Blog do Ailton Amélio

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30/05/2011

Poder, sexo e grandes bobagens

Os noticiários recentes vêm divulgando muitas notícias sobre homens poderosos que fizeram grandes bobagens na área sexual e que, por isso, puseram tudo que tinham a perder: foram acusados de cometer atos sexuais  de forma ou com parceiros desaprovadaos socialmente (orgias com prostitutas, sendo algumas delas menores de idade, promovidas pelo presidente da Itália, Silvio Berlusconi; o caso do ex-presidente Bill Clinton com Monica Lewinsky), assediar (ex-presidente de Israel Moshe Katsav e, na semana passada, Georges Tron, ministro do Serviço Civil Francês que acaba de renunciar ao cargo por esse motivo) e até mesmo estuprar mulheres. O caso rumoroso mais recente de acusação de estupro é o de Dominique Strauss-Khan que, até recentemente, era o todo poderoso diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e provável candidato à presidência da França. Dominique, segundo seus acusadores, estuprou uma camareira em um hotel de Nova York e foi preso enquanto embarcava para a França. As fotos do noticiário mostram um homem algemado e acabado no lugar daquele homem que, antes dessa bobagem, era todo confiante e poderoso.


Quase-cortejamento, cortejamento, sedução, sedução-interesseira, assédio sexual e estupro: manifestações e usos

As manifestações amorosas e sexuais são muito comuns em todos os lugares onde estão presentes possíveis parceiros. A circunstância mais comum onde essas manifestações acontecem, felizmente, é aquela onde os possíveis parceiros  são compatíveis entre si para esta finalidade (homens e mulheres, quando são heterossexuais, e pessoas do mesmo sexo, quando são homossexuais) e elas acontecem de ambos os lados ou, pelo menos, são consentidas por ambas as partes. Infelizmente, no entanto, as manifestações amorosas também acontecem quando só uma das partes está interessada na outra e a compatibilidade não é recíproca ou não há consentimento recíproco (isso aparece, por exemplo, no assédio e no estupro)

Vamos examinar neste artigo os principais tipos de manifestações sexuais e amorosas. Algumas delas perfeitamente normais e desejáveis e outras, beirando o patológico ou totalmente patológicas. Posteriormente, em um outro artigo, tentaremos entender as motivações desses diferentes tipos de manifestações.


Quase-cortejamento.

Talvez esta seja uma das manifestações mais comuns de interesse amoroso: apresentação da “prontidão para o cortejamento”, acentuação dos sinais de gênero e sinais diretos de flerte, sempre acompanhados de um sinal diferenciador que significa “os sinais que estou apresentando não são de verdade” (por exemplo, mencionar o marido frequentemente, ou usar um tipo de voz mais profissional do que amorosa). Leia mais sobre o quase cortejamento no meu artigo "Por que seu amor virou amizade", publicado neste blog.

Segundo Albert Scheflen1, o criador desse termo (“quase-courtship”), o quase cortejamento pode efeitos benéficos no humor e na motivação daqueles que trabalham juntos. Trata-se de uma brincadeira que pega carona nas motivações reais do cortejamento. Essa forma de comportar lembra aquele ditado que afirma que “Toda brincadeira tem um fundo de verdade”.


Cortejamento

O cortejamento consiste na acentuação de sinais de gênero, na apresentação de comportamentos de flerte e na adoção de outras medidas para conquistar (ouvir atentamente o parceiro, ser muito gentil com ele, etc.) ou seduzir o parceiro (por exemplo, adotar uma produção sexy e sexualmente insinuante quando vai vê-lo) . Este tipo de comportamento ocorre frequentemente quando pessoas compatíveis entre si para esta finalidade se encontram.

Este é o principal meio de formação de casais na nossa sociedade Segundo um estudo que realizei2, 37% dos namoros são iniciados entre pessoas que já tinham outro tipo de relacionamento (profissional, amistoso, coleguismo, etc), 32% entre pessoas que foram apresentas (quando se interessam pela outra já podem iniciar o cortejamento e procuram marcar um novo encontro), 20% entre pessoas desconhecidas que flertaram de longe e se abordaram, 5% entre pessoas que se encontraram acidentalmente e 1% entre pessoas que utilizaram algum “serviço” voltado para esta finalidade (internet, agências de casamento e anúncios. O papel da internet aumentou após a realização dessa pesquisa)

Esta é a forma adotada na nossa sociedade para a formação de casais. (outros meios, como o casamento arranjado, são pouco utilizados por aqui). Quando uma ou ambas as partes já tem compromisso de exclusividade com outro parceiro, o que está acontecendo é o um início de uma traição.


Sedução-interesseira.

Quem age dessa forma realmente tenta seduzir o parceiro. Por exemplo, não apresenta os sinais diferenciadores que caracterizam o quase-cortejamento. Quem usa este tipo de sedução, no entanto, não está motivado, pelo menos primariamente, pelo interesse amoroso pelo parceiro, mas sim pelas vantagens que poderá obter em outras áreas, caso a sedução comece a funcionar. Essa pessoa tenta obter tais vantagens sem nenhuma consumação amorosa. Ela faz o possível para ficar nas promessas até obter as vantagens pretendidas e cessa repentinamente essa forma de se comportar, assim que obtém o que quer. Trata-se, portanto, de uma forma de se comportar “interesseira”.

Creio que este tipo de sedução também é muito frequente entre pessoas que têm algum tipo de relacionamento não amoroso no dia a dia, quando uma delas pode propiciar muitas vantagens para a outra, mas ainda tem que ser convencida a fazer isso. Este tipo de sedução é muito usado por mulheres e homens, talvez mais por elas do que por eles.


