Blog do Ailton Amélio

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29/10/2010

Apaixonamento: a teoria de Stendhal

Existem várias teorias sobre o apaixonamento. Uma delas, que é muita aceita entre os estudiosos desse fenômeno e que tem recebido respaldo de várias pesquisas científicas, é a de Stendhal. (Essa teoria foi apresentada no livro “Do Amor”, desse autor. Editora Martins Fontes – tradução do original em francês).

Vamos examinar aqui três dos requisitos que, segundo essa teoria, explicam o nascimento do amor: admiração, esperança e insegurança.

Admiração

Admirar significa reconhecer na outra pessoa qualidades que gostaríamos de ter. A importância da admiração para o nascimento do amor é facilmente reconhecida por quase todo mundo. Essa importância também é prevista pelas principais teorias que tratam desse fenômeno e também é coerente com os resultados dos estudos sobre a escolha de parceiros amorosos.

A maioria das pessoas deixa-se guiar, intuitivamente, pela admiração quando tenta conquistar e também quando se apaixona e escolhe um parceiro amoroso. As pessoas, quando querem conquistar um parceiro, fazem o possível para despertar a sua admiração. Por exemplo, elas capricham na auto-apresentação, exibem recursos e melhoram a aparência. Diversas pesquisas verificaram que os parceiros mais valorizados são aqueles que parecem ser mais inteligentes, que têm nível social, nível econômico e nível de escolaridade um pouco acima daqueles que os valorizam e são saudáveis e bonitos. Ou seja, são pessoas admiráveis aos olhos desses pretendentes.

É realmente difícil imaginar que o amor possa nascer sem algum tipo de admiração. A admiração geralmente é suficiente para produzir uma espécie de fascínio que pode fazer o admirador ficar hipnotizado pela pessoa admirada e levá-lo a fazer coisas completamente fora do seu padrão de conduta. Isto acontece, por exemplo, com adolescentes quando estão na presença de artistas ou de cantores que admiram. Essa admiração  faz com que eles entrem em uma espécie de delírio. Certas meninas, que na vida diária são recatadas e tímidas, se escondem nos armários e debaixo da cama  dos seus ídolos e aceitam fazer sexo com eles. A admiração em relação a algumas qualidades também pode produzir certas aberrações perceptuais em relação a outros atributos da pessoa admirada. Por exemplo,  um atleta que é excepcional no futebol, boxe ou no basquete também a adquire a propriedade de fascinar certas pessoas em outros setores, nada relacionados àqueles onde eles realmente possuem habilidades admiráveis, como a política  e a religião.

Muitas teorias psicológicas sobre o amor reconhecem que a admiração é um dos requisitos do apaixonamento. Por exemplo, a Teoria da Expansão do Eu, apresentada por Elaine N. Aron e Arthur Aron1 , afirma que para acontecer o apaixonamento é necessário haver admiração. Segundo essa teoria, admirar significa reconhecer qualidades excepcionais na outra pessoa. Essa teoria também afirma que uma maneira de incorporar essas qualidades admiradas na outra pessoa seria associar-se amorosamente com ela. O relacionamento amoroso com essa pessoa seria uma  maneira de integrar as qualidades admiradas ao eu do admirador, uma vez que os casais se vêm e são visto como uma unidade.

Esta teoria aponta, portanto, um caminho para a conquista: quando a associação amorosa com uma pessoa oferece possibilidades de crescimento psicológico e/ou ampliação dos horizontes pessoais, isto aumenta as probabilidades que a pessoa cujos horizontes serão expandidos se apaixone pela outra que pode expandi-los.

Esperança

“Só vou gostar de quem gosta de mim” (Canção interpretada, entre outros, por Caetano Veloso e Roberto Carlos. Composição de Rossini Pinto) 

Esta teoria afirma que também é necessário haver esperança  para que o apaixonamento aconteça: é necessário crer que é possível formar uma unidade amorosa com a outra pessoa. 

A necessidade da presença da esperança de reciprocidade para que o amor possa nascer mostra como a natureza é sábia. Se bastasse a admiração para o nascimento do amor, este sentimento seria tremendamente disfuncional. Por exemplo, como em geral tendemos a admirar aquelas pessoas que tem um nível sócio-econômico mais alto do que o nosso, caso a admiração fosse suficiente para provocar o nascimento do amor quase todo mundo de um nível social estaria apaixonado pelas pessoas dos níveis sociais mais altos do que os delas. Isso não acontece porque não há esperança de reciprocidade desse sentimento e também porque não há esperança de que seja possível desenvolver um relacionamento duradouro e satisfatório entre pessoas que discrepem muito nesses setores.

A necessidade da esperança para o nascimento do amor também foi reconhecida pela teoria psicobiológica proposta por David Buss. Esse autor usou a locução "sinais que vai investir" para nomear os sinais que são apresentados por alguém que realmente está interessado em desenvolver um relacionamento duradouro com outra pessoa . São sinais que indicam a pessoa que os exibem realmente está disposta a permanecer com a outra, a ajudá-la em diversos setores de sua vida e que gosta dela.

