Blog do Ailton Amélio

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29/08/2011

Qual é o seu estilo de amor? A Teoria do Apego

Existem muitas teorias sobre o amor. Algumas delas têm boa base cientifica, geraram muitas pesquisas, são muito uteis para compreender esse fenômeno (sentimentos, pensamentos e ações amorosas), ajudam a melhorar a forma agir nos assuntos amorosos e são imprescindíveis para tratar daquelas pessoas que estão tendo problemas nesta área.

Muitas dessas teorias são complementares entre si e cada uma delas permite entender melhor um aspecto do amor. Para classificar os vários estilos de amor prefiro a teoria “Estilos de Amor”, do sociólogo canadense John Alan Lee. Para entender os ingredientes do amor, a melhor teoria é a Triangular, de Robert Sternberg. As teorias que explicam melhor como acontece o apaixonamento são a Teoria do Apaixonamento, de Stendhal (Henri-Marie Beyle) e da Expansão de Eu, de Arthur Aron. Para entender como as experiências na infância e na adolescência com pessoas significativas, principalmente as mães, influenciam a nossa vida afetiva, a melhor é a Teoria do Apego de John Bowlby.  Já abordei algumas dessas teorias em artigos anteriores. Vou tratar aqui dessa ultima teoria.


A Teoria do Apego de John Bowlby

Algumas pessoas são tranquilas quanto ao amor, encaram esse sentimento como um acontecimento altamente positivo, não estão ansiosas para amar e não fogem quando ele aparece. Outras encaram o amor com ansiedade: ele gera inseguranças, ciúmes e medo do abandono. Outras, ainda, se mantêm distantes do amor: se envolvem apenas de uma forma superficial e sentem-se desconfortáveis quando outras pessoas se envolvem com elas. A teoria do apego é muito boa para explicar essas diferenças na forma de amar.

John Bowlby, famoso psiquiatra inglês, baseou esta sua teoria em observações clínicas sobre a influência do estilo de apego de quem toma conta de uma criança, geralmente a sua mãe biológica, no estilo de apego que essa criança está desenvolvendo.

Segundo esta teoria, já nascemos com a capacidade de nos apegarmos a outras pessoas. Esta capacidade é extremamente útil para a nossa espécie. É difícil imaginar como sobreviveríamos e como seríamos socializados caso nascêssemos sem a capacidade de nos apegarmos firmemente aos nossos pais e vice-versa. Segundo esta teoria, a base dos diversos tipos de apego (amor materno, amor fraterno, amizade, amor romântico etc.) é a mesma: a capacidade inata de criar vínculo com outra pessoa. Cada tipo de apego, no entanto, tem as suas peculiaridades, as quais podem ser facilmente notadas quando se compara, por exemplo, o apego da criança pela mãe com o apego romântico entre um homem e uma mulher: apenas no caso do amor romântico existe o desejo sexual recíproco e certo equilíbrio de poder.

Embora a criança já nasça com a capacidade de se apegar, o estilo de apego específico que ela vai desenvolver depende, em grande parte, do estilo de apego de quem toma conta dela no primeiro ano de vida, geralmente a mãe. Mary Ainsworth, uma das principais colaboradoras de Bowlby, classificou os estilos de apego de quem toma conta da criança em três estilos: seguro, ansioso-ambivalente e evitativo. É raro encontrar uma mãe que tenha as características típicas de apenas um destes três estilos de apego. O mais comum é que elas tenham estilos de apego que são combinações, em diferentes dosagens, destes três estilos. Uma descrição sucinta dos três estilos de apego foi apresentada por Bowlby (1989):

Vários estudos vêm confirmando a existência de efeitos profundos e duradouros do estilo de apego de quem toma conta da criança no estilo de apego que esta desenvolverá na vida adulta. Estes estudos mostram, por exemplo, que as influências do estilo de apego do tomador de conta influência o estilo de cultivar uma amizade que a criança desenvolverá posteriormente com os seus pares. Outros estudos demonstram as influências do estilo de apego do tomador de conta no estilo de amor romântico de quem esteve aos seus cuidados. Vamos rever brevemente dois destes estudos.


Efeitos do estilo de apego da mãe no estilo de amizade dos filhos

Estudos recentes confirmam, de uma forma convincente, que a criança assimila e reproduz, ao crescer, o estilo de apego de quem tomou conta dela no primeiro ano de vida. Num destes estudos, os pesquisadores filmaram e analisaram os estilos de apegos dos adultos, enquanto estes interagiam com crianças durante seu primeiro ano de vida. Estas mesmas crianças, posteriormente, foram filmadas em várias ocasiões, durante doze anos, enquanto interagiam com seus pares. Os estilos de apegos exibidos pelas crianças nos relacionamentos com seus pares tinham várias semelhanças com os estilos de apegos daqueles que cuidaram delas no primeiro ano de vida.


Efeitos do estilo de apego da mãe no estilo de amor romântico

  Shaver, Hazan e Bradshaw (1988) realizaram uma pesquisa para verificar se havia relação entre os estilos de apego que as mães mostravam ao interagir com seus filhos durante o primeiro ano de suas vidas e os estilos de amor romântico que estes desenvolviam quando adultos. As autodescrições dos estilos de apego mostradas nos amores românticos dos adultos são apresentadas em seguida. Para ter uma ideia do quanto você se identifica com cada um destes estilos, dê uma nota de zero e dez para o quanto você concorda com cada uma das seguintes três afirmações (coloque uma nota dentro do parênteses que vem antes de cada afirmação.

(        ) Seguro. Eu acho relativamente fácil me aproximar de outras pessoas (nos tornarmos íntimos). Eu fico confortável dependendo delas e tendo-as como dependentes de mim. Eu não fico me preocupando com a possibilidade de ser abandonado ou com o fato dessa pessoa estar se tornando muito íntima comigo.

