Blog do Ailton Amélio

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29/12/2010

Ritos de passagem: comemorar é preciso!

Estamos chegando no Dia de Ano que marca a passagem entre 2010 e 2011. Nessa ocasião muita gente vai reunir a família e os amigos, vai servir-se de comida farta e especial (sementes de romã, lentilhas, golinhos de champanhe, etc.), vestir branco (roupas íntimas novas e de cores especiais), pular ondas, fazer oferendas para Iemanjá, ir à missa do galo, etc. Estes são alguns dos rituais que podem fazer parte da sua passagem de ano.

Li recentemente a notícia de que vários países não-cristãos e que adotam outros calendários estão comemorando, cada vez mais, o Natal e a passagem de ano que acontece segundo o nosso calendário gregoriano. No Japão, por exemplo, um país onde a grande maioria das pessoas é budista e xintoísta, o dia do Natal foi muito comemorado, embora o seu conteúdo religioso tenha sido amplamente substituído por um conteúdo romântico (por exemplo, os casais vão jantar fora nesta ocasião).

É difícil ficar alheio a essas comemorações. É como trabalhar durante um jogo do Brasil durante a Copa do Mundo. Nesse tipo de ocasião é quase palpável a sensação de está acontecendo algo que faz muito sentido e que devemos participar. Muitos daqueles que não assistem esses jogos ficam com a sensação que não estão participando de algo muito importante e que, por isso, algo de errado pode estar acontecendo com eles.

Essa abstenção de participação pode ser uma experiência muito dolorida, perturbadora e ameaçadora. Certas pessoas que voluntariamente não participam dessas comemorações tentam assegurarem-se refugiando em pensamentos do tipo: “Não acredito em nada disso”, “É tudo comercio e hipocrisia” e procuram sentirem-se superiores por não estarem participando “desse tipo de besteira”. No entanto, geralmente essas pessoas ficam muito aliviadas quando essas ocasiões comemorativas passam.

Muitas pessoas ironizam o lado comercial dessas festas: “Servem mesmo é para promover o consumismo e para alimentar superstições”. Realmente o consumismo e as superstições florescem nessas épocas. No entanto, não convém jogar fora a criança junto com a água suja, como afirma um sábio ditado americano. Vamos examinar agora algumas funções importantes desse tipo de comemoração.

Ritos de passagem

Estas celebrações são conhecidas genericamente como “ritos de passagem” (esse nome foi popularizado no início do século passado pelo antropólogo alemão Arnold van Gennep). De fato existem vários tipos de ritos. Os três mais importantes são os seguintes: iniciação, passagem e aniversário. Devido à data que se avizinha, vamos falar aqui principalmente desses dois últimos tipos de ritos.

Os ritos de passagem, como o próprio nome sugere, marcam uma mudança de papéis. Na nossa sociedade a primeira transição comemorada é a do nascimento, que marca a passagem para vida independente do corpo da mãe e é caracterizada pelo corte do cordão umbilical. A última transição é a morte, que marca a saída dessa vida.

Os ritos de aniversário marcam a passagem de tempo transcorrido desde um acontecimento importante, cuja primeira ocorrência pode ter sido objeto de um rito de passagem (nascimento, casamento, morte, etc.).

Os ritos de aniversário podem ser comemorativos, quando o acontecimento que está sendo celebrado é positivo ou alegre (aniversários, datas nacionais, dias santos, etc.) ou pranteadores, quando o acontecimento é negativo ou triste (aniversario da morte de um ente querido, dia que ocorreu uma separação indesejada, etc.). (leia mais sobre as funções do rito do casamento no artigo “Comemorar é preciso”, publicado meu livro Relacionamento Amoroso).

Em quase todas as sociedades existem diversos ritos como, por exemplo, as  celebrações do nascimento, a passagem para a adolescência ou idade adulta, as cerimônias de casamento e os rituais que marcam os funerais. Existem também muitos ritos menos generalizados como a formatura na escola e o dia do funcionário público.

Porque os ritos são importantes?

Os ritos ajudam a dar sentido para a vida, dão uma sensação de pertencimento a aqueles que comemoram juntos, ajudam a mudar de papel social, etc.