Muitos, no entanto, não conseguem avaliar corretamente as chances do relacionamento dar certo e acabam se apaixonando unilateralmente por outras pessoas que não interessadas neles. Um motivo para essa confusão é a facilidade para confundir sinais amistosos e sinais de cordialidade com sinais de interesse amoroso. Mesmo na ausência de quaisquer sinais objetivos de interesse amoroso, ainda assim, certas pessoas podem fantasiar histórias segundo as quais seria possível que aqueles que elas admiram se apaixonarem por elas e do relacionamento com essas pessoas darem certo. Este tipo de fantasia acontece muito entre adolescentes que se apaixonam por artistas que elas nunca viram pessoalmente. Por exemplo, uma adolescente que entrevistei imaginou que ia se tornar uma modelo famosa e, depois, uma artista de TV e, então, que contracenaria com o artista admirado e que ele se apaixonaria por ela. Essa história possibilitou o aparecimento de um grau de esperança que foi suficiente para que ela se apaixonasse pelo tal artista.

Insegurança

Segundo Stendhal, a insegurança é o catalisador do amor. Ou seja, uma certa dose de insegurança ajuda e apressa o nascimento do amor. Eu creio que esse princípio se aplica principalmente a aquelas pessoas que têm um amor do tipo Mania. (Esse estilo foi descrito em um capítulo do meu livro “Relacionamento Amoroso”, que trata dos tipos de amor).

A insegurança sobre algo importante geralmente amplia a nossa dose de atenção para o fenômeno. Por exemplo, a  insegurança quanto ao resultado de um exame importante que fizemos faz com que só pensemos nele. O nosso cérebro possui mecanismos que fazem que aquelas coisas que são conhecidas e estáveis saiam da nossa consciência. Fazendo uma analogia com os computadores, o nosso cérebro não tem memória RAM suficiente para manter tudo o que é importante na consciência. Assim sendo, aquilo que já está seguro e é bem conhecido, mesmo que seja importante, sai da nossa consciência para dar espaço para aquelas coisas mais instáveis ou inseguras e, assim, permitir que elas recebam a nossa atenção e providências.

            Muita gente que quer conquistar o amor de outra pessoa aplica intuitivamente esse princípio da insegurança: tenta não deixar a pessoa que está tentando conquistar muito segura do seu grande interesse por ela. Por exemplo, mesmo que esta muito interessado, o conquistador tenta não ficar ligando toda hora para a pessoa que está tentando conquistar para não deixar claro que "está babando nela” ou para “ não se entregar de bandeja para ela”.

A dose de insegurança, no entanto, não pode ser exagerada. Esse exagero faz com que aquele que é o objeto da conquista perca o mínimo de esperança de que vai ser correspondida no amor ou que poderia haver uma relação amorosa estável e prazerosa com o conquistador.

Uma boa dose de insegurança também pode ser produzida através da provocação do ciúme. O exagero no uso do ciúme para essa finalidade, no entanto, é contra-indicado porque para a paixão nascer também deve haver alguma esperança de fidelidade por parte do parceiro, uma vez que isso esse é um requisito para a existência da qualidade, da estabilidade e da durabilidade do relacionamento.

 Método para desapaixonar

Invertendo essa teoria de Stendhal, acabei criando uma maneira de ajudar pessoas a se desapaixonem. Uso muito esse "método de desapaixonamento" no meu consultório. Esse método não produz nenhuma mágica, mas, pelo que vi até agora, ajuda bastante aqueles que estão sofrendo por amor (por exemplo, ajuda aqueles que não foram correspondidos, que deixaram de ser amados ou que foram traídos e que, por isso, querem diminuir seus amores pelo infiel).  Mas isso vai ser assunto de um outro artigo.

Para o amor nascer, portanto, é necessário haver admiração e esperança de reciprocidade. Uma certa dose de insegurança também pode contribuir para o seu nascimento.

1.  ARON, E. N; ARON, A. Love and expansion of the self: the state of the model. Personal Relationships, New York: Cambridge University Press, v. 3, p. 45-58, 1996.

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Por Ailton Amélio às 10h33

22/10/2010

Passivo, agressivo ou assertivo: qual é o seu estilo?

O grau de atenção e consideração que uma pessoa recebe depende de vários fatores como, por exemplo, seu status social, sua aparência física e seu estilo de afirmação social. Este último fator será examinado neste artigo.

Estilos de participação social

A maneira como você é percebido e valorizado socialmente está muito relacionada com as doses de assertividade, passividade e agressividade que você costuma usar em situações sociais

Em uma situação social podemos omitir, apresentar assertivamente, apresentar agressivamente ou apresentar disfarçadamente (alusões, sarcasmo, tropo comunicacional, lítotes, etc.) aquilo que sentimos e pensamos. Essa quarta forma é uma mistura das três primeiras. Cada um destes estilos pode ser o mais apropriado, dependendo das circunstâncias presentes. No entanto, na maioria das situações, a forma assertiva geralmente é a mais apropriada e a que produz mais resultados.

Passividade

Uma ação é passiva quando o seu autor deixa de agir de acordo com o que está sentindo e pensando.

Considere a seguinte história de um casal que agia passivamente na hora de escolher o restaurante.

