Blog do Ailton Amélio

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28/04/2013

Kit para salvar o casamento após uma traição

A traição é definida pelo engano do parceiro na área amorosa ou sexual. Infelizmente, é altamente provável que algum tipo de traição ocorra em todos os relacionamentos amorosos.  Neste artigo vamos abordar apenas as traições mais graves: aquelas que envolvem sentimentos e ações que na nossa cultura são encaradas como muito ameaçadoras para a qualidade ou estabilidade de um relacionamento amoroso, como o apaixonamento ou o sexo com outro parceiro. 

Uma boa parte das traições nunca chega ao conhecimento daqueles que foram traídos (“traição oculta”). Outra parte chega (“traição conhecida”): ou o traído a descobre, ou ela é denunciada por terceiros ou ela é revelada pelo próprio traidor.

Na ocasião que a traição chega ao conhecimento do traído, o traidor pode estar disposto a terminar o relacionamento original ou pode estar disposto a fazer de tudo para ser perdoado e salvar esse relacionamento. Neste artigo vamos abordar esse último caso. No próximo artigo veremos como o traído pode sobreviver a uma traição e, se quiser, pode contribuir para reconstruir o relacionamento.

Traição oculta

Existem poucos estudos sobre o que acontece com o relacionamento amoroso quando um ou ambos dos seus participantes estão traindo ou já traíram anteriormente, mas o outro não sabe. A maioria desses estudos indica que geralmente há uma piora no relacionamento. Numa parte dos casos de traições ocultas, o relacionamento original termina devido ao esvaziamento provocado pelo relacionamento do traidor com a amante. Em outra parte dos casos, o relacionamento termina porque o traidor resolve ficar com a amante. Neste caso, muitas vezes, ele termina com a esposa e tempos depois finge que iniciou o relacionamento com a amante. Na maioria dos casos, creio eu, o relacionamento com a amante termina e nunca é descoberto por quem foi traído.

Traição conhecida

Quando a traição é descoberta, geralmente ela produz efeitos traumáticos em quem foi traído e no relacionamento. Vamos tratar aqui daquelas medidas que podem ser tomadas pelo traidor que deseja salvar o seu relacionamento com a companheira traída.

Três etapas dos relacionamentos que sobrevivem à traição

Segundo Michael M. Olson e outros1, quando a traição é descoberta, a maioria dos relacionamentos passa por três fases:

Montanha russa. Quem foi traído experimenta um bombardeio de emoções e estados alterados de consciência: incredulidade, raiva, decepção com o traidor, baixa na autoestima, supervalização do parceiro, ciúmes, etc.

Moratória. Quando o turbilhão de emoções e alterações nas percepções da situação diminuem, aquele que foi traído ainda se sente muito triste e abalado, começa digerir o que aconteceu e a considerar o que vai fazer.

Reconstrução da confiança. Aqueles casais que resolvem permanecer juntos começam a agir de modo a reconstruir a confiança, o companheirismo e romance. O perdão pode ir acontecendo aos poucos.

Kit para recuperação do relacionamento após uma traição

Após a traição, tanto o traído como o traidor podem tomar várias medidas para tentar salvar o relacionamento. Neste artigo vou abordar apenas aquelas medidas que podem ser tomadas pelo traidor.

Quem traiu e quer salvar o seu relacionamento pode tomar várias medidas para tentar superar a crise, para apressar o período de recuperação e fazer que o ocorrido deixe menos sequelas. As principais dessas medidas são as seguintes:

Reconhecer que traiu

Quando a traição começa a ser descoberta é muito comum que o traidor a negue,  mostre raiva por estar sendo injustamente acusado e afirme que o traído está louco e alucinando.

Quando o traído possui fortes evidencias de que a traição ocorreu, a negação do fato por parte do traidor é vista como a continuação da sua mentira e da sua capacidade para mentir.

O reconhecimento da traição tem efeitos benéficos em foi traído e em quem traiu. Esse reconhecimento é um passo importante para que o traído sinta a disposição do traidor para começar a ser honesto e para que este readquira uma postura sólida e íntegra que sirva de base para um novo relacionamento.

- Mostrar arrependimento

            O arrendimento, quando é mostrado de forma honesta e convincente, indica para quem foi traído que o traidor sente-se mal com o que fez porque trair está em desacordo com os seus valores e princípios. Sentir-se mal funciona como uma espécie de autopunição que acalma quem é traído e minora a sensação de injustiça que permaneceria caso o traidor não tivesse nenhuma punição pelo seu ato desleal.

