Blog do Ailton Amélio

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30/08/2010

Reputação ou comportamentos: o que influencia mais?

Você procura aperfeiçoar a sua forma de agir para melhorar a sua aceitação social? Sim? Parabéns. Isso realmente produz efeitos positivos.

No entanto, uma boa parte das avaliações da forma de agir depende de quem é a pessoa que está agindo. Exagerando um pouco, poderíamos afirmar que quando simpatizamos com uma pessoa, quase tudo que ela diz soa bem aos nossos ouvidos e, quando antipatizamos com ela, quase tudo soa mal aos nossos ouvidos.

Este tipo de achado põe um limite à crença de que a forma de comportar é a chave que abre todas as portas. Estes estudos mostram que as credenciais de quem está se comportando podem pesar bem mais do que os seus comportamentos. Vamos examinar agora algumas previsões e evidências sobre esse fenômeno.


Credenciais dos entrevistados e entrevistadores afetam as avaliações das entrevistas

Imagine um diálogo entre duas pessoas famosas e poderosas como, por exemplo, uma entrevista entre um entrevistador conhecido e um ator muito famoso e querido do público. Imagine o que aconteceria se este ator fosse substituído por outra pessoa desconhecida, mas em tudo o mais igual ou equivalente a ele:  mesmo grau de atratividade que ele e  que agisse exatamente como ele, durante a entrevista.

Isto poderia ser feito, por exemplo, através de uma dublagem onde a parte sonora seria mantida e o artista entrevistado seria substituído por um ator. Outra forma, melhor ainda, seria tornar o ator e a sua voz irreconhecíveis. Isto pode ser feito através de um destes programas de computador que altera as feições. Neste caso, o gestual também continuaria o mesmo. Tendo como base as evidências disponíveis a este respeito, prevejo que a imagem conhecida e querida do ator ou a “falta de capital inicial do desconhecido” determinaria muitas das percepções sobre essa entrevista: quão boa ela foi, sua agradabilidade,  sua eficácia para atrair a atenção etc.


Credenciais dos autores afetam as avaliações dos seus textos

Vários estudos encontraram evidências a respeito da importância das credenciais de quem está enviando mensagens sobre a percepção dessas mensagens. Por exemplo, uma pesquisa verificou a influencia da autoria atribuída a um texto sobre o julgamento das qualidades do texto. Neste estudo, um mesmo texto foi apresentado para duas turmas equivalentes de estudantes universitários. Para uma turma o texto foi atribuído a um autor admirado e para a outra ele foi atribuído a um autor detestado. Aquela turma que achava que o texto era do autor admirado avaliou-o como sendo muito bom e possuidor de várias qualidades específicas. A turma que foi levada a crer que ele era do autor detestado só viu defeitos.


Aparências dos autores afetam as avaliações de dos seus textos

Outro estudo usou um procedimento bem semelhante a esse relatado acima. A diferença é que este estudo avaliava a influência da atratividade física sobre a avaliação de textos. A qualidade destes textos variava bastante, de acordo com uma avaliação independente, realizada anteriormente. Para metade dos avaliadores de cada texto, os pesquisadores anexaram  uma foto de uma pessoa atraente e, para a outra metade, uma foto de uma pessoa pouco atraente. A positividade ou negatividade das avaliações dos textos dependeram, fortemente, da atratividade da foto que era atribuída ao seu autor. Nos casos extremos, a foto influenciava menos: quando o texto era muito bom ou muito ruim, as notas dependiam menos da beleza da pessoa mostrada na foto do que quando o texto era médio. Ou seja, a subjetividade dos julgamentos era maior quando a qualidade do texto era menos clara.


O cacife de uma pessoa depende dos objetivos do encontro, de quem são os seus interlocutores, do tipo de situação que presente, está e do seu poder para atribuir ou mediar consequencias. Em outras palavras, depende da sua idade, aparência, poder, fama, reputação e história de relacionamento com aquela audiência em particular e da situação que ela está atuando.


Esses estudos mostram que as características de quem se comporta podem ser tão ou mais importantes do que suas formas de se comportar. Pense nisso!

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Por Ailton Amélio às 10h37

26/08/2010

Vivendo para o amanhã

Você tem espaço para usufruir as coisas boas que ocorrem em muitos momentos de cada dia? Considere a seguinte história:

Ela e o marido formaram uma espécie de equipe de combate. A cada dia travavam batalhas com o objetivo de progredirem na vida, darem boas condições para os filhos e garantirem um futuro confortável para todos eles. O casal quase não se via no dia-a-dia. O dia dele começa muito cedo e terminava muito tarde. A vida social deles também era dedicada à “construção do network”: as festas que freqüentavam, as cerimônias que compareciam, as recepções que ofereciam, tudo isso visava a construção de relações que fossem úteis para a vida profissional. O objetivo deles, naquela época, era o seguinte: "Quando acumularmos um patrimônio sólido, mudaremos de vida: viajaremos, conversaremos por horas a fio, desfrutaremos da presença mútua, namoraremos muito e transaremos bastante."

Assim a vida foi passando. Realmente ficaram bastante ricos. Os filhos cresceram, casaram e saíram de casa. Mas a hora da parada estava sempre um pouco além.

O marido teve um câncer de próstata e a operação deixou-o impotente. A idade e essa limitação amarguraram-o e tornaram-o irritadiço e intolerante com outras pessoas. A esposa ainda tinha muita energia, mas viu-se amarrada a um companheiro que não tinha mais condições de usufruir com ela aquilo que haviam sonhado no passado e que haviam se sacrificado tanto para conseguir. Para ela também era difícil redirecionar a vida. Ela sempre afirmava para as amigas, quando esse assunto vinha a tona, que o “cavalo selado já havia passado e que ela não o cavalgou porque o confundiu com um burro de carga que se dirigia para o futuro”.

Muitas pessoas deixam pouco espaço para o presente. Uma parte delas vive para o futuro. Nunca relaxam e aproveitam as alegrias do dia-a-dia. Sentem que todos os minutos devem ser aproveitados para o auto-aperfeiçoamento, para o progresso e para o acúmulo de riqueza.

