Blog do Ailton Amélio

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25/11/2012

Relacionamentos simbióticos, vazios ou equilibrados: qual a sua tendência?

Existe uma gradação nos graus integração das vidas dos parceiros de um relacionamento amoroso que vai desde a simbiose (os parceiros compartilham quase tudo: o fazem, pensam e sentem. São do tipo “carne e unha”) até o esvaziamento (os parceiros desenvolvem vidas quase que completamente independentes). Entre esses dois extremos existe uma ampla gradação nos graus de integração das vidas dos parceiros. Um relacionamento equilibrado é aquele onde os graus de integração da vida dos parceiros atende a ambos e não é muito próxima desses extremos.

Este o tema que vamos tratar neste artigo.


Relacionamentos vazios

O seu relacionamento está mais vazio do que você gostaria? Por que isso pode ter ocorrido? As perguntas abaixo vão ajudar você  a refletir sobre essas duas questões.

O que mantém o seu relacionamento amoroso?

1- Você é pouco exigente: contenta-se por estar em um relacionamento amoroso, mesmo que este não tenha boa qualidade?

2- Os seus sentimentos quanto ao parceiro continuam a existir quase que independentemente daquilo que ele faça ou deixe de fazer por você e com você?

3- Você já está "cheio de amor para dar" e as características do parceiro por quem você pode se apaixonar são apenas um “pequeno detalhe”: basta encontrar alguém que aceite um rótulo apropriado (namorado, rolo, etc.) para que todo o seu amor pelo dispare?

4- Você é capaz de se comprometer amorosamente sem examinar direito quem é o parceiro e como vai ser o relacionamento entre vocês dois?

5- Depois que um é relacionamento amoroso é iniciado, você tem dificuldade excessiva para terminá-lo., mesmo quando você verifica que ele não era aquilo que esperava ou ele se deteriorou?

6- Faz muito tempo que você não consegue se relacionar amorosamente e, por isso, você “deixou por menos” e está predisposto a aceitar parceiros e relacionamentos de baixa qualidade? (“Mau com ele, pior sem ele”).

7- Você é o tipo de não consegue ficar sem um relacionamento amoroso e, por isso, não toma os cuidados necessários para entrar em um?

8- Você tolera um relacionamento onde a cumplicidade e a amistosidade estão muito muito aquém do que você necessita ou até são negativas?

9- Você não termina o seu relacionamento por motivos econômicos ou porque teme não conseguir se envolver em outro relacionamento e acabar ficando só?

Se você respondeu positivamente a qualquer uma destas perguntas, tome cuidado: ou você corre o risco de se envolver em relacionamentos cujos graus de integração estão aquém do que você necessita ou você tem dificuldades para sair de relacionamentos assim.

Pode acontecer também que o relacionamento pouco integrado que você tem com o parceiro gere outros grandes benefícios externos (sociais, econômicos, práticos) e, por isso, você tenha dificuldade para abrir mão deles.

 

Exigência excessiva do parceiro para um maior grau de integração

As expectativas do seu parceiro quanto ao grau de integração de suas vidas estão além do que você gostaria? Responda as seguintes perguntas para ter uma ideia se isto está ocorrendo.

1- O seu parceiro está sempre cobrando a sua atenção e participação?

2- Você gostaria de ter mais liberdade no relacionamento: sair com as amigas, ter mais liberdade para gerir o seu dinheiro?

3- Você gostaria de ter o seu próprio banheiro ou de dormir em quartos separados?

4- Você gostaria de viver em casas separadas, mas o seu parceiro não concorda?

5- Você gostaria de dividir as tarefas caseiras ao invés de ter que fazê-las junto com o parceiro?

6- O seu parceiro gostaria que vocês compartilhassem mais seus sentimentos e pensamentos?

7- Você gostaria que o parceiro respeitasse mais aquilo que é importante para você, mesmo quando ele acha que não deveria ser assim?


