desastre, vá a um lugar que não tenha atrativos. Ai a tortura será completa. Por exemplo, marcar a conversa em um lugar onde não é possível sentar, não dá para comer, não dá para conversar, não há nada interessante para se fazer. Ou seja, neste lugar não é possível conversar por causa do barulho, é desconfortável e não há nada agradável para fazer.

Não estimular a conversa. Não repercutir o que foi dito pelo interlocutor; não fazer o papel de ouvinte ativo (por exemplo, não apresentar perguntas); monopolizar a fala, os assuntos e a forma da conversa; não compartilhar pensamentos e sentimos no nível adequado de intimidade para o relacionamento e para as circunstância presentes.

Não propor assuntos. Isso vai dar a impressão que você não quer prolongar a conversa, que você não há nada que esteja afetando você e que você não tem  gosto pessoal pelas coisas e pela vida.

Responder o mínimo possível: dê respostas mais curtas possíveis, monossilábicas, de preferência. Assim você vai desestimular novas perguntas e dar sinais que não quer conversar. Assim, também, se o interlocutor insistir em apresentar novas perguntas, a conversa vai se tornar um interrogatório muito desagradável para ambas as partes.

Não apresentar informações gratuitas (informações fornecidas sem que tenham sido solicitadas): responda só o que foi perguntado. Assim o interlocutor não vai ter ganchos para continuar a conversa

Só apresentar informações gratuitas impessoais. Por exemplo, quando o interlocutor perguntar onde você mora, dê o nome da rua, bairro um ponto de referência conhecido, ao invés de dar o nome da rua e dizer que gosta do local, que está lá desde que nasceu. Assim a conversa ficará impessoal e superficial.

Não apresentar feedback para a comunicação. Não deixe o seu interlocutor saber como aquilo que ele comunicou afetou você (o feedback para a comunicação do interlocutor é a expressão dos sentimentos e pensamentos que foram provocados pela comunicação que ele apresentou antes). Assim, ele vai ficar sem saber o que você a respeito do que ele disse e o qual impacto a sua comunicação teve em você.

Só falar coisas convencionais e socialmente aprovadas. “Bons tempos aqueles”, “Faz tempo que não chove”, etc. Esta forma de agir vai tornar a conversa e a sua comunicação totalmente sem graça e insípidas.

Não mostrar interesse e prazer em conhecer o seu interlocutor. Não pergunte nada sobre ele ( o que ele faz, o que acha das coisas, etc.). O que importa é você e o seu ponto de vista.

Erros ativos

Adotar um nível inadequado intimidade: adotar um nível muito alto ou muito baixo de intimidade para aquele interlocutor e para aquela circunstância.

Ser rápido ou lento demais nas tentativas para estabelecer intimidade. Por exemplo, tentar, muito rapidamente, ver se ela topa sexo. Procurar sondar, muito rapidamente, se ele topa um relacionamento sério ou se ele só quer ficar.

Apresentar muitas perguntas fechadas - aquelas perguntas cujas respostas são “Sim” ou “Não”, “Hoje” ou “Depois”, “Dez anos”, etc.

Monopolizar a fala: o tempo de fala (você fala mais tempo do que o interlocutor), o modo da fala (por exemplo, perguntas e respostas).

Ser desagradável. Por exemplo, seja irônico com o interlocutor, contradiga-o sempre que possível; procure intimidá-lo e ridicularizar seus pontos de vista. Mostre-se superior

Você tem dificuldades para passar nos testes da conversa e para usar a conversa para manter e estimular seus relacionamentos? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 09h18

19/09/2014

O seu relacionamento amoroso está oco, mas você não consegue terminá-lo?

Dê uma nota de 0 a 10 para o quanto você concorda com cada uma das afirmações abaixo (0 = não concordo nada; 5 = concordo mais ou menos; 10 = concordo totalmente). Elas ajudarão a verificar se o seu relacionamento perdeu boa parte do seu conteúdo e está sendo mantido por conveniências ou por comodismo.

1- O amor entre você e a sua parceira minguou: agora, ele nem se compara com o que já foi um dia: nada de olhos nos olhos, beijos românticos prolongados, telefonemas só para ouvir a sua voz, mil mensagens só para dizer que está pensando nela...

2- A sua atração sexual pela parceira diminuiu muito. Fazer sexo com ela deixou de ser extremamente prazeroso e passou a ser uma obrigação ou, até mesmo, um momento temido e evitado.

3- A amizade entre você e a sua parceira está muito fraca. Aquele prazer em contar as boas novidades para ela já não existe. Conversar com ela deixou de ter aquele encanto. Você deixou de contar para ela muitas coisas que são importantes para você. Agora só dá para sair com ela se houver um programa muito bom que prenda a atenção dos dois ou amigos que animem a conversa.

Se você deu nota maior que cinco para qualquer uma das três questões acima, o seu relacionamento está oco no tipo de conteúdo que trata a questão.

Se você deu mais que cinco para duas ou para as três questões acima, o seu relacionamento está muito oco. Quanto mais próximas de 10 foram as suas notas, mais oco ele está. Leia o texto abaixo e reflita sobre o que está acontecendo.

Neste artigo, vou usar a expressão “relacionamentos ocos” para me referir aos relacionamentos amorosos que são mantidos mesmo quando o amor, a atração sexual e a amizade já terminaram. São relacionamentos mantidos por uma estrutura externa, mas não pelo que acontece nas interações cara a cara entre o casal. Por isso, o nome “oco”.

Existem evidências que indicam que o esvaziamento é a principal causa das separações, tendo superado as traições (segundo lugar) e as brigas (terceiro lugar).

Muitos casais, no entanto, não se separam mesmo quando seus relacionamentos já se esvaziaram. Isto acontece porque existem outras amarras externas que mantêm esses relacionamentos sem conteúdo interno.

Em um artigo anterior, examinei algumas das principais causas do esvaziamento do relacionamento (veja a citação deste artigo, na Nota 1, no final deste artigo).

Neste artigo vamos examinar: (1) alguns dos principais tipos de esvaziamentos que um relacionamento pode sofrer (esvaziamento do amor, do sexo e da amizade) e (2) alguns dos motivos que ajudam a manter esses relacionamentos ocos.

Um exemplo de relacionamento oco

O seu relacionamento entre Marlene e o André, seu esposo, estava oco. Ele havia perdido toda a cumplicidade: eles não tinham mais nada para dizer um para o outro. O conteúdo das suas conversas agora consistia em cumprimentos formais, lembretes das obrigações que cada um tinha que cumprir, notícias imprescindíveis e comentários desanimados sobre fatos do cotidiano. A presença do outro não trazia nada de significativo. Era chato. Nada que o outro fizesse ou dissesse era muito interessante ou prendia atenção. Só era possível permanecer na companhia do outro cônjuge quando havia algo externo para prender a atenção: assistir um programa de televisão que interessava a ambos, visitar alguém, viajar para locais onde que tivessem atrações para manter suas atenções. Era um casal do tipo que um cônjuge lê o jornal no café da manhã enquanto o outro assiste televisão. Outro exemplo: aquele casal que sai para jantar, mas durante o tempo, os cônjuges  ficam manipulando seus celulares.

Marlene e André deixaram de compartilhava seus sentimentos, apreensões, satisfações. Nas raras ocasiões que um deles compartilhava algo que era significativo para si, fazia isso de forma desvitalizada e telegráfica.  Tal compartilhamento geralmente era recebido com monossílabos igualmente desvitalizados pelo outro.

Há muito, cada um deles havia deixado de querer impressionar o outro e a opinião do outro não era procurada como era fonte de validação ou de alívio. Eles não mais se admiravam, não sentiam atração mútua e não se sentiam estimulados pela presença do outro.

Claro que cada um deles continua a sentir e a pensar continuamente em coisas que era significativa: fatos, objetivos para serem alcançados, incômodos, preocupações, acontecimentos que traziam alegria e decepções no dia a dia, pessoas que encontraram e que lhes disseram coisas que os afetaram. Mas, cada um deles passou a achar que não valia a pena falar do que estava se passando consigo para o outro.