(       ) Evitativo.  Eu me sinto um tanto desconfortável quando fico muito íntimo com outras pessoas. Eu acho difícil confiar nelas completamente; também acho difícil permitir que eu dependa delas. Eu fico nervoso quando alguém fica muito íntimo comigo e, frequentemente, meus parceiros querem se tornarem mais íntimos, além do nível no qual eu me sinto confortável.

(       ) Ansioso-ambivalente.  Eu acho que as outras pessoas se sentem relutantes em ficar tão íntimas comigo quanto eu gostaria. Eu frequentemente me preocupo por achar que meu parceiro não me ama realmente ou não quer ficar comigo. Eu gostaria de me unir completamente com a outra pessoa e este desejo às vezes as afugenta.

Observação: Geralmente cada pessoa se identifica com mais que uma das afirmações acima. O que varia entre as pessoas é o quanto elas se identificam com cada estilo de apego.

Na amostra de norte-americanos utilizada por estes três autores mais da metade das pessoas (56%) tinham o estilo seguro, e uma percentagem bem menor delas tinham o estilo evitativo (24%) e o estilo ansioso-ambivalente (20%). As percentagens de incidência destes dois últimos estilos são muito semelhantes entre si. Estas percentagens de incidência dos estilos de amor românticos são muito semelhantes àquelas verificadas nas crianças que foram estudadas por Ainsworth e colaboradores (1978): 66% seguros, 21% evitativos e 19% ansiosos-ambivalentes. Estas semelhanças nas percentagens de incidência dos estilos de apego em crianças e dos estilos de amor dos adultos reforça a hipótese de que estes estilos são decorrentes daqueles.

Este estudo também apresentou evidências de que quanto mais velha é a pessoa, menor é a influência do estilo de quem tomou conta dela na infância no seu estilo atual de amor atual. Este enfraquecimento da relação entre o estilo de apego do tomador de conta e o estilo de apego romântico do adulto é bastante razoável. O estilo de apego vai se alterando sob a influência de todas as experiências sociais que a pessoa vai tendo durante a sua vida: quando uma pessoa interage com um tio, com um avô como outras crianças e com os professores etc., os estilos de interação destes também afetam o estilo de apego da pessoa. Assim, quanto maior a idade de uma pessoa, maior é a quantidade de interações que ela já teve com outras pessoas e, desta forma, mais amplas são as fontes de influência que ajudaram a moldar o seu estilo de interação.


Modelos Mentais

 Shaver, Hazan e Bradshaw propuseram que as experiências precoces das crianças com seus cuidadores criariam uma espécie de modelo mental na criança que seria o veículo através do qual as influencias dessas experiências se perpetuariam e se transfeririam para outros tipos de relacionamentos. Esses modelos mentais seriam uma espécie de conclusão que as crianças e adolescentes tiram sobre as reações que elas provocam nos outros (carinho, confiança, etc.) e sobre o elas podem esperar dos outros (proteção, confiabilidade, frustrações, etc.).

 

Caso você tenha problemas devido à sua forma de amar, procure a ajuda de um psicólogo.

 

Boa parte deste capítulo é uma adaptação de parte do meu primeiro capítulo do meu livro “O Mapa do Amor”, Editora Gente.

Bowlby, J. (1989). Uma Base Segura. (Traduzido do original em inglês por S. M. Barros). Porto Alegre, Editora Artes Médicas

Shaver, P., Hazan, C. & Bradshaw, D. (1988). Love as attachment: The integration of three behavioral systems. Em R. J. Sternberg and M. L. Barnes (edits): The Psychology of Love, pp.  .Binghamton, Yale University Press

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Por Ailton Amélio às 09h50

22/08/2011

Você é um ouvinte apagado e chato?

O ouvinte ativo e interessante é aquele que além de ouvir atentamente, mostra que está ouvindo, elabora o que ouviu, mostra suas reações ao que ouviu e ajuda o falante a gerenciar o que está dizendo. Este artigo vai examinar os fatores que diferenciam um ouvinte apagado e chato de um ouvinte ativo e interessante.

Madelyn Burley-Allen no seu livro  “Listening: The Forgotten Skill: A Self-Teaching Guide” (John Wiley & Sons, 1995), classifica os graus de escutar e ouvir em quatro níveis:

Nível 1 - Escutar básico: ser capaz de escutar os sons da fala do interlocutor.

Nível 2 - Escutar pleno: ser capaz identificar palavras/frases que foram ditas sem entender seus significados.

Nível 3 - Ouvir básico: entender o que ouviu (por exemplo, ser capaz de repetir em outras palavras o que foi dito).

Nível 4 - Ouvir pleno - ser afetado pelo que foi dito (ficar emocionado, mudar o curso de ação, passar a pensar de outra forma, etc.)

Ouvir é diferente de mostrar que está ouvindo

"Você ouviu o que eu disse? Então repita!" Ouvir e mostrar que está ouvindo são duas coisas distintas, embora relacionadas. Uma pessoa pode ouvir a outra sem mostrar nenhum sinal que está fazendo isso. Por exemplo, ela pode estar ouvindo através de um microfone oculto, fingir que está dormindo, estar escondida ou pode estar atrás de quem está falando, como fazia Freud, enquanto ouve tudo o que está sendo dito. O contrário também é possível: uma pessoa pode mostrar sinais que está entendendo o que está sendo dito quando, de fato, não está entendo nada. Isto ocorre, por exemplo, quando o ouvinte orienta a frente do seu corpo na direção do falante, inclina o tronco na sua direção e anui com a cabeça quando este faz pausas ou produz certas inflexões na voz, tudo isso sem ouvir nada do que está sendo dito

Mostrar que está ouvindo: o ouvinte ativo

Para ser um bom ouvinte não basta captar as mensagens do falante. É preciso ser ativo e mostrar que está captando-as, entendendo-as e como está reagindo a elas. Também é necessário ajudar o falante a gerenciar aquilo que ele está apresentando. Para isso, o ouvinte deve apresentar mensagens do tipo fale mais, fale menos, apresente mais detalhe, explique melhor e informar o falante sobre os efeitos que a sua comunicação está provocando nele (interesse, espanto, revolta, etc.).  Todas as ações ou inações do ouvinte que acontecem após uma comunicação  apresentada pelo seu interlocutor são indicativas de que ele recebeu tal comunicação e do como reagiu a ela.