Funções dos rituais de passagem

Algumas das principais funções dos rituais de passagem são as seguintes:

·      Facilitar a mudança de papéis sociais: facilitam o abandono dos papéis anteriores e a investidura dos novos papéis. Estes rituais geralmente envolvem o desinvestimento do papel anterior, a determinação de uma data para mudança de papel, a presença de pessoas que investirão tempo e recursos para estarem presentes e que testemunharão a passagem, uma cerimônia elaborada para marcar a passagem e a investidura do novo papel. Tudo isso faz com que a mudança de papéis que é marcada por rituais seja encarada mais seriamente do que uma passagem privada, sem pompa, emoções e testemunhas.

·      Fortalecer vínculos entre os participantes do evento. Por exemplo, participar de um ritual juntamente com outros convidados fortalece a sensação de pertencer ao mesmo grupo ou o mesmo clã que eles.

·      Dar significado para a vida. As comemorações marcam a vida. A vida pode ser lembrada através de datas importantes. Essas datas ficam mais delineadas quando é necessário se preparar para elas, esperar por elas, participar delas, falar delas, pensar nelas e sentir fortes emoções nessas ocasiões.

·      Reforçar os status dos participantes

Nesta ocasião os participantes exibem e testam as suas importâncias sociais e os seus vínculos: centralidade em relação aos anfitriões, vestuários, cumprimentos, honrarias, etc.

 

Certa vez ouvi falar sobre um antropólogo que oferecia os seus conhecimentos para ajudar a preparar ritos significativos para aqueles que desejavam comemorar acontecimentos importantes, mas não queriam utilizar os ritos oficiais existentes para essa função. Por exemplo, ele ajudava a preparar um rito para marcar uma união conjugal: planejava uma cerimônia onde houvessem convidados, celebrantes do ritual devidamente paramentados, roupas especiais para os noivos, cerimônia para oficializar a passagem (proferimento de declarações de amor, declarações de compromissos por parte dos noivos, músicas, falas e troca de anéis). Tudo isso provoca muita emoção e marca fortemente a passagem do status de solteiro para o de casado, tanto para os noivos como para a família e para os convidados.

As atitudes e disposições daqueles que estão dispostos a passar por estes ritos também podem ser bem diferentes daqueles que não querem se submeter a eles. Por exemplo, quem está disposto a se casar, “com tudo que tem direito”, com uma determinada pessoa, pode estar mais disposto a assumi-la como cônjuge do que quem quer apenas morar junto com ela, sem nenhum alarde ou comemoração. Além disso, o próprio rito também tem os efeitos apresentados anteriormente.

            Por esse motivo, um determinado rito pode até não ser crível, mas estar disposto a participar dele pode ter muita importância.

Comemorar é preciso (e importante)! Comemore!

Boas festas e feliz 2011 para você!

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Por Ailton Amélio às 20h46

24/12/2010

Saudações e despedidas

Nessa época de fim de ano vamos expressar e receber muitos votos de feliz Natal, boas festas e vários tipos de augúrios para um excelente ano vindouro.

Quando dois desconhecidos são apresentados, a qualidade e a intensidade dos cumprimentos iniciais trocados entre eles influenciam fortemente as primeiras impressões mútuas e contribuem para a determinação do clima psicológico que vai influenciar a conversa e até mesmo o relacionamento subseqüente entre eles.

Quando os cumprimentos acontecem entre conhecidos, eles expressam o estado do relacionamento, as atitudes mútuas e a disposição que existe naquele momento para conversar. Esses tipos de expressão influenciam fortemente a qualidade do relacionamento que vai acontecer em seguida.

Vamos examinar aqui os cumprimentos que acontecem quando duas pessoas se encontram cara a cara em duas circunstâncias: na chegada e na partida. Esse exame será centrado no cumprimento que mostra um nível alto de acolhimento, calorosidade e consideração pelo interlocutor. Outras formas de cumprimento podem ser encaradas como atenuações dessa forma ou como fórmulas especializadas que são apresentas em circunstancias especiais para pessoas especiais como, por exemplo, a continência militar, os cumprimentos entre membros de associações secretas ou o beijo na boca dos namorados.

Avaliações das iniciativas e reações do interlocutor

O cumprimento é uma ocasião marcante porque, nessa ocasião, os interlocutores podem obter muitas informações sobre como os outros estão se sentindo, o estado do relacionamento que existe entre eles, como reagiram ao encontro, suas disposições para conversar e o tipo de reação que estão tentando provocar no outro.

Reações iniciais à chegada do interlocutor

Na ocasião do cumprimento de chegada, as pessoas costumam observar mais atentamente seus interlocutores para ver como eles estão reagindo às suas presenças.

