Blog do Ailton Amélio

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22/02/2015

Como escolhemos nossos parceiros amorosos

No campo amoroso, a seleção de parceiros segue um conjunto de normas ou princípios. As pessoas usam estes princípios para escolher parceiro que têm as qualidades que elas querem e que não tenham os defeitos que elas não querem.

As pessoas têm pouca consciência do que estão usando esses princípios. Se perguntarmos para elas, quais as regras que estão seguindo para escolher um parceiro amoroso, a maioria delas terá muita dificuldade para falar sobre isso e poderá, inclusive, negar que siga qualquer regra com esta finalidade.

Os princípios que têm mais influência na maioria das seleções de parceiros são os seguintes: princípio da admiração, princípio da homogamia, princípio da heterogamia, princípio das médias ponderadas das qualidades e defeitos e o princípio dos defeitos graves. Vamos examinar agora esses princípios (O meu livro “O Mapa do Amor”, Editora Gente, apresenta mais detalhadamente esse assunto).

 

O Princípio da Admiração

“A admiração é um requisito para o amor.” (Stendhal)

Para nos apaixonarmos por uma pessoa é necessário que a admiremos. Segundo o escritor Stendhal, a admiração é um dos requisitos essenciais para o nascimento do amor (Stendhal, 1999).

Quando uma pessoa é admirada, isto significa que possui qualidades que o admirador valoriza e gostaria de ter em si ou para si. Segundo a teoria da expansão do ego, ter um relacionamento amoroso com uma pessoa admirada é uma forma de incorporá-la, juntamente com as suas qualidades desejadas, ao ego do admirador.  Ou seja, esta é uma forma de o amante adquirir as qualidades admiradas do amado (Aron e Aron, 1996).

Em geral, preferimos um parceiro amoroso que tenha o maior número possível de qualidades e a intensidade máxima de cada uma destas qualidades.  Suponhamos que vamos escolher um dentre dois pretendentes, os quais diferem apenas quanto ao grau que possuem de uma determinada qualidade como, por exemplo, a beleza. Qual deles seria o escolhido? Quase todo mundo escolheria, sem pestanejar, o mais bonito.

Algumas vezes, o atributo que é considerado “o melhor possível” independe de quem está fazendo a escolha (por exemplo, uma pessoa gentil e atenciosa é valorizada por quase todo mundo) e, outras vezes, depende de quem está fazendo a escolha (por exemplo, a altura ideal de uma mulher depende, pelo menos em parte, da altura do parceiro).


O Princípio da Homogamia

“Temos algo em comum.” (Frase popular)

Este princípio afirma que os relacionamentos amorosos têm mais chance de dar certo quando os parceiros são semelhantes entre si.

Este talvez seja o princípio mais importante que rege a seleção de parceiros. Os estudos científicos vêm mostrando, cada vez mais claramente, que nos relacionamentos amorosos que dão certo (são iniciados mais facilmente, têm um grau maior de satisfação, duram mais etc.), os parceiros são semelhantes entre si em um número muito grande de características.

            A história de André, que vamos relatar agora, é uma história real que ilustra bem algumas das razões que levam uma pessoa a optar por um parceiro que lhe seja semelhante.

 As consequências negativas de arranjar uma namorada de outro nível econômico

(Caso real. Os nomes e alguns detalhes foram trocados para não permitir a identificação dos personagens).

André apresentou a sua nova namorada, Anne, para os amigos. No outro dia, quando André voltou a encontrar os amigos, sem a presença da namorada, recebeu pesadas críticas. Os amigos lhe disseram coisas do tipo:

“Esta moça não é para você. Ela está acostumada com as coisas boas da vida e você não vai ter dinheiro para fornecer tais coisas para ela.”

“Você vai gastar todo o seu dinheiro em restaurantes, boates e locais de férias, e depois, ela vai abandonar você.”

“Ela não é do nosso meio. Ela vai te fazer sofrer.”

“Ela só tem amigos que moram em mansões e que têm Mercedes e BMWs. Estes caras não vão se entrosar com a gente.”

André ficou bastante abalado com esta reação dos amigos. Afinal, a namorada havia sido tão simpática com eles. Surgiu a dúvida na sua cabeça: “Será que vou conseguir ser feliz com Anne?”.

Tempos depois, André e Anne começaram a ter atritos, geralmente relacionados com os hábitos caros de Anne, e se separaram.

Esta história de André e Anne mostra bem algumas das razões pelas quais o relacionamento amoroso entre duas pessoas muito diferentes tem pouca chance de dar certo.

O Princípio da Heterogamia

“Os opostos se atraem.” (Frase popular)

Este princípio afirma que certas diferenças entre os parceiros contribuem para que um relacionamento amoroso entre eles dê certo.

Realmente, existem certas diferenças entre os parceiros amorosos que são bem-vindas. Por exemplo, as diferenças físicas entre os homens e as mulheres são consideradas ingredientes fundamentais da beleza feminina e masculina.

Muitas vezes, a direção e a intensidade da diferença desejável são especificadas. Por exemplo, geralmente é desejável que o homem seja mais alto e mais velho do que a mulher e não o contrário. Estas diferenças de altura e idade, no entanto, não devem exceder certo limite: é indesejável ou até mesmo ridículo que um homem seja muito mais alto ou muito mais velho do que a sua parceira amorosa.

Mesmo quando uma diferença não é desejável, ela pode ser mais tolerável quando ocorre num determinado sentido. Por exemplo, na nossa cultura, é mais tolerado que o homem seja mais rico e tenha um status social um pouco mais alto do que o da sua parceira do que vice-versa.

Todas as diferenças em atributos importantes entre os membros de um casal podem ser considerados débitos que terão que ser saldados em algum momento. Por exemplo, se a aparência de um cônjuge é muito melhor do que a do outro, esta discrepância fica registrada como um crédito que deverá ser compensado, de alguma forma, pelo parceiro de pior aparência (o Princípio das Médias Ponderadas de Defeitos e Qualidades, apresentado mais à frente, vai explicar como se realiza esta compensação).

 

O Princípio da Complementaridade

 “Quem é tímido geralmente arranja uma namorada extrovertida.” (Frase popular)

Este princípio afirma que a complementaridade entre certas características dos parceiros contribui para que o relacionamento amoroso entre eles se inicie mais facilmente e seja mais satisfatório e duradouro.

A complementaridade em certas características realmente propicia as condições para que os parceiros possam funcionar como uma equipe, o que aumenta as suas eficácias para atingir objetivos em comum.

A teoria da complementaridade foi apresentada formalmente por Winch (1955). Segundo esta teoria, as pessoas procuram satisfazer as suas necessidades casando-se com parceiros que as preencham, com os quais não entrem em conflito ou que as “complementem”. Quando dois parceiros se complementam em vários aspectos, eles satisfazem várias necessidades mútuas.

Embora esta teoria seja muito atraente, sua comprovação empírica é pequena: as pesquisas realizadas para testá-la não conseguiram mostrar que ela realmente funciona nas escolhas de parceiros. Por exemplo, Sinderber e outros (1972) realizaram um estudo para verificar que tipos de complementaridade nos traços de personalidade e nos interesses contribuíam para o sucesso da formação de casais em agências de casamento. Este estudo só encontrou num único traço de personalidade que contribuía neste sentido: “espirituoso-plácido”. A complementaridade em outros traços de personalidade incluídos neste estudo (por exemplo, submissão-domínio, sensato-irrefletido, confiante-apreensivo, indisciplinado-disciplinado, calmo-nervoso etc.) não contribuía para a formação de casais. No caso de alguns destes traços, o que realmente predispunha ao casamento eram as semelhanças entre os membros do casal. Para muito outros traços, era irrelevante o fato de dos membros do casal serem semelhantes, diferentes ou complementares entre si: isto não afetava as chances de casamento.

O Princípio das Médias Ponderadas dos Defeitos e Qualidades

 “Este cara feio deve ser muito rico para conseguir namorar uma bela mulher como aquela.”(Frase popular)

 Este princípio afirma que as pessoas avaliam o grau de atração dos seus parceiros amorosos levando em conta as suas qualidades e defeitos. Nesta avaliação, as pessoas também levam em conta as importâncias de cada um destes defeitos e qualidades.

