Blog do Ailton Amélio

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24/04/2012

As mulheres são mais exigentes para aceitar sexo casual

Todo mundo já está cansado de ouvir que os homens procuram mais sexo casual do que as mulheres. No entanto, os motivos para essa diferença sempre foram objeto de polêmica. Vamos rever neste artigo um estudo intercultural que confirmou essa diferença e mais dois estudos que indicam duas das suas causas: (1) as mulheres recusam mais sexo casual porque são mais exigentes para escolher os parceiros e (2) após esse tipo de sexo, elas têm mais chance de sentirem-se desconfortáveis do que eles.


O estudo clássico de Clark III e Hatfild sobre aceitação de convites amorosos

Em 1989, Russell D. Clark III e Elaine Hatfield1 publicaram um artigo sobre as percentagens de aceitação de três tipos de convites amorosos apresentados para desconhecidos no campus de uma universidade americana.

Nesta pesquisa, estudantes universitários formularam convites para colegas desconhecidos do sexo oposto que encontravam nas dependências desta universidade. Estes estudantes foram instruídos para só abordarem colegas que achassem atraentes, com os quais estariam inclinados a dormir, caso houvesse condições apropriadas.

Ao abordar os colegas, os estudantes, faziam uma breve introdução ("Já notei você anteriormente aqui no campus. Acho você muito atraente”) e apresentavam um dos seguintes convites:

- Convite para um encontro: aceito por 50% dos homens e 53% das mulheres

- Convite para ir ao apartamento: aceito por 69% dos homens e 3% das mulheres

- Convite para dormir juntos: aceito por 72% dos homens e 0% das mulheres.


Motivos das diferenças entre homens e mulheres

As mulheres são mais exigentes

 Kenrick e colaboradores (1990)2 pediram que homens e mulheres avaliassem a quantidade mínima de vinte e uma qualidades (inteligência, beleza, sociabilidade, etc.) que exigiriam de um parceiro para cada uma das seguintes cinco finalidades: encontro, sexo casual, namorar, noivar e casar. Esses pesquisadores verificaram que as mulheres eram mais exigentes do que os homens para relacionamentos amorosos que tinham baixo grau de compromisso (encontro, sexo casual), mas os graus de exigência entre os dois sexos ia se tornando maiores e mais semelhantes à medida que o grau de compromisso ia aumentando (noivar, casar). Para o casamento, os graus de exigência dos dois sexos era muito semelhantes.

Este estudo mostrou que as mulheres que aceitam sexo casual são mais exigentes do que os homens em muitas qualidades. Esse, portanto, é um dos motivos pelos quais as mulheres aceitam sexo casual muito mais raramente do que os homens.


As mulheres dão mais importância para a atração do parceiro como critério para aceitar sexo casual

Mais recentemente (2009), Dr. Achim Schützwohl3, pesquisador da Universidade de Brunel (Reino Unido) e colaboradores pediram para estudantes italianos, americanos e alemães que imaginassem que estavam recebendo os mesmos três convites estudados na pesquisa acima. Pediram também que esses estudantes imaginassem que cada um desses convites estava sendo apresentado por três pessoas  do sexo aposto que possuíam diferentes graus de atração: “levemente não atraente”, moderadamente atraente” e “excepcionalmente atraente”. Após cada um desses convites, os estudantes avaliaram a probabilidade de aceitá-lo.

Este estudo confirmou os estereótipos bem conhecidos sobre a aceitação de sexo casual por parte de homens e mulheres: de um modo geral, os homens afirmaram que aceitariam mais sexo casual do que as mulheres.

Os resultados deste estudo mostraram também que a probabilidade das mulheres aceitarem esses convites era maior quando o homem era excepcionalmente atraente do que quando ele era ligeiramente pouco atraente ou moderadamente atraente.

Os homens eram um pouco mais propensos a aceitar os convites para ir para a cama quando quem convidava era moderadamente atraente ou excepcionalmente atraente do que quando essa pessoa era ligeiramente não atraente. No entanto, não fazia diferença se quem convidava era ligeiramente ou excepcionalmente atraente.