As reações que as pessoas apresentam desde o momento que se avistam a distância (sinais de prontidão e entusiasmo que exibem ao se avistarem, a tomada da iniciativa de se aproximam ou como reagem à aproximação da outra, etc.) e a forma como se cumprimentam quando chegam a uma distância apropriada para conversar, tudo isso é muito revelador de seus estados de espírito, atitudes mútuas e disposições para interagir.

Em um encontro inesperado, as primeiras reações são importantes porque é mais provável que elas sejam interpretadas como genuínas e não como fruto do autocontrole, simulação e dissimulação. Por exemplo, o tempo que uma pessoa demora para reagir quando ela nos avista é bastante informativo sobre a sua atitude em reação a nós e sobre o que ela está sentindo frente à chance de interagir conosco. Quando ela sorri assim que nos vê e caminha rapidamente na nossa direção para nos cumprimentar, esse é um indicativo bastante forte que ela sentiu prazer com o encontro e quer falar conosco. Da mesma forma, quando a outra pessoa para imediatamente o que está fazendo e volta toda a sua atenção na nossa direção, este é um ótimo sinal de que ela ficou contente por nos ver e está disponível para falar conosco.

Por outro lado, uma desviada rápida de olhar indica desconforto, contrariedade, indisposição para um cumprimento mais elaborado e menos propensão para interagir.

Algumas das reações mais analisadas durante o cumprimento são as seguintes:

Tempo de reação

Quando tempo cada pessoa demora para deixar o que está fazendo e reagir ao interlocutor é um bom índice da sua receptividade positiva ou positiva ao encontro.

Iniciativa de aproximação

Quando os interlocutores se vêem a distancia, um ou ambos poderão tomar a iniciativa de se aproximar. Aquele que não tomou a iniciativa pode, em seguida, ao constatar a iniciativa do outro, também iniciar a aproximação.

O autor da iniciativa será visto como mais interessado no contato. Nesse caso, ele também será visto como mais caloroso que o outro.

Presteza para caminhar

A rapidez com que cada pessoa caminha na direção da outra revela o seu interesse no contato. Se o interesse é motivado positivamente, a mensagem é de calorosidade e amistosidade ou deferência.

Vivacidade na voz

Existem muitas maneiras de apresentar receptividade e calorosidade através voz. Talvez a forma mais usual de apresentar essas reações positivas, ou “vivacidade”, seja através do volume mais forte que o usual, prolongamento de algumas sílabas das palavras proferidas e modulação mais acentuada do que o normal.

Etiqueta e expressividade do cumprimento

Os cumprimentos são guiados por etiquetas que são determinadas por fatores biológicos, culturais, circunstanciais e pessoais.

Eibl-Eibsfeldt, famoso etólogo alemão, filmou expressões faciais mostradas durante o cumprimento em várias partes do mundo. Esse autor verificou que havia grande similaridade nas expressões faciais exibidas durante o cumprimento. Por exemplo, o levantar das sobrancelhas era impressionantemente semelhante em pessoas de todas as culturas: as sequências de movimentos utilizadas para erguê-las, mantê-las levantadas e baixá-las acontecia na mesma sequência e na mesma fração de segundo, em várias partes do mundo.

Diversos aspectos do cumprimento são determinados por regras sociais que levam em conta as circunstâncias, o papéis dos interlocutores, seus status, o tipo de relacionamento que existe entre eles e o tempo que passou desde o último encontro.

O cumprimento admite nuances que servem para expressar aquilo que cada interlocutor pensa e sente sobre o outro, sobre o encontro que está ocorrendo e sobre aquilo que espera do relacionamento durante esse encontro. Diversos aspectos do cumprimento também são controlados pelos efeitos que cada um quer produzir no interlocutor.

Durante um cumprimento positivo, quem cumprimenta pode mostrar, dependendo das circunstâncias, seus sentimentos e pensamentos positivos sobre o interlocutor, sobre o significado de estar conhecendo-o, sobre a saudade sentida durante o tempo que passaram sem se ver ou, na hora da despedida, sobre o que sentirá durante o tempo que passarão sem se verem e apresentar desejos para que coisas boas aconteçam durante esse tempo de ausência.

O ritual do cumprimento

Início do ritual do cumprimento

O ritual do cumprimento é iniciado no momento que as pessoas envolvidas se avistam. Nesse momento, elas apresentam as primeiras reações que foram provocadas pela tomada de conhecimento da presença da outra e negociam se haverá aproximação, parada, contatos físicos, conversa, etc.