Quando há discrepância muito grande entre os valores médios de atração de duas pessoas, é menos provável que elas iniciem um relacionamento amoroso entre si e, naqueles casos onde elas iniciam, é menos provável que esse relacionamento seja satisfatório e que dure muito tempo.

O escore de atração de uma pessoa depende dos critérios de cada avaliador: diferentes avaliadores podem atribuir diferentes pesos para cada uma das qualidades e defeitos de uma pessoa que está sendo avaliada.

Os critérios levados em conta para selecionar um parceiro amoroso também podem variar de acordo com o estágio do relacionamento. Por exemplo, a beleza pode pesar mais nos primeiros encontros do que na hora de tomar a decisão a decisão de casar com a pessoa.

 

O princípio dos defeitos graves

Para que um parceiro amoroso seja considerado atraente e adequado deve, além de possuir as qualidades que enumeramos anteriormente, não ter muito defeito e estar livre de defeitos graves.

Muitos dos defeitos graves são os inversos das qualidades desejáveis. Isto pode ser facilmente constatado colocando-se as locuções negativas “Não ter” ou “Não ser” na nossa lista das qualidades valorizadas em parceiros amorosos. Os inversos dessas qualidades geralmente são considerados defeitos muito sérios. Quanto mais importante for uma qualidade, maior é a gravidade do defeito decorrente da sua ausência ou da presença de um atributo que é o seu oposto. 

Tal como no caso das qualidades, o que é considerado um defeito é determinado por fatores universais, culturais e individuais.

Em relação aos defeitos graves, não funciona o Princípio das Médias Ponderadas dos Defeitos e Qualidades, apresentado acima. Ou seja, estes defeitos não são compensáveis por qualidades. Por exemplo, mesmo que uma pessoa seja gentil, atenciosa, bonita, rica e afetuosa, ainda assim, ela não despertará o amor da grande maioria dos seus pares, caso tenha uma inteligência muito limitada. Não há qualidade ou grupo de qualidades que compense este tipo de defeito.

NOTA

Este artigo foi baseado no capítulo 4 do meu livro "Relacionamento Amoroso", Editora Gente. As referências completas das bibliografias citadas acima são fornecidas neste livro.

Você escolhe parceiros amorosos errados? Procure a ajuda de um psicólogo

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Por Ailton Amélio às 09h28

15/02/2015

Como verificar se alguém tem interesse amoroso por você

Você é eficiente para verificar se aquelas pessoas pelas quais você se interessa amorosamente também têm esse tipo de interesse por você?

Muitos relacionamentos amorosos não são iniciados simplesmente porque ambas as partes não verificam eficientemente se seus interesses são correspondidos.

Um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso para iniciar namoros é a disposição, a coragem e a habilidade para verificar se aquelas pessoas por quem nós temos interesse amoroso também têm esse tipo de interesse por nós.

 

Teste da capacidade para verificar se há reciprocidade do interesse amoroso

Responda ao seguinte teste para fazer uma ideia da sua capacidade para verificar se as pessoas sentem atração amorosa por você.

Para responder, assinale com um X sobre a linha de cada escala.

Quanto mais para a direita você coloca o X mais você concorda com a afirmação. Quanto mais para a esquerda você coloca o X menos você concorda com a afirmação. Quando você coloca o X no meio da escala você nem  concorda nem discorda da  afirmação.

 

1- As pessoas não percebem quando sinto atração amorosa por elas.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

2- Quando sinto atração amorosa por uma pessoa, tenho muita dificuldade para verificar se ela também sente atração por mim.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

3- Não sei como agir para verificar quais são as minhas chances de iniciar um relacionamento amoroso com as pessoas que me interessam.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

4- Eu tenho muito medo de mostrar o meu interesse amoroso pelas pessoas.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

5- Geralmente só namoro as pessoas que tomam a iniciativa de iniciar relacionamentos amorosos comigo.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

Se você assinalou um número maior do que 4 em todas estas questões, você provavelmente tem dificuldades para verificar se o seu interesse amoroso por um parceiro é correspondido. Este artigo ajudará você a entender o que está acontecendo.


Vantagens da verificação eficiente da reciprocidade do interesse amoroso

Existem três grandes vantagens de verificar logo no início se há reciprocidade no interesse amoroso:

1- Verificar logo no início faz com que nos apaixonemos apenas por aquelas pessoas que também poderão se apaixonar por nós. Quando uma pessoa, à medida que vai se apaixonando por outra, também vai verificando se este sentimento está sendo correspondido, ela condiciona a continuidade e o crescimento da sua paixão à reciprocidade da outra pessoa. Quando uma pessoa está se apaixonando por outra e verifica que este interesse não é recíproco, isto a impede de continuar se apaixonando.

2- Verificar aumenta as chances de que a outra pessoa se apaixone. O processo de verificação é também um processo de conquista. As ações que são eficientes para verificar se há interesse amoroso por parte de uma pessoa são igualmente eficientes para despertar e fazer o interesse desta pessoa crescer. Este tipo de efeito colateral é observado principalmente quando a verificação inclui a manifestação de interesse do próprio verificador ou quando o verificador começa a tratar o verificando de uma forma especialmente agradável e positiva (olhar para ele, tocá-lo, ser gentil com ele etc.).

3- Verificar logo no início poupa tempo. Quando uma pessoa descobre rapidamente que a outra não está interessada por ela, ao invés de prolongar o caso, ela pode “fazer a fila andar” e começar a se interessar por outra pessoa.


Maneiras de verificar se há reciprocidade do interesse amoroso

“Quem não arrisca não petisca.”(Ditado popular)

 

A verificação amorosa é constituída por aquelas ações do verificador que o ajudam a esclarecer se um possível parceiro está amorosamente interessado por ele. Estas ações ajudam o verificador a interpretar melhor as razões pelas quais o parceiro está agindo da forma como age. Por exemplo, a verificação ajuda a entender se o parceiro está sendo tão gentil porque ele é assim com todo mundo, porque deseja obter um favor ou porque tem algum interesse amoroso. Ou seja, a verificação diminui a ambiguidade quanto às causas da ação do parceiro.

Dizemos que um comportamento é amorosamente ambíguo quando existem pelo menos duas hipóteses diferentes para explicar a sua causa, sendo que uma destas possíveis hipóteses é que a sua causa é de natureza amorosa.

Esta ambiguidade acontece porque alguns tipos de comportamentos amorosos também aparecem em vários outros tipos de relacionamento. Por exemplo, ser atencioso, cordial e prestar pequenos favores são comportamentos que aparecem nos relacionamentos profissional, amistoso e amoroso. Por este motivo é difícil interpretar o motivo pelo qual uma pessoa está sendo gentil.

Outro exemplo ainda mais concreto: uma oferta de carona pode ter uma motivação amorosa (quem oferece a carona está interessado em iniciar um relacionamento amoroso com o carona), amistosa (quem oferece a carona está querendo reforçar a sua ligação amistosa com o carona) ou comercial (quem oferece a carona vai pedir um empréstimo durante o trajeto), ou se trata simplesmente de uma gentileza (“É o jeito dele. Ele faria isso para qualquer um”).


Estratégias de Verificação

Existem dois tipos básicos de estratégias de verificação da reciprocidade do interesse amoroso: (1) A estratégia da minimização de riscos e (2) a estratégia da troca de informações por riscos.


Estratégia da minimização de riscos,

Nesta estratégia o verificador procura saber se há interesse amoroso por parte do parceiro sem revelar o seu próprio interesse.

Este tipo de estratégia é usado, por exemplo, quando uma pessoa tenta obter informações sobre os interesses amorosos de alguém através de um amigo em comum.

Outro exemplo do uso desta estratégia: o verificador não emite nenhum sinal de interesse amoroso pelo parceiro, mas tenta ler os sinais deste interesse que emite na sua direção.

As pessoas que querem adotar esta tática geralmente são as mais interessadas em aprender quais os sinais verbais e não verbais que indicam que alguém está amorosamente interessado por elas.

Estes sinais, no entanto, não são totalmente claros, nem mesmo para quem tem prática na leitura dos sinais verbais e não verbais de interesse amoroso. Uma das razões desta falta de clareza é que as pessoas muitas vezes omitem, pelo menos parcialmente, o que estão sentindo. Raramente as pessoas emitem sinais inequívocos dos seus interesses no início de um relacionamento amoroso.  Muitos destes sinais inequívocos são extremamente inadequados e podem, inclusive, ofender o parceiro. Alguns destes sinais inequívocos são os seguintes:

- Dizer:

“Eu te amo.”

