Blog do Ailton Amélio

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28/03/2011

Os homens não querem nada sério?

O vídeo que postei na semana passada apresenta argumentos que negam a afirmação de que “há falta de homens no mercado”. Se não é esse o  motivo, por que, então, as mulheres têm essa sensação?

Neste artigo vamos detalhar três outros motivos dessa sensação: (1) existem dificuldades inerentes para assumir compromissos, (2) os homens escondem seus objetivos quando só querem um relacionamento superficial e (3) depois de uma certa idade, as mulheres que ainda não estão em um relacionamento que tenha um bom grau de envolvimento e comprometimento, ficam ansiosas para desenvolver um.


Dificuldades inerentes para assumir compromissos

Nos dias de hoje, onde os casamentos estão acontecendo cada vez mais tardiamente (após terminar a faculdade, fazer pós, se integrar ao mercado de trabalho, etc. etc.) os jovens adiam os compromissos no campo amoroso por motivos externos e compreensíveis. As pessoas de todas as idades também têm menos razões para assumir compromissos porque o casamento foi esvaziado: é possível ter acesso a quase tudo que antes só era possível após o casamento (sexo, companhia, consideração social, etc.) Então, para que casar?

A decisão para assumir um compromisso importante geralmente é difícil, exige muitas informações, maturação e causa apreensões. Por exemplo, quem tentou comprar um computador pela internet, já teve uma noção desse tipo de dificuldade. São muitas marcas, muitos modelos, muitas configurações. Se essa decisão envolve uma quantidade significativa de dinheiro para o comprador e ele não entende muito de computadores, ele pode ficar hesitante e, para tomá-la, sentir a necessidade de fóruns de debate na internet, visitar lojas para obter informações dos vendedores, ouvir a opinião de amigos, etc. antes de efetuar a compra.

Um relacionamento amoroso envolve decisões bem mais complexas e acarreta conseqüências bem mais sérias do que comprar um computador. Parte dessas consequencias é remediada pelo período de namoro, noivado, morar junto, etc. que são análogos ao prazo de sete dias que o consumidor tem para devolver o produto e pelo prazo de garantia dentro do qual o fornecedor terá que consertar os defeitos. Mesmo assim, quando compramos um produto que não satisfaz haverá dor de cabeça.

             Portanto, existem dificuldades inerentes para assumir compromissos importantes como para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos. Muitas dessas dificuldades são comuns para homens e mulheres. Algumas delas são mais intensas para um dos sexos. Vamos nos concentrar aqui nas dificuldades das mulheres porque são elas que reclamam mais e porque as suas dificuldades são mais diferenciadas, variando de acordo com a suas faixas etárias, guarda de filhos, etc.


Os homens escondem seus objetivos quando só querem relacionamentos superficiais.

Quando o relacionamento está começando, geralmente não são claros os objetivos mútuos dos parceiros ou mesmo se eles têm disponibilidade e disposição apenas para algo mais superficial (ficar, sexo casual, namoro leve) ou para algo mais profundo (namoro exclusivo, morar junto, casamento) e se eles consideram que o outro tem as qualificações iniciais que permitiriam uma progressão dos compromissos.

Essa dúvida acomete mais frequente e seriamente as mulheres. Isso por dois motivos:

Maior motivação masculina para relacionamentos superficiais

Os homens escondem, mais do que as mulheres, aquilo que pretendem em um relacionamento quando só querem algo mais superficial. Isso acontece porque eles pressentem que elas são menos propensas para esse tipo de relacionamentos. Caso revelem suas intenções logo no início do relacionamento, aumenta muito as chances delas não toparem. Mais que isso, muitas vezes eles próprios não tem muita consciência do que querem e isso só fica claro quando conseguem o que pretendiam.

Uma evidência muito forte desta maior propensão por parte dos homens para relacionamentos superficiais foi fornecida por um estudo sobre relacionamentos entre gays de São Francisco, antes da AIDs: os homens gays dessa região já haviam tido, em média, 500 parceiros sexuais na vida. As lésbicas da mesma região, menos que 10. O autor desse estudo afirma que essa diferença gigantesca acontece porque o sexo entre dois homens é muito mais fácil de ser iniciado do que entre um homem e uma mulher, porque elas “põem o pé no freio”. Esta propensão seria semelhante entre os heterossexuais. A diferença, neste caso, é que as mulheres colocam dificuldades para este tipo de “relacionamento superficial”.

