Blog do Ailton Amélio

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27/03/2012

O seu amor definhou? O que fazer?

Pense nos casais que você conhece e que estão juntos há mais de vinte anos e responda às seguintes perguntas:

- Eles geralmente andam de mãos dadas ou abraçados?

- Cada um  deles mostra muita animação e se “derrete” quando o outro está presente?

- Você já os viu olhando romântica e demoradamente nos olhos do outro e trocando beijos apaixonados?

- Eles telefonam varias vezes por dia para o outro só para dizer que o ama, para ouvir sua voz ou para dizer que estava pensando nele?

Provavelmente você respondeu “Não” para essas quatro perguntas. É relativamente raro que os parceiros que já estão juntos há muito tempo ainda mostrem muito romantismo e grande entusiasmo pela presença do outro.

Mas, não tiremos conclusões apressadas. Essas manifestações de amor estão, sim, presentes entre mais que dez por certo dos cônjuges que  têm um compromisso amoroso há mais que vinte anos.


Quando o amor esfria

Certa vez eu e meus alunos filmamos casais em locais públicos com uma câmera oculta. Após cada filmagem, abordávamos a dupla e pedíamos permissão para usar o filme para fins cientificos (quando um ou ambos membros de uma dupla não concedia a permissão, o vídeo era imediatamente apagado)  e entrevistávamos cada um deles em separado. As entrevistas mostraram que essas duplas eram formadas por flertantes, casais amorosos (namorados, casados), amigos, e colegas. A finalidade dessas gravações era obter material para estudar os comportamentos de flerte entre os casais.

Outra coisa, no entanto, que é relevante para o tema que estamos abordando aqui, chamou muito a nossa atenção. Quando vimos os vídeos, ficou muito claro a animação e a quantidade de atenção que apareciam entre as duplas que estavam iniciando seus relacionamentos (casais que estavam no primeiro encontro e ainda não tinham começado um relacionamento amoroso ou namorados no início do namoro). No entanto, quem via os vídeos e não tinha lido a entrevista não conseguia distinguir  entre dois tipos de duplas: aquelas cujos participantes não tinham interesse amoroso recíproco (eram apenas amigos ou colegas de escola ou de trabalho) e aquelas constituídas por casais que já estavam juntos há muito tempo juntos. Em ambos esses casos, não estavam presentes os sinais típicos de inicio de relacionamento amoroso (animação, olhares demorados, etc.) nem os sinais que indicam um relacionamento amoroso estável (sinais de vinculo como mãos dadas, andar abraçado e manifestações amorosas como o beijo na boca). Ambos esses tipos de duplas exibiam sinais que mostravam que estavam juntos ali no local, mas não mostravam comportamentos que diferenciassem a natureza de seus relacionamentos: se ele era amoroso ou não amoroso. Essa ausência de romantismo, afetividade e sinais de vínculo amoroso, infelizmente, pode ser notada em muitos casais que já estão juntos há muito tempo.

É inevitável, então, que o amor enfraqueça á medida que vai passando o tempo? A resposta é um sonoro NÃO! Certa dose de enfraquecimento é esperada: mesmo aquilo que é importante, mas conhecido, estável e seguro inevitavelmente requer menos atenção, desperta menos emoção e motiva menos do que aquilo que é importante e pouco conhecido.


Efeito novidade

Quase tudo que é novo, importante e imprevisível atrai mais a atenção do que aquilo que já é conhecido e estável. Ao receber um brinquedo novo, a criança se encanta e quer brincar com ele o tempo todo. Depois o coloca de lado. O novo projeto sempre entusiasma, mas, depois de um tempo, fica difícil manter o nosso interesse nele.  O novo amor faz o coração bater forte; na sua companhia as horas passarem rápido demais. Depois existe o risco dele cair na rotina e passar a despertar pouco interesse.

O interesse sexual pelo novo parceiro geralmente é maior do que pelo parceiro antigo. Existem estudos que mostram, por exemplo, que um rato que já está saciado sexualmente volta a copular quando uma nova parceira receptiva é introduzida no seu território. Verificou-se que este fenômeno, o “efeito novidade”, acontece com varias espécies.

Entre nós, humanos, algo mais curioso ainda acontece com certas pessoas: elas só sentem atração pela novidade. Assim que conquistam alguém, perdem o interesse. Elas encaram o amor mais como um jogo de conquista: Assim que ele é ganho, perde a graça. Essas pessoas são aquelas que têm o estilo de amor Ludos, segundo a classificação de John Alan Lee (veja o eu artigo aqui no Blog, “Estilos de Amor”, que descreve esta classificação).