Elas dedicam seus tempos tentando se prevenirem contra as agruras do futuro. Embora seja sensato ter uma preocupação com o futuro, na maioria das vezes essa preocupação vira um hábito que se perpetua por toda a vida. Por exemplo, muitas pessoas, mesmo quando vão se tornando mais ricas, nunca param para aproveitar a vida. Geralmente querem possuir mais, independentemente do quanto já tenham. Querer é saudável. Precisar compulsivamente de mais e mais é uma espécie de neurose. Uma espécie de buraco negro ou poço sem fundo que nunca será preenchido. Aquilo que é adquirido produz satisfação por pouco tempo. Logo a insatisfação volta ao nível anterior. (Um estudo verificou que a felicidade está relacionada com os rendimentos até cerca de $ 20 000 anuais. Daí para frente, o mais importante é o rendimento relativo: a comparacäo do rendimento pessoal com o rendimento das pessoas do grupo de referencia - o importante é não ficar aquém delas e, se possível, superá-las. Ou seja, " a luta continua").

 

Algumas vivem do passado: vivem de lembranças, remoendo coisas ruins que aconteceram ou recordando coisas boas. Quem faz isso permite que o passado ruim, além de já ter causado prejuízos na época que os acontecimentos negativos ocorreram, ainda continue a estender as suas influencias no tempo, prejudicando o usufruto do presente. Quem ocupa-se demais recordando as coisas boas do passado também deixa de ver aquelas que estão acontecendo no presente.

 

Parece que todos temos uma cota de insatisfação que é razoavelmente fixa: onde quer que estejamos, qualquer posição social que ocupemos, qualquer que seja o nosso status, prestígio ou poder, nunca estamos satisfeitos e seguros. Os existencialistas afirmavam que esta angustia de viver fazia parte da condição humana. Também é muito comum que tentemos afastá-la de todas as formas possíveis: dinheiro, poder, status, drogas, aparência, etc.

Uma das perguntas mais importantes que a filosofia tenta responder é a seguinte: “De onde viemos e para onde vamos?”. Um humorista, ao ouvir essa pergunta, afirmou, para espanto dos presentes, que essa questão não era muito importante. Segundo ele, “O mais importante era ter um lugar na janelinha para apreciar a viagem!”

Você tem espaço para viver o presente, vive do passado ou está deixando tudo para depois?

Por Ailton Amélio às 16h15

23/08/2010

Autodesconfiança e limbo psicológico

Muitas pessoas têm procurado o meu consultório queixando-se que deixaram de perceber o que sentem e querem ou que percebem essas coisas, mas desconfiam de suas percepções.   Quando este fenômeno perdura, tais pessoas correm o risco de perderem a autoconfiança e cairem em uma espécie de limbo perceptual e emocional: ficam sem energia, amorfas e passaram a agir como se tivessem que pedir licença para existir. Elas também perdem o brilho e a vibração e evitam reivindicar espaço social. Aquelas que têm propensão para a depressão e sentem-se assim correm sérios riscos de ficarem deprimidas.

A situação dessas pessoas lembra a daqueles pilotos de avião que não estão conseguindo fazer um vôo visual, devido a um nevoeiro, por exemplo, e, por isso, têm que se orientarem apenas pelos instrumentos. No caso dessas pessoas, o equivalente ao vôo visual seria o uso dos próprios sentimentos, vontades e crenças para sentirem-se validadas e para guiarem suas próprias ações. O equivalente psicológico do vôo por instrumento é guiar-se pelos livros de auto-ajuda, pelos conselhos daqueles que são confiantes ou pelos resultados de pesquisas exaustivas de informações para serem usadas em decisões. Esse vôo psicológico por instrumentos às vezes começa a ocorrer de forma generalizada até acontecem até para tomar pequenas decisões. Quando esse limbo psicológico se instala, a vida fica muito difícil e insípida.

Creio que uma das origens desse fenômeno está na infância: aquelas crianças cujos sentimentos e percepções foram desacreditados, e até ridicularizados, pelos pais, professores, irmãos mais velhos, colegas etc., posteriormente têm mais chance de não acreditarem nas próprias percepções e critérios. As pessoas que agiram dessa forma com elas podiam até terem boas intenções e acreditarem que estavam contribuindo para educá-las através da invalidação das “coisas ruins” que elas queriam, sentiam ou percebiam! Invalidar, no entanto, terá um alto custo posterior para as autoconfianças das suas vítimas.

Exemplo: alguns pais invalidam aquilo que os filhos querem, sentem e pensam através do questionamento sistematico dos motivos desses sentimentos, vontades e pensamentos (“Porque você quer isso?”) e, quando os filhos não sabem justificar , dão a entender que aquilo que estão pleiteando ou relatando é irrazoável e sem sentido.

Mesmo quando as crianças sentem ou querem algo irrazoável, o melhor é validar o que elas estão sentindo e querendo, e, ao mesmo tempo, tentar fazê-las perceber melhor a realidade e, caso isso não funcione, é necessário negar ou impedir que elas ajam da forma inapropriada (“Entendo que você queira isso. Pena que não vai ser possível. Caso você fizesse tal coisa, poderia acontecer isso e aquilo”). Tudo isso, sem ridicularizá-las ou desmerecê-las.

Outra origem da auto-invalidação está situada na vida adulta. Já vi pessoas que foram anuladas por um parceiro amoroso ou por um patrão poderoso e carismático, com os quais elas conviveram e dependeram. Vamos examinar agora alguns exemplos específicos de situações onde isso frequentemente acontece.


Disfunção sexual devido à auto-suspeita.

Este é um caso onde a autodesconfiança foi produzida por um acontecimento acidental ou devido à uma grande necessidade de aprovação. Anteriormente postei um artigo sobre homens que começaram a ter problemas sexuais porque, após uma falha acidental ou devido a um grande temor de não contentar o parceiro, começaram a ficar apreensivos e a praticar a auto-observação nas práticas sexuais seguintes. Este temor e auto-observação dificultam o aparecimento do desejo e, por isso, atrapalham todo o desempenho sexual. Muitas vezes essas pessoas também começam a suspeitar que estão com problemas orgânicos ou tem outras preferências sexuais. Esta auto-suspeição aumenta a apreensão e agrava todo o quadro

 

Parceiro crítico

O seguinte caso ilustra bem esse tipo de origem da autodesconfiança:

Ele sempre punha algum reparo em tudo que ela fazia ou dizia. Nada estava muito certo. Como ele tinha sido seu professor de faculdade, ele tinha uma boa dose de ascensão sobre ela. Como resultado, ela esta cada vez mais perdendo a autoconfiança. Não fazia mais nada sem consultá-lo.