Essas diferenças nas motivações para relacionamentos mais superficiais fazem com que as mulheres se vejam frequentemente em uma armadilha. Tanto eles como elas tentam arranjar um parceiro que tenha as melhores qualificações possíveis. No entanto, a diferença os sexos é que, muitas vezes, um homem que se acha hiperqualificado para um relacionamento profundo com uma determinada mulher acaba mostrando interesse por ela apenas porque quer sexo. A mulher fica encantada com o interesse que ele está mostrando por ela, por parte de alguém tão qualificado e, por isso, inicia um relacionamento com ele e se envolve afetiva e sexualmente. No entanto, ele some ou esfria o relacionamento após “ter o que queria” porque, daí para a frente, ela não preenche os requisitos para o tipo de relacionamento que se estabeleceria, caso ele continuasse a vê-la.

Neste caso, depois do sexo, eles não querem ficar com elas: querem ir embora rapidamente, dormem, não ligam no dia seguinte, não querem continuar os carinhos: a motivação para ficar com aquela mulher diminui abruptamente logo após o orgasmo. Voltará a procurá-la quando a privação sexual aumentar novamente, principalmente quando ele está seguro que ela “não vai pegar no pé”.

Existem evidências de que as mulheres atraem homens hiperqualificados para sexo casual: homens com os quais elas dificilmente conseguiriam casar-se, por exemplo. Os homens têm mais facilidade para conseguir mulheres hipoqualificadas para sexo casual: mulheres com as quais eles não se casariam.

Este é um dos principais motivos que levam as mulheres a concluir que os   “os homens não querem nada sério, não querem compromisso e só queriam usá-las”. Não é que os homens não querem compromisso. Eles não o querem com mulheres que só possuem atrativos suficientes para sexo, mas não para um compromisso mais amplo.

Nós homens quase nunca temos esse problema. É raríssimo ouvir um homem se queixando que uma mulher só quis usá-lo sexualmente e não ligou para ele no dia seguinte.


Ansiedade para iniciar relacionamentos amorosos

Certas pessoas, homens e mulheres, são ou estão muito ansiosas para iniciar relacionamentos amorosos.  Essa ansiedade pode ser causada por vários motivos como, por exemplo, pela carência afetiva, pela comparação com outras pessoas do seu grupo que já estão namorando, ou por motivos racionais tais como saber que o tempo para constituir família está curto.

Esta ansiedade geralmente prejudica o início e desenvolvimento desse tipo de relacionamento. Quem está ansioso, por exemplo, pode tentar agradar demais o parceiro, tentar obter um compromisso muito rapidamente ou rejeitar parceiros promissores, mas que não mostraram, desde logo, sinais que queriam um compromisso.

Vários desses motivos para a ansiedade incidem igualmente em homens e mulheres. A timidez para iniciar relacionamentos amorosos é um deles. Vamos abordar agora um desses motivos que afetam principalmente as mulheres.

Muitas mulheres que ainda não se casaram e já passaram dos 30 anos apresentam esse tipo de ansiedade de forma bem marcada. Talvez o principal motivo para elas apresentarem esse tipo de ansiedade nesta faixa etária é que elas têm uma noção mais clara de que as suas chances de engravidar vão diminuindo rapidamente. Isso acontece porque as chances de gravidez diminuem bastante à medida que a menopausa vai se aproximando. Depois dos quarenta já pode ser bem difícil engravidar

Nós homens somos psicologicamente beneficiados porque não temos menopausa, que é um marco bem nítido da impossibilidade de procriar, e pela ignorância: não é bem divulgado o ritmo da queda da fertilidade masculina que ocorre com o passar dos anos. Por isso, nós homens sentimos menos a pressão para nos casarmos até certa idade porque depois ficaria biologicamente mais difícil a procriação. Muitos de nós temos a impressão fantasiosa que podemos gerar filhos com facilidade até uma idade bem avançada e que o maior problema é a ereção.

             Um grupo de mulheres pode desenvolver um alto grau desse tipo de ansiedade. Escrevi um artigo onde mencionei as mulheres que apresentam esse tipo de ansiedade como o grupo do “É agora ou nunca”.