Certa vez atendi um casal que estava se separando de uma forma conflituosa. Em uma das muitas brigas que travaram no meu consultório, eles estavam discutindo quem cedia mais para o outro. Em certa altura da briga, a esposa disse para o marido: “Eu faço tudo o que você quer”. Ele contestou-a através de um pedido: “Dê um exemplo.” Ela respondeu: “Só comemos naquele restaurante que você gosta.” O marido, muito surpreso, perguntou: “Que restaurante?” Ela respondeu: ”Lá no restaurante indiano”. O marido, cada vez mais surpreso, disse: “Que isso? Eu comia lá porque pensava que você gostava. Eu não gosto daquela comida!” Ela, também muito surpresa, respondeu: “Imagine! Eu odeio aquela comida”.

Ou seja, os dois comeram durante anos em um restaurante que ambos não gostavam porque cada um supunha que o outro gostava e não tinha a iniciativa ou a coragem de conversar com ele sobre isso!

A pessoa passiva omite aquilo que está sentindo e pensando, tanto nas suas comunicações, quanto nas suas formas de agir. Ela é uma “engolidora de sapos”.

Uma pessoa que age passivamente se anula e se inutiliza como interlocutora, a não ser para aqueles participantes da conversa que são compulsivos e desrespeitosos e que, por isso, são capazes de conversar até com uma mensagem automática de secretária eletrônica.

Muitas vezes o passivo não consegue ser assertivo porque teme perder pontos aos olhos do interlocutor, ser grosseiro, pressionar demais ou constranger os interlocutores. Muitas vezes esse temor é infundado: a assertividade até melhoraria a sua imagem pública.

Agressividade

Uma ação agressiva é aquela que tem como objetivo, consciente ou inconsciente,   provocar ferimento psicológico ou físico no interlocutor.

Frederico estava participando de uma reunião da firma. Ele estava apresentando um pedido de verba para contratar novos funcionários para a sua seção. Eduardo, o diretor da área econômica interveio e disse que, embora a reivindicação de Frederico fosse justa, aquela não era a hora de fazer gastos com pessoal. Frederico respondeu: “Ao invés de fazer objeções genéricas deste tipo, você deveria ler os relatórios da minha seção. Ao invés de ser tão cauteloso, para não usar outro termo, você deveria ter um pouco mais de ousadia.” A sua voz e a sua face mostravam muita raiva enquanto ele dizia isso. Afinal, Eduardo sempre objetava ao que ele dizia. Ele estava muito zangado e queria “desmontar” não apenas as objeções de Eduardo, mas o próprio Eduardo. Frederico foi despedido pouco tempo depois.

A agressão pode acontecer através: (1) do conteúdo daquilo é dito (por exemplo, dizer ou escrever coisas só para destruir uma pessoa odiada), (2) da comunicação não-verbal (por exemplo, apresentar expressões faciais e vocais de raiva, desprezo, nojo, etc.) e (3) de ações físicas (por exemplo, bater, morder, atirar coisas, agir grosseiramente).

As agressões psicológicas mais graves são:   fazer acusações à personalidade, mostrar nojo, desprezo pelo interlocutor. A expressão da raiva e críticas dirigidas a comportamentos específicos da outra pessoa são formas mais amenas de expressar agressividade contra ela e, muitas vezes, só provocam danos leves.

Um dos motivos da agressão é o revide à agressão por parte da outra pessoa. Neste caso, o agressor segue o  ditado “Olho por olho, dente por dente”. A agressão motivada pela raiva  geralmente é considerada menos grave do que a agressão que é perpetrada fria e premeditadamente.

Embora a raiva seja um dos principais motivos da agressão, existem outras motivações para esta forma de agir. Por exemplo, geralmente o boxeador, o soldado que está travando uma batalha e os assaltantes iniciam as suas agressões devido aos benefícios que esperam obter com essa forma de agir e não porque estejam, necessariamente, com raiva da pessoa para quem a agressão é dirigida. Outro exemplo, o sádico sente prazer, e não raiva, pela dor que provoca nas outras pessoas.

Assertividade

As principais motivações das ações assertivas são os desejos e as crenças de quem age e não o seu desejo de agradar, o receio de ser rejeitado, o medo de perder o respeito, o medo de estar sendo inconveniente, o receio de estar sendo aturado e não apreciado e o medo de estar usurpando um lugar que não é seu.

A assertividade se manifesta na comunicação e em outros tipos de ações. 

 A assertividade pode ser manifestada através da comunicação (por exemplo, dizer firmemente que quer uma solução rápida para uma reclamação) ou de ações não comunicativas (por exemplo, comprar um carro que gosta ao invés de gastar o dinheiro em uma viagem que outras pessoas preferiam). Outro exemplo: uma pessoa diz que não está disposta a continuar uma conversa, caso o interlocutor mantenha o tom agressivo (comunica essa disposição). Como o interlocutor continua a usar esse tom, a pessoa levanta-se e se retira. (Essa ação de retirar-se é assertiva, mas não é comunicativa).

A assertividade também acontece quando uma pessoa não se submete a um interlocutor manipulativo. Por exemplo, uma pessoa age assertivamente quando  administra o grau e o conteúdo das suas revelações de sentimentos e pensamentos dentro da sua própria zona de conforto e näo em conformidade com as expectativas do seu interlocutor (não revela só porque o interlocutor deseja ou exige).