  

Parceiros com diferentes prioridades na vida

Havia um grande amor entre aqueles noivos. Cada um era para o outro algo muito próximo do ideal na área romântica e sexual além de serem ótimas companhias.

Eles, infelizmente, tinham várias divergências naquilo que valorizavam em outras áreas da vida. Ela era muito bonita e elegante. Era proveniente de uma família muito rica, que perdeu quase tudo que tinha e, nos bons tempos, ela sempre teve acesso a coisas caras e de luxo. O seu noivo era um intelectual. Sempre que havia conflito entre ganhar dinheiro e desenvolver algum projeto que lhe traria mais conhecimento ou realização intelectual tomava essa segunda opção. Por isso, vivia uma vida modesta e não consumista.

Ela valorizava as pessoas pelo que elas tinham, pelos seus carros, jóias, roupas, etc. Ele valorizava as pessoas pela sofisticação de suas idéias e pelas suas criatividades intelectuais.

Ela mostrava claramente a sua admiração pelas coisas materiais e elogiava aquelas pessoas que as possuíam. Ela também, cada vez mais, estava preferindo e admirando pessoas que tinham outros estilos de vida. Ele estava se sentindo inferiorizado e fracassado. Estava começando a questionar se tinha feito as opções certas na vida e se o melhor não era montar um negócio para ganhar muito dinheiro.

Neste caso, a persistência desse tipo invalidação por muito tempo pode afetar gravemente o autoconceito do noivo e a satisfação da noiva. O mais comum é que o casal concilie os seus desejos ou se separe.


Rejeição amorosa

O seguinte caso ilustra bem esse tipo de origem da autodesconfiança:

Eles se amavam muito. Depois de um tempo, ela conheceu outra pessoa no trabalho, se envolveu e esfriou com o marido. Revelou para o marido o que estava acontecendo e comunicou que ia separar-se. Ele sentiu-se arrasado. Tinha sido avaliado, preterido e trocado. Alguém pode imaginar maior invalidação do que essa?

Esse tipo de sentimento de invalidação é normal nessas circunstâncias, leva a muitos sofrimentos, mas geralmente passa. Caso persista, é necessário ajuda psicológica para refazer a auto-estima e restaurar a autoconfiança.

 

Recuperação da autoconfiança

Perder a autoconfiança temporariamente é um acontecimento normal e saudável. Caso isso seja muito frequente, desproporcional aos acontecimentos ou crônico é necessário recorrer á ajuda profissional.

Uma das formas de recuperar a autoconfiança é a terapia que fortalece a assertividade. Ela funciona bem naqueles casos onde a auto-invalidação ocorreu na área social: quando quem manifesta o problema sente-se sem idéias ou vontades próprias na presença de certas outras pessoas.

Naqueles casos mais generalizados, quando a pessoa desconfia de si própria em assuntos sociais e não sociais, a terapia tem que ajudar a enfraquecer o papel do racional e fortalecer o papel dos sentimentos, pressentimentos e vontades. 

A autoconfiança não é negociável. Caso você tenha autodesconfiança duradoura e intensa procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 17h39

20/08/2010

Estilos de amor

 

A opinião quase unânime dos estudiosos desse tema é que existem vários estilos de amor.  Para você ter uma idéia do seu estilo, segundo a teoria “Estilos de Amor”, do sociólogo canadense John Alan Lee, responda o seguinte questionário:

Leia cada uma das descrições abaixo e dê uma nota de zero a dez para o quanto cada uma delas descreve a sua forma de amar. (Coloque as sua nota na linha que precede cada descrição).

Três Estilos Primários

(Nota- _____) Sinto atração imediata pelo parceiro. Esta atração é causada principalmente pela sua aparência. Geralmente sei descrever qual o tipo físico que me atrai. Pode haver amor à primeira vista. Grande atração física e interesse sexual. Sou seguro no amor. Não sou muito possessivo. Não temo  entregar-me ao amor, mas também não estou ansioso para amar. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "O nosso relacionamento sexual é muito intenso e satisfatório." (EROS)

(Nota- _____) O meu amor que nasce a partir de uma amizade e demora um longo tempo para se desenvolver. O meu amor é baseado em interesses compartilhados e nas semelhanças entre mim e os parceiros. As atividades em conjunto são importantes. O contato sexual é menos enfatizado e começa relativamente mais tarde. O meu amor não se caracteriza pela presença de uma grande paixão. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "O melhor tipo de amor é aquele que se desenvolve a partir de uma longa amizade." (ESTORGE)

(Nota- _____) Encaro o amor como um jogo que acontece simultaneamente com diferentes parceiros. Não emoções. A ênfase recai na sedução e na idéia de liberdade sexual. As promessas que faço são válidas apenas no momento em que são apresentadas e não no futuro. Afirmação típica de quem tem este tipo de amor: "Eu gosto de jogar o jogo do amor com diferentes parceiros, simultaneamente." (LUDOS)

Os Três Estilos Secundários mais Estudados

(Nota- _____ ) O meu amor é experimentado como uma emoção quase obsessiva e preocupante que domina praticamente tudo. Esforço-me para atrair, quase continuamente, a atenção do parceiro.  Tenho ciúmes e muita possessividade. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Quando meu amor não me dá atenção eu me sinto completamente doente." (MANIA. Composto de Eros e Ludos)

(Nota - _____) A compatibilidade entre mim e meus parceiros e as nossas necessidades mútuas de satisfação são muito importantes. Este estilo de amor às vezes é chamado de shopping list love porque as pessoas deste estilo examinam os pretendentes para ver se atendem a uma série de expectativas antes de se envolver com eles. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Eu tento planejar a minha vida cuidadosamente antes de escolher um amor." (PRAGMA. composto de Ludos e Estorge)

(Nota - _____) Os cuidados com o parceiro e a preocupação em auxiliá-lo a resolver seus problemas são muito importantes para mim. A ausência de egoísmo é uma das características centrais deste tipo da minha forma de amar. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Eu prefiro sofrer a fazer o meu amor sofrer."(ÁGAPE. Composto de Estorge e Eros)

(Adaptado do livro “O Mapa do Amor”, Ailton Amélio da Silva, Editora Gente).