A comunicação não-verbal do ouvinte ativo

A lista abaixo apresenta os principais comportamentos não-verbais que são apresentados por um ouvinte ativo.

- Mostrar sinais que está disponível para conversar.

Por exemplo, dizer que está com tempo livre; encostar-se em uma superfície convidar para sentar; interromper claramente o que estava fazendo (desligar a tevê, desligar o computador); colocar a pasta sobre a mesa; fechar a porta para evitar interrupções; pedir para secretária não interromper.

- Assumir uma distância propícia para conversar. Não ficar nem muito longe nem muito perto do seu interlocutor. Quando ambos estão em pé, deixar o interlocutor estabelecer a sua distância preferida. Depois que ele fizer isso, caso você queira “esquentar” um pouco o relacionamento, se aproxime dele mais um pouquinho (puxe a sua cadeira para mais perto ou dê um passinho na sua direção, mas não exagere).

- Evitar barreiras físicas. Barreira é a presença de um obstáculo entre os interlocutores. Existem dois tipos de barreiras: (1) corporal. Por exemplo, as pernas cruzadas de um interlocutor são interpostas entre ele e o outro; (2) objeto: os interlocutores ficam separados por uma mesa um balcão. É comum colocar uma pasta ou bolsa entre si e outra pessoa quando ambas sentam-se em um mesmo sofá. Também é comum segurar uma pasta ou uma bolsa contra o peito, deixando-a entre si e outra pessoa.

- Assumir posições semelhantes as do interlocutor. Por exemplo, os dois interlocutores permanecem sentados ou em pé ou encostados em uma parede. É importante manter os olhos na mesma altura dos olhos do interlocutor. Assumir posições diferentes daquela adotada pelo interlocutor contribui para quebrar o clima positivo da conversa.

- Orientar a frente do corpo na direção do interlocutor. Voltar toda a frente do seu corpo (rosto, peito, púbis, joelhos e pés) na direção do interlocutor. Caso isso fique desconfortável devido ao excesso de intimidade, diminua um pouco esta orientação.

- Anuir frequentemente com movimentos de cabeça. Este é um dos principais comportamentos que indicam que o ouvinte está acompanhando, entendendo e concordando com o que está sendo dito.  Este comportamento geralmente é apresentado periodicamente durante as pausas da falante ou quando esse olha para o ouvinte.

- Emitir vocalizações curtas em reação ao que está ouvindo. Por exemplo, o ouvinte emite grunhidos e exclamações que indicam que ele está acompanhando o que está sendo dito e informam como está reagindo ao que está sendo dito.

- Inclinar o tronco na direção do interlocutor (quando estiver sentado). Quando está sentado, tronco do bom ouvinte deve ser ligeiramente inclinado na direção do interlocutor (inclinado para frente ou para a lateral quando o ouvinte está ao lado ou na frente deste, respectivamente).

- Evitar dar atenção para outros eventos que estão ocorrendo no ambiente. Por exemplo, não ficamos olhando demais para as outras pessoas que estão passando próximo do local onde estamos conversando. Quando algo absorve a nossa atenção, nos concentramos a tal ponto que deixamos de prestar atenção a outros fatos e acontecimentos presentes.

- Mostrar empatia. Por exemplo, apresentar expressões faciais condizentes com as emoções que o interlocutor expressando ou que sejam reações naturais ao que ele está relatando. Se ele relata algo amedrontador ou dolorido, mostrar expressões de medo e de dor, respectivamente.

A comunicação verbal do ouvinte ativo

O ouvinte ativo faz pequenas intervenções verbais que contribuem fortemente para motivar, direcionar e fornecer feedback para o falante. As principais destas intervenções são as seguintes.

- Repetir com um tom de interrogação palavras chaves, frases e ideias apresentadas sintéticamente pelo falante para estimulá-lo a expandi-las, corrigi-las ou aperfeiçoá-las (Fazer perguntas e pedir  explicações tem efeitos similares à repetição). Por exemplo, o falante diz: “Ontem peguei o maior congestionamento quando cheguei da viagem.” O ouvinte diz “Viagem?”.

- Ajudar o falante a elaborar o que está dizendo:

- Pedir esclarecimentos de pontos obscuros. Não entender o que está sendo dito provoca a perda do envolvimento com a conversa, impossibilita reações corretas ao que foi dito e causa embaraços. Pedir esclarecimento também é um sinal de interesse e um sinal que deseja continuar ouvindo.  Por exemplo, diga: “Não entendi”; “Explique melhor isso”, “Dê um exemplo”.

- Pedir mais detalhes sobre o que foi dito. Por exemplo, diga: “fale um pouco mais sobre este fato”.

- Pedir esclarecimentos sobre os pressupostos do que foi dito. Por exemplo, diga, “O que você está supondo para fazer este raciocino” ou “Você tem outras hipóteses para explicar este fato?”

- Sintetizar o que ouviu. Por exemplo, dizer: “Pelo que entendi, você chegou à conclusão que o melhor é mudar de emprego”.