Nos desentendimentos, além da assertividade comunicativa, ainda existe a opção de agir assertivamente através da tomada de medidas como: impor penalidades, despedir, fazer greves, etc. Essas medidas geralmente são mais adequadas quando as duas partes querem coisas diferentes e não chegaram a um acordo através da negociação. Este acordo não ocorre quando (1) uma das partes está disposta a impor as suas preferências e tem poder para isso, (2) está disposta a usar recursos para pressionar que a outra não usaria, (3) quando uma delas acha não pode pagar o preço de ser assertiva (por exemplo, dizer o que pensa do chefe). Nestes casos não é possível ser assertivo. Ou só dá para ser um pouco assertivo, com muito jeito.

A forma e a circunstância propícia para a ação assertiva

A pessoa assertiva procura expressar e agir da forma como sente e pensa. Ao mesmo tempo, a pessoa assertiva procura ser polida com o interlocutor. Procura não ofendê-lo ou ameaçá-lo desnecessariamente. Pelo contrário, procura fazer com que ele sinta-se o melhor possível para as circunstâncias.

Assertividade comunicativa verbal e não-verbal

            A comunicação não-verbal é muito importante no exercício da assertividade. Por exemplo, a assertividade é mais intensa e eficaz quando a voz é firme, audível e normalmente pausada; a impressão de firmeza é ampliada quando quem está sendo assertivo orienta a parte dianteira do corpo na direção do interlocutor e o olha diretamente para o seu rosto enquanto fala. A impressão que passa através dessa comunicação não-verbal é que a pessoa assertiva está tranqüila, segura, quer ser ouvida e não hesita em ocupar o seu espaço psicológico.

Dependendo das circunstâncias, a passividade, a agressividade ou a assertividade podem ser as melhores maneiras de agir

A opção por uma forma de agir mais passiva, mais agressiva ou mais assertiva depende, em parte, dos custos e ganhos que isto acarretará. Devem ser considerados tanto os custos e ganhos imediatos como aqueles que poderão ocorrer no futuro. Por exemplo, quando uma pessoa agride alguém que a está incomodando, ela pode ganhar um alívio imediato pela expressão da raiva e pela interrupção instantânea do incômodo, mas pode também provocar uma resposta também agressiva por parte dessa pessoa e estragar uma chance de relacionamento futuro com ela.

Quando queremos preservar uma relação tomamos medidas mais prudentes e amenas para não danificá-la. Neste caso ocorrem mais reações passivas, uso mais moderado da assertividade e, raramente, a manifestação de agressividade intensa. Com aqueles que nunca mais veremos, tendemos a agir mais assertiva e agressivamente.

            Dentre estas três formas de agir, a assertividade é a que produz melhores resultados, em média. A assertividade é a forma mais eficiente de obter respeito, provocar atitudes positivas e estancar tentativas de abuso por parte de outras pessoas. A assertividade também diminui a probabilidade da outra pessoa apresentar reações defensivas como a passividade, a dissimulação e a contra-agressão.

Doses dos três estilos

Na vida real é muito raro que nossas ações sejam constituídas por apenas um destes ingredientes. O mais comum é que nossas ações sejam compostas por um pouco de cada um deles. Por exemplo, a afirmação “Eu não gostaria de fazer isso”, tem certa dose de passividade (o verbo está na forma condicional, o que indica que a pessoa pode fazer aquilo que afirma que não gostaria), uma certa dose de assertividade (a pessoa está expressando que não gostaria de fazer algo) e pode conter uma dose de agressividade, caso haja sinais de raiva na sua maneira de falar.

Reajuste as doses de passividade, agressividade e assertividade de suas ações e seja mais ativo, respeitado e charmoso.

 

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Por Ailton Amélio às 10h27

15/10/2010

Terminar um relacionamento amoroso pode ser difícil

Vamos examinar nesse artigo o papel do amor para iniciar e terminar um relacionamento amoroso. Vamos examinar também a importância da deterioração de outras condições que facilitam a convivência do casal que, ainda assim, pode não ser suficiente para terminar um relacionamento desse tipo. Vamos examinar ainda, brevemente, alguns motivos que ajudam a entender porque pode ser tão difícil terminar um relacionamento amoroso (os laços que mantém um bom relacionamento foram examinados em detalhes no meu livro "Para viver um grande amor", Editora Gente).


A importância do amor para iniciar e terminar relacionamentos amorosos

“Não a amo mais e, por isso, vou deixá-la.” Todos já ouvimos uma afirmação desse tipo. Quem afirma isso deixa subentendido que o amor é condição necessária para a manutenção do relacionamento conjugal.  Quando o amor termina ou diminui abaixo de certo nível o relacionamento deve ser terminado? Vamos ver nesse artigo que não é tão simples assim terminar um relacionamento.

O amor é sim muito importante em um relacionamento conjugal, mas como vamos ver nos resultados de uma pesquisa internacional descrita logo abaixo, essa importância é imensa no início do relacionamento, mas depois outros fatores vão ganhando importância e também são levados em conta quando a possibilidade de sair desse tipo de relacionamento é cogitada. Esses fatores até podem determinar o fim de um relacionamento onde ainda há muito amor, mas a vida conjugal se tornou inviável devido a incompatibilidades em outros setores.

