Blog do Ailton Amélio

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31/03/2013

Porque é mais vantajoso casar do que coabitar

O que é mais vantajoso: coabitar ("união consensual" ou "morar junto") ou casar? Responda as questões abaixo para tomar consciência da sua posição sobre esse tema.

1- Quase não há diferença entre coabitar e casar

2- Não faz nenhuma diferença assinar um papel. Não muda nada.

3- O relacionamento tende a piorar depois do casamento, porque os cônjuges passam a sentir muita segurança e, por isso, diminuem os cuidados mútuos.

4- Coabitar é um “test drive” para o casamento: os parceiros podem experimentar como funcionarão depois de casados e isso aumenta as chances do casamento dar certo.

5- O casamento é uma instituição falida que vai desaparecer.

As evidencias indicam que todas essas afirmações estão erradas. O texto abaixo vai ajudar a entender porque elas estão erradas.


Coabitar está ficando cada vez mais comum

A coabitação está ficando cada vez mais frequente no mundo inteiro. Nos países mais desenvolvidos, a maioria dos casamentos é precedida pela coabitação. Por exemplo, nos EUA, 70% das pessoas coabitam antes de casar.1 Aqui no Brasil, a percentagem de pessoas que coabitam está crescendo rapidamente: segundo o IBGE, essa percentagem subiu de 28,6% para 36,4% entre os censos de 2000 e 2010!2

Quais os motivos que levam as pessoas optarem pela coabitação ou diretamente pelo casamento? Há diferença na qualidade do relacionamento entre aqueles que moram juntos e aqueles que são casados? Caso haja diferenças entre esses dois tipos de união, como elas poderiam ser explicadas? Essas são algumas das perguntas que tentaremos responder brevemente neste artigo.


Finalidades da coabitação

A coabitação pode ser um fim em si mesmo (não há aspiração de sair deste estado civil) ou pode ser considerada como um estágio provisório que será desfeito ou progridirá para o casamento.


Principais motivos para coabitar

Como é crescente a percentagem de pessoas que coabitam, deve haver bons motivos para este tipo de união conjugal. Alguns desses motivos são os seguintes:

Vontade do casal de ficar mais tempo junto e unir suas vidas. Muitos dos casais que sentem essa necessidade não querem, não estão dispostos ou não têm condições econômicas ou psicológicas para casar formalmente. Por isso, resolvem fazer a coisa mais “descomplicadamente”, ou seja, coabitar.

É mais barato: nada de igreja, vestido de noiva, grandes festas, viagem de núpcias, etc.

Menos formalidades para iniciar a união: nada cartório e preenchimento e assinatura de papéis.

Parece menos sério coabitar do que casar: menos regras, mais fácil entrar e sair desse tipo de relacionamento, menos requisitos para iniciar esse tipo de relacionamento (comprar casa, montar casa, etc.).

É mais fácil tomar uma decisão que tem menos consequências e pode ser desfeita com mais facilidade do uma decisão mais grave e mais difícil de ser revertida. (É importante observar que a legislação atual quase equiparou os direitos e deveres daqueles que têm união consensual com os direitos e deveres daqueles que são casados formalmente em regime parcial).

Coabitar pode ir acontecendo gradualmente. A coabitação geralmente não é fruto de uma decisão ou acontece abruptamente, mas vai ocorrendo aos poucos (Por exemplo, uma das partes mora só e a outra vai passando cada vez mais tempo e transferindo suas coisas para a moradia desta).


O casamento produz mais satisfações do que a coabitação

Vários estudos vêem constatando que o casamento formal tem várias vantagens sobre a coabitação. As principais dessas vantagens são as seguintes:

- Melhor qualidade do relacionamento

- Comunicação mais rica

- Menos violência doméstica

- Menor chance de traição

- Menor chance de separação.


Porque o casamento é mais vantajoso

As principais causas das vantagens do casamento sobre a coabitação são as seguites:

(1) As pessoas que optam por coabitar ou por casar podem ser diferentes entre si. Por exemplo, embora eu não conheça pesquisas a esse respeito, creio que as pessoas que optam por coabitar são mais ousadas e menos conservadoras do que aquelas que optam por casar sem antes coabitar. Essa diferença, caso seja confirmada, pode também se manifestar em outras áreas, como menos fidelidade, menos determinação para lutar para o relacionamento dar certo, maior propensão para encarar a coabitação como algo menos sério. Essa característica também pode ter vários aspectos positivos, como uma vida mais rica e mais estimulante, mais satisfação sexual, etc.

 (2) As circunstâncias que levam as pessoas a coabitar ou a casar são diferentes. As condições econômicas a religião e o grau de escolaridade são alguns dos principais preditores demográficos da opção por coabitar ao invés de casar.

Dentre os fatores psicológicos, aqueles que optam pela coabitação provamente estão muito seguros que querem um compromisso duradouro com o parceiro do que aqueles que optam pelo casamento direto.

(3) Diferenças motivacionais para decidir coabitar e casar. A importância relativa do amor em relação a outros fatores (econômico, conveniências, pressões familiares, etc.) parece ser diferente para aqueles que coabitam, casaram sem coabitar e casaram após coabitar. A importância relativa do amor é menor do que para aqueles que se casam quando já estão morando juntos. Nesta situação, a decisão para casar formalmente provavelmente é mais influenciada por razões práticas (comprar uma casa, obter um espréstimo, fazer um curso no exterior, nascimento de filhos e pressões de familiares) e pressões (por parte de um dos cônjuges, por parte da família, etc.), do que no casamento direto.

 (4) Ritual de passagem ajuda a assumir novos papéis. Geralmente os rituais de passagem são mais elaborados na ocasião do casamento formal do que na ocasião que o casal vai morar junto. Por exemplo, o casamento é anunciado com antecedência, a festa é mais solene, comparecem mais convidados e os pais ficam mais orgulhosos do que quando os filhos simplesmente vao coabitar. Geralmente a coabitação não é iniciada com data marcada, divulgada e comemorada.

