Blog do Ailton Amélio

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26/01/2011

Teoria da atribuição: confusões sobre as causas de estados psicológicos

Você confunde as causas daquilo que sente? Você costuma culpar as pessoas erradas ou usar remédios fortes para problemas errados? Nesse artigo vamos examinar esse tipo de confusão. Considere a seguinte experiência:

Estudantes do sexo masculino se voluntariaram para participar de uma pesquisa sobre reações ao perigo. Esses tinham que atravessar pontes sobre um mesmo abismo e, em seguida, eram entrevistados. Os estudantes foram divididos em dois grupos. Os de um grupo atravessaram uma ponte sólida, que dava toda a aparência de ser segura. Os estudantes do outro grupo atravessaram uma ponte  balouçante e com aparência bem mais frágil que a outra.

            Assim que cada estudante acabava de atravessar uma das pontes, ele era entrevistado por uma mulher atraente. Ela fazia várias perguntas e, no final da entrevista, dava o seu número de telefone e dizia que o entrevistado poderia ligar para saber os resultados da pesquisa. Em seguida, outro pesquisador se aproximava e fazia outras perguntas, algumas das quais a respeito da entrevistadora anterior (uma delas procura determinar o se grau de atração).

Os resultados desse estudo mostraram que os estudantes que atravessaram a ponte frágil e balouçante acharam a entrevistadora mais atraente e posteriormente ligaram mais para ela do que aqueles estudantes que atravessaram a ponte mais sólida.

Os autores interpretaram essas diferenças entre os dois grupos de estudantes como uma confirmação da teoria da atribuição. Essa teoria afirma que certos estados fisiológicos e psicológicos são compartilhados por vários fenômenos psicológicos. Por exemplo, antes de pular de pára-quedas e antes de abordar uma mulher muito atraente em um local de paquera é comum que o coração acelere, aumente a pressão sanguínea, apareça certo grau de apreensão e surjam pensamentos sobre a possibilidade do empreendimento não dar certo. As situações ou os acontecimentos presentes ajudam a interpretar as causas dessas alterações fisiológicas e sensações. No caso desses exemplos, o salto de pára-quedas e a abordagem da mulher atraentes são vistos como responsáveis mesmas reações fisiológicas e ajudam a determinar as sensações experimentadas nestas duas ocasiões. O mesmo aconteceu na pesquisa das pontes sobre o abismo e as belas entrevistadoras. Nesse caso, uma parte das reações fisiológicas provocadas pelo perigo do abismo foi confundida (“atribuídas”) com as reações ao contato com as entrevistadoras

Outro exemplo. Estudantes que se voluntariaram para uma pesquisa foram divididos em quatro grupos. Dois desses grupos receberam uma dose de uma  substância estimulante misturada em um suco que disfarçava o seu sabor e aparência. O terceiro e o quarto grupo ingeriram apenas o suco. Nenhum dos grupos sabia o que estava ingerindo. Em seguida, os dois grupos que receberam o estimulante foram submetidos a dois procedimentos diferentes: um grupo foi  submetido a um questionário irritante porque era levemente insultuoso (por exemplo, havia uma questão sobre quantos homens a mãe do participante já tinha transado e as todas as opções de resposta citavam quantidades imensas de parceiros). Os participantes do outro grupo, que também havia ingerido a droga estimulante, leram e avaliaram histórias hilariantes. Cada um dos outros dois grupos que só ingeriram o suco, mas não à substância estimulante, foi submetido a uma das tarefas executadas por um dos grupos que ingeriram a droga.

Os grupos que tomaram a substância estimulante apresentaram reações condizentes com os estados psicológicos induzidos pelas tarefas que executaram. Essas reações foram bem mais fortes do que aquelas exibidas pelos grupos que só tinham tomado substâncias psicologicamente neutras e participaram das mesmas tarefas. Ou seja, os estudantes interpretaram os efeitos que a droga produziu como causados pelos procedimentos levemente provocativos.

 

Confusões sobre as causas dos estados fisiológicos e psicológicos na vida diária

Na vida diária confundimos as causas de muitos estados fisiológicos e psicológicos. Vamos ver dois agora alguns exemplos que ilustram isso.