“Quero namorar com você”

- Ficar conversando com a outra pessoa frente a frente e com o rosto a menos que um palmo do rosto dela e olhar fixamente para os seus olhos.


Estratégia da troca de informações por riscos

Nesta estratégia, o verificador dá sinais do seu próprio interesse amoroso pelo parceiro e observa as suas reações para verificar se há reciprocidade da sua parte, ou seja, o verificador assume os riscos decorrentes deste tipo de revelação.

Este tipo de verificação pode acontecer de uma forma abrupta e direta ou de uma forma sutil e gradual. A forma abrupta e direta ocorre, por exemplo, naqueles casos onde o verificador comunica verbalmente o seu interesse amoroso pelo parceiro e pergunta se ele sente a mesma coisa. A forma sutil e gradual dessa estratégia ocorre quando o verificador vai revelando cautelosamente os seus sentimentos e intenções amorosas, através da comunicação não verbal e/ou da comunicação verbal, e, ao mesmo tempo, vai observando como o parceiro está reagindo às suas revelações. Por exemplo, o verificador vai tocando cada vez mais frequente e demoradamente a mão do parceiro cujo interesse amoroso ele quer verificar e vai observando se este reage positiva ou negativamente aos seus toques. 

Você tem dificuldades para verificar quem está amorosamente interessado em você? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Este artigo foi baseado em um capítulo do meu livro "O Mapa do Amor", Editora Gente.

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Por Ailton Amélio às 09h22

08/02/2015

Ouvir de verdade: uma dádiva!

Pense na última conversa que você teve com três pessoas próximas (parente, amigo, cônjuge, etc.) e responda a seguinte pergunta (responda três vezes, uma para cada pessoa).

No último encontro com cada uma dessas pessoas, quanto tempo você realmente prestou atenção no que se passava com ela e conversou com ela a esse respeito?

Ao responder essa pergunta, temo que a maioria das pessoas afirme que passou pouco tempo atento para o que estava acontecendo com cada um dos três interlocutores e conversando a esse respeito com cada um deles.

Nos nossos encontros pessoais, geralmente não gastamos muito tempo procurando saber como nossos interlocutores estão se sentindo, quais assuntos estão presentes nas suas cabeças, quais acontecimentos importantes estão ocorrendo com eles, o que eles andam planejando, com o que andam preocupados, etc.

Na melhor das hipóteses, passamos rapidamente por esses temas e, quando nada de muito óbvio é constatado, logo começamos a falar sobre outras pessoas, atualidades, etc. e a nos esforçar para projetar uma imagem lisonjeira da nossa pessoa para nossos interlocutores. Cada um dos participantes da conversa está tão preocupando consigo próprio e com aquilo que o afeta que nem presta atenção ou dedica muito esforço para tomar conhecimento do que se passa com o interlocutor.

 

Ouvir de verdade: uma dádiva!

Ouvir sem esforço, sem resistência, com total interesse, muita disponibilidade para compreender e sem nenhum desejo de modificar o interlocutor. Essas são algumas das características de um ouvinte totalmente disponível, solidário e interessado.

Ouvir dessa forma é a principal maneira de validar a existência e modo de ser da outra pessoa. Essa pessoa é aceita como única. Quem ouve desse modo acredita que existe muita beleza, arte e sabedoria nessa unicidade. É a maneira mais profunda de fazermos contato com outro ser humano.

Essa forma de ouvir é extremamente acolhedora e ajuda o interlocutor a ver a si próprio, a se desenvolver e a se aperfeiçoar. Essa forma de ouvir tem propriedades curativas e estabelece e fortalece os vínculos entre o ouvinte e quem o ouve.

Quem ouve assim também se beneficia: ouvir dessa forma ensina muito porque permite ao ouvinte entrar em contato real com outro ser humano e descobrir a sua forma de lidar com a realidade. Isto é benéfico para o ouvinte porque o que ele aprendendo enquanto ouve dessa forma permite que ele reflita pensar sobre a sua própria maneira de ver as coisas, que também é peculiar.

Quem consegue ouvir assim o outro, também consegue ouvir a si próprio!

O seguinte exemplo ilustra a importância que tem ouvir plenamente outra pessoa.


Nenhum outro benefício compensa não ser ouvido

Guilherme fala para Helena:

Sou apaixonado por você. Penso em você frequentemente e sou muito romântico com você: adoro olhar nos seus olhos e, quando faço isso, perco a noção do tempo e quase entro em êxtase.

Tenho o maior orgulho de ser seu marido. Você é linda e carismática. Onde quer que eu apareça na sua companhia, sou invejado.

Tenho a maior atração sexual por você.

Eu faço tudo por você: ajudo em casa, você tem o melhor carro da família, faço questão que você se vista muito bem, more bem e coma do bom e do melhor. Faço todas as suas vontades: vou buscar você onde quer que esteja e a qualquer hora; sempre viajamos para onde você quer...

Helena responde para Guilherme:

- Você realmente me ama, tem orgulho de estar casada comigo e faz por mim tudo isso que você disse!

No entanto, você não gosta de conversar comigo, não se interessa pelo que penso, não sabe o que me realiza e o que me preocupa na vida.  Acho que você não gosta dos meus assuntos, não valoriza o que penso e não se interessa pelos meus sentimentos.

Sempre que estamos juntos, você está com a atenção e outra coisa: mexendo no computador, assistindo TV, dando mais atenção para os seus amigos do que para mim...

Você não me conhece mais. Só cuida do meu bem estar físico e do meu conforto material, e isso não é suficiente. Para você, sou como um carro de luxo: você adora o seu brinquedinho, tem orgulho dele, cuida muito bem dele, mas, por motivos óbvios neste caso, não conversa com ele.

Quero alguém que me valorize como pessoa e não, apenas, que cuide de mim como cuidaria de um objeto de luxo.

[Essa história foi publicada originalmente no seguinte artigo deste blog: “Relacionamento sem intimidade é como saco vazio que não para em pé” em 01/11/2014].

Você tem dificuldade para ouvir de verdade as outras pessoas? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 08h35

01/02/2015

O olhar pode despertar o amor

O relacionamento amoroso pode ser iniciado de muitas formas (convites, conversas telefônicas, um beijo durante uma dança, etc.). No entanto, quando no início deste relacionamento há flerte através de trocas de olhares, isto aumenta a segurança de que há uma atração romântica genuína entre o par e enfraquece a hipótese de que este namoro está sendo iniciado por outras razões (carência, oportunidade, provocar ciúmes em outras pessoas, etc.).

O olhar é importante em todos os estágios do relacionamento amoroso. Por exemplo, ele é importante para: (1) chamar a atenção do possível parceiro amoroso (tendemos a prestar atenção em quem está olhando para nós), (2) mostrar os primeiros sinais de interesse amoroso, (3) confirmar este interesse, (4) dar permissão para que um desconhecido faça uma abordagem e inicie uma conversa, (5) negociar a passagem de um relacionamento extra-amoroso para um para um relacionamento amoroso, (5) manifestar e despertar afeto no parceiro durante o namoro e (7) sinalizar para o parceiro que ele, ou aquilo que ele está dizendo, é muito importante.

Neste artigo, vamos examinar alguns desses efeitos do olhar no início e no desenvolvimento de relacionamentos amorosos.

O olhar aprofunda os sentimentos

Olhar silenciosamente

Exercício:

Duas pessoas ficam frente a frente e recebem instruções para ficarem em silêncio e se olharem nos olhos durante alguns minutos.

Durante esse exercício, elas acabam “vendo” uma à outra. Vendo sem os estereótipos usuais. É um contato profundo. Cada uma viu a outra como um ser humano. Elas deixaram de usar os filtros, as imagens que tinham sobre as pessoas em geral e sobre aquela pessoa que está ali na sua frente, em particular.

Ser é visto desta forma é tocante: a outra pessoa olhou para mim de verdade. Ela abriu mão de estereótipos, imposições, expectativas a meu respeito e permitiu que “aquilo que sou de verdade” chegasse até ela. Ser visto desta forma é ser visto de verdade e sem reservas.  

Muitas pessoas choram durante esse exercício. Muitas pessoas se abraçam e se afagam.

