Blog do Ailton Amélio

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31/01/2012

Quão carismático ou apagado você é?

Esse artigo traz algumas reflexões sobre o carisma. Essas reflexões são frutos das minhas observações de varias pessoas que encontrei no dia a dia e de personagens midiáticas, cujas presenças atraem, prendem a atenção, são admiradas e imitadas. Outros estudos mais controlados são necessários para aperfeiçoar e aumentar a confiança dessas conclusões.

Existem várias formas de fazer-se notar, “aparecer” e influenciar pessoas: apresentar uma aparência não convencional, comportar-se de forma excêntrica, realizar proezas (atléticas, heroicas, santificadoras, demonizantes, etc.), possuir muita riqueza, fama ou poder. Uma delas, a mais admirável, talvez, é possuir carisma. Esse artigo trata dessa última forma, que é produzida pelo jeito de ser e de agir socialmente.

Em primeiro lugar, para familiarizar-se com a minha concepção sobre esse fenômeno psicológico e verificar como e quanto você se identifica com ela, responda o questionário abaixo.


Quão carismático você é?

Dê uma nota de zero a dez que indique o quanto cada das seguintes afirmações descreve a sua forma de ser: 0 = não descreve nada, 5 = descreve mais ou menos e 10 = descreve totalmente.  (registre as suas notas em um papel).

(   ) 1- As minhas ações são mais controladas pelo que está acontecendo no presente do que pelas suas consequências futuras.

(   ) 2- Estou sempre motivado para fazer alguma coisa. A minha vida está longe de ser um marasmo.

(   ) 3- Durante a maior parte do tempo, faço coisas que me interessam e me dão prazer, ao invés de coisas que não são intrinsecamente prazerosas.

(   ) 4- Sou pouco convencional.

(   ) 5- Sou sempre participativo: não sou retraído e apagado nos encontros sociais.

(   ) 6- Sou ousado: sou capaz de fazer coisas que pouca gente faz em situações sociais.

(   ) 7- Minha forma de agir tem um bom grau de imprevisibilidade: frequentemente ajo de forma inesperada para a maioria das pessoas.

(   ) 8- Não me impressiono e nem me deixo controlar muito pelas credenciais de seus interlocutores.

(   ) 9- Dou mais importância para agir do meu jeito do que para as consequências que essas ações possam ter.

(   ) 10- Sou muito ligado nas pessoas, mas não deixo que aquilo que elas querem ou esperam de mim prepondere sobre aquilo que estou sentindo e pensando.

(   ) 11- Durante as minhas participações sociais, o que dita o uso do meu tempo é aquilo que estou sentindo e não as expectativas dos seus interlocutores ou as consequências que eles possam me impor.

(   ) 12- Sinto que a minha vida tem sentido e densidade.

Some as suas notas. Quanto mais essa soma se aproximar de 120, mais você se aproxima desse protótipo de carisma.

(Esse questionário ainda está sendo desenvolvido. Por enquanto, ele tem apenas o objetivo de facilitar a sua reflexão sobre esse fenômeno e não classifica o seu grau de carisma com precisão).

Caso, além das características incluídas no questionário acima, você ainda possua outros atributos, como beleza e competência, mais potencializado ainda ficará o seu poder para atrair atenções e influenciar pessoas.


Confusões da literatura sobre o carisma

Para escrever esse artigo examinei várias publicações sobre esse tema: embora essa literatura apresente ideias interessantes, muitos autores confundem carisma com bondade, altruísmo, respeito pelas outras pessoas, capacidade de manipulação social, capacidade para ouvir pessoas e confiabilidade. Claro que o carismático pode ter todas essas qualidades. No entanto, não creio que possuir todas elas seja necessário ou suficiente para produzir uma pessoa carismática.


Como defino o carisma

Nesse artigo, uso a palavra “carismático” para me referir àquelas pessoas que fascinam pelas suas formas de ser e agir: mesmo que não saibamos nada sobre elas, mesmo que elas não se destaquem pelas suas aparências ou não se comportem de forma exótica, ainda assim, após observá-las por pouco tempo, elas passam a atrair a nossa atenção, de tal forma que poderíamos ficar muito tempo vendo-as se comportar ou falar. (Essa é uma definição prototípica: são apresentados casos típicos e a inclusão na categoria definida é mais ou menos satisfatória dependendo do quanto cada caso se pareça com o protótipo).

Pense um pouquinho naquelas pessoas que atraem a sua atenção. Pensou? Agora exclua aquelas que lhe atraem principalmente pelo físico, pela forma como se produzem (vestuário, corte de cabelo, maquilagem, adornos, etc.), pelo dinheiro que têm, pela coragem para tomar decisões nos negócios, por serem famosas, pelo sobrenome ou por combinações desses elementos. As pessoas que sobraram, após essas exclusões, são aquelas que defino como carismáticas. Fica mais fácil distingui-las quando estão entre pessoas que lhes são semelhantes em status, poder, posses e aparências: nesta situação, aquelas que continuam a se destacar, embora não impressionem os outros presentes devido aos atributos que todos ali possuem, são as carismáticas.

Quando me deparo com uma pessoa assim na vida real ou nos meios de comunicação (principalmente na TV), procuro observá-la ou gravá-la em vídeo, respectivamente.