Relacionamentos equilibrados

Existe uma teoria que propõem, resumidamente, que o relacionamento direto com o parceiro e os acontecimentos importantes em outras áreas da vida sejam representados por dois quadrados, um dentro do outro*. O quadrado interno representa a quantidade e a importância do relacionamento pessoal com o seu parceiro e o externo, a quantidade e a importância total dos acontecimentos que existem na sua vida. Algumas pessoas gostariam que a área do quadrado interno fosse quase do mesmo tamanho da área do quadrado externo, ou seja, o relacionamento com o parceiro seria quase tudo de importante nas suas vidas. Essas pessoas esperam compartilhar tudo com o parceiro: amizades, diversões, trabalho, ideias, sentimentos, planos, decisões, etc.

Para outras pessoas, o tamanho do quadrado interno deve muito menor do que a do quadrado externo, ou seja, para elas existem muitas outras coisas importantes na vida, que acontecem sem a participação do parceiro: círculos de amizades dos quais o parceiro não participa, conta no banco separada, tomada decisões importantes sem consultar o parceiro.   

Não existe uma proporção entre os tamanhos desses dois quadrados que seja boa para todo mundo. Essa proporção ideal varia muito de pessoa para pessoa. O mais importante é encontrar um parceiro que queira uma proporção entre esses dois quadrados que seja semelhante a que você quer. Quando os parceiros de um relacionamento amoroso têm expectativas diferentes em relação ao grau de integração de suas vidas, isso gerará muitas frustrações e problemas.

Não basta, obviamente, que os parceiros concordem quanto aos graus de vida em comum e de vida independente. Também é importante que concordem quanto as áreas da vida nas quais é possível, desejável ou aceitável haver integração ou independência. Por exemplo, um dos membros do casal pode achar intolerável que o outro gerencie sozinho a sua vida econômica ou que viage sozinho durante as férias.

Não existe nada de errado em ficar em um relacionamento mais próximo do vazio, se os benefícios que este traz são maiores do que os malefícios. Pode ser que este relacionamento seja conveniente, não traga grandes problemas ou sofrimento e que os parceiros que dele participam não sintam que estão perdendo tempo.

Não existe nada que obrigue todo mundo a estabelecer e manter somente relacionamentos que sejam próximos do simbiótico. Algumas pessoas encontram sentido em outras coisas na vida e podem até preferirem ficar só ou manter um relacionamento próximo do vazio, contatanto que isso que lhes tragam grandes benefícios apenas pelas consequências externas que eles geram ( consequências sociais, práticas, psicológicas).

Relacionamentos que tenham um grau de integração aquém ou além do que você necessita deve ser evitados, corrigidos ou terminados quando são frustrantes para você ou lhe trazem sofrimentos. Se este for o caso e você não consegue deixar de inicia-los ou sair deles, procure a ajuda de um psicólogo.

Nota

*Williams, W. M. & Barnes, M. L. (1988). Love within life. Em  R. L. Sternberg & M. L. Barnes (Eds) Psychology of Love. New York: Yale University Press.

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Por Ailton Amélio às 09h48

18/11/2012

Práticas sexuais diferentes: fantasia ou realidade?

As práticas sexuais estão ficando mais diversificadas? Aquelas práticas que eram tabus há pouco tempo atrás estão deixando de sê-lo?


A curiosidade pelo diferente pode ter diversas motivações

Recentemente têm aparecido na mídia muitas matérias sobre o aumento do interesse por práticas sexuais diferentes, como o sadomasoquismo, o swing e o sexo em público. Para constatar isso, basta lembrar o sucesso recente do livro Cinquenta Tons de Cinza ou de filmes mais antigos, como Império dos Sentidos, Emmanuelle ou Barbarela (no planeta de Barbarela, o sexo era praticado através do contato entre as palmas das mãos dos parceiros).   

A curiosidade sobre práticas culturais diferentes das nossas nem sempre indica o desejo de incorporá-las. Pelo contrário, informações sobre essas práticas podem despertar o nosso interesse porque causam certa dose de medo, repugnância e abalam nossas concepções e porque causam alívio e sensação de superioridade a constatação, por contraste, que as nossas, sim, são “bons hábitos” e as dos outros, "Que horror!". Rs.

Por exemplo, sentimos curiosidade sobre hábitos alimentares, tipos de vestuário, sistemas de casamento e práticas sexuais diferentes dos nossos sem que desejemos adotá-las. Em certa época, os antropólogos atraiam muito a atenção com as suas descrições de culturas que eram muito diferentes das ocidentais. Este é o mesmo tipo de curiosidade que teríamos, caso fossem descobertas formas extraterrestre de vida inteligente.