Ouvir o traído pacientemente e sem se defender

É muito importante que o traído possa expressar todo o seu sofrimento, mágoas, temores e que essas expressões sejam ouvidas com atenção e sem pressa pelo traidor. Durante essas expressões, o traidor deve mostrar pesar pelo que causou e não se defender. Os atenuantes da gravidade da sua ação poderão ser apresentados posteriormente, quando quem foi traído der sinais que já expressou todo o seu sofrimento e que isso foi bem acolhido pelo traidor.

Quem traiu não deve se irritar quando o traído quiser voltar inúmeras vezes ao tema. O processo de assimilação da traição pelo traído não acontecerá apenas uma conversa ou com uma sessão de esclarecimentos por parte do traidor.

Prestar as informações devidas e cabíveis

Quem foi traído vai querer saber tudo o que ocorreu. Essas informações são importantes para que ele possa avaliar as circuntâncias e a gravidade do ocorrido e para que possa tomar medidas para que a traição cesse ou seja evitada no futuro. (Por exemplo, o traído pode exigir que o traidor identifique quem é a amante e corte contatos profissionais ou a amizade com ela).  Quando o traidor fornece essas informações, ele dá mostras que realmente interrompeu o caso e quer se redimir.

            Por outro lado, quem traiu deve evitar fornecer detalhes desnecessários e tóxicos do caso. O traidor tem que ser honesto e, ao mesmo tempo, evitar informações desnecessárias e que podem provocar danos duradouros na pessoa traída e no relacionamento. (Por exemplo, detalhes das práticas sexuais, sentimentos que havia entre os amantes, etc.).

Ajudar o traído a recuperar a autoestima

Quem foi traído pode se sentir menos qualificado do que a amante. Isso é mais provável quando a traição durou um bom tempo e não foi motivada apenas por desejos sexuais, mas também por sentimentos amorosos. Geralmente a mulher traída vai se preocupar se a amante é mais bonita e mais jovem do que ela.  O homem traído vai se preocupar se o seu rival é mais bem sucedido e mais poderoso do que ele. As mulheres traídas correm para a academia, fazem regime e pensam em cirurgias plásticas. Os homens traídos alimentam fantasias que vão ganhar dinheiro, tornarem-se famosos e, aí, a traidora vai se arrempender e correr atrás deles.

Facilitar a verificação do término da traição

            Quem foi traído perde a confiança no traidor. Uma medida que tem efeito muito poderoso para diminuir os transtornos emocionais provocados pela traição é saber que a traição já cessou. Quando o próprio traidor oferece provas de que isso aconteceu e disponibiliza os meios para que o traído verifique que isso é verdade, essa atitude funciona como um sinal da sua intenção de que quer continuar o relacionamento com o traído e que está disposto a sujeitar-se aos desconfortos produzidos pela desconfiança do traído e pelas medidas que esse possa tomar para verificar se ele está dizendo a verdade.

Algumas medidas que ajudam a recuperar a confiança do traído são as seguintes:

- Convidá-lo a aparecer sem avisar em todos os lugares que o traidor estiver.

- Informá-lo sempre horários dos seus compromissos.

- Oferecer o celular e as contas de telefone para que ele possa conferir as ligações.

- Abrir a caixa de e-mails na sua frente para que ele possa conferir as mensagens atuais.    

Apresentar atenuantes da gravidade da traição

Caso existam atenuantes legítimos, apresentá-los. Por exemplo, dizer:

- “Foi só sexo” (Quando o traidor é o homem)

- “Foi só uma paixonite. O sexo só aconteceu uma ou poucas vezes e foi uma porcaria” (Quando o traidor é a mulher).

- “Bebi demais e não sabia o que estava acontecendo”

- “Estava muito carente. Você não me dava carinhos e não transava comigo há muito tempo”.

-  “Jamais pensei em deixar você para ficar com ela” Oferecer argumentos e provas de que o amante é menos qualificado do que o parceiro).

Oferecer demonstrações de amor e carinho

Mostrar-se apaixonado e oferecer carinhos são ações bastante tranquilizadoras e reconfortantes. Claro que essas demonstrações não serão aceitas de cara. No entanto, mesmo que não sejam imediatamente aceitas, elas ficarão registradas e afetarão o traído futuramente.

Tomar medidas que indiquem o comprometimento com o traído

            Quando a traição é descoberta, duas das primeiras coisas que passam pela cabeça do traído são: (1) pensar em terminar o relacionamento e (2) avaliar se ele vai ser terminado pelo traidor. A traição revela que o relacionamento era menos sólido do que o traído supunha. Muitas vezes, a imaginação que o traidor vai terminar o relacionamento pode fazer o traído tomar medidas para se proteger. Essas medidas podem contribuir para o termino do relacionamento.