Quando o sexo pega carona na excitação provocada por outros motivos

A teoria a atribuição ajuda a explicar porque algumas pessoas desenvolvem atração sexual por situações perigosas: banheiro de avião, vestiário de lojas, elevador, etc. Todas essas situações apresentam o perigo de ser pego e possíveis sanções sociais e legais. O perigo provoca uma síndrome fisiológica: aceleração do ritmo cardíaco, aumento na pressão sanguínea, aumento na adrenalina. Essas alterações bioquímicas e fisiológicas também aparecem durante o desejo e a excitação sexual. Aqueles que estão alterados por essas situações de perigo não sabem dizer quanto dessas alterações é provocada pelo perigo e quanto é provocada pela excitação sexual. Ou seja, essas pessoas capitalizam a excitação provocada pelo perigo e pela infração de normas sociais para fins sexuais.

Quando os sintomas da depressão são confundidos com os defeitos do parceiro

Recentemente assisti uma entrevista da Jane Fonda no programa da Oprah. A certa altura da entrevista, Jane fez uma declaração que mostra bem as dimensões que atribuições errôneas podem desempenhar na vida de uma pessoa: ela declarou que esteve deprimida no seu segundo casamento, mas como não sabia disso, atribuiu tudo de ruim que sentia ao relacionamento com o seu marido, o que contribuiu fortemente para o termino desse relacionamento.

Sono ou desânimo?

Tive um paciente que gostava muito de dormir. Quando não dormia bem, tudo na vida perdia o sentido para ele: todas as tarefas ficavam penosas, perdia o entusiasmo para tudo, todos os seus planos pareciam completamente destituídos de vida e ele ficava em uma espécie de limbo emocional. Muitas vezes, meia hora de sono após o almoço fazia um efeito mágico: ele recobrava o animo, as cores da sua vida voltavam e ele voltava a ser a pessoa bem humorada, empreendera e animada de sempre.

 

Você está confundindo os efeitos psicológicos e fisiológicos produzidos por diferentes causas em áreas importantes da sua vida? Pense nisso. O auxílio de um psicólogo pode ajudar você a fazer esse tipo de distinção e tomar as medidas corretas para sanar as causas do seu desconforto.

 

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Por Ailton Amélio às 12h18

19/01/2011

Personalização do relacionamento amoroso

Você simpatiza mais com o casamento tradicional, com o casamento padrão que vigora atualmente, com o casamento aberto ou com uma vida independente sem estar amarrado a ninguém? Nenhuma dessas opções? Você tem uma forma pessoal de ver os relacionamentos amorosos que não se enquadra direito em nenhum desses padrões? Esse é o assunto que vamos considerar nesse artigo.


Casamento tradicional

Há algumas décadas atrás, aqui no Brasil, havia um único modelo de casamento que era amplamente adotado: o casamento tradicional - monogâmico, indissolúvel, comunhão total de bens e papéis diferenciados para o marido e a mulher (ela geralmente ocupava uma posição que era socialmente menos valorizada e desenvolvia atividades e tarefas menos valorizadas do que ele)

Quem adotava outro modelo era reprovado. Por exemplo, quem coabitava sem estar casado no religioso e no civil recebia rótulos negativos (“amancebado”, “amasiado”, etc.), recebia sanções sociais  (por exemplo, não era convidado para “festas de família”) e legais (havia problemas com o direito aos bens do parceiro, no caso da sua morte, e os filhos “ilegítimos”, frutos dessa união, também eram prejudicados nesse tipo de partilha).

O preço a pagar por essa segurança também era alto: quem casava corria o risco de ficar preso para o resto da vida a um relacionamento altamente insatisfatório ou pagar o preço por se desviar dele. Quanto menos a pessoa se adaptava a ele, maior o risco de conseqüências negativas que eram socialmente impostas. Por exemplo, a sociedade podia isolar, prender e até validar a morte de uma traidora em “legítima defesa da honra”.