Outras dificuldades

Futuramente abordarei outras causas da sensação, feminina e/ou masculina, de que é difícil encontrar parceiros qualificados que queiram um relacionamento sério: (1) as mulheres são mais exigentes do que homens para relacionamentos superficiais. (2) As mulheres querem um homem que tenha certas qualificações socialmente valorizadas  que estejam em níveis iguais ou um pouco superiores aos delas (escolaridade, nível econômico, poder, etc); os homens querem mulheres que tenham qualificações socialmente valorizadas que estejam no mesmo nível ou em um nível um pouco inferior ao deles. Quanto maiores as exigências, menores as quantidades de pessoas que as atendem;  (3) “rarefação” dos parceiros compatíveis: à medida que as pessoas do grupo dos possíveis parceiros vão se casando, vai ficando cada vez mais difícil encontrar as  remanescentes no dia a dia e (4) na sepação geralmente são as mulheres que ficam com a guarda dos filhos. Isso pode dificultar o estabelecimento de um relacionamento amoroso com um novo parceiro.

Apesar dessas dificuldades e diferenças, o relacionamento amoroso é tão maravilhoso e pode trazer tantos prazeres e satisfações que não passamos sem ele!

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Olá, pessoal. 

Estou acompanhando atentamente e publicando todos os seus comentários. Este assunto, como esses comentários demonstram, provoca muitas polêmicas. Isso é natural e saudável! 

O que escrevi diz respeito apenas à maioria das pessoas. Claro que existem muitas exceções e situações especiais que não se enquadram nestas generalizações.

Daqui a alguns dias publicarei aqui uma reflexão sobre as valiosas opiniões de vocês.

Muito obrigado

Um grande abraço

Ailton

 

Por Ailton Amélio às 10h50

22/03/2011

Vídeo: Falta homem no mercado amoroso?

Por Ailton Amélio às 09h48

17/03/2011

Vídeo: Tipos de briga que destroem o relacionamento amoroso

Por Ailton Amélio às 14h40

15/03/2011

Tipos de briga que destroem o relacionamento amoroso

Nesse artigo vamos tratar das brigas entre casais. Essas brigas são comuns entre pessoas que convivem. Essas pessoas estão sujeitas a inúmeras fontes de tensão, tanto aquelas causadas por acontecimentos externos ao relacionamento como aquelas causadas por acontecimentos que envolvam o parceiro. Vamos tratar aqui principalmente das brigas verbais entre parceiros amorosos.

Os casamentos podem ser classificados de acordo com a forma como os cônjuges lidam com as suas divergências. Usando esse critério, John Gottman1 classificou os casamentos em três tipos: volátil, validante e evitativo. No volátil, os cônjuges brigam muito e estão mais preocupados em ganhar as disputas do que em ouvir o ponto de vista do outro. No validante, os cônjuges conversam calmante sobre suas divergências. Cada cônjuge ouve atentamente o argumento do outro, reconhece a sua validade quando isso é pertinente, e tenta negociar as suas divergências. No evitativo, os parceiros evitam atritos. Geralmente eles preferem se calar a entrar em uma discussão. Eles “concordam em discordar”.

Embora quem leia essa descrição possa identificar o validante como aquele tipo de casamento que tem a forma ideal de resolver as pendências, todos esses três tipos podem ser bem ou mal sucedidos. Portanto, brigar muito, discutir calmamente as divergências ou evitá-las não são bons preditores das chances de sucesso ou de fracasso de um relacionamento amoroso.

Alem disso, a capacidade de reconciliação e as formas eficientes de resolver pendências que não envolvam brigas também são determinantes poderosos da qualidade e estabilidade do relacionamento.

Mais importante do que brigar ou não brigar é a freqüência das brigas, as ocasiões onde elas acontecem e, principalmente, a maneira de brigar. Este artigo vai abordar principalmente este último fator.


A expressão de raiva pode ser benéfica para o relacionamento

Expressar raiva, embora muitas vezes seja desagradável para quem expressa e para quem ela é dirigida, pode ser benéfico.  Alterar o tom da voz, mostrar expressões faciais de insatisfação e raiva e até dizer alguns palavrões pode ser saudável para o expressor e ajudar os parceiros a respeitarem os seus limites mútuos.


Os quatros cavaleiros do apocalipse

Gottman identificou quatro tipos de conteúdos de brigas que, quando são frequentes ou continuados, indicam que o relacionamento pode estar se deteriorando e caminhando para o fim. Esses conteúdos seriam, portanto, arautos do fim do relacionamento e, por isso, foram denominados por esse autor como “Cavaleiros do Apocalipse”. Muitas vezes uma única apresentação de um desses conteúdos pode produzir feridas difíceis de cicatrizarem (“Aquelas palavras que nunca vou esquecer”).