Para ilustrar melhor esse fenômeno, vamos examinar agora algumas características que geralmente estão presentes nos personagens interpretados por Jack Nicholson.

Escolhi esse ator como exemplo porque ele é quase uma unanimidade quando são citados atores carismáticos. Além disso, ele ilustra bem o que estou chamando de carisma, porque não é lindo, não é acrobático, não interpreta heróis que se envolvem em aventuras alucinantes, não briga bem, não tem superpoderes, não faz estripulias para prender a atenção e nem precisa aparecer em 3D. A sua força está na densidade das suas interpretações.


Algumas características dos personagens interpretados por Jack Nicholson

- Pessoas inteiras, autovalidantes: não demonstram conflitos internos.

- Estão continuamente motivadas: estão sempre perseguindo um objetivo ou usufruindo um acontecimento ou situação.

- Ousadia: os posicionamentos tradicionais são desafiados

- Imprevisibilidade: são pessoas que não seguem a cartilha dos bons comportamentos.

- Personalização da interpretação dos acontecimentos: vêem os acontecimentos de uma forma pessoal e não pelos parâmetros das convenções sociais.

- São pessoas que se envolvem emocionalmente com outras pessoas e acontecimentos.

- Vivem mais em função do presente não de consequências futuras. Vivem um dia de cada vez.

- São controladas mais pelas suas posições em relação aos acontecimentos e não pelas definições sociais das coisas como emprego, amizade, parentesco, ética profissional.

Creio que é perfeitamente possível aumentar o carisma através de mudanças na forma de interpretar a si mesmo, as outras pessoas e as normas sociais.

O seu brilho anda meio apagado? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 10h43

24/01/2012

O medo pode ser um grande aliado.

Certa vez assisti uma entrevista na TV com um famoso alpinista. A certa altura, o entrevistador perguntou para ele qual era a qualidade mais importante de um bom alpinista. Sem hesitação, ele respondeu: “A dose certa de medo. O alpinista que tiver medo demais não escalará nenhuma montanha que valha a pena. Aquele que tem medo de menos correrá riscos excessivos e, neste esporte, não viverá muito tempo”.

Essa lição do alpinista é válida para outras situações da nossa vida. O medo é um excelente sistema de alarme e motivacional: ele nos avisa quando existem riscos e nos motiva para agir ou deixar de agir com o objetivo de diminui-los.

Uma análise mais profunda dos medos que impedem as pessoas de agir em diversas circunstâncias sociais revela que todos esses medos têm razão de ser e são muito úteis. O que pode torna-los indesejáveis e disfuncionais são as desproporções entre suas magnitudes e os tamanhos dos riscos envolvidos tanto na ação quanto na inação.


“E se...”: quando o medo é mau conselheiro

Um amigo que era muito tímido certa vez confidenciou que o seu maior inimigo na área amorosa era o “E se”. Pedi que explicasse isso melhor.

Ele revelou que quando pensava em fazer uma tentativa amorosa com uma mulher que muito o atraia, logo surgiam pensamentos do tipo “E se...”: “E se ela me der um fora direto e seco?”, “E se eu não estiver à sua altura?”, “E se essa tentativa incomodá-la muito?”, “E se ela achar que eu não me enxergo por estar querendo algo com ela, que é muita areia para o meu caminhãozinho?”,  “E se eu ficar muito inseguro na hora do convite e isso fazê-la desprezar-me?

Por ver tantos riscos no horizonte, ele preferia não agir e, por isso, apesar dos seus trinta e tantos anos, nunca havia namorado!


Subestimação dos motivos do medo

Existem situações onde a realização daquilo que queremos envolve a participação de outras pessoas ou depende das suas permissões ou aprovações. Nestes casos podemos hesitar porque tememos uma negação daquilo que queremos, por parte dessas pessoas

Ando muito impressionado com o tamanho do medo que muitas pessoas mostram para tomar medidas que aparentemente só lhes trariam benefícios tais como pedir um aumento, tomar a iniciativa de propor assuntos para conversar, dizer o que sentem e pensam e mostrar claramente o interesse amoroso por uma parceira muito admirada.

Essas pessoas, quando deixam de agir adequadamente, além de sofrerem as consequências de ganhar menos, se portam como conversadores chatos e não namoram aquelas pessoas que adoram, ficam se martirizando por não agirem da forma que avaliam ser desejável e razoável. Além disso, essa inação diminui suas autoestimas e deteriora suas autoconfianças.

A nossa tendência, nos casos citados acima, é subestimar a relevância dos medos e incentivar os medrosos a fazerem aquilo que temem. Os conselhos que muitas vezes lhes são fornecidos nessas situações revelam uma compreensão apenas parcial dos motivos do grande temor que está sendo exibido. Um desses conselhos, por exemplo, é baseado na percepção parcial das fontes de medo: “Se não tentar, não vai obter aquilo que quer. Portanto, você só tem a ganhar tentando”. Vamos ver aqui que essa afirmação pode estar muito errada: em certas circunstâncias, a ação pode, sim, implicar em outras perdas.