Esse modelo único era adequado para poucas pessoas. Vamos usar aqui uma analogia para entender melhor as origens dessa inadequação. Vamos supor que o tamanho médio dos sapatos para a nossa população seja 37. Caso obriguemos todo mundo a usar esse tamanho, ele ficará grande para muitos, pequeno para outros tantos e só servirá bem para um grupo restrito de pessoas.

Algo análogo acontece com o modelo único de relacionamento. Se todos tiverem que adotar o mesmo modelo, ele só servirá bem para poucos. A maioria ficará desconfortável adotando-o.


O movimento pendular dos padrões de comportamentos socialmente valorizados

Houve então uma revolução contra o rígido modelo tradicional descrito anteriormente. Em toda revolução desse tipo costumam acontecer exageros: muita gente vai para o outro extremo. Depois de um tempo, os extremos se enfraquecem e algo menos radical costuma vigorar.

A quebra de um padrão rígido, muitas vezes é seguida pela adoção de padrões que lhe são opostos. Por exemplo, quando uma geração é muito conservadora a seguinte pode agir de uma forma reativa: pode ser liberal demais; quando é muito formal, a seguinte pode ser informal demais - quando usa cabelo muito curto, a seguinte pode virar cabeluda, etc.

Como reação ao casamento tradicional, alguns grupos organizados tentaram abolir qualquer tipo de casamento ou regulação da relação. Essa foi a época dos ataques contra a instituição de qualquer forma de casamento, a defesa do amor livre e da alergia a qualquer tipo de compromisso.

Essa nova forma de pensar acabou ficando tão impositiva e restritiva quanto à anterior, à qual ela era um tipo de reação. Os novos extremistas tentaram coagir as pessoas a não assumirem compromissos, a não restringirem a sexualidade (por exemplo, muitas mulheres, após certa idade, têm vergonha de admitir que são virgens), a não se apaixonarem . Tudo que lembrava o modelo anterior era rotulado como “careta”, “quadrado” e “démodé”. Agora, ao invés de todos terem que usar o sapato 37, citado na analogia acima, todos têm que o usar o tamanho 54. Vai ficar muito grande para a grande maioria das pessoas.


A diversificação dos modelos de casamento

Estamos em vivendo numa época onde o pêndulo já não está mais em um dos extremos: atualmente coexistem vários modelos de relacionamento que são socialmente admitidos (união consensual, casamento tradicional, casamento no padrão moderno, opção pela solteirice, casais em casas separadas, casamentos abertos, etc.) e, a cada dia, inventam um novo. Por exemplo, há poucos dias atrás li em algum lugar que a moda agora era o casamento por um dia!

Agora não temos mais que usar o sapato 37 ou o 54: existem diversos números. Alguns desses números são mais raros e só encontrados em lojas especializadas. A existência dessas diversas opções deixa as pessoas muito mais confortáveis: cada uma pode assumir o modelo que fique mais próximo do tamanho do seu pé.


Personalização do relacionamento amoroso

A existência de diferentes números de sapato, embora seja altamente benéfica e seja um avanço inegável em relação ao tamanho único, também pode ser aperfeiçoada para atender melhor cada pessoa como, por exemplo, aquela que calça 37,5.

A personalização do relacionamento amoroso implica na formatação de cada relacionamento segundo as próprias convicções, características, necessidades e objetivos. Isso traz a insegurança que é inerente à liberdade de optar e o trabalho de selecionar parceiros que queiram adotar o mesmo modelo.

Para construir um modelo personalizado de relacionamento é necessário conhecer a si próprio para saber quais são as suas necessidades, motivações e limites nessa área. Também é necessário conhecer alguém cujo modelo personalizado seja próximo ou compatível com o seu.

O período de experimentação terá que ser mais prolongado. Além disso, cada um tem que estar pronto para deixar um relacionamento assim que verificar que a sua avaliação inicial não era correta e que, por isso, ele não vai atender às expectativas.

Seria muito trabalhoso e até mesmo inviável construir modelos totalmente personalizados. Além disso, a nossa biologia e cultura determinam diversas necessidades e motivações que compartilhamos. Esse compartilhamento permite determinar algumas características básicas que servirão para quase todo mundo ou pelo menos, para grupos de pessoas.