Interesse por práticas sexuais diferentes

Ainda não foram realizadas pesquisas que constatem um aumento recente das práticas sexuais diferentes. Pelo contrário, as estatísticas disponíveis, que não são muito recentes, mostram uma alta dose de conservadorismo quanto à adoção de práticas sexuais por parte da população. Vamos examinar neste artigo algumas dessas estatísticas e um dos motivos para esse conservadorismo – o papel procriativo das práticas sexuais.


Principais objetos do desejo sexual

Quem imagina que as outras pessoas estão praticando formas diferentes e ousadas de sexo vai se decepcionar quando examinar os resultados das pesquisas realizadas nesta área. Essas pesquisas revelam um quadro bem conservador: a grande maioria das pessoas, só pratica o “feijão com arroz”: sexo vaginal, sexo vaginal e sexo vaginal. Muito raramente, elas também praticam o sexo oral e, bem mais raramente ainda, o sexo anal. A coisa vai parando por ai.

As maiores variações observadas nesta área são as posições sexuais. No entanto, a grande maioria dessas posições - descritas no famoso Kama Sutra e em outros manuais - nada mais é do que caminhos diferentes para penetrar a vagina e estimular o clitóris.

 Ver o parceiro tirar a roupa, beijos profundos, caricias nos seios e masturbação do parceiro também são práticas sexuais muito frequentes. No entanto, essas práticas geralmente são consideradas atividades “preliminares” para o "verdadeiro sexo": a penetração vaginal. O ponto alto é sempre a penetração vaginal (lembre-se, por exemplo, que o ex-presidente Clinton alegava que não tinha praticado sexo com Monica Lewinsky porque não havia realizado a penetração vaginal).

Quando a penetração vaginal não é suficiente para conseguir o orgasmo da mulher, ai sim, a masturbação feminina entra em cena como principal atividade sexual: a automasturbação ou a masturbação oferecida pelo parceiro.


Pesquisas sobre fantasias e práticas sexuais

Há aproximadamente quinze anos foi realizada uma pesquisa muito ampla nos EUA com o objetivo de descrever a vida sexual dos americanos (escolha de parceiros, frequência das relações sexuais, satisfação com as relações sexuais, etc.) Essa pesquisa, relatada em detalhes no livro Sex in America, verificou, entre outros achados, que a penetração vaginal era, disparado, a prática sexual mais atraente (“appealing”) para homens e mulheres.

Um estudo sobre hábitos sexuais conduzido em diversas partes do Brasil, com uma quantidade enorme de participantes, em duas épocas diferentes - 1998 e 2005 – confirma a universalidade da penetração vaginal como a principal atividade sexual, e a frequência muito menor do sexo oral e a raridade do sexo anal.1 Um estudo que orientei, sobre as fantasias sexuais de pós-graduandos, também confirmam este quadro2. Vamos examinar, agora, alguns achados deste estudo.


Fantasias sexuais de homens e mulheres

Esta pesquisa foi realizada com 50 pós-graduandos de uma universidade da região da cidade de São Paulo. Participaram desta pesquisa 25 homens e 25 mulheres, que tinham, em média, de 29 anos de idade. Estes pós-graduandos receberam uma lista que descrevia 57 fantasias e práticas sexuais. Dentre outras tarefas, foi solicitado a eles que assinalassem cada uma destas fantasias que já tinham tido pelo menos uma vez durante a vida. As treze fantasias mais comuns (fantasias apresentadas por pelo menos 90% dos participantes da pesquisa) e as dez menos comuns destes pós-graduandos são apresentadas em seguida.


As fantasias sexuais mais frequentes durante a vida

(Nesta pesquisa não foi incluída a fantasia “penetração vaginal”, devido a sua universalidade, tal como foi constatado em pesquisas anteriores).

