Blog do Ailton Amélio

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26/11/2010

Ciúme razoável é benéfico


“Mas eu me mordo de ciúme...”(Ultraje a Rigor)

Segundo os psicólogos israelenses Ayala Pines e Elliot Aronson, autores de uma ótima pesquisa sobre este tema, o ciúme pode ser definido como um “complexo de pensamentos, sentimentos e ações que são provocados por ameaças à existência ou à qualidade do relacionamento que são gerados pela percepção da atração, real ou potencial, entre o parceiro e um rival (imaginário ou real)”.1

Você sente ciúme? Parabéns, este sentimento é normal e razoável. O ciúme é como o medo. Só os seus excessos é que são disfuncionais: falta de ciúme ou excesso de ciúme, tal como a falta de medo ou o medo de tudo, é que são prejudiciais. O ciúme é experimentado por quase todas as pessoas, em quase todas as culturas e em todas as épocas. Várias pesquisas constataram que quase todo mundo já sentiu ciúmes alguma vez na vida. Cerca de 50% das pessoas declararam que são ciumentas.2

Antigamente era moda condenar certos fenômenos psicológicos como o medo, a inveja e o ciúme. Os especialistas daquela época acreditavam que estes fenômenos só eram apresentados por pessoas imaturas, egoístas e problemáticas. As teorias psicológicas modernas reabilitaram estes fenômenos. Esta reabilitação aconteceu porque foi compreendido o papel importante que eles têm para a sobrevivência da nossa espécie, para o nosso bem estar e para o funcionamento dos relacionamentos humanos.

Ciúme preventivo e retalhador

Segundo alguns teóricos da sociobiologia, o ciúme moderado e proporcional ao risco de traição ajuda a proteger o relacionamento amoroso. Segundo esses teóricos, esse tipo de ciúme pode ter um papel preventivo ou retalhador frente às ameaças ao relacionamento amoroso que seriam provocadas pela interferência de um possível rival. A função preventiva é constituída por medidas que restringem a exposição do parceiro a uma situação ameaçadora (frequentar locais propícios ao envolvimento com possíveis rivais, usar roupas provocantes, flertar com rivais, etc.). A função retalhadora é constituída por aquelas medidas tomadas para punir os casos de traição (trair também, romper o relacionamento, denunciar o rival para a sua companheira, etc.).

Na nossa espécie, a manutenção do vínculo conjugal, pelo tempo necessário para que seus filhos ganhem autonomia, é importante porque as crianças necessitam de cuidados durante muitos anos para que possam sobreviver sozinhas. Tais cuidados são muito mais eficazes quando são proporcionados pelo casal do que quando são proporcionados apenas por um dos cônjuges.2

O ciúme moderado também pode contribuir para que o parceiro se sinta amado. Muita gente conclui que a ausência de ciúme é um sinal da falta de amor ou de confiança excessiva e irrazoável.

Evocadores de ciúmes para homens e mulheres são semelhantes

A intensidades do ciúme provocados por diferentes situações em homens e mulheres são semelhantes. Eu e meus alunos de pós-graduação pedimos para 92 pessoas (64 mulheres e 28 homens), que tinham entre  18 a 46 anos de idade (média de 24,1 anos) e uma média de 13,5 anos de estudo (variavam desde aqueles que haviam concluído o primeiro ano do primeiro grau até aqueles que tinham o terceiro grau completo) que ordenassem decrescentemente doze situações que a literatura científica relata como sendo importantes evocadoras de ciúme.  Após ordenarem essas situações, solicitamos que eles dessem uma nota variando de zero a dez para a intensidade do ciúme que sentiriam em cada uma delas.

  A lista abaixo apresenta essas doze situações evocadoras de ciúme.  Essa lista está ordenada decrescentemente, segundo a as intensidades de ciúme relatadas pelos homens nessas situações (a primeira situação é aquela que evoca mais ciúme e a última é a que evoca menos ciúme nos homens). A ordem decrescente para as mulheres está entre parênteses. A única diferença estatisticamente significante entre as notas para a intensidade de ciúmes dos homens e das mulheres aconteceu na situação “O seu parceiro troca o seu nome pelo nome de uma possível rival.” (primeiro lugar para as mulheres e terceiro para os homens). Nesta situação as mulheres sentem mais ciúme do que os homens. Nas outras 11 situações não foram verificadas diferenças significativas entre homens e mulheres.