Os alemães foram os menos propensos a aceitar o convite para sair e para ir ao apartamento do que americanos e italianos. Os alemães também foram menos propensos a aceitar o convite para ir para a cama do que os americanos. Era mais provável que os italianos aceitassem o convite para ir para a cama com o desconhecido do que os americanos.


As mulheres sentem-se mal no dia seguinte

Um estudo realizado por Professora Anne Campbell, da Durham University, apresentou evidências de que as mulheres praticam sexo casual mais raramente porque elas têm mais chances de sentirem-se desconfortáveis no dia seguinte do que os homens.

Essa professora,  em uma pesquisa realizada através da internet, pediu para 1743 homens e mulheres que há haviam praticado sexo casual que avaliassem os seus sentimentos positivos e negativos que estavam presentes na manhã seguinte a esse acontecimento.

No dia seguinte, os sentimentos das mulheres eram mais negativos do que os homens. Oitenta por cento dos homens e 54% tinham sentimentos gerais positivos sobre essa experiência.

Os homens também relataram maior satisfação sexual após o evento, bem como uma maior sensação de bem-estar e confiança em si mesmo. As mulheres se sentiam usadas.

Esses estudos indicam, portanto, que as mulheres praticam menos sexo casual porque: (1) são mais exigentes do que os homens para escolher parceiros para essa finalidade e (2) têm mais chance do que eles de sentirem-se mal depois que praticam esse tipo de sexo.

 Notas

1. Clark, Russell D., Hatfield, Elaine (1989). Gender differences in receptivity to sexual offers. Journal of Psychology & Human Sexuality, 2, 39-55.

2- Kenrick, D. T., Sadalla, E. K., Groth, G. & Trost, M. R. (1990). Evolution, traits and the stage of human: Qualifying the parental investment model. Journal Personality and Social Psychology, 58(1), 97-116.   

3-  Veja os comentários de Nick Nauert sobre essa pesquisa:" Venus and Mars on One-Night Stands":  http://psychcentral.com/news/2009/08/12/venus-and-mars-on-one-night-stands/7697.html (acessado em 24/04/2012).

4- Veja os comentários de Rick Naubert sobre essa pesquisa "Gender Difference on Sexual Encouters"  : http://psychcentral.com/news/2008/06/26/gender-difference-on-sexual-encounters/2509.html (acessado em 24/04/2012).

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Por Ailton Amélio às 12h20

17/04/2012

Quando o sexo entre amigos beneficia a amizade

Recentemente li na internet dois artigos muito interessantes, publicados na revista Psychology Today, escritos por Heidi Reeder, professora de comunicação da Boise State University (Idaho, EUA).

No primeiro deles1, Reeder entrevistou diversas pessoas sobre suas amizades com parceiros do sexo oposto. Com base nestas entrevistas, essa autora classificou as amizades em quatro grupos e apresentou as percentagens de pessoas que já haviam experimentado cada uma delas (cada entrevistado podia ter experimentado mais que um tipo de amizade. Por isso, a soma das percentagens excede os 100%).

Esses quatro tipos de amizade são os seguintes:

1- Atração amistosa: você gosta da pessoa e de estar com ela. Não há sentimentos românticos nem desejo sexual por ela. Esse é o mesmo tipo de amizade que heterossexuais sentem por amigos do mesmo sexo. É o tipo mais frequente de amizade intersexual: 96% das pessoas afirmaram que possuíam esse tipo  de amizade. Dentre estas pessoas, mais de 2/3 afirmaram que esta amizade estava se intensificando com o tempo.

2- Atração romântica. Aquele que sente a atração romântica gostaria de transformar a amizade em namoro. 14% das pessoas declararam ter sentimentos românticos pelo amigo. A atração romântica tende a diminuir com o tempo. Quando ela é unilateral e a parte que não tem esse tipo  de atração pelo amigo descobre os sentimentos deste, ela pode querer esfriar o relacionamento com este. 