Somos altamente sensíveis a este tipo de olhar. Quando acontece, ele nos atinge profundamente. Infelizmente é muito raro as pessoas se olharem desta forma no dia a dia.

Como desencadear um relacionamento amoroso através do modo de olhar

Uma forma relativamente eficaz, mas muito pouco usada, de desencadear um relacionamento amoroso é olhar demoradamente para a região dos olhos da outra pessoa, ou seja, encarar tal pessoa. Quando encaramos uma pessoa, olhamos para a região dos seus olhos e deixamos que ela perceba isso.

Quando começamos a fazer isso com uma pessoa, ela geralmente olha de volta, pelo menos para certificar-se de que está sendo encarada.

Quando ela lança este olhar certificador e quem a está encarando continua a olhar para os seus olhos, ela interpreta isso como sinal de interesse por parte de quem está encarando, possivelmente um interesse amoroso. Quando uma pessoa é encarada, ela pode corresponder e também encarar de volta a pessoa que a está encarando.

Olhar entre as sobrancelhas.

Quando uma pessoa tem dificuldade para olhar diretamente nos olhos de quem ela está interessada, como geralmente acontece com os tímidos, ela pode olhar na região próxima aos olhos da outra pessoa, como entre as suas sobrancelhas ou na raiz do seu nariz. Olhar nesta região pode ser mais confortável do que olhar diretamente nos olhos da outra pessoa e é igualmente eficiente. (Quando a distância entre as duas pessoa é de pelo menos um metro quem está sendo olhado não sabe distinguir se a outra pessoa está olhando nos seus olhos ou nestas regiões próximas aos olhos).

Olhar demoradamente nos olhos pode disparar paixão instantânea

Recentemente Arthur Aron, um grande pesquisador e teórico do amor, propôs um método para provocar o apaixonamento instantâneo (Veja um link para esta publicação no final deste artigo). Este método consiste em dois procedimentos:

1- Compartilhar pensamentos e sentimentos íntimos: cada pessoa apresenta 36 perguntas para a outra. Essas perguntas têm o objetivo de produzir rapidamente o compartilhamento da intimidade.

2- Olhar nos olhos da outra pessoa por quatro minutos, sem falar nada. Olhar demoradamente e em silêncio nos olhos da outra pessoa geralmente produz uma grande dose de proximidade psicológica.

Existem algumas evidências que indicam que essa maneira de despertar o amor pode ser bem sucedida. Claro que o seu sucesso depende do grau de compatibilidade entre os parceiros em vários outros setores (faixa etária, nível socioeconômico, beleza, etc.).

Costumo usar esse tipo de olhar no meu consultório para tentar reavivar o amor entre casais.

O olhar ajuda a localizar desconhecidos interessados em flertar com você

Monica Moore, uma pesquisadora americana do flerte em locais públicos, identificou três tipos de olhar que eram lançados por interessados em começar um flerte:

1- Olhar de varredura. Quando existem diversas pessoas em um ambiente percorrem o olhar pelo ambiente repetida vezes e verificam aqueles que também estão olhando de volta.

2- Olhar dardo. Fazer contato de olhos por menos que três segundos. Olhar para os olhos da pessoa um tempo um pouquinho maior do usual - aquele esperado para cruzamentos casuais de olhares.

Se a pessoa olhada desviar o olhar no tempo regulamentar (tempo usual para este tipo de evento), isto funciona como se ela dissesse: “Só olhei para ver quem era você ou se você estava olhando para mim” (esta já é certa manifestação de interesse).

3- Fixação do olhar. Se, nesta ocasião, a outra pessoa faz contato de olho com você, o tempo suficiente para que ambos verifiquem que o outro está olhando e deixando ver que está olhando isto significa que ela está aberta para um relacionamento.

Se a outra pessoa olhar de volta, não desvie o olho imediatamente. Também não fique olhando fixamente um tempo exageradamente grande. Olhe até ela perceber o seu olhar. Se ela corresponder, o seu flerte foi bem sucedido. Pode se aproximar para conversar com ela.

Mesmo estando longe, só tenho olhos para você

A seguinte história mostra a importância do olhar na manifestação do interesse amoroso.

O apaixonado tenta manter a pessoa amada dentro do seu campo de visão

 Mariana era a convidada especial da festa de André. André era muito tímido. Na festa, todos sabiam do seu interesse por Mariana. No entanto, a sua timidez impedia-o de tirá-la para dançar ou ficar conversando com ela. Ele não queria conversar ou dançar com mais ninguém. Toda vez que Mariana se aproximava dele, ele ficava praticamente mudo ou falava coisas que eram irrelevantes para expressar o que realmente ele estava sentido e gostaria de dizer. A única pista que denuncia claramente o seu forte interesse por Mariana era o seu olhar: a qualquer instante que ela olhava na sua direção, lá estava ele estava olhando para ela. Onde quer que ela estivesse, a face dele sempre estava voltada na sua direção. Ele só tinha olhos para ela. (História real. Certos detalhes que permitiriam a identificação dos personagens foram alterados).

Esta história mostra como é difícil tirar os olhos da pessoa por quem sentimos muito interesse amoroso. Para o enamorado, esta pessoa é o que existe de mais atraente no local onde ambos se encontram.

A paixão ou o amor romântico por alguém é um dos fenômenos mais importantes que podem existir para um ser humano. Por este motivo, é natural que olhemos para quem nos atrai amorosamente e deixemos de olhar para outras pessoas, objetos ou eventos que também estão presentes no mesmo ambiente. Assim sendo, a maneira de olhar é uma pista muito importante sobre a existência ou não de um interesse amoroso por parte de quem olha ou deixa de olhar.

Flerte durante a conversa: só tenho olhos para você

“Traz mais uma, por favor,” diz o enamorado, apontando para a garrafa vazia de cerveja, sem tirar os olhos da companheira, sem olhar para o garçom.

“Ela era filha do dono de uma farmácia e, naquele dia, estava substituindo um caixa que faltou. Passei lá para comprar uma loção de barba. Na hora que fui pagar, notei que ela queria conversar. Começamos a conversa. Ela só olhava para mim. Ela não notava a presença outros clientes que chegavam para efetuar seus pagamentos. Eu é que tinha que chamar a sua atenção para a chegada desses clientes. Ela também não estava prestando atenção nos trocos: errou várias vezes! Eu tive que alertá-la ou os clientes reclamavam (sempre que eles recebiam a menos, é claro!!)”.

(História real. As características pessoais e profissionais dos personagens foram alteradas para não permitir suas identificações). [história real, dados identificadores fictícios].

Durante a conversa, deixar de olhar para o ambiente ao redor é um poderoso sinal de interesse amoroso

Uma das melhores pistas que indicam o interesse amoroso de uma pessoa por outra é “só tem olhos” para esta pessoa. A história da filha do dono da farmácia apresentada acima ilustra bem isso. Quando o rapaz em quem ela estava interessada chegou à farmácia, ela só tinha olhos para ele: não conseguia olhar nem mesmo os clientes que vinham efetuar os seus pagamentos. Na hora de fazer o troco, ela cometeu muitos erros grosseiros. Toda a sua atenção estava canalizada para o rapaz que estava ali na sua frente.

Quando se trata de alguém em quem temos interesse amoroso, olhamos quase que continuamente para a pessoa esteja ou não ela fazendo algo interessante. Ela é interessante de qualquer forma. Ela é mais interessante do que os outros fatos que estão ocorrendo.

Você não consegue usar o olhar para iniciar e fazer progredir relacionamentos amorosos? Consulte um psicólogo.

NOTA

Aron, A et al. The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings. http://psp.sagepub.com/content/23/4/363.full.pdf+html 

(Consultado em 31/01/2015)

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Por Ailton Amélio às 09h12

25/01/2015

Quando o seu cônjuge é seu melhor amigo, suas chances de felicidade são maiores

Um artigo científico publicado recentemente apresentou evidências que confirmam que o bom casamento contribui duradouramente para a felicidade e evidências que indicam que um dos principais aspectos do casamento que contribui para a felicidade é a amizade entre os cônjuges. Este é o tema que vamos abordar nesta publicação.


