Blog do Ailton Amélio

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27/09/2010

Tímidos: prisioneiros das suposições

Deixamos de fazer muita coisa simplesmente porque concluímos erroneamente que (1) elas são muito difíceis de serem feitas, (2) não somos capazes de fazê-las e (3) falhar nas tentativas de fazê-las produziria graves consequências.

Quanto mais ambígua uma situação, mais fácil tirar conclusões errôneas a seu respeito e passar a vida toda acreditando que elas são verdadeiras. As situações sociais são bastante ambíguas. Por isso, elas são um campo fértil para suposições errôneas.  Essa ambiguidade acontece porque não temos acesso direto a boa parte daquilo que os outros pensam e sentem (O filme “ O mentiroso”, com Jimmy Carrey, ilustra, de uma forma hilariante e dramática, o que acontece quando as pessoas revelam o que estão sentindo e pensando).

Uma boa parte da imagem social que achamos que projetamos para as outras pessoas, os efeitos dessa imagem nas outras pessoas e a existência de outras formas de agir que também seriam aceitas, ou até melhor aceitas, por elas, nunca são testadas.

Quando as conclusões sobre os fenômenos enumerados acima são corretas, elas são saudáveis e impedem que desperdicemos energia e nos metamos em encrencas. Essas conclusões, quando corretas, também servem de orientação para que nos preparemos para enfrentá-las, quando não estamos bem preparados.

O medo de falar em público, a mediocridade, a baixa auto-estima, a inassertividade e a timidez são casos típicos onde as suposições infundadas controlam as vidas daqueles que delas padecem. Vamos examinar, como exemplo, o caso da timidez.

Como suposições infundadas controlam a timidez

E se....

Tive um paciente que era muito tímido. Ele tinha trinta e tantos anos e ainda nunca havia namorado. Era um excelente rapaz: inteligente, estudado, bem apessoado, tinha ótimos valores e ótimos sentimentos. Mas, a timidez conseguia superar todos esses méritos na hora de iniciar um relacionamento amoroso.

Um dia ele teve uma conversa a esse respeito com o melhor amigo do seu pai. Esse amigo o chamou e disse:

- Nunca vi você com uma namorada. Creio que você nunca namorou. Acho que você tem o mesmo problema que o seu pai tinha. Ele era tão tímido que nunca arranjava namorada. Ele só namorou a sua mãe. Mesmo assim, só consegui namorá-la porque ela fez todo o trabalho. O grande inimigo do seu pai era o “E se....”.

- Como assim? O que significa esse “E se...”

- O seu pai sempre pensava assim:

“E se eu mostrar o meu interesse por aquela mulher e ela achar que não me enxergo, porque é óbvio que não estou à altura dela para fins de um namoro?

            E se eu abordá-la e ela já estiver namorando?

            E se eu mostrar o meu interesse e ela, além de me rejeitar, contar para todo

      mundo?

            E se eu mostrar o meu interesse e isso incomodá-la?”

Diante de tantas suposições negativas, ele sempre evitava tomar qualquer

iniciativa no campo amoroso.”

Realmente, era isso mesmo que se passava com o meu paciente. Ele era pessimista sobre a complexidade das atividades que são necessárias para iniciar um namoro, sobre os seus próprios méritos para atrair as parceiras que achava interessantes, sobre as próprias habilidades para atraí-las e para manter e desenvolver o namoro e sobre as conseqüências negativas que ocorreriam caso não fosse bem sucedido em uma tentativa nessa área.

Os tímidos acham que flertar e iniciar namoros são tarefas complexas que eles não dominam. Por isso, lêem tantos livros de auto-ajuda para tentar descobrir como essas situações funcionam e para e tentar, desesperadamente, aprender como se portarem nelas. Realmente essas tarefas são complexas e ainda hoje são pouco conhecidas até para a psicologia. No entanto, ninguém precisa conhecê-las racionalmente ou saber falar sobre elas para desempenhá-las satisfatoriamente. Algo similar acontece em relação a várias outras habilidades como escrever bem, fazer amizades e ter charme. Raras pessoas que possuem essas habilidades saberiam relatar como agem para serem bem sucedidas.