Assédio.

O assédio acontece quando uma pessoa que tem poder sobre a outra usa desse poder, de forma constrangedora, para obter favores sexuais ou amorosos (um encontro ou um jantar romântico, por exemplo). O assédio comprovado é considerado crime na nossa sociedade.


Estupro.

O estuprador usa força física ou ameaças para obter sexo. Este tipo de comportamento é considerado criminoso em quase todas as sociedades modernas. Geralmente o estuprador é um homem. A vítima geralmente é uma mulher, mas também pode ser uma criança ou outro homem (isso acontece, por exemplo, em prisões).


Agir dentro dos limites éticos e legais é dever de todos. Resistir e denunciar abusos ajuda a coibir atos amorosos e sexuais constrangedores, ilegais e criminosos.

(Proximamente escreverei outro artigo sobre as motivações dessas diferentes formas de agir. Acompanhe!)

1SCHEFLEN, A. Quase-courtship behavior in psychotherapy. Psychiatry, v. B, p. 245-47, 1965.

2. Silva, A. (2009) Relacionamento Amoroso. São Paulo, Publifolha

 

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Por Ailton Amélio às 11h47

23/05/2011

Ladrão de Holofotes: como anular seu interlocutor em uma conversa

Tereza foi visitar Maurício. Eles foram colegas na faculdade e se visitavam periodicamente. Sempre que ela se encontra com ele, o esquema do encontro se repete. Após conversar sobre algumas amenidades e atualizarem as novidades que ocorreram com cada um, ele assume o leme da conversa: começa a falar entusiasmadamente sobre os seus projetos em andamento e as suas idéias mirabolantes. Daí para frente, ele determina todos os aspectos da conversa: os temas, as interpretações daquilo que é dito, o tom emocional do encontro e as mudanças de assuntos.

A ela só resta o papel de ouvir tudo com atenção, tentar acompanhar aquilo que ele relatava, se esforçar para fazer perguntas inteligentes e estimulantes, mostrar admiração e apoiar seus pontos de vista. Ou seja, é uma trabalheira!

Ela sempre sai dessas conversas com a sensação que, mais uma vez, ele é o mais importante dos dois. Tereza também sai com a sensação que as suas coisas, que até haviam sido mencionadas e tratadas levemente no início da conversa, acabaram ocupando uma parte reduzida do encontro e são menos importantes do que as deles. Tereza também fica com a sensação que participou como aluna, como platéia e coadjuvante, mas não como igual.

Creio que todos nós já participamos de conversas assim, como a de Tereza e Maurício. Muitas vezes fizemos o papel de Tereza e outras, o de Maurício. Neste artigo vamos examinar quais artifícios são usados para agir como Maurício e quais tarefas são desempenhadas por alguém que age como Tereza, para que aconteça esse tipo de conversa, e quais são as suas consequências.


Uma boa conversa

Uma boa conversa é aquela onde cada interlocutor reconhece as importâncias dos outros  e cada um deles pode expressar o que está sentindo e pensando, tem tempo para apresentar aquilo que é importante para ele, as suas contribuições para a conversa são respeitadas e compartilha o poder para determinar a sua forma, as durações dos seus componentes e o seu conteúdo.

A conversa geralmente é uma ocasião muito importante para todos os interlocutores. Ela é importante, porque nessa ocasião onde pode ficar claro quem é o dominante, quanto cada participante agrada aos outros, quão interessante é. A conversa também contribui para que cada participante avalie, de acordo com a sua própria percepção do seu desempenho e pelas reações dos outros interlocutores como está sendo percebido socialmente e quais são seus méritos e deméritos.

Uma das fontes de satisfação ou insatisfação consigo mesmo, com o interlocutor, com a conversa e com os resultados tangíveis resultantes das conversas é o grau de sucesso obtido através da participação. Este grau de sucesso depende de vários acontecimentos.

- Ser o foco da atenção

- Provocar reações positivas nos interlocutores

- Ser respeitado como falante e como ouvinte. 


O ladrão de holofotes

Na história acima, Maurício é um ladrão de holofotes (“LH”, daqui para frente) dos mais sutis. Ele inicialmente dá a impressão que vai contribuir para que a sua conversa com Tereza seja simétrica, equilibrada. Só pratica o roubo  dos “holofotes” após esse início “normal”.


Impressões de quem acabou de participar de uma conversa com um LH

Quando uma pessoa sai de uma conversa com um ladrão de holofote ela pode ter as seguintes sensações :

- O “ladrão” só queria aparecer

- Foi manipulada através de cordões invisíveis para cooperar com  o espetáculo

- O ladrão não estava muito interessado no que se passava com ela

- Aquilo que se passava com ela  foi ignorado

- Foi usada como plateia

 

Concessão de holofotes

            Muitas vezes a concessão desigual de holofotes durante uma conversa  acontece de boa vontade e beneficia ambos os interlocutores. Isso acontece, principalmente, quando aqueles que não estão sobe os holofotes não vêem a ocasião como uma oportunidade para ganhar prestígio ou como teste do seu prestígio.

Em qualquer conversa, é natural que cada um dos interlocutores tenha os holofotes durante um certo tempo. Em uma conversa onde as pessoas têm importâncias semelhantes acontece uma alternância de holofotes e muitas vezes essa alternância não é pacífica (há disputa pela palavra, pelo protagonismo).