Amizade é diferente de dedicação e amor romântico

As duas seguintes histórias ajudam e entender melhor o conceito de amizade. (Essas histórias foram apresentadas anteriormente no meu artigo: “Relacionamento sem intimidade é saco vazio que não para em pé”).

Sofia e Arlindo: alto grau de amizade entre o casal

Sofia e Arlindo estão morando juntos. Sempre que alguém pergunta para qualquer um dos dois “Quem é o seu melhor amigo?”, cada um deles, invariavelmente e sem pestanejar, responde que é o outro cônjuge.

Sofia e Arlindo gostam muito um do outro, confiam totalmente no outro, colocam em primeiro lugar o relacionamento que existe entre eles, são compreensivos entre si, validam o modo de pensar e sentir do outro, interessam-se muito sobre o que está se passando com o outro, compartilham bastante com o outro aquilo que é importante para si e sabem que podem contar com o outro tanto na área psicológica quanto na área material.

Sofia e Arlindo adoram conversar entre si e não têm medo de compartilharem entre si o que estão sentindo e pensando. Sabem que não precisam se defender do outro porque este será compreensivo e continuará gostando e admirando após o compartilhando. 


Guilherme é apaixonado e dedicado a Helena, mas não é seu melhor amigo.

Guilherme fala para Helena:

Sou apaixonado por você. Penso em você frequentemente e sou muito romântico com você: adoro olhar nos seus olhos e, quando faço isso, perco a noção do tempo e quase entro em êxtase.

Tenho o maior orgulho de ser seu marido. Você é linda e carismática. Onde quer que eu apareça na sua companhia, sou invejado.

Tenho a maior atração sexual por você.

Eu faço tudo por você: ajudo em casa, você tem o melhor carro da família, faço questão que você se vista muito bem, more bem e coma do bom e do melhor. Faço todas as suas vontades: vou buscar você onde quer que esteja e a qualquer hora; sempre viajamos para onde você quer...

Helena responde para Guilherme:

- Você realmente me ama, tem orgulho de estar casada comigo e faz por mim tudo isso que você disse! No entanto, você não gosta de conversar comigo, não se interessa pelo que penso, não sabe o que me realiza e o que me preocupa na vida.  Acho que você não gosta dos meus assuntos, não valoriza o que penso e não se interessa pelos meus sentimentos.

Sempre que estamos juntos, você está com a atenção e outra coisa: mexendo no computador, assistindo TV, dando mais atenção para os seus amigos do que para mim...

Você não me conhece mais. Só cuida do meu bem estar físico e do meu conforto material, e isso não é suficiente. Para você, sou como um carro de luxo: você adora o seu brinquedinho, tem orgulho dele, cuida muito bem dele, mas, por motivos óbvios, não conversa com ele.

Quero alguém que me valorize como pessoa e não que cuide de mim como cuidaria de um objeto de luxo.

Essas duas histórias sugerem que a conversa é a forma mais nobre de mostrar amizade, valorizar e considerar uma pessoa. Claro que não é qualquer tipo de conversa que tem esse efeito. Para mostrar essas atitudes positivas por uma pessoa, é necessário dar-lhe atenção, mostrar que sente prazer com a sua companhia, ouvir ativamente o que ela diz e se interessar pelo que ela sente e pensa.  


Sempre houve e sempre haverá alguma forma de casamento

Os antropólogos nunca encontram nenhuma sociedade onde não houvesse algum tipo de casamento. A universalidade dessa instituição se deve às diversas funções que ela oferece para a sociedade e para os indivíduos.

Até pouco tempo atrás, os críticos do casamento afirmavam que ele era uma instituição falida e ultrapassada e, por isso, fadada a desaparecer. Segundo esses críticos, muitos fatos atestavam a inadequação do casamento: as crescentes taxas de divórcio; as percentagens de jovens que estavam adiando o início do casamento ou deixando de casar-se; as percentagens de traição cresciam a cada nova pesquisa.

Embora as percentagens daqueles que adiam ou recusam-se a casar continuem crescendo e as taxas de traição estejam mais altas do que nunca, alguns sinais que atestam as funções positivas do casamento começam a aparecer nas novas pesquisas: as taxas de divórcio pararam de crescer e estão cada vez mais claras as contribuições dos bons casamentos para a saúde física e psicológica.

Mais recentemente, as pesquisas vêm constatando que os bons casamentos estão fortemente associados à felicidade. Por exemplo, segundo uma delas, o aumento do grau de felicidade que é produzido por um bom casamento equivale ao aumento de quatro vezes no valor do salário.

Outra pesquisa recente, publicada no mês passado (dezembro de 2014), além de confirmar as contribuições do casamento para felicidade, também indica que um dos principais ingredientes do casamento que afeta o grau de felicidade é a amizade entre os cônjuges.


O casamento contribui para a felicidade

Recentemente Shawn Glover (Department of Finance Canada) e John F. Helliwel (University of British Columbia) publicaram recentemente um artigo que apresenta evidências que indicam que o casamento contribui para a felicidade. Este artigo também apresenta evidências de que não é fato de estar formalmente casado que contribui para a felicidade, mas sim o grau de amizade que existe entre os cônjuges: a felicidade é maior para aquelas pessoas que afirmam que o cônjuge é o seu melhor amigo do que para aquelas pessoas que citam outra pessoa como o melhor amigo. (O link para a versão online dessa publicação é fornecida na Nota, no final deste artigo).

Os dois autores dessa pesquisa analisaram os dados de outras três outras pesquisas que foram realizadas com milhares de ingleses e pessoas de outros países.

Neste artigo, vamos comentar alguns desses achados sobre o papel da amizade para a felicidade.

O casamento tem efeitos duradouros na felicidade

Existem evidências que indicam que os acontecimentos afetam apenas temporariamente o nível de felicidade: quando algo positivo ou negativo acontece para uma pessoa, geralmente ela fica temporariamente mais feliz ou infeliz, respectivamente. Depois de algum tempo, o seu grau de felicidade volta ao nível anterior ao acontecimento. Essas evidências fortaleceram a crença de que o nível de felicidade ou é determinado geneticamente ou é fixado muito cedo na vida (fatores disposicionais) ou é determinado por uma combinação desses dois fatores

Os efeitos de um bom casamento, no entanto, parecem alterar duradouramente o nível de felicidade. Na pesquisa de Glover e Helliwell, as comparações, em diversas faixas etárias, dos níveis de felicidade dos solteiros com os níveis de felicidade dos casados mostraram que os casados são mais felizes do que os solteiros durante quase toda a vida, e não apenas na ocasião do casamento.

Quando o cônjuge é o melhor amigo, a felicidade é maior

“Quem é o seu melhor amigo?” Essa pergunta foi apresentada para todos os participantes da pesquisa. Os efeitos positivos do casamento para a felicidade eram maiores para aquelas pessoas que responderam que o melhor amigo era o cônjuge. Esse efeito era duas vezes maior quando o melhor amigo era o cônjuge do que quando o maior amigo era outra pessoa. Esse efeito foi verificado tanto para as pessoas que tinham uniões consensuais como para aquelas que eram formalmente casadas.

As contribuições positivas para a felicidade verificadas quando o cônjuge era também o melhor amigo eram maiores para as mulheres do que para os homens. No entanto, menos mulheres do que homens apontaram o cônjuge como melhor amigo.

As múltiplas funções positivas do cônjuge que é bom amigo

Não é difícil entender porque uma boa amizade com o cônjuge tem efeitos fortíssimos na felicidade: cada cônjuge participa de muitas áreas da vida do outro. Por isso, quando eles são os melhores amigos recíprocos, eles podem produzir benefícios mútuos em muitas áreas. Por exemplo, uma boa amizade com o cônjuge têm os seguintes efeitos positivos:

- Fortalece a aliança conjugal: aumenta as chances que os votos proferidos na cerimônia de casamento sejam cumpridos: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza”....

- Facilita o compartilhamento de benefícios e encargos econômicos

- Proporciona companhia constante e de boa qualidade para o outro: alivia a solidão, entretém e protege.

- Proporciona apoio incondicional. Os cônjuges amistosos são aliados e apoiadores entre si naquelas ocasiões que estão enfrentando dificuldades ou quando estão iniciando empreendimentos.

- Funciona como interlocutor empático e solidário: o cônjuge amistoso mostra empatia e solidariedade quando ouve aquilo que está se passando na vida emocional do outro cônjuge

- Proporciona segurança recíproca nos momentos difíceis. Cada cônjuge funciona como uma espécie de seguro do outro para enfrentar momentos difíceis.