 Lista ordenada de evocadores de ciúme

1- (2) O seu parceiro “derrete-se enquanto conversa com um possível rival”.

2- (3) O seu parceiro está tocando demais uma possível rival enquanto conversa com ela.

3- (1) O seu parceiro troca o seu nome pelo nome de uma possível rival.

4- (4) O seu parceiro começa a falar muito de uma pessoa do sexo oposto (um possível parceiro amoroso).

5- (7)O seu parceiro olha interessadamente para uma pessoa do sexo oposto.

6- (5) O seu parceiro desaparece por um bom tempo de uma festa que vocês compareceram.

7- (6) Você vê  seu parceiro conversando animadamente com uma possível rival.

8- (10) O seu parceiro vai fazer um programa ou uma viagem nos quais seria possível haver uma traição.

9- (8) O seu parceiro se produz (veste-se, adorna-se, perfuma-se, etc.) melhor do que ele faz normalmente para sair sem as sua companhia.

10- (9) Você encontra lembranças de relacionamentos amorosos anteriores (bilhetes, fotos, etc) que foram guardados pelo seu parceiro.

11- (11) O seu parceiro acompanha com o olhar uma pessoa do sexo oposto que está passando.

12- (12) O seu parceiro está falando demoradamente no telefone com uma pessoa que você não sabe quem é.

 Os números fora dos parênteses indicam a ordem decrescente de importância das situacöes evocadoras de ciúme para os homens (quanto maior  o número, menor o poder da situação descrita para evocar ciúme). Os números dentro dos parênteses indicam esse mesmo tipo de ordem para as mulheres.

Algumas diferenças do ciúme de homens e mulheres

Também existem algumas diferenças no ciúme de homens e mulheres. Algumas delas são as seguintes:

Homens:

Tentam manter a auto-estima

Têm mais ciúmes de traição sexual

Mulheres:

Tentam manter a relação

Tentam induzir ciúme no parceiro mais do que os homens

Têm mais propensão para “ataques de nervos” provocados pelo ciúme e para sentirem-se inferiores, humilhadas, experimentar medo, sensação de perda, tristeza e vulnerabilidade.

Têm mais ciúmes de traição emocional.

Homens e mulheres mais ciumentos seriam aqueles que valorizam mais a exclusividade sexual (isso é quase sinônimo de ciúme),  aqueles que investiram mais no relacionamento e aqueles que se sentem parceiros inadequados (aqueles que se auto-atribuem a razão da insatisfação da parceira com o relacionamento). Além disso, os homens que são mais ciumentos são aqueles que possuem dependência de auto-avaliação (aquilo que pensam sobre si depende da opinião da companheira) e aqueles que possuem maior dependência de envolvimento relativa. As mulheres mais ciumentas, além daquelas características apontadas acima,  seriam aquelas mais dependentes do relacionamento (aquelas que acham que não vão conseguir outro relacionamento a mesma altura do atual).

Quando o ciúme é prejudicial

O ciúme excessivo e irrazoável contribui para destruir o relacionamento. Ele acaba restringindo e infernizando a vida do parceiro e a própria vida do ciumento e contribui para a deterioração do relacionamento. O ciúme delirante é um tipo de patologia. Os casos de ciúme irrazoáveis, crônicos e excessivamente restritivos devem ser tratados com a ajuda de um psicólogo.

1 Pines, A. & Aronson, E. (1983). Antecedents, correlates and consequences of sexual jealousy. Journal of Personality, 51, 1, 108-l36.

2 Silva, A. A. (2009). Relacionamento Amoroso. São Paulo, Publifolha

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Por Ailton Amélio às 11h05

19/11/2010

Atratividade física: seus determinantes e efeitos

O grau de atração de uma pessoa tem muita influência sobre as percepções, decisões e ações de outras pessoas a seu respeito e sobre a sua própria auto-avaliação. A meta-análise resumida abaixo aponta alguns desses tipos de ifluências.