(Não leve muito a sério os resultados que você obteve nessa avaliação. Para avaliar de uma forma mais confiável o seu estilo de amor existem testes apropriados. O melhor desses testes foi apresentado no artigo: Hendrick C, Hendrick SS, Dicke A (1998). "The Love Attitudes Scale: Short form". J Pers Soc Psychol. 15 (2): 147–59.doi:10.1177/0265407598152001.)

A grande maioria das pessoas se identifica parcialmente com dois ou mais destes seis estilos de amor. Isto é perfeitamente esperado, uma vez que quase todo mundo é afetado pela beleza física do parceiro (Eros), aprecia a sua amizade (Estorge), sente atração por outras pessoas (Ludos), tem uma certa dose de insegurança quanto à firmeza do relacionamento (Mania), dá alguma importância ao lado prático do relacionamento (Pragma) e está disposto a fazer sacrifícios pelo parceiro (Ágape).

Essa é uma das melhores teorias sobre o amor. Para desenvolver essa teoria, esse sociólogo pesquisou os melhores romances da literatura mundial, muitos livros e artigos sobre a psicologia do amor e catalogou milhares de afirmações que os autores desses romances, teorias e estudos apresentaram sobre o amor. Em seguida, ele pediu para dezenas de canadenses e ingleses que relatassem os casos de amor que tiveram na vida: como conheceram seus parceiros, quem fez as primeiras declarações amorosas, como o outro respondeu, etc.

Lee agrupou, então, esses relatos em categorias ou estilos de amor. Cada um desses estilos é caracterizado por uma série de características, algumas das quais foram descritas no teste acima que você respondeu.

Este autor concluiu, também, que existem três estilos primários (Eros, Ludos e Estorge) e uma infinidade de estilos secundários de amor. Os secundários são produzidos por combinações, em diferentes proporções, dos três estilos primários. Três desses estilos secundários são bastante pesquisados: Mania, Pragma e Ludos.

Para ajudar a entender essas combinações, Lee recorre a uma analogia entre os estilos de amor e a percepção de cores: embora os nossos olhos só tenham receptores para três cores primárias (azul, amarelo e vermelho), conseguimos distinguir cerca de oito milhões de cores que são formadas por combinações, em diferentes proporções, das três cores primárias (quem já brincou de misturar tintas sabe disso).

Para que serve conhecer o próprio estilo e o estilo do pretendente?

Uso muito essa teoria no meu consultório. Uso essa teoria, por exemplo, para entender como os meus pacientes se apaixonam; quais os  tipos de parceiros que servem para eles; que locais deverão frequentar e que tipo de atividade deverão praticar para favorecer os inícios de relacionamentos; como deve ser o conteúdo do relacionamento amoroso para que eles sintam-se   realizados nessa área.  Vamos detalhar agora, como exemplo, como a balada pode ser mais propícia para quem tem certos tipos de amor e não fazer sentido para quem tem outros.

A classificação de Lee dos estilos de amor ajuda a perceber que tipo de parceiro ou qual a forma que ele tem que agir para atrair quem tem cada um desses tipos de amor; quais condições propiciam o nascimento do amor (por exemplo, as baladas não são os locais mais propícios para os estórgicos conhecerem pessoas e iniciarem relacionamentos amorosos – este tipo de local não favorece a conversa e o início de uma amizade).

As baladas, por outro lado, são locais propícios para os eróticos, maníacos e lúdicos iniciarem relacionamentos amorosos. Isso porque, quem é Eros ou Mania pode ficar fascinado por outra pessoa em poucos minutos e sentir muito desejo de “ficar” imediatamente com ela. (Uma diferença entre os eróticos e os maníacos é que aquele é mais realista e fica atento para as várias características do parceiro antes de passar do fascínio inicial para o apaixonamento. O maníaco, por outro lado, não examina direito o parceiro antes de entrar de cabeça na paixão. Por exemplo, pode se apaixonar em poucos minutos por alguém que acabou de conhecer na internet).

Conheça o seu estilo de amor e o estilo de amor do parceiro antes de iniciar um relacionamento. O amor entre parceiros compatíveis é mais satisfatório e duradouro.

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Por Ailton Amélio às 14h32

17/08/2010

Charme ou beleza e dinheiro?

Imagine a seguinte situação: o seu pretendente é compatível com você (é semelhante a você em escolaridade, idade, objetivo do relacionamento, valores, crenças, etc.). Além disso, ele se destaca pela beleza, boa condição financeira, boa saúde, inteligência e por ser batalhador. Ele também possui características que são importantes para desenvolver um relacionamento: capacidade para se envolver afetivamente, capacidade para se comprometer, honestidade e, muito importante, sente atração por você. Como resultado de tudo isso, você sente atração romântica e sexual por ele. Falta alguma coisa nessa lista?

Falta sim. Além de tudo isso, caso você desenvolva um relacionamento com ele, vocês vão passar muitas horas a sós.  Nestas ocasiões, outra característica muito importante vai determinar o grau de sucesso do relacionamento: quão estimulante é o relacionamento pessoal entre vocês. Por exemplo, fazer uma viagem longa ao seu lado é algo temido, que vai fazer você morrer de tédio, ou é encarado como uma ótima oportunidade para longas e estimulantes conversas com ele?

 

Vamos examinar mais profundamente esse tema.

Atrativos não-comportamentais de um parceiro amoroso.

As academias de ginástica, as clínicas de cirurgia plástica e os shoppings centers são os templos daqueles que tentam ampliar seus potenciais para impressionar através da aparência. Os locais chiques e caros, a exibição de bens e as colunas sociais são os territórios daqueles que tentam impressionar através das posses, da fama e do poder.