3- Atração subjetiva física/sexual. Sentir atração sexual pelo amigo e, talvez, querer fazer sexo com ele. Quase um terço dos entrevistados já sentiu esse tipo de atração pelo amigo. É mais provável que esse tipo de atração diminua (30%) do que aumente com o tempo de amizade (20%).

4- Atração objetiva física sexual. Há o reconhecimento de que o amigo deve ser atraente para os outros, mas não para si (“Eu posso entender que outras pessoas achem o meu amigo fisicamente atraente”). Esse tipo de atração já foi experimentado por mais da metade das pessoas.

No outro artigo2, essa mesma autora entrevistou cerca de 300 pessoas. Dessas, 20% dos homens e mulheres revelaram que já haviam transado com um amigo, pelo menos uma vez na vida. Dentre esses que já haviam transado, 76% afirmaram que o relacionamento ficou melhor após o sexo. Metade destas pessoas começou a namorar o amigo. A outra metade afirmou que a ligação com o amigo melhorou.

Reeder confessa a sua surpresa com este ultimo resultado, uma vez que, antes dessa pesquisa, ela acreditava que o sexo entre amigos estragava a amizade.

A nossa cultura está preparada para que o sexo entre amigos vire rotina?

Pois bem, como se diz por ai, os costumes evoluíram muito recentemente: as mulheres podem ter alguns parceiros sexuais antes do casamento, podem praticar sexo casual de vez em quando, é aconselhável que tenham alguns namorados antes de se casarem e falam livremente de suas práticas sexuais.

Com todos esses avanços, estaríamos preparados para dar mais um passo, a adoção generalizada da “amizade com benefícios” ou “amizade colorida”?

Creio que a amizade com benefícios seria muito bem vinda para a maioria dos homens e mulheres. No entanto, creio também que as mulheres teriam mais temores ou desconfortos para implementar essa ideia. Um dos motivos dessa dificuldade é a discriminação sexual que elas sempre sofreram e que vêm sofrendo, embora recentemente tenha sido amenizada. O outro motivo é biológico: na nossa história evolutiva, o sexo sempre teve maiores consequências para elas do que para nós: a gravidez e todas as suas implicações. Por isso, elas ficaram mais criteriosas para aceitar sexo fora de um relacionamento conjugal. Creio, no entanto, que essa restrição possa ser superada através do preparo psicológico (por exemplo, as mulheres foram preparadas para ir ao ginecologista sem se sentirem violadas pelo exame ginecológico).

Quando o sexo beneficia ou prejudica a amizade?

Embora sejam necessárias pesquisas para responder com mais segurança à pergunta acima, creio que:

- Sexo entre amigos faz bem para a amizade quando: há interesse sexual mútuo; não há muito interesse romântico de nenhuma das partes; ambos os amigos encaram sexo com naturalidade e eles conversaram bastante a esse respeito ou interpretaram corretamente as intenções mútuas antes de iniciarem as práticas sexuais entre si.

- Quando há interesse romântico recíproco existe uma grande chance do sexo entre amigos transformar a amizade em namoro (isso acontece muito quando ambos os amigos têm o amor do tipo “Estorge” – veja o meu artigo “Estilos de Amor”, aqui no Blog)

- Quando o interesse romântico é unilateral, o sexo provavelmente trará problemas para a amizade: o sexo provavelmente aumentará o envolvimento do romântico daquele que sentia esse tipo de atração e essa pessoa vai querer transformar o relacionamento em namoro, o que constrangerá a outra.

- Quando só há atração sexual por uma das partes, existem duas possibilidades: se a parte menos interessadas é o homem, é possível que o sexo e não traga problemas para o relacionamento. Se a parte que não sente esse tipo de atração for a mulher, provavelmente não haverá sexo. Caso haja, por pressão da outra parte, provavelmente haverá danos para a amizade.