Esvaziamento do amor

Robert Levine, professor da Universidade Estadual da Califórnia, e colaboradores (veja a citação deste artigo na Nota 2, no final deste artigo),  perguntou para pessoas de 11 países (o Brasil era um deles) se elas casariam sem amor com um parceiro que tinha tudo que elas queriam. Os participantes tinham três opções de resposta: “Sim”, “Ficaria em dúvida” e “Não”. As respostas variaram bastante dependendo se o país era “individualista” (os interesses dos indivíduos eram considerados mais importantes do que os coletivos) ou “coletivista” (os interesses do grupo eram considerados mais importantes do que os interesses dos indivíduos). Nos países individualistas (geralmente países ocidentais ou ocidentalizados) mais de 80% das pessoas disseram que não se casariam sem amor (no Brasil, 86% disseram que não casariam, 10% que ficariam em dúvida e 4% que se casariam sem amor com um pretendente bem qualificado). Nos países coletivistas, uma percentagem bem maior de pessoas disse que se casaria ou ficariam em dúvida com tal pretendente do que nos países individualistas.

Em seguida, os autores dessa pesquisa apresentaram outra pergunta: Após o casamento, se você deixasse de amar o parceiro, você se separaria? A grande maioria das pessoas de todos esses países, inclusive daqueles que eram individualistas disse que não se separaria. Ou seja, nos países ocidentais, o  amor não é um requisito muito importante para manter um casamento.

Esvaziamento da atração sexual

Geralmente, quando há o esvaziamento do amor, também há um esvaziamento do interesse sexual. Isso é verdade principalmente por parte das mulheres.

Elas até podem continuar a fazer sexo, mas as atividades sexuais geralmente são iniciadas por pressão dos maridos e elas cooperam porque elas sabem que o sexo é necessário para manter a harmonia do relacionamento e para evitar traições por parte deles.

Muitas dessas mulheres até acabam se excitando durante o sexo e chegando ao orgasmo. As mulheres que se excitam dessa forma são aquelas cujos desejos “pegam no tranco” (veja o meu artigo, neste Blog, “Mulheres que pegam no tranco”, que trata deste assunto). Também estou convencido que existem muitos homens que “pegam no tranco”: são aqueles que não sentem desejo antes do início das atividades sexuais. Para despertar o desejo, estes homens usam artifícios (ver filmes pornôs, masturbação, pensar em outra pessoa, etc.) e também podem usar algum tipo de artifício para ajudar a manter a ereção (medicações que têm esse efeito).

Esvaziamento da amizade

A amizade é bastante complexa. Ela é regida por uma espécie de contrato que estipula muitos direitos, deveres e sentimentos.

Um estudo realizado por Robert Sternberg e Grajek (Veja a citação deste artigo na Nota 3, no final deste artigo) verificou que a amizade amorosa é constituída pelos seguintes elementos:

1- Desejar promover o bem estar do amado

2- Ficar feliz por ter aquela pessoa como parceiro amoroso

3- Ter alta consideração pelo amado

4- Ser capaz de contar com o amado em tempos de necessidade

5- Haver compreensão mútua com o amado

6- Compartilhar a intimidade e as posses com o amado

7- Receber suporte emocional por parte do amado.

8- Dar suporte emocional para o amado

9- Ter uma boa comunicação íntima com o amado

10- Valorizar o relacionamento que existe com o amado

Não existe bem material que supere a satisfação que a intimidade proporciona.

Esvaziamento da amizade: desinteresse pelo que se passa com o cônjuge

Um relacionamento onde o cada cônjuge deixou de se interessar pela vida psicológica do outro (o que ele anda sentindo, pretendendo, preocupado, satisfeito, etc.) está oco. Muitas vezes, neste tipo de relacionamento, ainda persiste uma preocupação e cuidados com o bem estar físico e material do outro cônjuge. Mas quando o que o cônjuge pensa e sente deixou de ser interessante para o outro, ele se tornou uma casca e perdeu a sua visibilidade psicológica. É como possuir um objeto de arte: ele não fala, não tem desejos, não tem preocupações, não faz planos, etc., mas é bom de ser visto, tem que ser cuidado e exibido.

Fatores que seguram os relacionamentos ocos 

Muitos casamentos são mantidos mesmo sem amor, amizade e interesse sexual porque, depois de um tempo de vida de casado, o casal estabeleceu outra estrutura para mantê-lo.

Fatores externos que podem segurar relacionamentos ocos

O relacionamento pode se enraizar em diversas direções. Algumas delas são  as seguintes:

- Fatores econômicos: o casal constitui uma unidade econômica: os custos e benefícios econômicos de um cônjuge afetam o outro.  Os custos para manter um casal que vive junto geralmente são menores do que a soma para manter cada um dos dois cônjuges que vivem em casas separadas (por exemplo, não é necessário pagar dois condomínios ou acender duas luzes para iluminar a mesma  sala).

- Filhos: o futuro genético do casal fica definitivamente interligado através dos filhos. As obrigações e o amor pelos filhos podem ajudar a segurar um relacionamento oco.

- Relacionamentos com familiares dos dois lados. O relacionamento com os familiares do cônjuge podem ajudar a manter ou a acabar com o casamento.

- Sentido na vida. Geralmente há uma redefinição psicológica e social daqueles que se casam. Cada cônjuge, em certa medida, incorpora o outro ao seu eu: eles deixam de ser “eu” e “tu” e passam a ser “nós”.

- Identidade pessoal: cada cônjuge passa a definir-se conceber-se como “marido” ou “esposa”, “pai”, “genro” ou “nora”. Essas definições têm consequências psicológicas e práticas (ajuda mútua, lazer, apoio psicológico e social, etc.).

- Consequências legais: o casal passa a funcionar como uma unidade jurídica: assume direitos e deveres legais.

- Divisão de tarefa: muitos esposos acabam se especializando em atividades práticas e sociais complementares: pagar as contas, supermercado, levar os filhos à escola, lembrar datas comemorativas, etc.

- Unidade social: o casal passa a ser visto como uma unidade social: por exemplo, ninguém pensaria em convidar apenas um deles para uma festa ou viagem.

- Companhia. Só a presença do outro cônjuge, mesmo quando o relacionamento já está oco, ainda faz diferença: sensação que está casado, segurança de poder contar com alguém em caso de muita necessidade, etc.

- Medo de não conseguir outro relacionamento.

O seu relacionamento está oco? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTAS

1- AMÉLIO, A. O esvaziamento é a principal causa das separações. ailtonamélio.blog.uol.com.br (postado em 30/07/2014)  

2- LEVINE, R.; SATO, S.; HASHIMOTO, T.; VERMA, J. Love and marriage in eleven cultures. Journal of Cross-Cultural Psychology, v. 26, No. 5, p. 554-71,1995.

3-  STERNBERG, R. J. and GRAJEK, S. (1984). The nature of love. Journal of Personality and Social Psychology, 47, 312 – 329.

Por Ailton Amélio às 08h47

11/09/2014

Para melhorar o sexo: homens mais cúmplices e românticos e mulheres mais eróticas

Pouca cumplicidade, pouco romantismo, pouca sensualidade e poucas preliminares sexuais são reclamações frequentes das mulheres sobre os homens.

Exigências excessivas para iniciar sexo (jantares, longas conversas, etc.) e restrições excessivas para variações sexuais são algumas das reclamações frequentes dos homens sobre as mulheres.

Os homens geralmente não aprenderam a apreciar boas conversas, sensualidade, erotismo e preliminares sexuais prolongadas. As mulheres geralmente não gostam de erotismo puro. Quando os homens tentam fazer sexo por sexo, elas se sentem "usadas", "como um pedaço de carne" e acham que eles têm algum problema para querer tal coisa. A vida sexual pode ser muito melhorada se ambas as partes aprenderem a apreciar um pouco mais o que a outra parte gosta.

Tenho escrito bastante sobre a qualidade do relacionamento fora da cama. Por isso, neste artigo vou tratar mais do relacionamento sexual: como homens e mulheres podem melhorar seus relacionamentos na cama e, assim, também melhorar seus relacionamentos fora da cama.

Os homens e as mulheres podem mudar

Não devemos considerar que a nossa forma de ser e agir é imutável. Essa afirmação se aplica também à área sexual. Podemos modificar bastante aquilo que gostamos e que achamos excitante no sexo. Os homens podem aprender a apreciar e a contribuir para que o relacionamento seja amistoso, romântico e sensual e as mulheres, a encarar sexo por sexo como algo prazeroso e legítimo.

Seria muito útil que homens e mulheres se afinassem melhor, se tornassem mais semelhantes tanto no relacionamento fora da cama como na cama.