Amor para sempre

Há pouco tempo atrás vi um vídeo que mostrava casais que após vinte anos de casados ainda reagiam aos parceiros de forma apaixonada. Os pesquisadores mediram vários fenômenos fisiológicos que, no início do relacionamento, costumam se alterar na presença da pessoa amada. Por exemplo, eles pediram para cada um dos membros desses casais que olhasse a foto do parceiro enquanto mediam a quantidade de irrigação de cada de cada uma das suas áreas cerebrais, a sua pressão sanguínea, o seu ritmo cardíaco, etc. Essas medidas mostraram padrões muito semelhantes entre os casais que já estavam juntos há muito tempo e os casais de apaixonados que estavam começando seus relacionamentos.

Esse vídeo também mostrava o dia a dia desses casais de apaixonados. Eles agiam da mesma forma que os casais que estavam se começando a sair e se conhecendo: se produziam para ficar mais bonitos e atraentes para o parceiro, só tinham olhos para o parceiro e cobriam o parceiro de atenção e gentilezas!


Um dos segredos daqueles que conseguem manter o amor forte durante toda a vida

Como o amor pode permanecer intenso durante muito tempo? Não foi dito acima que aquilo que é conhecido atrair menos atenção e interesse?

Nunca somos totalmente conhecidos para o outro e para nós mesmos. Um estudo mostrou que casais que estavam juntos há mais que dez anos só conseguiam prever cerca de 50% das respostas dos respectivos cônjuges. Essa fantasia de que já conhecemos o parceiro contribui para que diminuamos a atenção que prestamos nele.

Somos naturalmente variáveis. O ser humano é naturalmente mutável. Ele pode se alterar bastante durante um mesmo dia, e até de um momento para outro, em muitos aspectos que exigem atenção devido às suas importâncias para aqueles que convivem com ele. Essas alterações, quando não abafadas, são mais do que suficiente para manter o relacionamento vivo e vibrante. Existem pessoas que estão sempre nos surpreendendo, pois nunca sabemos exatamente como vai agir e reagir. São pessoas que não se deixam guiar totalmente pelas regras e por aquilo que se espera delas. Para continuar a atrair a atenção e o interesse basta deixar transparecer uma parte das nossas variações naturais.

Esse engessamento do relacionamento acontece porque as pessoas acham mais seguro ou mais cômodo repetir padrões de comportamento que deram certo no passado. Um dos motivos desse engessamento é o medo de se arriscar e mostrar coisas inesperadas que possam decepcionar ou desgostar o parceiro.

Você age todo dia sempre igual com o seu parceiro? Você acha que já sabe tudo do seu parceiro e que por isso não precisa mais prestar muita atenção nele? Você acha que o seu relacionamento está seguro e que, por isso, pode descuidar dele? Caso tenha respondido sim a estas três perguntas é provável que o seu amor vá definhar com o tempo. Procure a ajuda de um psicólogo para tentar reverter esse quadro.

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Por Ailton Amélio às 11h46

20/03/2012

Ferramentas para combater a inibição

O termo "inibição" é usado aqui para designar os bloqueios motivacionais, emocionais e cognitivos que impedem ou atrapalham a exibição de comportamentos que, de outra forma, estariam prontos para serem emitidos.

 Um homem sem inibições

André tinha muito sucesso com as mulheres. A sua aparência era boa, mas a maior causa do seu sucesso era outra: ele não tinha inibição em se aproximar e puxar conversa com qualquer mulher que achasse interessante. Ele me deu um exemplo: “Nesse fim de semana fui à praia sozinho. Cheguei lá com a minha cadeira de armar debaixo do braço e logo vi uma moça atraente, sentada em uma cadeira, na companhia de umas quatro pessoas que, aparentemente, eram seus familiares. Aproximei.me dela e perguntei se podia sentar-me ali ao seu lado. Ela ficou espantada, mostrou má vontade e disse que o lugar estava reservado. Agradeci e continuei a andar. Logo vi duas moças, deitadas em toalhas de praia, ao lado de um guarda sol, uma das quais me atraiu. Aproximei-me delas e perguntei para a mais atraente se podia sentar-me ali com elas. Elas se entreolharam um tanto espantadas e sorrisosas e, após um consulta sutil e silenciosa através de troca de olhares e leves assentimos de cabeças, responderam que sim. Alguns momentos depois, lá estava eu participando de uma conversa gostosa e tomando caipirinha na companhia das duas. Caso essa abordagem não tivesse dado certo, iria para a seguinte. Caso o papo não tivesse ficado legal, eu agradeceria a companhia e continuaria o meu caminho e tentativas. Agindo assim, era praticamente certo que eu encontraria uma companhia agradável."

