Blog do Ailton Amélio

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27/01/2013

Somos poliamorosos, polissexuais e megainibidos

O casamento monogâmico exige que tenhamos amor romântico, relações sexuais e vários tipos de compromissos apenas com o nosso cônjuge. Existem algumas tendências biológicas, sociais e pessoais que favorecem essa forma de casamento. Por outro lado, também existem várias tendências que favorecem a poligamia ou a anogamia (ausência de qualquer tipo de casamento e a expressão livre do amor e da sexualidade). Vamos destacar aqui duas dessas últimas tendências: o poliamor e o polissexo.

As sociedades que têm monogamia ou a poligamia como a forma ideal de casamento contam com diversos tipos de megainibições como aliadas para tentar impor esses ideais. Essas inibições também têm origem na nossa biologia, nas normas sociais e em nossas idiossincrasias.

Neste artigo vamos examinar as nossas tendências para o poliamor, para o polissexo e as megainibições contra essas duas propensões.


Sentir atração amorosa e sexual por várias pessoas é a regra

Responda agora a seguinte pergunta: “Quantas pessoas existem no seu círculo de relacionamento pelas quais você sente atração que, no mínimo, seria suficiente para iniciar um relacionamento amoroso ou sexual?” (Desconsidere o fato de você ou dessas pessoas serem comprometidos).


Possíveis respostas

- Você respondeu que sente atração por uma, duas, três ou quatro pessoas? Não se assuste: essas são as respostas mais comuns.

- Você respondeu que não sente atração por ninguém? Este tipo de resposta é mais raro. Geralmente ela é apresentada por quem foi ferido ou decepcionado recentemente por um parceiro amoroso ou teve pais frios e distantes.

- Você sente atração por mais que cinco pessoas? Geralmente quem apresenta esse tipo de resposta se enquadra em uma ou mais das seguintes possibilidades: (1) tem um estilo de amor Ludos (tem grande prazer na conquista, mas depois que ela acontece, o interesse pelo parceiro diminui muito); (2) tem um alto grau de erotofilia (gosta muito de sexo); (3) é polissexual (gosta de sexo com diferentes pessoas) (4) é poliamoroso (é capaz de amar várias pessoas simultaneamente) ou (5) frequenta locais onde existe muita gente atraente.

Apresentei essa pergunta para diversos homens e mulheres em diferentes ocasiões. De uma forma geral, quase todo mundo sente atração romântica e/ou sexual por mais que uma pessoa. O fato de estar ou não comprometido afeta pouco as respostas (o comprometimento diminui ligeiramente a quantidade de pessoas atraentes).

Conclusão: todos nós, comprometidos ou não, sentimos atração por mais que uma pessoa, em uma intensidade que, no mínimo, seria suficiente para começar um relacionamento amoroso. Esse é um dos fatores que induzem à traição: quando nos comprometemos com uma pessoa não deixamos de sentir atração por outras.


Origens do poliamor e da polissexualidade

A biologia, a sociedade e as nossas experiências idiossincráticas contribuíram tanto para criar os atrativos amorosos e sexuais quanto para nos tornarmos sensíveis a eles, quando são exibidos por outras pessoas. Aliás, esses mecanismos são interdependentes: algo só é atrativo porque alguém que se atrai por ele.

Quase todos nós nos deparamos frequentemente com pessoas atraentes na área romântica e/ou sexual. Essas pessoas atraentes possuem alto grau de feminilidade ou masculinidade, sensualidade, charme e beleza. O comprometimento não nos torna cegos, surdos e anósmicos para a beleza, charme, vozes e odores dessas pessoas. O comprometimento é uma forma de inibição que nos leva a tomar medidas para que essas atrações não nos conduzam a um maior envolvimento com essas pessoas.


Muitos de nós somos poliamorosos

Quase todo mundo já amou mais que uma vez na vida e teve várias paixões. Uma enquete que realizei com estudantes universitários verificou que os participantes tiveram 3,6 paixões e 1,3 amores (a idade média desses estudantes era, aproximadamente, 24 anos). Em geral as pessoas se apaixonam ou amam diversas pessoas sucessivamente. O mais raro é ter várias paixões ou amores simultâneos. Aqueles cujos amores acontecem simultânea e corriqueiramente são chamados de “poliamorosos”.

Todos nós sentimos atração romântica por diversas pessoas simultaneamente. No entanto não nos permitimos, e não nos é permitido, que essas atrações sejam desenvolvidas a tal ponto ou de tal forma que elas se transformem em relacionamentos amorosos paralelos. Essa capacidade para sentir atração amorosa e sexual por diversas pessoas varia muito: para algumas pessoas ela é bem pequena e para outras, imensa. A maioria fica entre esses dois extremos.

Algumas pessoas são capazes de apresentar sentimentos amorosos profundos por vários parceiros ao mesmo tempo. Essas pessoas sentem que cada um deles tem os seus atrativos e seus defeitos e não se sentiriam satisfeitas se desenvolvessem um relacionamento exclusivo com apenas uma deles.

A poliamorisidade não necessariamente leva à traição. Muitos poliamorosos que entrevistei não se comprometem exclusivamente com ninguém. Sempre deixam muito claro como são neste setor, desde o inicio de seus relacionamentos.

O poliamor difere do estilo Ludos de amar porque os lúdicos estão mais interessados na conquista e, quando ela acontece, eles logo perdem o interesse pelo parceiro. Os poliamorosos têm sentimentos duradouros pelos parceiros.

Os poliamoros diferem dos polissexuais porque a base de seus relacionamentos é a intimidade e o amor romântico e não o sexo. A base do relacionamento dos polissexuais é o sexo, que pode acontecer até com desconhecidos ou em grupo.