Esses “Cavaleiros” são os seguintes:

- Criticismo: disparar uma saraivada de críticas ou reclamações. Essa forma de proceder funciona mais como um tipo de agressão do que como uma tentativa de solução de problemas. Fica muito difícil para quem ouve uma saraivada de críticas atender a todas elas. Para atendê-las seria necessária uma mudança radical na forma de agir e ser.

O criticismo funciona como uma espécie de rejeição em bloco do parceiro ou de vários dos seus comportamentos e características. Essa rejeição é o oposto da aceitação que deve reger um bom relacionamento entre pessoas que mantêm uma relação conjugal entre si e querem viver harmonicamente.

O criticismo é diferente da crítica. A crítica envolve uma reclamação clara sobre um comportamento específico do companheiro e a busca por soluções. A crítica, quando usada moderada e adequadamente é benéfica e necessária para o relacionamento. É através dela que os parceiros reconstituem as suas zonas de conforto e vão corrigindo a rota dos seus relacionamentos.

- Desrespeito: atacar a personalidade ou a moral do parceiro, mostrar desprezo por ele e atacar aquilo que ele preza (como os seus parentes, por exemplo) só para diminuí-lo ou feri-lo. Desprezar alguém ou rejeitar uma característica sua que é difícil de mudar é o pólo oposto da admiração que é um dos requisitos para apaixonamento e amizade. 

O desrespeito degrada o relacionamento e coloca aquele que é degradado em uma  que posição indesejável e insustentável.

Por trás do desrespeito geralmente está a convicção de que o parceiro tem algo de muito ruim. Naqueles relacionamentos que têm um fim tempestuoso frequentemente um ou ambos os parceiros acabam sendo vistos como uma espécie de demônio, como será  no tópico abaixo.

Defensividade. Assim que o parceiro começa a apresentar uma reclamação ou uma crítica, o seu interlocutor começa a pensar em como se defender ou contra-atacar (“acusação cruzada”) e deixa de considerar se a reclamação é justa e como poderia atendê-la. Por esse motivo, a defensividade blinda aquele que a utiliza das reclamações do parceiro e torna inúteis as suas reivindicações.

A acusação cruzada inviabiliza a possibilidade de mudança e a correção daquilo que está sendo criticado, uma vez que ela aponta que o reclamante também errou e, portanto, está tudo “zero a zero”.

Insensibilidade. Neste caso, o insensível  não se dá ao trabalho de ouvir as reclamações atentamente e de considerá-las ou respondê-las. Essa pessoa adota regra: “deixar entrar por um ouvido e sair pelo outro”. Quando isso acontece, quem apresenta as reclamações fica com a sensação que está falando para as paredes.


Demonização do parceiro

Muitas vezes o relacionamento já está tão deteriorado e a imagem mútua dos seus participantes já está tão degradada que estes começam a se verem como demônios: tudo o que um deles faz ou deixa de fazer é visto pelo outro sob o pior ângulo possível como, por exemplo, com suspeição e determinado por más intenções. Quando o relacionamento está neste estado, os parceiros consideram o outro como um ser maligno cheio de intenções negativas, manipulativo e perigoso. Embora visão possa eventualmente ter bases reais, na maioria das vezes ela é fruto da distorção produzida pela raiva acumulada, pelo ressentimento e por acontecimentos que feriram ou magoaram profundamente quem distorce.

Esse mecanismo é o oposto da idealização que ocorre quando os parceiros estão apaixonados: nesta última situacäo quem está apaixonado vê o parceiro melhor do que ele é (por exemplo, uma pesquisa verificou que os apaixonados vêm os seus parceiros como mais dotados de qualidades do que os próprios amigos o vêem. Diga-se de passagem, que os amigos já distorcem suas percepções em seu favor).


Ocasiões das brigas

Deve-se evitar iniciar discussões ou apresentar reclamações nas seguintes circunstâncias:

- Quando o parceiro está envolvido em algo que aprecia muito. Quem recusa uma conversa em um dado momento fica com a obrigação de propor outra ocasião para que ela ocorra. O parceiro que está envolvido na atividade que não quer interromper pode dizer, por exemplo: “Você pode esperar terminar o noticiário para que possamos conversar?”