André relatou também que sempre agia dessa forma onde quer que estivesse. Quando sentia interesse por alguém, se aproximava e tentava iniciar conversa. Fazia isso com a maior naturalidade. Não espera boa receptividade em todas as abordagens. Também não tentava adivinhar o motivo da não receptividade. Simplesmente ia em frente

O seu interesse não era exclusivamente amoroso: "Caso em uma dessas abordagens conhecesse alguém agradável, mesmo que não rendesse nada na área amorosa, o dia já estava ganho. Muitas vezes eu acabava iniciando uma amizade dessa forma. Isso era excelente". Devido a essa forma de agir, ele tinha muitas amigas e nunca ficava sem um relacionamento amoroso.

Infelizmente, a maioria de nós somos mais inibidos do que André. Vamos examinar nesse artigo o que é a inibição realística e a irrealística, os danos que esta última pode causar e algumas formas de diminuí-la. Embora as medidas para isso pareçam simples, geralmente elas exigem o auxílio de um psicólogo para que possam ser implementadas efetivamente.

Tenho tratado de muitas pessoas que apresentam inibições sociais exageradas. Essas inibições são exacerbadas quando a pessoa é tímida, tem baixa autoestima ou sofreu algum trauma social (por exemplo, bulling).

Algumas das principais situações que provocam inibição e que prejudicam o desempenho são as seguintes.

- Crianças tímidas na escola sofrem inibição para participar de conversas em grupo, inibição para participar ativamente das aulas (apresentar perguntas, apresentar seminários) e para se relacionar com os colegas.

- Participação de processos de seleção profissional que envolvam entrevistas ou dinâmicas de grupo

- Reuniões de trabalho; apresentações orais para grupos de pessoas.

- Inibições para tomar iniciativas para fazer amigos ou intensificar amizades já existentes.

- Inibição para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos.

Inibidores sociais e não sociais

Existem dois tipos de inibidores: os sociais e os näo sociais.

Sociais. Quando um homem deixa de declarar o seu amor para uma mulher porque teme as consequências de uma possível rejeição à essa manifestação, essa declaração está sendo inibida por consequências externas (sociais): consequências que podem ser impostas pela mulher (afastá-lo do seu convívio, passar a interpretar os seus atos como interesseiros, etc.) e por todos que tiverem conhecimento dessa declaração (depreciarem sua imagem, desprezá-lo por não ter sido julgado um pretendente qualificado pela mulher, etc.). Além disso, a própria pessoa poderá sofrer consequências psicológicas internas (danos à autoestima, vergonha, sentimentos de inadequação, etc.).

Não sociais.  Por exemplo, quando um viciado em cigarros se controla para deixar de fumar porque concluiu que esse vício prejudica a sua saúde, ele está inibindo os seus comportamentos de fumar para evitar consequências não sociais – os danos à sua saúde.

A inibição social está presente em quase todos os momentos da nossa vida social. Geralmente “editamos” os nossos comportamentos: deixamos de fazer e falar certas coisas, usar certo vocabulário ou certo tom de voz devido às más consequências que isso poderia produzir para nós e para nossos interlocutores.

Consequências reais e irreais

Consequências reais. Certa dose de inibição é necessária porque evita consequências negativas reais que poderiam ocorrer, caso o comportamento fosse exibido. Esse tipo de inibição permite e facilita o convívio social. Se fizéssemos e comunicássemos tudo que passasse na nossa cabeça seria impossível o convívio social.

Consequências irreais. Motivos irreais são aqueles que não ocorrerão caso o comportamento seja emitido. Se a pessoa fizer aquilo que teme não acontecerão as terríveis consequências que ela imagina. Pelo contrário: agir da forma temida só traria boas consequências para si e para a outra pessoa. Por exemplo, expressar adequadamente um elogio para uma pessoa que acabou de falar em uma reunião na firma só trará boas consequências para si e para o elogiado. Calar-se nestas circunstancias é que pode trazer más consequências.

Vamos examinar agora algumas medidas que podem aumentar a autoconfiança e diminuir inibições irrealisticas.