Os rituais de passagem ajudam os envolvidos deixar os papeis anteriores e a assumir novos papéis. Esta afirmação é válida tanto para os diretamente envolvidos, os noivos neste caso, como para os parentes, amigos e sociedade.

A cerimônia tem que ser realizada com solenidade, emoção e declarações comprometedoras para tornar a passagem mais marcada e eficiente. (Ouvi falar de um antropólogo que ajudava pessoas que não acreditavam nos rituais religiosos a preparar seus próprios rituais de casamento, de tal forma que eles atendessem à função de facilitadores das mudanças de papéis).


Vantagens do casamento direto em relação ao casamento durante a coabitação

Um inconveniente sério de casar-se quando já está morando junto é que quando isso acontece, o amor e a sexualidade já estão mais fracos do para aqueles que se casam antes de coabitar. Esse enfraquecimento ocorre porque aqueles que se casam enquanto moram juntos já conviveram maritalmente há algum tempo e isso geralmente leva a uma diminuição do romantismo e do desejo sexual. Essas diminuições terão reflexos negativos na qualidade do casamento.

Por exemplo,  para aqueles que casam diretamente, a maior energia do romance e a sexualidade contribue para a adoção de metas mais altas (ter filhos, compartilhamento de rendimentos e despesas, divisão de tarefas caseiras, etc.), da um padrão mais alto de relacionamento (manter o carinho, o respeito e o romance) e do enfrentamento, com mais energia, dos problemas que são comuns nos inícios de relacionamentos.


Porque a coabitação não funciona como um bom "test drive" para o casamento

Morar junto é erroneamente considerado como um "test drive" que serve para conhecer o parceiro e testar a viabilidade do convívio com ele. Não funciona como "test drive" porque quem coabita tem dificuldade para “devolver o produto” que está testando, caso não queira ficar com ele.  Muitos acontecimentos vão “amarrando o casal” que coabita: abriram mão de outros possíveis parceiros amorosos; terão dificuldades de estabelecer nova moradia, caso se separem (terão que adquirir móveis, utensílios, etc.); terão dificuldades para abrir mão do  network, que é cada vez mais compartilhado ( amigos em comum, parentes, etc.), a separação implica na perda de vários confortos que são fornecidos pelo parceiro (seguro contra solidão, companhia para programas, parceria sexual, etc.).

Segundo o filósofo Aaron Ben-Zeev1, o casamento entre aqueles que já estão morando juntos acontece através de uma espécie de deslizamento (“slide”) em direção ao matrimonio e não devido à decisão de casar. Segundo esse autor, as vantagens e as pressões para casar formalmente vão se avolumando para aqueles que coabitam. Uma evidência que indica a ausência da decisão para dar esse passo é que os casais raramente conversam sobre ele.

Embora as pesquisas, em média, favoreçam o casamento, provavelmente, não se comprometer seriamente, coabitar ou casar formalmente podem ser melhores opções, dependendo da pessoa ou da situação. 

Notas

1- Does cohabitation lead to more divorces? http://www.psychologytoday.com/blog/in-the-name-love/201303/does-cohabitation-lead-more-divorces (consultado em 30/03/2013).

2-IBGE http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2240&id_pagina=1 (consultado em 30/03/2013)

Por Ailton Amélio às 08h21

24/03/2013

Qual é o seu estilo de amor?

Embora usemos apenas uma única palavra, “amor”, para falar deste tema, na realidade, existem muitas formas de amar. Neste artigo, vou usar a teoria Estilos de Amor, de John Alan Lee (veja a nota 1, no final desse texto) como base para analisar alguns estilos de amor e algumas das principais condições que levam ao apaixonamento e ao amor e que afetam a satisfação com o relacionamento. Vou expandir as concepções desse autor de acordo com as minhas conclusões que são baseadas em dezenas de entrevistas e atendimentos psicológicos que realizei sobre esse tema.

Para aproveitar melhor a leitura desse texto, responda ao questionário abaixo. Ele vai dar uma ideia do seu estilo de amor.


Estilos de amor, segundo John Alan Lee

Leia cada uma das descrições abaixo e dê uma nota entre zero e dez para o quanto cada uma delas descreve a sua forma de amar. (Coloque as sua nota na linha que precede cada descrição).

(Nota- _____) Sinto atração imediata pelo parceiro. Esta atração é causada principalmente pela sua aparência. Geralmente sei descrever qual o tipo físico que me atrai. Pode haver amor à primeira vista. É importante que haja grande atração física e interesse sexual. Não sou muito possessivo. Não temo  entregar-me ao amor, mas também não estou ansioso para amar. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "O nosso relacionamento sexual é muito intenso e satisfatório." (EROS)

(Nota- _____) O meu amor que nasce a partir de uma amizade e demora um longo tempo para se desenvolver. O meu amor é baseado em interesses compartilhados e nas semelhanças entre mim e os parceiros. As atividades em conjunto são importantes. O contato sexual é menos enfatizado e começa relativamente mais tarde. O meu amor não se caracteriza pela presença de uma grande paixão. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "O melhor tipo de amor é aquele que se desenvolve a partir de uma longa amizade." (ESTORGE)

(Nota- _____) Encaro o amor como um jogo que acontece simultaneamente com diferentes parceiros. Não há emoções fortes. A ênfase recai na sedução e na idéia de liberdade sexual. As promessas que faço são válidas apenas no momento em que são apresentadas e não no futuro. Afirmação típica de quem tem este tipo de amor: "Eu gosto de jogar o jogo do amor com diferentes parceiros, simultaneamente." (LUDOS)

Nota- _____ O meu amor é experimentado como uma emoção quase obsessiva e preocupante que domina praticamente tudo. Esforço-me para atrair, quase continuamente, a atenção do parceiro.  Tenho ciúmes e muita possessividade. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Quando meu amor não me dá atenção eu me sinto completamente doente." (MANIA. Composto de Eros e Ludos).