Em certos tipos de conversa é normal e desejável que o holofote fique mais tempo com um dos participantes. Isso acontece, por exemplo, quando aconteceu algo muito importante com um deles (teve um filho, faleceu alguém próximo, etc.), quando se trata com a consulta com um especialista ou quando os holofotes são estruturalmente voltados para um deles (por exemplo, juiz em um julgamento ou um cantor que está se apresentando tem “direito” natural aos holofotes). 

Algumas pessoas dão o espetáculo ou são um espetáculo interessante e, por isso, pode ser bem vindo para seus interlocutores que elas fiquem mais tempo sob os holofotes.


Maneiras de roubar os holofotes

Estas são algumas das principais maneiras de roubar os holofotes do interlocutor:

- Roubar o assunto: tomar o assunto que o outro propôs e tratar dele mais amplamente, com mais habilidade ou com mais entusiasmo.

- Roubar os louros. Quem apresenta algo na conversa que tem um bom impacto na audiência (apresenta uma notícia surpreendente, conta uma boa piada, fala algo interessante, etc.) pode usufruir desse impacto enquanto está fazendo a apresentação ou logo depois que ela termina. O LH não dá tempo para que o apresentador saboreie esse tempo. Por exemplo, ele diz algo logo em seguida que compete pela atenção da audiência: faz uma piada sobre o que foi dito, conta um caso ilustrativo ou apresentada uma reação desmedida (o que por si só, vira o foco das atenções). 

- Contar casos mais impressionantes. O LH conta um caso mais forte, mais interessante, mais dramático do que aquele que o interlocutor apresentou. Por exemplo, quando o interlocutor conta algo ruim que aconteceu com ele, o ladrão relata uma desgraça ainda maior do que aquela que o interlocutor relatou (“Isso não é nada. Você não sabe o que aconteceu comigo...”)

- Mudar o clima da conversa: Por exemplo, transforma algo sério que o outro  contou em uma piada.

- Puxar para assuntos prediletos para poder brilhar. Esse é um dos artifícios prediletos de certos tipos de LH. Em qualquer conversa, ele logo dá um jeito de introduzir aquele assunto que domina, sabe, mais ou promove o seu status.

- Ficar quase o tempo todo com a palavra: dominar o tempo de fala. O interlocutor não tem oportunidade de relatar e tratar dos seus assuntos.

- Interromper exageradamente o espetáculo alheio. Interromper, completar o que o outro está dizendo, tomar a palavra quando o outro apresentar pausas gramaticais ou pausas para pensar.

- Não sustentar o holofote alheio: recusar-se a funcionar como ouvinte ativo interessado

Mostrar envolvimento emocional exagerado com o próprio tema ou ponto de vista. O interlocutor sabe que o LH não aceitará intervenções contra o que está dizendo e que as suas emoções não permitirão espaço para outros assuntos.


Concessão exagerada de holofotes

Certas pessoas cedem os holofotes com facilidade excessiva. Outras odeiam estar sob os holofotes. Os principais motivos desses dois fenômenos são os seguintes:

- Ser uma apreciadora do desempenho alheio. Por exemplo, algumas pessoas gostam mais de ouvir do que de falar.

- Inassertividade, timidez e baixa autoestima: essas pessoas ficam desconfortáveis quando estão sob os holofotes.

Ganhos secundários. Por exemplo, os bajuladores contribuem para que o interlocutor fique sob os holofotes porque esperam tirar algum proveito desta prestação de serviços.


Você perde os seus holofotes com muita facilidade? Você costuma ser um ladrão de holofotes? Caso tenha respondido sim, em para qualquer uma dessas duas perguntas, procure a ajuda de um psicólogo que trabalhe com esse tipo de problema.

 

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Por Ailton Amélio às 11h25

16/05/2011

Por que o seu amor virou amizade?

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Quando interessa, você sabe acentuar os seus sinais de masculinidade ou feminilidade?

Observe como Fernanda altera o seu estilo de comportamento em diferentes situações. Primeiro, ela está falando e brincando com o seu bebê. Veja bem quais são as suas atitudes e como ela está agindo. Continue a observá-la. Agora, ela está conversando amorosamente com o marido, por quem está apaixonada. Em seguida, ela vai para o trabalho e participa de uma reunião com um subordinado que não está desempenhando satisfatoriamente a sua função. Depois, durante o almoço, ela conversa animadamente com uma amiga de longa data. À noite, vai para o seu curso de MBA e solicita para o seu professor o adiamento da entrega de uma resenha. É bastante provável, ao observá-la nestas diferentes situações, que você note que ela alterou bastante as suas atitudes e os seus comportamentos para torná-los funcionais em cada uma delas. Você consegue assumir uma postura máscula ou feminina perante o seu parceiro amoroso nas ocasiöes adequadas ou deixou de fazer isso? 

Vamos examinar neste artigo um dos motivos da facilidade ou dificuldade para iniciar e para manter um clima romântico, sensual e erótico em relacionamentos amorosos duradouros: a acentuação ou atenuação dos sinais de gênero.

Sinais de gênero

Existem muitos sinais que indicam se somos homens ou mulheres. Algumas espécies possuem um alto grau de dimorfismo (em que medida os machos diferem das fêmeas). Por exemplo, os galos, os leões, e os gorilas machos são muito diferentes das galinhas, leoas e gorilas fêmeas, respectivamente.