Percentagens de pessoas (homens e mulheres) que tiveram cada uma das seguintes fantasias pelo menos uma vez na vida:

1) Tocar/beijar sensualmente (100%);

2) Ser sensualmente tocado/beijado (100%);

3) Beijar/acariciar o peito nu do parceiro (100%); 

4) Abraçar e acariciar o pescoço (96%);

5) Seduzir o parceiro (96%);

6) Ser seduzido pelo parceiro (96%);

7) Ver o parceiro despir-se/ despir-se diante do parceiro/ despir mutuamente (96%);

8) Masturbar o parceiro (96%);

9) Ser masturbado pelo parceiro (96%);

10) Ter os seus genitais oralmente estimulado pelo parceiro (sexo oral) (96%);

11) Fazer sexo em posições não usuais (92%);

12) Estimular oralmente os genitais do parceiro (sexo oral) (92%)

13) Estimulação oral mútua dos genitais (sexo oral/os dois ao mesmo tempo) (92%).


Dez fantasias sexuais menos frequentes durante a vida

Percentagens de pessoas de pessoas (homens e mulheres) que já tiveram a fantasia pelo menos uma vez na vida:

1) Vestir roupas do sexo oposto (18%)

2) Ser conduzido a um quarto contra a sua vontade (16%)

3) Fantasiar que você é do sexo oposto (16%)

4) Chicotear/ bater no parceiro (8%) .

5) Ser torturado pelo parceiro sexual (8%)

6) Ser chicoteado/ apanhar do parceiro (6%)

7) Ser sexualmente depreciado pelo parceiro (4%)

8) Depreciar o parceiro  (4%)

9) Torturar seu parceiro sexual  (4%)

10) Ter relações sexuais com animais (0%)

A comparação entre essas duas listas indica que as fantasias sexuais mais frequentes são aquelas consideradas mais “normais”. As fantasias mais ousadas ou diferentes, mostradas na segunda lista, são muito raras.


Penetração vaginal e procriação

Os teóricos evolucionistas não veem nenhuma surpresa no fato da penetração vaginal ser, disparada, a prática mais atraente para homens e mulheres, uma vez que este tipo de sexo é aquele que gera filhos. As forcas evolutivas não permitiriam que práticas sexuais não procriativas se tornassem demasiadamente atraentes ou que não fossem apenas formas preliminares e motivadoras para chegar à penetração vaginal. Caso essas práticas não procriativas se tornassem as mais atraentes, a nossa espécie seria extinta. Pelo crescimento populacional explosivo da nossa espécie, é fácil concluir que esta modalidade sexual – o sexo vaginal - é muito, muito praticada.

No entanto, é um erro grave condenar outros tipos de práticas sexuais com base no argumento de que elas não têm finalidade procriativa. Existem evidências de que, para a nossa espécie, o sexo, além de servir para a procriação, também tem a função de fortalecer o vínculo entre os parceiros. Para esta finalidade, não é necessário haver sexo vaginal!


Notas

1- Barbosa, R. M., Koyama e M. A. H. (2008). Comportamento e práticas sexuais de homens e mulheres, Brasil 1998 e 2005. Rev. Saúde Pública vol.42  suppl.1 São Paulo June 2008. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102008000800005 . Acessado em 17/11/2012.

2- Chiapetti, N., Silva, A. A., Serbena, C. A. e Hasse, M. Fantasias sexuais em acadêmicos de pós-graduação. Disponível em http://www.utp.br/psico.utp.online/site1/artigo_nilse_chiapetti_et_al.pdf . Acessado em 17/11/2012

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Por Ailton Amélio às 11h10

11/11/2012

Seis estágios do divórcio: o seu relacionamento está caminhando para o fim?

Mariana e Jair estavam casados há cinco anos. Eles não tinham filhos e eram economicamente ativos e independentes. No início do relacionamento, tudo era maravilhoso. Após dois anos de namoro, haviam se casado e, agora, o casamento já estava no quinto ano. No entanto, sem que nada de grave tivesse acontecido, o amor entre eles havia esmorecido: a companhia mútua já não era prazerosa como antes, não aconteciam mais aquelas conversas animadas, o romance entre eles parecia descabido, o sexo era raro e burocrático e a amizade deixava muito a desejar.

Mariana tinha consciência de que aquela falta de animação de ambas as partes com o relacionamento, que havia se instalado há um bom tempo, não era tolerável para qualquer casal, ainda menos para um casal tão jovem, que estava junto há tão pouco tempo. Quando essa situação ficou bastante clara, ela, silenciosa e unilateralmente, procurou tomar algumas medidas para tentar reanimar a relação: passou a ser mais atenciosa e mais carinhosa, tentou apimentar o sexo, etc. Nada disso, no entanto, produziu efeitos significativos e duradouros.