Durante a caminhada de aproximação, elas poderão apresentar diversos tipos de  gestos que estabelecem contato a distância, como acenos, contatos de olhos, sorrisos e vocalizações. Estes comportamentos sinalizam as  disponibilidades e disposições para a interação e funcionam como uma espécie de incentivo ou desincentivo à aproximação por parte da outra pessoa.

Uma ou ambas as partes podem cumprimentarem-se sumariamente, sem fazer menção de desviar-se do caminho, e desviarem os olhos após um rápido contato. A parte que desvia o olhar primeiro ou que se recusa a manter o contato de olho, não altera o ritmo da caminhada e não apresenta gestos e vocalizações muito efusivas sinaliza que não vai querer parar para conversar.

Cumprimentos a curta distância depois de um tempo sem se verem

No ritual do cumprimento são trocadas palavras que manifestam:

§  O prazer de estar encontrando a outra pessoa (voz de alegria, surpresa agradável, “Estou feliz por você estar aqui”. “Que bom te ver por aqui!!”)

§  Interesse em saber como a outra está: “Como vai?”,

§  Interesse em saber as novidades: “O que você conta?”

Também são apresentados muitos comportamentos não-verbais:

Acenos, olhares, sorrisos, vocalizações não articuladas (interjeições).

Poderão acontecer vários tipos de contatos físicos durante o cumprimento: aperto de mão, apertar uma mão e colocar a outra em cima da mão do interlocutor que está sendo apertada, apertar uma mão e segurar o braço do interlocutor com a outra, diversos tipos de abraço, tocar o braço brevemente ou os ombros da outra pessoa, diversos tipos de beijos, dar palmadinhas nas cotas durante o abraço, etc.

Despedidas

O ritual de despedidas também é muito importante. Uma saída de um local sem despedidas pode ser considerada muito rude, caso não haja um motivo aceitável para esse procedimento. Uma despedida muito seca e abrupta também causa estragos. Os padrões do cumprimento inicial apontados acima também são válidos na hora da despedida: por exemplo, contatos físicos produzem efeitos mais fortes e positivos do que despedidas puramente verbais.

            Na despedida são esperadas manifestações de satisfação pelo encontro, agendamento de novos encontros e expressão de votos de êxito e bons acontecimentos para o interlocutor  durante o tempo que vão ficar sem se ver. Quanto maior é tempo de separação previsto, mais calorosas e elaboradas dererão ser as despedidas.

 

Você pode modificar profundamente os seus relacionamentos através de bons cumprimentos!!

Boas festas para você!!!

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Por Ailton Amélio às 15h17

17/12/2010

Promessas de fim de ano

O fim de ano está chegando. É nessa época que muita gente faz um balanço daquilo que conseguiu e que deixou de conseguir no ano que está findando e faz planos e promessas para o ano que vai se iniciar. Muitas dessas promessas, infelizmente, só são cumpridas por pouco tempo

Vamos examinar aqui alguns dos motivos que nos levam a fazer esse tipo de promessa, as dificuldades para cumpri-las e algumas medidas que aumentam as chances de cumpri-las.

Porque muitas promessas de mudança não são  cumpridas

Alguns dos principais motivos pelos quais as promessas de mudança não são cumpridas são os seguintes:

São irrealistas. Elas exigiriam muito esforço e uma mudança radical para serem implementadas.

Falta de um cronograma para começar a implementá-las. É mais provável que as promessas sejam cumpridas quando determinamos precisamente a hora, o dia e a circunstância onde elas serão implementadas.

São formuladas durante  estados psicológicos alterados e, por isso, esmorecem quando o estados normal volta a vigorar ou vice-versa. Vamos examinar melhor esse tópico nos parágrafos abaixo.

Estado psicológico “normal” e “alterado”

Um estado psicológico “normal” é aquele produzido pelas circunstâncias mais frequentes que acontecem no nosso dia a dia. Esses estados normais são aqueles que estão presentes nos dias “normais”, onde nada muito excepcional ocorreu. Estes estados abrangem as nossas emoções, motivações, cognições, auto-estima, etc.

Estados psicológicos “alterados” são aqueles induzidos por situações inusuais como a fúria que é produzida por uma agressão,  as emoções evocadas por um filme que nos toca profundamente e as alterações nas nossas percepções que são provocadas por uma boa palestra ou pela leitura de um bom livro.