Para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos o que tem que ser feito é basicamente o mesmo que é feito em vários outros tipos de relacionamentos (por exemplo, no relacionamento com amigos, colegas e familiares). Talvez o maior diferenciador entre a forma de portar nessas outras áreas e na área amorosa é que, nessa última, os envolvidos mostram interesse e atração amorosa (por exemplo, flertam, procuram beijar e mostram desejos sexuais).

A insegurança, essa sim, atrapalha o desempenho dos tímidos. Quem está com medo exagerado, teme estar fazendo algo errado e teme ser rejeitado,  já está fazendo algo errado: ao invés de flertar e namorar com eficiência, a pessoa insegura está empenhada em lutar contra os seus medos. Esse conflito interno implica na perda da espontaneidade, na diminuição das iniciativas, na perda da sincronia com o parceiro e na perda do clima amoroso.

O maior papel da terapia na área amorosa é ajudar o paciente a deter suas suposições negativistas, diminuir seus disparos de emoções negativas  e a adquirir a confiança de que já tem condições suficientes para fazer sucesso nessa área.

Muitas vezes eu treino o paciente naquelas habilidades que ele acha que não domina. Faço isso não porque ele não domine a atividade, mas sim para que ele possa fazer automaticamente aquilo que foi treinado, quando estiver intoxicado pelos seus medos, pelas auto-observações e pelos pensamentos pessimistas. O treinamento também serve como uma espécie de placebo: ajuda o paciente a ficar confiante que agora já sabe como se portar naquela situação.

Teste as suas suposições pessimistas e mude a sua forma de agir e pensar. Caso você não esteja conseguindo fazer isso sozinho, procure a ajuda de um psicólogo especializado.

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Por Ailton Amélio às 09h34

21/09/2010

Mentiroso ou franco demais: a edição da conversa

Se você só pensa nas conseqüências antes de fazer ou deixar de fazer afirmações, você é um mentiroso. Se você diz tudo o que pensa, você é uma pessoa condenada à morte pelos seus inúmeros inimigos.

Todos nós temos que editar o que comunicamos ou deixamos de comunicar: por um lado, não podemos comunicar tudo que pensamos e, por outro lado, temos que apresentar uma boa dose daquilo que se passa conosco. Quem só simula ou dissimula não vive, mas sim, representa!

Além disso, simular ou dissimular gasta energia extra porque, muitas vezes, quem age assim tem, em primeiro lugar, que conter os seus verdadeiros sentimentos e pensamentos e, simultaneamente, representar outra forma de agir.

Por outro lado, expressar tudo que passa pela nossa cabeça seria desastroso: ficaríamos expostos a riscos, arruinaríamos a nossa imagem pública, ofenderíamos inúmeras pessoas... seríamos banidos do convívio social.

O melhor salvo conduto para expressar uma boa dose daquilo que sentimos e pensamos é a polidez: quase tudo pode ser dito, dependendo da forma como é dito.

Expressar um pouco mais que a média é energético

Quem expressa seus sentimentos e pensamentos um pouco mais do que seria esperado, e faz isso de forma polida, traz vida para o diálogo, para si próprio e para o interlocutor. Além disso, quem age assim geralmente é admirado pela sua coragem e originalidade.

Essa forma de agir traz vida extra para quem a adota porque, para estar participando de verdade de uma interação social, é necessário expressar, em um grau razoável, aquilo que sentimos, pensamos e queremos. Quem age assim está realmente presente. Não está ali prestando um favor e disfarçando.

Falar um pouco mais o que sentimos e pensamos do que faz a maioria das pessoas, também tem efeito energético para o interlocutor porque ele observa os efeitos reais da sua atuação e presença. Além disso, a participação real sempre produz um grau maior de imprevisibilidade na conversa, o que é um sinônimo de vida.

Edição promotora ou restritora de aspectos da conversa

Quase tudo que falamos em uma conversa passa por um processo de edição. Nem tudo aquilo que está sendo sentido ou pensado é expresso na conversa e nem tudo que é expresso está sendo sentido ou pensado. Censuramos, cortamos, adaptamos, formatamos e fabricamos uma boa parte daquilo que falamos.