Cada dupla de parceiros amorosos pode e deve ajustar muitas coisas para melhorar a vida sexual. Quando as práticas sexuais que trazem satisfação para um cônjuge são muito diferentes daquelas que trazem satisfação para o outro, um ou ambos sairão frustrados.

Os homens podem aprender a apreciar mais a cumplicidade, a eroticidade e as preliminares

Vou usar aqui o termo “eroticidade” para me referir ao clima que é produzido por olhares sedutores, insinuações sexuais, declarações e expressões de desejo e conversas pessoais sobre temas sexuais.

Vou usar aqui o termo “preliminares” para me referir às práticas sexuais que antecedem aquelas que levam ao orgasmo.

Claro que muitos homens gostam da eroticidade e das preliminares. No entanto, a grande maioria deles gosta mais das práticas sexuais que levam ao orgasmo e, por isso, abrevia os momentos de eroticidade e preliminares. 

Apreciadores da eroticidade e das preliminares

Os verdadeiros apreciadores da eroticidade e das preliminares são aquelas pessoas que acham a eroticidade tão ou mais prazerosa do que as práticas sexuais que levam diretamente ao orgasmo.

Embora os apreciadores da eroticidade também acabem pondo em ação as práticas que levam ao orgasmo, estas práticas, no entanto, têm para eles importâncias relativamente reduzidas e funcionam mais como a cereja em cima do bolo: é deliciosa, mas pequena e dura pouco tempo na boca.

Os homens que não aprenderam a produzir e a apreciar a eroticidade são toscos na área sexual: depois de poucos minutos de clima erótico e de preliminares, iniciam as práticas sexuais que levam ao orgasmo. Essa maneira de proceder é comparada, pejorativamente, com a cópula dos galos: sem preparação, rápida e direta ao ponto.

Esta forma de proceder também lembra aquelas pessoas que tomam de uma só golada um copo de um vinho excelente ou enchem a boca e engolem sem sequer mastigar uma comida deliciosa.

Essa forma tosca de proceder geralmente não satisfaz as parceiras.

Vantagens dos apreciadores da eroticidade

Saber estabelecer, prolongar e usufruir a eroticidade proporciona muitos benefícios. Alguns deles são os seguintes:

- Prazer intenso e prolongado. Como a eroticidade não leva ao orgasmo, os momentos de eroticidade podem ser prolongados e apreciados indefinidamente.

- Firma o desejo pela parceira. Experimentar, repetida e demoradamente, a eroticidade que é produzida ou inspirada pela parceira ajuda a estabelecer e a desenvolver o desejo por ela.

- Firma e aumenta o desejo sexual. Permanecer um bom tempo em um clima erótico faz que o desejo cresça e permaneça firme.

- Proporciona momentos de intimidade física entre os parceiros. Este tipo de clima erótico geralmente estimula troca de carinhos e beijos.

- Proporciona momentos de intimidade psicológica entre os parceiros. O clima de eroticidade estimula o compartilhamento de sentimentos e pensamentos íntimos através da comunicação verbal  e da comunicação não verbal. Esse tipo de compartilhamento e o seu acolhimento adequado ajudam a fortalecer a ligação entre o casal.

- Melhora a autoestima: verificar o próprio poder para provocar o desejo da parceira aumenta a confiança nos próprios méritos e na própria capacidade para atrair.

As mulheres podem aprender a apreciar por sexo por sexo

Vou usar aqui a expressão “sexo por sexo” para me referir ao desejo sexual que é provocado por atividades e situações sexuais e não pelo envolvimento ou pelo sex appeal do parceiro. Este tipo sexo geralmente começa diretamente, sem uma historinha que lhe dê contexto. Este tipo de sexo geralmente é impessoal, mesmo quando praticado com o cônjuge: as práticas sexuais são mais importantes do que a identidade dos parceiros com quem elas estão acontecendo. Esse tipo de sexo pode ser realizado com estranhos ou em grupo.

O desejo de sexo por sexo, por exemplo, é aquele desejo que é provocado observação de vídeos pornográficos, pela adoção de certas práticas como amarrar o parceiro ou observar a parceira usar um vibrador.

Para praticar sexo por sexo é necessário desvincular a ligação entre o desejo e o contexto afetivo do relacionamento.

Os estudos sobre fantasias e práticas sexuais geralmente indicam que o sexo por sexo é um dos tipos de fantasias que são mais frequente entre os homens do que entre as mulheres. A maioria das mulheres não gosta muito desse tipo de sexo. Uma autora americana afirma que os vídeos que mostram esse tipo de sexo e as conversas sobre esse tipo de sexo geralmente não são muito eficientes para excitar as mulheres. Para elas, as propostas de sexo por sexo pode ser bem vindo depois que elas já estão excitadas e não como uma forma inicial de provocar a excitação. Essa autora sugere para os homens que só tentem introduzir esse tipo de prática sexual quando as mulheres já estiverem bastante excitadas.

Benefícios do sexo por sexo

É inevitável que a vida sexual decline à medida que o tempo de relacionamento vai aumentando, que a idade vai aumentando, que o romantismo entre o casal vá diminuindo, que as obrigações vão aumentando, que nascem os filhos e o tempo disponível para intimidades entre o casal vá diminuindo?

 Todos esses motivos contribuem para diminuir a motivação e a disposição física para o sexo e para encher a cabeça com preocupações. Esses acontecimentos são incompatíveis com pensamentos sensuais e eróticos.

Existe alguma coisa que possa ser feita para combater ou atenuar os efeitos negativos desses fatores sobre a sexualidade? Uma certa dose de sexo por sexo parece ter esse efeito.

O sexo por sexo pode tornar todo o circuito sexual mais robusto e imune a uma série de acontecimentos que geralmente enfraquecem a atividade sexual.

Além disso, o gosto por sexo por sexo ajuda a prevenir e a reparar vários tipos de problemas sexuais. Quando estamos muito motivados por uma coisa, ela se torna menos perturbável por outras. Por exemplo, quando estamos assistindo um programa de televisão ou lendo um livro que gostamos muito, mantemos muito mais facilmente a nossa atenção na atividade que nos agrada. Isso acontecer mesmo em condições relativamente perturbadoras: sono, barulho, temperatura desagradável.

Quando o sexo por sexo tem efeitos positivos

O desenvolvimento de um bom grau de desejo por sexo por sexo beneficia:

- Homens e mulheres que têm pouco desejo sexual.

- Homens que têm dificuldade para manter a ereção porque temem desagradar a parceira caso falhem ou não mostrem um ótimo desempenho.

- Homens e mulheres que têm parceiros que não são muito atraentes.

- Homens e mulheres que só chegam ao orgasmo através de um procedimento rígido (determinada sequencia sexual, determinada posição, determinadas práticas).

- Mulheres e homens que associaram demais seus desejos com o bom estado do relacionamento (por exemplo, para aquelas que não aceitam sexo quando estão experimentando um pequeno grau de insatisfação com o parceiro).

Como desenvolver o gosto por sexo por sexo

Os caminhos para o desenvolvimento do gosto por sexo por sexo ainda não são bem conhecidos.  A literatura desta área, no entanto, apresenta várias sugestões para esta finalidade. Algumas delas são as seguintes:

- Expor-se a material que mostra práticas sexuais: ver filmes eróticos, ler romances eróticos, praticar sexo descontextualizado.

- Praticar sexo mais frequentemente. Antes, durante e depois do sexo, o organismo produz várias substâncias que conduzem a estados prazerosos. É possível viciar-se nessas substâncias e passar a fazer sexo para produzi-las (tal como acontece com a ginástica, onde o organismo produz endorfinas e, por isso, muita gente vicia em esportes).

- Conversar sobre sexo. Geralmente esse tipo de conversa produz excitação, estimula a fantasia e libera inibições.

- Capitalizar a excitação produzida por outros eventos para fins sexuais. Por exemplo, diversas situações não sexuais fazem que o organismo produza adrenalina. A adrenalina aumenta o ritmo cardíaco, o ritmo respiratório e a pressão sanguínea. Os estados fisiológicos e psicológicos produzidos por estas situações têm vários componentes que também aparecem em situações eróticas. Certas pessoas aprendem a usar essas situações como potencializadores  do desejo  sexual. Por exemplo, aprendem a usar a excitação que é produzida por transar nas escadas do prédio, em banheiros de bares, etc. O risco de ser pego produz diversas alterações fisiológicas e psicológicas que são da mesma natureza que as alterações produzidas pelo desejo e excitação sexual e podem ser confundidos com esta.