- Mostra empatia pelo ponto de vista do falante e pelas suas emoções. Uma maneira de fazer isso é refletir os sentimentos do falante. Por exemplo, faça comentários do tipo: “Isto deve ser muito chato para você.”, “Parece que você ficou muito contente com esta notícia”, “Você deve estar feliz com isso.”

- Usar palavras de compreensão que não indiquem a aprovação ao conteúdo do que está sendo dito e usar um tom positivo de voz. Por exemplo, dizer: “Vejo que você está muito convencido desta ideia”, “Parece que você ainda não se decidiu”.

- Resumir as principais ideias e conceitos. Você está em um dilema: ficar em um emprego que paga melhor ou ir para um emprego que paga menos mas que você gosta mais.” É muito motivador para o falante ouvir um resumo do que ele disse. Esse resumo indica que o ouvinte estava motivado para ouvir, que prestou atenção, entendeu e quer continuar a conversar.

- Encorajar o interlocutor para compartilhar suas ideias. Por exemplo, “Você não parece muito contente hoje. Algum problema?”

- Perguntar. Fazer perguntas abertas (perguntas que não permitem um simples “sim” ou “não” como resposta).

- Fazer pequenos comentários. Apresentar pequenos comentários para mostrar que está ouvindo (“Que terrível!”, “Não diga!”, “Não sei como você suportou isso!”, “Não acredito!” “Puxa!”,“Hummmmm”, “Ééé”).

- Não contestar imediatamente. Quem contesta imediatamente ou não ouviu, não assimilou, não queria ouvir aquilo ou estava preparando a resposta enquanto o outro falava.

- Não apertar os “botões quentes”. Não tocar em pontos que sabidamente vão causar fortes reações emocionais no falante e desviá-lo do que está relatando.

- Procurar entender as coisas do ponto de vista do interlocutor.

- Certificar-se se entendeu bem. Por exemplo, perguntar: “Estou entendendo isso e aquilo. É isso mesmo?”.

- Não interromper demais o interlocutor. Interromper demais significa que o que você tem a dizer é mais importante do que ele está dizendo.

Sinais que ouviu e elaborou

Quando aquele que ouviu faz algum tipo de intervenção que só é possível para quem captou e entendeu uma comunicação, isso mostra de maneira convincente que realmente a captou e elaborou o que captou. Por exemplo, um comentário pertinente ou uma mudança no modo de agir na direção daquilo que o interlocutor apontou indica com segurança que a comunicação foi recebida e elaborada por quem a recebeu.

Ouvir de verdade

Usar técnicas para ouvir ativamente tem três inconvenientes: (1) exige esforço para prestar atenção a algo que, em si, não desperta atenção e para representar aquilo que as técnicas exigem. (2) Uma vez que o ouvinte comece a simular ou a fingir interesse, ai aumenta a chance do interesse não aparecer. O esforço pode ficar muito desconfortável e esse desconforto atrapalha a apreciação de coisas agradáveis que venham a ser comunicadas pelo interlocutor e (3) o esforço tolhe a criatividade. Em geral quem esta esforçando só produz o mínimo para atender os requisitos. Quem está se comportando naturalmente maximiza a sua criatividade.

Às vezes, vale a pena usar técnicas para ouvir ativamente mesmo quando há pouco interesse no que está sendo dito. Por exemplo, isso dá chances para o envolvimento naquilo que o outro está dizendo. É como esforçar-se para ler as primeiras páginas de um livro que não é imediatamente interessante. Existe a possibilidade de que depois ele se torne interessante.

Caso você seja um ouvinte apagado e não esteja conseguindo mudar isso, consulte um psicólogo.

Seja um ouvinte interessante. Ouça ativamente.

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Por Ailton Amélio às 11h02

15/08/2011

Autocontrole: você alcança suas metas e evita encrencas?

Você está tentando parar de procurar uma pessoa que não vale a pena, parar de fumar, perder peso, fazer ginástica ou terminar uma tarefa e não está conseguindo?

Quase o tempo todo estamos tentando chegar a algum lugar, modificar algo em nós mesmos ou deixar de fazer algo. Parece somos programados para agir como aquelas pessoas que foram tomadas por uma vontade insaciável de descobrir o que existe atrás da próxima montanha. Assim que chegam lá, logo avistam outra nova montanha, a curiosidade se renova e o processo se repete infindavelmente.

Algumas pessoas são mais bem sucedidas que outras para alcançar seus próprios objetivos: parece que elas sempre conseguem o que querem, têm mais autocontrole e são mais realizadas. Outras pessoas estão sempre frustradas: travam batalhas perdidas contra o peso, contra o habito de fumar, sempre iniciam e desistem dos cursos de língua e nunca têm sucesso na área amorosa. Um dos motivos que levam certas pessoas a não persistirem é as suas incapacidades para tolerar frustrações. Todos nós somos mais controlados por consequências imediatas do que por consequências que poderão ocorrer no futuro. Além disso, sempre criamos a ilusão de que tais consequências futuras não ocorrerão conosco ou que poderemos lidar com elas, caso ocorram.

Neste artigo vamos examinar alguns mecanismos que ajudam a entender porque algumas pessoas são mais eficientes que outras para perseguirem e alcançarem os seus objetivos. Vamos examinar também alguns recursos que podem ser usados para aumentar as chances de sucesso desse tipo de empreendimento.

Fogo no traseiro e cenoura na frente da cara

Muita gente passa a vida fugindo de coisas desagradáveis e buscando recompensas que estão lá na frente. Essas pessoas agem pouquíssimas vezes motivadas apenas pela satisfação que está no presente ou pelo prazer intrínseco da ação. Geralmente são pessoas cheias de conflitos, desvitalizadas ou torturadas e chatas. Em certas circunstâncias, todos agimos assim. O problema é quando isso se torna um hábito, que persiste por muito tempo, e esvazia o presente de todo o prazer.