Você pratica sexo com amigos ou sente que tem condicöes  psicológicas para desenvolver esse tipo de relacionamento? Caso você tenha respondido “Sim” a uma ou ambas perguntas e queira ser entrevistada, mande um email para mim: . ailtonamelio@uol.com.br

Notas

Artigos de Heidi Reeder citados acima:

1- Can You "Love" Your Friend?

http://www.psychologytoday.com/blog/i-can-relate/201202/can-you-love-your-friend (acessado em 12/04/2012)

2- Sex With Friends: Are There Benefits?

http://www.psychologytoday.com/blog/i-can-relate/201204/sex-friends-are-there-benefits (acessado em 12/04/2012)

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Por Ailton Amélio às 11h45

10/04/2012

Quando o hábito faz o monge!

Muitas vezes os comportamentos ou os seus produtos têm efeitos tão  grandes sobre quem que os apresentou quanto aqueles provocados em outras pessoas:

- Quem senta na cadeira que está na cabeceira de uma mesa retangular de reuniões tem mais chance de participar e de ser eleito líder do que quem senta em cadeiras que estäo em outros locais da mesa.

- Relaxar a musculatura corporal pode ter efeito calmante em uma pessoa tensa.

- Produzir intencionalmente expressões faciais de emoções (raiva, alegria, tristeza) pode provocar as emoções correspondentes em quem as produziu (lembra-se dos efeitos do riso na satisfação de quem ri, que foram amplamente divulgados pela mídia há algum tempo atrás?)

- Autoavaliacao da beleza facial tem tanto ou mais efeito no autoavaliador do que a avaliação apresentada por outras pessoas.

As pessoas também são afetadas psicologicamente pela própria produção (vestuário, acessórios, tratamento da pilosidade, maquilagem, etc.). Neste artigo vamos abordar mais detalhadamente os efeitos psicológicos que o vestuário pode ter no próprio usuário.

O vestuário tem três tipos de funções:

- Recato: ocultar as partes pudendas

- Conforto: fornecer proteção contra o frio, calor, chuva, etc.

- Exibição: apresentar e ressaltar status, sinais de gênero, condições econômicas, etc.

Vários estudos anteriores já mostraram que roupa usada por uma pessoa influencia a percepção e os comportamentos das outras em relação a ela. Por exemplo, o tipo de roupa que uma pessoa está usando influencia a forma como ela é percebida por outras pessoas em áreas tão diversas como o partido político que ela costuma votar nas eleições; se ela é usuária de drogas; a sua opção sexual e  se  ela é religiosa. A roupa também influencia as ações de outras pessoas em relação ao usuário: por exemplo,  o tempo que uma pessoa caída demora para ser socorrida e as chances de conseguir trocar dinheiros na rua dependem do tipo de roupa que ela está usando. Infelizmente os assaltantes sabem muito bem disso: frequentemente a mídia divulga notícias do tipo “assaltantes bem vestidos conseguiram entrar e assaltar um prédio de alto padrão” ou “fizeram-se passar por clientes de uma joalheria antes de assaltá-la”!

Vamos examinar agora uma pesquisa que mostra que o vestuário também pode ter grande influência psicológica no próprio usuário.

Recentemente a mídia nacional e internacional alardeou a notícia de que uma pesquisa chefiada por Adam D. Galinsky, (professor da  Kellogg School of Management, Northwestern University, E.U.A) obteve evidências de que a roupa pode influenciar psicologicamente quem a usa.1

Essa pesquisa foi constituída por três experimentos. No primeiro deles, 58 estudantes foram designados aleatoriamente para dois grupos. Os experimentadores pediram aos participantes de um desses grupos que usassem um avental branco e ao outro, que continuasse a usar suas roupas do dia a dia. Os experimentadores aplicaram, então, aos participantes destes dois grupos um teste para medir atenção seletiva. Esse teste consistia na identificação de incongruências como, por exemplo, o nome vermelho escrito sobre uma cor verde. O grupo do avental branco cometeu apenas cerca da metade dos erros de identificação de incongruência que foram cometidos pelo grupo da roupa do dia a dia!