- Resposta vicariante. Ver outras pessoas excitadas ou praticando sexo geralmente excita os observadores porque temos a capacidade de experimentar coisas “por tabela”: sentir aquilo que outras pessoas estão sentindo. Os filmes comerciais exploraram muito isso: o expectador sente algo parecido com aquilo que o personagem está “sentindo” na tela: medo, tristeza, alegria. Por isso, ver outras pessoas ou filmes onde pessoas estão praticando sexo pode aumentar o desejo sexual.

Perigos do sexo por sexo

O sexo por sexo, quando se torna o principal tipo de sexo praticado pelo casal, pode esfriar o relacionamento afetivo entre os cônjuges. O sexo com afeto e com amor fortalece esses sentimentos. O sexo é um momento de fusão com a pessoa amada. O sexo por sexo despersonaliza um pouco o relacionamento. Assim sendo, o sexo por sexo deve ser combinado com o sexo com amor e com afeto para produzir o máximo de efeitos positivos e não estabelecer muitos efeitos negativos.

Problemas sexuais? Procure a ajuda de um psicólogo.

Venha participar do "Psicoteatro". Leia neste blog, o meu artigo "Psicoteatro: método para desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais". Escreva para o meu email (abaixo) e manifeste o seu interesse.

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Por Ailton Amélio às 08h22

02/09/2014

Sexo: como melhorar o seu desempenho e evitar problemas

Responda às seguintes questões. Elas lhe ajudarão a pensar sobre como anda a sua vida sexual:

1- Você está plenamente satisfeito com a sua vida sexual?

2- O sexo é uma fonte de intimidade e de prazer para você e sua parceira?

3- Você ou sua parceira têm problemas sexuais?

4- A sua frequência sexual é baixa? Caso sim, você justifica o seu pouco apetite sexual dizendo que está cansado, que anda estressado ou que anda sem tempo?

5- Para você, o sexo virou uma obrigação e não uma grande fonte de prazer?

6- Para você, o sexo sempre acontece do mesmo jeito?

7- Para você, o sexo é apenas uma forma de "satisfazer uma necessidade biológica"?

8- Você anda pensando em outras pessoas porque o sexo com a sua parceira é muito insatisfatório?

Tenha em mente as suas respostas às questões acima ao ler este artigo e tente achar uma resposta para o que está acontecendo na sua vida sexual.

Funcionamento natural do sexo, interferências negativas e desenvolvimento sexual

Encarar o sexo naturalmente dá muito prazer e resolve grande parte dos problemas sexuais. Helen Singer Kaplan, famosa sexóloga americana, autora do livro “A Nova Terapia do Sexo (veja a citação na Nota 1, no final deste artigo)”, afirmou que o sexo foi feito para funcionar. Se não está funcionando, é porque está sofrendo alguma interferência. A terapia sexual consiste na identificação e na eliminação destas interferências.

Claro que não nascemos com a capacidade para o "funcionamento sexual" totalmente desenvolvida, bastando, para que essa capacidade se manifeste, a ausência de interferências negativas. O sexo pode ser muito melhorado com a aprendizagem e com o desenvolvimento de atitudes corretas quanto a ele.  Essa melhoria pode ser observada naquelas pessoas que aperfeiçoaram suas práticas e, por isso, aumentaram suas satisfações,  a tal ponto que passaram a achar que o sexo é a maior fonte de prazer nas suas vidas. Outras pessoas, que não tiveram esse aperfeiçoamento, afirmam que poderiam passar ser ele e que "existem outras coisas bem mais importantes no casamento". A maioria fica entre esses dois extremos.

Principais semelhanças e diferenças entre homens e mulheres na área sexual

O funcionamento sexual dos homens e das mulheres apresenta muitas semelhanças e algumas diferenças importantes.

Principais semelhanças entre homens e mulheres na área sexual

Os homens e as mulheres apresentam muitas semelhanças sexuais. Algumas delas são as seguintes:

- Eles e elas sentem muito prazer com o sexo.

- A resposta sexual masculina e feminina é constituída por quatro fases: desejo, excitação, orgasmo e período refratário (este período é mais marcado para os homens do que para as mulheres).

- O desejo sexual é constituído por três elementos motivadores (impulso, motivação e querer) e um inibidor (proibições, culpas, tabus, etc.).

- O desejo sexual de homens e mulheres pode “pegar no tranco”: surgir quando começam as práticas sexuais, mas não antes.

Principais diferenças entre homens e mulheres na área sexual

Os homens e as mulheres apresentam diversas diferenças na área sexual. Algumas dessas diferenças têm um forte componente biológico. Todas elas são influenciadas pelas práticas sociais e pela história de vida de cada um.

Algumas das diferenças entre homens e mulheres são as seguintes:

- O funcionamento sexual das mulheres geralmente depende mais do estado do relacionamento com o parceiro e do contexto (gostar do parceiro, admirar o parceiro, ter um bom relacionamento com o parceiro fora da cama) do que o funcionamento sexual masculino (para os homens, o sexo por sexo é mais atraente e pode ser excitante mesmo quando o relacionamento com a parceira não vai bem, a parceira não é muito atraente, etc.).

- As incidências de parafilias (desejar e só se excitar com coisas diferentes do comum) geralmente são maiores para os homens do que para as mulheres (elas aderem a várias delas para cooperar com eles).

- A percentagem de homens que chega ao orgasmo é maior do que a das mulheres.

- Os problemas mais comuns dos homens são as dificuldades de ereção (conseguir e manter a ereção por tempo suficiente para um bom relacionamento sexual) e, os problemas mais comuns das mulheres são  a falta de desejo e dificuldades para chegar ao orgasmo.

Principais "interferências" que atrapalham o funcionamento sexual

Abaixo estão algumas das principais “interferências” que atrapalham o funcionamento sexual:

- A preocupação em funcionar bem ou em impressionar a parceira é inimiga da ereção.  

- Ficar à vontade para “brincar”, para explorar a sexualidade e usufruir a parceira sem nenhuma preocupação para ir adiante ou para consumar o sexo ( atingir ou proporcionar o orgasmo) contribuem fortemente para o pleno funcionamento sexual. Não é bom encarar sexo como algo que deva ter início, meio e fim toda vez que é iniciado.

- Para as mulheres, a obrigação de fazer sexo é inimiga do desejo. Ter que fazer sexo pode implicar em fingir e, por isso, em sentir coisas desagradáveis só para satisfazer o companheiro. Agir sob esse tipo de motivação é um caminho certo para a perda do desejo.

- No sexo, o “caminho” deve tão prazeroso e importante quanto a “chegada”. Por exemplo, conversar animadamente, conversar sensualmente, conversar sexualmente e conversar durante o sexo são atividades prazerosas em si mesma. Cada uma dessas atividades, mesmo se ela não avançar para o estágio seguinte, já proporciona muito prazer e mesma e vale a pena por si só.

- Se você só pega “pega no tranco”, então você está com problemas de desejo. O desejo sexual pela parceira geralmente deve anteceder o início de qualquer atividade sexual com ela. Por exemplo,  antes do encontro, você fica pensando nela; fica relembrando o prazer de fazer sexo com ela; fica esperando a hora que vai encontrá-la para o sexo; pensa no que poderia fazer com ela durante o sexo. Se o desejo não aparece antes do início das práticas sexuais, mas ele aparece quando você começa alguma atividade sexual com ela, então o seu desejo “está pegando no tranco”. (Semelhante a um carro que está sem partida e só pega quando empurrado).

- Preocupação e medo são incompatíveis com desejo e prazer. Enquanto você está preocupado ou com medo, fica difícil sentir desejo. A falta de desejo atrapalha a excitação. A falta de excitação geralmente impede o orgasmo.

- Na alimentação, o desejo de comer depende da fome (quanto tempo passou desde a última alimentação), do apetite (quanto você gosta da comida que está servida, quão cheirosa e bonita ela é, etc.) e dos pensamentos despertados pela oportunidade de comer e daquela comida (ela é saudável, não engorda, é nutritiva, etc.). Com o desejo sexual acontece algo similar: quanto tempo já passou desde a última vez que houve sexo; quão atraente é a parceira e quão tranquilo, seguro e legítimo é fazer sexo com ela (veja a citação 2, na Nota, no final deste artigo)

- Dentro de certos limites, a relação entre hormônios e desejo não é muito forte: a frequência, duração e qualidade do sexo só dependem em parte das doses de  hormônio. Uma evidência que corrobora esta afirmação: a relação entre a frequência e duração do sexo, por um lado, e a idade, que é fortemente relacionada com as dosagem hormonal, por outro lado, não é muito forte e está longe de ser linear.