Por exemplo, uma tentativa mal sucedida pode provocar danos à autoimagem e autoestima daquele que a apresentou, prejuízos à imagem do seu autor perante aqueles que dela tomaram conhecimento e empecilhos para a preparação de uma nova tentativa porque agora quem poderia aprová-la agora já está ciente das intenções daquele que a apresentou e ficará prevenido quanto à sua forma de agir.  

Veja, por exemplo, as possíveis consequências negativas que podem ter um pedido de aumento ou promoção ou um convite direto para um encontro amoroso ou, nos exemplos apresentados abaixo.


Consequências da negação de um pedido direto de aumento ou promoção

Porque pode ser tão difícil pedir um aumento salarial ou promoção? Quem solicita um aumento ou promoção revela a sua insatisfação com a situação atual. Os aspectos positivos de um pedido de aumento ou promoção são o ganho econômico e a revelação de uma autoavaliação positiva. Caso o pedido não seja atendido, o chefe fica ciente que frustrou o seu autor e que este está insatisfeito com a sua posição atual.  Além disso, aquele que teve o seu pedido negado pode se sentir pressionado para insistir ou procurar outro emprego.

Convenientes e inconvenientes de convites diretos para um programa que dá início a um relacionamento amoroso

        Quando estamos interessados amorosamente em uma pessoa, porque simplesmente não a convidamos para um programa? Porque ficamos rodeando e colhendo informações sobre a sua receptividade ao convite. Vamos apresentar aqui algumas das principais vantagens e desvantagens de convites diretos e indiretos para programas que representam o início de um relacionamento amoroso (essas vantagens e desvantagens foram apresentadas anteriormente no meu livro “O Mapa do Amor”, Editora Gente).


Vantagens do convite direto.

Um convite direto é vantajoso quando:

·         A não aceitação por parte do convidado não é muito importante. Por exemplo, o convidador é seguro, tem uma boa auto-estima e admira o convidado apenas o suficiente para querer iniciar um relacionamento amoroso. Neste caso, uma recusa em aceitar o convite não pesa muito.

·         O convidador prefere ouvir um não a permanecer numa situação indefinida e desgastante que já está durando muito tempo. Neste caso, as perdas pela recusa do convite parecem menores do que continuar perdendo tempo em uma situação indefinida.

·         O convidador é muito assertivo e está seguro de que o convidado  vai aceitá-lo.


Desvantagens do convite direto.

Um convite direto é desvantajoso quando:

- O interesse do convidado está apenas começando a nascer. Neste caso, o convite direto para iniciar um relacionamento amoroso queima  etapas no desenvolvimento do relacionamento amoroso. Neste momento, o convidado pode estar preparado ou motivado apenas para aceitar iniciativas mais leves, tais como um convite para ir a um show, bater papo, ir ao cinema, etc., mas não para aceitar um pedido formal para iniciar algum tipo de relacionamento amoroso. Estas iniciativas mais leves podem preparar o convidado para aceitar um maior envolvimento e comprometimento. A pergunta direta é do tipo “pegar ou largar”.

- Inflige normas sociais. Em geral Convidar diretamente não é uma forma socialmente aprovada de iniciar um relacionamento amoroso. Assim, quem apresenta este tipo de convite será encarado com suspeição, podendo inclusive incorrer em sanções sociais. Por exemplo, aquelas mulheres que tomam a iniciativa direta de abordar e convidar uma pessoa desconhecida para um encontro amoroso poderão ser consideradas “fáceis” para fins sexuais.

- Implica no risco de perda de um relacionamento que já existe. Muitas pessoas têm um relacionamento extra-amoroso (amizade, relações comerciais etc.) com alguém por quem também sentem atração amorosa. Neste caso, estas pessoas temem tomar iniciativas amorosas devido às suas possíveis conseqüências para o relacionamento extra-amoroso que já existia previamente.

- Implica em prejuízos para a autoestima. Ser rejeitado diretamente pode ser muito destrutivo para aquelas pessoas que têm problemas de autoestima. A autoestima é mais afetada quando o convite para iniciar um relacionamento amoroso foi formulado de uma forma direta e explícita e teve como resposta uma rejeição direta e explícita. Certo grau de ambiguidade, tanto na manifestação como na rejeição de um interesse amoroso, ajuda a “salvar a cara do verificador e do verificando” e, assim, contribui para preservar a autoestima de quem é rejeitado.

- Diminui a chance de conquistar o convidado no futuro. Esta diminuição acontece porque várias das estratégias utilizadas para cativar uma pessoa pressupõem que quem está sendo cativado não se encontra ciente do interesse amoroso por parte de quem as utiliza. Após uma pessoa tomar conhecimento do interesse amoroso de alguém, ela ficará de sobreaviso e tenderá a encarar todas as ações deste alguém como tendo uma motivação amorosa. Quando isto acontece, a pessoa que estava sendo cativada sente-se obrigada a tomar imediatamente uma decisão sobre a aceitação ou não de um relacionamento amoroso com o cativador. Caso não aceite tal relacionamento, ela passará a rechaçar todas as ações cativantes de quem formulou o convite.

Use o medo a seu favor: ouça os seus avisos e deixe-se guiar pelas suas motivações quando elas são razoáveis e proporcionais aos riscos.

Você tem medos excessivos ou é ousado demais? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h38

17/01/2012

Você consegue transpor círculos de giz?