O traidor que quer salvar o relacionamento deve apresentar sinais convincentes que pretende permanecer no relacionamento. Algumas desses sinais são os seguintes:

- Fazer planos para o futuro que incluam o traído e o relacionamento com ele

- Tomar medidas comprometedoras. Por exemplo, o namorado, após a traição, apresenta a namorada para a sua família ou lhe oferece um anel de noivado.

- Assumir o parceiro em publico. Por exemplo, mudar o status no Facebook para “Seriamente comprometido com fulano”.

Muitas das medidas para salvar o relacionamento após a descoberta da traição são difíceis de serem tomadas ou encontram resistências por parte de quem foi traído. Quando isso acontecer, procure a ajuda de um psicólogo.

1- Olson, Michael M., Russell, Candyce S., Higgins-Kessler, Mindi, and Miller, Richard B. Emotional Processes Following Disclosure of an Extramarital Affair. Journal of Marital and Family Therapy. 28(4): 423-434, 2007.

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Por Ailton Amélio às 09h08

20/04/2013

Postagem nas redes sociais: quinze minutos de fama imaginária

Neste artigo vamos analisar brevemente alguns dos principais motivos para usar as redes sociais e expandir um deles: a sensação imaginária dos quinze minutos de fama.


Por que você usa as redes sociais?

Para ajudar você a identificar os seus motivos para frequentar as redes sociais, dê uma nota de zero a dez (zero: essa afirmação não descreve meus motivos; 5: essa afirmação descreve moderadamente meus motivos; 10: essa afirmação descreve totalmente meus motivos) para cada um das seguintes afirmações:

Uso as redes sociais para:

(    ) Interagir com amigos e conhecidos

(    ) Fazer novas amizades

(    ) Divulgar os meus negócios e atrair clientes.

(    ) Afastar a solidão

(    ) Preencher o meu tempo livre

(    ) Projetar uma boa imagem (divulgo fotos e noticias sobre lugares badalados que frequentei, eventos importantes que compareci, etc.).

(    ) Iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos.

(    ) Melhorar minha autoestima (“Olha como estou lindo nessa foto!”, “Olha como esbanjo sensualidade”; “Olha as causas boas com as quais me identifico!”)

(    ) Mostrar como aprecio e invisto em uma boa filosofia de vida (sou um divulgador de frases de mestres, lições de vida dos filósofos, ensinamentos daqueles que venceram na vida, etc.)

(    ) Divulgar e apreciar publicações humorísticas (charges, piadas, frases humorísticas)

(    ) Divulgar as minhas causas sociais, ideológicas e religiosas: minhas ideias politicas, minha religião, o meu compromisso com causas sociais, causas ecológicas, etc.

(    ) Assumir minhas responsabilidades como cidadão: manifestar-me politicamente, pressionar autoridades, ajudar a criar uma consciência social.

(    ) Divulgar e defender o grupo e opções com os quais me identifico ou simpatizo: opção sexual, grupo étnico, etc.

(    )  Criar a sensação que sou uma pessoa pública (sinto que sou uma pessoa pública e famosa quando posto)

(    )  Criar a sensação que sou moderno

(    ) Tornar público informações, fotografias e acontecimentos que só interessam a mim mesmo ou a umas poucas pessoas ("big brother virtual")

 

Você provavelmente atribui nota cinco ou maior que cinco para várias dessas afirmações. Essas afirmações que tiveram nota acima de cinco provavelmente indicam as suas principais motivações para participar das redes sociais.


A participação em redes sociais se tornou obrigatória

Você que está lendo esse artigo provavelmente participa de pelo menos uma das redes sociais que existem na internet (Twitter, Facebook, YouTube, LinkdIn, Instagram, etc.).

A participação em redes sociais na internet já está incorporada à vida de quase todo mundo, principalmente dos mais jovens. Essa participação se tornou um forte hábito. Quando não conseguimos acessar as nossas redes sociais várias vezes por dia, experimentamos uma espécie de crise de abstinência, tal como acontece com os viciados em drogas, quando deixam de tomá-las.


Muitos motivos para participar das redes sociais

Alguns dos principais motivos específicos para participar dessas redes foram enumerados no questionário apresentado no início desse artigo.

Falando mais genericamente, participar de redes sociais se tornou obrigatório. Quem revela que não participa de nenhuma delas é visto como um ser estranho e peculiar. A hipótese mais provável para essa ausência é que o abstêmio deve ser um antiquado que está completamente alheio ao mundo moderno ou tem algum tipo de problema sério que explica tal alienação.

Ter um site, ter um endereço no Facebook ou uma conta no Twitter se tornou uma obrigação e qualquer profissional ou firma que não disponha de pelo menos um desses endereços é visto como retrógrado.