- Melhora o funcionamento como equipe para a realização de tarefas necessária para a vida conjugal. Por exemplo, um administra as contas e o outro, leva os filhos para a escola; um cozinha, o ou outro lava, etc.


Só a amizade é insuficiente para a felicidade do casamento

A amizade entre os cônjuges certamente contribui muito para o sucesso do casamento e para a felicidade de cada um deles. No entanto, a satisfação no casamento também depende de outros fatores como romantismo, satisfação sexual e sucesso econômico.

Você e seu cônjuge não são bons amigos? Procure a ajuda de um psicólogo!

NOTA

Um resumo e o link para o PDF completo do artigo "HOW'S LIFE AT HOME? NEW EVIDENCE ON MARRIAGE AND THE SET POINT FOR HAPPINESS", de Shawn Grover e John F. Helliwell, Dezembro de 2014, podem ser obtidos emhttp://www.nber.org/papers/w20794

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Por Ailton Amélio às 09h44

18/01/2015

Medidas para abreviar e atenuar o sofrimento após a separação

Há bastante tempo, venho desenvolvendo técnicas terapêuticas para diminuir o sofrimento e abreviar o tempo de recuperação daqueles que sofrem por amor não correspondido ou que romperam um relacionamento amoroso.

Recentemente foi publicado um artigo que oferece evidências experimentais de que o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos pode ser atenuado e abreviado. Na pesquisa realizada, jovens adultos que estavam sofrendo os efeitos do rompimento participaram de atividades que os ajudam a separar suas identidades das identidades dos ex-parceiros e das identidades vinculadas ao relacionamento que terminou.

Neste artigo vou resumir os achados desta pesquisa e enumerar algumas outras medidas que uso no meu consultório para ajudar a diminuir e a abreviar o  sofrimento causado pelo rompimento.


Evidências experimentais que indicam que o sofrimento pode ser atenuado e abreviado

A reformulação do autoconceito ajuda a recuperação

Dois pesquisadores americanos, Grace M. Larson (Department of Psychology, Northwestern University) e David A. Sbarra (Department of Psychology, University of Arizona) publicaram recentemente um artigo que fornece evidências de que o sofrimento causado pela separação amorosa pode ser atenuado e abreviado pelo tratamento psicológico. (veja a citação desta publicação na Nota, no final deste artigo).

Nesta pesquisa, 210 jovens adultos que haviam terminado recentemente seus relacionamentos amorosos foram separadas em dois grupos. Os participantes de um desses grupos (120 jovens) foram submetidos a quatro sessões de testes e entrevistas psicológicas intensivas com o objetivo de avaliar quão bem estavam se recuperando de suas separações. Essas quatro sessões foram realizadas dentro do tempo de 9 semanas.

Os participantes do outro grupo (90 jovens) foram submetidos a apenas dois testes para verificar quanto haviam se recuperado da separação durante essas nove semanas. Esses dois testes foram realizados nas mesmas épocas que também foram aplicados no primeiro grupo (início e final das nove semanas).

 Os resultados dessa pesquisa mostraram que houve um grau maior de recuperação no grupo que passou pelas medidas e entrevistas intensivas do que no grupo que foi submetido apenas aos testes iniciais e finais: os participantes do grupo submetido às entrevistas intensivas relataram mais decréscimo nos distúrbios psicológicos intrusões emocionais, solidão e uso de palavras na primeira pessoa do plural (“nós”) quando descreviam a separação do que aqueles relatados pelos participantes do grupo que foram submetidos apenas ao teste inicial e ao teste final.

Esses autores atribuem a maior dose da recuperação dos problemas psicológicos observada no grupo submetido a testes e a entrevistas intensivas ao fato dos participantes desse grupo terem falado sobre o rompimento do relacionamento: falar sobre o rompimento e sobre os efeitos que esse rompimento estava produzindo nos entrevistados ajudava a reorganizar o autoconceito e a separá-lo do autoconceito desenvolvido em função do relacionamento e do ex-parceiro.


Outras medidas para atenuar e abreviar o sofrimento produzido pelo rompimento psicológico

O rompimento de relacionamentos amorosos bem estabelecidos provoca sofrimento intenso e duradouro. (Existem estimativas de que, em média, leva cerca de três anos para que os separados se desfaçam de suas identidades de casados e recuperem suas identidades de solteiros). Esse sofrimento acontece porque as uniões amorosas bem estabelecidas são alicerçadas na intimidade, no amor, no compromisso e na fusão de diversos aspectos da vida psicológica, social e prática dos envolvidos.

Por exemplo, nos relacionamentos bem estabelecidos, os parceiros integraram seus planos para a vida, passaram a contar com a companhia mútua para o lazer, unificaram boa parte de suas identidades (“Deixamos de sermos eu e tu e nos tornamos “nós”“.), constituíram uma unidade social e econômica, são os principais parceiros sexuais, tornaram-se uma unidade reprodutiva, etc.

Outros danos produzidos pelo término de relacionamentos plenamente estabelecidos são os seguintes: dores de amor, rebaixamento da autoestima, solidão provocada pela perda da companhia do parceiro, perda da identidade de casado, prejuízos nas ligações sociais, invalidação de planos de vida e perdas econômicas. Para aqueles que têm filhos pequenos, há também sofrimentos e culpa pelos possíveis danos causados a eles e a diminuição do convívio com eles.

O rompimento de todas essas áreas provoca sofrimentos mais intensos e prolongados quando ele se deu por “morte súbita” (rompimento repentino causado por fatos graves como a descoberta de traição, agressão física, etc.). O sofrimento também é mais intenso para a pessoa que ainda ama a outra que teve a iniciativa do rompimento.


Áreas que precisam ser separadas e recompostas após a separação

No meu consultório venho desenvolvendo procedimentos para atenuar e abreviar o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos. Alguns desses procedimentos são os seguintes:

Reprogramar o lado prático da vida

Muitas pessoas ficam perdidas e desamparadas com o lado prático de suas vidas assim que se separam. Esses aspectos práticos de suas vidas antes da separação eram cuidados pelo parceiro ou foram perdidos com a separação. Exemplos: como fazer o imposto de renda, onde morar, onde comer, o que fazer nos fins de semana, quem vai levar e buscar os filhos na escola.

Desapaixonar

Procedimento para desidealizar o ex-parceiro; procedimento para perder as esperanças que ele vá voltar ou que ele ainda sente amor pelo ex-cônjuge; associar lembranças do ex-parceiro com coisas ruins.

Recuperar a autoestima

Reprogramar os danos à autoestima provocados pelas brigas durante a separação. Reprogramar os significados da rejeição ou da traição pelo ex-cônjuge.

A recuperação da autoestima é especialmente importante para aquelas pessoas que foram desrespeitadas pelo parceiro, que deixaram de ser amadas pelo parceiro, foram traídas ou trocadas por rivais.

Livrar-se da sensação de fracasso

Sensação de fracasso e de culpa pelo fato do relacionamento ter terminado.

Perguntas típicas que revelam culpa e arrependimento: “Onde errei?”, “O que poderia ter feito para evitar o fracasso o fracasso do relacionamento?”.

Projetar a vida futura

Reprogramar os planos e objetivos para a vida que, antes da separação, incluíam o ex-cônjuge. “Os planos de vida com o parceiro foram desfeitos. E agora, como vejo a minha vida no futuro?”

 Recompor o círculo de relações

Boa parte do círculo de amigos pode ser desfeita com o fim do relacionamento. Perguntas típicas de quem teve prejuízos no círculo de relacionamento: “Como fazer novas amizades?”, “Com quem posso desabafar com o que está acontecendo comigo?”, “Se eu precisar de ajuda, com quem posso contar?”. 

Você está sofrendo demais com o rompimento do seu relacionamento amoroso? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

1- Larson, G. M and Sbarra, D. A. Participating in research on romantic breakups promotes emotional recovery via changes in self-concept clarity. Social Psychological and Personality Science online on January 6, 2015 http://spp.sagepub.com/content/early/2014/12/18/1948550614563085.full  (Consultado em 17/01/2015)

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Por Ailton Amélio às 08h30

12/01/2015

Como a timidez atrapalha a vida amorosa

Uma grande dose de timidez prejudica o tímido nas áreas social, profissional e amorosa. Neste artigo vamos examinar as principais consequências negativas da timidez nos inícios de relacionamentos amorosos.