Na espécie humana, machos e fêmeas são muito parecidos (baixo grau de dimorfismo). Um ET teria um bom grau de dificuldade para distinguir os homens das mulheres, salvo em certos casos excepcionais. Por exemplo, existem muitas mulheres que são mais altas e mais pesadas do que muitos homens. Mesmo os seios, em algumas mulheres eles são bem pequenos e até menores do que os de alguns homens. Devido ao pequeno grau de dimorfismo e à necessidade dos homens e mulheres serem mutuamente atraentes (o que é necessário para o nosso sistema procriativo), a nossa espécie aprendeu a manipular diversos sinais para produzir ou ampliar essas diferenças. Muitas dessas diferenças são manifestadas e manipuladas através da "produção" (vestuário, adornos, cuidados com a pilosidade, maquilagem, artefatos, etc.).

A moda pode criar arbitrariamente sinais que distinguem os homens das mulheres (por exemplo, em certas épocas só as mulheres podia usar cabelos compridos) ou expor ou exagerar as diferenças naturais (por exemplo, a moda criou as anquinhas que serviam para exagerar o tamanho do trazeiro feminino; o espartilho e a crinolina, para ampliar a diferença entre a cintura e os quadris femininos; os sutiãs e decotes para destacar os seios; as ombreiras para destacar o tamanho dos ombros masculinos e as cartolas e assemelhados para ampliar a altura masculina).

Genética, cultura e idiossincrasias definem o que é “macho ou “fêmea”

Aquilo que consideramos “masculino” ou “feminino” é determinado pela genética, pela cultura e pela história de vida pessoal.

A genética influencia os nossos comportamentos, o formato do nosso corpo e as reações daqueles que são expostos a estes sinais. Por exemplo, a atração por uma determinada proporção entre a cintura e o quadril das mulheres e a proporção entre o ombro e o quadril dos homens possui uma forte influência genética.

A cultura também influencia muito aquilo que consideramos masculino ou feminino. O vestuário, os modos e até os interesses profissionais que são considerados femininos ou masculinos são parcialmente determinados pela cultura. As mudanças recentes nas profissões que eram consideradas masculinas ou femininas (provedor, rainha do lar, engenheiro, enfermeira, etc.) ilustram bem o poder da cultura para criar e modificar este tipo de definição.

A história de vida pessoal também influencia bastante aquilo que é considerado feminino ou masculino: as meninas aprendem uma boa parte dos seus padrões com as próprias mães e os homens, com seus pais e os reproduzem na vida adulta.

Vários desses sinais só podem ser alterados lentamente através de determinadas práticas intensivas e duradouras. Por exemplo, as dimensões do corpo podem ser bastante alteradas pela alimentação e pela ginástica. Alguns desses sinais podem ser alterados quase que instantaneamente através da produção. Um dos tipos de sinais mais importantes e mais maleáveis são os comportamentos. Podemos nos comportar de forma a acentuar ou atenuar imediatamente os sinais de gênero.  Por exemplo, um homem pode deixar de apresentar sinais de flerte e tornar-se agressivo, em questão de segundos. Trocar o vestuário, em comparação, pode demandar bem mais tempo e não costuma acontecer a todo o momento, durante uma conversa, como um recurso expressivo.

Atitudes e comportamentos que alteram os graus de feminilidade ou masculinidade

O motivo da sua capacidade para atrair os homens era um mistério. Ela era bonita, mas não “ao ponto de parar o trânsito”. Ela vestia-se de forma elegante e discreta, mas nada que despertasse admiração. O seu vestuário também não chamava a atenção para partes do corpo. Apesar de não chamar a atenção pelo corpo e pela produção, ela tinha aquilo que muita gente chama de “presença feminina”: funcionava como um imã para atrair homens. A sua postura corporal, a sua forma de olhar e de sorrir, o timbre e as inflexões da sua voz formavam um conjunto que parecia gritar “sou feminina”. A sua feminilidade era tão forte que sempre coloria qualquer tipo de conversa que participasse. Os homens tinham a impressão, ou melhor, a esperança, que aquela forma deliciosa de agir estava sendo produzida, pelo menos um pouquinho, pelas suas presenças.

Algumas pessoas possuem uma boa dose natural de feminilidade ou de masculinidade em suas atitudes, posturas, hábitos e comportamentos. Todos nós também conhecemos pessoas que são peritas em modificar os seus comportamentos de acordo com as circunstâncias. São verdadeiras camaleoas comportamentais. (“Ninguém acreditaria que eu sou um doce em casa", dizia o empresário durão para um amigo.)

Transformacoes que ocorrem durante o quase-cortejamento e cortejamento.

Albert Scheflen1 e outros estudiosos da comunicação não-verbal identificaram várias transformações que o nosso corpo e nossos comportamentos apresentam na presença de pessoas pelas quais estamos interessados ou que nos atraem. Schefen denominou uma parte desses comportamentos e transformações corporais como “quase-cortejamento2”.

Quando estamos presença de uma pessoa que desperta o nosso interesse amoroso, o nosso corpo, a nossa postura corporal e os nossos comportamentos sofrem várias transformações que expressam esse interesse: aumenta o tônus muscular (o que pode fazer sumir ou reduzir pequenas rugas e sinais de flacidez e atenuar as bolsas que existem abaixo dos olhos); nosso corpo fica mais ereto (as costas ficam menos arqueadas); homens e mulheres murcham a barriga e estufam o peito; os homens projetam a cabeça para frente, em direção a mulher; a voz da mulher se torna mais infantilizad;, o casal começa a usar diminutivos, etc.

A voz é um importante componente do clima amoroso. Alguns estudos mostraram, por exemplo, que as mulheres terminam as frases com um afinamento da voz e os homens, engrossando-a. As mulheres também tendem a usar amenizadores de afirmações como “eu acho”, “parece que” Uma amiga comentou que sabia quando a filha estava falando com o namorado no telefone porque ela “miava” nesta ocasião.