Porque algumas pessoas ficam onde estão, vivendo a vida em condições bastante adversas, enquanto outras pegam o transporte coletivo para lugares mais acolhedores e se tornam intelectuais, empresários e até presidentes?

Existem várias maneiras de viver a vida. Algumas delas produzem resultados parecidos e, por isso, não existem muitos motivos para trocá-las entre si. Outras produzem graus diversos de satisfação para aqueles que as adotam. É muito intrigante tentar imaginar porque que muitas pessoas que poderiam migrar facilmente (do ponto de vista do observador) para estilos muito mais satisfatórios de vida não o fazem.

Neste artigo vamos examinar alguns dos motivos que contribuem para que todos nós vivamos dentro de verdadeiros círculos de giz, que mais parecem muralhas, quando fora deles existem condições bem mais satisfatórias de vida do que dentro deles.


O peru não consegue sair do circulo de giz

Li um relato que afirmava que os perus têm dificuldades sair de um círculo de giz que foi desenhado ao redor dos seus corpos. Eles parecem encarar tal círculo como uma muralha intransponível.

Do ponto de vista humano, é fácil ver o absurdo da situação do peru e ficar admirado com a sua distorção perceptual. No entanto, nós humanos também nos encontramos dentro de vários círculos de giz dos quais não conseguimos sair. Cada um de nós pode ver que as barreiras que encarceram outras pessoas são círculos de giz, mas não conseguimos ver ou transpor as nossas próprias barreiras desse tipo. Por exemplo, é fácil ver o absurdo daqueles quer permanecem em situações humilhantes, trabalham em empregos que estão bem aquém das suas capacidades, fumam, fazem sexo sem proteção ou poluem o nosso planeta, mas não vemos ou não conseguimos nos libertar de situações semelhantes que nos aprisionam.

Este tipo de situação, onde pessoas permanecem em uma situação irreal, foi bem retratada em dois filmes. Vamos relembrá-los agora.


Show de Truman

(Filme americano de 1998, dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey).

Truman foi criado dentro de um estúdio. Todas as pessoas com as quais ele convive no dia a dia são atores, mas ele não sabe disso. A vida cotidiana de Truman é televisionada para o mundo inteiro. As tentativas de Truman de sair do estúdio são contornadas por truques criados pela produção do show. Por exemplo, ele nunca encontra passagem para viajar para os locais turísticos que estão fora do estúdio. Outro exemplo, ele é levado a crer que o mar, uma possível saída para outros locais, é muito perigoso, pois seu pai morreu ali, enquanto navegava. Ele, no entanto, começa a suspeitar que haja algo irreal em toda aquela situação.


A Vila

(Filme americano de 2004, dirigido por M. Night Shyamalan e estrelado por Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix e Adrien Brody).

Nove pessoas resolvem se retirar da sociedade onde vivem por não concordar com as suas práticas. Fundam uma vila em um local cercado por florestas e todos os que nascem ali são criados na crença de nessas florestas existem monstros. Elas também são levadas a crer que há um trato com esses monstros: eles não atacam a vila e os habitantes da vila não entram na floresta. Um rapaz precisa de remédio para a namorada e se propõe a ir busca-lo fora da Vila. Esse é o enredo do filme.


A gaiola dourada

No caso desses dois filmes, os obstáculos para migrar para fora das localidades são colocados por outras pessoas: os produtores do Show e os nove anciões da Vila. Nestes dois casos, essas mesmas pessoas também tomaram providências para dar sentido à vida e torná-la atraente para aqueles que estão aprisionados dentro dessas gaiolas de ouro.

Muitas vezes a distorção perceptual que nos leva a crer que o círculo de giz é uma barreira intransponível não foi criada pela sociedade, mas sim pela genética (esse parece ser o caso do pavão). Outras vezes ela é criada pelas experiencias pessoais que deram margem à conclusôes equivocadas ou distorcidas (modelos afetivos dos pais, traumas, etc.). Geralmente as distorções são geradas por combinações de diferentes causas.

Vamos ver agora um exemplo da criação de círculos de giz e rodas de atividades para aprisionar e explorar pessoas similares àquelas do Show de Truman


Viciados em rodas de atividades

Creio que você já viu um hamster, rato branco ou camundongo que corre em uma roda de atividade. Essa roda é um cilindro ôco dentro do qual o animal corre sem sair do lugar porque tal cilindro gira, movido pelo peso do animal que, ao correr, tenta subir pela sua parede interna.  Esses animais caminham na roda de atividade sem qualquer incentivo adicional: essa corrida parece ser intrinsicamente gratificante para eles.

Tanto no caso do Show de Truman como no caso da Vila, também existem atividades intrinsicamente gratificantes para os participantes. As suas vidas fazem sentido: eles trabalham, ganham dinheiro, compram bens, namoram e se casam, tudo isso dentro de seus pequenos mundos ou círculos de giz.

Muitas organizações que nos aprisionam também criam verdadeiras rodas de atividade para nos manter motivados. A peculiaridade dessas organizações é que elas aproveitam a energia que geramos através dessas atividades para lucrarem. Seria como ligar um gerador de eletricidade nas rodas de atividade dos ratos: as suas corridas nessas rodas gerariam eletricidade que poderia ser aproveitada para, por exemplo, acender uma lâmpada.