Quinze minutos de fama simulada


A simulação de fama pode ser comprada

A fama é muito atraente para muita gente. Como ela não está ao alcance da maioria dos mortais, alguns espertalhões passaram a vender uma produção elaborada que dá a sensação para o seu comprador que ele é famoso. Nos EUA, por exemplo, você pode contratar uma agencia que lhe preparara os tais quinze minutos (ou o tempo que você quiser e puder pagar) de fama: você será hospedado em uma suíte presidencial de um hotel famoso; receberá muitos pedidos de entrevista; concederá entrevistas coletivas para a televisão; ao sair na rua, será protegido por vários seguranças e será assediado por fãs; dará muitos autógrafos; poderá ser apresentado para pessoas realmente famosas, que foram contratadas para participar desse acontecimento, etc. Todos esses eventos, que costumam acontecer com pessoas realmente famosas, foram produzidos artificialmente pela firma contratada. Todos os participantes desses eventos são atores e figurantes que desempenham papeis que contribuem para que aquele que os contratou se sinta famoso e poderoso! Algumas pessoas desavisadas que presenciam esses acontecimentos podem concluir que alguém realmente famoso está presente e aderir às tietagens do "astro" ali presente. O comprador poderá, assim, sentir o gostinho de ser famoso. 

Comprar uma produção desse tipo para ter a sensação de fama pode custar muito caro e parecer um tanto ridículo. No entanto, existe uma maneira mais barata que está sendo largamente usada por quase todo mundo: a imaginação que de que é famoso que é produzida pela participação em redes sociais virtuais.


Fama imaginária produzida por participações em redes sociais virtuais

“No futuro todo mundo será famoso por 15 minutos.” Esta afirmação de Andy Warhol se tornou realidade, pelo menos na imaginação de certos usuários das redes sociais virtuais. Ao postar algo, esse tipo de internauta sente que pode estar se expondo para todos os habitantes de nosso planeta (alguns imaginam algo mais cósmico, ainda! Rs.) e que a sua postagem pode se tornar “viral” (se espalhar como um vírus para milhares ou milhões de internautas) e, assim, lhe proporcionar fama e muito dinheiro!

Claro que as chances de um internauta qualquer ficar famoso são menores do que a de ganhar na loteria comprando um único bilhete. No entanto, diferentemente da loteria, não é fácil conferir os resultados das participações na internet e, também, diferentemente do bilhete da loteria, que só concorre a um sorteio, aquilo que é postado pode ter resultados em futuro com prazo indefinido (aquilo que é postado pode ficar para sempre registrado e um dia ser recuperado e reconhecido como algo valioso).

Como é difícil avaliar quais e quantas pessoas tomarão conhecimento de uma dada postagem, isso produz aquela sensação que ela está na iminência de se tornar extremamente popular ou de ser apreciada por pessoas importantes. A todo o momento é divulgada a noticia de que uma determinada pessoa postou algo que foi visto por milhões e que, por isso, ela ficou famosa e ganhou muito dinheiro. Essas notícias alimentam as nossas esperanças que isso também poderá acontecer conosco, com a nossa próxima postagem.

Na realidade, a quase totalidade das participações nas redes sociais não tem nenhuma repercussão: ninguém toma conhecimento delas. Na melhor das hipóteses, essas participações são vistas por um pequeno grupo que costuma “curtir” até mesmo sem ver o que foi postado ou, em casos mais raros ainda, tecer breves comentários. Esses “curtidores” e “comentaristas” geralmente são motivados pelo relacionamento especial que têm ou pretendem ter com o postador ou são apresentados na base da reciprocidade: curto e comento o seu e, depois, você curte e comenta o meu.

Usamos a ambiguidade das informações sobre a magnitude do impacto de nossas participações nas redes sociais para alimentarmos a ilusão que somos, ou podemos ficar famosos. Dessa forma, podemos ter acesso aos nossos quinze minutos de fama imaginária!

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Por Ailton Amélio às 15h55

14/04/2013

Traição: perdoar, talvez. Passar em branco, jamais!

Neste artigo, vamos abordar os temas perdão, esquecimento de ofensas e a reformulação da imagem do ofensor. Embora o tipo de ofensa abordado aqui seja a traição, essa análise pode ser aplicada, com as devidas adaptações, a outros tipos de ofensas.


O que se passou com Mariane após descobrir a traição de Eduardo

Considere a seguinte história (fictícia) de Mariane e Eduardo. Como você reagiria, caso fosse Mariane ou Eduardo? Compare suas reações com as estatísticas apresentadas abaixo e tire suas conclusões!