  Depois de várias tentativas infrutíferas para melhorar o relacionamento, Mariana resolveu encarar a situação de frente e disse para Jair que precisavam conversar. Jair pensou: “Pronto! Lá vamos nós para mais uma DR.” Assim que ela começou a falar, ele logo percebeu que, desta vez, havia algo mais sério na sua atitude: a sua voz estava mais firme, ao invés de lamuriosa e cobradora como costuma ser nestas ocasiões. Ela afirmou que aquela situação entre eles era insustentável, que estava muito insatisfeita e que precisavam procurar ajuda profissional para melhorar o relacionamento porque assim não valia a pena continuar.

Jair, mais uma vez, disse que ia tomar medidas para melhorar, que ele estava trabalhando demais e que logo tudo ia mudar. Como das outras vezes, ele não mudou a sua forma de agir e resistiu à proposta para procurar ajuda profissional.

Depois deste episódio, Mariana praticamente desistiu de tentar melhorar o relacionamento e estava se tornando cada vez mais independente de Jair: matriculou-se em uma academia de ginástica, passou a frequentar eventos promovidos pelos colegas e começou a fazer novas amizades que não incluíam Jair. Ela percebia que estava deixando de admirar Jair, de sentir simpatia pela sua forma de agir e pelas coisas que ele dizia. Agora, ela fazia questão de manifestar a sua forma independente de pensar e estava disposta a contestar tudo aquilo que ele dizia e que ela não concordava. A situação entre eles foi ficando cada vez mais tensa. Um passo mais marcante na direção do esfriamento deste relacionamento foi dado quando, naquelas férias, ela foi viajar com amigas, ao invés de viajar com Jair, como sempre faziam desde que começaram o relacionamento amoroso.

Agora sim, “caiu a ficha” para Jair: ele viu claramente que não dava mais para negar que o relacionamento estava seriamente ameaçado e que teria que lutar para que ele não terminasse. Seria tarde demais?

Esta história de Mariana e Jair ilustra alguns dos estágios percorridos por um  relacionamento conjugal em direção à separação. Embora os relacionamentos possam percorrer diferentes caminhos em direção ao fim, os estudiosos deste fenômeno acreditam que existem alguns estágios que geralmente ocorrem nesta trajetória e que eles ocorrem em uma determinada ordem cronológica. De fato, vários destes estágios são facilmente identificáveis pelos profissionais que trabalham nesta área. No entanto, nem sempre todos eles ocorrem em todas as separações.

Os dois cônjuges que estão caminhando para uma separação podem se encontrar em estágios diferentes deste processo. Por exemplo, um deles pode ter outro relacionamento oculto em paralelo, enquanto o outro ainda nem se deu conta de que o seu relacionamento está em perigo e nem acionou os mecanismos da separação (continua confiante que o seu relacionamento está bom, não apresenta nenhum preparo psicológico e nem está tomando nenhuma medida prática para separar-se).

Além disso, um relacionamento que está caminhando para o fim pode retroceder várias vezes para estágios anteriores e muitos deles, felizmente, embora já tenham percorrido diversos desses estágios, podem ser reconduzidos para um estado saudável, feliz e duradouro.

Vamos examinar aqui os principais estágios psicológicos de uma separação.


Estágios psicológicos da separação

O divórcio pode percorrer caminhos muito diferentes. Esses caminhos dependem, por exemplo, dos motivos da separação (traição, esvaziamento do relacionamento, brigas muito frequentes e intensas, etc.), dos valores morais dos cônjuges, das dimensões da vida pratica, social, parental e psicológica dos cônjuges que foram interligadas durante o processo de união do casal e dos recursos psicológicos, materiais e apoio social cada membro dispõe para lidar com a separação. Embora haja tanta complexidade, algumas coisas provavelmente acontecem na maioria dos divórcios. E alguns parâmetros ajudam a determinar e a prever o que acontecerá com o casal.

Vamos abordar aqui algumas dos principais estágios da separação que são apontadas por terapeutas e pesquisadores que trabalham nesta área. Tais estágios geralmente ocorrem na mesma ordem cronológica que serão apresentadas aqui..