Quando descrevo estes sinais, os meus pacientes geralmente perguntam se vão ter que ficar se esforçando para apresentá-los. Respondo que não. O melhor é tomar a decisão de manter na mente que ali na sua frente está alguém atraente e que isso é o que existe de mais importante naquela circunstância . É claro que podemos falar sobre qualquer assunto agradável ou até mesmo neutro. Pronto. A outra pessoa logo percebe que está no foco da sua atenção e que está sendo vista como alguém atraente. O clima está montado. Quando isso acontece, o seu corpo tende a apresentar todos aqueles sinais que Scheflen andou observando.

Pessoas que têm dificuldade para se posicionarem como “machos” e “fêmeas” 

Atendo no meu consultório essas pessoas que têm dificuldades para iniciar ou desenvolver relacionamentos amorosos e pessoas cujos relacionamentos perderam a vitalidade após algum tempo de convivência com o parceiro. Estas pessoas reclamam que o clima romântico, que era maravilhoso no início do relacionamento, desapareceu e as relações sexuais, que eram frequentes e prazerosas na época do namoro e no início do casamento, agora estão se tornando raras e burocráticas.

Claro que pode haver muitos motivos para esses tipos de insucessos. Um desses motivos, que estamos tratando aqui, pode ser a ausência de posicionamento para o relacionamento amoroso (conjunto de posturas, atitudes, emoções e os comportamentos que revelam que a pessoa está assumindo a posição de macho ou de fêmea, que sente atração pela outra e vai flertar com ela).

Essas dificuldades podem ser produzidas pela inibição, pela falta de prática ou pela falta de atração pelo parceiro. O tratamento psicológico deve ser adequado para cada caso. Essas pessoas, infelizmente, são aconselhadas a lançar mão de artefatos eróticos, viagens, idas a motel e a transar em locais inusitados para recuperar o viço sexual. Antes de lançar mão dessas medidas, essas pessoas têm que recuperar a visão do outro como parceiro romântico, sensual e erótico.

A adoção de todas as medidas acima, que regeneram os sentimentos amorosos e sexuais e acentuam os sinais de gênero, principalmente os comportamentos que indicam o interesse amoroso e sexual no parceiro, ajudam o seu amor a continuar sendo amor e a não transformar-se em uma amizade.

Notas

1SCHEFLEN, A. Quase-courtship behavior in psychotherapy. Psychiatry, v. B, p. 245-47, 1965.

2 Estes comportamentos eram apresentados em situações onde não havia interesse amoroso. Neste caso, eles eram apresentados apenas com finalidades motivacionais. Isto era mostrado através de diferenciadores. Por exemplo, uma mulher apresentava várias transformações corporais típicas de interesse amoroso, mas mencionava frequentemente o marido e falava em uma altura que dava para todos em volta ouvirem.

Por Ailton Amélio às 09h10

09/05/2011

Como você é percebido pelas outras pessoas?

Vamos examinar neste artigo algumas evidências sobre as distorções das percepções das nossas características pessoais e as consequências positivas e negativas que isso pode acarretar.

Coincidências e discrepâncias entre a auto e a hetero-imagem

Realizei uma pesquisa para verificar se existiam semelhanças e diferenças entre diversos aspectos da imagem que universitários tinham a seus próprios respeitos e as imagens que eles projetavam para os colegas ou para desconhecidos. Para realizar essa pesquisa, obtive avaliações de cinco estudantes universitários por parte de três tipos de avaliadores: (1) auto-avaliações, (2) avaliações realizadas pelos colegas de classe e (3) avaliações realizadas por desconhecidos que assistiram vídeos, com três minutos de duração, cada um dos quais mostrando um dos cinco estudantes enquanto realizava um teste de memória (os estudantes só souberam dos vídeos e autorizaram seus usos para a pesquisa após as gravações).

Todas essas avaliações foram realizadas através de um questionário contendo vinte e sete afirmações que as pessoas costumam fazer quando comentam sobre outras pessoas (afirmações sobre segurança, simpatia, inteligência, etc.).

Este estudo mostrou que havia muita variação nos resultados das  comparações desses três tipos de avaliações. Quando as médias dessas avaliações foram comparadas duas a duas, verificou-se que elas podiam variar desde extremamente diferentes entre si até extremamente similares. Por exemplo, em certos casos, as auto-avaliações de um estudante eram  muito semelhantes às avaliações realizadas pelos seus colegas de classe e pelos desconhecidos que tinham assistido ao seu vídeo. Outras vezes, essas auto-avaliações eram  bem diferentes dos outros dois tipos de avaliações.

Existem evidências de que uma boa dose de semelhança entre a auto e a hetero-imagem é um sinal de saúde psicológica: este tipo de semelhança indica que a pessoa não tem uma imagem distorcida de si, nem para melhor nem para pior.

Porque muitas pessoas não imaginam como são percebidas pelos outros: o complô do silêncio

Geralmente não sabemos direito qual a imagem que as outras pessoas têm de nós, em áreas pouco objetivas como beleza, carisma, agradabilidade e sex appeal. Esta falta de conhecimento tem três causas principais: (1) possuímos defesas psicológicas que dificultam as percepções de nossas próprias características negativas e até mesmo de algumas nossas características positivas. Isso acontece quando as percepções corretas dessas características provocariam dor e ameaça. (2) Quando estamos em público “editamos” os nossos comportamentos: (a) omitimos ou atenuamos aquelas informações negativas a nosso respeito, (b) ostentamos aquelas características positivas que possuímos e (c) fingimos características positivas que não possuímos e (3) as outras pessoas, com quem interagimos, evitam nos informar abertamente sobre as nossas características negativas, para evitar consequências negativas para elas próprias e para nós. Na ausência de fortes motivos em contrário, elas fingem acreditar na imagem que estamos tentando passar.