Traição, perdão e redefinição da imagem do traidor e do relacionamento

Mariane e Eduardo foram apresentados por um amigo em comum e logo começaram a namorar. Três anos depois estavam casados. O casamento já durava onze anos quando sofreu um duro golpe.

Mariane confiava cegamente em Eduardo. Eles tinham um excelente padrão de vida, se davam muito bem, eram mutuamente carinhosos, eram muito amigos entre si, se davam muito bem com os parentes de ambos os lados e desfrutavam de um bom relacionamento sexual. Além de todas essas excelentes condições, tudo aquilo que Eduardo disse, pregou e fez desde que eles se conheceram e tudo que Mariane conhecia sobre os seus valores, o seu caráter, o valor que ele dava à família e a consideração que demonstrava por ela lhe deram a certeza que ele nunca iria traí-la.

Dá para imaginar o choque de Mariana quando ela constatou que Eduardo estava traindo-a. Ela começou a descobrir a traição quando, por acaso, foi usar o computador e verificou que Eduardo tinha deixado o seu e-mail aberto. Ela já ia fechá-lo para pode abrir a sua própria conta quando algumas mensagens chamaram a sua atenção devido ao nome da emissária e ao assunto registrado no cabeçalho. Embora não se sentisse muito bem com o que estava fazendo, abriu alguns dessas mensagens.  Chocada, começou a tomar ciência que ele estava tendo um caso. Após checar outras mensagens e suas contas telefônicas, ela descobriu que há dois anos ele estava tendo um caso com uma colega de trabalho.

O mundo de Mariana ruiu. Eduardo não era quem ela pensava. Grande crise, desconfianças, tentativas de terminar o relacionamento.

Ao ser confrontado e diante de tantas evidências, Eduardo admitiu o caso e, imediatamente, jurou que não amava essa colega, que era só sexo o que tinha com ela e que jamais pensou em deixar o casamento para ficar com ela. Rapidamente, ofereceu provas que havia terminado o relacionamento com a amante e se pôs a reparar, tanto quanto possível, os danos que tinha causado em Mariana e ao relacionamento.

Durante um bom tempo, Mariana ficou sem chão. Tudo aquilo que fazia sentido para ela, no casamento e na estrutura familiar, parecia falso e sem substância. Após muitas idas e vindas, ela acabou concluindo que o seu casamento tinha muita coisa boa e que Eduardo, apesar de tudo, tinha boas qualidades, estava arrependido e mortificado e estava se lutando, com todas as forças, para diminuir a sua dor, demonstrar o seu amor e manter o casamento.

Mariana admitiu também que a sua confiança cega em Eduardo era irreal: “Nenhum ser humano está acima de todas as tentações. Isso ainda é mais verdade quando esse ser humano é um homem”. Portanto, uma parte da sua decepção era devida à sua confiança absoluta e infundada em Eduardo, e isso não era culpa dele, mas ingenuidade sua. Ela também admitiu que toda aquela segurança na fidelidade de Eduardo fez que ela se descuidasse um pouco da sua aparência e feminilidade.

Mariana resolveu tentar salvar o casamento e trabalhar para assimilar a traição, tanto quanto possível. Talvez, com o tempo e com muita terapia, ela pudesse superar o distanciamento emocional que agora experimentava por Eduardo e o seu casamento pudesse se aproximar de novo daquilo que foi um dia. No entanto, ela jamais voltaria a acreditar que Eduardo era aquele homem totalmente confiável e integro, que um dia acreditou.

A sua imagem atual de Eduardo havia incorporado a possibilidade que ele voltasse a trair e mentir. Essa revisão de imagem estava tendo implicações naquilo que ela sentia por ele e no que podia esperar dele em todas as áreas. Ela também não se sentia mais tão compromissada com aquele casamento e com a sua fidelidade para o Eduardo. Talvez viesse a trai-lo também, para zerar a contabilidade e se vingar.


Reflexões

Pense nas suas reações, caso você fosse Mariana e, em seguida, caso fosse Eduardo e compare com os resultados da pesquisa abaixo.


Pesquisa sobre os efeitos da traição

Segundo uma pesquisa divulgada em 2011 pela revista Vip (ver a citação do artigo que divulgou esse outros resultados na Nota 1, que está no final dessa página).

- 18% das traições masculinas e 30% das traições femininas acabam em separação;

- 23% das traições masculinas e 28% das traições femininas foram superadas e o relacionamento continuou;

- Em 38% das traições masculinas e 29% das traições femininas o relacionamento continuou, mas nunca mais foi o mesmo.

- Em 21% das traições masculinas e em 13% das traições femininas, o relacionamento terminou por um tempo e depois voltou.

- 7% das traições masculinas e 25% das traições femininas aconteceram por vingança.


