Blog do Ailton Amélio

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25/02/2011

Vídeo: Caminhos e estratégias de flerte

Por Ailton Amélio às 10h17

23/02/2011

É fácil marcar um encontro: convites diretos para um relacionamento amoroso

[O vídeo acima completa este artigo: "Video: caminhos e estratégias de flerte"]

Porque “enrolamos” tanto antes de apresentar uma proposta amorosa? Porque não dizemos logo que gostamos da pessoa, que ela nos atrai e que gostaríamos de ter um determinado tipo de relacionamento amoroso com ela?

O convite direto é aquele que é apresentado sem muitos rodeios. Este tipo de convite pode ser utilizado tanto entre pessoas conhecidas como entre pessoas desconhecidas.

Vamos examinar agora uma pesquisa que indica que os convites diretos para um encontro amoroso com um desconhecido podem ser bem sucedidos.

O grau de sucesso desse tipo de convite foi pesquisado pelos professores Russell D. Clark III e Elaine Hatfield1, no campus da Universidade Estadual da Flórida, em 1978. Nesta pesquisa, nove estudantes universitários (5 mulheres e 4 homens) apresentavam convites para colegas desconhecidos que encontravam no campus desta universidade. Estes 9 estudantes tinham aproximadamente 22 anos de idade, estavam vestidos de informalmente e com elegância, e tinham um nível médio de beleza.

Estes 9 estudantes foram instruídos para só abordar colegas atraentes, com os quais estariam inclinados a transar, caso houvessem condições apropriadas. Estes 9 estudantes abordaram um total de 96 colegas do sexo oposto (48 mulheres e 48 homens).

Ao abordar os colegas, os estudantes, faziam uma breve introdução ("Já notei você anteriormente aqui no campus. Acho você muito atraente”) e apresentavam um dentre três convites para o colega abordado. O tipo de convite apresentado em cada abordagem era sorteado de antemão. Estes três convites eram os seguintes: (1) convite para um encontro, (2) convite para ir ao apartamento do convidador e (3) convite para dormirem juntos.

Todos os encontros eram para acontecer na mesma noite do dia que eles eram apresentados.

Esta pesquisa foi refeita nesta mesma Universidade, em 1982,  de acordo com este mesmo procedimento. Os resultados destas duas pesquisas foram muito semelhantes entre si e, por isso, unifiquei-os para fins da apresentação neste artigo.

Percentagens de aceitação dos convites

As percentagens de aceitação para esses convites foram as seguintes:

Homem convida mulher desconhecida para

- Encontro: 53% das mulheres aceitaram o convite

- Ir ao seu apartamento: 3% das mulheres aceitaram o convite

- Dormir juntos: 0% das mulheres aceitaram o convite

Mulher convida homem para:

- Encontro: 50% dos homens aceitaram o convite

- Ir ao seu apartamento: 63% dos homens aceitaram o convite

- Dormir juntos: 75% dos homens aceitaram o convite

Estas percentagens mostram, de uma forma muito clara, o alto grau de sucesso que as mulheres tiveram quando formulavam os três tipos de convites. As percentagens médias de aceitação dos seus convites variaram de 50% (convite para um encontro) a 75% (convite para dormirem juntos).

Os homens, por outro lado, só foram bem-sucedidos quando convidaram mulheres para um encontro (53% de aceitação). As percentagens de aceitação dos outros tipos de convites masculinos foram muito pequenas (3% para ir ao apartamento) ou  nulas (0% para dormirem juntos).

Os níveis de sucesso de homens e mulheres só foram semelhantes quando o convite era para um encontro: 53% dos homens e 50% das mulheres convidados aceitaram esse tipo de convite.

Só fica só quem não convida

É surpreendente constatar que um convite direto para um encontro com uma pessoa desconhecida tenha sido aceito por cerca de 50% dos homens e mulheres convidados. Esta grande percentagem de aceitação de convites diretos para um encontro indica que ele é muito eficaz para iniciar relacionamentos amorosos. Caso estas percentagens de aceitação também aconteçam em outros locais e situações, além do campus de uma universidade, seria muito fácil arranjar parceiros para encontros. Bastaria convidar desconhecidos compatíveis. De cada dois convites haveria, em média, uma aceitação.