Muitos de nós somos polissexuais

A palavra "polissexual" é usada aqui para nomear aqueles que gostam de praticar o sexo com vários parceiros, seja dentro de um casamento poligâmico ou de uma forma pouco regulada como no sexo casual e no swing. A noção de que nós, seres humanos, somos moderadamente polígamos já está amplamente difundida. A notícia de que a maioria das sociedades estudadas pelos historiadores e antropólogos tem a poligamia como forma ideal de casamento já é de conhecimento público

As sociedades como a nossa, que têm a monogamia como ideal, na prática são polissexuais já que nelas existem muitas traições. Além disso, as regras da nossa sociedade não são muito rígidas e, por isso, muitas pessoas manifestam mais abertamente suas polissexualidades. Essas pessoas são aquelas que frequentam casas de swing, têm casamentos aberto ou praticam sexo casual. A maioria dessas pessoas guarda segredo sobre essas atividades para não sofrerem sanções.

Muitos polissexuais gays encontraram condições muito propicias para manifestar essa preferência, pois eles têm mais facilidades para iniciar relacionamentos sexuais do que os heterossexuais polissexuais.Isso acontece porque as exigências masculinas, tanto entre os homos quanto entre os heterossexuais masculinos, são bem mais reduzidas do as das mulheres para esta finalidade. Só para ter uma ideia de como é bem mais fácil iniciar um relacionamento sexual entre dois homens do que entre um homem e uma mulher, considere as seguintes estatísticas americanas:

- 17% dos homens e 10% das mulheres heterossexuais relataram que tiveram dois ou mais parceiros sexuais no ano passado.

- 28% dos homens homossexuais tiveram mais de 1000 parceiros. 83% dos homens homossexuais entrevistados estimam que tenham feito sexo com 50 ou mais parceiros nas suas vidas. 43% estimam que fizeram sexo com 500 ou mais parceiros; 28% com 1.000 ou mais parceiros (Bell e Weinberg p 3081)


Somos megainibidos

A inibição é o impedimento para realizar algo que estamos motivados para fazer. Uma evidência da megainibição para manifestar nossas tendências poliamorosas e polissexuais é o fato de que nunca houve uma sociedade onde tais expressões tenham ocorrido livremente. Também sentimos medo, culpa e vergonha quando começamos a pensar e a agir de uma forma "poli": já introjetamos os valores sociais.


Inibições contra o poliamor

O poliamor não é realizado por muita gente devido às consequências sociais que esse tipo de opção acarreta: pouca gente aceitaria ter um relacionamento profundo e comprometido com alguém que tem um relacionamento assim com varias pessoas. Além disso, o poliamoroso  acaba sendo estigmatizado e punido pelas outras pessoas.

A nossa sociedade condena o poliamor plenamente assumido, mas permite  usufruir um pouco desse tipo de relacionamento quando ele vem disfarçado de amizade, coleguismo ou atividades profissionais.


Inibições contra o polissexo

Não existe nenhum relato histórico ou antropológico de uma sociedade onde o sexo era praticado livremente. Pelo contrário, todas as sociedades regulam a prática sexual  através de regras bastante rígidas. Até as tentativas artificiais para criar comunidades onde o sexo e o amor eram livres não duraram muito tempo. Uma dessas tentativas que mais durou foi a comunidade de Oneida, nos EUA: durou cerca de 30 anos.

A nossa sociedade está cada vez mais liberada. Por isso, cada vez mais pessoas têm oportunidade de expressarem como realmente são e aquilo que as satisfazem nas áreas amorosas e sexuais. Que cada um aja da forma que acredita, contanto, é claro, que isso não traga danos para si ou para terceiros.

NOTA1- Bell, A. P. and Weinberg, M.W (1978), “Homosexualities: A Study of Diversity Among Men and Women”.New York: Simon and Shuster.

SE VOCÊ É POLIAMOROSA OU POLISSEXUAL E QUER SER ENTREVISTADA, ESCREVA PARA O MEU E-MAIL (ABAIXO)

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Por Ailton Amélio às 09h35

20/01/2013

Iscas usadas por homens para obter sexo casual

Neste artigo vamos abordar um artifício que é utilizado por certos homens para obter sexo casual. Obviamente, nem todos os homens aprovam ou utilizam esse tipo de isca. O grau de consciência daqueles que fazem uso desse artifício também varia muito.


Douglas T. Kenrick, professor da Arizona State University, e associados1 realizaram uma pesquisa que se tornou clássica entre os estudiosos do relacionamento amoroso. Esses autores pediram para homens e mulheres que avaliassem o grau mínimo que exigiriam de cada uma das 21 qualidades2 de um pretendente para se envolverem em cada um dos seguintes cinco tipos relacionamentos amorosos: encontro, sexo casual, namorar, noivar e casar. Essas 21 características foram apontadas por outras pesquisas como importantes para escolher um parceiro amoroso (saúde, beleza, nível de escolaridade, etc.). Por exemplo, cada um dos participantes dessa pesquisa avaliou o grau mínimo de beleza que exigiria de um pretendente para aceitar um encontro com ele.

De uma forma geral (existem algumas poucas exceções), esse estudo verificou que tanto os homens como as mulheres iam ficando cada vez mais exigentes à medida que ia aumentando o grau de compromisso do relacionamento. Por exemplo, as exigências tendiam a ser menores para um encontro do que para namorar. No entanto, homens e mulheres diferiam marcadamente no grau mínimo de exigência para os relacionamentos de baixo grau de compromisso. Por exemplo, para sexo casual, um dos menores graus de compromisso dentre esses cinco, os homens eram muito menos exigentes do que as mulheres. À medida que ia aumentando o grau de compromisso, os graus de exigências de homens e mulheres iam se tornando cada vez mais semelhantes. Para o casamento, o maior grau de compromisso dentre esses cinco, homens e mulheres se mostraram igualmente exigentes.


A isca usada pelos homens

Os homens que só querem sexo geralmente têm dificuldades para encontrar mulheres tão ou mais qualificadas que eles que aceitem esse tipo de relacionamento. No entanto, eles descobriram que podiam atrair mulheres menos qualificadas que eles próprios se dessem a entender que seus interesses por elas poderiam ir além do sexo. Dessa forma, eles atenderiam dois dos principais requisitos que elas exigem para sexo: (1) o pretendente deve possuir, pelo menos, as qualificações mínimas que elas exigem e (2) o pretendente deve mostrar disposição para um relacionamento mais compromissado. As mulheres, ao se depararem com essa situação, ficam muito tentadas, pois os homens que usam essas iscas possuem qualidades bem acima do mínimo que elas exigem e mostram um grau de interesse por elas que indica a possibilidade do desenvolvimento de um relacionamento mais compromissado com elas. Mais que isso, elas ficam temerosas de perder esse parceiro tão qualificado, caso mostrem muitas resistência aos seus desejos sexuais imediatos. Depois que cedem é que elas descobrem que eles só queriam sexo. Foram “usadas”.