Ferramentas para combater a inibição

Fortalecendo a confiança através da reinterpretação da situação

Reinterpretar os pensamentos e percepções sobre a situação inibitória para desfazer fontes de medos irrealísticos. A maior parte da inibição irrealística é produzida por:

-Subestimação das próprias condições para enfrentar a situação.

-Superestimação das dificuldades da tarefa

-Superestimação da gravidade das consequências

Elaborar um conjunto de ideias mais realista e menos amedrontador sobre a situação, sobre minhas condições para enfrentá-la, sobre a simplicidade da tarefa.

Uso do desempenho de papel na terapia

Essa é uma das ferramentas mais importantes para combater a inibição que utilizo na terapia.

O desempenho de papéis (“role playing”) é uma espécie de teatro onde a pessoa inibida representa a forma como ela gostaria de agir na vida real. Almofadas e o terapeuta fazem os papéis de outras pessoas que provocam a inibição e para as quais deve ser dirigida a nova forma mais efetiva de agir.

A pessoa inibida vai representando o papel desejado nas situações temidas e relatando os pensamentos atemorizadores e as visões pessimistas e distorcidas que vão surgindo na sua cabeça. O terapeuta vai confirmando aquilo que é adequado e eficaz e vai ajudando o paciente a combater os desconfortos,  medos que e distorções perceptuais que vão ocorrendo enquanto ele tenta representar o novo papel.  Além disso, o desempenho de papéis ajuda identificar e a automatizar formas mais desinibidas de agir, a tomar consciência das fontes de medo que ocorrem nestas situações e a extingui-las.

Decidir antecipadamente como vai agir na situação

- Tomar a decisão de que ao se deparar com pequenos medos serão um disparador do enfrentamento (“Se eu sentir um medo pequeno ou moderado que poderia me inibir, então está decidido que agirei”).

- Gostar do medo de pequena intensidade. Muita gente paga para sentir certa dose de medo: vai a filmes de terror, montanha russa, pula de bungee jumping, etc. Em quase todos os momentos da nossa vida existem pequenos riscos sociais que provocam medo e que podem ser enfrentados de graca e com prazer.

"Rodar mentalmente o programa benigno" pouco antes de entrar na situação

Elaborar um resumo das ideias e decisões encorajadoras e rememorá-lo pouco antes de entrar na situação inibidora. Por exemplo, um jovem tímido procura pensar nas seguintes coisas assim que chegava à balada:

- As pessoas vêm a esse lugar com a finalidade de iniciar relacionamentos amorosos.

- As mulheres ficam contentes quando são abordadas. Uma abordagem com bom  gosto, no mínimo melhora suas autoestimas.

- A abordagem em si é mais importante do que aquilo que é dito. Ela já mostra o interesse amoroso pela pessoa abordada.

- Abordá-las com firmeza e gentileza.

- Falar durante um tempo para relaxá-las.

- Falar sobre o entorno: local, música, frequentadores, etc.

- Neste local, abordar mulheres é a coisa mais natural do mundo. Näo é necessário nenhuma habilidade especial para isso. 

Fortalecendo a autoconfiança através dos comportamentos

Adotar intencionalmente alguns comportamentos pode ajuda a aumentar a segurança e a desinibir:

- Assumir uma postura corporal autoconfiante: costa ereta, queixo para cima.

- Voz firme: falar um pouco mais alto e mais pausado do que o usual.

- Olhar direto: olhar para os olhos do interlocutor enquanto fala aumenta os efeitos das mensagens.

- Agir como o território fosse seu: andar com desenvoltura pelo local, pegar objetos, abrir janelas, etc. dão a sensação de propriedade sobre o local

Fortalecendo a autoconfiança através da produção

Produza-se para sentir-se bem e para provocar efeitos desejados nos outros: usar vestuário, acessórios, corte de cabelo etc. de acordo com os locais que frequenta e um pouco melhores do que os usados pela média das pessoas que frequentam esses locais. É muito importante produzir-se de uma forma que gere autoconfiança e bem estar.

Essas são apenas algumas das medidas que combatem a inibição. Procure a ajuda de um psicólogo para superar os obstáculos que surgirão quando você tentar implementá-las.

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Por Ailton Amélio às 12h22

13/03/2012

Por que as mulheres fazem amor e os homens, sexo?