Este sucesso fica mais evidente se lembrarmos que os parceiros que aceitaram os convites, nestas duas pesquisas, eram pessoas atraentes para aqueles que as convidaram. Infelizmente ainda não existem pesquisas que avaliem o sucesso destes três tipos de convite quando o convidado é conhecido.

Estas percentagens indicam também que as mulheres que desejam parceiros sexuais têm muita facilidade para consegui-los. Basta formular um convite indireto (“ir ao apartamento”) ou um convite direto (“dormir juntos”) para conseguir sexo com uma pessoa desconhecida. Essa conclusão vem sendo repetidamente confirmada pelos estudos que estou realizando aqui no Brasil. Outras pesquisas indicam, no entanto, que raramente as mulheres estão interessadas em um encontro sexual com uma pessoa desconhecida.

Os homens têm muita dificuldade para conseguir sexo casual com uma parceira desconhecida. Segundo Clark e Hatfield, as mulheres norte-americanas, além de rejeitarem os convites para essa finalidade, se sentiam ofendidas e ficavam muito zangadas com aqueles que apresentavam esse tipo de convite. Tudo indica que as reações negativas a esse tipo de convite também acontecem aqui no Brasil. Por exemplo, perguntei para uma mulher que entrevistei como ela se sentiria caso recebesse um convite direto para fazer sexo. Esta entrevistada deu três respostas: 

            (1) “Pensaria que quem está formulando o convite é louco. (2) Ficaria pensando no que essa pessoa imagina que eu sou para me fazer este tipo de convite e (3) tentaria descobrir o que eu teria feito para dar margem a este tipo de convite.“

Os homens, por outro lado, quando recebiam um convite deste tipo, se sentiam lisonjeados. Clark e Hatfield relatam que mesmo aqueles homens que não aceitaram os convites para ir ao apartamento ou para sexo se mostraram envaidecidos e deram justificativas para não aceitá-los.

Essa diferença nas percentagens de aceitação de convites diretos para sexo por parte de homens e mulheres é muito bem explicada pela teoria psicobiológica. Segundo esta teoria, as mulheres têm menos interesse no sexo casual do que os homens porque, para elas, o custo de uma relação sexual pode ser muito maior do que para eles: elas podem engravidar e isto tem muitas conseqüências (gestação, riscos envolvidos no parto, criar o filho). Os homens, por outro lado, têm muito menos a perder com o sexo casual — “apenas uns míseros espermatozóides” —, mas muito a ganhar (descendência), na opinião de um estudioso desta área. Para as mulheres, o sexo é mais atraente quando existe envolvimento emocional com o parceiro.

Limitações deste estudo

Uma das razões pelas quais os convites apresentados no estudo de Clark e Hatfield diretos tiveram um alto grau de sucesso é que eles foram apresentados no campus de uma universidade. Os freqüentadores desses locais têm as seguintes características que facilitam a aceitação destes convites:

- A maioria das pessoas desses frequentadores não é seriamente comprometida (não são casadas, não têm filhos com o companheiro etc.).

- Nestes locais existem muitas pessoas compatíveis para fins de um relacionamento amoroso (pessoas da mesma faixa etária, mesmo nível de escolaridade, etc.)

- Existe um bom nível de confiança mútua, uma vez que aqueles que convidam e são convidados freqüentam a mesma universidade: o modo como se vestem, o fato de estar naquele local, o fato de estar carregando material escolar etc., tudo isso facilita este tipo de identificação.

Este alto índice de aceitação e o pequeno uso que as pessoas fazem deste caminho para iniciar um relacionamento amoroso sugerem que existem inconvenientes que restringem o seu uso. Vamos discutir agora alguns dos convenientes e inconvenientes da apresentação desse tipo de convite

Convenientes dos convites diretos.

Um convite direto é vantajoso quando:

- Uma recusa por parte de um convidado não é muito importante.

- O convidador prefere ouvir um “não” do que permanecer numa situação indefinida e desgastante por muito tempo.