Uma meta-análise (análise de vários outros estudos) sobre a formação de impressão (estereótipos), realizada por Alan Feingold (1992)1, constatou que as pessoas fisicamente atraentes de ambos os sexos são percebidas como mais sociáveis, dominantes, sexualmente calorosas, mentalmente saudáveis e socialmente habilidosas, mas não como possuidoras de melhores traços de caráter. Estas pessoas também eram vistas como menos modestas do que pessoas fisicamente menos atraentes. Esta análise não apontou nenhuma relação notável entre atratividade física e os traços básicos de personalidade como, por exemplo, sociabilidade, dominância e saúde mental, para ambos os sexos. Os traços de caráter (por exemplo, auto-absorção e tendência para a manipulação) também não foram relacionados com a atratividade física. No entanto, traços de personalidade relacionados com comportamentos sociais, como solidão, ansiedade social e autoconsciência estavam correlacionados com a atratividade física. As pessoas de ambos os sexos que tinham boa aparência foram percebidas como menos solitárias e com menor grau de ansiedade social, tanto no geral e mais ainda quando estavam se relacionando com o sexo oposto.

DETERMINANTES DA ATRATIVIDADE FÍSICA

O grau de atração de uma pessoa é determinada pelas informações disponíveis à seu respeito (nível econômico, nível cultural, escolaridade, cargos, etc.), características corporais (altura, tipo físico, características faciais), produção (vestuário, tratamento da pilosidade, maquilagem, etc.) e comportamentos (charme, carisma, expressões faciais e vocais, etc). Nesse artigo vamos tratar principalmente das características corporais associadas à atracão.

Determinantes biológicos, culturais e idiossincráticos da atratividade física

A avaliação da atratividade física depende de fatores biológicos (geralmente são atributos de beleza em todas as culturas), culturais (geralmente variam entre as culturas ou entre épocas em uma mesma cultura) e idiossincráticos (algumas pessoas gostam de loiras e outras de morenas; algumas gostam de parceiras atléticas e outros das magrinhas, etc.). Vamos detalhar um pouco mais os dois primeiros desses fatores.

Determinantes biológicos da atratividade física

Nem tudo aquilo que achamos fisicamente atraente é fruto da moda ou do aprendizado cultural, como algumas pessoas supõem. Alguns padrões estéticos não podem ser definidos arbitrariamente pela cultura ou moda porque estão relacionados com a saúde e com a capacidade reprodutiva da nossa espécie.

Alguns dos principais determinantes da atratividade humana, que provavelmente sofrem influências biológicas, são os seguintes:

·         Sinais de vivacidade. A curiosidade, a energia e o dinamismo são bons indícios comportamentais de boa saúde física e psicológica;

·         Sinais de juventude. Esse tipo de sinal é mais importante para a avaliação da beleza feminina do que para a beleza masculina. Isso porque a mulher tem menopausa e, portanto, a sua faixa etária reprodutiva é menor do que a do homem. A importância destes sinais na nossa cultura é evidenciada pela enorme quantidade de gastos com produtos para manter ou restaurar os sinais de pouca idade e com operações plásticas, ginásticas, etc. que têm essa mesma finalidade.

·         Índice de massa corporal (IMC). (O ICM de uma pessoa é calculado pela divisão do seu peso pela sua altura elevada ao quadrado).

Esse índice tem forte relação com a saúde e fecundidade. A relação entre o peso e a altura que é considerada mais atraentes pode variar um pouco dependendo da cultura. No entanto, essas variações têm limitações devido aos seus efeitos na saúde. Por exemplo, existem evidências de que deve haver uma quantidade crítica de gordura para que as mulheres possam engravidar. Um peso muito abaixo ou muito acima do ideal para a sua altura diminui as chances da mulher de engravidar porque isso altera ou é resultante do mal funcionamento hormonal.

·         Sinais de gênero. São aqueles sinais secundários que distinguem os homens das mulheres (proporção cintura/quadril para as mulheres, e ombro/quadril para os homens; queixo mais quadrado para os homens; etc.). A presença desses sinais indica que houve um bom funcionamento hormonal na época do desenvolvimento. A proporção cintura/quadril, por exemplo, é a mesma para homens e mulheres até a puberdade. Depois esta proporção diminui para as mulheres devido aos hormônios femininos. Para os homens, a testosterona faz com que a proporção dos ombros em relação à cintura aumente após a puberdade.

·         Simetrias físicas. O grau de simetria é avaliado pela medida da similaridade entre o lado direito e o lado esquerdo do corpo (membros, tronco e rosto). Quanto maior o grau de simetria menos provável a incidência de alterações genéticas. Quando maior o grau de simetria, mais atraente é a pessoa.