Geralmente essas pessoas que aproveitam pouco as satisfações do presente alimentam a fantasia de que quando atingirem determinadas metas tudo vai mudar e, então, começarão a viver uma vida que valha a pena.  Essas metas, assim que são atingidas, logo são substituídas por outras. Isso funciona como aquela anedota sobre o burro que só caminha quando o seu dono acende uma fogueira atrás do seu traseiro e coloca uma cenoura dependurada em uma vara que tem a outra extremidade amarrada na sua cela.

Pior ainda, quando essas pessoas cujas motivações têm origem no passado ou no futuro são ineficientes para alcançar as suas metas e vivem sempre lutando contra outras “tentações” que vão encontrando pelo caminho.


Resistências para adotar medidas explícitas de autocontrole

Parece que algumas pessoas têm verdadeira ojeriza de ações artificiais, programadas ou que exijam esforço. Isso é verdadeiro principalmente na área social, onde a espontaneidade é muito valorizada. Isso é compreensível. A simulação e a dissimulação nesta área produzem uma espécie de despersonalização e alijamento da sensação de estar de fato engajado em um relacionamento. Além disso, trata-se de uma submissão ao outro e de uma auto anulação por parte de quem tem que simular ou dissimular para obter os efeitos sociais desejados.

Essas pessoas que são alérgicas ao “artificial” se ressentem quando sugiro que vão ter que lançar mão de técnicas de autocontrole, pelo menos temporariamente, para conseguirem aquilo que querem.

Geralmente admiramos aquelas pessoas que possuem “força de vontade” e “autocontrole” e que, por isso, não precisam desses artifícios.


Agir por necessidade faz parte da vida

Somos preparados biológica, social e psicologicamente para adaptar a nossa forma de agir às circunstâncias: quando faz frio nos agasalhamos, não colocamos a mão no fogo, evitamos os fios elétricos, não atravessamos a rua quando carros estão passando em alta velocidade, não tentamos ir a nado até a Europa e não agimos com outras pessoas só da forma que queremos.

Estamos preparados psicologicamente para agir de forma que não gostamos para que obtenhamos melhores resultados no futuro. Por exemplo, quando professores e atores tímidos começam a lecionar e a representar, respectivamente, é uma tortura. Na hora da aula ou da representação não sentem nenhuma vontade de atuar e gostariam de estar em outro lugar. Muitos persistem porque assumiram tal compromisso e porque precisam ganhar a vida. Depois de um tempo, quando o medo diminui, ai fica claro se realmente gostam de lecionar ou de representar.


Autocontrole

O autocontrole implica na emissão de comportamentos que têm como principal finalidade a alteração das probabilidades de ocorrências futuras de outras ações do próprio indivíduo que está se autocontrolando: assinar um contrato ou programar o despertador, por exemplo, aumentarão as chances de cumprir aquilo que foi contratado ou de acordar na hora na hora desejada, respetivamente. Muitas vezes, essa ação autocontroladora só acontece em nossos pensamentos: decidimos silenciosamente colocar a correspondência em dia ou ir até o dentista ainda hoje.

Sistema contratual

 O sistema contratual é uma das formas de autocontrole que foi criada pelos psicólogos para ajudar aquelas pessoas que não possuem motivação suficiente para agir da forma que seria eficaz alcançarem suas metas: é assinado um contrato onde consta que o assinante se compromete a agir (ou deixar de agir) de uma determinada forma ou cumprir uma meta até uma determinada data. Este sistema tem sido usado com sucesso por pessoas que querem perder peso, parar de fumar, cumprir tarefas dentro do prazo, etc. (eu mesmo utilizei-a para terminar minha tese de doutoramento).

Esse tipo de contrato deve ser apresentado por escrito. O seu descumprimento implica em uma consequência que é especificada no contrato e deve ser implacavelmente atribuída pelo executor do contrato. Geralmente esse contrato deve ter um objetivo modesto e facilmente executável em pouco tempo, como perder meio quilo em uma semana. O descumprimento da meta implica no pagamento de R$50,00, por exemplo, previamente adiantado através de um cheque depositado com o executor. O cumprimento da meta implica na devolução do cheque e em alguma gratificação que o contratante concede para si mesmo (comprar aquele sapato que tanto queria). Em seguida, o contrato pode ser renovado por mais uma semana. Quando a meta final vai sendo alcançada, as consequências naturais vão motivando cada vez mais o contratante: ele constata que está ficando mais magro, começa a receber elogios e a melhorar sua autoestima. Tudo isso aumenta a sua motivação e o contrato vai se tornando cada vez mais dispensável.

Outros tipos de autocontrole

Muitas outras técnicas de autocontrole foram desenvolvidas por psicólogos. Algumas delas são as seguintes:

Reforçamento encoberto: imaginar o mais realisticamente possível as boas consequências que esta obtendo por ter se portado da forma pretendida.

Aumentar a visibilidade das consequências futuras: por exemplo, visualizar repetidamente fotos que mostram tipos de câncer que pode ser causados pelo fumo. Colocar fotos na porta da geladeira da época que estava magro.

Comprometer-se publicamente com as modificações pretendidas: isso ajuda a controlar-se para evitar que o fracasso produza constrangimentos.

Caso você não esteja conseguindo controlar-se para alcançar os seus objetivos, procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h45

08/08/2011

Iniciativas de contato: você dá o primeiro passo?

Nesse momento que você está lendo este artigo existem muitas pessoas que gostariam de ter um relacionamento com você ou de aprofundar o relacionamento que já existe entre vocês. Esses relacionamentos poderiam ser muito prazerosos, reconfortantes e proveitosos para ambas as partes. A criação e o aprofundamento de relacionamentos podem acontecer na área pessoal, amorosa, social e profissional.