Você está perdoado, mas perdi boa parte da confiança em você!

Creio que todos já ouvimos frases como esta, deste título. Ela distingue o perdão da mudança de imagem do traidor e da mudança do relacionamento.  Vamos examinar essas distinções nos tópicos abaixo.


Perdoar

Você provavelmente já ouviu muito frases como essas:

“Você me perdoa?”

“Vamos esquecer tudo isso?”

“Vamos passar uma régua nisso tudo e recomeçar do zero”

“Só fiz isso uma vez. Você nunca vai me perdoar?

Perdoar é zerar a contabilidade, recuperar os sentimentos e continuar o relacionamento com quem foi perdoado, como se nada, ou quase nada, tivesse acontecido em relação àquilo que foi perdoado.

Claro que perdoar não é esquecer o que aconteceu. Perdoar é fazer com que aquilo que aconteceu não continue a influenciar os sentimentos, as ações e as atitudes daquele perdoou em relação àquele que foi perdoado. Esquecer é amnésia. Ninguém pediria para outra pessoa esquecer um fato grave ocorrido.

Conseguir perdoar e não ficar contabilizando tudo que aconteceu é imprescindível para que um bom relacionamento seja possível. Nada pior que conviver com alguém que guarda mágoas, que se lembra de todas as nossas falhas desde o momento que nos conhecemos, que anda sempre pesado, como se carregasse nas costas todas as mágoas provocadas por tudo de errado que lhe fizemos.


Conseguir perdoar

Conseguir perdoar depende da gravidade do ocorrido, da capacidade para perdoar de quem foi magoado, das medidas reparadoras de quem cometeu a falta e das vantagens e desvantagens proporcionadas pelo perdão. Algumas ações deixam marcar profundas e traumáticas. Cada um deve avaliar quão traumático é para si aquilo que ocorreu e as forças que estão operando em favor do perdão. Se a decisão é manter o relacionamento com a pessoa que traiu, é importante trabalhar para perdoá-la ou, pelo menos, para amenizar a gravidade do ocorrido.

Quem cometeu o ato danoso pode contribuir para que o perdão ocorra através das seguintes medidas: reconhecer o que fez, mostrar arrependimento, trabalhar para reparar os danos e, se possível, apresentar fatos que contribuam para amenizar os estragos causados pelos seus atos.


Quando redefinir a imagem do ofensor e do relacionamento que existe com ele é sábio

Embora a imagem que temos das pessoas com quem nos relacionamos tenha certa estabilidade, cada coisa que ela faz ou deixa de fazer provoca certo grau de correção nesta imagem. Quando aquilo que uma pessoa faz ou deixa de fazer condiz com as expectativas em relação a ela, a sua imagem é reforçada. Quando não condiz, a sua imagem é revista ou explicações são oferecidas para justificar a discrepância (“Ela não agiu do modo esperado porque não percebeu o que estava ocorrendo”). Quanto mais importante ou grave é aquilo que é feito, maior o poder para corrigir imagem do autor da ação.

Saber perdoar é um dom. Não aprender nada sobre quem cometeu a ofensa e sobre si próprio é uma estupidez.


Nota

1- O dossiê da traição http://vip.abril.com.br/sexo/comportamento/dossie-da-traição.

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Por Ailton Amélio às 09h12

07/04/2013

Cinco dicas para homens que querem entender e usufruir a sexualidade feminina

Há pouco tempo, Laurie Watson, terapeuta sexual e professora da Duke University Medical, escreveu um artigo para a prestigiosa revista americana Psychology Today, que logo se tornou um dos mais lidos dessa revista, na época que foi publicado (veja a citação desse artigo na Nota 1, no final desse artigo).

Esse artigo apresenta cinco dicas para ajudar os homens que querem entender e lidar com a sexualidade feminina. Creio que essas dicas são muito úteis, tanto para nós homens como para as mulheres. Por isso, vou apresentá-las aqui. Além disso, também vou incluir alguns comentários dessa autora e complementá-los com meus próprios comentários.

Muitas dessas dicas não são simples formuletas que podem ser aplicadas na hora do sexo para “fazer as mulheres funcionarem melhor”. Pelo contrário, para a maioria das mulheres, um bom sexo só acontece quando admiram o parceiro e têm um bom relacionamento com ele.

Creio que a maioria dos homens ignora as diferenças que existem entre eles e as mulheres na área sexual e acaba tendo uma parceira que apresenta pouco desejo, não toma iniciativas sexuais e está muito frustrada e  magoada.

CINCO DICAS PARA ENTENDER MELHOR A SEXUALIDADE FEMININA


1- Abra o seu coração. Isso eventualmente abrirá suas pernas.