Um estudo intercultural, realizado por Levine e colaboradores, em onze países1 (o Brasil era um deles) procurou determinar a importância do amor no início e no fim do casamento. Esses autores perguntaram para os participantes da pesquisa se casariam sem amor com um parceiro que tivesse todas as qualidades desejáveis. A maioria dos participantes de países onde o coletivo é mais importante que o pessoal (Índia e Paquistão) afirmou que ou casaria sem amor ou ficaria em dúvida. A grande maioria dos participantes dos países ocidentais afirmou que não se casaria nessas condições (por exemplo, no Brasil 86%  disseram que não casariam, 10% que ficariam em dúvida e 4% que se casariam). Os pesquisadores também perguntaram para essas mesmas pessoas se terminariam o casamento caso deixassem de amar os cônjuges. Quase ninguém afirmou que deixaria o casamento só por esse motivo. Ou seja, o amor é mais importante para iniciar um casamento do que para sair dele. Como entender isso?


Custos e benefícios decorrentes do término de um relacionamento

É muito comum perguntar por que certas pessoas permanecem em relacionamentos insatisfatórios. Por exemplo, por que uma pessoa que está sendo continuamente maltratada pelo companheiro, que não o ama mais, com quem faz sexo raramente e sem vontade e fica contente quando chega a segunda feira (porque durante a semana permanece menos tempo na sua presença) não sai desse relacionamento, apesar de tudo isso?

Muitos dos motivos que levam à permanência em relacionamentos desvantajosos ficam mais claro quando essas pessoas que neles permanecem são ouvidas com atenção e sem julgamentos. Muitos dos seus motivos são reais e razoáveis (geralmente são motivos do tipo “mal com ele, pior sem ele”). Por exemplo, a vida está estruturada com aquela pessoa (a administração da casa, a economia, a vida social, o relacionamento com os parentes e amigos), as dificuldades previstas para refazer a vida após separação e a tormenta que vai ter que ser enfrentada por ocasião da separação  inibem esse tipo de iniciativa.

Quanto mais as vidas dos parceiros estiverem entrelaçadas, tanto na área material como nas áreas psicológica e social, mais difícil é a separação. Um estudo revelou que pessoas casadas há muito tempo podem levar até dez anos para se refazerem em todas essas áreas, após uma separação.

Muitos motivos que inibem a separação são frutos de percepções e avaliações errôneas e outros tipos de problemas psicológicos como, por exemplo,  necessidades distorcidas (por exemplo, dependência da autoridade do parceiro), temores infundados (por exemplo, medo de não arranjar outro relacionamento naqueles casos onde isso é perfeitamente possível e provável) e avaliações errôneas (por exemplo, superestimar a complexidade das tarefas que vai ter que enfrentar na condução da própria vida sem a cooperação do parceiro). Esse tipo de motivo pode ser corrigido através de uma boa terapia.


Vergonha por considerar prós e contras?

Muita gente sente-se culpada e envergonhada quando revela que está considerando os custos e benefícios de sair ou permanecer em um relacionamento como os benefícios materiais, a qualidade de vida, o circulo de relacionamento e o medo de ficar só. Não há nenhum motivo para vergonha. Essas considerações são legítimas. O relacionamento envolve tudo isso. Diversos filmes e novelas é que são muito irrealistas quando pregam que o amor é tudo no relacionamento. Claro que certa dose de amor e sexo geralmente são imprescindíveis nesse tipo de relacionamento, pois são é exatamente esses dois itens que caracterizam o lado “conjugal” desse tipo de relacionamento. No entanto, o relacionamento é uma espécie de pacote que reúne muitos fatores que afetam os envolvidos. É legítimo considerar cada um desses fatores e suas respectivas importâncias, as quais variam muito entre as pessoas.


Sensação de comprometimento

A decisão de permanecer ou sair de um relacionamento só em parte é racional. Temos outros mecanismos psicológicos que ajudam a tomá-la. Segundo as pesquisas desenvolvidas por C. Rusbult e B.P. Buunk, famosos pesquisadores da qualidade e estabilidade dos relacionamentos2, a intensidade da sensação de comprometimento com uma pessoa é uma boa síntese inconsciente de todos os prós  e contras desse relacionamento

Portanto a idéia de colocar os pros e contra em um papel podem ajudar, mas esse método está muito longe de capturar todos os fatores ou a natureza do mecanismo de decisão.

Geralmente a ajuda de um psicólogo especializado nessa área é muito útil para aqueles que estão tomando esse tipo de decisão. Esse profissional também ajudará a tomar medidas para cicatrizar as feridas e revigorar o relacionamento, caso a opção seja ficar, e a minorar os danos, caso seja separar-se.

1LEVINE, R.; SATO, S.; HASHIMOTO, T.; VERMA, J. Love and marriage in eleven culturesJournal of Cross-Cultural Psychology, v. 26, No. 5, p. 554-71,1995.

RUSBULT,C. E. A; BUUNK, B. P.  Commitment processes in close relationships: An interdepe.ndence analysis. Journal of Social and Personal Relationships, v. 10, p. 175-204. 1993.

 

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Por Ailton Amélio às 10h05

08/10/2010

O silêncio na conversa

O silêncio tem várias funções muito importantes na conversa. Existem dois tipos principais de silêncio na conversa. Um é aquele onde a fala deveria estar acontecendo, mas não está. É um silêncio indesejado e altamente incômodo. É um sinal que coisas ruins estão acontecendo na relação. O outro tipo é aquele onde o silêncio a dois é bem vindo e pode ser usufruído.