Algumas evidências sobre distorções nas percepções e seus efeitos

Vários estudos vêm mostrando que aquilo que é percebido tem pode ter mais influência no comportamento humano do que aquilo que é “real”. Vamos examinar agora, resumidamente, alguns estudos que apresentaram evidências a esse respeito.

Quando os tímidos são pessimistas sobre seus próprios desempenhos.

            Um pesquisador pediu para tímidos ministrarem uma palestra. Após a palestra pediu para que cada um deles avaliasse, através de um questionário, o seu próprio desempenho durante esta atividade. O pesquisador também pediu para que aqueles que assistiram às palestras que avaliassem os palestrantes através do mesmo questionário. A comparação das auto-avaliações dos tímidos com as avaliações daqueles que assistiram às suas palestras mostrou que os tímidos eram pessimistas sobre os próprios desempenhos: os tímidos tinham uma tendência para dar notas mais baixas para os seus próprios desempenhos do que aqueles que assistiram suas palestras.

Os autores dessa pesquisa apresentaram a hipótese de que os tímidos agiam assim porque eles estão muito mais cientes dos medos, das inseguranças e da profusão de pensamentos que estão ocorrendo em suas mentes enquanto apresentam a palestra. Aqueles que as assistiram, no entanto, têm pouco conhecimento de que estão ocorrendo tantas confusões e inquietações nas cabeças dos palestrantes . Os tímidos, ao apresentarem as palestras, mantinham boa parte destes distúrbios dentro de si e apresentavam apenas comportamentos “editados” que mostram uma intensidade bem menor de inquietações e confusões internas. Por exemplo, eles procuravam ocultar seus nervosismos e omitir as preocupações que os atormentavam enquanto estavam apresentando a palestra.

Consequências dos problemas de auto-estima.

As decorrências das variações da autoestima ilustram bem a conclusão de que a visão correta da realidade nem sempre é a melhor opção: as pessoas que são muito realistas a respeito delas próprias geralmente têm baixa autoestima. Quem tem boa autoestima geralmente é moderadamente otimista sobre si próprio. Este último tipo de pessoa tende a exagerar um pouco a percepção dos próprios méritos. No entanto, muito exagero nas auto-avaliações positivas não é típico das pessoas que têm boa autoestima. Essas pessoas geralmente têm problemas que as levam a distorcer forte e positivamente a autopercepção. Além disso, esta forma de agir geralmente leva a decisões erradas (por exemplo, a pessoa acaba sendo frequentemente rejeitada nas suas iniciativas amorosas porque sempre escolha pessoas superqualificadas que não se interessam por ela).

Efeitos da autoestima nas qualidades dos parceiros amorosos.

Um estudo mostrou que as pessoas com boa autoestima têm parceiros amorosos cujas características são mais valorizadas socialmente do que os parceiros das pessoas com baixa autoestima. Os autores desse estudo pediram a diversas pessoas que avaliassem os graus de atração dos participantes da pesquisa e de seus parceiros amorosos. Os autores também mediram autoestima dos participantes. Em seguida, esses autores realizaram testes estatísticos que  mostraram que aquelas pessoas que tinham melhor autoestima tinham mais chance de também de terem parceiros mais atraentes do que aqueles que tinham baixa autoestima. Isso indica que uma parte do seu valor como parceiro amoroso vem da sua autoestima: as outras pessoas baseiam suas avaliações a seu respeito na sua própria autoavaliação.

A auto-avalição da própria beleza pode ser mais importante do que a avaliação por parte de outras pessoas.

Os autores de uma pesquisa pediram aos participantes que avaliassem os graus de beleza de seus próprios rostos. Em seguida, os rostos desses participantes foram avaliados por outras pessoas. Os autores também obtiveram várias medidas de sucesso social de cada uma dos participantes cujos rostos foram avaliados. As analises estatísticas desses resultados mostraram que as auto-avaliações da beleza facial estavam mais associadas à vários tipos de sucesso social do que as avaliações da beleza facial que foram apresentadas por outros avaliadores. Ou seja, dentro de certo limite, a sua própria avaliação do seu rosto importa mais do que as avaliações dos outros. Uma explicação razoável desses resultados é que a confiança na própria beleza acaba influenciando os próprios comportamentos positivamente, o que provoca mais sucesso social. Seguindo essa linha de raciocino, poderíamos afirmar que é mais importante uma pessoa usar algo que a deixa confiante do que as avaliações apresentadas por outras pessoas daquilo que ela esta usando.

Idealização das pessoas que gostamos

A idealização daquelas pessoas que gostamos é um fenômeno bem conhecido. Essa idealização vai desde aquela imagem positiva que temos dos amigos até as distorções positivas, mais óbvias, que as pessoas apresentam, a todo o momento, sobre as qualidades dos seus parentes, chegando até ao endeusamento que manifestamos pelos objetos das nossas paixões amorosas (quem ama avalia o amado melhor do que os amigos deste o avaliam. Lembrar que os amigos já distorcem positivamente estas avaliações).

Você tem uma imagem muito distorcida de si próprio? Caso suspeite que sim, procure a ajuda de um psicólogo para ajudá-lo  a melhorar a sua autopercepção.