O mais provável é daqui a algum tempo existirão alguns padrões relativamente bem definidos de relacionamento amoroso e que cada pessoa adote aquele com o qual ela tenha mais afinidades como uma espécie de estrutura inacabada e o adapte para as suas necessidades pessoais (seria uma espécie de tipo de relacionamento “prêt-à-porter com a possibilidade de ajustes bem grandes”). O mais importante é criar uma sociedade tolerante, que aceite os formatos de relacionamento que não façam mal ao indivíduo, ao parceiro e a terceiros.

Essas idéias poderao ser aplicadas para todas as fases do relacionamento amoroso. Por exemplo, durante a fase do namoro você poderá adotar um modelo próximo do seu ideal e personalizá-lo para atender as suas carcterísticas pessoais

Qual tipo de relacionamento amoroso que você prefere?

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Por Ailton Amélio às 15h49

12/01/2011

Traição

O principal ingrediente da traição é o engano do parceiro na área romântica e/ou sexual. Este engano pode acontecer de diversas formas: ocultar atos amorosos  (por exemplo, marcar encontros com uma possível parceira sexual em locais não freqüentados por conhecidos), omitir informações comprometedoras (por exemplo, deixar de relatar para a esposa as conversas que teve com uma colega com quem está paquerando) e elaboração ativa da mentira (por exemplo, dizer para a esposa que foi a uma reunião de negócios quando, de fato, foi ao motel com uma amante) (ver um capítulo sobre esse tema no meu livro “Relacionamento Amoroso”, Publifolha).

O conceito de traição também sofre influências sociais. Por exemplo, na nossa sociedade quase ninguém considera traição assistir filmes, peças teatrais e novelas e deleitar-se com a beleza dos atores e com os atos românticos e libidinosos que eles praticam enquanto atuam. Pelo contrário, geralmente estes espetáculos são assistidos em público e na companhia do parceiro! Até mesmo a prática sexual com outros parceiros não necessariamente caracteriza uma traição. Por exemplo, quando ambos os parceiros concordam em ter um “casamento aberto”, onde ambos poderão ter outros parceiros sexuais e românticos, ou quando ambos aderem à troca de casais ou ao sexo grupal, não há traição: nenhum parceiro está enganando o outro.

Sentir atração por outras pessoas é inevitável e não é traição

Sentir atração e começar a ter pensamentos que incluem o desejo e o romantismo por outras pessoas, além do parceiro, não é necessariamente traição. Estes sentimentos e pensamentos são evocados automaticamente pela presença de pessoas bonitas, charmosas, que possuam sex-appeal e, por isso, é impossível impedi-los. A traição começa a acontecer quando quem sente esses tipos de atração não tenta controlá-los e, pelo contrário, alimenta-os, permitindo que eles se desenvolvam. A traição começa a ganhar corpo quando quem sente esses tipos de atração começa a agir de modo a verificar se eles são retribuídos pela outra pessoa ou tenta criar ou amplificar tais interesses por parte dessa pessoa.

Porque ocorre a traição

Vamos examinar aqui alguns dos principais motivos pelos quais ocorre a traição.

·         Predisposição moderada para a poligamia.

Existem evidências de que a nossa espécie tem propensão para a poligamia, principalmente para a poliginia (um homem e várias mulheres) e um pouco menos para a poliandria (uma mulher e vários homens). 

·    Atração pelo novo

A novidade

A explicação mais simples para os motivos da traição é que paquerar, seduzir e transar com um novo parceiro é gostoso, excitante e bom para a auto-estima.

·    Atração pelo proibido

A sensação de fazer algo proibido e perigoso serve como estimulante do desejo para certos tipos de pessoa. Este efeito já foi descrito como “o fruto proibido é mais gostoso” e recebeu o nome de “Efeito Romeu e Julieta” (estes dois personagens não podiam se apaixonar porque suas famílias eram inimigas).