- O convidador é muito assertivo e está seguro de que o convidado vai aceitá-lo.

Inconvenientes dos convites diretos.

Um convite direto é desvantajoso quando:

- O interesse do convidado está apenas começando a nascer. Neste caso, o convite direto “queima etapas” que podem ser necessárias para desenvolvimento do relacionamento amoroso.

- Infringe normas sociais. Em geral, convidar diretamente não é uma forma de iniciar relacionamentos amorosos socialmente aprovada.

- Risco de perda de um relacionamento que já existe. Muitas pessoas têm um relacionamento extra-amoroso (amizade, relações comerciais etc.) por quem também sentem atração amorosa. Neste caso, um convite recusado além de não iniciar o relacionamento amoroso também pode estragar o relacionamento extra-amoroso que já existia.

Prejuízos para a auto-estima. Ser rejeitado é sempre dolorido e ruim. Ser rejeitado diretamente pode ser muito destrutivo para aquelas pessoas que têm problemas de auto-estima. Certo grau de ambigüidade, tanto no convite como na resposta, ajuda a “salvar a cara” do convidador e do convidado e contribui para preservar a auto-estima de quem é rejeitado.

- Diminui a chance de conquistar o convidado no futuro. Esta diminuição acontece porque várias das estratégias utilizadas para cativar uma pessoa pressupõem que ela não esteja ciente do interesse amoroso por parte de quem as utiliza.

Você tem muito medo de revelar o seu interesse amoroso e ser rejeitado?

Outras  considerações sobre a pesquisa descrita neste artigo podem ser encontradas no meu livro "O Mapa do Amor". São Paulo: Editora Gente.

1Clark, R. D., & Hatfield, E. (1989). Gender differences in receptivity to sexual offers. Journal of Psychology and Human Sexuality, 2, 39 - 55.

 

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Por Ailton Amélio às 09h54

18/02/2011

Por Ailton Amélio às 21h44

16/02/2011

Conversas envolventes: o uso de informações gratuitas para encontrar assuntos

(VEJA O MEU VIDEO ACIMA SOBRE ESSE MESMO TEMA)

 

Por que será que a conversa com algumas pessoas flui, é envolvente e agradável e com outras, é travada, forçada e sofrida? Existem muitos motivos para isso. Um dos principais deles é o uso correto das informações gratuitas (Igs).

Uma informação gratuita é aquela que é fornecida sem que tenha sido solicitada.

Por exemplo, quando você pergunta para uma pessoa onde ela mora e ela, além de dar o endereço (informação solicitada), acrescenta que gosta muito do local onde mora e que toda a sua família mora no mesmo bairro, estas duas últimas informações foram apresentadas gratuitamente.

Certa vez um paciente revelou que o maior temor que ele tinha, quando ia conversar pela primeira vez com uma pessoa, era o do aparecimento de silêncios constrangedores que indicavam que a conversa estava começando a morrer. Ele afirmou também que ia tomar medidas para ter bons assuntos para conversar: iria começar a assistir novelas, tomar conhecimento dos ritmos musicais em voga e viajar bastante! Ai sim, afirmou, teria bons assuntos para conversar e a conversa fluiria!

Seguindo essa mesma linha, um jornal lançou uma propaganda que afirmava algo mais ou menos assim: “Falta assunto? Leia o .....[nome do jornal]”.

Claro que tomar essas medidas propostas pelo meu paciente e ler jornais pode propiciar assuntos mais interessantes para conversar. No entanto, o maior segredo de uma conversa pessoal interessante e envolvente é o uso adequado de informações gratuitas.

 

Motivos para fornecer informações gratuitas

Os três principais motivos para o fornecimento de informações gratuitas são os seguintes: (1) importância das informações para quem as fornece (2) influenciar as impressões que está causando no interlocutor (apresentação do eu) e (3) a existência de normas culturais que pressionam as pessoas para que elas sejam educadas e cooperativas em suas conversas. Uma maneira de agir dessa forma é fornecer informações gratuitas e aproveitar esse tipo de informação que ele é fornecido pelo interlocutor. Geralmente estes três motivos atuam em conjunto. Vamos examinar um pouco mais o primeiro desses motivos.