 

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Por Ailton Amélio às 11h40

02/05/2011

Cilada: como a falta de tempo, o consumismo e o individualismo superficializaram a sua vida

É inegável que a ciência e a tecnologia trouxeram uma quantidade imensa de benefícios para a humanidade. Para constatar isso, basta lembrar o aumento na expectativa de vida que ocorreu no último século. A qualidade de vida também melhorou muito. Mil vivas para a ciência e a tecnologia!

Por outro lado, parece que caímos em uma cilada: muitos visionários e ficcionistas de antigamente acreditavam que a ciência e a tecnologia trariam a liberação do nosso tempo para as relações sociais e para o lazer. Os computadores e as máquinas fariam boa parte do trabalho e nós teríamos mais tempo para cuidar das nossas relações e para aproveitar a vida. Infelizmente estas previsões não se confirmaram e tudo indica que as coisas não tomarão este rumo em um futuro próximo.

Hoje, que temos muito mais tecnologia do que poderíamos imaginar a algum tempo atrás, trabalhamos tanto quanto ou muito mais do que antes. (Por exemplo, há pouco tempo atrás uma revista de grande circulação publicou uma pesquisa que revelava que, em média, os executivos de nível superior trabalhavam mais que onze horas por dia!). O telefone celular e os computadores nos mantêm conectados com o trabalho o tempo todo, onde quer que estejamos. Os novos bens, que são lançados a todo o momento, despertam a cobiça e a necessidade de trabalhar mais para comprá-los. Não que consigamos usufruí-los proporcionalmente ao que custam. Muitos deles apenas ajudam a compor o nosso status.

Um dos motivos da diminuição das horas de trabalho aquém das expectativas aconteceu por um motivo que parece justo e razoável: parte das horas de trabalho que não foram diminuídas, apesar do progresso, serve para pagar as melhorias que aconteceram em diversas áreas da nossa vida. Por exemplo, é só comparar a quantidade de aparelhos que melhoram a nossa vida, que estão presentes nas residências, com a quantidade de aparelhos desse tipo que havia nos lares há cem anos atrás.

Outra parte das nossas horas de trabalho que poderia ter sido diminuída, no entanto, é dedicada para pagar bens que contribuem pouco para o nosso conforto, mas nos fazem sentir que somos pessoas bem sucedidas, vitoriosas e diferenciadas.  (Este sentimento, dentro de certo limite, poderia ser considerado uma necessidade humana e legítima: necessidade de poder ou de visibilidade. A compulsão desenfreada e insaciável por eles é que é problemática).

Essa sensação de superioridade dura pouco, porque logo outro produto “para pessoas superiores” é lançado e a necessidade ressurge. Aqueles que produzem estes produtos e seus colaboradores descobriram como inutilizar rapidamente os seus efeitos psicológicos após um tempo de boas vendas ou quando os concorrentes começam a fazer o mesmo. Muitos destes produtos raramente são usados. (Há pouco tempo li uma entrevista de uma pessoa famosa que afirmou que possuía um relógio caríssimo, mas que, no dia a dia, só usava uma reprodução barata, e deixava o original bem guardado. Um amigo meu comentou jocosamente que também só usava a réplica e deixava o original guardado na loja, porque lá ele era bem cuidado e estava mais seguro!).

Este tipo de compra que serve apenas para promover o status e a sensação de superioridade acabou se tornando a cenoura que é perseguida incessante e inutilmente pelo burro (ela está sempre à frente dos seus olhos porque está atada na ponta de uma vara cuja extremidade oposta está presa ao arreio). O pior de tudo é que o esforço despendido neste tipo de busca acabou tomando boa parte dos nossos dias em detrimento das nossas relações.

Um estudo apresentou evidencias de que a quantidade de felicidade está relacionada ao nível de rendimentos até uma renda per capita de $70. 000,00. Depois deste nível de renda, o determinante mais relevante do grau de felicidade é a comparação com a renda do grupo de referência. A seguinte piada ilustra bem esse princípio: um desenho mostra três homens em um escritório. Dois deles estão conversando, um funcionário e seu chefe. O terceiro está mais distante e não está participando da conversa. O funcionário diz para o seu chefe: “Sei que você não pode aumenta o meu salário. Mas daria para reduzir o dele?”.

Nem sempre é a comparação com as pessoas do grupo de referência que gera necessidade de adquirir novos bens ou os promotores do estilo de vida (viagens, frequentar lugares badalados, etc.) que produzem esse efeito. Os vendedores de ilusões descobriram outras formas de fazer que você se sinta bem através da aquisição de produtos. Certas propagandas, por exemplo, associam pessoas famosas ou bonitas com a posse de um determinado carro. Fica implícito que, ao possuir tal carro, você também adquirirá, pelo menos em parte, o status, o poder ou o charme daquela pessoa. O que eles estão vendendo, portanto não é o carro. Estão vendendo a promessa de que a sua imagem será melhorada através da aquisição do produto. Talvez você até sinta-se melhor na ocasião de tal aquisição, mas isso dura pouco. Logo lá está de novo a pessoa famosa ou bonita, ou alguém equivalente, usando uma versão mais recente do tal carro ou outro carro. Pronto! Novamente você vai ter que trocar de carro para sentir-se de novo como aquela pessoa. Você vai ter que trocar o seu para não se sentir fracassado ou ultrapassado.

Você foi capturado em uma cilada da qual, tal como acontece em muitas chantagens onde nunca conseguirá adquirir todas as provas que estão sendo usadas contra você, não sairá facilmente. Vai ter estar sempre pagando ao chantagista com a esperança que, desta vez, ele entregou todas as cópias do documento que ameaça divulgar!