No entanto, muitas vezes você e essas pessoas não tomam esse tipo de iniciativa e ficam dentro dos seus mundinhos. Esta falta de iniciativa ocorre porque não queremos passar pelo desconforto temporário de sair para um território mais inseguro, onde temos que nos adaptar a novas pessoas e podemos ser rejeitados por elas.  Os dois exemplos apresentados em seguida mostram como as pessoas podem ser ajudadas para tomar mais iniciativas desse tipo

Certa vez atendi uma paciente, Sandra, que havia resolvido retomar à vida amorosa após muitos anos de viuvez. Após enviuvar-se, ela ficou muito triste e passou vários anos desinteressada desse assunto. Agora esse tipo de interesse havia voltado e ela sentia-se pronta para novos relacionamentos.

Sandra era muito tímida, mas logo na primeira sessão de terapia declarou: “Farei o que for preciso para reiniciar minha vida amorosa. Estou muito decidida”. Trabalhamos a sua timidez para que ela tivesse coragem de tomar iniciativas de contatos ou, pelo menos, para que tomasse iniciativas que aumentassem as chances da outra parte fazer contato (rodear a outra pessoa, usar objetos facilitadores de contatos, criar situações facilitadoras, etc.). Após algum tempo de terapia, a sua timidez foi colocada sob controle. Ai então, ela tomou a seguinte decisão, que fez toda a diferença: “Sempre que estiver na presença de uma pessoa que me interesse, farei contato ou tomarei alguma medida que aumente as chances de uma iniciativa de contato dessa pessoa ou da minha parte”. Por exemplo, caso estivesse em um restaurante self-service e visse um homem interessante, ela esperava a hora que ele fosse servir-se e corria para pegar a fila logo atrás ou à sua frente. Enquanto ambos permaneciam na fila, ela sempre achava um jeito de perguntar alguma coisa para ele como a identificação uma comida que não estava conseguindo identificar ou comentar sobre o bom aspecto de um prato. Dai quase sempre surgia uma conversa.

Alguns meses e muitos contatos depois, ela ampliou muito os seus relacionamentos, começou a ser convidada para muitos eventos, começou a sair com os novos conhecidos e vários tipos de relacionamentos amorosos começaram a surgir.

Outro exemplo:

Atendi um rapaz (“Eduardo”) que tinha muita dificuldade para iniciar contatos. Ele estava fazendo cursinhos preparatórios para concursos públicos. Esse tipo de cursinho geralmente permite que os alunos optem pelas matérias que querem assistir e, por isso, os colegas de cada aula eram diferentes dos colegas de outras aulas. Já fazia um bom tempo que ele frequentava esse tipo de cursinho. Apesar disso ele, não tinha feito nenhum amigo não tinha iniciado nenhum relacionamento amoroso. Ele não tomava nenhuma iniciativa de contato e também não facilitava tais iniciativas por parte das outras pessoas. Eu brincava que ele tinha o dom da invisibilidade social e que poderia vender os seus segredos para os serviços secretos de diversos países.

Trabalhamos para que ele tomasse a decisão de intensificar os seus contatos: ele adotou a seguinte regra: a cada dia faria um pouco mais do que já vinha fazendo: se cumprimentasse alguém apenas com um aceno de cabeça, passaria a dizer bom dia. Se já dizia bom dia, passaria a dar mais ênfase na voz e a sorrir. Se já fizesse isso, passaria a cumprimentar com um aperto de mão. Ele também se comprometeu a chegar um pouco antes das aulas e a ficar na escola um pouco depois. Nos intervalos se aproximaria das pessoas e participaria dos grupos de conversa.

A iniciativa de contatos pode acontecer em duas circunstâncias: (1) como primeiro contato entre desconhecidos e (2) entre conhecidos. A intensificação de contatos já existentes pode acontecer através do aumento da frequência ou da qualidade dos contatos.

Neste artigo vamos examinar como as iniciativas de contatos têm profundo impacto nos relacionamentos.

A iniciativa de contato pode ser tão ou mais importante do que seu o conteúdo

A iniciativa de contato é importante por si mesma, principalmente quando existem bons indícios que ela foi motivada pelo prazer de comunicar com a pessoa a quem ela é dirigida. Boas iniciativas desse tipo enviam mensagens bastante claras para a pessoa que foi abordada: “Você é importante para mim.”, “Faço questão de me aproximar de você.”, “Acho importante conversar com você.” Por exemplo, os significados da abordagem de possível parceiro amoroso são eloquentes em um local de paquera. Muita gente me pergunta o que deve falar ao abordar uma pessoa desconhecida, após um flerte à distância (na maioria das vezes quem faz este tipo de pergunta são os homens tímidos). Eu sempre digo que o mais importante já foi feito: a iniciativa de caminhar até a outra pessoa e dirigir-lhe a palavra. A paquera mútua, que aconteceu antes da abordagem, forneceu os indícios da sua motivação amorosa. Neste contexto, o conteúdo do que é dito não é tão importante. Pelo contrário, o conteúdo da conversa deve ser ameno e delicado. É importante apenas não dizer coisas absurdas ou ofensivas.

Funções das iniciativas e das intensificações de contatos

A iniciativa de contato ajuda a iniciar um relacionamento com o pé direito. Quem toma a iniciativa é visto como interessado simpático, proativo, disponível e disposto ao relacionamento por quem a recebe. A iniciativa de contato pode ter efeitos duradouros no relacionamento por que ajuda a formar uma espécie de enfoque positivo para a interpretação de outras ações que sai apresentas em seguida por quem a tomou e dá uma espécie de credito ao seu autor.