Importância das informações para quem as fornece. Uma vez é possível apresentar uma infinidade de tipos de informações gratuitas, é lícito supor que aquelas que são fornecidas por uma pessoa em uma dada circunstância devem ter algum significado especial para ela. Quem essas informações

poderia não tê-las fornecido. A pessoa poderia ter optado por não apresentar nenhuma informação ou fornecer informações sobre uma infinidade de outros temas. Porque ela resolveu apresentar exatamente aquela informação? O motivo mais provável é que ela tem motivação para falar daquele tema. Assim sendo, esse tipo de informação pode ser utilizado como um “gancho para puxar conversa”. Quando uma informação gratuita apresentada por um dos interlocutores é do interesse de ambos, é possível utilizá-la para desenvolver uma conversa que também seja motivadora para ambos.

Exemplos do uso de informações gratuitas para desenvolver uma conversa profissional

Vamos analisar alguns exemplos que ajudam a identificar e a utilizar as informações gratuitas. Em primeiro lugar, vamos examinar um diálogo entre uma cliente de uma loja, Maria, e um vendedor que não fornece informações gratuitas.

Como a falta de informações gratuitas transforma o diálogo em um interrogatório

Maria: Quanto custa esta camisa?        

Vendedor: Ela custa RS 160,00.

Maria: Ela é importada?

Vendedor: Sim.

Maria: Ela foi importada de que país?

Vendedor: Da Itália

Esse diálogo entre Maria e o vendedor está se transformando em uma espécie de interrogatório: Maria está no papel de interrogadora que apresenta perguntas fechadas e o vendedor está no papel de um interrogado que apresenta respostas mínimas. O não fornecimento de informações gratuitas por parte do vendedor dá a impressão que ele quer falar o mínimo possível e se limitar a fornecer as informações solicitadas. Falar o mínimo possível geralmente acontece quando uma pessoa não quer: (1) desenvolver o assunto que está sendo abordado, (2) dialogar com o interlocutor e (3) fornecer informações comprometedoras. No exemplo acima, qualquer que seja o motivo do vendedor, o efeito sobre Maria é o mesmo: ela vai ficar desmotivada para continuar a conversa e comprar a camisa.

Agora vamos imaginar outro diálogo entre Maria e o mesmo vendedor, no qual ele fornece informações gratuitas, que são aproveitadas por Maria para dar continuidade à conversa.

- Maria: Quanto custa esta camisa?

- Vendedor: Ela custa R$ 160,00. Ela é italiana.

- Maria: Ah! Esta camisa é italiana! O preço dela depende do valor do euro?

- Vendedor: Não. Estamos liquidando o estoque de roupas importadas. Agora só vamos trabalhar com produtos nacionais.

- Maria: Ah é? Vocês tem outras roupas importadas que também estejam sendo liquidadas? Você pode me mostrar?

Neste diálogo, o vendedor acrescentou várias informações gratuitas (em itálico), que foram utilizadas por Maria para continuar a conversa. Este diálogo mostra um vendedor hábil e motivado para fornecer informações gratuitas e uma cliente hábil para aproveitá-las.

É interessante notar que, ao responder à segunda pergunta, o vendedor acrescentou duas informações gratuitas: “Estamos liquidando o estoque de roupas importadas” e “Agora só vamos trabalhar com produtos nacionais”. Maria optou por utilizar apenas a primeira dessas informações gratuitas.  Este tipo de opção é muito comum nos diálogos reais. Quem recebe várias informações gratuitas geralmente mostra interesse por aquelas que lhe dizem respeito.

Muitas vezes, quem recebe informações gratuitas não se interessa por nenhuma delas. Neste caso, o receptor pode simplesmente ignorá-las e continuar a procurar por outro tema de conversa que o motive. Obviamente existe um limite para a quantidade de vezes que uma pessoa pode ignorar as informações gratuitas que estão sendo oferecidas pelo seu interlocutor sem que isso reduza a motivação deste para dar continuidade à conversa.