Nota - _____ A compatibilidade entre mim e meus parceiros e as nossas necessidades mútuas de satisfação são muito importantes. Este estilo de amor às vezes é chamado de shopping list love porque as pessoas que se identicam com ele examinam os pretendentes para ver se atendem a uma série de expectativas antes de se envolverem com eles. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Eu tento planejar a minha vida cuidadosamente antes de escolher um amor." (PRAGMA. composto de Ludos e Estorge)

Nota - _____) Os cuidados com o parceiro e a preocupação em auxiliá-lo a resolver seus problemas são muito importantes para mim. A ausência de egoísmo é uma das características centrais deste tipo de amor. Afirmação típica de quem tem este estilo de amor: "Eu prefiro sofrer a fazer o meu amor sofrer." (ÁGAPE. Composto de Estorge e Eros).

Observações:

1- É muito comum pontuar em mais que um desses estilos. Algumas pessoas, no entanto, não se indentificam com nenhum deles. Também podemos adotar estilos diferentes para diferentes parceiros ou em diferentes circunstâncias. No entanto, geralmente temos um estilo característico e duradouro.

2- A finalidade desse questionário é ajudar você a fazer uma ideia do seu seu estilo de amor. Existe um teste, muito bem feito, que pode medir mais exatamente o seu estilo.2

3- Uma versão deste Questionário foi incluída em um artigo anterior desse blog.


Variações na facilidade para apaixonar e amar

Uma enquete que realizei mostrou que estudantes universitários, de aproximadamente vinte e quatro anos de idade, já tiveram 3,6 paixões e 1,3 amores na vida. Um ponto interessante dessa enquete é que ela mostrou uma grande variação interpessoal na quantidade de paixões e amores desses estudantes. A quantidade de paixões variou entre zero  (4,2% dos estudantes) e sete ou mais paixões (9,4%dos estudantes). Também foi constatada uma grande variação interpessoal na quantidade de amores: entre zero (12.6% dos estudantes) e mais que quatro  (2,8% dos estudantes). A grande maioria dos estudantes relatou uma quantidade de paixões e amores que ficava entre esses extremos.

Essas percentagens indicam que a capacidade para se apaixonar varia muito mais entre as pessoas do que a capacidade de amar. Alguns dos motivos dessa maior variação da quantidade de paixões são os seguintes: (1) a paixão dura pouco e, por isso, logo que ela termina, a pessoa fica pronta para outra. (2) A paixão é pouco lastreada na realidade e, por isso, pode terminar assim que os envolvidos se conhecem melhor e (3) "paixão" é o nome que damos a posteriori para amores não deram certo.


Amores intensos e irrealistas

Somos capazes de estabelecer fortes ligações afetivas com coisas, animais e pessoas, sobre os quais conhecemos muito pouco e supomos muito. Muita gente se “apaixona” por sapatos, carros e joias. Outras se ligam a animais e passam encará-los como se fossem pessoas dotadas de personalidade, sentimento e sensibilidade tipicamente humanas (humanização). Certas pessoas se apaixonam por desconhecidos e os idealizam, como se eles tivessem muito mais qualidades admiráveis do que realmente possuem. Como a admiração é um dos principais requisitos para o apaixonamento, essa idealização torna esses desconhecidos apaixonantes.


Quando o amor intenso já está pronto para ser disparado

"Ela tem muito amor para dar". "Ela é carente". "Com ele, o amor é fogo de palha"

Certas pessoas conseguem se apaixonar com muita facilidade. Quem as conhece sabe que elas se encantam facilmente com possíveis parceiros amorosos. Por exemplo, quando vão a uma balada, a um congresso ou a show, rapidamente elas localizam alguém que as fascinam e logo ficam encantadas com tal pessoa. Muitas vezes, são necessários apenas alguns minutos para que elas se envolvam fortemente, mesmo quando não sabem quase nada sobre o parceiro e nunca trocaram uma palavra com ele.

Ser capaz de se apaixonar por muitas pessoas é, de certa forma, uma maneira de ignorar as peculiaridades de cada delas. Essa grande capacidade para se apaixonar já está presente nessas pessoas antes de encontrar o parceiro. Por isso, elas precisam de muito pouco estímulo por parte do parceiro para que a paixão  seja disparada. As pessoas que são capazes de se apaixonarem assim, ficam mais em contato com os seus próprios sentimos e pensamentos do que com o que se passa com aqueles que são objetos de suas paixões. Elas também tendem a superestimar as qualidades do amado. Existem pessoas se extasiam com a beleza de uma flor ou com um belo por de sol. Aqueles que estão sempre "prontos para amar" se extasiam diante de pessoas que possuem um conjunto mínimo de características, mas que, para eles, são condições suficientes para disparar seus amores.


 “Realistas no amor”

Uma parte das pessoas é “realista” no amor. Dois tipos de realistas são bem conhecidos: os pragmáticos, que examinam demorada e racionalmente as qualidades e defeitos dos parceiros antes de se envolverem com eles, e os estórgicos, que consideram o estabelecimento da intimidade como um requisito imprescindível para o nascimento do amor (ver algumas características desses estilos no questionário acima). Os aspectos românticos e sexuais do amor não ocupam um papel muito importante para os realistas.


Amores de baixa intensidade

Três grupos de pessoas só desenvolvem amores pouco intensos pelos seus parceiros: os insensíveis ao amor, os lúdicos e os agápicos.

Os insensíveis ao amor são aquelas pessoas que não se entregam muito a esse sentimento. São aquelas que respondem "nunca" ou "quase nunca" às perguntas: “Quantas vezes você já se apaixonou?” e “Quantas vezes você já amou?” Existem diversas causas para essa insensibilidade. Duas das principais delas são as seguintes: pais frios e ausentes na infância e traumas em relacionamentos anteriores.

Os lúdicos se interessam por muitas pessoas de diferentes tipos, mas não se ligam profundamente a elas. Para eles, não importa muito as características do parceiro. O que importa é o jogo da conquista. Assim que esse jogo é ganho, o interesse diminui rapidamente.

Os agápicos também se interessam por diversas pessoas. Para eles, as características pessoais dos parceiros amorosos também não são muito importantes. O mais importante para os agápicos é que seus parceiros ofereçam oportunidades para que eles se realizem: ajudem e pratiquem o altruísmo. Um estudo recente mostrou que desenvolvemos sentimentos mais fortes por aqueles que ajudamos e cuidamos do que por aqueles que nos ajudam e cuidam de nós!