Essas organizações aproveitam a necessidade humana para resolver problemas (gastamos horas resolvendo palavras cruzadas, jogando no computador, etc.), completar tarefas (ficamos frustrados quando comecamos uma tarefa e não a completamos), exercer poder (em geral, valorizamos mais os lideres do que os liderados), funcionar em equipes (participar de um empreendimento coletivo é gratificante para a mairia das pessoas), etc. para criar uma “roda de atividade” lucrativa. Essas organizações criam ou aproveitam os desafios profissionais, exercicios de poder, participação em equipes dos participantes para aprisioná-los dentro de circulos de giz onde existem verdadeiras rodas de atividades que geram lucros.

 

Os desconfortos da transposição do círculo de giz

Muitas vezes a saída de uma situação desvantajosa traz desconfortos temporários ainda maiores do que aqueles gerados pela situação original. Por exemplo, sair de um casamento insatisfatório implica em enfrentar inseguranças (Será que estou fazendo a coisa certa? Será que não dava mesmo para consertar? Será que não estou trocando seis por meia dúzia? O círculo de amizade que partilho com o cônjuge será desfeito?). Após esse período de sofrimentos, muita gente diz: “Se eu soubesse que iria melhorar tanto depois da separação, teria me separado antes”.

Aquelas pessoas que têm baixa resistência à frustração são as que mais hesitam em enfrentar esses desconfortos temporários para chegar a uma situação melhor.

Você não está conseguindo transpor os seus círculos de giz? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h50

10/01/2012

Reinvente-se: você pode mudar sua vida

A transformação de uma pessoa em outra, que tenha características mais desejáveis, é um desejo que sempre acompanhou a humanidade. Muitas religiões, por exemplo, afirmam que seus fundadores, profetas e santos alcançaram um estado mais elevado após certas práticas ou desenvolvimento de virtudes. Nos tempos modernos, essa tendência persiste: as telas dos cinemas estão povoadas de jovens franzinos que conseguiram se transformar em super- heróis (Homem Aranha, Capitão America, etc.), de jovens humildes que venceram na vida e até se tornaram presidentes (o “sonho americano” ou a realidade brasileira do nosso último ex-presidente) ou de moças desprivilegiadas que se reinventaram e se casaram com príncipes (Cinderela) ou empresários bem sucedidos (Pretty Woman).

Neste artigo, vou defender a idéia de que, ficção à parte, uma grande transformação pessoal no campo psicológico e social é possível e, muitas vezes, desejável. Ou seja, você pode, dentro de certos limites, “virar a própria mesa”, "dar a volta por cima” ou “ter uma nova chance” se tornando uma pessoa mais capacitada para lidar com a vida. Creio que isso pode ser conseguido através de uma boa transformação psicológica.


Transformação na tela do cinema

Muita gente deve ter assistido o filme  My Fair Lady, baseado na peça teatral de George Bernard Shaw, Pigmaleão. Este filme mostra o treinamento e reeducação da vendedora ambulante de flores Eliza Doolitle (Audrey Hepburn) pelo professor de fonética, Mr. Higgins (Rex Harrison). Além do trabalho para  modificar as maneiras e a aparência de Doolitle, boa parte do treinamento do professor se concentrou na transformacäo da linguagem e pronuncia dessa personagem (ela falava cockney – um dialeto usado pelos operários londrinos na época que a comédia foi ambientada). O trabalho do professor foi coroado de êxito: Doolitle conseguia se passar por uma dama da alta sociedade inglesa, onde quer que fosse!


Transformações encomendadas bem sucedidas

Um aperfeiçoamento desse tipo de empreendimento foi apresentado recentemente em uma série televisiva inglesa. Pessoas foram treinadas para se fazerem passar por membros de outros grupos sociais e profissionais. Após esse treinamento, que durava meses, aqueles que foram treinados deveriam ser capazes de agir como se tivessem uma nova personalidade, um novo papel social ou uma nova profissão. Não me lembro muito bem dos casos apresentados nesta série, mas era algo mais ou menos assim: um jovem inglês da classe alta era treinado para passar por um grafiteiro; um estudante de letras, para agir como se fosse um músico de sucesso; um operário, para passar por um executivo de altíssimo nível.

Após o treinamento, cada pessoa era inserida em um grupo onde havia mais três ou quatro pessoas que realmente pertenciam aos grupos que ela estava simulando pertencer. Em seguida, especialistas que tinham muita familiaridade com as pessoas desses grupos e profissões tentavam descobrir quem era o simulador. Esses especialistas examinavam trabalhos desenvolvidos por todos os membros de cada grupo, entrevistavam esses membros e os observavam em diversas situações.

Por incrível que pareça, muitas dessas pessoas treinadas realmente conseguiriam mimetizar as habilidades, personalidades e linguagens dos seus personagens ao ponto de serem confundidas pelos especialistas como membros genuínos dos grupos que estavam simulando pertencer.

Uma entrevista posterior com essas pessoas treinadas revelou que elas realmente aprenderam muito ao tentar viver sob a pele de alguém muito diferente e que tinham incorporado várias dessas mudanças após a conclusão das filmagens. Isso lembra os relatos daquelas pessoas que passam um bom tempo vivendo em outras culturas muito diferentes das suas e que, ao voltarem, percebem que incorporaram muita coisa da cultura onde viveram temporariamente.