Estágios da separação

1- Negação

O cônjuge não iniciador da separação nega que esteja ocorrendo algo sério no relacionamento. A negação da crise acontece por três motivos principais: (1) seus sinais são fracos (o cônjuge iniciador do processo de separação está omitindo esses sinais ou atenuando suas intensidades), (2) esses sinais, embora notados pelo cônjuge não iniciador, são mau interpretados ou subestimados por este (“Só mais uma crise. Isso logo passa!) ou (3) o cônjuge não-iniciador não consegue admitir o que está acontecendo porque não consegue suportar o fato. Este tipo de negação é um mecanismo de proteção psicológica contra aquilo que não pode ser suportado. A negação também pode funcionar como um mecanismo de proteção do vínculo. Muitas crises passam sem que sejam tomadas medidas mais sérias para superá-las. Por isso, em certos casos, é melhor ignorá-las e, caso persistam, tratar delas quando estiverem menos agudas (por exemplo, quando a raiva já tiver amainado).

2- Raiva

A raiva e a demonização do parceiro são provocadas pela frustração (ele está recusando as tentativas para interromper a crise), rejeição (está apresentando mensagens que indicam que não aceita mais o parceiro como cônjuge). A raiva sentida pelo cônjuge não iniciador tem um lado útil: ela o ajuda a desidealizar o iniciador. Essa desidealização diminui o amor por este e torna a menos dolorida a separação.

3- Desespero

Quando acontece a tomada de consciência de que o iniciador quer terminar e a constatação de que todos os esforços para mantê-lo não estão sendo suficientes para salvá-lo, o cônjuge não iniciador pode entrar em desespero: sente-se impotente para impedir a separação, apresenta sérios distúrbios emocionais e se dispõe a fazer mudanças radicais na sua forma de ser e proceder para contentar o iniciador e demovê-lo da sua intenção de terminar o relacionamento. Por exemplo, o não iniciador promete será mais atencioso, se tornará mais sociável, começará ginástica para perder muito peso, melhorar a sexualidade, etc.A ameaça de separação agudiza o valor do parceiro e do relacionamento. Parece que a natureza criou este mecanismo para ajudar a reunir todas as forcas possíveis para que a separação não ocorra.

4- Culpa

Esse tipo de sentimento é muito comum entre aqueles que estão dando os passos para a separação ou entre aqueles que já se separaram, mas ainda não assimilaram esse acontecimento. Embora a culpa talvez ocorra mais frequentemente  para o não-iniciador, ela também, muitas vezes, está presente para o iniciador. O não iniciador se culpa por não ter percebido o estado crítico que se encontrava o relacionamento quando ainda era possível salvá-lo e por tudo que podia ter feito ou deixado de fazer para que ele não tivesse evoluído para o estado atual (“Onde eu errei?”). O iniciador pode sentir culpa pelo sofrimento que está impondo ao cônjuge e aos filhos (“Eu sou muito egoísta. Estou fazendo pessoas inocentes sofrerem só para que eu fique melhor”).

5-  Tristeza profunda

Neste estágio o cônjuge não iniciador constata que o relacionamento realmente está terminando e que os seus esforços para salvá-lo não foram bem sucedidos. O cônjuge iniciador também pode ficar muito triste com o vislumbre do término do relacionamento e com o sofrimento que está causando para os outros envolvidos. Esta tristeza pode dar inicio a uma depressão naqueles casos onde haja uma propensão para isso.

6- Aceitação.

Muitos pacientes, quando estão passando pelos piores momentos da separação, me perguntam se algum dia a vida voltará a fazer sentido para eles. A resposta é claramente um “SIM”. ‘Aquilo que parece impossível de ser superado em um dado momento pode acabar sendo perfeitamente assimilado posteriormente. A maioria de nós acaba assimilando tragédias enormes. Por exemplo, um estudo recente mostrou que, em média, cadeirantes são mais felizes do que pessoas que têm locomoção normal. Esse fenômeno pode ser observado em países em guerra ou que passaram por tragédias como terremotos e maremotos. Tempos depois, as pessoas assimilam suas tragédias e tocam a vida e, por incrível que pareça, voltam a ter alegrias.