O silêncio comunicativo também pode ser percebido quando os interlocutores não estão em contato direto. Nesse caso, eles estão à distância e uma iniciativa de contato é esperada, mas não acontece. Por exemplo, um telefonema esperado não está ocorrendo. 

O silencio comunicativo pode assumir conotações que vão desde um extremo onde ele é altamente positivo, até outro extremo, onde ele é um péssimo sinal. Ele pode ser usado como uma ferramenta maravilhosa que dá vida á fala e estimula a conversa ou como uma rejeição acintosa do interlocutor ou do que ele está dizendo.

Tipos e funções do silêncio

A lista abaixo dá uma idéia da grande diversidade de tipos e de funções que o silêncio pode desempenhar na comunicação:

o        O silêncio do falante e o silêncio do ouvinte.

o        O silêncio de ambos, falante e ouvinte.

o        Pausas silenciosas: quem está com a palavra fica em silêncio enquanto elabora o que vai dizer em seguida.

o        O silêncio que enfatiza: precede ou segue algo importante que foi ou vai ser dito, respectivamente.

o        O silêncio constrangido

o        O silêncio devido à fala reprimida: acontece porque aquilo que teria para ser dito foi omitido devido às más consequências que isso traria.

o        O silencio da voz embargada

o        O silêncio do medo congelante

o        O silêncio por não ter interesses em comum com o interlocutor

o        O silêncio que acontece porque a mente está quieta e receptiva para os acontecimentos

o        O silêncio que acontece por imaginar que a fala não será bem recebida (“O meu silêncio foi maior/ E na distância morro/ Todo dia sem você saber” Música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos: A Distância.).

o        O silêncio que acontece naqueles momentos onde uma pessoa está  passando a palavra para o interlocutor

o        O silêncio daqueles que já disseram o que tinham para dizer sobre um assunto.

o        O silêncio do inassertivo: acontece com aqueles que não têm coragem de dizer o que sentem e pensam.

o        O silêncio do tímido: este está tão intoxicado por emoções e pensamentos negativos e preocupações que não sobra mais espaço psicológico para pensar em nada relevante para dizer.

o        O silencio como técnica para levar o outro a falar

Um paciente lacônico: porque o silêncio?

Pedi a um paciente lacônico que me ajudasse a entender o seu silêncio. Levantei três possibilidades e pedi a ele que atribuísse notas para cada uma delas, de tal forma que a soma perfizesse um total de 100 pontos. Estas possibilidades e respectivas notas foram as seguintes: nota 10 para a falta de motivação para falar comigo; nota entre 60 ou 70 porque “dava branco” (não via nada para falar) e nota entre 20 ou 30 porque a censura o impedia de falar algumas coisas (editar coisas que poderia dizer).

Existe uma diferença importante entre pessoas que ficam em silêncio em determinadas condições e pessoas que geralmente são caladas em diversas situações e condições. Neste último caso, o motivo provável é disposicional: a pessoa tem uma tendência para falar pouco. No primeiro, pode ser uma reação adequada às circunstâncias.

Quando a tarefa de animar a conversa fica por conta do interlocutor.

Quando um interlocutor é lacônico e o outro sente necessidade de conversar, este pode assumir o encargo de animar a conversa.

Nesse caso, o “animador da conversa” corre pelo menos dois tipos de risco: (1) dominar a conversa e (2) impor assuntos desinteressantes (para ambos ou para um dos interlocutores). Além disso, geralmente é desagradável constatar que o interlocutor não está cooperando ou não quer conversar.

Timidez como causa do silêncio

A timidez provoca a ativação de temas incompatíveis com aqueles que seriam considerados apropriados para conversar: A consciência das reações fisiológicas, das emoções evocadas e as hipóteses atemorizadoras tomam boa parte da consciência e da atenção de quem está intimidado. Essas reações seriam os temas naturais da conversa para essa pessoa. Fica difícil prestar a atenção em outros temas mais fracos que poderiam estar surgindo. Quando isso acontece, a pessoa teme falar desses temas porque eles lhe parecem irrelevantes e porque ela teme que eles não teriam o impacto desejado no interlocutor.

Quando o silêncio é desconfortável durante uma conversa amorosa

No início de um relacionamento amoroso, quando há grande atração amorosa entre os amantes, a conversa acontece continuamente. Segundo Givens (1985), o falar, em si, é tão importante que mesmo nos encontros entre pessoas que não falam a mesma língua. As pessoas envolvidas, ainda assim, falam entre si o tempo todo, cada um na sua língua é claro, e sentem que estão se entendendo.

Segundo este mesmo autor, nos estágios iniciais de um relacionamento é muito difícil para os parceiros amorosos ficarem em silêncio quando estão juntos. Só quando eles já dormiram juntos é que conseguem ficar juntos e se deleitarem com estes momentos de silêncio. Esta mudança no significado do silêncio que geralmente aparece após a primeira relação sexual e é uma espécie de certificado de que o relacionamento já tem alguma base sólida e que, por isso, cada membro do casal pode relaxar um pouco da árdua tarefa de se fazer aceito e impressionar o outro.

Em uma pesquisa de Charlene Muehlenhard e outros (1986), uma moça que inicia uma conversa ao invés de permanecer em silêncio ao lado de um rapaz, e uma moça que retoma a palavra após um período de silêncio de mais que três segundos, quando ela foi a última a falar, eram vistas como pessoas que aceitariam um convite para um encontro com tais rapazes. Ou seja, estas moças estariam emitindo sinais fortes de interesse amoroso ao não permitir que ocorram silêncios embaraçosos entre elas e os rapazes.