Acho bastante desleal e condenável quando o homem usa deliberadamente este tipo de isca para enganar a mulher. 

Se a mulher também só queria sexo, tudo perfeito: não ficam frustradas e, além disso, transaram com um parceiro muito atraente! O mesmo é válido para os homens.


Sinais que indicam que a mulher foi "usada"

As mulheres se sentem usadas quando, após o sexo, o homem muda abruptamente de atitude: deixa de ser carinhoso, perde o interesse em conversar com ela, dorme, vai embora ou some. Essa mudança brusca de atitude revela que quase tudo aquilo que ele estava fazendo era motivado apenas pelo seu interesse sexual e era apenas uma isca para conseguir transar com ela.


Confusão motivacional, cognitiva e perceptual que contribui para a eficiência da isca

Tanto os homens como as mulheres, estamos sujeitos a uma espécie de confusão mental e emocional na hora de iniciar um relacionamento com um parceiro atraente. Os homens que querem sexo confundem seus desejos puramente sexuais com um interesse mais amplo pela mulher. Nestas circunstâncias, eles também sentem uma espécie de fascínio romântico por elas, em uma intensidade um pouco maior do que sentirão imediatamente depois que se saciarem sexualmente. Essa confusão induz a mulher a pensar que existe uma chance maior que a real de que ele esteja interessado nela e não apenas em sexo. É uma espécie de autoengano masculino que contribui para “amolecer” a mulher.

As mulheres, quando encontram um homem que possui as qualidades que elas desejam para um relacionamento amoroso, também estão sujeitas a distorções. Por exemplo, se um homem tem excelentes condições econômicas, elas tendem a julgá-lo mais bonito do que julgariam caso ele não apresentasse esse atrativo econômico.


Sinais que indicam que o homem só quer sexo

Alguns dos principais sinais que indicam que o interesse masculino é apenas sexual, indicados por outra pesquisa, são os seguintes:

- Não se interessa muito pelos sentimentos, ideias, planos e cotidiano da mulher.

- Evita falar de si, da sua vida profissional e do seu círculo de relacionamentos pessoais. Fala apenas aquilo que pode impressioná-la favorável e imediatamente.

- Toma rapidamente o caminho erótico: vai colocando a mão, aborda assuntos sexuais, olha diretamente para o corpo da mulher.

- Não apresenta a mulher para seus amigos e, muito menos, para a sua família e não se interessa em conhecer os amigos e parentes dela.

- Não faz planos que a inclua. Não menciona coisas que poderiam fazer a médio e, muito menos, em longo prazo.

- Tenta embebedar a mulher: “O superego é solúvel em álcool”!

- Não resiste à prova do tempo: se a mulher dá sinais que não vai aceitar sexo rapidamente, ele desiste. Ele não está disposto a se envolver muito e a investir no relacionamento antes de ir para a cama.


Quando não se trata de isca

Se ambos querem a mesma coisa, tudo certo: nem o homem nem a mulher estarão usando iscas para obter outros benefícios. É um relacionamento honesto, sem subterfúgios e sem enganação: ambas as partes não estão dando a entender uma coisa para obter outra. Por exemplo, se ambos querem apenas sexo sem compromisso e isso fica claro para ambos antes do sexo, está tudo certo!

Você tem dificuldades para iniciar ou desenvolver relacionamentos amorosos? Procure a ajuda de um psicólogo.

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NOTAS

1- Kenrich. D. T., Sadalla, E. K., Groth, G., & Trost, M.R. (1990). Evolution, traits and stages of human courtship: Qualifying the parental model. Journal of Personality, 58, 97-116.

2- Termos como “qualidade” e “qualificado” são usados aqui sem conotação valorativa. Aquilo que é considerado qualidade para uma pessoa ou em sociedade pode ser considerado defeito para outra pessoa ou sociedade e vice-versa. Muitas vezes as características desejáveis em um parceiro amoroso nem podem ser classificadas como “qualidades” ou “defeitos”, mas sim como compatibilidades e gostos.

 

POST SCRIPTUM

Comentários a esse texto

Anexo aqui os comentários da psicóloga Simone Vitale. Eles são muito interessantes e complementam esse artigo e o meu artigo anterior "Mulheres que usam iscas sexuais para iniciar relacionamentos amorosos".

Gostei muito do texto, concordo com tudo que foi escrito, mas acho uma pena que esse tipo de coisa ainda aconteça.

Sou mulher, psicóloga e, portanto, esse assunto faz parte da minha rotina.

Vejo que, apesar de todas as conquistas obtidas, as mulheres ainda não podem viver plenamente sua sexualidade. Eu conheço várias mulheres que não se importariam em ter sexo casual com alguém que lhes parecesse interessante. No entanto, quando deixam isso claro, acabam sendo rotuladas como "fáceis" (ou coisa pior), mulheres para "se divertir" e não para se ter um "relacionamento sério". Nenhuma mulher gosta de ser rotulada assim, mesmo que não queira um relacionamento sério em determinado momento. Por conta disso, muitas fingem se iludir, outras realmente se iludem, com homens com os que você descreve. Tenho dezenas de exemplos para contar.

O que me incomoda é o jogo que muitos homens (e também mulheres) fazem. Acho que é mais fácil e honesto deixar claro o que se deseja do outro para que esse possa optar. Mas existe o medo de dizer a verdade e ser rejeitado (a) e aí...

Acho um contraste vivermos num mundo tão desenvolvido no campo da ciência e tão retrógrado no campo dos relacionamentos. Fico abismada com o machismo da maioria dos jovens. Acho que as coisas não mudaram muito desde o tempo da minha avó. Nós temos que ser "conquistadas" pelos homens, não podemos nos mostrar superiores a eles (o homem tem que brilhar, fala de uma paciente de 60 anos: "Temos que ser "ladies” perante a sociedade e “putas” entre 4 paredes”), etc. Fica difícil ser independente, e ao mesmo tempo ser esse tipo de mulher que os homens querem. Aliás, o que os homens querem é uma pergunta que nos intriga.