As decisões de omitir ou trazer algo para a conversa (o tema, o conteúdo específico que vai ser tratado, a forma de condução da conversa e o tempo dedicado a cada setor da conversa) dependem, respectivamente, da força inibidora ou promotora de seus “editores”.

As edições de conversas podem ser classificadas como promotoras ou restritoras. A edição promotora é aquela que adiciona coisas à conversa. Por exemplo, as regras da polidez podem pressionar para que uma conversa indesejada seja iniciada, certos temas sejam abordados, coisas específicas sobre o tema sejam ditas e determinadas formas e durações de cada parte da conversa sejam adotadas. A edição restritora é aquela que subtrai ou disfarça aspectos da conversa. Ela pode, por exemplo, pode provocar a evitação de uma conversa, de um tema ou de uma forma de conversar. Muitas vezes, uma combinação de edições promotoras e restritivas promove a adoção de formas evasivas e indiretas de apresentar e abreviar assuntos tais como o disfarce (agenda oculta, alusão)

Vamos tratar aqui apenas da edição restritora. A edição promotora será abordada em outro artigo.

Componentes da conversa que podem ser editados

Geralmente todos os componentes de uma conversa sofrem algum tipo de edição. Os principais aspectos das conversas que são editados são os seguintes:

·         O grau de interesse em participar da conversa.

As pessoas sempre administram a apresentação de pistas que revelam quanto querem ou podem conversar em um dado momento.

·         O grau de interesse em cada tema da conversa.

Os interesses por temas de conversa  variam muito entre os participantes. Muitas vezes um deles tem que fingir que está interessado em um tema que parece ser importante para o seu interlocutor.

·      A posição pessoal em relação a cada tema e aspectos do tema que está sendo tratado na conversa.

Por exemplo, as pessoas administram as informações sobre as suas concordâncias ou discordâncias em relação aos pontos de vista em relação aos temas que estão sendo abordadas na conversa.

·         Profundidade / extensão e detalhamento que gostaria de tratar de cada tema da conversa

A profundidade que um tema é tratado em uma conversa depende dos interesses do falante e do interlocutor, do tempo que dispõem para isso, da necessidade de tratar de outros temas, das exigências do próprio tema (certos temas exigem abordagem mais ou menos profunda e extensa) e dos objetivos da conversa.

·         A forma como a conversa transcorre

Um dos interlocutores pode ocupar por mais tempo a posição de ouvinte ou de falante; a conversa pode transcorrer na forma de interrogador e interrogado, etc.

·         Durações. As durações de vários aspectos da conversa são continuamente editadas. Por exemplo, a duração da conversa, de cada tema, das ocupações dos papéis de ouvinte e falante são controlados, continuamente, por um ou por mais que um dos interlocutores.

Não seja mentiroso nem franco demais: pensa na maneira como você vem editando suas conversas e tente aperfeiçoá-la. Caso isso esteja muito difícil, procure um psicólogo especializado. 

 

 

 

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Por Ailton Amélio às 18h00

17/09/2010

Caminhos para iniciar relacionamentos amorosos

Você quer encontrar um novo parceiro amoroso? O que dever fazer? Ir para as baladas, barzinhos e outros paqueródromos? Pode ser. É isso que a maioria das pessoas que querem encontrar um parceiro amoroso pensa em primeiro lugar. Mas, a maioria dos relacionamentos amorosos não começa neste tipo de local. Além disso, aqueles relacionamentos que começam nestes locais, têm uma chance menor de durarem e evoluírem para um grau maior de compromisso.

Realizei um estudo com quatro grupos de pessoas em cinco cidades brasileiras para verificar como elas iniciaram seus namoros. Este estudo mostrou quase todos esses namoros foram iniciados através dos seguintes cinco caminhos:

·      Transformação de um relacionamento não amoroso que já existe (amizade, relacionamento profissional, etc.) em amoroso: 37% dos namoros.

·      Apresentação por um conhecido em comum: 32% dos namoros.

·      Flerte com um desconhecido seguida de abordagem: 20% dos namoros.

·      Encontros acidentais (estar em uma fila, ou sentar-se ao lado de alguém em um ônibus ou no metrô e puxar conversa): 4% dos namoros.