Ok, ok. Tudo isso é muito bom. No entanto, quando estamos iniciando um relacionamento ou já estabelecemos um relacionamento amoroso, temos que nos comunicar com o parceiro. Nessa hora, a nossa personalidade, o nosso temperamento, os nossos valores e a consideração que sentimos pelo interlocutor transparecerão através dos nossos comportamentos e terão profundas influencias na qualidade do relacionamento que estabeleceremos com ele.

Atrativos comportamentais de um parceiro amoroso

Algumas pessoas são deliciosas durante o relacionamento: elas são um espetáculo para ver e ouvir e uma lisonja quando prestam atenção em nós. Outras, nem tanto.

Apenas para visualizar pouco mais concretamente alguns dos atrativos que podem ser oferecidos através dos comportamentos, examine a lista abaixo.

Quais os seus pontos fortes no relacionamento amoroso?

Você:

·      É charmosa?

·      Tem sex appeal na forma de se comportar?

·      É uma ótima ouvinte (reage ao que está sendo dito, é empática, apresenta feedbacks, etc.)?

·      Apresenta uma boa dose de originalidade naquilo que diz (comunica, na dose certa, o seu ponto de vista e os seus sentimentos e não exagera nos lugares comuns)?

·      A sua posição contribui para que o interlocutor expanda o seu eu (ele funciona um pouco além dos seus limites psicológicos quando conversa com você)?

·      É um pouco mais sincera do que a média das pessoas?

·      É uma boa platéia para os “espetáculos” do interlocutor. Faz com que ele sinta-se apreciado, ouvido, aceito, valorizado?

 

Academia do charme

Não existe, é claro, centros de aperfeiçoamento da capacidade para ser interessante. Nunca vi uma instituição do tipo “Centro do desenvolvimento do charme”, “MBA em sex appeal”, “Centro para o desenvolvimento da capacidade de envolvimento afetivo”,  “Programa para o fortalecimento da capacidade de entrega romântica” ou “ Método para perder o medo do comprometimento”. Estes centros não existem porque a psicologia ainda não estudou direito esses fenômenos e porque eles não podem ser “comprados” e “usados” imediata ou rapidamente, tal como acontece com as roupas, cortes de cabelos, cirurgias plasticas estéticas e carröes, por exemplo.

O desenvolvimento dessas capacidades não pode ser conseguido através de receitas simplistas sobre a forma de se comportar. Ser interessante é algo mais complexo e profundo. Esse é um dos motivos pelos quais é mais simples comprar uma roupa nova, fazer uma dieta ou ostentar um carro último tipo do que conseguir se transformar em alguém interessante.

 

A beleza, as posses, o poder e a fama são coisas boas para a maioria das pessoas. Mas, a capacidade para criar um relacionamento estimulante e nutritivo é o oxigênio de todo relacionamento pessoal genuíno. Vale a pena procurar todas as formas de aperfeiçoar essa capacidade.

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Por Ailton Amélio às 18h34

13/08/2010

Conversa-biombo: você sabe usar?


Não diga nada!

Deixa o vento varrer

As palavras.

Olha prá mim...

(Letra da música “Não diga nada”, interpretada por Fábio Júnior)

 

“Conversas-biombo” são aquelas conversas utilizadas para ocultar alguma coisa como, por exemplo, o desejo de manter um interlocutor a distância e, ao mesmo tempo, dar a impressão que é prazeroso conversar com ele. Veja o seguinte exemplo:

Ela fez muita festa ao encontrá-lo: sorriso largo no rosto, voz vibrante, rapidez ao caminhar na sua direção para cumprimentá-lo... Parecia uma ótima recepção e realmente era. A coisa travou quando ele tentou introduzir outros assuntos e mudar o clima da conversa, mas ela insistiu em ficar naquela pseudo-euforia que parecia expressar a alegria e a excitação por encontrá-lo ali.

Ela não cooperava com nenhuma das suas tentativas. Ele tentou puxar outros assuntos, mas ela não acolheu nenhum deles: fez perguntas, mas ela respondeu o mínimo possível; apresentou informações iscas de assuntos que gostaria de tratar, mas ela não mostrou interesse (aliás, ela até apresentou indícios que se interessava por um assunto que ele apresentou  (repetiu o que ele disse), mas antes que ele começasse a desenvolver o assunto proposto, ela voltou a recolocar o assunto oficial). Aquela alegria continuada que ela mostrava não dava espaço, de forma alguma, para uma conversa mais pessoal. Aquele era o relacionamento oficial: alegre, muita deferência, mas nada de enveredar para assuntos mais pessoais.

O encontrou travou de vez quando ela  re-iniciou a atividade que estava desenvolvendo no momento que o avistou. Esse re-início era um sinal que ela não estava disposta a continuar o diálogo

Ele desistiu. Não havia como iniciar outro assunto ou sair daquele clima pseudo-alegre do encontro.

Muitas vezes quem coloca o biombo teme que um determinado assunto seja abordado ou que o relacionamento tome determinados rumos. Um tipo de biombo é a apresentação de um tema ou atividade que ocupe o tempo e a atenção do interlocutor, dificultando, dessa forma, que ele aborde aquilo que é indesejado.

 Por exemplo, uma criança está chorando porque a mãe acabou de deixá-la na escola. A professora tenta atrair a sua atenção para um brinquedo. Envolvê-la com o brinquedo vai ajudar a desviar a sua atenção da ausência da mãe.

Outro exemplo: uma pessoa mostra muita raiva por um motivo muito pequeno. Esta exibição emocional pode estar sendo apresentada com a finalidade de colocar o interlocutor na defensiva para evitar que ele apresente um tema desconfortável para o raivoso (por exemplo, questioná-lo sobre uma mentira que contou). A raiva também contribui para que o interlocutor hesite em provocar o raivoso ainda mais ou para que passe a defender-se daquilo que está sendo acusado com tanta emoção.

Biombos úteis

Muitas vezes é útil, senão imprescindível, esconder algumas coisas do interlocutor ou tratar delas de forma velada. Vamos ver dois tipos de conversas-biombo úteis: conversa-contato e conversa-alusiva.