Outra coisa que lembrei lendo seu texto foi a famosa crise da primeira transa. Não sei se já escreveu sobre isso, mas é um clássico entre minhas pacientes e amigas. Dar ou não dar no(s) primeiro(s) encontro(s)? Se você dá e o cara some é porque  você  foi fácil (homem não gosta de mulher fácil), se você não dá e ele some é porque você foi difícil!!! kkkk

Mas, lendo o seu texto ficou claro que ele sumiu porque só queria sexo casual, né? O problema é que, ao não deixar isso claro, ele faz com que a mulher fique achando que fez algo de errado, que o problema é com ela, quando, na verdade, não é esse o caso. O que mais vejo são mulheres com baixa autoestima!

Simone Vitale

Por Ailton Amélio às 09h00

12/01/2013

Mulheres que usam iscas sexuais para iniciar relacionamentos amorosos

Neste artigo vou abordar o  uso de iscas sexuais por parte das mulheres para iniciar relacionamentos amorosos e agitar as suas vidas sociais. Este artigo aborda apenas o uso desse tipo de isca por mulheres porque elas raramente funcionam quando são usadas por homens. Nós homens usamos outros recursos para atrair as mulheres para um relacionamento amoroso. Esses recursos serão abordados  em outro artigo.


A seguinte história (fictícia) ilustra bem o uso de iscas sexuais:


Jussara resolve usar a sedução sexual como isca

Jussara tinha cinquenta e tantos anos. Ela foi casada, teve dois filhos e separou-se há um bom tempo. Seus filhos estavam morando com suas respectivas parceiras em outros locais e ela morava sozinha. Quando se separou, quinze anos atrás, tentou refazer a sua vida amorosa. Nesta época, ela verificou que a maioria dos homens que a interessava, do seu círculo de relacionamento, estavam comprometidos. Os descomprometidos geralmente estavam interessados em mulheres bem mais novas que ela ou não queriam nenhum relacionamento sério. Depois de um tempo de tentativas frustradas com os homens desse grupo, a carência e solidão apertaram e, por isso, ela começou a usar outros caminhos procurar um parceiro que fosse compatível com ela e que tivesse os mesmos objetivos nessa área. Nessa nova fase, ela tentou de tudo: bares, boates e sites de relacionamento. Teve vários encontros, mas não conseguiu estabelecer o tipo de relacionamento que desejava.

Nessa sua busca por um companheiro em diversos tipos de locais e situações, ela constatou que atraia sexualmente muitos homens interessantes e que seria muito fácil ter uma vida sexual intensa e variada com eles, caso essa fosse a sua intenção. O difícil era passar desse nível de relacionamento. Quanto mais qualificado fosse o homem que se interessava por ela, menor a chance de que ele quisesse um relacionamento mais profundo e duradouro com ela. No entanto, praticar sexo por sexo não era o seu tipo predileto de relacionamento. Quando dormia com um homem qualificado  sempre começava a alimentar esperanças de que o relacionamento que procurava estava se iniciando e, por isso, sofria com a decepção quando o parceiro desistia ou simplesmente sumia.

Já que ela não conseguia derrotar o inimigo, resolveu-se aliar-se a ele. Pois bem: usaria o seu poder de atrair os homens sexualmente para repovoar a sua vida com acontecimentos sociais e amorosos. Como era óbvio que eram eles, e não ela, os mais interessados em sexo casual, ela concluiu que, se soubesse administrar bem o andamento desses relacionamentos instigados pelo desejo poderia desenvolver muitos aspectos da sua vida amorosa. Com muitos desses pretendentes sexuais, ela também poderia estabelecer outros tipos de relacionamentos.

Além disso, ela também gostava muito de sexo e poderia realizar todos os seus desejos e fantasias que nunca haviam sido realizados durante a sua vida de casada.

Após chegar a esta conclusão, ela montou um perfil em um site de relacionamento. Neste perfil, sempre que possível, ela deixava transparecer a sua liberalidade sexual. Por exemplo, ela mencionava que estava à procura de  “encontros sem compromisso”, “sexo casual” e “amizade”. Além disso, ela publicou uma foto que mostrava o seu rosto um tanto borrado e irreconhecível, e também e a sua roupa, adornos e postura corporal que revelavam discretamente os seus atrativos sexuais. Pouco tempo depois que se inscreveu neste site apareceram muitos pretendentes.  O seu trabalho, dai para frente, foi o de escolher os fãs que pareciam mais atraentes, mais educados e  mais confiáveis e fazer progredir o relacionamento com eles.  De fato, raramente ela tinha encontros sexuais com eles. O que mais importava era ter um bom grupo de homens que estavam sempre procurando seduzi-la, que apresentavam convites para programas e festas e com os quais ela podia conversar. Os homens batalhavam muito para conseguir algo mais do que as pequenas amostras grátis que ela fornecia de vez em quando para mantê-los esperançosos!

Quando saia para as baladas, ela se vestia de uma forma bastante insinuante, mas não vulgar, e exibia os seus atrativos, de uma maneira sensual e sutil, quando dançava sozinha ou com alguma amiga. Dentre os homens que prestavam atenção nela, ela selecionava os mais atraentes e que aparentavam ser pessoas de bom gosto e passava a dar-lhes pequenos incentivos, como uma olhada um pouco mais demorada e um sorriso.  Segundos depois o aquinhoado a abordava.

Durante as conversas na internet ou ao vivo mostrava-se sexualmente liberada, pois usava um linguajar que deixava claro as suas atitudes avançadas neste setor. No entanto, ela não permitia iniciativas sexuais diretas por parte dos seus pretendentes. Ela só correspondia às iniciativas sexuais mais explícitas quando eles mostravam que eram pessoas qualificadas, agradáveis e atraentes. Dentre esses homens, ela sempre escolhia aquele que apresentasse indícios fortes que poderia manter um relacionamento agradável. Dispensava imediatamente os mais grosseiros e aqueles que se mostravam muito superficiais ou desagradáveis.