·      Uso de serviços (internet, agência de casamentos e anúncios): 1% dos namoros.

·      Outros caminhos: 6%

( Esses resultados são muito semelhantes a aqueles encontrados nos Estados Unidos e relatados no livro no livro Sex in America: Michael, R. T., Gagnon, J. H., Laumann, D. O. and Kolata, G. (1995). Sex in America. New York, Warner Books).

Cada um desses caminhos tem vantagens e desvantagens e, além disso, cada um deles é mais adequado para certos tipos de pessoas do que para outras e para determinados tipos de situações. Por exemplo, pessoas que tenham características que são raras na população dificilmente se deparam com parceiros compatíveis nos locais que frequentam ou que poderia frequentar. Isso acontece, por exemplo, com mulheres acima de certa idade e que são muito qualificadas. Nesse caso, o lugar mais provável para encontrar parceiros compatíveis é na internet. Para isso ilustrar isso, vamos supor que só existam cinqüenta parceiros compatíveis entre si que morem aqui na cidade de São Paulo. Nesse caso, haverá muito pouca chance de elas se encontrem acidentalmente aqui na cidade. No entanto, se elas colocarem seus perfis em um bom site de relacionamento, ai elas terão uma grande chance fazerem contato. É importante notar também, que as percentagens de namoros que são iniciados na internet aumentaram desde que este estudo foi realizado.

Outro exemplo: quem é estórgico na forma de amar (amor que nasce de uma amizade) geralmente não gosta de baladas. A melhor maneira das pessoas que têm esse tipo de amor encontrarem parceiros é em locais e atividades que propiciem contatos repetidos e demorados entre os freqüentadores (trabalho, escolas, clubes, etc.)

Agora, se você é do tipo que gosta de flertar com desconhecidos à distância e abordá-los ou ser abordado por ele, ai os paqueródromos (baladas, barzinhos, boates, etc.) são ótimos locais para iniciar esse tipo de relacionamento.

 (Veja outras vantagens e desvantagens de cada um desses caminhos no meu livro "O Mapa do Amor", Editora Gente)

Geralmente esses caminhos favorecem os contatos com possíveis parceiros, mas isso pode não ser suficiente para iniciar um relacionamento desse tipo. Por exemplo, adianta pouco ter vários colegas disponíveis e atraentes ou ser apresentado para muita gente interessante, atraente e disponível se a pessoa que tem essas oportunidades não flertar, não mostrar receptividade para flertes alheios e não acentuar seus sinais de gênero masculinidade ou feminilidade na presença dessas pessoas. Um dos motivos que atrapalha muita gente na hora de apresentar esses comportamentos é a timidez.

Caso você esteja com dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos faça uso de todos esses caminhos e iniciativas. Caso ainda assim esteja difícil, procure a ajuda de um psicólogo especializado nessa área!

 

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Por Ailton Amélio às 09h55

12/09/2010

O ouvinte perfeito

Dependendo de quem sejam os nossos interlocutores, da situação onde esteja ocorrendo a conversa, do nosso humor e dos nossos objetivos, variamos bastante a forma como ouvimos. Isso é natural e adequado. No entanto, alguns aspectos da forma de ouvir de cada pessoa permanecem razoavelmente constantes mesmo quando variam as circunstâncias.

Pense na sua forma usual de ouvir responda as questões abaixo. (Quanto mais para a esquerda você assinalar mais discorda da afirmação. Quanto mais para a direita, mais concorda).

1-     Geralmente, quando não estou motivado para ouvir, geralmente simulo comportamentos para agradar o falante.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

2-     Geralmente, quando ouço, sou mais controlado pelo que o interlocutor possa pensar e sentir a meu respeito do que pelo que estou sentido e pensando.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

3-      Geralmente, reprimo a expressão daquilo que sinto e penso, diante daquilo que o interlocutor está falando, quando tais sentimentos e pensamentos poderiam desagradá-lo.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

4-     Geralmente, quando não quero ouvir uma pessoa ou um assunto, os meus comportamentos não-verbais e verbais mostram isso com clareza.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

5-     Geralmente quando não quero conversar com alguém, mostro o mínimo possível de comportamentos que indicam que estou ouvindo , só para não parecer grosseiro.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

6-     Geralmente, sei calibrar a minha forma de agir para ouvir quem quero, o assunto que quero e por quanto tempo quero.