É interessante notar também que uma informação gratuita pode ser aproveitada de diversas formas por parte de quem a recebe. Por exemplo, no diálogo acima, a informação gratuita “Ela é italiana” poderia ter tido os seguintes tipos de aproveitamentos por Maria:

“Importada de Itália?”

“Vocês mesmo que importam?”

“Esta camisa segue a moda Italiana ou foi fabricada de acordo com o gosto brasileiro?”

“Vocês só vendem produtos importados nesta loja?”

Esse último diálogo mostra como uma conversa profissional pode ser facilitada pelo fornecimento e aproveitamento de informações gratuitas.

As informações gratuitas também podem ser utilizadas para desenvolver e aprofundar o grau de intimidade entre duas pessoas e para criar vínculos afetivos entre elas. Para que as informações gratuitas produzam esses efeitos, elas devem revelar algo pessoal sobre quem as apresenta e quem as recebe deve encará-las com respeito e utilizá-las para dar continuidade ao diálogo.

Vamos ver um exemplo do uso da informação pessoal gratuita para desenvolver uma conversa amorosa.

Exemplo do uso de informações gratuitas para desenvolver uma conversa amorosa.

Eduardo e Vanessa acabaram de ser apresentados. Eles estão em uma festa que está sendo oferecida por Carlos, um amigo em comum dos dois. Este amigo apresentou-os dizendo apenas o nome de cada um, e afastou-se para atender outros convidados. Eduardo e Vanessa sentiram uma atração mútua imediata e ficaram muito interessados em se conhecerem melhor. Para facilitar a conversa e intensificar a intimidade, eles usam a técnica de informações gratuitas. Vamos examinar um trecho de seus diálogos para ver como eles estão fazendo isso.

- Eduardo: Bela festa, não?

- Vanessa: Muito bonita. De onde você conhece o Carlos?

- Eduardo: Cursamos juntos uma parte da faculdade de Sociologia. Começamos na mesma turma, mas eu me formei um ano depois (fornece IG).

- Vanessa: Ah! Acho muito interessante a Sociologia (fornece IG). Então você demorou mais tempo para se formar (usa a IG de Eduardo).

- Eduardo: Sim eu comecei a trabalhar durante a faculdade e por isso tive que parcelar o curso (fornece IG). Qual é o seu interesse em Sociologia? (usa a IG de Vanessa)

- Vanessa: Eu sou uma socióloga frustrada (fornece IG). No que você começou a trabalhar? (usa IG de Eduardo)

O tema desta conversa é pessoal. Eles estão descobrindo que têm algo em comum - a sociologia -  e, na medida em que vão revelando informações pessoais e que elas  vão sendo bem recebidas e usadas pelo interlocutor para continuar o diálogo, eles se sentem aceitos e “entrosados”. Estão  começando a estabelecer um vínculo afetivo entre si.

 

Oferecer e usar informações gratuitas oferecidas pelo interlocutor são os melhores recursos para desenvolver uma conversa interessante, envolvente e fluente. 

 

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Por Ailton Amélio às 11h12

09/02/2011

Sexo casual: diferentes propensões de homens e mulheres

Suponha que um pessoa desconhecida, do sexo oposto, se aproxime de você e peça um minuto da sua atenção. Esta pessoa é medianamente atraente, tem aproximadamente a sua idade e, pela sua aparência, pelo seu jeito de falar e pelo local onde vocês se encontram, dá a impressão de ser do mesmo nível socioeconômico que o seu. Após uma breve introdução, esta pessoa convida você  para dormir com ela. Você aceitaria? Este e outros tipos de convites foram objetos de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos por Clark e Hattfield (1989)1 .                    