- Durante atividades que o casal tem satisfação em realizar junto: jantar, ir ao teatro, caminhadas ao ar livre. Este tipo de atividade deve ser preservado da contaminação pelo clima negativo que acompanha muitas das discussões e reclamações.

- Na hora de dormir: a discussão geralmente produz excitação e faz com que os envolvidos fiquem remoendo o que disseram e ouviram e, por isso, perdem ou sono ou dormem mal.

- Quando um ou ambos parceiros estão estressados devido a outro acontecimento. Nessa ocasião, as chances da discussão não ser produtiva é mais provável devido ao estado de espírito desfavorável produzido pelos outros acontecimentos


Homens demoram mais para se recuperar emocionalmente de brigas

Um dos motivos que fazem os homens evitarem as discussões é que eles demoram mais tempo para se recuperar das alterações emocionais do que as mulheres. Para explicar essa diferença, alguns autores hipotetizaram que as mulheres são naturalmente preparadas para recuperarem-se mais rapidamente porque elas têm que aleitar os filhos e as alterações emocionais prejudicam a produção do leite. Por isso, elas desenvolveram mecanismos para se recuperarem mais rapidamente do que eles.


Mulheres iniciam mais discussões do que os homens

Já vi evidencias que indicam que as mulheres iniciam a grande maioria das discussões. Também existem indícios de que elas praticam mais agressões físicas do que eles. Por exemplo, em uma pesquisa realizada aqui no Brasil, as mulheres admitiram ter batido nos parceiros 5,7 vezes e os homens admitiram ter batido nas mulheres 3,9 vezes no ano que antecedeu a entrevista. As agressões delas, no entanto, eram muito mais leves do que as deles2.

As mulheres que pedem mais frequentemente a separação legal do que os homens. Aqui no Brasil, cerca de dois terços das separações legais são pedidos por elas.

Já ouvi o argumento que elas iniciam mais discussões e pedem mais frequentemente as separações porque, para elas, o mau relacionamento traz mais danos do que para eles: existem evidências de que o mau relacionamento produz mais problemas físicos e psicológicos para elas do que para eles. Faz sentido.

A experiência do meu consultório confirma essas informações. Geralmente são as mulheres que tomam a iniciativa de procurar a terapia de casal. Os homens muitas vezes aparecem por lá para tratar desse problema simplesmente porque foram pressionados por elas.

Discutir e brigar são acontecimentos normais na maioria dos relacionamentos. O conteúdo das brigas, as suas frequências, os momentos que elas ocorrem e a relação entre a quantidades de coisas boas e ruins que são proporcionadas pelo relacionamento é que determinam a sua qualidade e durabilidade.

1Gottman, J. (1998). Casamentos. (Traduzido do original em inglês por T. B. Santos). Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda.

2Diniz, Laura (2009) Pesquisa revela que mulheres reagem mais em brigas conjugais http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5849:pesquisa-revela-que-mulheres-reagem-mais-em-brigas-conjugais&catid=1:jogo-limpo-noticias&Itemid=167 (acessado em 07/03/2011).

 

(VEJA MAIS SOBRE ESSE TEMA NO MEU PRÓXIMO VÍDEO QUE SERÁ INCLUÍDO NESTE BLOG)

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Por Ailton Amélio às 11h07

08/03/2011

Amor de Carnaval

"Mas é carnaval/ Não me diga mais quem é você/Amanhã, tudo volta ao normal/Deixe a festa acabar/Deixe o barco correr[...]

Seja você quem for/Seja o que Deus quiser"

(Trecho da letra da música "Noite dos Mascarados"

Vânia Abreu)

O amor de carnaval, o amor de praia, o amor de viagem, o amor de congresso, etc. são amores para serem iniciados e consumados logo ali, naquele momento. Eles acontecem e, muitas vezes, terminam em situações que eu chamo de "velódromos": circunstâncias que apresentam condições favoráveis para iniciar um relacionamento amoroso superficial e nas quais não há tempo para maiores cuidados e, por isso, tudo tem que acontecer rapidamente!

A maioria desses amores tem pouca chance de durar. A pretensão, muitas vezes, nem é encontrar o amor para toda a vida, mas sim aproveitar a ocasião.