O caminho seguro e eficaz para proporcionar um bom sexo para a mulher e, por tabela, para si próprio, é criar um clima amistoso, romântico e sensual e, não, tentar produzir diretamente o erotismo.  

As diferentes áreas da vida da mulher e os diferentes fenômenos psicológicos que estão presentes na sua mente são mais integrados do que acontece com os homens. Um indicativo dessa diferença é anatômica: os hemisférios cerebrais feminimos são mais interligados. Outros indicativos são comportamentais. Por exemplo, elas integram melhor raciocínio e emoção.  Nós homens tendemos a compartimentalizar a nossa vida em pastas diferentes: negócios X vida pessoal, emoção X razão, trabalho X lazer, etc. O cotidiano masculino também é mais segmentado: os homens saem de casa para trabalhar e se desligam bastante da família. Raramente eles ligam para a esposa durante o expediente, só porque estão sentindo falta dela, não mandam mensagens e, quando o fazem, é só por razões práticas. Muitas vezes, quando estão conversando com suas companheiras, os homens se concentram na tarefa que estão tratando e agem como se não sentissem nada por elas na área romântica ou sexual.

As mulheres, como são mais integradas, se ressentem e têm mais dificuldades para funcionarem plenamente na área sexual com um companheiro que se interessa pouco por diversos aspectos de suas vidas e passa o dia todo ausente, como se elas não existissem. Depois, abruptamente, ele volta para casa, retira a pasta do armário onde está arquivado o assunto sexo, concentram-se nela e quer transar. As mulheres não fazem essa transição tão abruptamente. A descontinuidade do dia desligou-as emocional e sexualmente dele e não podem ser religadas tão facilmente. Não vai ser um beijinho, um carinho ou um elogio que vai torná-las prontas para o sexo. Elas geralmente não gostam que seus companheiros só se tornem atenciosos, carinhosos e românticos quando querem sexo. Para elas, o relacionamento deve ser bom, romântico e sensual boa parte do tempo e não só na hora de transar. Um relacionamento assim é a base sólida para produzir mais sexo e sexo mais solto, satisfatório e intenso.

Os homens que têm mulheres sexualmente satisfeitas e que oferecem sexo de alta qualidade e intensidade são aqueles que se concentram em criar um clima romântico contínuo e não aqueles que se concentram em obter sexo e em sofisticar o sexo com mil posições, brinquedos e variações sexuais. Tudo isso pode ser bem vindo na hora certa, quando antes foi criada uma base amistosa, romântica e sensual.

O romantismo não pode ser reduzido apenas a atos como trazer flores, levar para jantar e comprar presentes nas datas comemorativas. O romântismo é muito mais convicente quando você só tem olhos para ela, quando não consegue tirar os olhos dos seus olhos e nunca deixa de vê-la como uma mulher.

Muitos relacionamentos são esvaziados e neles o sexo só é uma forma de “descarga” ou para satisfazer necessidades. Sexo para "satisfazer necessidades fisiológicas" é muito básico e pobre.


2- Personalize o seu convite

Manifeste a sua atração pela parceira, pela sua beleza e sensualidade. Não a convide para transar alegando que você está “no atraso”, porque você “precisa de sexo” ou porque "você está com tesão". Nada de dizer frases como “Sou liberado”, “Sexo faz bem para a saúde”. Ouvir essas afirmações não as deixa excitadas e não é nada lisonjeiro. Diga coisas como: “Penso e você é já fico excitado”, “Você é muito sensual”, “Você é irresistível”, “Depois que conheci você, não desejo mais ninguém!” 

Geralmente, também não funciona tentar excitá-la descrevendo o que você gostaria de fazer com ela ou começar o encontro com um filme pornô. Tudo isso pode ser bem vindo quando ela já estiver excitada. 

É bom saber que o companheiro nos deseja e não apenas que está precisando transar, gosta muito de sexo ou é muito liberado. Transar com a companheira e dar a impressão que poderia estar transando com qualquer uma pode fazê-la perder boa parte do interesse sexual.


3- As mulheres percorrem um caminho mais sinuoso e demorado para ficarem prontas e chegarem lá

Se o relacionamento está bom, é romântico e sensualizado, a mulher poderá começar a ter desejos mesmo antes do encontro.  

Quando o desejo parte do zero, como muitas vezes acontece no sexo cotidiano, as mulheres demoram cerca de quarenta minutos para percorrer o caminho que vai desde “uma propensão para fazer sexo” até o orgasmo: cerca de vinte minutos de carinhos para ir do ponto “Estou propensa” até o ponto “Eu quero” e mais vinte minutos para ir do “Eu quero" até o orgasmo”1.