Determinantes culturais da atratividade física

O conceito de atração depende também da cultura. Por exemplo, dentro de certos limites, em certas épocas ou em certas culturas, as mulheres mais gordas foram são consideradas belas e, em outras épocas e em outras culturas, as mulheres mais magras são vistas como mais atraentes. Abaixo serão apresentados alguns exemplos de características corporais cujas contribuições para a atratividade apresentam variações culturais:

·          Pescoço comprido. Em certas tribos africanas as mulheres usam argolas no pescoço para  encompridá-lo porque isso é considerado belo.

·          Pés pequenos. Em certa época, na China os pés femininos eram enfaixados para ficarem pequenos;

·           Comprimento dos grandes lábios da vagina. Entre os membros de uma tribo africana existe o costume de esticar os grandes lábios vaginais         para que cresçam, de tal forma que em algumas mulheres as suas extremidades atingem a altura dos  joelhos;

·          Deformadores cranianos. Foram usados por povos antigos da América Central para modelar o formato do crânio. 

·          Dilatadores dos lóbulos das orelhas. Algumas tribos brasileiras inserem um disco nos lóbulos das orelhas para ampliá-los.

Os determinantes da atratividade humana, portanto, só podem ser compreendidos quando as suas origens biológicas, culturais e idiossincráticas são levadas em conta.

1Feingold, A. (1992). Good-looking people are not what we think. Psychological Bulletin, 111, 304-341

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Por Ailton Amélio às 19h47

12/11/2010

Solidão e seus paliativos

Está chegando o fim de ano. Neste fim de semana que passou vi que alguns shoppings já começaram a decoração de Natal. Nessa ocasião, as decorações, as músicas, os temas dos filmes na televisão, as propagandas sobre presentes, as festas de Natal e de passagem de ano, tudo lembra os laços afetivos e o convívio com aquelas pessoas que gostamos (namorada, família, etc). Para muita gente a solidão aperta nessa época do ano.

Nessa época a solidão é mais intensa para aquelas pessoas que vão passar  as festas sem a companhia de entes querido: aquelas pessoas que estão mudaram para locais distantes, aquelas cujos relacionamentos terminaram quando ainda havia sentimentos fortes pelo parceiro, aquelas que perderam um ente querido.

Muitos daqueles que contam com a companhia dos entes queridos também  padecem de solidão porque não se sentem suficientemente envolvidos nessas relações e comemorações tanto quando acham que deveriam estar. Essas pessoas, mesmo durante essas comemorações, não sentem aquela alegria toda que esperavam sentir. Por isso elas têm que disfarçar e simular estados de espírito para não estragar o clima da festa. Parece que aqueles que estão fora da festa percebem-na como muito mais animada do que aqueles que dela estão participando.

Os motivos pelos quais algumas pessoas são mais solitárias que outras podem ser classificados em dois grupos: circunstanciais e disposicionais. Os motivos circunstanciais são aqueles que, como o próprio nome sugere, foram impostos pelas circunstâncias como,  por exemplo, uma viagem inadiável por motivo de trabalho, a mudança de país para fazer um intercâmbio ou a morte de um cônjuge. Os motivos disposicionais são aqueles originados de características psicológicas duradouras como, por exemplo, inabilidades para estabelecer e manter relacionamentos sociais e não gostar de relacionamentos sociais.

Amenizadores da solidão

Muitos solitários desenvolvem meios para amenizar os momentos mais agudos de solidão. A internet é um desses meios. Os passeios em locais densamente frequentados (shoppings, shows, bares, etc.) são outro tipo de paliativo da solidão que é muito usado. Uma forma também muito difundida amenizar da solidão é praticar aquilo que chamo de “relações pessoais secundárias”. Vamos examinar agora esse tipo de relação.

Relações pessoais secundárias

Uma relação pessoal secundária é aquela onde a motivação principal do encontro entre os envolvidos é a realização de uma tarefa ou a participação em alguma outra atividade. Por exemplo, muita gente relaciona-se no trabalho e na escola, mas o relacionamento que acontece nesses ambientes não tem energia própria suficiente para promover encontros sociais fora desses ambientes.