Transformações na vida real

Em diversas circunstâncias da vida real, também somos obrigados a apresentar grandes transformações em pouco tempo. Tais transformações são de verdade e não apenas uma simulação para a televisão, teatro ou cinema. Alguns exemplos: mudanças radicais de profissão (o executivo de sucesso que vira dono de pousada); grandes mudanças de padrões sociais (o jovem que foi fazer intercâmbio em um país cuja cultura é completamente diferente da sua); mudança radical no modo de vida (condenado por um crime que, de repente, vai passar um bom tempo na prisão); mudanças substanciais no dia a dia (o jovem boa vida que, de repente, é convocado para servir o exército; o adolescente que tinha uma família aparentemente bem estruturada e que, de um momento para outro, na sua percepção, fica muito alterada porque pais se separam).

No inicio, muitas dessas mudanças são superficiais ou simuladas e, por isso, exigem grandes esforços e não são nada espontâneas. No entanto, quando as pessoas são obrigadas a permanecerem por muito tempo agindo de forma alterada, elas podem assimilar uma boa parte dessas transformações. Por exemplo, quem vive muito tempo em outra cultura pode assimilar muito dos seus hábitos, valores e forma de perceber as coisas.


É possível reinventar-se

Também é possível reinventar-se profundamente sem que essa mudança tenha sido imposta de fora (pela inserção em outra cultura, prisão, mudança profissional, etc., como vimos nos exemplos acima), mas sim motivada pela percepção dos inconvenientes daquilo que assimilamos anteriormente, no transcurso de nossas vidas, e incorporamos à nossa forma de ser e aos nossos mecanismos psicológicos: crenças irrazoáveis, mágoas, temores infundados, preconceitos, autoimagem distorcida, etc.

Quando nascemos, já possuímos algumas “ferramentas” físicas e psicológicas que permitem o nosso funcionamento e que são os fundamentos sobre os quais outros mecanismos serão desenvolvidos. Essas  ferramentas são fornecidas pela genética, pelos acontecimentos da vida intra-uterina e  perinatais. Daí para frente, através de nossas experiências, para o bem ou para o mal, vamos expandindo e moldando essas ferramentas iniciais. Além do desenvolvimento físico, também vamos adquirindo e desenvolvendo um conjunto de percepções de nós mesmos e do mundo, valores, padrões emocionais e formas de agir. Uma parte dessas aquisições  é correta, boa e necessária. Outra parte é equivocada, circunstancial e limitante e deveria ser revista e alterada.


O problema

O grande problema é que  a maioria de nós não sabemos ou não temos energia para fazer uma limpeza daquelas coisas errôneas ou que só eram boas em determinadas circunstancias, mas que se tornaram incorretas ou desatualizadas posteriomente e säo seguidas durante toda a vida.

Essas mudanças são dificultadas por razoes práticas (como encarar as conseqüências de deixar o emprego, por exemplo), sociais (pode ser difícil adotar comportamentos diferentes daqueles pelos quais somos conhecidos: pense, por exemplo, como seria difícil mudar uma coisa simples como o estilo do vestuário) e auto-imagem (nos sentimos muito mais confortáveis agindo de forma que se encaixe na imagem que formamos a nosso próprio respeito, que sabemos lidar com ela e prevejamos suas conseqüências do que de uma nova forma).


Nem tudo é mutável

Não quero dar a impressão neste artigo que podemos mudar completa e facilmente as nossas características. Algumas coisas são muito difíceis ou impossíveis de serem mudadas. Exemplos: o nosso temperamento é bastante determinado pela nossa genética e, por isso, é muito difícil de ser mudado; nos nossos primeiros anos de vida desenvolvemos estilos de apego que deixarão suas marcas pelo resto de nossas vidas. Desenvolvemos alguns traços de personalidade que serão manifestados em diversas situações e que serão nossas marcas durante toda a vida.


Maneiras de reinventar-se

Você gostaria de alterar o seu estilo de vida, abandonar algumas das suas características e desenvolver outras características desejáveis? Aqui estão algumas idéias que podem ajudar você a fazer isso:

- É mais simples e eficaz desenvolver outra maneira de ser com o auxílio de uma equipe, tal como aconteceu com os jovens da serie de televisão mencionado acima.

- É possível desenvolver e testar novas maneiras de ser através da criação de personagens em um ambiente virtual, tal como criar um personagem na internet (redes sociais, salas de bate papo, etc.) que tenha ou que comece a ter as características que você gostaria de ter.

- Através da terapia você pode fazer uma espécie de limpeza daquelas coisas que atrapalham o seu bem estar e desenvolver novas características que aumentem a sua eficiência e felicidade. Creio que o melhor tipo de terapia para essa finalidade é aquela que trabalha com desempenho de papéis.

 

Você é mais mutável do que imagina

Embora exista uma espécie de confábulo do nosso ambiente, grupo social e marcas psicológicas que adquirimos na vida para nos manter como somos, podemos mudar significativamente o nosso estilo de vida e a nossa forma de ser. Você não está fadado a permanecer como é. Pense nisso!