Creio também que esse tipo rápido de início de relacionamento amoroso sempre aconteceu na história da nossa espécie (talvez, não tão rápido assim, como nas "ficadas" e nos carnavais). Antigamente, quando éramos nômades, essa formação rápida de casais servia para que algumas pessoas trocassem de bando ou gerassem filhos, durante os rápidos contatos que aconteciam entre esses grupos durante suas perigrinações. Os festivais orgiásticos, descritos pelos antropólogos em muitas culturas e parente próximo do nosso carnaval, aparentemente atendia a essa última função. O amor a primeira vista também ajuda muito esse tipo de acontecimento, porque é muito motivador e altera as percepções dos envolvidos sobre aquilo que é razoável fazer. Essas práticas ajudavam a evitar a endogamia: o casamento e/ou a procriação entre aparentados.

Perguntei a casados como haviam conhecido os seus cônjuges. Uma percentagem muito grande respondeu que já tinha um relacionamento anterior com ele ou que havia sido apresentado a ele por um conhecido em comum. Aqueles namoros que são iniciados em “paqueródromos” (baladas, bares, footings, etc.) têm uma chance menor de evoluírem para um relacionamento duradouro e compromissado (namoro duradouro, morar junto, noivado, casamento). Um dos melhores estudos a este respeito apresentou evidências convincentes que isso também acontece nos EUA.1

O motivo principal dessa pouca duração é que o relacionamento amoroso desse tipo começa entre desconhecidos. Os critérios principais para escolher o parceiro são a aparência, os modos e o interesse recíproco. A existência ou não de outras características mútuas, que são importantes para um relacionamento duradouro, só são descobertas posteriormente, em outros encontros, quando chegam a acontecer.

Uma anedota ilustra bem essa situação:

Duas amigas foram a uma balada. Uma delas se entusiasmou com um rapaz e logo começaram a ficar. Poucos momentos depois foram para a mesa onde a outra amiga estava esperando. O casal só tinha olhos um para o outro e os carinhos rolavam solto. As amigas foram ao toalete, como sempre acontece nesta ocasião. A amiga “ficante” confidenciou todo o seu entusiasmo pelo parceiro. A outra comunicou, então, que estava indo embora, porque estava “sobrando” e sentindo-se deslocada. No dia seguinte as amigas se encontraram e a que tinha ido embora mais cedo perguntou para a outra: “E ai? Vai se encontrar de novo como o seu Príncipe?” A amiga que tinha ficado respondeu: “De jeito nenhum”. A outra, espantada, perguntou: “Por que não? Ontem você estava tão entusiasmada!” A ficante respondeu: “Porque depois que saímos de lá consegui ouvir o que ele dizia!”

Esse é um dos principais motivos porque os amores que nascem entre desconhecidos e que começam rapidamente têm menos chance de durarem. Outro motivo importante é que, muitas vezes, os amantes moram em locais distantes, o que dificulta a continuidade do relacionamento. Outro motivo ainda, é que nestas ocasiões, muitas vezes, um ou ambos envolvidos “deixam por menos”: aceitam ficar com alguém, que tem atrativos para esta finalidade, mas que não preenche os requisitos para um relacionamento mais duradouro. Acresça a esses motivos o fato de que aqueles relacionamentos onde o sexo acontece logo no primeiro encontro têm menos chance de se tornarem um namoro, segundo as evidencias apresentadas por outro estudo.

 

Mas quem estava querendo um relacionamento duradouro nestas circunstâncias? Muitas vezes o objetivo é aproveitar a ocasião e nada mais. Nada contra.

 Além disso, pode haver sorte e o parceiro realmente acabar sendo tudo aquilo que a fantasia e o álcool prometiam!

“Diga logo se gosta de mim. Seja você quem for, seja o que Deus quiser”...    

                         Michael, R. T., Gagnon, J. H., Laumann, D. O. and Kolata, G. (1995). Sex in America. New York, Warner Books.

 

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Por Ailton Amélio às 19h54

04/03/2011

Vídeo: como acontece a escolha de parceiros amorosos

Por Ailton Amélio às 09h55

02/03/2011

Homogamia: os semelhantes é que dão certo em um relacionamento amoroso

A escolha de parceiros amorosos não acontece casualmente nem é fruto da sorte, do compartilhamento de signos e do destino. Em boa parte, ela é regida por regras que a ciência está começando a entender.

Essa escolha tem uma importância fundamental. Muitas das características pessoais são difíceis de serem mudadas e podem afetar profundamente a qualidade e a estabilidade dos relacionamentos.