O amor pode ser despertado por uma combinação de fatores internos e externos ao individuo. Ou seja, existem pessoas mais ou menos propensas a se apaixonar e a amar e situações e parceiros que são mais ou menos eficientes para despertar nelas esses sentimentos.

Qual o seu estilo de amor? Qual o estilo de amor do seu parceiro? Vocês combinam neste setor?

Problemas no amor? Procure a ajuda de um psicólogo.

Notas

1-  Lee JA (1988). "Love styles". In Barnes MH, Sternberg RJ. The Psychology of love. New Haven, Conn: Yale University Press. pp. 38–67

2- Hendrick C, Hendrick SS, Dicke A (1998). "The Love Attitudes Scale: Short form". J Pers Soc Psychol. 15 (2): 147–59.

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Por Ailton Amélio às 09h19

17/03/2013

Você fala mais do que deve ou ouve mais do que gostaria?

Monopolizar ou recusar os papéis de ouvinte ou de falante pode gerar uma conversa assimétrica, pouco interessante e insatisfatória. Mais grave ainda é monopolizar esses papéis e desempenhá-los insatisfatoriamente.

Por definição, para que um relacionamento possa ser classificado como “conversa” é necessário que haja alternância entre os interlocutores na ocupação dos papéis de ouvinte e falante. Caso isto não aconteça, não se trata de uma conversa, mas, sim, de um monólogo, de uma palestra, de uma declaração ou algo do gênero.

A falha na alternância desses papéis pode ocorrer quando os interlocutores permanecem na conversa, mas um deles, ou ambos, não abrem mão do papel de falante ou de ouvinte e essa recusa não é confortável para pelo menos um deles. O primeiro desses casos é mais conhecido (“pessoas que falam demais”) do que o segundo (“pessoas que falam de menos”).


Critérios para definir “falar demais” ou “falar de menos”

A quantidade de fala é considera insuficiente ou excessiva quando a sua duração incomoda quem fala ou os seus interlocutores.

Existem bons falantes que podem manter a palavra por muito tempo, até mesmo durante a maior parte da conversa, sem que isso seja desagradável para eles próprios ou para seus interlocutores. Também existem ouvintes altamente estimulantes, que podem permanecer neste papel por muito tempo e essa permanência ser considerada adequada e prazerosa por seus interlocutores e por eles próprios. Muitas vezes, o tempo de fala ou de escuta que é desejável para um interlocutor pode não o ser para o outro.

Portanto, o principal critério para afirmar que uma pessoa está falando demais ou de menos não é o tempo que ela passa ouvindo ou falando, mas, sim, se esse tempo é desejado ou indesejado por ela e pelos seus interlocutores.


Inconvenientes do falar demais e do falar de menos

Como falar demais impediu o início de um namoro.

O paciente relatou que logo nos primeiros momentos do primeiro encontro, ele viu que não seria possível namorar Anne:

“Vi que não seria possível falar com aquela mulher. Assim que nos encontramos, ela disparou a falar. Falou por vinte minutos, quase sem tomar fôlego. Eu simplesmente emiti alguns raros monossílabos e assenti com a cabeça de vez em quando. O que era pior ainda, é que ela só falava coisas negativas”.


Consequências para o ouvinte impostas pelo interlocutor que fala demais

Quem fala demais pode pressionar o ouvinte a desempenhar um papel que ele não quer desempenhar: funcionar como ouvinte passivo ou, pior ainda, fingir que é ouvinte ativo para obter consequências positivas ou evitar consequências negativas.

                  Falar demais anula o ouvinte e impõe-lhe um conflito: ou suporta aquele falante desagradável ou age de uma maneira rude, mas eficaz, para interrompê-lo. Muitas vezes, o ouvinte fica com vontade de sair correndo. Ouvir um falante assim é como assistir um filme ruim: o espectador não participa das filmagens, paga para ver e fica suportando, por um bom tempo, a projeção porque teme decepcionar os seus participantes ou tem a esperança de que o filme melhore. Ouvir alguém assim ainda é pior do que assistir ao filme ruim porque, neste último caso, é mais fácil sair da sala.


Consequências para o ouvinte impostas pelo interlocutor que fala de menos

Quando uma pessoa é lacônica, ela pode tirar a vitalidade da conversa. Se for importante para o seu interlocutor manter a conversa e torná-la animada, ele pode assumir a responsabilidade de animá-la. Isso poderá implicar em um grande esforço para ele e em uma diminuição do seu prazer de conversar.


Medidas para não falar demais

                  Três medidas são sugeridas pela literatura dessa área para aqueles que querem evitar falar demais:

(1) Sempre falar pouco

(2) Falar no máximo por cinco minutos e passar a palavra

(3) Deixar-se monitorar pelas próprias motivações e percepções e pelos sinais apresentados pelo interlocutor que indicam se você pode continuar no papel de falante, se deve continuar a desenvolver um determinado tema e quais dos seus aspectos devem ser desenvolvidos.

As duas primeiras medidas são fórmulas cegas que não atendem a muitas situações. A terceira dessas medidas é “inteligente” porque é flexível e atende o que está ocorrendo em cada momento do diálogo. Por isso, vamos desenvolvê-la aqui.

As duas primeiras medidas mencionadas acima podem ser inconvenientes em muitas situações. Elas sugerem apenas a inibição da quantidade de fala. O falante, ao tomar essas duas medidas, não se deixa guiar pelas motivações e inibições despertadas por cada tema e por cada momento da conversa. Talvez elas contribuam positivamente apenas para aqueles que costumam falar demais em todas as situações. A terceira dessas medidas é melhor que as duas anteriores. Essa terceira medida ajusta a quantidade de fala às próprias motivações e às pistas que indicam como aquilo que está sendo dito está afetando os interlocutores.


Monitoramento da fala pelas próprias motivações e percepções.

O bom falante sente prazer ou, pelo menos, acha importante o que está dizendo. Por isso, é importante ficar atento para às próprias motivações para escolher, abordar e calibrar quanto e como gostaria de abordar um dado tema. É importante, também, estar atento para as próprias motivações para permanecer no papel de falante ou de ouvinte.