Se você apressá-la, ela vai concluir que aquele não é o seu dia, vai desistir de ter obter toda a satisfação sexual que poderia e vai dizer para você ir em frente e se servir. Você também ficará frustrado porque quer uma mulher mais ativa.  

Um dos motivos das mulheres demorarem mais e, aparentemente, serem mais complexas que nós nesta área, é a grande diferença na quantidade de testosterona (o principal hormônio que provoca a excitação) presente na corrente sanguínea dos dois sexos: elas possuem muito menos testosterona que eles (alguns autores afirmam que os homens possuem, em média, cerca de vinte a trinta vezes mais testosterona que as mulheres).

O segundo motivo da maior demora e complexidade das mulheres na área sexual é a maior ligação que existe entre as alterações fisiológicas sexuais e o desejo dos homens do que entre tais alterações e o desejo das mulheres. No caso das mulheres, há uma baixa correlação entre intensidade do entumescimento, ereção do clitóris e lubrificação e a intensidade do desejo que elas relatam. Por exemplo, uma pesquisa verificou que mulheres que viam filmes pornôs apresentavam dilatação, intumescimento e lubrificação para quase todos os tipos de filmes: sexo entre heteros, sexo entre macacos e sexo entre gays. No entanto, elas relataram menos desejo sexual do que essas medidas acusavam. No caso dos homens, as medidas de ereção do pênis são mais relacionadas com seus relatos sobre a intensidade do desejo. Para as mulheres, o fisiológico tem menos peso; o motivacional tem um pouco mais e o todo o conjunto, mais ainda (quão adequado e admirável é o parceiro, a qualidade do relacionamento, a consideração que existe entre o casal, etc.).


4- Deixe para sugerir novas técnicas, posições e fantasias só quanto ela já tiver subido, no mínimo, metade da montanha

Muitos homens tentam começar a excitar a mulher da forma errada. Por exemplo, é muito comum que eles tentem provocá-las dizendo o que gostariam de fazer com elas. Muitos homens ainda comentem o erro mais grave de tentar excitá-las através de relatos pornográficos ou da exibição de filmes pornôs. As fantasias sexuais das mulheres geralmente incluem mais contexto, mais história, mais enredo e menos closes em órgãos sexuais, penetrações, mudanças de posições e sexo grupal ou anônimo!

Nesta mesma linha, só comente detalhes do que ela fez na transa anterior quando voltarem a subir a montanha. As mulheres geralmente ficam envergonhadas quando seus parceiros comentam o que elas fizeram quando estavam excitadas e ousadas.


5 – Conheça 20 técnicas de toque diferentes

Aquilo que é bom em uma ocasião pode não ter o mesmo efeito em outra. A sensibilidade das mulheres à estimulação tátil erótica pode mudar de um dia para o outro, durante as fases do ciclo menstrual e durante um único encontro sexual. Essas mudanças ocorrem devido à vários fatores como stress, sensibilização,  habituação, alterações  fisiológicas nos órgãos sexuais como entumescimento, lubrificação e ereção.

Para dar conta de tantas mudanças, o melhor é dominar uma boa variedade de técnicas de massagens sexuais (consulte bons manuais para aprender mais sobre isso). Além disso, é imprescindível que ela vá orientando você sobre o que ela quer e o grau de prazer que está experimentando em cada momento, com cada uma das suas práticas (ela pode, por exemplo, dar uma nota de um a cinco para o grau de prazer que está experimentando com aquilo você está fazendo). Como aquilo que dá prazer sofre muitas variações difíceis de prever, não é sua culpa se aquilo que funcionava antes não está mais funcionando agora. Só resta, portanto, desenvolver suas habilidades, tomar iniciativas e consultá-la para verificar o prazer que ela está sentindo em cada ocasião.

Existem evidências muito convincentes de que as mulheres podem ter ótimos orgasmos quando o sexo é praticado da forma certa. Por exemplo, quando elas se masturbam, uma grande parte daquelas que não conseguiam ter orgasmo durante o sexo com o parceiro o conseguem desta forma. Isso indica que o problema delas não era dificuldade para o orgasmo, mas, sim, como chegar até ele. Também existe um grupo de mulheres extremamente erotizadas e ativas que tomam iniciativas e encontram o caminho para o próprio prazer. É uma dádiva encontrá-las e uma benção saber apreciar mulheres assim!

Leia esse artigo junto com o seu parceiro e conversem sobre ele. Mesmo assim, o problema está difícil de resolver? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

1. Watson, L (2012) Five Sex Tips for Men About Women. http://www.psychologytoday.com/blog/married-and-still-doing-it/201209/five-sex-tips-men-about-women

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Por Ailton Amélio às 08h45

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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