- Se você funciona bem quando se masturba e se masturba regularmente, é bastante provável que você não tenha problemas orgânicos que atrapalhem a sua sexualidade. Da mesma forma, se você não tem problemas sexuais com uma determinada parceira, mas tem com outra, então é altamente provável que você não tenha problemas orgânicos, mas sim, problemas com a parceira com quem você não funciona (falta de atração por ela, jeito dela faz sexo, temor das suas críticas, etc.).

- O desejo do homem é muito mais relacionado com a intensidade da sua excitação do que o desejo da mulher com a própria excitação. Os autores de uma pesquisa apresentaram filmes pornográficos para homens e mulheres e mediram as intensidades de suas excitações e de seus desejos. A excitação de homens e mulheres foram medida através de aparelhos. O melhor índice de excitação masculina é a intensidade da ereção do pênis e o das mulheres, o intumescimento, lubrificação e alargamento da vagina. A intensidade do desejo de homens e mulheres foi medida através de um questionário. Esse estudo mostrou que o desejo relatado pelos homens é fortemente relacionado com a intensidade das suas excitações. A relação entre intensidade da excitação e o desejo das mulheres é bem mais fraca. O desejo feminino depende bastante do contexto e não só da excitação.

- O desejo da mulher pelo seu companheiro é despertado, em grande parte, pelo estado do seu relacionamento com ele. Ou seja, o desejo feminino é fortemente afetado pelo que acontece fora da cama. Também não adianta o imediatismo: as mulheres não gostam de homens que só ficam atenciosos e carinhosos quando querem sexo.

- Muitas vezes, o que está errado não é sua falta de desejo, mas sim, a falta de sensualidade da sua parceira ou seus poucos atrativos corporais. Você não é obrigado a sentir desejo pela sua parceira. Depende de como ela é com você fora da cama e na cama. Depende também, dos seus atrativos corporais, da sua personalidade e do seu desejo. Isso é válido tanto para os homens como para as mulheres.

- O desejo, em boa parte, depende mais das características de cada pessoa e menos das circunstâncias ou da pessoa desejada. As pessoas que têm muito interesse por sexo continuam querendo transar mesmo quando a situação é adversa: quando elas estão tensas ou preocupadas, quando a parceira não é muito boa de cama ou não está receptiva, etc.

Quando a pessoa não tem muito gosto por sexo, o seu desejo é muito mais facilmente perturbável por qualquer um desses acontecimentos.  

- Uma boa dose de atração de sexo por sexo pode ter efeitos benéficos. Um dos maiores segredos das pessoas que mantêm grande atração por sexo mesmo em condições adversas é o interesse que elas têm em sexo por sexo. Por exemplo, mesmo quando a parceira deixou de ser fisicamente ou psicologicamente atraente, quem tem interesse em sexo por sexo ainda pode ter grande interesse em transar com ela.  

O interesse em sexo por sexo torna o desejo relativamente independente da saciação sexual (é o desejo produzido pelo apetite e não pela privação sexual), das características da parceira (idade, peso, beleza, atributos físicos) e dos próprios hormônios (isso acontece com os “viciados em sexo”: o desejo se torna relativamente independente da dosagem hormonal do viciado). 

Problemas sexuais?  Procure a ajuda de um psicólogo.

Venha participar do "Psicoteatro". Leia neste blog, o meu artigo "Psicoteatro: método para desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais". Escreva para o meu email (abaixo) e manifeste o seu interesse.

NOTAS

1- Kaplan, H. S (1977). A Nova Terapia do Sexo (2a. Edição). Editora Nova Fronteira.

2- Levine, S. B. (1988). Intrapsychic and individual aspects of sexual desire. In S. R. Leibrum and Rosen, R. C. (Edits),  Sexual Desire Disorders. New York, The Guilford Press, pp. 21 - 43.

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Por Ailton Amélio às 09h08

29/08/2014

Psicoteatro: método para o desenvolvimento de papéis e características pessoais, sociais e profissionais

Você é um bom profissional, bom amigo, bom marido, bom pai, bom amante, um ótimo sedutor? Talvez, nem tanto! Claro, nem poderia. A maioria de nós nunca teve a oportunidade de desenvolver esses papéis de maneira sistemática e planejada.

Psicoteatro

Estou desenvolvendo um conjunto de técnicas psicológicas-teatrais (“psicoteatro”) para ajudar os participantes a criar, desenvolver, aperfeiçoar e incorporar características pessoais, habilidades sociais e papéis sociais. Essas técnicas também ajudarão a alterar motivações e a combater inibições que impedem os desempenhos sociais desejados.

Cada um de nós desempenha vários papéis no dia a dia: profissional, amigo, pai, amante, sedutor, etc. Podemos aperfeiçoar esses papéis e desenvolver outros papéis que gostaríamos de desempenhar na vida real.

Existem várias características de personalidade que estão envolvidas na composição dos papéis sociais ou que dão um colorido pessoal para eles: desenvoltura, sociabilidade, eficiência, amorosidade, amistosidade, sex appeal, romantismo, carisma, segurança, autenticidade, honestidade, etc. Essas características podem ser aperfeiçoadas ou criadas através de técnicas psicoteatrais apropriadas.

Cada papel social é constituído por vários tipos de habilidades: ouvir ativo, falar de forma interessante, empatia, argumentar, persuadir, negociar, etc. Essas habilidades podem ser desenvolvidas através de treinamentos específicos.

Os desempenhos dos papéis sociais e as manifestações de características de personalidade dependem de motivações e inibições que lhes são relevantes. Essas motivações e inibições podem ser alteradas através de procedimentos terapêuticos.

Ausência de tratamento sistemático para desenvolver papéis sociais

Quase ninguém recebeu tratamento sistemático para desenvolver papéis sociais, características de personalidade e habilidades sociais. Poucas pessoas passaram por um trabalho psicológico sistemático que lhes ajudassem a entender e a lidar com suas motivações e inibições que afetam os seus desempenhos sociais.

O desenvolvimento de papéis sociais e dos seus ingredientes geralmente acontece de forma não programada e não planejada. Esse desenvolvimento geralmente acontece através da observação e imitação de pessoas que estão desempenhando papéis na vida real, na televisão ou em filmes. Ele também é influenciado pelos romances, pelas biografias e pelas descrições orais dos modos de agir e das características de personalidade de personagens que são admirados ou condenados.

Esses papéis e seus ingredientes também recebem certa dose de polimento através de elogios, críticas e sugestões quando são desempenhados na vida real.

Através desses tipos de aprendizagens assistemáticas, todos nós acabamos desenvolvendo e incorporando papéis, características pessoais, habilidades sociais, motivações e inibições para agir socialmente que deixam muito a desejar em termos de eficiência e satisfação.

Geralmente temos pouca de consciência dos aspectos da nossa atuação social que são eficientes ou ineficientes. As pessoas com quem interagimos não sabem bem o que fazer para ajudar melhorar a nossa atuação social e, quando sabem, muitas vezes preferem não fazer nada porque temem nos ofender, ou agem de forma punitiva, o que também não contribui muito para o nosso aperfeiçoamento.

Mesmo quando temos consciência das deficiências na nossa atuação social, ainda assim, é difícil superá-las porque não sabemos como produzir mudanças em nós mesmos.

Devido a essas dificuldades para tomar consciência na nossa forma de agir socialmente e para mudá-la, acabamos acreditando que  “somos assim”, “este é o nosso jeito de ser” e “não podemos mudar a nossa essência”.

Semelhanças e diferenças entre o psicoteatro e o teatro

Segundo, Irving Gofman (veja a citação na Nota, no final deste artigo), famoso estudioso da vida social, todos nós desempenhamos personagens, quase o tempo todo, em situações sociais. A vida social seria como um teatro, onde cada um finge que é um personagem e a plateia finge que acredita nele. As coisas feias ficam nos bastidores tanto no teatro como na vida real.