Discordo                  |-------|-------|-------|-------|-------|-------|   Concordo

Completamente     -3      -2      -1      0     1      2       3   Completamente

É natural e benéfico que usemos um pouco de cada uma dessas formas de ouvir, dependendo de quem seja o interlocutor, qual seja o assunto e das circunstâncias que estejam presentes onde está ocorrendo a conversa. A forma de agir descrita na questão seis acima, obviamente, é a que a maioria das pessoas gostaria de adotar na maioria das circunstâncias.

Outras considerações sobre essas formas de ouvir são apresentadas nas histórias abaixo. Veja quanto cada uma delas se aproxima da sua forma usual de ouvir.

Ouvinte bonzinho

André sempre chegava muito cansado à sessão de terapia. A principal causa do seu cansaço era a forma como ele participava das conversas no ambiente de trabalho. Ele fazia o tipo “bonzinho”: sorria muito, ouvia qualquer tipo de assunto, permanecia por tempo ilimitado em qualquer conversa, dizia o que as pessoas queriam ouvir e fingia estar envolvido com tudo que elas diziam. Ou seja, ele gastava muita energia simulando reações e contendo aquilo que realmente sentia, queria e pensava. Haja trabalho!!!

O pior de tudo é que a sua forma de proceder estimulava mais ainda as pessoas insensíveis que conversavam com ele: quem não gostaria de ter um ouvinte tão disponível, que ouvia qualquer coisa, por tempo ilimitado e que reagia tão favoravelmente?

 André achava que era anti-social e que, por isso, não gostava de conversar com as pessoas. Chegou a esta conclusão porque as conversas não eram nada prazerosas para ele. Pelo contrário: eram muito cansativas. Por outro lado, fazia de tudo para ser aceito pelas pessoas e sentia muita solidão quando ficava algum tempo sozinho. Ou seja, ruim com as pessoas, pior sem elas.

O problema de André é que ele tinha uma participação ativa e dissimulada nas conversas. Essa forma de participar não dava espaço para a sua forma real de sentir, querer e pensar. Temia que se fizesse isso, não agradaria e, talvez, até ofenderia as pessoas.

Em parte ele tinha razão: caso expressasse mais as suas opiniões e sentimentos provavelmente afastaria muitas daquelas pessoas que alugavam os seus ouvidos e que não tinham condições de conversar com um interlocutor real e ativo. Por outro lado, essa maneira mais autêntica de ouvir poderia abrir espaço para encontrar pessoas com as quais ele teria um relacionamento de verdade: acolheria, seria acolhido e negociariam as diferenças. Além disso, muitas das pessoas para as quais ele atualmente “prestava serviço” como ouvinte bonzinho também teriam condições e, talvez, até preferissem, relacionarem-se com o André mais real.

Caso André realmente tivesse pensamentos, sentimentos e vontades muito diferentes dos aceitáveis pela maioria das pessoas, o melhor caminho era fazer terapia para modificá-los de verdade ou para aprender a apresentá-los de uma forma aceitável. Só essa evolução genuína  é que o tornaria capaz de se apresentar mais autenticamente nas situações sociais.

Claro que não é possível ser totalmente transparente. Isso também seria desastroso. Por outro lado, ser totalmente simulado é uma forma de afastar-se do mundo e só se apresentar socialmente através de um personagem dissimulado que é mantido no palco através de muito esforço.

 

Ouvinte mínimo

Marina era paradona, lacônica e pouco reativa. Conversar com ela era torturante. A sua maneira típica de ouvir era aquela que denominei de “ouvir mínimo”. Ela só apresentava reações mínimas que eram suficientes para não ser grosseira e para não cortar a conversa com o interlocutor: não mostrava interesse, não perguntava, não reagia emocionalmente, não questionava e não contava casos confirmadores ou contestadores daquilo que havia sido relatado pelo interlocutor. Isso não era nada estimulante para o falante

Caso agisse assim com quem não quisesse conversar, quando não quisesse conversar ou frente a algum assunto que não quisesse abordar, ai estaria tudo certo: ela estaria sendo hábil para não estimular conversas indesejáveis. Mas, não! Ela era assim com todo mundo. Por isso era evitada por ser chata. Todos temiam ficar a sós com ela. O silêncio quase certamente se instalaria e seria desagradável porque as pessoas são educadas para tentar conversar com suas companhias.