Quem só tem esse tipo de relacionamento social e é sociável fica tomado pela solidão nos feriados prolongados e férias. Essas pessoas não conseguem estabelecer ou manter relacionamentos pessoais que seriam importantes por si só  o suficiente para gerar encontros para desfrutar da companhia mutua. A história abaixo ilustra esse tipo de solitário.

Feriados solitários

Solange odiava férias e feriados prolongados. A sua família morava em outra cidade e não era muito significativa para. Além disso, ela não viajava, não namorava, não telefonava para ninguém e não recebia telefonemas pessoais . Por isso, nessas ocasiões, ela ficava sozinha, ficava “matando cachorro a grito”. Passava os dias nos shoppings e até fila em ponto de ônibus ela pegava para ter a sensação de estar fazendo algo em comum com outras pessoas.

Ela se dava com várias pessoas no  trabalho. Nesse ambiente, fazia o papel de boazinha e insignificante: relacionava-se bem com todo mundo, estava disposta a ouvir todo o tipo de papo, quase não se expunha, não reivindicava nada, não se posicionava e era considerada insípida por quase todos colegas. As suas relações com os colegas de trabalho nunca foram transferidas para a sua vida pessoal: nada de convites para sair, para festas ou viagens. Ela, por sua vez, também não se atrevia a convidar ninguém para nada. Tinha medo de ser rejeitada ou da outra pessoa achar muito chato ficar na sua companhia. Por isso, as suas relações pessoais só aconteciam no ambiente de trabalho.

Baixa sociabilidade é diferente de solidão

Uma definição comumente utilizada por estudiosos da sociabilidade é a seguinte: “Sociabilidade é a preferência por estar com pessoas a estar só”.

O grau de sociabilidade varia muito e essas variações são normais  dentro de um amplo espectro de variação. É como a altura corporal: poucas pessoas são muito baixas ou muito altas, em relação à altura da população que pertencem. A grande maioria das pessoas tem uma altura que fica entre esses dois extremos e se concentra em torno da média da população.

De forma análoga à altura, diversos graus de sociabilidade são perfeitamente normais: uma pequena percentagem de pessoas gosta pouco da companhia de outras pessoas. Outra pequena percentagem de pessoas gosta muito  da companhia de outras pessoas. A grande maioria fica entre esses dois extremos: gosta um pouco da presença de outras pessoas. Todas essas variações são normais e cada uma delas possui vantagens e desvantagens

Estar só pode ser muito bom

Certo  grupo de pessoas adora ficar só boa parte do tempo. Não tem nada de errado com isso. Essas pessoas não sentem solidão nesses momentos. Estar só em certos momentos pode ser muito bom e necessário. Mesmo as pessoas mais sociáveis necessitam e apreciam certos momentos a sós. Estes momentos são necessários para que possam deixar de responder a outras pessoas e assim relaxar e entrar com contato mais profundo com as próprias idéias e sentimentos.

Solitário mesmo na companhia de outras pessoas

A ausência da solidão não é garantida simplesmente pela companhia de outras pessoas. A solidão está mais relacionada com a ausência de relacionamentos significativos. A solidão aparece quando uma pessoa não está intimamente conectada com outras pessoas que lhes são significativas. Por exemplo, ela não compartilha a intimidade e não se sente comprometida reciprocamente com essas pessoas. Por exemplo, um vendedor ou uma recepcionista pode se sentir muito solitária embora se relacione o dia todo com pessoas. Este relacionamento, no entanto, é impessoal e profissional. Da mesma forma, ter um vínculo apenas formal com uma pessoa pode não ser suficiente para afastar a solidão: muitas pessoas sentem solidão mesmo na companhia de parentes, conhecidos e do cônjuge quando sentem que não estão psicologicamente conectados a eles.

Não basta estar envolvido em um tipo de relacionamento para afastar a solidão. Geralmente temos necessidades específicas de relacionamentos com parentes (irmãos, filhos, pais), amigos e amores românticos.

A solidão está aumentando

Antigamente vivíamos em pequenos bandos nômades de caçadores-coletores. Esses bandos eram constituídos, em boa parte, por pessoas que cresciam juntas e conviviam intensamente tanto nas atividades necessárias para a sobrevivência quanto nas atividades de lazer.

Até pouco tempo atrás vivíamos com a família extensa: avós, tios, primos. Recentemente os nossos contatos e nossas relações mais essenciais se  restringiram à família nuclear: pai, mãe e filhos. Atualmente é cada vez mais frequente o tipo de família que é constituída apenas por um dos pais, geralmente a mãe, e seus filhos.