Algumas diferenças importantes entre o psicoteatro com o teatro são as seguintes:

-  No teatro, o ator e a plateia sabem que os participantes estão representado papéis e acontecimentos que não são reais. Eles sabem também que assim que o ator sair do palco ele vai se desvencilhar do papel que estava representando. No psicoteatro, o participante está tentando desenvolver um personagem para incorporá-lo ao seu jeito de ser na vida real.

- No teatro, o personagem e suas características são desenvolvidos para produzir um bom espetáculo e não, especificamente, para beneficiar o ator na vida real. Este benefício é o principal tipo de objetivo a ser alcançado no psicoteatro

- No psicoteatro, o participante é analisado psicologicamente desde o início. Por exemplo, essa análise tenta responder perguntas do tipo: porque o participante quer desenvolver um determinado personagem? Quais características ele gostaria que esse personagem tivesse? Quais facilidades e dificuldades são apresentadas pelo participante durante o desenvolvimento do roteiro e do personagem? Quais as facilidades e dificuldades foram apresentadas pelo participante para incorporar um determinado personagem e para representar as cenas? Quais são as facilidades e dificuldades dos participantes para transferir aquilo que ele treinou para a vida real?

Diferenças e semelhanças entre psicoteatro e terapias pela palavra

- A palavra é usada como ferramenta de análise e para promover mudanças tanto no psicoteatro como na maioria das terapias.

- O psicoteatro usa a representação como principal ferramenta de análise e de mudança, ao passo que a maioria dos outros tipos de terapias usa a conversa com estas mesmas funções.

- No psicoteatro, boa parte dos fenômenos psicológicos que são analisados são aqueles que aparecem devido às estimulações produzidas pelo processo de escolha dos personagens, produção dos textos para os diálogos, composição dos personagens, ensaios, atuação, pós-atuação e transferência para a vida real das habilidades treinadas. Nas terapias pela palavra, os fenômenos psicológicos analisados são aqueles foram estimulados pela memória de acontecimentos ou, quando muito, estimulados pela relação entre terapeuta e paciente.

- No psicoteatro, a atuação teatral, o roteiro e os diálogos ajudam os participantes a aperfeiçoar e substituir os seus modos de atuação social que eram ineficientes por outros modos que mais eficientes. A atuação e a análise psicológica das facilidades e dificuldades que surgiram durante a preparação das cenas, dos personagens e dos roteiros também ajudam a incorporar a nova maneira de agir e a adotá-los na vida real, no dia a dia.

Podemos mudar o nosso jeito de ser?

Podemos, sim. Na vida real mudamos drasticamente a nossa forma de agir pensar e sentir, quando isso é necessário. Podemos fazer mudanças muito drásticas acontecem em várias circunstâncias.

Essas grandes mudanças ocorrem várias vezes por dia, quando, por exemplo, mudamos de atividade (guiar, falar com um amigo, namorar, trabalhar, etc.),  mudamos de ambiente (local de trabalho, academia de esportes, balada, etc.) ou de interlocutor (falar com uma autoridade, com uma criança, etc.)

Mudanças mais abrangentes e duradouras ocorrem quando mudamos de cultura (fazer intercâmbio, migrar para outro país, etc.) ou mudamos radicalmente de função ou ambiente.

Quando mudamos de cultura ficamos cientes de muitos hábitos e valores que nos parecem “estranhos”. Depois de certo tempo, esses novos hábitos podem começar a parecer naturais. Depois de mais algum tempo, eles passam a fazer muito sentido para nós, deixamos de perceber o que estamos fazendo e nos sentimos bem agindo da nova forma.

Grandes mudanças também ocorrem quando entramos na pré-escola ou na faculdade, quando saímos de casa para morar em uma república, quando vamos morar com a amada. Alguns autores afirmam que esta última é uma das maiores mudanças repentinas que ocorrem na vida da maioria das pessoas: dormir na mesma cama com outra pessoa, cuidar da casa, cuidar da comida, morar em outro local, ter que se acomodar aos hábitos de outra pessoa, etc.

Portanto, não é correto dizer que não podemos mudar muito o nosso jeito de ser.

Ações programadas podem se tornar "naturais"

Quando falamos em um trabalho para criar ou aperfeiçoar o nossa maneira de atuar situações sociais, vários dos nossos interlocutores apresentam questões quanto à naturalidade ou artificialidade dos comportamentos que está sendo treinados.

Grande parte das nossas ações é aprendida através de esforço consciente e “artificialmente”. Depois, muitas delas vão se tornado automáticas e bastante inconscientes. Por exemplo, datilografar, guiar, falar outras línguas, andar, lecionar, representar geralmente são habilidades que exigem uma boa dose de esforço consciente na fase de aprendizagem. Depois vários aspectos dessas ações são automatizados e se tornam bastante inconscientes. A quantidade da prática e de instrução para automatizar uma ação ou uma estratégia para agir varia muito de caso para caso.

Guiar um carro é um bom exemplo. No início, temos que pensar em tudo que vamos fazer: ligar o carro, pisar na embreagem e no freio, colocar a primeira, soltar o freio de mão, etc. Depois de certo tempo, automatizamos nossas ações e passamos agir automaticamente, sem pensar no que estamos fazendo.

Algo semelhante também acontece nos campos dos valores e atitudes. No início, os nossos comportamentos são apresentados ou deixam de ser apresentados devido às suas consequências externas ou instruções específicas sobre como devemos agir. Depois de algum tempo, quando a nossa socialização é bem sucedida, podemos nos comportar ou deixar de comportar de uma determinada forma porque achamos que ela é certa ou errada, respectivamente. Os sociólogos denominam essa incorporação de valores de “introjeção”: passamos a sentir que determinada forma de agir, pensar e sentir é boa e legítima e que outras são erradas.

As nossas ações, quando apresentadas de acordo com certos padrões “fazem sentido” e não despertam a nossa atenção e consciência. Esse “sentido” é experimentado tanto por quem age como por quem presencia a ação. Por exemplo, um executivo de terno e pasta na mão que se desloque pulando em um pé só é muito chocante, a não ser que haja um motivo óbvio para essa forma de agir.

No psicoteatro acontece algo semelhante: ações são treinadas conscientemente e, depois, elas são automatizadas e se tornam inconscientes. Isso acontece, principalmente, quando elas melhoram os nossos desempenhos sociais e são apresentadas com fluidez e facilidade e nos trazem sucesso e satisfação.

Alguns papéis e características pessoais que poderão ser desenvolvidas através do psicoteatro

Em qualquer grupo de pessoas sempre há uma boa chance dos seguintes temas estarem presentes:

- Sociabilidade: gostar ou não gostar de relacionamentos sociais

- Timidez: tensão e inibição em situações sociais

- Autoestima: apreciação de si próprio. Como anda a sua autoestima?

- Imagem pública. Qual a imagem que estamos tentando projetar? Qual é a nossa imagem para as pessoas? (Serão realizadas medidas da autoimagem e da imagem pessoal de cada participante).

- Autoimagem: imagem que fazemos de nós mesmos

- Conversa eficiente: como age o bom falante e o bom ouvinte?

- Falar em público: características e habilidades de um bom orador.

- Autorrevelação: a revelação adequada de pensamentos e sentimentos é a cola dos relacionamentos sociais.

NOTA

GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana – Petrópolis, Vozes: 2011.

Você está interessado em participar do Psicoteatro? Mande um e-mail para ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 09h29

21/08/2014

Desligue o celular e a televisão e comece a conversar de verdade

Neste artigo vamos apontar como a presença dos celulares mais sofisticados (“smarthphones”) e da televisão estão acabando com as “boas conversas” cara a cara. Também vou sugerir uma nova etiqueta para regular o uso adequado desses dois tipos de tecnologia e, por fim, vou lembrar alguns tipos de comunicação não verbal e comunicação verbal que devem estar presentes em uma boa conversa.

As conversas cara a cara estão perdendo espaço para o celular e televisão

O relacionamento social cara a cara está, cada vez mais, perdendo espaço para o relacionamento virtual. Foi-se a época que as pessoas se encontravam para conversar. Agora, boa parte dos papos rola através da internet.

A mídia está cheia de fotos que mostram pessoas, em todos os tipos de locais,  que, embora juntas, aparecem digitando nos seus aparelhinhos, ao invés de prestar atenção aos seus interlocutores: mesas de bar, pátios de escolas e salas de espera.