As iniciativas e intensificações de contato podem produzir os seguintes tipos de efeitos:

- Iniciar um novo relacionamento. Por exemplo, abordar um desconhecido em um local de paquera e dessa forma, iniciar um namoro.

- Manter um relacionamento já existente. Por exemplo, ligar para a casa de um amigo para cumprimentá-lo pelo aniversário renova a força do vínculo.

- Intensificar um relacionamento já existente. Por exemplo, aumentar o grau de amizade através do aumento de vezes que procura a companhia do amigo.

- Transformar um relacionamento já existe em outro mais íntimo. Por exemplo, transformar um colega de trabalho em amigo ou uma conhecida em namorada.

- Desbloquear comportamentos positivos que estavam inibidos. Quando uma das partes “dá o sinal verde”, a outra pode manifestar tudo aquilo que já sentia e pensava de positivo por quem deu o sinal.

Maneiras de iniciar primeiros contatos

- Aproveitar oportunidades para iniciar contatos. Neste caso, quem faz o contato aproveita oportunidades criadas pelas circunstâncias para fazer o contato: segurar uma porta para a outra pessoa passar, oferecer-lhe o lugar para sentar, etc.

- Criar pretextos para iniciar contatos. Um pretexto é uma razão inventada com a finalidade de provocar e justificar uma iniciativa de contato e, assim, não deixar explícito que o verdadeiro motivo da iniciativa é outro. Existem vários tipos de pretextos que podem ser utilizados para iniciar ou incrementar contatos, tais como: (1)  facilitar iniciativas de contato da parte de outras pessoas. Uma maneira de facilitar a iniciativa de contato por parte de outras pessoas em relação a nós é criar pretextos para que elas tomem essas iniciativas. (2) Usar acessórios que facilitem as iniciativas de contatos de outras pessoas. Por exemplo, passear com cachorros, usar camisetas de times de futebol (principalmente no dia que aquele time vai jogar, facilita comentários dos fãs do time da camiseta e do time adversário: “Esse é um time bom!”, “Você tem bom gosto!”, etc.).

- Criar oportunidades que diminuam a inibição da outra pessoa para tomar iniciativas de contato. Exemplos (1) Afastar-se do grupo de acompanhantes (é mais fácil abordar uma pessoa que está só do que quando ela está inserida em um grupo de desconhecidos). (2) Quando sentado, deixar um lugar vago ao lado (facilita para que a outra pessoa se aproxime e sente).

- Criar acontecimentos que apelem para a intervenção da outra pessoa. Derrubar algo no chão para que o outro possa pegar. Antigamente a moda era o lencinho. Atualmente pode ser qualquer outra coisa: uma caneta, uma agenda, etc.

- Apresentar comentários não direcionados para o outro responder. Uma maneira de iniciar contatos, quando estiver na presença da pessoa alvo, é fazer comentários em voz alta, como se estivesse falando sozinho, sobre qualquer fato que esteja ocorrendo ali no local onde se encontram. Por exemplo, fazer comentários em voz alta ao ler um quadro de aviso (“que absurdo este aviso!”, “ah, ah, ah, está é muito engraçada!”, etc.).

- Rodear. O rodear consiste ir até o local onde a outra pessoa está ou empenhar-se na mesma atividade que ela já está empenhada e permanecer enquanto ela permanecer e segui-la quando ela mudar de local ou de atividade.  As sincronicidades, tanto na permanência quanto na mudança de atividades e locais, vão revelando o desejo de fazer contato com a pessoa que está sendo rodeada.

- Aproximar e permanecer a uma distância apropriada para conversar. Existe uma faixa de distancia que é apropriada para conversar informalmente. Tanto a atividade influencia a distância assumida como assumir uma determinada distância influencia a atividade que é desenvolvida.

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Por Ailton Amélio às 11h44

01/08/2011

As mulheres devem tomar mais iniciativas amorosas?

Embora exista uma crença muito difundida de que são os homens que tomam a iniciativa amorosa, existem evidências de que as mulheres são tão ou mais ativas do que eles no flerte. Os homens apenas têm um papel mais óbvio do que elas. Por exemplo, imagine uma mulher dizendo o seguinte para um rapaz:

“Você já assistiu o filme Meia Noite em Paris? Já ouvi falar muito deste filme. Dizem que é muito interessante. Eu ainda não o assisti. Quase todo mundo já o viu. Por isso não encontro quem queira assisti-lo comigo. Este fim de semana não tenho nada para fazer e bem que eu gostaria de assisti-lo.”

O rapaz então fala:

 “Vamos?”

Podemos dizer que o homem é que foi ativo porque tomou a iniciativa do convite? Claro que não. A mulher trabalhou muito mais do que ele para que o encontro acontecesse.

Além disso, também existem algumas evidências de que a mulher é muito mais ativa do que os homens nas fases iniciais de um relacionamento  amoroso . Os homens, nesta fase, muitas vezes só se tornam muito ativos quando estão querendo sexo com a parceira (Devido à carência de pesquisas brasileiras recentes sobre esse tema, os estudos citados neste artigo são antigos e norte-americanas. Por isso, devem ser considerados com cautela). 

Também existem evidências de que as iniciativas femininas para iniciar um relacionamento amoroso são bem vistas por uma boa parte dos homens e das mulheres. Por exemplo, uma pesquisa realizada por Muehlenhard e McFall (1981)1 mostrou que a pior coisa que uma mulher pode fazer é não fazer coisa alguma para verificar se o seu interesse amoroso por um parceiro é correspondido.

Estes pesquisadores perguntaram a 579 estudantes de um curso introdutório de psicologia (431 homens e 148 mulheres, cuja média de idade era  19 anos) o que uma mulher deveria fazer caso estivesse interessada em sair com um homem mas este não a tivesse convidado. Nesta pesquisa, foram oferecidas três alternativas de respostas para os participantes: (1) convidá-lo para um encontro, (2) apresentar sinais de interesse em ter um encontro amoroso com ele ou (3) esperar que ele tome a iniciativa de convidar.