Na realidade, muitos homens também fazem amor e muitas mulheres, sexo. As diferenças nas prática sexuais entre homens e mulheres são verificadas apenas nas médias, tal como ocorre com a altura: nós homens, em média, somos mais altos do que as mulheres, mas existem muitas exceções. Para nós homens, como para as mulheres, um relacionamento com amor e comprometimento pode trazer muitos benefícios psicológicos e físicos, como muitas pesquisas vêm mostrando. Mantenha isso em mente enquanto você lê esse artigo.

Evidências sobre diferenças entre homens e mulheres quanto ao sexo casual

Donald Symons e B. Ellis, dois famosos pesquisadores e teóricos da psicobiologia, mostraram que mesmo numa situação hipotética e ideal há uma grande diferença entre homens e mulheres na aceitação de sexo casual. Participaram desta pesquisa 415 estudantes universitários (232 mulheres e 183 homens). Uma parte destes estudantes tinha parceiro sexual fixo na época da pesquisa. Os pesquisadores pediram a estes estudantes que respondessem a um questionário, constituído por seis perguntas. Um dos objetivos desta pesquisa era determinar as percentagens de mulheres e homens que aceitariam sexo casual com uma pessoa anônima, em condições que não apresentassem qualquer  tipo de risco (doenças, gravidez, ser descoberto, etc.). Outro objetivo desta pesquisa era verificar se a atração física atribuída à pessoa anônima e a possibilidade de desenvolver um relacionamento com ela afetariam as percentagens de mulheres e homens que aceitariam sexo casual com ela.

            Uma percentagem muito maior de homens do que de mulheres respondeu que aceitaria sexo casual com uma pessoa anônima, nestas condições, caso esta fosse atraente  e não houvesse nenhuma possibilidade de formar um relacionamento durável com ela (57,5% dos homens e 19,6% das mulheres que já tinham parceiros fixos e 74,7% dos homens e 35,5% das mulheres que näo tinham parceiro fixo responderam que certamente ou provavelmente aceitariam sexo com a pessoa anônima). Esta pesquisa mostrou também que a possibilidade de desenvolver um relacionamento com a pessoa anônima aumentava a percentagem de mulheres que aceitaria sexo com ela, mas não a percentagem de homens que aceitaria este tipo de prática sexual. Por outro lado, a atração física da pessoa anônima afetava mais os homens do que as mulheres. Quanto maior a atração física atribuída à mulher anônima, mais estudantes do sexo masculino respondiam que aceitariam sexo casual com ela.  A variação na atração física só alterava significativamente as respostas das mulheres quando as instruções diziam que a pessoa anônima era fisicamente menos atraente do que o atual parceiro delas, para aquelas que tinham parceiros fixos, ou do que elas próprias, para aquelas que não tinham parceiros fixos. Neste caso, uma percentagem menor de mulheres respondeu que aceitaria o sexo casual com a pessoa anônima.

Uma explicação das diferenças de atitudes de homens e mulheres: a teoria do investimento parental diferencial

            Essa é uma das teorias mais modernas sobre a sexualidade humana. Segundo esta teoria, os padrões sexuais dos homens e mulheres são fortemente influenciados pela genética (os proponentes desta teoria não negam que as características da nossa sexualidade também são determinadas pelas experiências durante a vida).

            As características genéticas do ser humano atual foram produzidas durante a evolução da nossa espécie. Esta evolução aconteceu através de mudanças genéticas aleatórias dos nossos genes e da seleção daquelas mudanças mais adaptativas ao meio em que a nossa espécie vivia na época da seleção. Durante a maior parte da existência da nossa espécie éramos caçadores coletores e vivíamos em pequenos bandos. Portanto, para entendermos as características do ser humano atual, temos que pensar nas condições nas quais onde a nossa espécie viveu a maior parte do tempo da sua evolução, uma vez que foram estas condições que selecionaram as nossas características genéticas atuais.

            A teoria do investimento parental diferencial, apresentada aqui de uma forma simplificada, afirma que os padrões sexuais dos homens diferem dos das mulheres em diversos aspectos. A principal razão destas diferenças seriam as diferenças nas consequências das relações sexuais para os dois sexos: as mulheres podem engravidar (Antigamente não havia anticoncepcionais eficientes e, talvez, nem mesmo qualquer preocupação em evitar filhos). A gravidez  implica em grandes investimentos de tempo e energia.