A solidão crônica  está aumentando. Um estudo realizado nos EUA em 1985 indicou que nessa época os americanos tinham três amigos (pessoas com as quais compartilhavam informações pessoais). Cerca de vinte anos depois, em 2006, a quantidade média de amigos estava reduzida a apenas dois. É uma diminuição muito drástica nesse período de tempo. Nesse mesmo período a quantidade de pessoas que declarou não ter nenhum amigo cresceu de 10% para 25%.

Uma hipótese oferecida para explicar esse fenômeno é que, com o aumento da população e com a maior concentração de pessoas em grandes cidades,  as pessoas passaram a se relacionar superficialmente com mais pessoas e cada vez mais profundamente com menos pessoas. Isso aconteceu porque não é possível conviver  profundamente com muitas pessoas e se envolver e confiar nelas.

Consequências e tratamento da solidão

A solidão, além de provocar muito sofrimento, está associada com doenças físicas, doenças psicológicas, uso de drogas e suicídio. 

A solidão pode ter uma origem circunstancial (mudança de cidade, termino de um relacionamento amoroso, morte de um ente querido) ou disposicional (inibições e inabilidades para iniciar e manter relações sociais).

Quando a solidão é intensa, prolongada e desproporcional aos eventos naturais que a causou, é necessário buscar a ajuda de um psicólogo. (Aprofundaremos esse tema em um próximo artigo).

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Por Ailton Amélio às 11h42

05/11/2010

Sucesso da conversa: você assume sua parcela de responsabilidade?

Algumas pessoas não se sentem obrigadas a contribuir para o sucesso da conversa. Não se esforçam para agradar e nem para fazer o interlocutor sentir-se bem.  Embora essa forma de agir seja apropriada quando não há interesse em conversar e quando o assunto que está sendo tratado não é interessante ou importante, certas pessoas deixam de assumir a responsabilidade até mesmo quando querem conversar e estão interessadas no assunto.

Essa forma de agir coloca nas costas do interlocutor todos os esforços para fazer a conversa ficar interessante e progredir. O interlocutor fica com a sensação que esse tipo de irresponsável não quer conversar ou é uma pessoa  lacônica, desvitalizada e chata. Geralmente passa a fugir dela sempre que pode.

Quem está interessado em conversar com um interlocutor que não assume a responsabilidade na conversa passa por uma espécie de tortura. Esta tortura talvez ainda seja maior do que aquela que ocorre quando o interlocutor dá sinais claros que não quer conversar. Quem não assume esse tipo de responsabilidade dá sinais que até conversaria, caso o interlocutor fizesse todo o trabalho como, por exemplo, encontrar assuntos interessantes, desenvolvê-los com um mínimo de cooperação, fazer esforço para agradar e para divertir.

Como não assumir a responsabilidade na terapia

Alfredo, nos inícios das sessões de terapia, quase sempre dava a impressão que nada interessante havia acontecido com ele desde a última sessão. O terapeuta tinha que trabalhar muito para que ele apresentasse algum assunto relevante e para envolvê-lo na sessão.

 Geralmente, no decorrer da sessão, após os esforços do terapeuta, Alfredo começava a contar muitas coisas importantes que haviam acontecido recentemente com ele.  Essa forma de agir dava a impressão que ele “escondia o jogo” no início da sessão e só depois de muita insistência é que ele realmente revelava os fatos.

Quais seriam os motivos para ele adotar essa estratégia nas sessões terapêuticas? Será que ele também agia assim nas outras conversas? Será que agia assim para ter segurança que o seu interlocutor queria conversar com ele, que queria ouvir o que ele tinha para dizer? Ou será que ele agia assim ou porque hesitava em contar coisas daquele nível de intimidade?

Variações nos  graus de responsabilidade

Os graus de responsabilidade que uma pessoa pode assumir em uma conversa  variam desde não assumir nenhuma responsabilidade até assumir totalmente a responsabilidade, passando por todos os graus intermediários entre estes extremos

Raramente os graus de responsabilidade extremos deste contínuo são assumidos na vida real: é muito difícil uma pessoa não cooperar nada com a conversa ou assumir totalmente os seus encargos. Só o fato de permanecer no local já implica em assumir um grau mínimo de responsabilidade. O outro extremo, assumir totalmente a responsabilidade, pressupõe que outro interlocutor não assumiu nada.