Marina não sabia dizer o que fazia que afastava as pessoas. Quase não tinha amigas, não namorava e era pouco convidada para festas. Essa sua forma de ouvir também estava prejudicando sua vida profissional: quando procurara emprego era aprovada nos testes de capacidade, mas acabava sendo reprovada nas entrevistas e dinâmicas de grupo.

Ouvinte impaciente

Fernando não tinha paciência para ouvir o que as outras pessoas diziam e não gostava de quase nenhum assunto. Mostrava irritação. Não fazia perguntas, interrompia, perguntava sobre outros assuntos.

Ouvinte dominador

Carlos domina as conversas. Determina o assunto, interrompia demais, interrogava, determinava o tempo que o falante podia abordar cada assunto e cada detalhe do assunto.

Não dava muito espaço para o interlocutor. Mal ouvia o que ele dizia e já queria dizer o que achava daquilo que foi dito, o que sabia a respeito, etc.. Acaba limitando a participação alheia e diminuindo a importância dos seus interlocutores.

Bom ouvinte

Elisa estava tinha muito sucesso na vida social. Sabia ouvir as pessoas, e apresentava seus pensamentos, sentimentos e vontades de uma forma suave que além de ser agradável, causava o menor conflito possível. Sabia quando não era possível conversar, tinha uma boa noção dos limites de cada pessoa, sabia que não era possível agradar a todos e nem tinha esse tipo de necessidade.

Conversar era estimulante a agradável para ela. Considerava as pessoas interessantes pela forma única como cada uma via e sentia as coisas. Era como conhecer obras de arte. Sabia ser tolerante. Sabia que, em média, valia a pena conhecer e conversar com as pessoas.

Sabia administrar a dose de tolerância: não aceitava simular reações e dispor do seu tempo além dos seus limites. Por isso, o custo que despendia com os relacionamentos estava sob controle: os seus ganhos superaram enormemente os gastos.

A sua forma de ouvir atende o que você pensa, sente e quer e, sempre que possível, motiva e valoriza o interlocutor?  Sim? Então você é um ouvinte perfeito!

 

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Por Ailton Amélio às 11h57

05/09/2010

Ingredientes do amor

Existem muitas teorias que tentam explicar o que é o amor, como ele nasce e quais são os seus tipos. A teoria triangular de Robert J. Sternberg, famoso pesquisador do amor e editor do livro “Psychology of Love”, entre outros, faz algo diferente. Ela trata da composição do amor. Segundo essa teoria, o amor é composto por três ingredientes: intimidade, paixão e decisão/compromisso.

Veja um resumo do exercício que costumo fazer com os pacientes que querem ou precisam entender os conteúdos dos seus amores.

 

Exercício

Apresento cinco almofadas para o paciente: três delas são do mesmo tamanho e têm cores diferentes. As outras duas almofadas são menores do que as três primeiras e também têm cores diferentes entre si. Passo então a instruí-lo da seguinte forma:

 

Intimidade.

Pegue uma almofada grande e coloque-a na sua frente. Ela vai representar a intimidade que você oferece para o parceiro.

Quanto você compartilha seus pensamentos e sentimentos com ele? Quando você o apóia? Quanto você é afetuoso com ele? Quanto tenta promover o seu bem estar? Quanto apoio emocional você oferece para ele? Quão compreensivo você é com ele?

Dê uma nota de 0 a 10 que resuma quanto de intimidade você oferece para o seu parceiro.

 

Coloque essa primeira almofada de lado. Pegue a segunda almofada grande e coloque-a no centro. Em seguida, coloque uma almofada pequena do lado esquerdo e a outra no lado direito da grande.