Caso a sua  forma de ser esteja lhe trazendo problemas e você não consegue mudá-la, procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h29

03/01/2012

Ele me dá pouca atenção. O que fazer?

Essa é uma situação bastante comum: receber menos atenção do que gostaríamos, por parte de uma pessoa que está na nossa companhia. Trata-se de uma situação bastante incômoda. Geralmente não sabemos por que isso está acontecendo e o que fazer para solucionar este problema. Neste artigo vamos analisar algumas das possíveis causas e algumas maneiras de solucionar a falta de atenção.

Os exemplos apresentados aqui são de situações amorosas, mas o problema da falta de atenção também aparece em várias outras situações como a amistosa, a profissional e a social e atinge os mais diferentes tipos de pessoas como homens, mulheres, jovens, adultos e idosos.

Quando comecei a estudar o relacionamento amoroso, meus alunos filmaram casais desconhecidos que se encontravam em locais públicos (após a filmagem, entrevistamos esses casais e só analisamos os filmes daqueles que deram suas permissões para isso. Os outros filmes foram imediatamente apagados). Na hora da filmagem não sabíamos se o casal era amoroso, amistoso ou formado por dois colegas. O nosso objetivo era estudar os comportamentos não-verbais desses casais que distinguiam o flerte da amizade ou do coleguismo. Nesses filmes era facilmente perceptível quando os casais eram amorosos e estavam no estágio do flerte ou no início do namoro. Mesmo quando estes casais nao estavam mostrando os comportamentos amorosos típicos (pegar nas mãos , beijos, etc.), ainda assim, eles se comportavam de forma diferente dos outros dois tipos de casais: conversavam bastante, mostravam animação e prestavam muita atenção mútua e quase nada no que acontecia no ambiente ao redor! No entanto, era difícil distinguir casais constituídos por colegas que não estavam muito entusiasmados com a companhia mutua daqueles constituídos por pessoas que já tinham um relacionamento amoroso há muito tempo. Felizmente existiam exceções: alguns casais antigos ainda mantinham a animação e, ai, ficava difícil diferenciá-los daqueles que estavam no início de relacionamentos amorosos. No início do relacionamento, os amantes só têm olhos para o amado. Depois de certo tempo, infelizmente, para a maioria dos casais, creio eu, esse interesse diminui e a atenção vai para outros acontecimentos.

Neste artigo, vamos abortar também a insatisfação daquelas pessoas que não se conformam com o esfriamento da cumplicidade de seus relacionamentos amorosos foi se instalando após algum tempo de convivência.


Helena e Rogério: romance, sexo e compromisso, mas pouca cumplicidade.

Helena e Rogério estavam casados há seis anos. Assim que começou a primeira sessão de terapia do casal, ela foi logo falando que não estava contente com o casamento, embora ele lhe proporcionasse quase tudo que um dia sonhou para este tipo de relacionamento. Ricardo era romântico, fiel e bom amante. No entanto, de uns tempos para cá, ele quase não prestava atenção nela, passou a dar muito pouca importância para o que ela sentia e pensava e para o que se passava com ela no dia a dia.

Nos raros momentos que estavam juntos, ele estava sempre fazendo alguma outra coisa: mexendo no computador, assistindo televisão, lendo jornal ou falando ao telefone. De manhã, embora tomassem café juntos, ele lia o jornal e mal falava com ela. À noite, assim que ele chegava em casa, ele começava a assistir televisão enquanto ela preparava o jantar.  Até nos restaurantes, ele não lhe dava atenção: passava boa parte do tempo olhando para as outras pessoas ou observando o ambiente ao redor. Gabava-se de ser muito ligado e observador de tudo que se passava em volta.

Ele a tratava como uma bonequinha mimada. Essa era a parte boa. O que havia de ruim é que ele não conversa com ela sobre coisas sérias. Por isso, ele não sabia das suas aspirações, satisfações e preocupações. Ele também raramente compartilhava com ela o que se passava na sua cabeça e, muito menos, o que ocorria na sua vida profissional. Mesmo quando ela perguntava a esse respeito, ele sempre era lacônico. Ambos sabiam muito pouco sobre a vida cotidiana do outro. Eles também não faziam planos juntos. A convivência entre eles estava se tornando cada vez mais superficial e as suas vidas estavam se separando.

Este não era o tipo de relacionamento que Helena havia imaginado para si. Ela não ia suportar isso por muito tempo: ser ignorada pelo próprio marido e tratada apenas como um objeto romântico e sexual. Ela tentaria, em primeiro lugar, mudar esse padrão de relacionamento. Em seguida, caso isso não funcionasse, sabia que permanecer neste relacionamento estaria além dos seus limites: ela teria que pensar em se separar, apesar de tudo de bom que a vida com Rogério lhe proporcionava em outros setores.

Segundo a Teoria Triangular de Robert Sternberg, o amor é constituído por três ingredientes: intimidade (apoiar, gostar, cuidar do outro), paixão (sexual e romântica) e compromisso (segurança de que o compromisso não será quebrado). Os membros de cada casal podem diferir no quanto precisam, oferecem e recebem de cada um desses ingredientes por parte dos seus parceiros. Segundo essa teoria, Ricardo proporcionava uma boa dose de paixão e compromisso para Helena, mas uma quantidade insuficiente de intimidade em relação às necessidades que ela tinha desse ingrediente do amor.