            Esses pesquisadores pediram para alguns dos seus alunos, rapazes e moças, que eram medianamente atraentes, que apresentassem convites para colegas desconhecidos do sexo oposto que passavam por determinados locais do campus. Havia três convites possíveis. Um destes convites era para um encontro naquela noite (“date”), o segundo convite era para ir ao apartamento do convidador naquela noite e o terceiro era para dormirem juntos naquela noite. Cada convidador abordava um colega desconhecido e, após uma breve introdução (“Eu já notei você outras vezes aqui no campus. Eu acho você muito atraente”) fazia um dos três convites acima. O convite que era apresentado em cada abordagem era sorteado de antemão. O convite para sair juntos naquela noite foi aceito por aproximadamente 50% dos convidados, independentemente de serem homens ou mulheres. O convite para ir ao apartamento do convidador foi aceito por aproximadamente 6% das mulheres e por 69% dos homens. O convite para dormirem juntos não foi aceito por nenhuma das mulheres mas foi aceito por 75% dos homens.

            Um problema da pesquisa acima é que os convidados poderiam suspeitar das verdadeiras intenções dos convidadores e temerem por possíveis conseqüências negativas caso aceitassem os convites. Uma outra pesquisa (Symons e Ellis, 1988)3 tentou contornar este problema pedindo aos participantes que imaginassem situações hipotéticas,  onde as possíveis conseqüências negativas da aceitação do sexo casual não existiriam. Nessas situações ideais, uma pequena percentagem de mulheres e uma grande pecentagem de homens declaravam que aceitariam o sexo casual. As maiores percentagens de aceitação verificadas nesta pesquisa (pessoas que responderam que aceitariam “com certeza” o sexo casual) foram de   41,1% para os homens e  8,2 % para as mulheres.

 

Sexo casual: um acontecimento muito raro na vida da maioria dos heterossexuais

            Se o sexo casual fosse algo freqüente ou corriqueiro seria esperado um grande número de parceiros na vida das pessoas, uma vez que este tipo de sexo redunda em uma grande variação de parceiros. As pesquisas de âmbito nacional, que tem sido realizadas em outros países, são unânimes em apontar que os heterossexuais geralmente possuem um pequena quantidade de parceiros durante a vida. Por exemplo, em 1992 foi divulgado os resultados de uma grande pesquisa sobre os hábitos sexuais dos ingleses (Johnson, e outros, 1992). Nesta pesquisa foram ouvidos 8.384 homens e 10.492 mulheres, representando todas as faixa etárias, estados civis, e classes sociais da Inglaterra. Esta pesquisa apontou que os homens inglêses tiveram, em média, 9,9 parceiras e as mulheres inglesas 3,4 parceiros durante a vida1 . Esta pesquisa apontou também que apenas 24% dos homens e 6,8% das mulheres  tiveram mais que 10 parceiros durante toda a vida. As quantidades de parceiros apontados nesta pesquisa inglêsa são bastante semelhantes a aqueles verificados em outras pesquisas de âmbito nacional realizadas nos Estados Unidos e na França (Einon, 1994).

Os poucos dados confiáveis que dispomos sobre os hábitos sexuais do brasileiro também não discrepam muito deste quadro apresentado pela pesquisa inglesa. Em um levantamento que realizei aqui na cidade de são Paulo, com aproximadamente quatrocentos estudantes universitários, cuja média de idade era de vinte e quatro anos, os homens relataram que já tiveram 6,6 parceiros sexuais e as mulheres, 3,2 parceiros sexuais durante a vida.

            Provavelmente a maior parte dos parceiros sexuais citados nas pesquisas acima não eram parceiros casuais, mas sim namorados, pessoas que moraram juntas, etc. O número médio de parceiros nos três países estrangeiros citados acima é pequeno. Quando se leva em conta que a maioria destes parceiros provavelmente não era casual, é possível concluir que a incidência de sexo casual é ínfima. Cabe lembrar que este número ínfimo ainda é diluído durante a vida das pessoas.

Ou seja, o sexo casual é um acontecimento raríssimo. Uma idéia aproximada da quantidade de parceiros daqueles que realmente praticam sexo casual foi fornecida por uma pesquisa realizada com homens gays de são Francisco, EUA, na década de setenta, antes da aids: esses gays relatavam, em média, cerca de 500 parceiros durante a vida.