Embora esta forma de agir tivesse baixa chance de levá-la a um relacionamento do tipo que queria anteriormente, a sua vida atual estava bem mais interessante do que a época que ficava em casa assistindo televisão e curtindo a sua carência e solidão!


Quando as mulheres oferecem sexo como isca

Muitas mulheres estão descobrindo que, mesmo quando elas têm dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos nos moldes tradicionais, ainda assim podem ter uma vida amorosa agitada e atraente quando lançam mão de iscas sexuais.

Essas mulheres são aquelas que têm uma ou ambas das seguintes características: (1) alto grau de erotofilia (gosto por sexo) ou (2) sabem usar a isca sexual para obter diversos tipos de benefícios na área amorosa e social, como cortejamento, atenção, companhia, diversão e programas.

O alto grau de erotofilia é uma característica positiva que pode trazer muitas satisfações para elas e para seus parceiros. As mulheres que gostam muito de sexo e o praticam tanto em encontros casuais como em relacionamentos exclusivos são consideradas como muito atraentes pela maioria dos homens. O sexo, no caso destas mulheres, é praticado principalmente pelo prazer que ele lhes proporciona e não pelo seu uso como isca. Geralmente todos nós somos influenciados por essas duas motivações.

Devido à diminuição da repressão e estigmatização da sexualidade feminina verificada nos últimos tempos, esse grupo de mulheres liberadas constatou que possue vários atrativos de natureza sexual que antes eram impedidas de usar devido aos preconceitos sociais e que esses atrativos são muito eficientes para atrair homens muito desejáveis. Isso fez com que muitas delas saíssem a campo para usar esses novos recursos e para desenvolver novas modalidades de relacionamentos amorosos.

Muitas das mulheres que estão lançando mão da isca sexual são aquelas que, por diversos motivos, têm poucos atrativos para os homens e que, por isso, têm dificuldades para atrai-los para um relacionamento amoroso “pleno”. Alguns exemplos de mulheres que estão usando essas iscas por esses motivos: mulheres que já atingiram certa idade e mulheres que são pouco atraentes psicológica ou fisicamente. São mulheres que verificaram que é difícil obter tudo aquilo que gostariam na área amorosa, mas que não estão condenadas a se aposentarem nesta área ou a se resignarem a ficar de mãos vazias.


A oferta sexual para os homens é bem menor que a procura

A maioria dos homens passa boa parte da vida frustrados sexualmente. Vários estudos apresentaram evidências que eles pensam muito mais frequentemente em sexo que as mulheres, se masturbam mais, pensam em uma maior variedade de parceiras sexuais, aceitam mais convites sexuais de desconhecidas e, quando reúnem condições, multiplicam a quantidade de parceiras sexuais.

Mesmo quando eles têm uma parceira fixa, é mais provável que elas, do que eles, soneguem sexo e que o use como moeda de troca para obter outras vantagens no relacionamento. Por exemplo, é mais provável que elas recusem sexo quando estão insatisfeitas como o parceiro do que vice-versa. (Uma restrição a essa afirmação: atualmente tenho recebido muito mais reclamações de falta de interesse sexual de homens do que de mulheres).

As mulheres, sabedoras que são desse calcanhar de Aquiles dos homens, usam seus atrativos sexuais como tentações para obter atenções e outros benefícios que eles podem oferecer.


O sexo casual é um poderoso atrativo para muitos homens

O sexo pelo sexo é um poderoso atrativo para muitos homens (existem exceções): nas prisões masculinas, certa percentagem de homens é transformada em escravos sexuais. Em zonas rurais, uma grande percentagem de homens pratica sexo com animais; muitos homens pagam prostitutas; vários homens proeminentes foram acusados de abuso, assedio e comportamentos promíscuos como, por exemplo, os ex-presidentes americanos Clinton, John Kennedy e Berlusconi.


Oportunidade gerada pela isca para exibir outros atrativos

O homem cujo desejo foi despertado confunde, em certa medida, o que está se passando com ele com o fascínio e a paixão genuínos. Muitas vezes, essa diferença fica clara imediatamente depois que ele se satisfaz sexualmente. Ai então, ele perde completamente a vontade de conversar, de cortejar e quer ir tomar um banho, dormir ou ir embora.

Quando o homem já foi fisgado pela esperança do sexo casual, mas ainda não  o consumou, ele pode ficar muito atento para tudo que se passa com a  mulher, mesmo quando ela não preenche os requisitos que ele exige para um relacionamento amoroso mais compromissado. Enquanto isso está acontecendo, ela tem a oportunidade de apresentar seus outros encantos e até a conquistá-lo para outros tipos de relacionamento. É claro que o próprio sexo, quando é de boa qualidade, também pode ser um grande atrativo para que ele se envolva com a mulher.


Efeitos indesejáveis do uso de iscas sexuais

O uso da isca sexual pode ter efeitos colaterais indesejáveis. Por exemplo, ao usá-la uma mulher pode ser classificada pelos preconceituosos e machistas como “não séria” e, por isso, não indicada para um “relacionamento sério”. Além disso, ao usar essa isca, as atenções dos homens que poderiam ser despertadas por outras qualidades da mulher podem ser ofuscadas e desviadas por este poderoso recurso. Ou seja, nesse caso quem fez uso dessa isca desperdiçou uma chance de iniciar um relacionamento pleno e ganhou apenas um pretendente sexual. Muitas mulheres também sentem que o uso deste recurso é vulgar ou contra os seus princípios. As mulheres que pensam assim podem ter sérios prejuízos psicológicos quando usam esse recurso como, por exemplo, uma baixa na autoestima.

Você tem dificuldades para iniciar ou desenvolver relacionamentos amorosos? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 17h12

06/01/2013

Sucesso na conversa e habilidades para desenvolver "conversas contato"

“Está quente hoje, não é?”

Conversa contato entre um terapeuta e seu paciente

O terapeuta vai recepcionar o paciente na sala de espera do seu consultório. O terapeuta é quem fala o “olá” inicial, enquanto se cumprimentam. Em seguida, ele e o paciente começam a caminhar em direção à sala de atendimento enquanto continuam a conversa:

T - Olá, Fulano! Tudo bem?