Esta corrida do burro atrás da cenoura não termina nunca. Estamos presos em uma cilada recorrente!


Superficialização dos relacionamentos devido à falta de tempo, ao consumismo e ao individualismo

Descompromisso com os amigos

Aquela AMIZADE “para o que der e vier” que havia em outras eras, agora ficou reduzida ao “apoio moral” e ao “torcendo por você”. Agora vale o ditado: “Amigos... amigos. Negócios à parte”. Aquilo que agora chamamos de amizade, é uma versão reduzida e minguada da AMIZADE que era valorizada em outras épocas.

Atualmente a prioridade é a realização pessoal. As outras relações têm uma importância muito pequena perto dessa prioridade  puramente individualista. Já vi muita gente despedir do trabalho os próprios amigos porque eles não atendiam perfeitamente as funções profissionais ou porque outras pessoas podiam fazer isso melhor que eles. Eles foram tratados com o "profissionalismo" que a função do chefe-"amigo" exigia. (Profissionalität über alles!)

Descompromisso com a família

Há algum tempo atrás as pessoas conviviam muito mais com a família extensa: pais, filhos, primos, netos e agregados formavam uma unidade afetiva, econômica e social. Este tipo de organização familiar não é compatível com uma sociedade onde a prioridade máxima é o dinheiro. Esse tipo de vinculo envolve o interesse de muita gente que pode ser colocado antes do interesse da empresa. Para atender as novas exigências a família foi reduzida ao tamanho mínimo: a família nuclear, que prevalece atualmente, é constituída apenas pelo casal e filhos.

Descompromisso com os filhos

A dedicação aos filhos é incompatível com as atividades profissionais nos moldes atuais do nosso sistema econômico e de consumo. “Não tenho tempo”. “Tenho que trabalhar”. “Estou lutando pela família”. Estas expressões são as desculpas que justificam passar quase o tempo todo fora de casa, sem contato com a família. Elas são legítimas quando realmente é necessário garantir as condições básicas para a sobrevivência e uma boa dose de conforto para família (comida, moradia, educação, segurança econômica). Elas, no entanto, muitas vezes, escondem a opção por outras prioridades, principalmente quando estas condições já estão garantidas e, mesmo assim, a pessoa continua a perseguir mais dinheiro e mais poder.

Agora, o que importa é a “qualidade” das poucas horas que são passadas com eles. Primeiro foram os pais que tiveram que se ausentar, por cada vez mais tempo, para “ganhar a vida”. Recentemente as mães seguiram o mesmo caminho. Elas conquistaram o direito e o dever de também prover a família e realizarem-se profissionalmente. As funções de pai e mãe cada vez mais estão sendo delegadas à escola, aos colegas, às empregadas (para os mais abastados), aos tutores e preceptores (para os mais abastados ainda), à televisão e, finalmente, à internet. É uma geração cada vez mais sem família, criada e educada pelos profissionais da educação, pelos colegas da própria idade e por anônimos que habitam a internet e a televisão. Admirável mundo novo!

Descompromisso com o relacionamento amoroso

O compromisso é o ingrediente mais estável de um relacionamento amoroso. O amor é bastante instável. Em certos dias estamos morrendo de amor e em outros estamos preocupados com outros assuntos e pensamos pouco no amado. A intimidade passa por grandes oscilações. Se baseássemos na quantidade de amor que sentimos pelos parceiros amorosos e nas motivações para trocar intimidades com eles, nos separaríamos várias vezes e voltaríamos a nos casar com eles várias vezes por mês, senão por semana e, talvez, por dia. Isso não acontece porque sabemos que estes ingredientes são voláteis. O que é mais duradouro é o compromisso. Estes três ingredientes afetam-se mutuamente. Por exemplo, a sensação de compromisso diminui quando a intimide, o amor e o desejo sexual deixam de existir por muito tempo.

As pessoas que trabalham fora de casa passam mais tempo com outros possíveis parceiros amorosos do que com o próprio cônjuge. O trabalho em um local que concentra homens e mulheres foi uma grande conquista. Por outro lado multiplicaram-se as condições que induzem e facilitam a traição (Share Hite relata no seu livro “Sexo e Negócios” que mais de 60% das pessoas que trabalham juntas já tiveram um relacionamento amoroso com um colega)

Há cerca de trinta anos atrás o havia o desquite, mas não o divórcio. Atualmente o divórcio pode ser obtido com relativa facilidade: os casais que não tem filhos e pendências sobre os bens não precisam da intervenção de um juiz para se separarem. Isto pode ser feito diretamente em um cartório, com o auxílio de um advogado.

Antigamente o regime de casamento era com comunhão total de bens. Agora é o de comunhão parcial. Vários casais estão optando pelo pacto antenupcial que inclui a separação total de bens.

Estes regimes que segregam os bens são uma espécie de declaração de ciência e atestado sobre a efemeridade do relacionamento. Esses pactos são uma espécie de acerto pré-nupcial sobre como proceder na hora da separação, caso ela ocorra. O pacto antenupcial que inclui a separação total de bens vai além: é uma espécie de desvinculação econômica das perdas e ganhos que poderão ocorrer com cada um dos cônjuges durante a vigência do casamento: é uma espécie de “cada um por si”, nesta área. A parte mais pobre geralmente fica ressentida com esta decisão que, de antemão, estabelece que o seu destino não está tão unido assim com a do cônjuge mais abastado. Isto, por si só, gera um primeiro obstáculo inicial que contribui para que o casamento não dê certo. 

Como sair dessa cilada?

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Por Ailton Amélio às 10h54

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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