·    Oportunidade de traição

Quando situação é motivadora, permissiva, e oferece boas tentações aumenta a chance de traições. Por exemplo,  acontecem muitas traições quando as pessoas estão fora do local onde são conhecidas e que freqüentam rotineiramente (quando estão em outra cidade, por exemplo) e onde existem oportunidades de contato (congressos, convenções). A convivência continuada também aumenta a chance de traição. Um estudo que realizei em quatro cidades mostrou que  uma grande quantidade de namoros começa entre pessoas que já se conheciam (37%) ou que foram apresentadas (32%).

·    Motivos não relacionados diretamente com a área romântica e sexual

A traição pode ser motivada por fatores não relacionados com a atração romântica ou o desejo sexual. Por exemplo, muita gente trai por não conseguir dizer não, vingança (pagar da mesma moeda), benefícios (transou para obter benefícios), melhorar a auto-estima, curiosidade e influencia de conhecidos (uma época, na Europa era moda ter amantes).

Existem menos casos de traição do que se imagina

Quem lê as estatísticas sobre as incidências de traição fica alarmado: parece que todo mundo já foi traído, está sendo traído ou será traído. Estas estatísticas, no entanto, são mal interpretadas. O maior erro dessas interpretações é que geralmente essas estatísticas apresentam as quantidades de traição que aconteceram durante a vida dos pesquisados e quem lê estes números conclui sobre as quantidades de traições em andamento em um dado momento! Vamos examinar um pouquinho mais este equívoco. Uma das estatísticas mais confiáveis sobre a sexualidade foi relatada no livro Sex in América. Segundo esta pesquisa, apenas 3% dos americanos entre 19 e 59 anos tiveram mais que um parceiro no último ano. Ou seja, pouca gente traiu no espaço de um ano. As estatísticas alarmantes, citadas anteriormente, perguntam outra coisa: “Você já traiu durante a vida?” Ai as percentagens são bem maiores.

Este último tipo de pesquisa inclui entre os traidores, por exemplo, uma pessoa que tenha se mantido fiel por quarenta anos e trezentos e sessenta e quatro dias e tenha traído uma única vez! Não acho isto justo. De fato, tal pessoa foi fidelíssima a vida toda e só cometeu um deslize. É surpreendente como ela resistiu à tentação por tantos dias da sua vida apesar de ter se encontrado e convivido com tantas pessoas atraentes e de ter tido tanto desejo por elas.

Uma pesquisa realizadas por Graham Spanier, da Universidade Estadual de Nova York, em Stony Brook, e Randie Margolis, da Escola de Medicina de Harvard, ambas dos Estados Unidos, verificou que 26% dos homens e 5% das mulheres traíram com três ou mais parceiros na vida. Já 64% das mulheres e 43% dos homens traíram com um único parceiro. Ou seja, a grande maioria das pessoas que já traiu fez isso com menos de três parceiros. Um possível motivo para a não reincidência é que muitos daqueles que traíram sentiram-se tão mal que não repetiram a dose.

Kit para tentar reparar danos causados pela traição

No meu consultório, tenho verificado que algumas medidas podem ajudar a manter e recuperar um relacionamento pós uma traição. As principais destas medidas são as seguintes.

·         Tomar medidas explícitas que indiquem que a traição cessou. Por exemplo, apresentar e-mails que indiquem o fim definitivo do caso.

·         Assegurar ao traído que a traição foi apenas um deslize e que não teve maiores significados. Esta medida é sintetizada pela frase afirmação clássica apresentada por muitos homens quando são flagrados: “Foi só sexo”. Por exemplo, o marido traidor assegura para a sua mulher que jamais pensou em desenvolver um relacionamento com a amante. Isto alivia o peso da traição porque a grande preocupação das mulheres é o envolvimento afetivo com do parceiro com a rival. É claro que esta medida só pode ser tomada quando for verdadeira.

·         Aceitar as desconfianças por parte de quem foi traído. É natural que aquele que foi traído perca a confiança no traidor durante um bom tempo. Este não deve se irritar com isso. 

·         Facilitar as necessidades de verificação por parte do traído. Por exemplo, convidá-lo a fazer visitas surpresas; informar sempre onde está e com quem está.

·         Manifestar amor pelo traído. Aumentar as demonstrações românticas e carinhosas.