A maioria dos homens (69,2%) e a maioria das mulheres (62,7%) afirmaram que o melhor tipo de iniciativa que pode ser apresentada por uma mulher nesta situação é apresentar sinais de que está interessada em sair com o homem.

O segundo tipo de iniciativa, convidar o homem, é fonte de divergência entre homens e mulheres: 26,5% dos homens e apenas 2,7% das mulheres aprovaram este tipo de iniciativa. Esta diferença entre as percentagens de homens e mulheres aparentemente contradiz a crença popular de que são os homens que têm mais preconceito contra as iniciativas femininas.

 “Esperar que o homem convide” só recebeu apoio substancial por parte das mulheres: 34,7% delas apoiaram este tipo de inação contra apenas 4,3% dos homens. Estas percentagens indicam que os homens querem que as mulheres atuem mais ativamente para iniciar os relacionamentos amorosos. Cerca de um terço das mulheres, no entanto, na época que esta pesquisa foi realizada, simplesmente preferiam esperar que os homens tomassem todas as iniciativas para iniciar um relacionamento  amoroso!

Um estudo exploratório que realizei para esclarecer essa questão do preconceito contra o convite direto por parte das mulheres indicou que os homens aprovam este tipo de convite, mas tendem a considerar as mulheres que os apresentam como sendo “avançadinhas demais” e “fáceis para fins sexuais”. Esta forma masculina de encarar as iniciativas femininas parece explicar por que elas aprovam menos este tipo de iniciativa do que eles. É que elas não querem ser encaradas como mulheres “fáceis” ou como “objetos sexuais”.

Considerando em conjunto essas percentagens, podemos concluir que a grande maioria dos homens (95,7%) e a maioria das mulheres (65,4%)  acham que uma mulher deve apresentar sinais de que está interessada em um homem ou até convidá-lo para sair, quando ela tem este tipo de interesse.

Esta pesquisa indica, portanto, que quase a totalidade dos homens apoia a iniciativa feminina para começar um relacionamento amoroso. Embora a grande maioria das mulheres também apoie algum tipo de iniciativa feminina, cerca de um terço delas ainda achava, na época que esta pesquisa foi realizada, que o melhor para uma mulher seria simplesmente esperar a iniciativa masculina.

Ainda que, atualmente, as mulheres brasileiras sejam bem mais ativas do que as mulheres norte-americanas da época em que este estudo foi realizado, existem indícios de que, ainda hoje, no Brasil, a grande maioria dos homens e das mulheres quer que as mulheres sejam mais ativas no início de um relacionamento  amoroso do que são agora.


Como as mulheres insinuam interesse amoroso

As mulheres possuem diversos recursos para mostrar interesse amoroso e induzir os parceiros a tomarem iniciativas mais explícitas para iniciar este tipo de relacionamento. Algumas das principais dessas iniciativas são as seguintes:


Exibir comportamentos eficazes para provocar a aproximação de pessoas do sexo oposto.

Monica Moore (1985)2, famosa pesquisadora norte-americana, identificou 52 comportamentos que, adotados pelas mulheres em locais públicos, provocam a aproximação masculina. Os 10 destes comportamentos mais frequentemente observados por esta autora foram os seguintes:

- Olhar de varredura (o olhar percorre todo o ambiente).

- Olhar dardo (olhar para uma pessoa durante 3 segundos ou menos).

- Fixar o olhar (olhar para uma pessoa por mais de 3 segundos).

- Sorrir (mostrando ou não os dentes).

- Rir (geralmente após algum comentário).

- Dança solitária (a mulher dança sozinha na pista de dança).

- Jogar a cabeça para trás (geralmente quando ri).

- Ajeitar os cabelos.

- Inclinar o tronco em direção ao parceiro (a mulher está sentada).

 - Gesticulação (aumentada durante a fala).


Apresentar transformações físicas e posturais na presença de um parceiro atraente.

Albert E. Scheflen (1965)3 descreveu várias transformações físicas e posturais que acontecem com uma pessoa que está na presença de alguém atraente: aumento da tensão muscular, murchar a barriga, endireitar as costas, etc. Tais transformações fazem com que a pessoa fique mais atraente e sinalizam para o parceiro que ela está sendo afetada pela sua presença.


Criar pretextos para encontros

As mulheres são peritas em criar pretextos para novos encontros quando estão interessadas amorosamente em alguém: pedem ajuda para realizar tarefas, mostram interesse em conhecer a atividade do parceiro, pedem emprego, etc.


Flerte não-verbal

As mulheres apresentam comportamentos não verbais mais variados e mais frequentes do que os homens. Elas, por exemplo, exibem as palmas das mãos, inclinam lateralmente a cabeça e abrem as pernas quando estão na presença de alguém por quem têm interesse amoroso.

As mulheres que insinuam mais e são mais diretas têm mais chance de iniciar relacionamentos amorosos. Os homens agradecem!

Este artigo foi baseado em partes dos capítulos 6 e 9 do meu livro “O Mapa do Amor”, Editora Gente.


[1] Muehlenhard, C. L. e outros (1986). Verbal and nonverbal cues that convey interest in dating: Two studies. Behavior Therapy, 17, 404-419.

2Monica M. Moore( 1985) Nonverbal courtship patterns in women: Context and consequences.  Ethology and Sociobiology, Volume 6, Issue 4. pp. 237-247

3Scheflen, A. E. (1965). Quasi-courtship behavior in psychotherapy. Psychiatry, 28, 245–257. 

Por Ailton Amélio às 11h08

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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