Timidez é o medo de ser rejeitado pelas outras pessoas: medo do que elas possam pensar a meu respeito; medo que elas deixem de me considerar e respeitar, caso as decepcione.

O tímido é aquele que sente inibição e tensão exageradas em situações sociais.

A timidez tem manifestações fisiológicas (o coração acelera, ruborização, suor), emocionais (medo, vergonha, ansiedade, etc.), comportamentais (comportar-se de forma mais pobre do que é capaz, olhar menos nos olhos, propor poucos assuntos durante a conversa, etc.) e cognitivas (fica preocupado antes, durante e depois de eventos intimidantes, ficar monitorando demais os próprios comportamentos, ficar consciente da própria aparência ou dos próprios comportamentos, etc.).

Timidez específica e timidez generalizada

A timidez específica é aquela que é disparada em apenas uma ou em poucas situações sociais. A timidez generalizada é aquela que é disparada em muitas situações sociais.

Mecanismos da timidez que atrapalham os inícios de relacionamentos amorosos

Uma grande atração pela parceira amorosa provoca muita timidez, atrapalha o desempenho do tímido e diminui as suas chances de sucesso para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos.

Como a timidez prejudica os inícios de namoro de André

André tem muitas qualidades: é inteligente, tem boa escolaridade, boa cultura, boa situação econômica e uma boa aparência.

Ele, no entanto, faz pouco sucesso com as mulheres. Embora já tenha mais de trinta anos, praticamente nunca namorou e só conseguiu ficar com algumas mulheres cujos níveis socioeconômicos eram bem mais baixo que o seu. Quando surge uma chance de envolvimento com mulheres do seu nível, ele fica muito tímido e, por isso, perde muito da sua desenvoltura e atração pessoal.

As mulheres dizem que ele “não tem pegada”. Quando está conversando com uma mulher que o atrai, ele “afina” ou “amarela”: não mantem a postura de pretendente amoroso e o clima de flerte. Por exemplo, ele tenta puxar um assunto que domina, para ganhar tempo e ficar esperando que a mulher apresente sinais que ele seria aceito como parceiro amoroso. Ele não tem coragem para tomar iniciativas e fazer avanços na direção amorosa. Ele não se habilita a manter o clima amoroso e apresentar sinais de interesse para ir esquentando o clima. Ele precisa estar seguro do interesse dela antes de tomar iniciativas desse tipo.

Durante a sua vida, André teve muito poucas experiências amorosas. Por isso, ele não sabe como criar e manter um clima de flerte. Ele também não consegue avaliar o seu grau de atração como parceiro amoroso para as mulheres. Ele não sabe como conduzir um clima amoroso. Ele acha que é ele que tem que fazer todo o trabalho para estabelecer o clima amoroso e se der qualquer passo em falso, ela lhe dará o fora.

Para ele, as mulheres têm pouco interesse em estabelecer um relacionamento amoroso e, por isso, têm que ser conquistadas. Para o tímido, elas são, na melhor das hipóteses, neutras nesta área. Não querem nada. Ele é que vai fazer todo o trabalho.

Dois componentes da timidez

A timidez tem um componente disposicional e um componente situacional. 

Componente disposicional

O componente disposicional é aquele que faz com que diferentes pessoas tímidas apresentem diferentes graus timidez quando expostas a uma mesma situação intimidante. Por exemplo, diferentes pessoas sentem diferentes intensidades de inibição para abordar uma pessoa desconhecida muito atraente.

Causas herdadas da timidez

Existem evidências de o surgimento da timidez pode se influenciado tanto por fatores genéticos como por fatores aprendidos.  De fato, o que parece ser herdado é o temperamento, o qual, por sua vez, pode predispor para a timidez (as crianças com temperamento “reativo” têm mais chances de se tornarem tímidas). No entanto, certas ocorrências durante o desenvolvimento da criança e do adolescente são os determinantes mais poderosos da timidez. Crianças cujos pais são muito severos ou muito protetores têm mais chances de tornarem tímidas (Henderson e Zimbardo, 1998). Certos traumas sociais como o bullying também podem contribuir para o surgimento da timidez.

Componente situacional da timidez

O componente situacional é aquele que faz com que uma mesma pessoa tenha diferentes graus de inibição em diferentes situações. Por exemplo, uma pessoa pode experimentar uma maior inibição para abordar, com intenções amorosas, uma pessoa muito atraente do que para abordar uma pessoa medianamente atraente.

Alguns estudos têm mostrado que é possível ordenar situações sociais com base nos seus poderes para provocar a inibição. A ordem desta lista de situações é muito semelhante para grande maioria das pessoas.

Vamos examinar no tópico seguinte os resultados de um estudo que realizei para verificar o poder intimidador de 14 situações sociais.

O poder de quatorze situações sociais para provocar a timidez

Em primeiro lugar foi compilada uma lista de situações evocadoras da timidez. Esta compilação foi realizada a partir da literatura internacional sobre a timidez. Esta compilação resultou em uma lista com 16 situações sociais mais citadas como evocadoras de timidez pelos estudiosos desta área. Em seguida, pedimos para 20 estudantes do primeiro ano de uma faculdade da cidade de São Paulo que ordenassem decrescentemente estas 16 situações sociais, tendo como base os poderes para evocar a timidez de cada uma dessas situações. Após esta ordenação, foi pedido a estes estudantes que atribuíssem uma nota de 0 a 100 ao poder evocador de timidez de cada uma destas situações: a maior nota devia ser atribuída para a situação que produzisse a maior intensidade de timidez; a segundo maior nota para a situação que tivesse a segunda maior intensidade de timidez, e assim por diante.

Os resultados dessa pesquisa são mostrados abaixo. A situação que, em média, foi considerada pelos estudantes como a mais poderosa para evocar a timidez foi “Pretender iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa muito admirada” (nota 60). A situação menos poderosa para evocar a timidez foi “Estar só com uma pessoa do mesmo sexo que o meu” (nota 11).

GRAUS DE EFICIÊNCIA DE DEZESSEIS SITUAÇOES PARA PROVOCAR A TIMIDEZ

Dê uma nota de 0 a 100. Quanto maior a nota, mais intensa é a timidez evocada.

Eu fico tímido quando:      

1- Eu pretendo iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa que admiro muito. Nota 60

2- Eu sou foco da atenção de um grande grupo (por exemplo, quando estou fazendo uma palestra). Nota 49

3- Eu estou em um grande grupo. Nota 47

4- Eu estou vulnerável (por exemplo, necessitando de ajuda). Nota 46

5- Eu estou sendo avaliado. Nota 44

6- Eu estou em situações novas em geral. Nota 42

7- Eu estou em uma situação que exige que eu seja afirmativo (reclamar meus direitos, dizer o que penso, não ceder a um pedido, etc.). Nota 39

8- Eu estou em situações sociais em geral. Nota 30

9- Eu estou em um grande grupo onde as pessoas têm menor status do que o meu. Nota 25

10 – Eu estou sendo foco da atenção (pequenos grupos). Nota 24

13- Eu estou em um pequeno grupo social. Nota 23

14- Eu estou só com uma pessoa do sexo oposto. Nota 21

15- Eu estou em um pequeno grupo organizado para a realização de tarefas. Nota 12

16- Eu estou só com uma pessoa do mesmo sexo que o meu. Nota 11

Os resultados dessa pesquisa mostraram que existem situações que evocam muito mais timidez do que outras. As pessoas em geral tendem a concordar entre si sobre o poder relativo dessas situações para evocar a timidez. As intensidades da timidez geradas por essas situações, no entanto, variam muito entre as pessoas. Por exemplo, a situação “Pretender iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa que admiro muito” recebeu 40 pontos de timidez para uma pessoa não tímida e 90 pontos para uma pessoa tímida.O alto grau de timidez causado pela intenção de iniciar um relacionamento amoroso com pessoas muito admiradas causa sérios problemas para os tímidos porque essa situação é a que tem o mais alto poder de evocar a  timidez.