             Conseguir manter uma conversa animada é um sinal de que os parceiros são mutuamente estimulantes, que eles se apreciam, que eles são boas companhias mútuas e que existe uma boa chance do relacionamento amoroso entre eles dar certo. Este tipo de sinal é reconhecido inconscientemente por quase todo mundo.

Um dos maiores temores dos tímidos no início desse tipo de relacionamento é não conseguir desenvolver uma conversa interessante e, por este motivo, estragar o encontro por não saber lidar com os longos silêncios constrangedores que vão acontecendo. Quando os momentos de silêncio começam a ocorrer mais freqüentemente e começam a durar mais tempo do que no início da conversa, os participantes começam a ficar com a sensação que o encontro está fracassando, que casal não está se dando bem, não está se entrosando e que uma, ou ambas, as partes não tem interesse amoroso na outra.

Esta sensação de fracasso é, até certo ponto, justificada porque quando as pessoas sentem atração amorosa mútua elas também querem se conhecer mutuamente através da conversa. Além disso, o encontro entre duas pessoas que sentem grande atração amorosa mútua é excitante, o que também estimula a conversa. O silêncio parece indicar que nada disso está ocorrendo.

            Muitas vezes, no entanto, o silêncio embaraçoso e a falta de uma conversa estimulante ocorrem simplesmente porque os participantes não dominam as habilidades básicas para estimular uma conversa ou porque temem ocupar um papel mais ativo na conversa. No meu consultório ajudo quem tem esse tipo de problema a desenvolver algumas técnicas que são muito úteis para conversar e a combater temores infundados de exercer um papel mais ativo na conversa, tanto no papel de falante como no de ouvinte.

Você é lacônico? Quais as consequencias disso para os seus relacionamentos?

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Por Ailton Amélio às 10h31

04/10/2010

Timidez e sociabilidade

É importante diferenciar timidez de sociabilidade. A timidez se caracteriza pela tensão e inibição em situações sociais. A sociabilidade se caracteriza pela preferência em estar com outras pessoas ao invés de estar só.

Existem todas as combinações possíveis entre diferentes graus de timidez e sociabilidade. (tímido/não-sociável, tímido/sociável, não-tímido/sociável e não-tímido/não-sociável)

 A timidez

Segundo a definição de Buss e Cheeck (1981), a timidez possui três ingredientes: (1) tensão, (2) inibição e (3) situações sociais.

Tensão. A sensação de tensão acontece devido às reações fisiológicas (contração muscular, suor, enrubescimento, etc.), emocionais (medo, apreensão, etc.) e cognitivas (pensamentos pessimistas, autoconsciência, etc.) que ocorrem nas situações intimidantes.

Inibição. A inibição prejudica o desempenho do tímido. Ele se comporta de uma forma mais pobre do que é capaz: fala menos, gesticula menos, olha menos nos olhos de outras pessoas, perde oportunidades para dar boas respostas, gagueja, etc.

Situações sociais. A tensão e a inibição são provocadas pela presença de certos tipos de pessoas e de situações sociais. A timidez é o medo de gente. Medo não no sentido físico, mas o medo de ser rejeitado, humilhado ou, simplesmente, de não fazer uma boa figura na presença de certas pessoas.

Ingredientes da timidez

A timidez é composta de quatro ingredientes: fisiológico, emocional, comportamental e cognitivo. Estes ingredientes ocorrem concomitantemente. Por exemplo, quem está intimidado sente desconforto físico devido ao ritmo cardíaco acelerado e aumento na pressão sangüínea, sente medo de não conseguir dominar a situação, modula menos a voz, toma menos iniciativas de propor assuntos e fica pensando, o tempo  todo, se está agradando, se está parecendo eficiente  Muitas vezes um desses ingredientes está mais presente na nossa consciência. Muitas técnicas de tratamento priorizam um deles.

Estes ingredientes são inter-relacionados ou são correlatos de um mesmo fenômeno - são manifestações da timidez em diferentes níveis. Alterar um deles geralmente provoca alterações nos outros. Esta inter-relação permite diferentes abordagens para lidar com a timidez. Por exemplo, as técnicas cognitivas tentam iniciar o ataque pelos pensamentos; as medicações tentam atacar as alterações fisiológicas.

Componentes disposicional e situacional da timidez

A timidez tem um componente disposicional e um componente situacional.

O componente disposicional é aquele que faz com que diferentes pessoas tímidas apresentem diferentes graus de timidez quando expostas a uma mesma situação intimidante. Por exemplo, diferentes pessoas sentem diferentes intensidades de timidez para abordar, com intenções amorosas, uma pessoa desconhecida muito atraente.

O componente situacional é aquele que faz com que uma mesma pessoa tenha diferentes graus de inibição em diferentes situações. Por exemplo, uma pessoa pode experimentar uma maior inibição para abordar, com intenções amorosas, uma pessoa muito atraente do que para abordar uma pessoa medianamente atraente.

A timidez de origem disposicional pode ser considerada “normal” e até “benéfica”, quando ela atende os seguintes requisitos: (1) a sua intensidade está dentro da faixa de timidez da maioria da população onde a pessoa vive (2) ela não prejudica o desempenho profissional, social e amoroso. A timidez pode ser considerada  “inconveniente” e até mesmo “anormal” nos outros casos. 