·         Mostrar comprometimento. Por exemplo, fazer planos, planejar uma viagem, incluir o parceiro em um empreendimento duradouro e importante.

No início a traição produz resultados maravilhosos: excitação, melhoria da auto-estima, romance. Depois o preço que ela cobra é alto: produz danos irreparáveis para o relacionamento, para quem é traído e para o traidor. Este, por exemplo, passa a mentir, renuncia à sua dignidade e desenvolve uma vida falsa e paralela. 

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Por Ailton Amélio às 17h59

05/01/2011

Mentiras socialmente promovidas e clássicas

Uma definição da mentira geralmente aceita pelos seus estudiosos é a seguinte: “A mentira é a comunicação de algo que o mentiroso sabe que não é verdade”. Não importa se o que está sendo comunicado é verdadeiro ou falso, mas sim a descrença de quem comunica naquilo que está comunicando.

Existem pelo menos quatro maneiras de falsear a verdade:

- Omitir  (agir como se nada estivesse acontecendo)

- Acentuar. Por exemplo, cumprimentar alguém mais efusivamente do que faria se agisse verdadeiramente.

- Atenuar: por exemplo, segurar boa parte da irritação e indignação que sentiu pelo chefe quando ele escalou você para trabalhar entre o Natal e o dia de ano.

- Simular: simular alegria com a promoção de um colega que foi promovido sem merecer e de quem você não gosta.

Vamos abordar aqui dois tipos de mentira: (1) aquela que é socialmente tolerada e promovida e que impregna quase todos os nossos atos: as pequenas simulações e dissimulações que permeiam quase todas as nossas ações e (2) mentiras clássicas: aquela mais óbvia, mencionada na definição acima, que ocorre quando acreditamos em uma coisa e comunicamos outra.

Mentiras socialmente toleradas e promovidas

É intrigante como quase nunca nos mostramos como realmente somos para as outras pessoas. Por exemplo, a nossa aparência é cuidadosamente alterada para melhorar vários dos nossos atributos: podemos alterar os sinais de idade, o peso, a altura e as imperfeições corporais. Calculamos cuidadosamente aquilo que comunicamos através da comunicação não verbal e da comunicação verbal para projetar uma imagem pessoal melhorada, para não causar desconfortos no interlocutor e para produzir efeitos que desejamos.

Queremos ser bem avaliados. Por isso, procuramos melhorar um pouco a forma como somos. Omitimos ou atenuamos os nossos déficits, ostentamos e ampliamos os nossos méritos. Por exemplo, quando vamos procurar um emprego ou participamos de uma campanha eleitoral, planejamos cuidadosamente o nosso vestuário, a forma como nos portamos, o que dizemos e o que omitimos. Tudo isso para “melhorar” a forma como somos avaliados e “criar uma boa impressão”. Isso sem contar, é claro,  com aquelas mentiras deslavadas que são apresentadas principalmente por alguns políticos, tais como afirmações falsas e promessas que ele tem plena consciência que jamais cumprirá!

Erving Goffman, no seu livro clássico “Representação do Eu na Vida Cotidiana” (Editora Vozes), compara a vida social com o teatro: procuramos mostrar para as outras pessoas que estão na plateia um espetáculo o mais atraente possível e escondemos nos bastidores todas as tranqueiras. Raras pessoas têm acesso a esses bastidores. Quando convivemos com alguém por muito tempo e em muitas situações fica muito difícil não deixá-la dar uma olhada em vários cômodos desses bastidores.

A identificação da mentira clássica

A mentira pode ser identifica através de tecnologias como o polígrafo (“detector de mentiras”), através dos comportamentos e através de contradições entre o que a pessoa diz e fatos que ela produziu ou tem conhecimento.

O polígrafo mede alterações fisiológicas que geralmente acontecem quando as pessoas mentem: alterações em ondas cerebrais, ritmo cardíaco, pressão sanguínea, resistência da pele à passagem de corrente elétrica.

A mentira também pode ser detectada, dentro de uma margem de erro, através daquilo que a pessoa diz, pela sua comunicação não verbal e pelo conjunto desses dois tipos de comunicação.