Possíveis razões para as diferenças nas atitudes de homens e mulheres em relação ao sexo casual

Existem três principais inibidores do sexo casual:

- Compromisso de exclusividade

- Normas sociais e religiosas

- Propensões genéticas

            Compromisso de exclusividade. Vários tipos de relacionamentos amorosos incluem um trato de exclusividade afetiva e sexual. Isso acontece, por exemplo, no namoro, no noivado e na união consensual e no casamento padrão. Por outro lado, o “ficar”, o sexo casual e o casamento aberto, por exemplo, não prevêem esse tipo de exclusividade.

            Normas sociais e religiosas inibidoras. A explicação mais difundida atualmente sobre as diferenças na sexualidade de homens e mulheres  atribui estas diferenças aos diferentes tipos de educação que homens e mulheres recebem e às diferentes conseqüências que são impostas pela sociedade aos mesmos atos sexuais de homens e mulheres (duplo padrão). Não resta dúvida que estes dois fatores são responsáveis por uma boa parte destas diferenças entre homens e mulheres.

Propensões genéticas inibidoras. Tudo indica que também existem causas biológicas para as diferenças de disponibilidade de homens e mulheres para o sexo casual. A teoria mais conhecida que defende de fatores genéticos para estas diferenças é a teoria do investimento parental diferencial. Esta teoria afirma que na nossa história filogenética, as mulheres não podiam encarar o sexo da mesma forma que os homens, por uma razão simples: elas podiam engravidar (só recentemente foram inventados anticoncepcionais eficientes). A gravidez implica em um tremendo investimento de energia e certos riscos para a saúde que recaem exclusivamente sobre a mulher (gestação, parto, amamentação, etc.). A criação de filhos é outro encargo enorme para a espécie humana. Este encargo, no entanto, pode ser compartilhado com o homem, caso a mulher disponha de um companheiro. A probabilidade de ter um companheiro que compartilhe estes encargos era menor para aquelas mulheres que praticam o sexo casual. Aquelas mulheres que só aceitavam sexo com homens que tivessem apresentado indícios de que gostavam delas e vice-versa, foram premiadas com uma maior probabilidade de terem descendência, já que esta forma de proceder aumentava as suas chances de ter um companheiro para partilhar todos os encargos decorrentes de uma gravidez. 

            O saldo das conseqüências para os homens que praticavam amplamente o sexo casual era positivo. Tudo o que eles tinham a perder eram “uns míseros espermatozóides”, exagera um estudioso desta área. Mas eles tinham muito a ganhar: poderiam passar as suas características genéticas para a geração seguinte, caso o filho sobrevivesse sob cuidados exclusivos da mulher com quem ele teve o sexo casual. Assim sendo, eles poderiam fazer muitas tentativas neste sentido, dado o baixo custo, e ainda “sair no lucro”.

            Em resumo, embora haja exceções, homens e mulheres têm diferentes atitudes em relação ao sexo casual. As mulheres possuem diversas razões para rejeitá-lo e os homens possuem outras tantas razões para procurá-lo. Parte destas razões são baseadas em preconceitos contra a mulher e estão sendo alteradas com a evolução social. Outras destas razões aparentemente estão mais profundamente enraizadas na biologia humana e por isso serão mais resistentes às tentativas de mudança.

Como o sexo casual entre heterossexuais acontece entre homens e mulheres, têm que haver a anuência das duas partes para que ele aconteça. É claro que há uma pressão entre homens e mulheres para que ele aconteça nos moldes que interessa para cada um deles. Os dados acima indicam que ele é praticado mais de acordo com as necessidades femininas. Ou seja, raramente é praticado.

Este artigo é uma versão simplificada e atualizada de outro artigo que publiquei anteriormente na revista “Viver Psicologia”2

1Clark, R. D., & Hatfield, E. (1989). Gender differences in receptivity to sexual offers. Journal of Psychology and Human Sexuality, 2, 39 - 55.

2Silva, A. A. Sexo casual. Viver Psicologia, pp. 16-18, mar. 1986

3Symons, D. & Ellis, B. (1989). Human male-female differences in sexual desire. In A.E. Rasa, C. Vogel and E. Voland (Editores) The Sociobiology of Sexual and Reproductive Strategies. New York, Chapman and Hall Ltd.

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Por Ailton Amélio às 12h27

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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