Os "selfies" acontecem nos locais mais indiscretos e inadequados como velórios e funerais (até o presidente Obama fez o seu durante o velório de Mandela!) e, até, durante assaltos, onde ladrão e vítima posam para a fotografia!

Também rodou na internet um vídeo que mostra uma professora tomando e jogando no chão o celular do aluno que está recebendo uma ligação durante a aula.

Alguns bares estão tomando a louvável iniciativa de instalar bloqueadores de celular com o objetivo de eliminar este distrativo de seus ambientes e dar a chance dos frequentadores conversarem entre si.

Conversas telegráficas

Como digitar é trabalhoso, estamos, cada vez mais, desenvolvendo a arte de abreviar as mensagens. Neste aspecto, parece que voltamos à época do telégrafo, onde as mensagens eram cobradas por palavras e, por isso, seus tamanhos eram reduzidos ao mínimo possível, para economizar.

Interferências contínuas

Não é só a redução na quantidade de horas de conversas cara a cara que está acontecendo como consequência do uso da internet e televisão.  Agora, durante as parcas horas de interação cara a cara, ocorrem mil interrupções pelas chamadas do celular, pelos sonzinhos típicos de cada tipo de mensagem e pelos ruídos de vibração que avisam sobre a chegada de novas mensagens.

Vantagens e desvantagens da conectividade total

É bom poder comunicar, a qualquer hora, com pessoas fisicamente distantes. Isso aproximou muito essas pessoas. No entanto, essa mesma conectividade a distância e 24 horas por dia está afastando as pessoas que estão fisicamente presentes.

A televisão é outra grande fonte de interferência nas conversas

Com a popularização da televisão, foi-se boa parte da atenção que antes era dedicada à família e aos amigos que nos visitavam.

A disposição do mobiliário mostra quais são as prioridades: o aparelho de televisão reina (os assentos são orientados mais para a televisão do que para os interlocutores). Agora, a conversa fica restrita aos momentos dos comerciais. Os breves comentários durante a programação sempre são proferidos com aquela sensação de medo de estar interrompendo a atenção que o interlocutor está dedicando ao seu programa favorito.

Nova etiqueta para conversar

Estamos precisando criar uma nova etiqueta que regule o uso do celular e da televisão. Por exemplo, essa etiqueta poderia estipular que seria muito rude e intolerável ficar assistindo televisão durante o jantar familiar.

Quanto ao uso do celular, esta nova etiqueta prescreveria que ficar olhando para ele durante a conversa seria considerado rude e ficar digitando mensagens seria considerado grosseiro.

Nesta nova etiqueta, o celular deverá ser deixado no “guarda celulares” - um local que passará a existir logo na entrada de estabelecimentos finos, onde é esperado que as pessoas conversem. Nestes locais haveria uma sala reservada para aqueles que não conseguem se abster do "vício do celular" por um mínimo  de tempo: uma espécie de "celuródromo".

Nada contra a tecnologia.

Nada de saudosismos. A tecnologia trouxe muitos benefícios e veio para ficar. Agora, conseguimos ficar psicologicamente mais próximos de pessoas que estão fisicamente distantes e psicologicamente distantes de pessoas que estão fisicamente próximas.

 

Relembrando como é uma conversa de verdade

Vamos relembrar agora alguns comportamentos e posturas que facilitam, aumentam a eficiência e motivam uma boa conversa.

A comunicação não verbal que facilita a conversa

- Mostrar sinais que está disponível para conversar.

Por exemplo, dizer que está com tempo livre; encostar-se a uma superfície; convidar para sentar; interromper o que estiver fazendo (desligar a tevê, desligar o computador); colocar a pasta ou a bolsa que está portando sobre a mesa; fechar a porta para evitar interrupções.

- Assumir uma distância propícia para conversar.

Não ficar nem muito longe nem muito perto do seu interlocutor. Quando ambos estão em pé, deixar o interlocutor estabelecer a sua distância preferida. Depois que ele fizer isso, caso você queira “esquentar” um pouco o relacionamento, se aproxime dele mais um pouquinho (puxe a sua cadeira para mais perto ou dê um passinho na sua direção, mas não exagere).

- Evitar barreiras físicas ente si e o interlocutor.

Barreira é a presença de um obstáculo entre os interlocutores. Existem dois tipos de barreiras: (1) corporal. Por exemplo, as pernas cruzadas de um interlocutor estão interpostas entre ele e o outro; (2) objeto: os interlocutores ficam separados por uma mesa um balcão. É comum colocar uma pasta ou bolsa entre si e outra pessoa quando ambas sentam-se em um mesmo sofá.

- Assumir posições semelhantes às do interlocutor.

Por exemplo, os dois interlocutores permanecem sentados ou os dois ficam em pé; ambos se encostam a uma parede. É importante manter os olhos na mesma altura dos olhos do interlocutor. Assumir posições diferentes daquela adotada pelo interlocutor contribui para quebrar o clima positivo da conversa. Por exemplo, quando um está sentado e o outro em pé, isso contribui para esfriar a conversa.

- Apresentar padrão típico de olhar do ouvinte atento: o ouvinte geralmente olha mais para o falante do que vice versa; olhar para o rosto do interlocutor (olhos, testa, boca); não ficar muito tempo olhando para o ambiente ou outras pessoas.

- Evitar dar atenção para outros acontecimentos que estão ocorrendo no ambiente. Por exemplo, não ficamos olhando demais para as outras pessoas que estão passando próximo do local onde você está conversando. Quando algo absorve a nossa atenção, deixamos de prestar atenção a outros fatos e acontecimentos presentes.

- Orientar a frente do corpo na direção do interlocutor.

Voltar toda a frente do corpo (rosto, peito, púbis, joelhos e pés) na direção do interlocutor. Caso fique desconfortável essa orientação, devido ao excesso de intimidade que ela produz, mantenha um pequeno ângulo entre a frente do seu corpo e o interlocutor.

- Inclinar o tronco na direção do interlocutor (quando estiver sentado).

Quando sentado, o tronco do bom ouvinte deve ser ligeiramente inclinado na direção do interlocutor (inclinado para frente ou para a lateral quando o ouvinte está ao lado ou à frente, respectivamente).

- Sincronizar a emissão dos sinais de recepção e outras intervenções com momentos oportunos da fala do interlocutor. Por exemplo, esperar ele terminar de expor uma ideia antes de posicionar-se a favor ou contra ela.

- Não atrapalhar a comunicação do interlocutor

- Anuir frequentemente com movimentos de cabeça.

Este é um dos principais comportamentos que indicam que o ouvinte está acompanhando, entendendo e concordando com o que está sendo dito.  Este comportamento geralmente é apresentado periodicamente e, principalmente, assim que o falante termina de apresentar uma ideia ou quando esse olha para o ouvinte.

- Emitir vocalizações curtas em reação ao que está ouvindo.

Por exemplo, o ouvinte emite grunhidos e exclamações que indicam que ele está acompanhando o que está sendo dito e que informam como ele está reagindo ao que está sendo dito.

A comunicação verbal durante uma boa conversa

O ouvinte ativo faz pequenas intervenções verbais que contribuem para motivar, direcionar e fornecer feedback para o falante, sem atrapalhar muito o que este está dizendo. As principais destas intervenções são as seguintes.

-    Repetir, com um tom de interrogação, palavras chaves, frases e ideias apresentadas pelo falante, de maneira sintética para estimulá-lo a expandir o que disse. (Fazer perguntas e pedir para explicar tem efeitos similares à esse tipo de repetição). Por exemplo, o falante diz: “Ontem peguei o maior congestionamento quando cheguei da viagem.” O ouvinte diz “Viagem?”. Este procedimento induz o falante a expandir, corrigir, aperfeiçoar ou completar o que disse.

-  Ajudar o falante a elaborar o que está dizendo.

-   Pedir esclarecimentos de pontos obscuros. Não entender o que está sendo dito provoca a perda do envolvimento com a conversa, impossibilita reações corretas ao que foi dito e causa embaraços. Pedir esclarecimento também é um sinal de interesse no que está sendo dito e um sinal que deseja continuar ouvindo. Por exemplo, diga: “Não entendi”; “Explique melhor isso”, “dê um exemplo”.

- Pedir mais detalhes sobre o que foi dito. Por exemplo, diga: “Fale um pouco mais sobre este fato”.