Releitura desfavorável do cônjuge e do relacionamento

Durante o processo de separação, passamos a reler o cônjuge e o relacionamento sob outra ótica. Esse tipo de releitura é realizado, em primeiro lugar, pelo iniciador e contribui fortemente para que ele inicie o processo de separação. Em um estágio posterior, ele também é realizado pelo não iniciador e o ajuda a sofrer menos, a diminuir o seu amor pelo iniciador e a aceitar a separação.

Recrutamento de um aliado. É muito comum que aquele cônjuge que está tomando a iniciativa de separar-se procure um aliado que o auxilie neste empreendimento: dê ouvidos para a suas queixas, ajude-o a reler desfavoravelmente as ações do outro cônjuge, incentive-o a tomar decisões separacionistas. Este aliado pode ser um amigo, um amante ou um terapeuta.

O seu relacionamento está caminhando para o fim e não é isso que você quer ou pode suportar? Procure a ajuda de um psicólogo

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Por Ailton Amélio às 10h26

04/11/2012

Você sabe diferenciar os seus amigos?

A amizade, juntamente com as relações familiares e o amor romântico, dá sustentação e conteúdo para a nossa vida psicológica e prática. A amizade tem importância fundamental para a formação e manutenção da nossa identidade e autoestima. Ela também  tem um papel muito importante no nosso lazer e na nossa vida social. Além disso, a amizade favorece a nossa vida profissional.


Saúde e amizade

Vários estudos vêm mostrando que há uma relação inversa entre o recebimento de fortes apoios sociais e incidência de doenças cardíacas, infecções virais e câncer. As pessoas que costumam compartilhar seus sentimentos e pensamentos estão menos sujeitas a vários tipos de problemas psicológicos e físicos. Um destes estudos verificou que aqueles que revelam mais seus sentimentos e pensamentos para pessoas em quem confiam quando são hospitalizadas se recuperam na metade do tempo. A solidão (que inclui a ausência de amizades) está associada com maiores índices de infelicidade, suicídio e consumo de drogas. Um estudioso desta área afirmou que o apoio social funciona como uma espécie de vacina comportamental que protege a saúde física e mental.


Variações no conceito de amizade

A natureza daquilo que chamamos de “relação amistosa” varia muito entre as culturas (os alemães, por exemplo, são arredios a novas amizades, principalmente com estrangeiros), entre as idades (as crianças, por exemplo, dão muito valor para o compartilhamento de brinquedos) e entre os sexos (as mulheres, por exemplo, tentem a confiar mais nos amigos do que os homens; estes dão mais importância para as atividades que participam juntos do que para longas conversas pessoais).


Requisitos da definição de amizade para os americanos

Segundo pesquisas americanas 1, a amizade na idade adulta inclui:

- A tendência para desejar o que é melhor para o outro

- Simpatia e empatia

- Honestidade: falar a verdade para o amigo quando ele estiver errado e isto for bom para ele.

- Compreensão mútua e compaixão

- Sentir prazer pela companhia do amigo

- Confiança mútua

- Fortes sentimentos positivos pelo amigo

- Percepção de reciprocidade da amizade

- A possibilidade de ser como realmente é, expressar sentimentos e cometer erros sem medo de julgamento.

Um publicado por Karen Karbo, na revista Psychology Today2, afirma que a amizade é despertada por pessoas que apoiam como somos (principalmente a nossa identidade social) e, apenas em melhor escala, pelas características destas pessoas ! Este artigo também ressalta a importância do compartilhamento de sentimentos e pensamentos para a formação da amizade. Ressalta ainda que, para para criar amizades, oferecer benefícios é mais importante do que recebe-los (você tende a gostar mais quem cuida do que de quem você recebe cuidados)!


Amizade no Brasil

Aqui no Brasil, a palavra “amigo” é usada em um sentido muito amplo. Ela é usada para nomear vários tipos de relacionamentos que vão desde alguém que adicionamos no Face Book  até alguém que apoia a nossa forma de ser, pensar e sentir e com quem podemos contar para o que der e vier (apoio psicológico, apoio material, etc.). Entre estes dois extremos existem vários tipos de relacionamentos que possuem várias características e funções peculiares e que podem ser distinguidos entre si.