Administrar a fala pelas reações do interlocutor

Deixar-se monitorar pelas reações do interlocutor para escolher temas da conversa, por quanto tempo e como abordá-los.  Uma maneira de fazer isso é mencionar temas, tópicos e informações e verificar se o interlocutor apresenta sinais de interesse por eles. Caso sim, falar um pouco daquilo o interlocutor mostrou interesse e observar se ele apresenta novos sinais que indicam quer mais informações. Neste caso, fornecê-las brevemente e esperar novos sinais de interesse. E assim por diante. Esse procedimento permite a calibragem contínua de informações de acordo com as necessidades do ouvinte.


O silêncio do interlocutor pode não ser um sinal para o outro falar

Geralmente é errado interpretar o silêncio ou os sinais fracos de interesse do interlocutor como uma autorização ou convite para iniciar a fala ou falar mais sobre o que já está falando.  A debilidade desses sinais pode indicar que eles estão sendo apresentados apenas por educação. Por exemplo, certa vez presenciei uma pessoa que estava em uma fila de votação muito demorada “alugar” os ouvidos de uma segunda pessoa que apresentava sinais mínimos de interesse, mas que foram considerados suficientes pela primeira pessoa para tagarelar infindavelmente. Assim que o falante compulsivo deu uma saída por uns breves momentos, o ouvinte torturado comentou: “Não estou aguentando mais esse cara falando! Não sei o que fazer: desistir da votação, chamar o guarda ou ser rude com ele e pedir para calar-se?”.


Quando uma pessoa fala demais porque o seu ouvinte está dando sinais errados para ela continuar a falar

Os interlocutores dispõem de uma grande quantidade de sinais que são uteis para regular o fluxo da fala. Esses sinais geralmente são não verbais e equivalem às mensagens verbais como as seguintes: “Continue no papel de falante”, “Fale mais sobre esse assunto”, “Estou acompanhando o que você está dizendo”, “Estou envolvido na conversa”, “Não estou mais interessado neste assunto”, “Quero falar. Passe-me a palavra”, “Não quero a palavra. Continue como falante”, “Terminei de falar. Fale você agora”.

Essas mensagens servem para regular o fluxo da fala e, por isso, receberam o nome de “reguladoras”. Elas funcionam de maneira parecida com os sinais de trânsito que servem para regular o fluxo de veículos.

Muitas vezes, aquilo que um ouvinte está sinalizando para o falante não condiz com a sua motivação em relação à conversa e ao tema que está sendo tratado, mas sim com a sua motivação para agradar ou desagradar o interlocutor, para passar certa imagem, para evitar ser rude, etc. Nesses casos, o ouvinte pode apresentar sinais errados que autorizam, aprovam e solicitam que o outro continue a falar. 


Sinais que estimulam a fala

Vamos apresentar aqui alguns sinais que estimulam o interlocutor a continuar a falar. Para desestimulá-lo, basta ir eliminando ou atenuando esses sinais.

Alguns falantes compulsivos falam até sozinhos. Mas, geralmente as pessoas comuns deixam de falar quando são desestimuladas pela ausência de sinais que lhes deem permissão para continuar a falar.

- Orientar a frente do corpo (olhos, rosto, peito, pélvis, joelhos e pés) na direção do falante.

- Não prestar atenção em mais nada que esteja ocorrendo no ambiente (deixar de olhar para os passantes, deixar de ouvir a conversa na mesa ao lado, etc.)

- largar totalmente outras atividades (desligar o computador, fechar o livro que estava lendo)

- Anuir frequentemente com movimentos de cabeça em reação ao que ou falante está dizendo.

- Acionar as informações gratuitas fornecidas pelo interlocutor (pedir para ele expandir aquelas informações que você não solicitou)

- Perguntar por outros aspectos do assunto que ele está abordando

- Não tomar qualquer iniciativa para mudar de assunto ou encerrar a conversa

- Dar sinais que vai ficar um bom tempo conversando: sentar, fechar a porta, encostar o corpo a uma superfície, depositar em uma mesa o material que você estava carregando, etc.

- Declarar que tem tempo para conversar

Quanto mais sinais e quanto mais intenso é cada um deles, mais interesse na conversa você estará mostrando. Muitas vezes um interlocutor não está incentivando a fala do outro, mas este continua a falar mesmo assim. Neste caso, o que resta é fingir que está dormindo, pedir para o falastrão parar de falar ou retirar-se! 

Modere o quanto você fala pelas reações do seu ouvinte. Caso você não esteja interessado em uma conversa ou assunto, diminua os comportamentos que incentivam a continuidade da fala ou apresente sinais explícitos que deseja terminar o assunto ou conversa. Lembre-se que sempre é aconselhável manter a polidez para não ofender os seus interlocutores.

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Por Ailton Amélio às 08h28

10/03/2013

"A vida começa onde termina a zona de conforto"

Essa afirmação foi endossada por muita gente que atua em áreas muito diferentes do conhecimento e pode ser encontrada em muitos endereços na internet. Por exemplo, ela foi encampada por autores de diversas correntes da psicologia, tais como psicologia transpessoal, psicologia da realização e psicologia da cura, e por religiosos como o famoso americano Neale Donald Walsch.

Neste artigo vamos abordar alguns dos principais motivos e consequências de agir fora e dentro da zona de conforto.


Por que o convite para atuar fora da zona de conforto faz tanto sucesso?

A ampla adoção dessa afirmação indica que ela possui uma forte dose de apelo e que deve conter alguma dose de verdade ou, pelo menos, capta a aspiração de muita gente.

Situações que exigem respostas fora da zona de conforto

Somos impelidos para fora de nossas zonas de conforto nas seguintes situações: (1) fomos colocados à força para fora dessa zona, (2) fomos pressionados para agir fora dessa zona porque as nossas respostas não estavam sendo eficazes para lidar com situações importantes, 3) Necessidade de  realizar o nosso potencial. Segundo a psicologia da autorrealização, o ser humano tem a necessidade de crescer psicologicamente e realizar o seu potencial. Para que haja esse crescimento, é necessária a expansão contínua das nossas fronteiras psicológicas. Essa expansão acontece quando atuamos com sucesso fora da nossa zona de conforto e (4) descobrimos a sabedoria e o prazer de aceitar desafios que estão fora dessa zona. 