     P - Tudo. E você?

     T - Tudo tranquilo. Você está esperando há muito tempo?

     P - Há uns dez minutos. Hoje o transito estava bom. Cheguei rápido.

     T - Que bom!

     P - Hoje está muito quente, não é?

     T - Ouvi no rádio que hoje é um dos dias mais quentes do ano!

     P - Ainda bem que na sua sala tem ar condicionado!

     T - É verdade. Ajuda bem!

(Chegam à sala do terapeuta e sentam-se. O terapeuta é o primeiro a falar).

     T - E ai? Como foi a sua semana? Hoje, você parece bastante animado!

     P - Estou sim! Consegui sair com ela!

 

A conversa contato vai sendo desenvolvida enquanto o terapeuta e seu cliente caminham até a sala de atendimento e, às vezes, ela se prolonga por alguns minutos após chegarem a esse local. Em seguida, após um curto período de silêncio, o terapeuta apresenta uma pergunta significativa, em um tom de voz diferente, e a sessão terapêutica propriamente dita é iniciada. Por exemplo, ele pergunta como foi a semana do paciente. Para descobrir qual tema será abordado na sessão, ele também pode perguntar se o paciente tem algum assunto que está presente na sua cabeça ou se há algo importante que ele queira tratar (muitas vezes ele tem).

Um dos motivos para iniciar a conversa contato na sala de espera é que seria incômodo permanecer em silêncio após o cumprimento e durante o trajeto até a sala de atendimento. Também, não é apropriado iniciar a terapia na sala de espera, na frente da secretária e de outros pacientes que lá se encontram. A sala de atendimento é o local onde as conversas terapêuticas acontecem. Neste local também é inapropriado prolongar as conversas contato.


Definição  de conversa contato

Conversa contato é aquela conversa leve que geralmente ocorre no início dos encontros. A principal função desse tipo de conversa é manter a comunicação entre os interlocutores enquanto outros assuntos mais importantes ou motivadores vão sendo procurados, outras informações importantes para o estabelecimento da conversa que vai acontecer em seguida vão sendo coletadas e operações que instalam a conversa propriamente dita vão sendo executadas.

A conversa contato pode ser o único tipo de conversa que acontece em um encontro rápido. Ela também ocorre quando não é possível ou desejável manter uma conversa propriamente dita (o local não é apropriado, não há tempo ou não há interesse em desenvolver uma conversa mais densa). Esse tipo de conversa pode ser retomado durante a conversa propriamente dita, quando “falta assunto” e é inconveniente interromper essa conversa (retomar ou prolongar excessivamente este tipo de conversa neste contexto indica que a conversa propriamente dita não está fluindo).

Este tipo de conversa já recebeu várias denominações, tais como “conversa introdutória” e “conversa estabelecedora”. Estes nomes não descrevem apropriadamente a natureza e as funções deste tipo de conversa. Outras denominações utilizadas popularmente, como “conversa mole” e “papo furado”, revelam uma atitude negativa quanto a este tipo de conversa, o que é um equívoco, como veremos abaixo.


Estágios das conversas contato entre pessoas que estão começando a se conhecer

A conversa contato geralmente é desenvolvida através de estágios previsíveis. Alguns desses estágios ocorrem tanto entre pessoas que estão conversando pela primeira vez como entre velhos conhecidos que estão se reencontrando. (Quando houver diferenças entre esses tipos de conversa elas serão apontadas).

A ordem cronológica dos tipos de assuntos tratados da conversa contato entre recém-conhecidos geralmente é a seguinte:

1- Conversa sobre o entorno: fatos e acontecimentos presentes no ambiente ou recentes. Existem dois tipos principais de conversas sobre o entorno: (a) conversa  sobre o entorno que pode ser observado por ambos os interlocutores (a beleza do local, a animação da festa, a palestra que acabaram de ouvir, etc.) e (b) conversa sobre acontecimentos recentes (chuva que acabou de cair, dificuldade para estacionar, etc.).

2- Sondagem sobre a existência de amigos ou experiências compartilhadas na vida. (Conversa contato entre pessoas que estão se conhecendo). Quem é o interlocutor, o que ele que faz, onde mora, porque está ali, como conheceu o anfitrião da festa e quais são os conhecidos em comum são alguns dos temas que geralmente são abordados entre pessoas que estão se conhecendo.

3: Apresentação de informações que ajudam a situar socialmente o interlocutor. Informações uteis para localizar social, profissional e demograficamente os interlocutores  e para situar as ligações sociais que eles compartilham : de onde é, tipo de trabalho, como conheceram o anfitrião da festa que estão participando, etc. (Este estágio só aparece nas conversas entre pessoas que estão começando a se conhecerem).

4. Apresentação de informações objetivas. Neste tipo de assunto, há pouco risco de ofender ou entrar em conflito com o interlocutor porque são relatos de fatos que não implicam em avaliação pessoal ou em tomada de posição. Por exemplo, apresentar informações sobre o terremoto no Chile: 8.8° na escala Richter, seu epicentro, quantidade de vítimas.

5. Falar coisas divertidas.

Este tipo de assunto é um pouco mais arriscado do que aqueles abordados nos quatro passos anteriores. O humor pode dar uma conotação diferente para a conversa daquela que o interlocutor gostaria e existe o risco de “brincar com coisas sérias”. Por outro lado, este tipo de conversa é prazerosa e eficaz para promover vínculos. O humor não pode ser confundido com o sarcasmo ou com a ironia e muito menos com o divertimento à custa do interlocutor. Esses últimos três tipos de humor podem causar sérios desconfortos para o interlocutor.


Funções da conversa contato

Vamos examinar agora algumas das principais funções das conversas contato.