Aqui no nosso país ainda existem poucos estudos sobre a amizade. Uma destas exceções é o artigo teórico, muito interessante, dos professores Luciana Karine de Souza e Cláudio Simon Hutz, da Universidade de Maringá3, sobre a amizade em adultos. Em uma seção deste artigo, esses professores apresentaram um breve resumo sobre as características da amizade que foram identificadas em três estudos realizados aqui no Brasil por outros autores. Estes dois professores concluem que, aqui no nosso país, os atributos da amizade identificam-se com aqueles relatados na literatura internacional. Os principais destes atributos são os seguintes:

- Trocas afetivas

- Ajuda

- Companheirismo

- Diversão em certas atividades

- Intimidade

- Autovalidação.


Vantagens e desvantagens de estender o sentido da palavra amigo para vários tipos de relacionamentos

A maior vantagem uso ampliado da palavra "amizade" é criação de proximidade psicológica naqueles casos aonde essa palavra insinua a existência de algo que  vai um pouco além daquilo que seria justificado pelo conteúdo do relacionamento. Por exemplo, chamar um desconhecido de “amigo” pode aumentar as chances de obter um pequeno favor da sua parte (“Amigo, por favor, você pode me indicar onde fica o posto de gasolina mais perto”?). 

Por outro lado, a tolerância no uso deste termo para nomear relacionamentos tão díspares pode gerar erros de percepção e de expectativas que provocam frustrações e danos (cobranças injustificadas, confiar em quem não merece, etc.). Por exemplo, ao confundir uma relação hierárquica cordial com amizade podemos deixar o nosso chefe desconfortável quando o tratamos com a informalidade que é mais apropriada entre amigos


Tipos de relacionamento

Os relacionamentos podem ser classificados em várias categorias de acordo com suas origens, intensidades e conteúdos. Algumas dessas categorias são as seguintes (veja as sugestões de outras categorias no Wikipedia, citado no fim deste artigo):

Amizade emergencial. Uma amizade em que os amigos se reúnem com frequência para dar incentivo e apoio emocional para aquele que se encontra em momentos de grande necessidade. Este tipo de amizade tende a durar apenas quando partes opostas cumprir as expectativas de apoio para o relacionamento.

Amigos unilaterais. Tal como acontece com o amor romântico não correspondido, a amizade que uma pessoa sente por outra pode não ser correspondida. Um pesquisador pediu a estudantes que se relacionavam entre si que atribuíssem graus de amizade para os seus relacionamentos. A análise dos resultados mostrou que os graus de amizade muitas vezes não eram correspondidos. Certas pessoas eram consideradas como muito amigas por diversas outras, mas elas não apontaram essas outras como sendo suas amigas, no mesmo grau. O mapa das amizades que foi construído através desta pesquisa (“sociograma”) mostrou um bom grau de desencontro entre as amizades.

Conhecidos. Os laços emocionais estão ausentes. Não é esperado apoio emocional ou material entre pessoas que têm este tipo de relacionamento. São pessoas, por exemplo, que acabaram de se conhecer e vão tomar café juntas em um intervalo entre as conferências de um congresso.

Melhor amigo. Pessoas que compartilham fortes laços interpessoais e que colocam a outra em primeiro lugar neste tipo de relacionamento

Amigos com benefícios. Amigos que também praticam sexo entre si. Quando não há sentimentos românticos de ambas as partes, o sexo, neste caso, geralmente beneficia a amizade.

Amigos de família. Uma amizade entre membros de duas famílias que tem a sua origem na amizade entre outros membros. Por exemplo, a amizade entre os pais de duas famílias acaba sendo estendida, numa certa medida, para as suas esposas e filhos.

Amigo de internet. Uma amizade que foi formada e que se mantêm restrita à intermete. Neste caso pode haver troca de apoios mútuos, companhia virtual agradável e alívio da solidão.

Notas

1. Wikipedia.  http://en.wikipedia.org/wiki/Friendship (acessado em 03/11/2012)

2. Karbo, K. Friendship (2006, Avaliado em 2012). How win friends and influence people. http://www.psychologytoday.com/collections/201210/how-win-friends-and-influence-people/friendship-the-laws-attraction

3.  Souza, L. K. e Hutz, C. S. (2006) Relacionamentos pessoais e sociais: amizade entre adultos. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 2, p. 257-265, abr./jun. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pe/v13n2/a08v13n2.pdf (acessado em 03/11/2012)

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Por Ailton Amélio às 11h33

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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