Os princípios que guiam a escolha de parceiros

Boa parte da escolha de parceiros para fins de casamento pode ser explicada através de quatro princípios: 

- Similaridade (homogamia): existe um alto grau de semelhança entre os pretendentes em cada um dos atributos relevantes para essa finalidade. Por exemplo, ambos concluíram um curso superior

- Complementaridade: grau de complementação entre as características dos pretendentes. Por exemplo, um é bom ouvinte e o outro é bom falante.

- Diferença: certos graus de diferença entre os parceiros em determinadas características são bem vindos. A diferença valorizada pode ser relativa ou absoluta. Exemplo de diferença relativa: a idade que é mais valorizada em um parceiro depende da idade de quem está fazendo a escolha. Exemplo de diferença absoluta: uma pessoa pode exigir que o parceiro tenha uma profissão diferente da sua.

- Médias algébricas ponderadas de defeitos e qualidades: as qualidades e defeitos têm diferentes importâncias. As pessoas, inconscientemente, tendem a fazer uma espécie de cálculo que leva em conta os atributos positivos e negativos de um possível parceiro, ponderados pelas suas respectivas importâncias. Esse cálculo fornece a uma espécie de valor médio do parceiro amoroso que está sendo avaliado que resume o seu grau de atração para o avaliador.

Vamos tratar aqui apenas do princípio da homogamia. O próximo vídeo que postarei aqui no blog trata dos outros princípios.

O Princípio da Homogamia

“Temos algo em comum.”

“Eles são farinha do mesmo saco.”

 (Frases populares)

Em grego, homo ou homeo significa semelhante e gamos significa casamento. Homogamia significa, portanto, casamento entre assemelhados.

O princípio da homogamia afirma que os relacionamentos amorosos têm mais chance de serem iniciados e de darem certo quando os parceiros são semelhantes entre si nas características que são relevantes para essa finalidade.

Este é o princípio de mais usado na seleção de parceiros amorosos. Vários estudos científicos vêm mostrando que, nos relacionamentos amorosos que dão certo (são iniciados mais facilmente, têm um grau maior de satisfação, duram mais etc.), os parceiros são semelhantes entre si em uma quantidade muito grande de características.

A prática generalizada da homogamia como guia da escolha de parceiros  é fácil de constatar: pense nas suas escolhas amorosas e nas escolhas amorosas das pessoas que você conhece. Dentre essas pessoas, quantas já tiveram ou têm um relacionamento duradouro com alguém que tinha ou tem:

- grande diferença de idade. Por exemplo, mais de quinze anos de diferença?

- nível econômico muito diferente. Por exemplo, a família de um dos parceiros tinha uma renda mensal de cerca de R$ 3 000,00 e a do outro acima dos R$ 50 000,00?

- grau de escolaridade muito diferente. Por exemplo, quando o relacionamento comecou, um só havia cursado quatro anos do fundamental e o outro já havia concluído faculdade.

- crenças políticas muito diferentes. Por exemplo, um era comunista ortodoxo e o outro um capitalista radical?

Ao tentar responder essas perguntas é bastante provável que você tenha constado que os parceiros da grande maioria dos seus conhecidos e os seus próprios parceiros eram semelhantes a cada um de vocês.

É relativamente raro encontrarmos casais onde um dos cônjuges é analfabeto e o outro universitário, um tem cerca de 18 anos e o outro cerca de 70 anos, um mede em torno de 2m de altura e o outro, em torno de 1,50m, um era milionário e o outro paupérrimo quando o relacionamento começou, etc. Esta raridade de parcerias tão discrepantes indica que na vida real a homogamia é o princípio mais adotado na seleção de parceiros amorosos.

            A história de André e Carol, que vamos relatar agora, é real e ilustra bem como o círculo de relações pressiona para que o parceiro seja similar aos seus membros.

Consequências sociais negativas do relacionamento amoroso com alguém de outro nível econômico

  André apresentou a sua nova namorada, Carol, para os amigos. No outro dia, quando André voltou a encontrá-los, sem a presença da namorada, recebeu pesadas críticas. Os amigos lhe disseram coisas do tipo:

“Esta moça não é para você. Ela está acostumada com as coisas boas da vida e você não vai ter dinheiro para fornecê-las para ela.”

“Você vai gastar todo o seu dinheiro para acompanhá-la aos restaurantes, boates e locais de férias e depois ela vai abandonar você.”

“Ela não é do nosso meio. Ela vai fazer você sofrer.”

“Ela só tem amigos que moram em mansões e que têm Mercedes e  BMWs. Estes caras não vão se entrosar com a gente.”