Conteúdo das afirmações.

- Contradição. Existem três tipos de contradição: (1) com os fatos (2) com as declarações de outras pessoas e (3) com o que a própria pessoa disse antes. Por exemplo, a polícia costuma interrogar o suspeito por muito tempo sobre um acontecimento. Depois refaz o interrogatório. Quando a pessoa inventou muita coisa no primeiro interrogatório é muito difícil que ela relembre de tudo que falou anteriormente quando é reinterrogada.. Ai ela cai em contradição. Outro tipo de contradição é aquele que acontece entre aquilo que a pessoa diz e fatos que são sabidos. Por exemplo, o suspeito diz que estava trabalhando na hora do crime, mas os colegas testemunham que ele estava ausente nesse horário.

- Gastar tempo demais pensando para responder quando deveria ter a resposta pronta. Quando a pessoa gasta tempo pensando em algo que ela deveria saber, então este é outro sinal de mentira. Por exemplo, se perguntarem onde você estava ontem à tarde, é esperado que você não tenha que pensar muito para responder.

- Oferecimento de detalhes desnecessários. Quem mente pode fornecer detalhes desnecessário do que está relatando como um artifício para demonstrar que aquilo que está dizendo é verdade.

Os sinais de mentira (sinais produzidos pelo medo de ser pego) e os vazamentos (sinais que indicam qual seria a verdade) geralmente são mais facilmente identificados através da paralinguagem (pode ser definida aqui, grosso modo, como a forma como a pessoa diz algo) e das expressões faciais. Segundo alguns estudiosos dessa área, a identificação da mentira através da paralinguagem e das expressões faciais, quando executadas por pessoas treinadas nesses tipos de comunicações, atingem maiores índices de acerto do que através do uso do polígrafo.

Alguns sinais não verbais de mentira são os seguintes:

- A voz se torna mais fina e menos modulada

- A gesticulação que acompanha a fala é mais reduzida do que quando está dizendo a verdade

- Olhar mais ou olhar menos nos olhos do que quando está falando a verdade (os “maquiavélicos” olham mais nos olhos quando mentem. As pessoas comuns olham menos).

- A face pode mostrar dois tipos de pista que indicam a mentira: (1 sinais de medo de ser pego (2) vazamentos da verdade (sinais das emoções genuínas que a pessoa está tentando esconder), quando se trata de emoções.

Sinais de traição

 No meu consultório um dos tipos de mentira que mais ajudo a identificar é a referente à traição amorosa.

A identificação desse tipo de mentira envolve o exame de diversos tipos de pistas. Algumas delas são as seguintes:

Comportamentais

            Por exemplo,

- Deixar de mencionar ou mencionar demais alguém conhecido

- Ouvir o parceiro usando voz de flerte no telefone

- Alterações na afetividade. Por exemplo, ficar menos carinhoso do que o usual.

- Alterações na sexualidade. Por exemplo, diminuir significativamente o desejo sexual.

Rastros

Quem trai geralmente deixa rastros. Alguns desses rastros são os seguintes:

- Bilhetes recebidos

- Odores diferentes na roupa

- Contas de restaurantes e motéis

Horas desaparecidas

Mudanças nos horários que fica fora de casa.

A mentira é inevitável

É possível viver sem mentir? Certamente isso não é possível. Os filmes O Mentiroso (estrelado por Jim Carrey) e Um dia um Gato (filme checo, de 1963, dirigido por Vojtech Jasny) mostram o que acontece nos relacionamentos quando as pessoas expressam tudo o que sentem e pensam: um desastre total.

Por outro lado, quem não expressa o que se passa consigo com um grau mínimo de veracidade não vive, mas apenas representa, e pode ter sérios prejuízos para a sua saúde física e psicológica. Por exemplo, as pessoas que não são assertivas (não agem e não expressam aquilo que sentem e pensam) têm baixa autoestima, maior propensão para a depressão e uma forte sensação de não estar conectado à vida.

Vale a pena ser mais verdadeiro e mentir menos.

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ailtonamelio@uol.com.br

Por Ailton Amélio às 11h16

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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