Limitações que exigem atuações fora da zona de conforto 

Um dos motivos do poder apelativo dessa instigação para atuar além da zona de conforto é que ela aponta um caminho para nos livramos das insatisfações que nos afligem. Algumas dessas insatisfações são as seguintes:

Insatisfações econômicas e profissionais. No campo profissional e econômico, gostaríamos de ampliar nossos horizontes. Mantemo-nos em um emprego medíocre onde somos subaproveitados, temos medo de empreender e fracassar, não temos dinheiro, tempo ou a coragem que dariam condições para viver como queremos (por exemplo, gostaríamos de proporcionar um bom nível de vida para nossos filhos). A superação dessas dificuldades esbarra em apreensões porque exigem ações fora da nossa zona de conforto: iniciar um novo negócio, mudar de emprego, solicitar ajuda, etc.

Barreiras psicológicas. Somos prisioneiros de diversos tipos de barreiras psicológicas: somos tímidos, inassertivos, temos baixa autoestima e, por isso, não agimos como gostaríamos por mais que saibamos que aquilo que nos amedronta é fictício e irrazoável.

Relacionamento amoroso. No campo amoroso, vivemos em relacionamentos insatisfatórios que perduram como são porque temos medo de tomar medidas para alterá-los ou para  abandoná-los.

Campo psicológico. Temos medo de rever e mudar a nossa autoimagem e a imagem das pessoas que nos cercam.  Temos pouca flexibilidade para rever nossas metas e redefinir as nossas prioridades. Agimos como se preferíssemos ter um objetivo qualquer na vida, por mais irreal e restrito que seja, do que nos darmos ao trabalho corrigir as nossas aspirações.


O relacionamento humano exige atuação fora da zona de conforto

No plano psicológico, a realidade muda continuamente. Por exemplo, os objetivos, os estados emocionais e as percepções de dois interlocutores que estão em uma conversa vão mudando continuamente à medida que ela vai acontecendo. Por isso, é eles precisam tomar conhecimento do que está ocorrendo em cada momento e de responder da forma adequada ao que percebem. Para tomar conhecimento que estar com as nossas mentes livres de expectativas, temores e proteções que sejam suficientemente fortes para distorcer o que está acontecendo. Perceber assim já é agir fora da zona de conforto.

Em muitos setores da vida temos atualizar constantemente nossas percepções, motivações e ações. Para realizar essas atualizações não podemos deixar que conclusões passadas e ultrapassadas direcionem esses mecanismos psicológicos.


Quando é sábio agir dentro da zona de conforto

A zona de conforto é aquela zona psicológica onde agimos da maneira que já foi testada anteriormente e que, por isso, tais ações nos fornecem uma boa chance de sucesso e mantêm a estabilidade e o status quo da nossa vida. Por exemplo, nos portamos daquela maneira que sabemos que tem uma boa chance de agradar o parceiro amoroso, de manter o nosso emprego, de não desperdiçar nossas economias e de mantermos o nosso bem estar físico e psicológico.

A zona de conforto também funciona como uma espécie de “alarme do eu” que ajuda a preservar a sua integridade. Quando fazemos algo que dominamos, que conhecemos bem e que sabemos que seremos bem sucedidos, podemos agir no “automático”.

A natureza criou  alarmes que indicam quando estamos em risco. No caso da segurança física temos alarmes do tipo falta de ar, dor, calor, frio, enjoo. No caso psicológico existem mecanismos como ansiedade, apreensão, insegurança, culpa. Alguns desses mecanismos emitem alerta para perigos que ameaçam tanto a nossa segurança física como a nossa segurança psicológica. Este é o caso, por exemplo, do medo que dispara tanto para ameaças físicas quanto psicológicas.

Segundo Darwin, o mais apto para a sobrevivência não é o mais inteligente ou o mais forte, mas sim, o mais adaptável. Ser adaptável é extremamente importante porque vivemos em um mundo constantemente mutável e nós também mudamos. "Adaptável" significa agir da forma mais apropriada para as circunstâncias. Essa forma de agir pode exigir mudanças contínuas da nossa parte, o que pode gerar inseguranças porque essas novas formas são menos conhecidas porque foram menos exercitadas do que aquelas que já adotamos várias vezes anteriormente. A natureza criou grandes prêmios imediatos e distantes no tempo para aqueles que se adaptam melhor. Exemplos de prêmios imediatos: alegria, energia, sensação de estar fluindo. Exemplos de prêmios distantes: maior sucesso reprodutivo.


Sem uma interpretação, as ações não fazem sentido

Um dos motivos para agirmos dentro da zona de conforto é que grande parte das formas de agir não faz sentido fora dessa zona. Por exemplo, uma forma simples de não ser ignorado e de chamar atenção de uma grande quantidade de pessoas seria gritar em publico, ao invés de ficarmos famosos. O grito, no entanto, não é considerado válido na nossa cultura para essa finalidade e, quando acontece, recebe outro tipo de interpretação (quem grita com essa finalidade pode ser considerado louco). Outros exemplos: na China, é considerado impolidez nos negócios ir direto ao ponto e tentar fechar um contrato. Na nossa cultura, uma forma de agir que é considerada, no mínimo, muito inadequada é perguntar para uma mulher recém-apresentada por um amigo em comum se ela toparia ir para a cama imediatamente.


Não é necessário buscar zonas de conforto para serem superadas

Algumas pessoas aprenderam que as situações sociais são sempre novas e que, por isso, elas têm que ser percebidas e encaradas de uma forma também nova. Não é necessário buscar essas zonas de conforto para serem superadas. Os desafios já estão ai a todo o momento. Quem sente a necessidade de buscá-los está fechando os olhos para os desafios mais relevantes que estão sempre batendo à sua porta para procurar outros mais irrelevantes ou artificiais. Por exemplo, são pessoas que fecham os olhos para a forma de ser da esposa que está ao lado, mas está sempre procurando a excitação de um novo negócio.