No segundo experimento, os pesquisadores dividiram aleatoriamente 74 estudantes em três grupos. Eles pediram aos participantes de um desses grupos que usasse um “avental branco de médico”, ao outro que usasse um “avental branco de pintor” e ao terceiro grupo observasse um “avental branco de médico” (de fato todos esses aventais dos três grupos eram iguais).

Os experimentadores aplicaram, então, um teste de atenção a esses três grupos. Este teste consistia na identificação, o mais rapidamente possível, de quatro diferenças entre duas telas que eram muito similares. O grupo que achava que estava usando avental de medico identificou muito mais diferenças do que os outros dois grupos.

No terceiro experimento, os estudantes foram divididos em três grupos. Tal como no segundo, dois grupos usaram o avental branco e o terceiro, apenas observou tal “avental de médico”. Neste terceiro experimento, no entanto, os estudantes dos três grupos tiveram que escrever os seus pensamentos sobre o avental branco.

Em seguida, os três grupos foram submetidos ao mesmo teste de atenção usado na segunda pesquisa. Novamente, o grupo que estava usando o “avental de médico” cometeu muito menos erros do que os outros dois grupos.

Dr.  Galinsky concluiu, então, que para a roupa produzir efeito psicológico é necessário que seja usada e que aquele que a usa acredite que ela simboliza uma profissão onde os seus membros têm mais poder de observação e maior grau de atenção. (Isso, no caso dos aventais brancos, é claro!)

Quando você for cuidar da sua produção, leve em conta os efeitos que ela pode ter nas outras pessoas e em você mesmo!

1-  1.   Adam, H. & Galinsky, A. D. (2012). Enclothed cognition. Journal of Experimental Social Psychology. Available online 21 February 2012, In Press, Corrected Proof (acessado em 10/04/2012)

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022103112000200

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Por Ailton Amélio às 11h59

03/04/2012

Experiências de segunda mão: porque assistimos filmes e novelas

Você quer passar por uma experiência emocional ou participar de uma aventura, mas teme os riscos excessivos que isso pode ocasionar? Então, recorra a uma das muitas formas de obter essas experiências através de experiências alheias: alugue um filme, leia um livro, assista uma peça de teatro.

Lembro-me de um filme estrelado por Arnold Schwarzenegger onde o personagem interpretado por esse autor compra memórias de uma viagem que não fez: uma firma especializada implanta nos cérebro de seus clientes memórias de viagens. Após esse implante, essas pessoas passam a se lembrar da viagem escolhida, tal como se realmente a tivessem realizado. A nossa tecnologia ainda não chegou a esse ponto! No entanto, enquanto esse progresso não se concretiza, todos nós já lançamos mão de experiências alheias para criarmos a sensação de que estamos vivendo aventuras e dramas: recorremos a filmes, pecas de teatro e livros com essa finalidade. O rapaz tímido e franzino pode se sentir na pele de James Bond, a moça que leva uma vida apagada e chata pode viver o sonho da menina que progrediu e se casou com o galã  famoso e rico.

Nesse artigo vamos examinar um mecanismo psicológico que permite este tipo de experiência de segunda mão: as experiências vicariantes.

Você provavelmente já se deparou com termos ou locuções tais como “empatia”, “contágio emocional” e “compaixão”. Esses termos e expressões são usados para nomear a capacidade de nos afetarmos pelos sentimentos expressos por outras pessoas ou pelo que está se passando com elas (coisas boas e tragédias).