Conversa contato

A conversa-contato é aquela conversa, ou parte de uma conversa mais ampla, que trata de assuntos leves. Boa parte desses assuntos diz respeito ao  entorno físico (“Parece que vai chover, não é?”; “A festa está animada!”; “Bela música, não é?”) e temporal (“Com estava o trânsito?”, “Conseguiu estacionar perto?”).

A conversa-contato é muito útil quando utilizada corretamente. Algumas pessoas mal cumprimentam a outra e já entram direto nos assuntos que as interessam. Elas não sondam se a outra pessoa tem disponibilidade e disposição para conversar naquele momento, se essa pessoa também tem algo importante para dizer ou  como ela está se sentindo.

Se esse tipo do conversa é prolongado, o encontro se torna chato e estéril (“papo furado”, “falar para tirar o ar da boca”). Os tímidos, por exemplo, tentem a prolongar demais as conversa-contato ou a voltar a ela em vários pontos da conversa propriamente dita quando faltam outros assuntos.


Conversa-alusiva

Muitas vezes o biombo é um tanto  transparente ou se comunica com aquilo que ele está escondendo. Nesse caso, ele serve para tratar, de forma disfarçada, daquilo que está oculto. O tema explícito alude, é homólogo ou se relaciona com o tema que realmente interessa, mas que não pode ser tratado diretamente.

No seu livro Porque Mentimos, David Livingstone Smith apresenta vários exemplos onde um assunto que não pode ser tratado diretamente é tratado indiretamente (não pode ser tratado diretamente porque é inconsciente ou porque ocorreriam consequências indesejáveis, caso ele fosse abordado explicitamente). Por exemplo, quando estamos com alguém chato podemos abordar o tema “pessoas chatas” ou “maneiras de ser chato”. Quando alguém é perigoso, muitos temas sobre perigo afloram. Às vezes, o grau e a quantidade de similaridades entre o assunto explícito e o implícito é muito grande. Por exemplo, um seriado antigo de televisão, protagonizado por Jô Soares e Chico Anísio,  apresentava  uma dupla de fazendeiros que se ofendiam interminavelmente, de forma indireta, falando dos defeitos de terceiras pessoas que, obviamente eram muito similares ao interlocutor. O recado era dado e ficava claro tanto para o interlocutor como para o expectador.

 

Utilize o biombo corretamente: seja polido, mas não seja ineficiente na sua comunicação.

 

Por Ailton Amélio às 11h53

06/08/2010

Endeusamento e demonização do parceiro amoroso

Não percebemos diretamente a realidade. As nossas percepções recebem influências de nossas expectativas, objetivos, valores, emoções, etc. Lançando mão de uma analogia com a visão, poderíamos dizer que a nossa percepção da realidade se dá através de diversos tipos de lentes que formatam, priorizam, interpretam, melhoram ou pioram aquilo que está sendo percebido.

As distorções podem ser negativas (tendência para ver más qualidades. Por exemplo, achar que quem é gordo não tem persistência) ou positivas (tendência para ver boas qualidades. Por exemplo, achar que quem é bonito também tem várias outras qualidades: “O que é belo, é bom”).

As distorções perceptuais tanto podem ocorrer na percepção de pessoas como na percepção de grupos de pessoas como, por exemplo, as demonizações de outros grupos que ocorrem  devido ao nacionalismo exacerbado, ao fanatismo religioso e ao fanatismo de torcedores de certos esportes.

 Vamos tratar aqui das distorções positivas que produzimos na percepção das pessoas que gostamos (principalmente daquelas pessoas pelas quais estamos apaixonados) e das distorções negativas que produzimos na percepção das pessoas que não gostamos (aquelas que antipatizamos ou odiamos) ou não estamos gostando no momento (durante brigas sérias, por exemplo).

Endeusamento do parceiro amoroso

Ela se apaixonava com muita facilidade por pessoas que mal conhecia. Aquilo que não desconhecia a respeito do amado era preenchido por tudo que ela sonhava e desejava em um namorado. As amigas já tinham visto aquela história várias vezes e, por isso, não formavam grandes expectativas do “fulano maravilhoso” que ela tinha acabado de conhecer e estava descrendo, até conhecê-lo. Geralmente esta pessoa era um tipo comum e, outras vezes, infelizmente, era alguém que tinha defeitos e incompatibilidades óbvios com a amiga sonhadora. Como alguém sabiamente comentou, “Ela amava o amor. O parceiro era apenas um detalhe”. Por isso, ela era muito pouco exigente para começar a amar e, infelizmente, frequentemente se decepciona assim que vinha a conhecer melhor “príncipe encantado”.

  Esse endeusamento ocorre principalmente na fase do apaixonamento. Este fenômeno já recebeu vários nomes, tais como “idealização” e cristalização. Quem idealiza, exacerba as qualidades do parceiro, minimiza os seus defeitos e imagina  qualidades que ele não possui: ele é visto, imerecidamente, como maravilhoso, “tudo de bom”, “Que nem ele, só ele mesmo”, único, insubstituível, divinal.

Stendhal denominou este tipo de distorção de “cristalização”. Este autor observou gravetos que caíam em minhas de sal, lá na França, durante o inverno. Depois de um tempo, as partículas de sal úmido aderiam ao graveto e cristalizavam. Este processo produzia uma peça natural que se assemelhava a uma jóia maravilhosa cravejada de brilhantes. Analogamente, muitos parceiros “maravilhosos”, de fato não passam de gravetos adornados por partículas de sal.

Este tipo de idealização pode ser mais facilmente disparado quando o parceiro não é conhecido ou é pouco conhecido. Ele acontece, por exemplo, entre pessoas que apenas se viram à distância, conversaram por pouco tempo na internet ou que se conheceram há pouco tempo (“amor à primeira vista”).

 Superestimação das qualidades do amado

Mesmo no caso do amor, que pode suceder a paixão, ainda persiste um bom grau de endeusamento do parceiro. Existem evidências de que as avaliações de uma pessoa que são realizadas por quem a ama são mais positivas do que aquelas avaliações realizadas pelos amigos dessa mesma pessoa. Ou seja, o amor produz uma distorção ainda maior do que a amizade em favor da pessoa.