Os graus de responsabilidade devem refletir os graus de interesse na conversa e nos momentos da conversa

O grau de responsabilidade assumido em cada momento da conversa deve ser proporcional às motivações para participar da conversa, para tratar de um determinado assunto, ao quanto é importante agir assertivamente naquela situação e ao quanto  é importante atender as necessidades do interlocutor naquela conversa ou momento.

Não forçar demais quando um assunto ou uma conversa se mostra inviável

Para ser um bom conversador é necessário saber quando e até quanto é aconselhável trabalhar para que os assuntos ou conversas sejam estimulados e quando tais assuntos ou conversas são inviáveis. Se este esforço para animar a conversa ou um assunto passar do ponto, quem está se esforçando pode estar impondo  um assunto artificial ou  uma conversa desagradável para o interlocutor.

Motivos para não assumir a responsabilidade pela conversa

Algumas pessoas são menos preocupadas em agradar seus parceiros de conversa. Elas quase não temem que a conversa fracasse e sentem-se menos desconfortáveis com os momentos de silêncio e com outros indícios de que a conversa, o entrosamento ou o relacionamento com a outra pessoa não vai bem.

Algumas pessoas aprenderam que “fazer corpo mole” na conversar é uma forma de fazer o interlocutor  trabalhar e apresentar um espetáculo para agradá-la.

Algumas pessoas têm baixa auto-estima ou timidez o que faz com elas temam a “ousadia” de propor assuntos e assumir riscos na conversa.

Mensagens apresentadas por quem não assume a responsabilidade pelo sucesso da conversa

Quem não assume a responsabilidade pelo sucesso da conversa, além de contribuir para o seu fracasso, também apresenta as seguintes mensagens implícitas:

·        Você (o interlocutor) que se vire para tornar as coisas interessantes. Vou ficar na minha.

·        Não estou interessado em você,

·        Não estou interessado ou não posso conversar com você agora

·        Não estou interessado ou acho inconveniente este assunto ou a forma como ele está sendo tratado.

Formas específicas de não assumir responsabilidade pela conversa

Existem várias formas de não contribuir para que a conversa fique interessante. Por exemplo:

·        Recusar-se sistematicamente a assumir o papel de ouvinte ou de falante

·        Não se envolver em conversas amenas (conversas contato) enquanto não aparece um assunto mais interessante

·        Não ajudar a procurar assuntos

·        Não funcionar como ouvinte ativo

·        Não mostrar envolvimento com nenhum assunto

·        Não apresentar feedbacks

Por exemplo, não manifestar o que sente e pensa sobre aquilo que o interlocutor disse nem mesmo quando achar aquilo muito interessante.

·        Não ajudar a desenvolver os assuntos propostos pelo interlocutor.

·        Não tomar a iniciativa de lidar com o silêncio surgido devido à falta de assunto

Ouvinte passivo e falante desinteressante: duas formas de não assumir

Ouvinte passivo.

Essa talvez seja a principal forma de passar para o outro os encargos de manter a conversa. O ouvinte passivo é um dos piores matadores de conversa. Nada pior do que conversar com alguém que não reage ao que você está dizendo. Não pergunta nada, não comenta nada, fica imóvel (não anui com a  cabeça), fica silencioso (nenhuma interjeição, nenhum som), não apresenta uma orientação frontal de corpo, não inclina o tronco na sua direção quando sentado.

 Ser passivo significa: “não vou cooperar para que você desenvolva o que está dizendo e nem vou mostrar interesse ou envolvimento com o que você está dizendo”.

Quem tem o hábito de ouvir desta forma é um mau ouvinte.  Se o objetivo de quem ouve desta forma  é não estimular um relacionamento, uma conversa ou um assunto, tudo certo.

Falante desinteressante

Existem várias maneiras de ser um falante desinteressante. Por exemplo:

o        Ser impessoal naquilo que diz

o        Agir inassertivamente

o        Só dizer lugares comuns

o        Não correr riscos naquilo que diz

Seja um interlocutor interessante. Assuma a sua parte de responsabilidade pelo sucesso da conversa.

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Por Ailton Amélio às 11h38

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

Histórico