            Muitas vezes uma promessa não é cumprida porque foi formulada durante um estado “normal”  e é descumprida durante um estado alterado provocado pela privação (excesso de fome, privação sexual prolongada, abstinência de drogas em pessoas viciadas,  etc.) ou por acontecimentos que geram alterações psicológicas (ingestão de drogas, acontecimentos que provocam fortes emoções, etc.)

As promessas de fim de ano ocorrem em um contexto que é uma mistura dos dois casos citados acima: ela é formulada durante o clima especial que é instalado nessa época e vai sendo quebrada à medida que a rotina do dia a dia vai substituindo o clima de fim do ano passado.

Em outras palavras, essa promessa é proferida em um momento que a motivação para mudar está alta e a resistência para a mudança está baixa e só aparecerá em um momento distante. Nessa ocasião é  fácil prometer começar um regime ou parar de fumar depois do período de festas de fim de ano. É fácil prometer principalmente quando sabemos que vamos comer bem e fumar muito e a abstinência só começará dali a algum tempo

Motivações suplementares que ajudam a cumprir as promessas

Uma das maneiras de aumentar as chances de persistir no cumprimento de  promessas é planejar a ocorrência de acontecimentos que disparem motivações adicionais, que ajudem a cumpri-las, quando as motivações que levaram a assumi-las começarem a fraquejar. Por exemplo, colocar um despertador barulhento longe da cama na hora que vamos deitar, quando estamos determinados a levantar cedo, ajuda a sair da cama na hora quando o sono estiver predominando sobre a vontade de levantar. O barulho do despertador fornece uma motivação suplementar para levantar e ir desligá-lo

Algumas dessas motivações complementares que podem ser planejadas são as seguintes:

Assumir compromissos em público

Por exemplo, declarar publicamente que a partir do dia tal vai parar de fumar, vai emagrecer ou vai começar a fazer ginástica.

Estabelecer um contrato.

Assinar um contrato comprometendo-se a cumprir a promessa. A falha nesse cumprimento implicará em sanções previstas no contrato como, por exemplo, perder uma certa quantia depositada previamente. Esse contrato deve ser assinado com um executor implacável e capaz de fiscalizar o seu cumprimento como, por exemplo,  um funcionário de uma academia de ginástica. O contrato estipula o comparecimento pelo menos três vezes por semana e a prática de determinadas ginásticas por pelo menos uma hora. Caso esse contrato não seja cumprido, o funcionário estará autorizado a descontar o cheque.

Este tipo de contrato é muito útil e pode ser aplicado em atividades muito diferentes como perder peso, parar de fumar e melhorar o desempenho acadêmico. (Para um contrato funcionar direito, ele deve preencher certas condições que são mais bem analisadas com a ajuda de um psicólogo).

Renovar as motivações que levaram a assumir o compromisso

Recriar frequentemente as motivações que existiam no momento que ficou entusiasmado para formular a promessa.

Uma maneira de fazer isso é aumentar a visibilidade das consequências que serão produzidas pelo cumprimento e pelo não cumprimento do contrato. Por exemplo:

·        Pensar frequentemente nas boas consequencias que virão através do cumprimento da promessa e das más consequencias que ocorrerão pelo seu não cumprimento. Por exemplo, os maços de cigarro trazem fotos horríveis para lembrar das consequencias do fumo. Estas fotos ajudam a renovar a inibição para fumar.

·        Criar na imaginação “filminhos” mostrando as boas consequências obtidas através do cumprimento da promessa. Por exemplo, esse filminho mostra a pessoa sentindo-se muito bem, com os dentes clareados e cheirando bem após parar de fumar.

·        Pensar várias vezes por dia na situação desejável que será alcançada após cumprir o contrato.

·        Colocar fotos e avisos em locais bastante visíveis que lembrem a promessa e suas consequências. Por exemplo, colocar avisos e fotos na porta da geladeira que lembrem o estado alcançado após cumprir a promessa de comer de forma mais saudável.

Antecipadamente quero expressar aqui o meu desejo que você cumpra todas as suas promessas no próximo ano e chegue mais perto dos seus sonhos.

 

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Por Ailton Amélio às 11h32

10/12/2010

Vestuário: códigos e funções

Responda as seguintes perguntas sobre a sua forma de se vestir:

·         O seu estilo de vestuário contribui para que você seja notado ou para que você passe despercebido?