Paixão

Existem dois tipos de paixão: a romântica e a sexual. Cada uma dessas almofadas menores vai representar um desses tipos de paixão.

Paixão romântica. Quão romântico você se sente pelo parceiro? Quanto você sonha com ele quando vê filmes ou lê livros românticos? Quantas vezes você fica olhando nos seus olhos e trocando juras de amor com ele? Quanto você gosta de dançar de rosto colado com ele?

Dê uma nota de 0 a 10 que resuma esses diversos aspectos da paixão romântica que você sente pelo seu parceiro

Paixão sexual. Considere agora a paixão sexual. Quanto você o deseja? Quanto você gosta do contato físico com ele? Quanto você gosta de fantasiar intimidades sexuais com ele? Quanto de prazer sexual você sente quando tem relacöes sexuais com ele?

Dê uma nota de 0 a 10 que resuma esses diversos aspectos da paixão sexual que você sente pelo parceiro.

 

Retire as almofadas que representaram a paixão e pegue a última almofada, que vai representar a decisão/compromisso.

Decisão/Compromisso

Quanto você espera que esse compromisso com o parceiro dure pelo resto da vida? Quão determinada você está em se esforçar para manter esse compromisso? Quão certo você está do seu amor pelo parceiro?

De uma nota de 0 a 10 que resuma esses diversos aspectos do compromisso que você sente pelo parceiro.

 

Em seguida, peço para o paciente mudar para outra poltrona e imaginar que quem está ali é o seu parceiro. Peço então a ele que refaça o exercício inteiro e responda às mesmas questões acima, tal como imagina que o parceiro o faria.

As notas que ele atribui aos ingredientes do amor, enquanto representa o papel do parceiro, indicam, obviamente, a sua percepção ou imaginação sobre o parceiro e não o que realmente se passa com esse. Isso, de qualquer forma, é muito útil, porque aquilo que percebemos sobre o parceiro pode ser mais importante para nós do que a forma como ele é na realidade.

 

Os membros de cada casal podem oferecer e receber quantidades muito diferentes de cada um desses ingredientes do amor. Por exemplo, um cônjuge pode sentir muita atração romântica e sexual pelo parceiro, mas este pode sentir apenas muita intimidade e compromisso e quase nada de atração romântica e sexual por aquele. São os desencontros ou formas de amar que não combinam.

 

Também é possível usar essa teoria para avaliar outros aspectos dos relacionamentos e sentimentos. Por exemplo, é possível avaliar as intimidades, paixões e compromissos sentidos em contraposição aos expressos. Nem sempre expressamos aquilo que sentimos

 

Essa teoria é muito útil para entender o que se passa em diversos tipos de relacionamentos. Por exemplo, o que está acontecendo com os ingredientes do amor naqueles relacionamentos que:

 Os parceiros são casados há muitos anos. Eles quase não conversam, não são afetivos e quase não expressam mais nada na área romântica e sexual (“Amor vazio”).

Os parceiros têm muita intimidade no relacionamento, sentem muita paixão romântica e sexual, mas não assumem compromissos (“Amor romântico”).

Os parceiros têm muito intimidade e muito compromisso, mas pouca paixão romântica e sexual (“Amor companheiro”)

Uma pessoa sente muita atração romântica por um colega de trabalho, mas nunca sequer falou com ele e ele nem sabe da sua existência ("Amor platônico").

Os parceiros têm muita intimidade, muito amor romântico e muito compromisso (“Amor completo”)

 

Qual a composição do seu amor? Pegue as cinco almofadas e faça o exercício.

 

(Lembre-se que só estamos oferecendo um resumo dessa teoria. Para tomar conhecimento e avaliar melhor os ingredientes do seu amor, existem testes sérios, que devem ser aplicados e interpretados com o auxílio de um psicólogo).


Para ler mais sobre essa teoria e testes para medir os ingredientes do amor, procure na internet o artigo:

“Versão brasileira da escala triangular do amor de Sternberg” de Vicente Cassepp-Borges e Maycoln L. M. Teodoro

http://www.scielo.br/pdf/prc/v20n3/a20v20n3.pdf

 

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Por Ailton Amélio às 19h02

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

Histórico