  André ficou bastante abalado com esta reação dos amigos. Afinal, a namorada havia sido tão simpática com eles. Surgiu a dúvida na sua cabeça: “Será que vou conseguir ser feliz com Carol?”

  Pouco tempo depois do começo do namoro, o casal começou a ter atritos frequentes relacionados com os hábitos caros de  Carol e a falta de dinheiro de André para acompanhá-la, e se separaram.

(Os nomes e alguns detalhes dessa história foram alterados para não permitir a identificação dos personagens)

 Semelhanças momentâneas

As semelhanças são tão importantes para aproximar as pessoas que, quando elas querem criar ou intensificar as afinidades entre si, se apressam em procurá-las (por exemplo, durante a conversa, procuram identificar se estudaram no mesmo colégio, se moraram nas mesmas cidades, se gostam das mesmas músicas), criá-las (princípio da convergência: usam mesmo vocabulário, vestuários semelhantes, adotam as mesmas posturas corporais, agem em sincronia , fazem as mesmas coisas - “isopraxias”: pedem mesmas bebidas e comidas, por exemplo), ressaltá-las (fazem grande alarde quando encontram semelhas entre si) e omitem as diferenças (quando constatam diferenças de opinião, por exemplo, desviam rapidamente de assunto).

Evidências sobre o uso do princípio da homogamia

            O princípio da homogamia vem sendo amplamente confirmado por muitas pesquisas científicas. Uma das melhores pesquisas a esse respeito foi realizada Michael e outros (1994)1. Participaram desta pesquisa pessoas que tinham os seguintes tipos de relacionamentos amorosos: casados; parceiros sexuais que coabitavam, mas não eram casados; parceiros sexuais há mais que um mês que não coabitavam e parceiros sexuais há menos que um mês que não coabitavam. Estas pessoas eram faziam parte de uma amostra representativa da população norte-americana.

Esta pesquisa mostrou que a maioria das pessoas destes quatro grupos era semelhante aos seus parceiros em quatro atributos: idade, nível educacional, raça/etnia, e religião. As percentagens de parceiros semelhantes entre si nestas quatro características variam entre 53% (religião dos parceiros que coabitavam, mas que não eram casados) e 93% (raça/etnia dos parceiros casados). Esta pesquisa mostrou que os norte-americanos preferem ter relacionamentos amorosos com parceiros que lhes sejam semelhantes pelo menos nestes quatro atributos.

            Outro achado interessante dessa pesquisa é a constatação do de que existia um grau parecido de semelhanças entre os parceiros nos quatro tipos de relacionamentos pesquisados. Este achado contraria a crença de que só exigimos uma “boa qualificação do parceiro” quando o relacionamento é “sério”.

Porque a homogamia é importante em um relacionamento amoroso

  A homogamia entre parceiros amorosos é importante devido a cinco razões principais:

- A homogamia aumenta as esperanças de que haverá reciprocidade na atração amorosa. Por exemplo, as pessoas com níveis semelhantes de escolaridade têm uma chance maior de serem correspondidas nos seus interesses amorosos do que pessoas muito diferentes nesta característica.

- A homogamia aumenta as chances do relacionamento amoroso dar certo. Por exemplo, vários estudos mostraram que os casamentos são mais satisfatórios e duram mais quando os parceiros são semelhantes entre si.

- A semelhança entre si evoca lembranças positivas de outras pessoas e acontecimentos que foram importantes na vida. Por exemplo, quando o meu parceiro é semelhante a mim na sua aparência e modos, ele provavelmente também será semelhante nestes atributos aos meus parentes. Estas semelhanças facilitam o estabelecimento da confiança e de ligações afetivas.

- No dia a dia, existe uma probabilidade maior de encontrar pessoas que nos são semelhantes, uma vez que existe uma chance maior delas freqüentarem os mesmos tipos de locais e atividades que freqüentamos.

Estes quatro princípios só explicam em parte a escolha de parceiros. para entender melhor como acontece essa escolha ainda é necessário levar em conta outros requisitos como a admiração, a atração sexual e a presença de características que induzam ao romantismo.

 

 Michael, R. T., Gagnon, J. H., Laumann, D. O. and Kolata, G. (1995). Sex in America. New York, Warner Books.

Leia mais sobre esse tema no meu livro "O Mapa do Amor", Editora Gente, 2001

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Por Ailton Amélio às 11h20

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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