A importância da conversa contato tem sido subestimada e mal compreendida. Muita gente acha bobagem falar sobre “assuntos superficiais” e quer ir direto para "assuntos mais importantes". No entanto, é um erro pensar assim. A conversa contato tem várias funções positivas, tanto para facilitar a conversa propriamente dita, que pode acontecer em seguida, como para o relacionamento futuro  entre os interlocutores. As principais dessas funções são as seguintes:

1- Exibição de boas intenções e receptividade para o interlocutor. Durante a conversa contato são exibidos sinais de receptividade e de atitudes positivas para o interlocutor através de comportamentos verbais e não verbais. Esses comportamentos mostram prazer por encontrar, disponibilidade para conversar, disposição para conversar e interesse pelo interlocutor. Alguns desses comportamentos são os seguintes: sorrisos, vibração na voz, convidar para sentar, colocar a pasta sobre a mesa para indicar que vai permanecer um bom tempo para conversar, orientação da frente do corpo na direção do interlocutor, olhar atentamente para o rosto do interlocutor, dizer coisas positivas e de forma positiva (paralinguagem apresenta sinais positivos como a vibração na voz), sorrisos e convidar para sentar.

2- “Lubrificar” o relacionamento. A conversa contato “lubrifica o relacionamento”. Esta lubrificação ocorre porque ela é uma demonstração de atenção e consideração com o interlocutor. Por exemplo, uma pessoa que entrevistei relatou que para manter um bom clima com o guarda da sua firma, além de cumprimentá-lo todos os dias, de vez em quando comentava com ele sobre o tempo ou as dificuldades para estacionar na rua. Essa pessoa pensava, acertadamente, que essa breve conversa era uma forma de atenção mais intensa do que o simples cumprimento.

3- Criar condições que propiciam o desligamento de assuntos anteriores, esquentamento para conversar; esquentamento de assuntos, instalação do clima da conversa e de setores da conversa (séria, divertida, positiva, negativa, informativa, etc.).

No início de uma conversa, as pessoas ainda podem estar frias, com a cabeça em outros lugares e assuntos. São necessários tempo e certos incentivos para os interlocutores se desligarem daquilo que estavam fazendo antes do início desta conversa e para se ligarem no que está se passando nesta conversa. Por exemplo, os interlocutores precisam desligar-se de outros assuntos que estavam ativados antes e ligar-se aos novos. Por isso, o envolvimento com a conversa atual pode só ocorrer depois de algumas estimulações (“Quando ele mencionou aquilo pela terceira vez não resisti e revelei o que realmente estava sentindo”.)

4- Manter o relacionamento em marcha neutra enquanto informações sobre a conversa propriamente dita são fornecidas e coletadas e procedimentos para criar este tipo de conversa são postos em prática. Ao entrar em contato com uma pessoa com quem queremos/devemos conversar informalmente não sabemos exatamente sobre o que iremos falar, mas temos uma ideia sobre como devemos proceder até descobrir assuntos que gerem uma boa conversa. Não podemos simplesmente chegar até a pessoa cumprimentá-la e ficarmos calados ou desandar a falar sobre o assunto que nos interessa.

5- Manter o contato quando falta assunto. Esta função da conversa contato se manifesta no decorrer da conversa propriamente dita, quando há uma aparente falta de assuntos ou impedimento para apresentá-los devido à inibição (timidez, inadequação de assuntos ativados para aquele contexto ou interlocutor, etc.).

Pratique a conversa contato. O seu interlocutor vai sentir-se prestigiado e a conversa propriamente dita, que poderá acontecer em seguida, será mais harmônica e bem sucedida!

Caso você tenha dificuldade para desenvolver uma boa conversa,  procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 09h22

01/01/2013

Como cumprir as promessas de Ano Novo?

Quase todos nós somos um tanto céticos quanto ao cumprimento dos compromissos de final de ano: sabemos que as chances deles serem cumpridos são muito pequenas. Vamos examinar aqui vários compromissos importantes que deixamos de cumprir durante a vida e os sacos de pedra que carregamos nas costas que embaçam as nossas percepções e disposições e tiram as nossas forças para cumpri-los. Também vamos examinar as duas das principais causas para deixar de cumprir compromissos: (1) deixar-se controlar por sentimentos que são maus conselheiros e (2) permitir o controle excessivo de maus comportamentos pelas suas consequências positivas imediatas.


Compromissos importantes que deixamos de cumprir durante a vida

Quase todo mundo vai paralisando ou desiste de cumprir importantes compromissos durante sua vida. É isso que dá a sensação de envelhecimento, talvez até mais do que a perda do vigor físico e da saúde.

Quando nascemos, temos energia, somos curiosos, acreditamos que somos poderosos e que tudo pode ser feito ou realizado. Com o tempo, vamos concluindo que muitas dessas coisas estão fora do nosso alcance. Uma parte dessas conclusões é correta e é consequência do nosso desenvolvimento, amadurecimento, experiências e envelhecimento. Outra parte dessas conclusões é errônea. Muitas vezes o nosso insucesso aconteceu porque fizemos algo de forma errada ou porque não tentamos o suficiente, mas concluímos, erroneamente, que aquilo que não conseguimos realizar não pode ser feito ou que não está ao nosso alcance.

Certas pessoas desistiram ou sentem que não têm mais forças, após travarem certa quantidade de batalhas para tentar atingir seus objetivos. Esse insucesso pode ter acontecido em uma, ou mais que uma, das áreas importantes da vida como as seguintes:

-  Acesso à educação, boa alimentação, assistência médica, moradia e bens culturais.

- Vida amorosa

- Batalha contra os maus hábitos: vícios em álcool, fumo, comida e outras drogas

- Consumismo: gastar desproporcionalmente em relação ao que ganha para se manter na última moda. AS vidas dessas pessoas são norteadas pelos objetivos de possuir e fazer tudo que dá status.

- Inassertividade: passar a vida sem manifestar seus verdadeiros pensamentos e sentimentos e “engolir sapos” a toda hora. Essas pessoas pagam um alto preço por não se firmarem: suas vidas se tornam sem brilho e opacas. Elas perdem a alegria de viver, a iniciativa e a imprevisibilidade. Elas acabam se tornando “psicologicamente vegetativas”.

- Perda do controle sobre a própria aparência. Essas pessoas não conseguiram manter uma boa aparência: não cuidam do vestuário, estão com excesso de peso, etc.

- Sentimentos de culpa. Essas pessoas estão sempre se sentindo culpadas.