-  Mostrar empatia pelo ponto de vista do falante e pelas suas emoções. Uma maneira de fazer isso é "refletir" os sentimentos do falante. Por exemplo, faça comentários do tipo: “Isto deve ser muito chato para você.”, “Parece que você ficou muito contente com esta notícia”, “Você deve estar feliz com isso.”

- Usar palavras de compreensão que não comprometam você com aprovação do conteúdo do que está sendo dito. Por exemplo, dizer: “Vejo que você está muito convencido desta ideia”, “Parece que você ainda não se decidiu”.

- Resumir as principais ideias e conceitos sobre aquilo que ouviu. Por exemplo, dizer: Você está em um dilema: ficar em um emprego que paga melhor ou ir para um emprego que paga menos, mas que você gosta mais.” É muito motivador para o falante ouvir um resumo do que ele disse. Ele mostra que o ouvinte estava motivado para ouvir, prestou atenção, entendeu e quer continuar a conversa.

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Por Ailton Amélio às 09h06

10/08/2014

Um bom casamento vale mais do que bens materiais

Você sabia que um bom casamento traz um aumento na felicidade que equivale a aumentar quatro vezes o tamanho do salário?

Você sabia que uma boa amizade traz um aumento na felicidade que equivale a aumentar três vezes o salário?

Quem faz essas afirmações e outras mais é Robert Putnam, professor de políticas públicas da Universidade de Harvard (ver o link para uma entrevista deste autor na Nota, no final desse artigo).

As duas afirmações acima provavelmente são válidas para pessoas que já ganham, pelo menos, o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas. Para aquelas pessoas cujos ganhos são insuficientes para satisfazer essas necessidades, o aumento dos rendimentos contribui, sim, bastante para o aumento da felicidade. Por exemplo, quando alguém está passando fome, passando frio, não tem onde dormir, não tem vestuário adequado ou seus parentes estão doentes e não podem se tratar por falta de dinheiro, o aumento de rendimento aumenta significativamente a sua felicidade.

Como vamos ver neste artigo, não é o casamento em si que traz felicidade. Tem que ser um bom casamento. Um mau casamento pode trazer muita infelicidade. Além disso, o nível de felicidade depende mais da personalidade do que do casamento: quem já era feliz antes do casamento tem maior chance de continuar feliz durante o casamento. Quem já era infeliz antes do casamento tem mais chance de continuar infeliz no casamento!


Possuir mais bens materiais não aumenta a felicidade

Entre 1950 e 2005 os bens dos americanos aumentaram cerca de três vezes. Em 2005, por exemplo, o americano médio possuía computador, celular, ar condicionado e televisão a cores. Muitas dessas coisas nem existiam nos anos 50.  As medições do nível de felicidade, que foram periodicamente realizadas durante este espaço de tempo, mostram que ela não se alterou neste período.

Geralmente a aquisição de bens materiais só aumenta consideravelmente a nossa satisfação na época da aquisição. Por exemplo, quem compra um carrão ou uma casa muito melhor que a anterior fica muito contente antes da compra, com ainda está sonhando com o bem, e logo depois da compra. Tempo depois, aquilo que foi adquirido vai saindo da consciência e deixando de trazer tanta satisfação: a pessoa que fez a compra vai deixando de notar o carro ou a casa. Ela se acostuma com esses bens e começa a pensar em uma nova aquisição. Todos já tivemos a experiências de comprar uma bela roupa e ficarmos muito contente na época da aquisição e, logo após usá-la uma vez ou outra, vamos deixando de pensar nela e podemos até esquecê-la no fundo do guarda roupa.

Outro exemplo: quem ganha na loteria fica muito feliz na ocasião. Depois de certo tempo, o seu nível de felicidade vai voltando ao que era antes, e cerca de um ano depois da premiação, a pessoa que ganhou está tão feliz ou infeliz quanto antes.


Relações sociais podem proporcionar prazer renovado

Claro que também nos acostumamos com as pessoas e elas deixam de ser novidades. Por exemplo, no início de um relacionamento amoroso achamos o parceiro muito excitante e interessante e, após algum tempo, ele perde muito da capacidade para despertar nossa atenção e de nos excitar (este é o famoso “efeito novidade” ou “efeito Coolidge”).

Certas pessoas, no entanto, são capazes de trazer para nós, de forma continuada, uma boa dose imprevisibilidade, vitalidade, e desafio. Outras pessoas passam a nos roubar energia e nos colocar para baixo. A maioria das pessoas fica entre esses dois extremos, neste quesito. Por isso, é bom escolher bem o parceiro e cuidar para que ele continue sempre com a mesma vitalidade que mostrava no início do relacionamento.

Pessoas que não são vitalizadoras

Certas pessoas não contribuem direta ou pessoalmente para dar sentido e energia para nossa vida. Ou elas estão ausentes ou, quando presentes, não são nada energéticas, ou ainda, não estão interessadas em nós. É muito comum ouvirmos afirmações do seguinte tipo sobre essas pessoas ou por parte delas:

- “Ele me dá tudo, mas não presta atenção em mim”.

- “Ele é capaz de fazer qualquer coisa por mim e pelos filhos, mas é muito chato!”

-“Ele não sabe conversar. Não repercute o que eu digo, não compartilha o que está pensando e não inicia assuntos!”

- “Ele não tem sede de viver: não é muito curioso, adora rotinas e odeia surpresas e coisas arriscada”.

- “Ele me ama, mas é impaciente para ouvir minhas opiniões”.

- “Ele me trata como uma obra de arte: gosta de me ver, ama me possuir, cuida de mim, tem orgulho de estar comigo em público, mas não se interessa pela forma como penso, sobre minhas preocupações ou sobre o que gostaria de realizar na vida”.

- “Estou o tempo todo trabalhando e quase não tenho tempo para a família. Faço isso para que proporcionar para eles o melhor conforto possível e segurança econômica”.

Essas frases dizem respeito a pessoas que proporcionam coisas, mas elas próprias não são fontes de vitalidade para seus familiares.

Contribuições de um bom parceiro para a nossa satisfação

Algumas pessoas são verdadeiros espetáculos contínuos. Quando estamos perto delas, não experimentamos o aborrecimento e o desânimo. O cotidiano ao lado delas parece sempre renovado porque elas agem sempre de forma inesperada e viva ao que está acontecendo. Elas são cheias de iniciativas e reagem aos nossos comportamentos de forma verdadeira e, por isso, criativa. Elas usam menos clichês do que outras pessoas para responder ao que dizemos e sempre nos estimulam a ver as coisas de forma diferente do habitual. São verdadeiras usinas de vida.

Quem não gostaria de ter um parceiro que proporcionasse pelo menos algumas das seguintes dádivas:

- Companheiro para tudo na jornada da vida.

- Conversas envolventes, criativas e nutritivas.

- Transmutador da realidade: a paixão amorosa que ele inspira transforma magicamente a nossa realidade.

- Prazer enlouquecedor através do sexo criativo, envolvente e competente.

- Ampliador dos limites do eu: a sua forma de ver a realidade, a todo o momento, amplia a minha forma de perceber as coisas e estimula continuamente o meu crescimento psicológico.

- Apoio ilimitado: “Na saúde e na doença”, “Na alegria e na tristeza” ...

- Fã incondicional: fonte inesgotável de admiração pela minha forma de ser, pensar e agir.

- Sócio nos lucros e perdas: estamos no mesmo barco na luta para conquistar aquilo que a vida oferece de melhor.

- Bem sucedido: bem sucedido na área econômica e social.

- Sempre lutando ombro a ombro: sempre dispostos a assumir os afazeres e obrigações que são necessários para a manutenção do lar e a educação dos filhos.

 

Ter um parceiro que proporcione os benefícios citados acima realmente afeta muito mais o nosso nível de felicidade do que possuir muitos bens ou obter um aumento significativo do nosso rendimento econômico. Da mesma forma, proporcionar essas coisas para o parceiro é extremamente importante.

O nosso tempo e a nossa energia são limitados. Temos que investi-los da melhor forma possível. Temos que decidir quanto tempo e quanta energia vamos usar para tentar obter bens materiais ou para cultivar bons relacionamentos. 

Problemas para valorizar o parceiro amoroso ou o casamento? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Putnam, R. Putnam: ‘Strongest predictors of happiness are social relationships. http://chqdaily.com/2013/07/23/putnam-strongest-predictors-of-happiness-are-social-relationships (Consultado em 10/08/2014).

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Por Ailton Amélio às 08h26

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.