Muitos empreendimentos comerciais fazem uso dessa capacidade. Por exemplo, certas propagandas lançam mão dos testemunhos de pessoas apreciadas pelo público para fazerem propaganda de seus produtos. A mensagem que fica é algo assim: “Fulano que admiro acha bom e chic tomar o xarope tal. Me senti na sua pele tomando tal xarope na companhia daquelas pessoas lindas.” Por associação, tal xarope adquire a propriedade de evocar parte dessas sensações evocadas pelo comercial.  Outro exemplo: muitas entidades e campanhas filantrópicas que dependem da generosidade alheia para arrecadar fundos apelam para anúncios comoventes que mostram pessoas em má situação precisando de auxílio

Porque as pessoas assistem filmes que nos fazem chorar?

Nesta semana que passou a mídia divulgou uma pesquisa sobre os motivos das pessoas verem filmes que as fazem chorar. Essa pesquisa foi realizada pela professora Silvia Knobloch-Westerwick e três laboradores (Yuan Gong, Holly Hagner e Laura Kerkeybian, todos da universidade Estadual de Ohio).

Neste estudo, a pesquisadora Elisa e seus colaboradores pediram a estudantes universitários que assistissem uma versão abreviada de um filme triste, "Atonement" ("Desejo e Reparação", em português). Antes, durante e após o filme, estes estudantes foram entrevistados sobre o que estavam pensando e sentindo. Aqueles estudantes que se mais envolveram com o filme, também foram os que mais pensaram nos seus familiares e sentiram alivio porque a tragédia mostrada no filme não tinha acontecido com estes. Esses pesquisadores concluíram que é o alivio sentido pela tragédia mostrada no filme não estar acontecendo como os familiares foi a maior responsável pelo aumento da felicidade dos estudantes. (Aquelas pessoas que pensaram apenas nelas próprias não apresentaram melhoria na felicidade). Esse alívio, concluem os pesquisadores, seria o motivo que faria as pessoas assistirem filmes tristes.

Outros motivos para assistir filmes

Este alívio realmente parece explicar porque as pessoas tiveram um aumento na felicidade após assistirem o filme. Ele, no entanto, não explica porque assistimos filmes de aventura, filmes policiais, ficções científicas e novelas que não nos levam a pensar nos nossos familiares.

Creio que existem pelo menos quatro grandes motivos para assistirmos filmes e novelas e lermos livros de aventura e romances: (1) podemos aprender com a experiência alheia; (2) motivos estéticos: essas obras säo gratificantes porque oferecem estimulações estéticas e intelectuais; (3) elas provocam emoções (por exemplo, os sustos provocados por certos filmes de terror). É esse mesmo tipo de efeito que faz que procuremos montanhas russas e saltos buddie jumping. (4) as emoções e vivências que são provocadas em nós quando observamos pessoas expressando emoções ou passando por situações que provocam emoções. Este efeito é conhecido como experiência vicariante: a capacidade sentir coisas que estão sento sentidas por outras pessoas.

Podemos sentir o que outras pessoas estão sentido ou que acreditamos que elas estariam sentindo. Essa semana, vi a notícia que a famosa apresentadora de televisão americana Oprah Winfrey, que veio ao Brasil gravar um programa com um médium, sentiu-se mal quando viu um paciente sendo operado, com uma tesoura enfiada no nariz, em uma das operações mediúnicas.

Ferramenta terapêutica

As experiências vicariantes são muito usadas como ferramenta terapêutica na clinica psicológica. Por exemplo, quando o paciente observa o terapeuta em uma situação que ele, paciente, sente muito medo, sem que o terapeuta mostre que está sentindo tal emoção ou desconforto (este simula que está falando com desenvoltura e relaxamento para um público fictício), isso contribui para diminuir o medo do paciente e para que ele imite o seu desempenho.

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Ps

Veja a seguinte notícia publicada no Ciência e Saúde, que ilustra bem esse nosso artigo:

 

·    ·         http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2012/04/09/amantes-de-bale-de-fato-sentem-que-estao-dancando-ao-ver-uma-apresentacao-diz-estudo.jhtm

09/04/2012 - 10h26

Amantes de balé de fato sentem que estão dançando ao ver uma apresentação, diz estudo

 

Por Ailton Amélio às 12h27

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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