As diferenças entre os homens e a mulheres se dão principalmente em relação a quantidade mínima de investimento que cada um pode fazer para ter a chance razoável de procriar com sucesso: gerar e  cuidar dos filhos até, pelo menos, que estes também possam procriar. Quando se trata da quantidade de investimento usual e não apenas das quantidades mínimas necessárias para esta finalidade, as diferenças entre homens e mulheres podem ser pequenas.

A gravidez implica em uma série enorme de investimentos e consequências para as mulheres. Algumas delas são as seguintes:

- Riscos para a saúde. A gravidez e o parto podem apresentar complicações que coloquem em risco de vida da mulher. Estes riscos eram maiores nos primórdios da nossa espécie, quando a medicina ainda não tinha sido desenvolvida e, portanto, não havia cesarianas, medicamentos eficazes e hospitais.

- A mulher, no final de gestação, durante o parto, logo após o parto e durante a época da amamentação diminui a sua capacidade produtiva, por razões óbvias.

- Durante uma boa parte da existência da nossa espécie, as mulheres também ficavam mais sujeitas aos predadores  no final da gravidez, durante e logo após o parto e durante toda a época que elas tinham que amamentar transportar e cuidar da criança.

- Uma gravidez implica no investimento de energia para gestar, amamentar e cuidar da criança até que ela atinja a sua independência. Nós nascemos completamente desprotegidos e dependentes. Este estado de dependência é o mais prolongado de todos os animais, quando se leva em conta as suas durações de vida (segundo algumas estimativas, um ser humano não teria condições de sobreviver sozinho antes dos 11 ou 12 anos, nas condições originais onde a nossa espécie evoluiu).

Relação entre investimentos e práticas sexuais

            Tendo como critério as consequências da gravidez, vamos examinar dois padrões que podem ser adotados por homens e mulheres para a prática do sexo: (1) aceitação de sexo sem compromisso e sem envolvimento emocional e (2)  exigência de evidências de compromisso e envolvimento emocional como condição para essa prátical.

            O que aconteceria com aqueles homens e mulheres que aceitassem relacionamentos sexuais sem grandes exigências de envolvimento emocional ou comprometimento por parte dos parceiros? Para os homens, os custos seriam mínimos. Um autor dessa área graceja a este respeito, quando afirma que tudo que os homens teriam a perder seriam uns míseros espermatozoides. Mas eles teriam muito a ganhar com esta forma de proceder: mesmo que não fizessem mais nada além de copular (não cuidassem da parceira e dos filhos), eles ainda teriam uma probabilidade razoável de ter filhos caso as mulheres assumirem sozinhas todos os custos e riscos da gestação, parto e cuidados com os filhos. Eles passariam os seus genes para a geração posterior.

 As mulheres, por outro lado, que praticassem o sexo casual, correriam o risco de se engravidar e como não havia qualquer envolvimento emocional ou compromisso com aqueles que as engravidaram (talvez nem soubessem quem era o pai da criança), é provável tivessem que arcar sozinhas com todas as consequências da gravidez. Caso a criança ainda assim sobrevivesse, o benefício seria o mesmo para elas e para os pais ausentes: a transmissão dos seus genes para a geração posterior. Se elas não cuidassem dos filhos, eles não sobreviveriam e elas perderiam, pelo menos, os investimentos inevitáveis da gestação e parto.

            Vamos examinar agora o segundo padrão para a prática sexual: a exigência de indícios de envolvimento emocional e/ou compromisso como pré-requisitos para a aceitação do sexo. Um homem que apresentasse esses indícios teria uma probabilidade maior de ficar com a mulher após o sexo e de compartilhar das suas consequências, no caso acontecesse a gravidez. Desse modo, ele contribuiria para a alimentação e proteção da mulher, nas épocas que a sua produtividade diminuísse e também para a alimentação, proteção, educação, socialização e capacitação do seu filho. Tudo isso aumentaria a probabilidade de sobrevivência da criança e da propagação do tipo de gene que favoreceria esse tipo de acäo. A mulher que exigisse sinais de envolvimento e comprometimento do parceiro como requisito para a prática sexual teria uma probabilidade maior de ter descendência, uma vez que ela estaria compartilhando os pesados investimentos decorrentes da gravidez e aumentando as chances de que esses investimentos não fossem perdidos com a morte mais provável da criança caso näo contasse com esse auxílio.

            A adoção da primeira estratégia, descrita acima, por parte dos homens traria para eles  pequenos custos e possíveis grandes ganhos, no caso dos seus filhos sobreviverem. A adoção dessa primeira estratégia por parte das mulheres pode implicar em grandes investimentos e uma probabilidade menor destes investimentos frutificarem, ou seja, a sobrevivência da criança.