·         O que prevalece na sua forma de vestir: o conforto, o recato ou a exibição de mensagens?

·         Em relação às pessoas presentes nos ambientes que você frequenta, você se veste no mesmo estilo da maioria delas? 

 

  •     Você se veste  melhor, pior ou no mesmo nível que elas?

 

·         O seu vestuário mostra sinais de um estilo de vida que os seus locutores admiram e que  gostariam de viver?

·         O seu vestuário ressalta:

·        A sua sensualidade (por exemplo, roupas colantes ou que deixam aparecer o contorno ou locais do corpo que geralmente são cobertos)?

·        A sua capacidade econômica (roupas caras, grifes, etc.)?

·        O seu grau de formalidade ou informalidade ?

·        A sua ideologia?

·        A sua profissão (terno do executivo, farda do militar, jaleco do professor, branco do médico, etc.)?

·        Quando você está desempenhando sua atividade profissional você permite que o seu vestuário desloque a atenção dos seus interlocutores do tema que está sendo tratado para aquilo que você está usando (por exemplo, ele não deixa de olhar para o seu decote e não consegue concentrar-se no contrato que vocês estão discutindo?).

Estas perguntas servem para chamar a sua atenção para diversos aspectos do vestuário. Os conteúdos de algumas delas serão abordados neste artigo.

Por que vale a pena cuidar da produção?

O termo “produção” é usado aqui para designar aquelas medidas que são usadas para alterar rapidamente a aparência: vestuário, tratamento da pilosidade (corte de cabelo, depilação, tratamento da barba, etc.), acessórios (cintos, bolsas, sapatos) e maquilagem.

Embora sempre ouçamos que não devemos julgar as pessoas pelas suas aparências, de fato as julgamos a partir dessa base. Embora ouçamos falar que as aparências enganam, e muitas vezes enganam mesmo, ainda assim elas influenciam as nossas ações.

A aparência pode ter mais importância que imaginamos. Ela tem mais importância entre desconhecidos que estão se vendo pela primeira vez ou que acabaram de ser apresentados porque, nestas ocasiões, ela é uma das principais fontes disponíveis de informações para os envolvidos se avaliarem mutuamente. Mas, embora a importância da aparência vá diminuindo à medida que as pessoas vão se conhecendo, ela continua a ter bastante peso nos relacionamentos, principalmente quando ela suscita julgamentos extremos (por exemplo, muita beleza ou muita feiúra).

A importância interna da aparência que pode até ser maior do que a externa. Por exemplo, se alguém está satisfeito com a própria aparência isso pode melhorar a sua autoestima e autoconfiança. Essas melhorias afetarão positivamente seu desempenho e a agradabilidade durante os relacionamentos, o que terá imensos efeitos nos seus interlocutores.

Funções do vestuário

            Segundo Desmond Morris, autor de vários livros sobre o comportamento humano, as principais funções do vestuário são as seguintes:

·        Proteção (Comodidade)

Esta função pode ser facilmente constatada: basta observar como o vestuário da maioria das pessoas é diferente em um dia frio em relação a um dia quente. Essa mudança ajuda a lidar com a temperatura.

·        Recato (Pudor)

O vestuário serve para ocultar partes do corpo que a cultura considera vergonhosa a exibição em público.

·        Exibição /camuflagem.

O objetivo da exibição é a expressão e a comunicação de mensagens para outras pessoas.

Neste artigo vamos tratar principalmente desta função do vestuário: os seus usos para esconder, atenuar, ressaltar e melhorar a aparência e os seus usos para esconder, atenuar, ampliar e simular qualidades sociais e psicológicas

Principais informações exibidas através do vestuário

Há muito tempo atrás li um estudo sobre o vestuário que me impressionou bastante. Neste estudo formam apresentados três tipos de vestuários masculinos e três tipos de vestuários femininos para diversas pessoas (só apareciam as roupas, como que vestindo um corpo invisível de alguém que estava em pé) que deveriam responder vários tipos de perguntas como, por exemplo: “Qual dessas três pessoas é viciada em drogas?”, “Qual dessas três pessoas é religiosa”, “Qual dessas três pessoas vota no partido conservador?”. Um dos resultados interessantes desse estudo é que houve uma dose muito grande de acordo entre aqueles que responderam essas perguntas.