As pessoas tímidas se portam de forma mais pobre do que são capazes nas situações propícias para iniciar relacionamentos amorosos: elas perdem oportunidades para apresentar convites, se comportam de forma desastrada, agem de forma pouco interessante, ficam “sem pegada”, etc. As pessoas muito tímidas também evitam ou fogem de situações muito inibidoras como a presença de uma parceira muito admirada. Por estes motivos, os tímidos têm muitas dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos.

Devido às suas dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos, os tímidos, muitas vezes, acabam aceitando parceiros amorosos menos qualificados do que eles teriam condições de conseguir. Uma evidência desse tipo de dificuldade foi apresentada por Caspi et al. (1988) Estes autores localizaram um grupo de pessoas que haviam sido examinadas quanto ao grau de timidez há 30 anos atrás e constataram que aquelas pessoas que haviam sido classificadas como tímidas naquela época haviam se casado cerca de três anos mais tarde do que aquelas que foram classificadas como não tímidas na mesma época.

Porque os tímidos não conseguem manter o clima amoroso durante um encontro

Durante o encontro amoroso o tímido “esquece” que tem alguém atraente ali na sua frente. Isso faz que o encontro perca o clima romântico e se torne frustante e chato. Quando os parceiros se mantêm “ligados” nas atrações mútuas, seus cérebros ordenam que seus corpos assumam postura de flerte (“prontidão para o cortejamento”) e apresentem comportamentos que comunicam interesse amoroso, que acentuam os seus sinais de gênero e ajudam a seduzir os parceiros.

A boa conversa é aquela que não desvia muito as atenções do principal: a atração pelo parceiro. Em um encontro amoroso é possível conversar e, ao mesmo tempo, manter foco da atenção nas atrações da parceira amorosa. É como conversar e dirigir: dá para manter a atenção na direção e, ao mesmo tempo, conversar algo leve. Não é aconselhável conversar sobre algo profundo ou perturbador quando um dos interlocutores está dirigindo. O tímido tem dificuldade em manter o clima amoroso porque ele fica tão preocupado com o seu desempenho e isso não lhe dá espaço para manter em mente a atração da parceira e deixar seus comportamentos serem controlados por isso!

A terapia geralmente é muito eficiente para combater a timidez excessiva. Se você é muito tímido, procure um psicólogo!

Notas

Carducci, Bernardo J. & Zimbardo, Philip G. (1995). Are You Shy? In C. Randell (Ed.) Selected Readings in Psychology Sixth Edition (pp. 14-20). New York, NY: McGraw-Hill.

Caspi, A., Elder, G. H.& Ben D. J. (1988). Moving away from the world: life course of shy children. Developmental Psychology24, 824 - 831.

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Por Ailton Amélio às 09h11

04/01/2015

O elixir da juventude: seja jovem em 2015

Nós temos uma idade cronológica, uma idade física e uma idade psicológica. Para a maioria das pessoas, essas idades são semelhantes entre si, mas existem belas exceções. Por exemplo, certas pessoas são bem mais jovens física e psicologicamente do que seria esperado pelas suas idades cronológicas. Com outras acontece o contrário: são bens mais velhas física e psicologicamente do que seria esperado para suas idades cronológicas.

Psicologicamente falando, é possível ser velho aos 20 e novo aos 60!

Na nossa sociedade, grande quantidade de energia e dinheiro é despendida na tentativa de manter ou diminuir a idade física aparente. Muito pouco esforço é devotado para a manutenção ou recuperação da jovialidade psicológica.

Psicologicamente falando, ser velho é achar que a vida já está definida, que não é possível iniciar grandes empreendimentos ou mudar muito a estrutura e estilo já estabelecidos (casar de novo, vender tudo e começar um novo negócio, aprender a falar em público, iniciar um movimento social, começar a cantar, etc.).

Ficar psicologicamente velho é perder a coragem e a ousadia para tentar coisas novas na vida!


Se a sua vida está chata é porque você acredita demais na sua versão pobre da realidade

A perda da desenvoltura para tentar coisas novas e para ver as coisas como elas são a cada momento desvitalizam e tornam a vida desinteressante.

É porque você acredita demais na sua versão restritiva e amedrontadora da realidade que o seu mundo se torna desinteressante. Aquele que tem essa visão empobrecedora vê a si próprio, o mundo social e mundo material à sua volta como sólidos, óbvios, indiscutíveis e impenetráveis. Essa forma de ver as coisas é apenas uma versão dentre outras possíveis. Boa parte das diferenças entre pessoas mais criativas e vibrantes e pessoas não criativas e apagadas é a forma como esses dois tipos de pessoas veem a elas próprias e o mundo que as rodeia. 

Impressionante como conseguimos deixar de ver tudo que há de tão colorido e fantástico neste mundo e passamos a vê-lo como desinteressante, cinza e opaco.

Grande parte das barreiras que nos prendem à mesmice desvitalizada faz que vejamos o mundo como chato e nos comportemos de forma envelhecida são construções psicológicas. No entanto, encaramos tais construções como se fossem estruturas físicas, sólidas e invioláveis, tal como um peru que não pula um circulo de giz que é desenhado ao seu redor.


O peru não pula o círculo de giz desenhado ao seu redor

Ele age como se tal círculo fosse um muro intransponível ou uma cobra temível.

Muita gente também se porta assim: encontra-se enclausurada dentro de círculos de giz, por achar que eles são muralhas intransponíveis ou inimigos perigosos.

Em torno de cada pessoa existem vários “círculos de giz". Estes círculos de giz são traçados por diversos vários fatores como crenças infundadas, preconceitos, temores de eventos irreais.

Muitas áreas de nossas vidas ficam estagnadas porque desenvolvemos crenças errôneas e pessimistas sobre os graus de dificuldades para lidar com elas, sobre nossa capacidade para encará-las de frente e sobre as consequências que ocorrerão caso fracassemos ao tentar enfrentá-las.

Barreiras psicológicas. Somos prisioneiros de diversos tipos de barreiras psicológicas: timidez, inassertividade, baixa autoestima. Devido a essas barreiras, não agimos como gostaríamos, por mais que saibamos que aquilo que nos amedronta tem grande chance de ser fictício e irrazoável.

Campo psicológico. Temos medo de rever e mudar a nossa autoimagem e a imagem das pessoas que nos cercam.  Temos pouca flexibilidade para rever nossas metas e redefinir as nossas prioridades. Agimos como se preferíssemos ter um objetivo qualquer na vida, por mais irreal e restrito que seja, do que nos darmos ao trabalho corrigir as nossas aspirações.

Relacionamento amoroso. No campo amoroso, vivemos em relacionamentos insatisfatórios que perduram como são porque temos medo de tomar medidas para alterar ou para alterá-los ou abandoná-los.


Copiar os jovens não nos torna mais jovens

Ser jovem não é copiar o que as pessoas de pouca idade fazem: frequentar os programas que elas frequentam, adotar seus estilos de vestuário e modos de falar. Essa cópia é o tipo de “jovialidade” mais superficial que existe.

Ser jovem não é procurar coisas emocionantes para fazer. Isso não passa da procura de adrenalina. Ser jovem é um conjunto de atitudes e não um estado emocional autoinduzido ou induzido por situações e substâncias químicas. 

Ser jovem não é procurar ou criar desafios a serem enfrentados, mas sim encarar aqueles desafios naturais que a vida apresenta a cada momento.

Se você tem procurar coisas emocionantes e interessantes para fazer na vida isso é um sinal que você não está vendo aquelas coisas emocionantes e naturais que já estão à sua frente ou que atravessam seu caminho a todo instante. Ou seja, algo está errado com você.

A vida apresenta milhares de desafios. Por exemplo, a cada momento temos que escolher o grau de autenticidade que vamos adotar na nossa fala ou nas nossas reações ao que o nosso interlocutor está dizendo. A cada momento temos que decidir se vamos usar uma fórmula pronta para agradar nosso interlocutor ou se vamos lhe comunicar um pouco mais do que realmente sentimos e pensamos. Um pouco mais de autenticidade nesta área pode tornar a vida muito emocionante e interessante!

Quem deixou de perceber as maravilhas ao seu redor, para recuperar essa percepção deve entender o que saiu dos trilhos e não lançar mão de paliativos e pseudossoluções como o uso de estimulantes químicos, a busca de aventuras, a prática de esportes radicais ou o vício em games ou em novelas. 

Você perdeu a jovialidade? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 09h50

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.