Causas da timidez

            Ainda não há muito acordo entre os especialistas sobre as causas da timidez. No entanto, existem evidências bastante fortes de que ela é causa por dois tipos de fatores (1) hereditários e (2) educacionais.

            As evidências de que a timidez tem uma base hereditária foram fornecidas por estudos que constataram que recém nascidos que apresentavam um grau acima da média de tônus muscular e que demoravam mais tempo para se recuperar após serem surpreendidos ou incomodados, tinham uma chance maior de se tornarem tímidos. É importante observar que muitas destas crianças mais reativas não se tornaram tímidas posteriormente e que muitas daquelas que se tornaram tímidas posteriormente não apresentavam essas características . Estas exceções indicam que a educação tem uma contribuição mais importante na determinação da timidez do que propensão biológica para desenvolvê-la.

            A superproteção também parece contribuir para o desenvolvimento da timidez: aquelas crianças que não são estimuladas a aceitar desafios, posteriormente podem fugir de situações que evoquem um pouco de apreensão.

A timidez moderada pode ser desejável no início de um relacionamento amoroso

            Eibl-Eibesfeldt (1974), famoso estudioso alemão dos comportamentos de homens e animais, verificou que mulheres de várias partes do mundo exibem sinais de timidez durante o flerte: elas fazem contato com os olhos e, em seguida, sorriem, abaixam a cabeça e olham para os lados. Existem evidências de que esta exibição de timidez durante o flerte é um atrativo paras os parceiros com os quais elas estão flertando (Muehlenhard e outros,1986).

Também existem evidências de que os homens rejeitam as mulheres muito desinibidas quando querem iniciar um namoro. Por exemplo, Buss e Schmitt (1993) encontraram evidências de que os homens preferem mulheres mais recatadas para namorar. Segundo estes autores, as mulheres mais liberais eram preferidas apenas para sexo sem compromisso.

Timidez, fobia social e distúrbio evitativo de personalidade

Até hoje existe uma polêmica sobre as possíveis relações entre a timidez extrema, a fobia social e o desvio evitativo de personalidade (ver a definição destes dois últimos tipos de distúrbio no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DMS-IVTM). Não é o nosso propósito abordar aqui esta polêmica. Vamos ressaltar apenas que estes dois últimos distúrbios demandam tratamento clínico e têm um prognóstico de tratamento mais desfavorável do que a timidez.

Para aqueles que utilizam a  teoria cognitiva para entender e tratar destes fenômenos, eles são muito semelhantes entre si, e podem tratados de acordo com procedimentos que também são muito semelhantes. 

Timidez e auto-estima

Um estudo que realizamos mostrou que existe uma relação negativa entre a timidez e a auto-estima. Neste estudo pedimos a 47 estudantes universitários que respondessem ao questionário do Cheek e Buss, utilizado nas pesquisas que relatamos anteriormente, e um teste para medir a auto-estima - a Escala de Auto-estima de Rosenberg, 1979 (este teste é  muito utilizado em pesquisas científicas).

Através de análises estatísticas calculamos se havia relação entre o grau de timidez e o grau de auto-estima das pessoas. Estas análises mostraram que existia uma tendência moderada para as pessoas tímidas terem uma auto-estima menor e vice-versa.

Timidez específica e timidez generalizada

    Uma pessoa tem timidez específica quando ela só fica muito tímida em uma ou em poucas situações específicas. Por exemplo, algumas pessoas só ficam tímidas para falar em público ou quando estão conversando com uma pessoa por quem sentem uma forte atração amorosa.

Uma pessoa tem timidez generalizada quando fica tímida em muitas situações sociais. Por exemplo, algumas pessoas ficam tímidas quando estão iniciando contatos com uma pessoa desconhecida, quando vão falar com uma autoridade, quando estão próximas de uma pessoa por quem sentem atração amorosa, etc.

Muitas pessoas são tímidas

    Praticamente todo mundo já experimentou momentos de timidez. Em um estudo sobre a timidez, realizado nos EUA, 40% das pessoas se declaram tímidas crônicas, outras 40% declaram que já formam tímidas em alguma época anterior de suas vidas e outras 15% declararam que são tímidas em algumas situações. Apenas 5% das pessoas declararam que nunca foram tímidas. Existem indicações de que está aumentando a percentagem de pessoas tímidas  (Carducci & Zimbardo, 1995).

Remissão espontânea da timidez

A timidez geralmente diminui com a idade. A adolescência parece ser a época onde há a maior incidência da timidez ou onde ela é mais intensa. Isso ocorre, provavelmente porque esta é uma época de insegurança: as pessoas não estão muito seguras de si, sobre quem são, sobre que habilidades que possuem, se deparam com adultos que tem mais condições de mostrar seus erros, estão menos inseridas social e profissionalmente: são repetidamente submetidas a exames, ainda não se firmaram profissionalmente.

(Cheek, J.M., & Buss, A.H. (1981). Shyness and sociability. Journal of Personality and Social Psychology, 41, 330-339).

 

Não confunda baixa sociabilidade com timidez. Procure ajuda de um psicólogo caso você seja muito tímido.

 

 

 

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Por Ailton Amélio às 09h51

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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