É claro que tipo de acordo não garante que aqueles que usam esses tipos de vestuário realmente se portem da forma como as outras pessoas acreditam. No entanto, as crenças difundidas (estereótipos socialmente difundidos) sobre os tipos de pessoas que se vestem de tal ou qual forma provavelmente alteram as ações daqueles que nelas acreditam 

Um estudo citado no famoso livro de William Thourlby “You are what you wear” (New York: New American Library, 1980),  apresentou evidências de que as pessoas tiram dez tipos conclusões a respeito das outras a partir das roupas que elas estão usando. Estas conclusões são as seguintes:

1.      Background econômico

2.      Nível econômico

3.      Background educacional

4.      Nível educacional

5.      Nível de sofisticação

6.      Nível de sucesso

7.      Caráter moral

8.      Background social

9.      Posição social

10. Confiabilidade

Identificação e diferenciação social através do vestuário

Ao mesmo tempo, as pessoas não querem ser anônimas e nem parecerem muito diferentes das outras pessoas de seus grupos. As pessoas também querem chamar a atenção dos pares (isto é muito importante para arranjar um parceiro amoroso, para ser escolhido para profissões de prestígio, etc.). A moda tem que trabalhar dentro destes dois limites: queremos nos identificarmos com o nosso grupo e, ao mesmo tempo, nos diferenciarmos para sermos notados.

Camuflagem

Camuflar é confundir-se com a paisagem. A camuflagem militar, entre outras coisas, consiste no uso de um tipo de vestuário que se confunda com a paisagem física ao redor. (Por exemplo, usar verde na selva e branco na neve). Algumas pessoas usam o vestuário para se camuflarem, como os tímidos, por exemplo

Socialmente falando, quem quer camuflar-se está interessado em passar despercebido no seu meio social. Para isso, essa pessoa deve se produzir como a maioria daqueles que estão do local onde ela frequenta (vestir-se “discretamente”, “como todo mundo”).

Determinantes biológicos da moda

A moda não é tão arbitrária como pode parecer. A primeira vista, parece que os estilistas têm toda a liberdade para inventar os modelos de vestuários. No entanto, muitas das variações da moda nada mais fazem do que inovar artifícios para ressaltar aquelas partes do corpo que distinguem o homem da mulher. Outras vezes, a moda apenas muda a parte do corpo que será destacada, em relação aquelas ressaltadas pela moda anterior.  Por exemplo, em certas épocas a moda adota decotes abissais para ressaltar os seios. Em outras, a mini saia para destacar as pernas roliças femininas, as anquinhas para exagerar os trazeiros femininos e as ombreiras para ampliar os ombros masculinos ou a cartola para ampliar a altura masculina

Teoria eco genitalEssa teoria afirma que vários sinais sexuais que eram exibidos nas partes trazeiras dos nossos antepassados na época que eles andam de quatro e que, por isso, eram vistos de trás, migraram para a nossa frente quando passamos a andar em pé: seios proeminentes lembrando as nádegas, lábios carnudos, avermelhados e brilhantes (que podiam ser acentuados pelos batons) lembrando os grandes lábios vaginais intumescidos e lubrificados, etc.

O seu vestuário ajuda você a ganhar pontos, não altera seus pontos ou faz você perder pontos aos olhos de outras pessoas?

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Por Ailton Amélio às 11h36

03/12/2010

Compulsões socialmente aprovadas

Compulsão é uma forma repetitiva de agir que o compulsivo não consegue deixar de apresentar mesmo sabendo que ela é irrazoável e prejudicial.

Para saber se você tem algum dos tipos mais comuns de compulsão responda às seguintes questões:

o        Você passa passa tempo demais navegando na internet?

o        Você compra mais roupas do que consegue usar?

o        Você continua a comer depois que a fome já foi saciada?

o        Você é viciado em alguma droga, legal ou não

o        Você gasta tempo demais frente à televisão?

Caso você  tenha respondido positivamente a qualquer uma dessas questões, você  está com algum tipo de compulsão que  pode ser grave ou leve e você pode ou não precisar de tratamento (em alguns casos talvez você consiga dominar a compulsão através de muito esforço). De qualquer forma, essas compulsões não são bem vistas socialmente.