            A adoção da segunda estratégia por parte dos homens implicaria em alguns tipos de custos como os investimentos na mulher e no filho e a diminuição das oportunidades para fecundar outras mulheres, devido ao seu compromisso e o envolvimento do seu tempo e recursos. O seu maior benefício, neste caso, seria a maior probabilidade de sobrevivência do seu filho. Para a mulher, a adoção desta segunda estratégia seria bem mais benéfica porque ela teria um companheiro para compartilhar os investimentos, caso acontecesse a gravidez, e uma probabilidade maior de não perder tais investimentos com a morte mais provável do filho  caso tivesse que criá-lo sozinho.

            Outro tipo de investimento que sempre é maior para as mulheres do que para os homens diz respeito às limitações para gerar uma grande quantidade de filhos: as mulheres tem uma capacidade reprodutiva bem menor do que os homens. Elas só ovulam uma vez por mês e, segundo cálculos recentes, só podem ser fecundadas durante 6 dias em cada um ou dois anos. O período procriativo das mulheres também é mais curto. A época em que a maioria delas realmente se tornam férteis começa mais tarde e termina mais cedo do que para os homens (elas têm a menopausa). O máximo de filhos que uma mulher pode ter é em torno de 30 filhos, isto em condições excepcionais. O homem, teoricamente, pode ter milhares de filhos (o recorde de filhos comprovados de um único homem, um imperador do Marrocos, registrado pelo Guiness é de 888,   e 69 para uma mulher russa, que teve vários partos com mais que um bebê). A mulher, portanto, tem bem menos chances para produzir a sua descendência. Os seus erros neste sentido tem um custo bem maior do que para os homens. Ela, portanto tem que ser bem mais cuidadosa nas ocasiões em que pode exercer a sua capacidade procriativa.

            Desta forma, homens e mulheres não poderiam agir da mesma forma diante de uma situação que apresentava diferentes consequências para os dois sexos. A forma mais equilibrada de igualar custos e benefícios procriativos para homens e mulheres é o sexo precedido de sinais de envolvimento afetivo e sexual. Em certas situacöes o sexo casual pode ser mais benéfico para as mulheres do que o sexo com afeto e compromisso. Por exemplo, quando uma mulher já é comprometida, o sexo casual pode aumentar a diversidade genética da sua prole. (Ver outras vantagens no livro "Anatomia do Amor", de Helen Fisher).

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Por Ailton Amélio às 09h51

06/03/2012

Inibições para mostrar interesse amoroso

Por que existem tantas pessoas solitárias em cidades grandes como São Paulo? A solidão acontece pela insuficiência na quantidade e na qualidade de relações pessoais (familiar, amistosa ou amorosa). Muita gente tem relacionamentos impessoais (lidam com outras pessoas frequentemente), mas quase não possui relacionamentos pessoais. Essas pessoas não conseguem, ou não querem transformar os relacionamentos impessoais que possuem (com colegas de trabalho, por exemplo) em relacionamentos pessoais (convidá-los para fazer alguma coisa depois do trabalho, por exemplo). Esses relacionamentos impessoais amenizam, mas não resolvem o problema da solidão

Muitas dessas pessoas solitárias têm parentes, amigos e relacionamentos amorosos, mas não os vêm com tanta frequência ou por tempo suficiente. Outras não têm um ou mais desses tipos de relacionamento. É muito intrigante observar os comportamentos  dessas pessoas carentes em locais públicos: elas não demonstram essa imensa carência, agem como se estivessem plenamente satisfeitas e não fazem nada para iniciar os tipos relacionamentos que lhes faltam. Agem como se o mais importante fosse apresentar uma imagem publica de autossuficiencia, de pessoas que não precisam de nada e são bem sucedidas. Como diz aquele ditado popular “Morrem de fome no meio da fartura”.

Na realidade, essa carência é tão poderosa que leva muitas pessoas a se produzirem, enfrentar trânsito, pagar estacionamento, enfrentar filas, pagar caro para comer e beber e dedicar horas e horas para tentar iniciar um relacionamento amoroso em "paqueródromos" (bares, baladas, danceterias, etc). Essa necessidade, no entanto, é menor do que o medo de fracassar e ser rejeitado em uma tentativa amorosa. Por isso, mesmos nestes locais, o interesse amoroso só mostrado quando existe muita seguranca. É claro que existem exceções : alguns mais desinibidos "deitam e rolam" nesse tipo de local - ficam com diversos parceiras e nunca väo embora desacompanhados!