Quando a lente do otimismo está funcionando, quase tudo de positivo que o amado apresenta é visto como fazendo parte da sua boa natureza, e como sendo qualidade duradoura e intencional. As coisas negativas que ele apresenta são minoradas através de diversos mecanismos como, por exemplo, concebidas como  não intencionais, temporárias, compreensíveis diante das circunstâncias e de pequena monta em comparação com as suas qualidades positivas.

 Otimismo sobre o próprio relacionamento

A distorção positiva da percepção das qualidades do próprio relacionamento amoroso, quando ele é comparado com outros relacionamentos semelhantes, contribui para a sua estabilidade.

Essa distorção ocorre quando os cônjuges, em suas conversas particulares,  criticam outros casais. Segundo  dois famosos Caryl E. Rusbult. (University of North Carolina at Chapel Hill) e Bram P. Buunk (University of Groningen), estudiosos dos fatores que contribuem para a qualidade dos relacionamentos conjugais, a percepção do próprio relacionamento como sendo superior aos demais, contribui para a satisfação do casal e para a estabilidade do relacionamento. O curioso é que este tipo de percepção acontece com quase todos os casais que cujos relacionamentos são bons. Portanto, trata-se de uma distorção a serviço da estabilidade do casamento.

Demonização do parceiro amoroso

Agora Elisa não agüentava mais nem ouvir a voz do namorado. Desde o do dia que o conheceu, ele sempre foi muito ciumento. Nestes anos de namoro, ela foi deixando de ver os amigos, frequentar festas e participar de eventos sociais relacionados à sua vida profissional. Qualquer fato que deixasse o namorado inseguro na área amorosa era motivo para grandes brigas e represálias intermináveis. As mágoas de Elisa foram se acumulando e agora ela não o agüentava mais. Lembrava-se de cada um dos episódios onde ele tinha duvidado dela e prejudicado a sua vida social e profissional. Por mais que ele prometesse que ia mudar, ela não mais acreditava nele. Começou a perceber que ele era egoísta, malicioso, ciumento patológico e inseguro. Agora, Elisa não ouvia mais os seus argumentos, as suas promessas e via manipulação nas suas tentativas positivas para reverter a situação.

 Quando uma pessoa deposita grandes esperanças, faz grandes investimentos e recebe promessas do amado, ela pode baixar suas defesas e se entregar sem grandes reservas. Caso, posteriormente, essa pessoa que se entregou seja repetida ou gravemente frustrada ou ferida pelo amado, pode começar a demonizá-lo (“Depois de tudo que fiz por você, eu não esperava que você me aprontasse isso”, “Eu confiava tanto em você”).

A demonização cria um círculo vicioso: o demonizado pode realmente começar a se portar cada vez pior. Por exemplo, o demonizado pode começar a contra-atacar durante as brigas e, ai, o que era puramente distorção dos fatos começa a ser realidade: ofensas reais começam a ser produzidas por ele.

 A demonização pode ser útil

É mais fácil desapaixonar-se e separar-se de alguém que só tenha defeitos do que de alguém normal ou que possua mais qualidades do que defeitos. Quando o relacionamento realmente não tem chances, a demonização facilita a separação e pode diminuir os sofrimentos do demonizador.

A demonização  facilita o desapaixonamento porque ela entra em choque frontal com um dos requisitos do apaixonamento e da manutenção da paixão: a admiração pelo amado.

No entanto, as distorções exageradas de percepção podem ser mais danosas do que benéficas para quem distorce e para quem é alvo da distorção.

 Fatores que alteram os graus de distorção

O grau de distorção da nossa percepção de outra pessoa geralmente é proporcional à intensidade dos sentimentos que temos por ela. Essa distorção vai desde um extremo, onde ela é vista muito mais negativamente do que  realmente é (a demonizarão de inimigos odiados, por exemplo), até o outro extremo, onde ela é vista muito mais positivamente do que realmente é (o endeusamento de quem estamos apaixonados, por exemplo). Entre esses dois extremos existem graus intermediários de distorção, como aqueles que ocorrem na percepção das qualidades e defeitos de pessoas desconhecidas (antipáticas, neutras ou simpáticas), pessoas que são apenas colegas, amigos, e parentes (não necessariamente nesta ordem).

 

O grau de distorção geralmente é inversamente proporcional à diversidade de situações nas quais aquele que distorce e quem é objeto da distorção conviveram. Quanto maior essa diversidade, menor o grau de distorção. Por exemplo, quem só convive com o parceiro em momentos de lazer  (restaurantes, espetáculos, viagens, etc passeios) só entrará em contato com as características do parceiro que aparecem nos bons momentos e poderá idealizar aquelas que aparecem em outras circunstâncias. Por isso é importante conhecer o parceiro em varias situações (trabalho, vida familiar, lazer, etc.) antes de se comprometer seriamente com ele.

O grau de distorção geralmente é inversamente proporcional ao tempo de convívio. Uma de suas funções do namoro é contribuir para a correção dessa distorção. Como diz o ditado popular,  “A paixão é míope, e o namoro, um bom par de óculos”.

Existem evidencias de que os casamentos duram menos quando os cônjuges namoraram por muito pouco tempo (nesse caso, o casamento aconteceu na fase que a idealização estava muito forte) ou tempo demais (salvo melhores motivos, nesse caso, um ou ambos os parceiros estavam hesitando em se comprometer com o outro, o que pode ser um mau sinal).

De fato, por mais que convivamos com alguém jamais chegamos a conhecê-lo muito bem. Existem algumas evidências de que, mesmo após vinte anos de casado, os cônjuges, em media, só acertam 50% das afirmações sobre o outro (afirmações que envolvem conteúdos do tipo: para onde ele preferiria viajar, como usaria o dinheiro, etc.).


Parece, portanto, que uma certa dose de endeusamento do parceiro durante a paixão e durante o amor é natural e até benéfica. Da mesma forma, uma certa dose de demonização do parceiro pode ser útil quando um relacionamento não tem mais chance de dar certo: ela diminui o sofrimento e facilita a separação do demonizador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Ailton Amélio às 11h22

01/08/2010

Quando a novidade beneficia o amor

Passamos boa parte de nossas vidas procurando novidades e evitando a repetição. A busca por novidades, provavelmente, foi um dos grandes motores do progresso humano: a curiosidade incansável, a procura por uma nova maneira de fazer as coisas, a curiosidade para ver o que existe atrás da próxima montanha, etc.