 

Para verificar se você tem alguns dos tipos mais comuns de compulsões socialmente aprovadas responda às seguintes questões:

o        Você  sente a necessidade irresistível de trocar o carro cada vez que sai um novo modelo?

o        Toda vez que é lançado um novo modelo de celular você sente que o seu, comprado há pouco tempo, está completamente superado?

o        Você está afundado em prestações só por que trocou uma porção de aparelhos que funcionam perfeitamente?

o        Você passa quase toda a sua vida no trabalho, apesar de já ter um bom padrão de vida e segurança para o futuro?

o        Embora esteja “bem de vida”, você quase nunca vê os seus filhos e a sua esposa porque não tem tempo?

o        Você já está "bem de vida", mas a sua vida sexual empobreceu bastante porque você trabalha demais e vive cansado e estressado?

o        Você está lutando desesperadamente para chegar ao topo da pirâmide e não é um trabalhador dos tempos dos faraós?

Caso tenha respondido positivamente a algumas dessas perguntas, você tem compulsões que são socialmente admiradas e aprovadas! Mais que isso: você pode ser pressionado para se portar dessa forma!

Há algum tempo atrás, aqueles que gostavam de ficção científica imaginavam que chegaria uma época que as máquinas e os computadores trabalhariam para nós e, assim, teríamos mais tempo livre para conviver com os entes queridos e usufruir aquilo que a vida teria de bom. Ledo engano. As horas de trabalho diminuíram desproporcionalmente pouco em relação aos avanços tecnológicos. Por exemplo, há pouco tempo atrás uma pesquisa nacional mostrou que é muito comum os executivos trabalhem acima de dez horas por dia. Na França estão tentando aumentar o número de horas trabalhadas por semana! No Brasil está difícil fazer a redução das 44hs de trabalho por semana para quarenta horas.

Quando uma pessoa está lutando para ter um nível razoável de vida, que envolve boa alimentação, saúde, educação e lazer para si e para seus familiares, é compreensível e adequado que ela trabalhe duro. No entanto, aquelas pessoas que já superaram este tipo de preocupação geralmente continuam a trabalhar e a perseguir compulsivamente outros objetivos que foram criados simplesmente para estimular novas necessidades e o consumismo.

Além de trabalhar excessivamente, essas pessoas sacrificam outras áreas essenciais de suas vidas para perseguir quimeras. Pior que isso, elas raramente chegam a usufruir aquilo que conseguem: quase nunca vão à casa da praia; têm que pagar alguém para ligar os carros que não conseguem usar; rarissimamente usam a capacidade daquele carro que compraram, que pode passar dos 300 km por hora (de fato elas sempre andam a dez no trânsito e o carrão ainda desperta a atenção dos bandidos.... ).

Os propagandistas conseguem criar continuamente necessidades artificiais por novos produtos. Essa necessidade é “artificial” quando o produto em si traz poucos benefícios diretos em relação aos anteriores, mas é criada uma necessidade muito forte devido aos benefícios indiretos que eles prometem (admiração, senso de realização, poder, etc).

A necessidade por esses produtos é criada pela associação entre a sua posse ou consumo com a sensação de poder, sucesso, juventude, sexo, admiração, etc . Não importa se é um refrigerante, um carro ou um celular. Essa boa sensação prometida dura pouco. Logo em seguida é lançada uma nova versão do produto e aquele que você já tinha não mais satisfaz. Assim você passa a vida toda correndo atrás de bugigangas só para se sentir “uptodate”.

Aquilo que você paga por esses produtos não compensa aquilo que você sacrifica para obtê-los como, por exemplo, tratar os colegas “objetivamente” (por exemplo, priorizar suas eficiências ou deficiências no trabalho, sem olhar o que está se passando nas suas vidas ou nos seus sentimentos), deixar de ver a sua esposa que, por sua vez, passa mais tempo de suas horas acordadas em outro emprego, com outras pessoas; deixar de participar da vida dos seus filhos (“O que importa é a qualidade e não a quantidade de horas que você passa com eles”, dizem aqueles que sentem culpa e querem se consolar).

Claro que a culpa não é só dos propagandistas e marqueteiros. Todo o sistema social aprova, confirma e é organizado para validar essa forma de pensar, agir e sentir. Recentemente houve uma grande transformação nas relações sociais e nas qualificações que fazem com que uma pessoa seja valorizada, admirada e se orgulhe de si mesma. Os valores da honestidade, da afetividade, dos laços familiares, da amizade, etc. como critérios de mérito diminuíram. Agora importa mais quanto você ganha, a grife da roupa que você usa e a sua beleza física.

 

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Por Ailton Amélio às 12h04

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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