 Dois exemplos

Exemplo 1. Proibido socializar com outras pessoas no shopping. Acabei de vir de um shopping. Neste local, não vi nenhuma pessoa abordando outras nos corredores. Os contatos entre estranhos que observei aconteceram principalmente entre os clientes e os funcionários desse local (relacionamento dos clientes com os vendedores, garçons, cobradores de estacionamentos). Outros contatos aconteciam entre frequentadores que já têm tinham relacionamentos entre si e que foram juntos ao shopping ou se encontraram lá: adolescentes amigos, famílias e casais. Mais raramente, também vi alguns homens e mulheres sozinhos circulando pelos corredores ou comendo nas praças de alimentação.

Em todas as minhas andanças pelos shoppings nunca vi uma pessoa abordar um desconhecido e dizer algo assim: “Olá! Tudo bem? Estou só aqui no shopping e simpatizei com você e gostaria de ficar um pouco na sua companhia. Quem sabe poderíamos almoçar juntos ou eu poderia acompanhar você nas compras e ajudar você a comprar. Se rolar um clima, poderemos “ficar” ou começar algo na linha amorosa. Posso ficar até com vocês duas ao mesmo tempo. Se gostarmos um do outro, poderemos ir para outro lugar. É até possível que venhamos a nos relacionar”.

Exemplo dois: Medo de mostrar interesse por estranhos nos locais de paquera! Algo mais curioso ainda acontece nos bares de paquera. Mesmo neste tipo de local parece haver um forte tabu contra o contato entre desconhecidos. Embora quase todo mundo que frequente esse tipo de lugar esteja lá para conhecer pessoas novas com a finalidade de desenvolver um relacionamento amoroso, a grande maioria dos frequentadores hesita em mostrar claramente esse tipo de interesse e tomar iniciativas eficazes para fazer contato com desconhecidos. Muita gente que vai a esse tipo de local volta para casa no final da noite sem ter conhecido ou ficado com ninguém. A grande maioria age de forma circunspecta e fica à espera que as outras pessoas forneçam garantias de interesse antes de agir. Uns poucos parecem estar se divertindo a beca, mas esse divertimento tem pouca relação com a disposição para conhecer outras pessoas: riem alto, dançam e até molestam outras pessoas como forma de divertimento.

Se um ET comparecesse a um desses bares e tentasse identificar através dos comportamentos dos seus frequentadores os motivos deles irem a esse tipo de local, ele concluiria, erroneamente, que os terráqueos vão a esses locais para ouvir música, comer petiscos e consumir muita bebida alcoólica. Concluiria, também, que a maioria das pessoas fica nas suas mesas conversando com conhecidos por longos tempos e mostram poucos sinais de interesse por desconhecidos.

O ET teria sido induzido a tirar essas conclusões errôneas porque, na verdade, quase todo mundo vai a esse tipo de local com um objetivo bem definido na cabeça: conhecer alguém que possa vir a ser um parceiro amoroso, “ficar”, arranjar companhia amorosa e não para fazer tudo aquilo que fazem o tempo todo. Porque os objetivos verdadeiros dos frequentadores desses locais quase não transparecem nas suas formas de agir?

No meu consultório, tenho trabalhado com muitos solitários, principalmente com solitários no campo amoroso. O maior motivo para as dificuldades de iniciar relacionamentos amorosos é a inibição para mostrar interesse por possíveis parceiros. Esse tipo de dificuldade surge tanto entre pessoas que já se conhecem como entre desconhecidos.

Em um estudo que desenvolvi verifiquei que 37% dos namoros eram iniciados entre pessoas que já se conheciam, 32% entre pessoas que foram apresentadas por um conhecido em comum e cerca de 20% pelo flerte entre desconhecidos seguido de abordagem. Portanto, cerca de 70% dos relacionamentos são iniciados pelos dois primeiros desses dois caminhos e cerca de 20% pelo flerte com desconhecidos seguido de abordagem (os outros 10% dos namoros começaram através de outros caminhos, entre os quais a internet). (Este estudo foi descrito no meu livro “Relacionamento Amoroso” da Publifolha).

Em um próximo artigo descreverei como ajudo os meus pacientes a superar estas inibições para mostrar interesse amoroso por conhecidos e desconhecidos.

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Por Ailton Amélio às 12h12

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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