 No entanto, vários mecanismos psicológicos que são úteis quando bem calibrados, podem tornarem-se danosos quando desregulados. Isso acontece, por exemplo, com o medo, o ciúme, a sociabilidade e a sexualidade. Algumas pessoas até se tornam viciadas em novidades: compram tantas roupas que nunca conseguirão usar, visitam mil cidades sem conhecer suficientemente nenhuma delas, casam-se várias vezes, trocam de amigos, etc.

Vamos examinar aqui alguns efeitos da novidade na área amorosa.


Efeito Coolidge

Calvin Coolidge foi o 30º presidente americano. Existe uma anedota famosa à respeito desse presidente, que nunca foi confirmada ou desconfirmada:

Um dia esse presidente visitava uma granja, na companhia da sua esposa e de uma comitiva. Durante a visita, o presidente ia na frente, acompanhado por um grupo, e a sua mulher, logo atrás, acompanhada por outro grupo. Em certo momento da visita, a sua esposa viu um galo transando incansavelmente. Ela então perguntou para alguém que estava próximo:

- Quantas vezes este galo transa por dia?

- Cerca de 60.

- Diga isso para o meu marido, lá na frente.

            A pessoa foi até o Presidente e disse: “Olha, Presidente, a energia desse galo”. O presidente observou por um tempo a atividade incansável da imponente ave, e, com um ar admirado, perguntou:

- Quantas vezes ele transa por dia?

- Cerca de 60.

- Com a mesma galinha?

- Não. Uma vez com cada uma.

- Diga isso para a minha mulher, lá atrás!

 

Este efeito da renovação da motivação sexual que é provocado pela presença de uma nova parceira foi denominado, em “homenagem” a este presidente, de “Efeito Coolidge”.

 

Mais recentemente, o efeito Coolidge foi estudado em várias espécies de aves e mamíferos. Um desses estudos, por exemplo, verificou que um rato que já havia transado várias vezes com uma rata e tinha parado, aparentando saciedade, voltou a transar com uma nova rata, assim que ela foi colocada na sua presença, com energia renovada. Os pesquisadores suspeitaram que, talvez, o rato tivesse voltado a transar com a nova rata porque esta não havia transado há um bom tempo e, por isso, houvesse provocado-o. Estes pesquisadores repetiram então a pesquisa com outros ratos, com a diferença que, dessa vez, a nova rata também já havia transado com outro rato. Ela, portanto, estava tão saciada quanto aquela que transou em primeiro lugar com o rato. Mesmo assim, o rato mostrou muita energia sexual e transou muito com a recém chegada, afastando, dessa forma, a hipótese da provocação como principal a responsável pela renovação da sua motivação e fortalecendo a hipótese do efeito Coolidge.

O efeito Coolidge é natural para nós humanos e provavelmente é um dos maiores motivadores do polisexo (descrito no artigo anterior). Uma exacerbação do efeito Coolidge é a compulsão sexual direcionada para infindáveis parceiros.


O “ficar”

A balada estava animada. Ela estava beijando um rapaz que tinha acabado de conhecer. Uns “amassos” depois, ele foi ao toalete. Outro rapaz passou perto dela. Seus olhares se cruzaram. Ele retornou e abordou-a. Trocaram algumas palavras gritadas, porque o som estava alto, e, rapidamente, ele mostrou a intenção de beijá-la. Ela manteve o olhar, o que ele interpretou como um sinal verde e imediatamente começou beijá-la. Naquela noite mais duas histórias parecidas aconteceram com ela: no final da noite ela havia ficado com quatro pessoas. Ela ficava porque sentia muito prazer em seduzir desconhecidos atraentes e beijá-los. Suas ficadas quase nunca passavam daí: nada de relacionamento, nada de sexo depois.

 

O ficar é uma prática muito difundida entre os jovens. Uma enquete que fiz recentemente, mostrou que universitários (24 anos em média) variam muito no quanto já ficaram. Alguns nunca ficaram e outros já ficaram com mais que duzentos parceiros. Em média, cada um dos cerca de 500 que participaram desse estudo, já haviam ficado com cerca de 20 parceiros diferentes.


O estilo de amor “ludos”

John Alan Lee, autor da famosa teoria sobre o amor, denominada “estilos de amor”, descreveu um grupo de pessoas, “lúdicos, que sente grande prazer na conquista amorosa. Uma vez conquistada uma pessoa, logo ela fica bem menos interessante.

Os lúdicos conseguem ter vários relacionamentos simultâneos e gostam de pessoas que têm diversos tipos de aparência e personalidade. O exemplo clássico é o Don Juan.

 

O apaixonamento

Uma das melhores teorias sobre o apaixonamento é a de Stendhal, autor de vários romances conhecidos (por exemplo, O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma). Segundo esse autor, para acontecer o apaixonamento é necessário haver admiração pelo parceiro, esperança de reciprocidade e certa dose de insegurança quanto ao amor do parceiro. A insegurança funcionaria como uma espécie de catalisador do amor, segundo esse autor.

A novidade está na base da insegurança: de vez em quando o parceiro dá sinais de interesse e outras vezes apresenta indiferença. Quem é do estilo Mania (um dos tipos de amor, segundo a teoria de John Alan Lee, citada acima) é particularmente sensível à insegurança. Quem é desse tipo tende a se apaixonar por parceiros que usam o tratamento “quente-frio”: em alguns momentos mostram interesse e em outros momentos mostram indiferença.

 

A dose certa de novidade varia de uma pessoa para outra e de uma situação para outra. Novidade demais ou de menos pode arruinar um relacionamento. A dose certa de novidade mantém um relacionamento vivo e interessante indefinidamente.

 

(Apresentei mais detalhes da teoria de John Alan Lee e da teoria de Stendhal no meu livro Relacionamento Amoroso, Publifolha).

 

Por Ailton Amélio às 20h21

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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