Agir fora da zona de conforto é diferente da busca por excitação

O crescimento proporcionado pela ultrapassagem de zonas de conforto é bem diferente da aceitação de riscos para produzir adrenalina. Aceitar este tipo de risco só traz mesmo adrenalina e rouba o tempo e a energia que poderiam ser dedicados ao verdadeiro desenvolvimento pessoal.


Variações pessoais da propensão para agir fora da nossa zona de conforto


Estilos pessoais em relação à zona de conforto

As pessoas podem ser classificadas quanto à frequência, profundidade e tipo de zonas de conforto que aceitam ultrapassar. Algumas pessoas são conservadoras, sempre fazem mais do mesmo, adoram formas consagradas de agir e se sentem muito desconfortáveis com situações onde não há prescrições sobre a forma de agir ou com aqueles que transgredem essas formas. Outras pessoas adoram inovar, pegar novos caminhos, transgredir códigos de conduta. A maioria de nós se encontra em algum ponto entre esses dois extremos ou mais próximo ou mais longe de um deles, dependendo da área ou do assunto que está tratando.

Na área econômica, os investidores costumam ser classificados em relação às suas propensões para correr riscos como conservadores, moderados ou agressivos. Há pouco tempo, uma revista publicou uma pesquisa que mostrava que os empreendedores mais bem sucedidos do Brasil já tinham falido muito mais vezes do que aqueles que alcançaram o sucesso. Ou seja, os mais bem sucedidos eram aqueles que se arriscavam mais e, por isso, tinham mais chances de fracassar, mas, em média, eram os que obtinham mais sucesso.

Certas pessoas descobriram que é inerente à vida a aceitação de ultrapassagens de certas zonas de conforto. Algumas delas também descobriram que ampliar limites psicológicos produz sensação de prazer, de estar fluindo e de estar vivendo a vida.


Problemas psicológicos que dificultam ações fora da zona de conforto

Algumas áreas da psicologia tratam daquelas pessoas que têm muita dificuldade para sair de suas áreas de conforto. Elas ficam ansiosas, apreensivas, sentem culpa e perdem a noção do que é certo ou errado.

Algumas dos principais problemas psicológicos que dificultam a atuação fora da zona de conforto são os seguintes:

Timidez. As pessoas tímidas ficam tensas e inibidas (se comportam mais pobremente do que são capazes) em situações sociais: olham menos nos olhos, iniciam menos assuntos, revelam menos seus interesses amorosos.

Inassertividade. Os inassertivos não se portar da forma como sentem em pensam em situações sócias. Por exemplo, quando alguém faz algo que infringe seus direitos elas podem não se manifestar e reafirmar seus direitos.

Baixa autoestima. Aqueles que têm baixa autoestima subestimam seus méritos e ampliam seus deméritos.

Você sabe quando agir dentro ou fora da sua zona de conforto e consegue fazer isso?

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Por Ailton Amélio às 08h37

03/03/2013

Nove pilares psicológicos de um bom casamento

Recentemente, em 2012, a prestigiosa Associação  dos Psicólogos Americanos (American Psychological Association - APA), em colaboração com Judith Wallerstein, apresentou um resumo das nove tarefas psicológicas que contribuem para que um bom casamento (“Nine psychological tasks for a good marriage”)1. Esse resumo foi baseado no livro dessa autora: “The Good Marriage: How and Why Love Lasts” (Houghton Mifflin, 1995).

Vou apresentar aqui essas nove tarefas psicológicas e comentá-las brevemente. Embora eu não creia que a boa execução dessas tarefas seja suficiente para garantir que um casamento seja feliz e dê certo, sem dúvida, executá-las satisfatoriamente contribui para que isso aconteça.

Nove tarefas psicológicas que contribuem para um bom casamento

Aqui estão as nove tarefas apresentadas por esta autora e os meus comentários para cada uma delas

1- Separar –se emocionalmente da família que lhe criou. 

Isso deve acontecer não a ponto de estranhamento dos parentes, mas o suficiente para que sua identidade seja separada das dos seus pais e irmãos. Para se tornar um adulto independente é necessário separar a sua identidade psicológica da identidade dos pais e irmãos. O cônjuge de uma pessoa que não se tornou suficientemente independente das suas família de origem sente que tem menos influencia nos acontecimentos que dizem respeito ao casal do  que os parentes do seu cônjuge.

Claro que as ligações com as famílias de origem são bem vindas e saudáveis! Trata-se apenas de obter o grau de independência psicológica que possibilita a formação de uma nova unidade conjugal. O novo lar deve ser a prioridade.

2- Construir a união baseada na intimidade compartilhada e na identidade conjugal e, ao mesmo tempo, de tal modo que ofereça proteção à autonomia de cada parceiro.

O compartilhamento da intimidade é a cola do relacionamento. Para que um casamento se concretize no plano psicológico é necessário que cada cônjuge comunique para o outro os seus sentimentos, ideias e planos. É claro que existem limites para isso. Nem tudo pode e deve ser revelado. Além disso, cada cônjuge deve ser honesto e pode e deve se posicionar sobre o que o outro está revelando. A unidade conjugal estará funcionando bem neste quesito quando há um bom grau de comunicação das intimidades mais significativas e há uma aceitação substancial pelo outro cônjuge daquilo que foi comunicado.

3- Estabelecer uma relação sexual rica e prazerosa protegê-la contra a invasão do local de trabalho e obrigações familiares.

Muitos casais reclamam que a vida sexual, que era intensa e prazerosa no inicia do relacionamento, acabou se enfraquecendo e se tornando rara devido ao cansaço e estresse produzidos pelo trabalho e pelos cuidados com os filhos. A relação entre o casal foi cedendo espaço para as obrigações do trabalho e para as ocupações com a família.