De quem é a responsabilidade pelo esfriamento do interesse mútuo?

Geralmente ambos os cônjuges são responsáveis pelo esfriamento do relacionamento. O casal geralmente funciona como um sistema onde quase tudo é interligado e exerce influências mútuas. Mesmo quando a responsabilidade pela desatenção é claramente de um deles, o outro é corresponsável por não ter tomado as medidas eficazes para estancá-la. Tendo isso em vista, vamos examinar algumas das razões mais frequentes desse tipo de esfriamento.


Esfriamento natural

Parte do esfriamento da relação do casal é uma decorrência natural do tempo de relacionamento. Para o casal que está se conhecendo, tudo é novidade e o relacionamento atrai muito a atenção porque ainda não está seguro. Depois de um tempo, é esperado que as novidades geradas por cada parceiro para o outro diminuam e que cada um se sinta mais seguro de que foi aceito pelo outro e, por isso, se esforce menos para agradá-lo.

No entanto, o ser humano apresenta uma dose natural de variação: mudamos frequentemente de humor de motivação e de planos. Além disso, nunca conhecemos muito bem a outra pessoa, mesmo quando convivemos com ela durante muito tempo (existem estimativas de que pessoas casadas há vinte anos, em média, só acertam cerca de 50% das perguntas sobre como a outra é ou sobre quais são as suas preferências!).

Um dos motivos pelos quais as pessoas, à medida que vão convivendo umas com as outras, se tornam menos interessantes, é que elas deixam de mostrar as suas variações naturais para as outras. Elas fazem isso porque preferem a pseudoseguranca de agir novamente da forma que anteriormente deu certo, ao invés de se mostrarem diferentes. No entanto, a repetição só é mais segura no curto prazo. Em médio prazo, a repetição engessa o relacionamento e o torna exageradamente previsível e chato!


Quanto é responsabilidade da falta de atenção é de quem reclama

Muitas vezes, quem reclama não está recebendo atenção porque se tornou menos atraente ou interessante, exige um grau exagerado de atenção ou quer atenção em momentos inapropriados (por exemplo, naquele momento que ele está assistindo aquele jogo mortal do seu time preferido). Quem reclama também pode estar recebendo pouca atenção porque não tem eficácia para lidar com os episódios isso acontece.


Quanto o esfriamento é de responsabilidade de quem não dá atenção

Muitas vezes quem não dá atenção tem problemas de personalidade (por exemplo, tem que ser sempre o centro das atenções) ou é grosseiro (por exemplo, sai do local e deixa a outra pessoa falando sozinha ou não tira os olhos da mulher bonita que está sentada na mesa ao lado).

Outras vezes, ainda, o desatencioso está estressado, preocupado, se tornou viciado em trabalho, está apaixonado por outra pessoa, mudou aquilo que valorizava em outras pessoas ou desidealizou a parceira.


Reclamar pode não ser uma boa tática

Antes de reclamar, Helena já estava ficando desinteressante para Rogério. Ela era muito bonita, feminina e sexy. Ele tinha orgulho de ser apresentado como seu marido e ser visto com ela em qualquer lugar. Infelizmente, ele só não conseguia se interessar pela sua conversa. Afinal ele tratava de grandes negócios o dia inteiro e ela, na sua opinião, só se ocupava de coisas de menor importância!

Jamais pensaria em deixá-la, se tudo continuasse como sempre foi: ele garantiria um bom nível de vida para a família e ela seria o enfeite da casa e a mãe dos seus filhos. De uns tempos para cá, infelizmente, ela estava reclamando muito e, por isso, estava ficando chata. Agora, na sua presença, ele tinha que se esforçar e se controlar para lhe dar atenção e ouvir os seus assuntos sem importância, senão ela começava a reclamar e a ficar emburrada.

Perguntei para Helena se ela ficaria contente em receber atenção do marido, não porque ele achasse interessante o que ela tinha para dizer, mas sim, para que ela não ficasse zangada e impusesse represálias. Ela prontamente declarou que não. Ficaria contente apenas se essa atenção fosse fruto do  interesse genuíno de Rogério.

Perguntei para Rogério, como ele se sentiria caso Helena passasse a cobrar a sua atenção. Ele respondeu que tentaria ser mais atencioso, mas que também ficaria contente se ela ficasse mais interessante. Acrescentou que a presença dela estava se tornando uma tortura para ele: qualquer desvio da sua atenção e pronto: “ela dava o maior petit”.

Para lidar com a desatenção não adianta apenas reclamar. Pode ser necessária uma ação eficaz para mostrar para o desatento que essa situação é intolerável. A ação eficaz varia de acordo com as circunstâncias e com os graus de risco aceitáveis para aqueles que vai apresentá-la. Por exemplo, quem está recebendo pouca atenção pode levantar-se e ir fazer outra coisa ao invés de continuar tentando, de todas as formas, obter a atenção do parceiro.

O seu parceiro não está mais prestando atenção em você? Converse a esse respeito com ele. Caso ele continue desatento e isso esteja lhe incomodando muito, procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 12h02

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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