- Baixa autoestima. Por mais que tudo corra bem, ainda assim, essas pessoas gostam delas próprias.

- Conflito permanente. Essas pessoas não se permitem o usufruto das coisas boas da vida. Elas sempre veem um porem em tudo que lhes seria prazeroso ou as deixaria felizes.

Insucessos duradouros ou permanentes em áreas tão importantes como essas são como pedras colocadas no saco que está nas nossas costas. 


Saco de pedra que carregamos nas costas

À medida a idade vai aumentando, muita gente vai ficando marcada por uma grande quantidade de insucessos que deixam cicatrizes psicológicas e por mágoas e temores infundados que funcionam como um saco de pedras sobre suas costas.  Esses sacos de pedra diminuem as suas capacidades para responder aos desafios da vida e para sentir o prazer de viver. Carregar um saco assim tão pesado aumenta as chances de novos insucessos!


Causas dos fracassos para cumprir compromissos


Controle pelas consequências imediatas

Infelizmente nós, como todos os outros animais, somos mais controlados pelas consequências imediatas de nossos comportamentos do que pelas suas consequências mais distantes. Quando ambas essas consequências são positivas, tudo certo: junta-se o útil ao agradável. No entanto, uma grande quantidade de problemas surge quando as consequências em curto prazo são más conselheiras, ou seja, elas influenciam imediatamente os nossos comportamentos em uma direção que produzirá males em médio e longo prazo. Isso acontece com todos os vícios, preguiça, protelações e falta de persistência. Por exemplo, fumamos e comemos demais porque o prazer imediato é um mau conselheiro e produzirá problemas em médio e longo prazo.


Deixar-se controlar por sentimentos que são maus conselheiros

Os sentimentos geralmente são muito úteis e adaptativos: eles existem porque melhoraram as chances de sobrevivência e de procriação da nossa espécie. Eles, no entanto, podem se voltar contra o próprio organismo, tal como acontece com o sistema imunológico: geralmente este sistema protege o organismo, mas pode se tornar disfuncional e passar a atacá-lo  ou atacar alguns dos seus órgãos (doenças “autoimunes”). Da mesma forma, as emoções podem se tornarem disfuncionais, como nos casos de fobias e de timidez. Nestes casos, o medo se torna desproporcional ao risco e a pessoa pode ser altamente prejudicada porque deixa de fazer coisas que lhes seriam benéficas.

As disfunções emocionais e perceptuais são muito mais frequentes do que imaginamos. A todo o momento, deixamos de fazer muita coisa útil e fazemos muita coisa inútil porque estamos sendo guiados por sentimentos, percepções e expectativas distorcidas ou totalmente erradas.

Muitas vezes estamos vendo tudo negro e estamos pessimistas. Em várias dessas ocasiões pode ser que até tenhamos algumas boas razoes para estarmos desanimados ou tristes, mas não para desistirmos. Quando há boas razões para os sentimentos ruins, temos que admiti-los. Eles são legítimos. Mas quando o nosso racional indica claramente que existe uma boa chance que as coisas deem certo, apesar de tudo que estamos sentindo de mau, temos que colocar a faca nos dentes e seguir em frente.


Com a faca nos dentes

Recentemente assisti trechos de um filme na TV à cabo sobre a história de sobreviventes de um acidente de avião nos Andes. Mais no final desse filme, três deles saem à procura de ajuda. O que interessa aqui é a persistência deles para lutar contra aquela situação bastante desesperadora: continuam a caminhar embora sintam fome, dor, cansaço, sono e medo. Todos esses sentimentos e sensações pressionavam para que desistissem da caminhada. A área racional de seus cérebros, no entanto, concluiu clara e acertadamente que, se fizessem isso, morreriam em pouco tempo porque, como já haviam se afastado do local da queda do avião, provavelmente não seriam localizados com vida e sobreviveriam por pouco tempo naquelas condições hostis. A única esperança possível, portantao, era continuar a caminhar e encontrar abrigo ou ajuda!

Esta maneira agir em face de sentimentos e sensações negativas não ocorre apenas em situações dramáticas como esta do filme. Ela também está presente no nosso dia a dia: levantamos da cama quando o sono ainda nos diz para ficar; enfrentamos o trânsito para encarar um trabalho pouco atraente quando gostaríamos de ficar em casa ou de passear; comemos aquela saladinha meio sem sabor quando o nosso apetite nos faz sonhar com aquela comida gordurosa e altamente calórica; corremos em uma esteira para ficar no mesmo lugar só  para fazer ginástica e manter a saúde, etc.

Muitas vezes, no entanto, nos rendemos e abandonamos muitas batalhas que poderiam, perfeitamente, serem ganhas. Dois dos grandes motivos desse abandono já foram apresentados acima: quando as emoções são más conselheiras e deixar-se controlar por consequências positivas imediatas quando as consequências mais distantes são muito negativas. Esses motivos geralmente atuam nas seguintes situações:

- Quando os sentimentos negativos são muito fortes: desânimo, revolta, raiva quando os acontecimentos contrariam nossas expectativas.

 - Quando os frutos da batalha só podem ser colhidos após muitos esforços

- Quando é necessário persistência para colher os frutos dos esforços

- Quando as recompensas pelos maus comportamentos são imediatas e certas, mas danosas em médio e longo prazo, e as recompensas pelos bons comportamentos são apenas prováveis e só virão em médio e longo prazo

Por esse e outros motivos, muita gente já desistiu do controle do peso, de encontrar um trabalho prazeroso e desafiador, de viver um grande amor...

Cada vez que desistimos de algo que é significativo para nós e que tem uma boa chance de ser  realizado morremos um pouco (a depressão é a sensação que perdemos o controle sobre áreas importantes de nossas vidas). Cada vez que não nos livramos de algo que já ficou no passado, que não pode ser refeito ou que realmente não pode ser feito, colocamos uma pedra naquele saco que está nas nossas costas.

Não desista daquilo que é significativo para você e que pode ser feito, mesmo que seja necessário ir à luta com a faca nos dentes. Desligue-se daquilo que não tem concerto e que não pode ser alcançado. Flua com a vida!


FELIZ 2013!

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Por Ailton Amélio às 10h57

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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