É natural que todo aquele tempo que o casal reservava para si no início do relacionamento vá cedendo espaço para outros afazeres à medida que o relacionamento amoroso vai se solidificando e outras funções vão sendo incorporadas e desempenhadas. Embora possa haver exageros em ambos os sentidos, o mais comum é que a vida do casal vá sendo cada vez mais sacrificada pelas atividades profissionais e pelos cuidados com a casa e os filhos. 

4- Para os casais com filhos é necessário saber assumir adequadamente os papéis assustadores da paternidade e absorver o impacto da entrada de um bebê no casamento e, ao mesmo tempo, proteger a privacidade do casal.

O nascimento de um filho é uma ocorrência que pode virar de pernas para o ar muitos aspectos do relacionamento conjugal. A criança toma uma boa parte do tempo do casal: hora das mamadas, troca de fraldas, choros, idas ao pediatra. Ela é um ser totalmente dependente e cheio de necessidades. Além disso, ficamos fascinados com o milagre da chegada daquele ser maravilhoso. Muitos pais se apaixonam pelo rebento e ficam dispostos e disponíveis a sacrificar qualquer coisa para acumulá-lo de cuidados. O tempo disponível para as atividades do casal é imediatamente sacrificado: os passeios, os jantares, as festas, as horas de conversar e namoro, aqueles encontros sexuais demorados. Em parte, tudo isso é inevitável e é bom que seja assim! No entanto, os exageros na dedicação aos filhos prejudicam a vida do casal e, em decorrência, a dos próprios filhos.

5- Enfrentar e dominar as crises inevitáveis da vida.

Todos os envolvidos em relacionamentos duradouros enfrentarão diversas crises em algumas ocasiões: perda do emprego, prejuízos econômicos, perda de parentes, doenças. O enfrentamento adequado dessas crises depende de três fatores: (1) magnitude da tensão e da irritação que elas produzem e que poderá provocar intolerâncias e brigas entre o casal, (2) qualidade da estrutura psicológica dos cônjuges e do casamento que pode contribuir para a superação ou agravamento das crises e (3) apoio psicológico do cônjuge para ajudar aquele que está enfrentando os problemas. A qualidade e quantidade de apoio que um cônjuge oferece para o outro que está enfrentando uma crise contribui muito para fortalecer ou enfraquecer o relacionamento (“Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...”).

6 - Manter a força do vínculo conjugal em face da adversidade. O casamento deve ser um porto seguro no qual os parceiros são capazes de expressar suas diferenças, raiva e conflito.

Em todo o relacionamento amoroso duradouro é natural que existam conflitos e diferenças crônicas. A expressão da raiva deve ser admitida neste tipo de relacionamento. O que provoca danos é a maneira de expressar a insatisfação e outros sentimentos negativos. John Gottman, famoso pesquisador e escritor dessa área, identificou quatro maneiras de tratar desacordos e irritações que podem provocar sérios danos ao relacionamento (“Quatro cavaleiros do apocalipse”): (1) criticismo: apresentar uma chuva de críticas.  Isso só serve para agredir e não para identificar e solucionar os problemas. (2) Desrespeito (atacar a personalidade do parceiro: você é preguiçoso, não confiável, incapaz, burro). (3) Defensividade: assim que o parceiro começa a apresentar uma reclamação, o outro começa a  pensar em como se defender ou contra-atacar o que está sendo apresentado e, não, em considerar se a reclamação é procedente e como atende-la e (4) indiferença: concluir que não vale a pena ouvir seriamente o parceiro e se posicionar sobre aquilo que ele está dizendo. (“Entrar por um ouvido e sair pelo outro”).

7- Usar o humor e o riso para manter as coisas em perspectiva e para evitar o tédio e isolamento.

Existem evidencias de que o humor é uma forma avançada e mais madura de proteger o eu. O humor também serve para abordar assuntos tensos ou perigosos sob um ângulo menos ameaçador: é uma maneira de diminuir a gravidade e tratar de assuntos que podem disparar agressividade entre o casal.

8- Nutrir e confortar um ao outro, satisfazendo as suas necessidades de dependência e ofertar encorajamento e apoio contínuo para aquele que estiver precisando.

Uma atitude extremamente valiosa que é muito nutritiva para qualquer tipo de relacionamento afetivo é a priorização da satisfação do parceiro acima de considerações como racionalidade da decisão, ganhos e perdas produzidos pela opção, opinião publica contraria ou favorável ao que está sendo decidido.

Claro que aquilo que cada parceiro deseja pode e deve ser discutido pelo outro. Mas, se o parceiro continuar mostrando que algo é importante para ele,  apesar de todas as considerações em contrário, esse sentimento deve ser o critério mais importante para o outro parceiro decidir apoiá-lo.  Por exemplo, um dos parceiros quer fazer uma reforma da casa. O outro quer aplicar o dinheiro. Ambos conversam sobre essa decisão e como o casal não vai ficar em risco com o gasto com a reforma, aquele que queria fazer a aplicação muito lucrativa concorda que melhor que o lucro é a satisfação que o parceiro vai ter com a reforma.

Devemos partir do principio que apoiar aquilo que é importante para o parceiro não vai produzir nenhum absurdo, porque ele é uma pessoa razoável e dotada de bons sentimentos. Caso não seja possível pensar assim a seu respeito, deve-se considerar, então, se o relacionamento com ele vale a pena.

9- Manter vivas as primeiras imagens românticas enquanto enfrenta as realidades sombrias das mudanças provocadas pelo tempo.

Um estudo mostrou que aqueles casais que têm boas recordações sobre suas historias românticas são mais felizes do que os casais que não conseguem ter boas recordações sobre os inícios de seus relacionamentos. Aqueles casais que estão infelizes tendem a reformular suas historias ou a relembrar mais dos fatos ruins. Terapeutas podem ajudar os casais a desenvolver uma versão das suas vidas que seja positiva e bonita. Uma das maneiras de iniciar esse trabalho é convidar cada cônjuge para elaborar a historia do seu relacionamento sob um ângulo positivo, como se essa historia fosse o roteiro de um filme romântico e bonito.

Nota

1- http://www.apa.org/helpcenter/marriage.aspx (consultado em 02/03/2013)

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Por Ailton Amélio às 08h58

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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