Blog do Ailton Amélio

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29/06/2013

O tratamento da timidez

Embora a nossa sociedade manifeste preferência pela desinibição, certa dose de timidez é normal e tem um papel benéfico e saudável nos relacionamentos sociais. Uma dose moderada de timidez torna possível o convívio social. Importar-se com aquilo que as outras pessoas possam pensar a nosso respeito e com as consequências que elas poderão impor aos nossos comportamentos geralmente é eficiente para fazer que nos comportemos de forma aceitável.

As intensidades extremas da timidez, a timidez excessiva e a timidez muito diminuta, podem causar problemas. A pessoa que não se intimidada com nada pode incomodar porque essa desinibição excessiva a torna uma “cara de pau”, “invasiva” e “folgada”. Por outro lado, a pessoa que se intimida com tudo age de forma insegura e mais pobre do que ela é capaz.

A timidez é como o medo: quem não teme nada se expõe a grandes perigos, desagrada a todos e morre em dois tempos. Por outro lado, quem teme tudo acaba tendo uma vida muito restrita. Por exemplo, essa pessoa deixa de tomar iniciativas sociais e pode se portar apenas de forma reativa e, por isso, tornar-se chata e pouco estimulante.


Quando a timidez deve ser tratada

Embora haja divergência sobre a possibilidade de “cura” da timidez, os especialistas desta área concordam que existem tratamentos eficazes para combater os graus excessivos deste tipo de inibição.

O tímido deve procurar a ajuda de um psicólogo quando a sua timidez está provocando danos em alguma área da sua vida e ele não está conseguindo superar sozinho a sua inibição. Dentre essas áreas, aquelas onde ela causa mais prejuízo são as seguintes:

Autoestima. Geralmente as pessoas não gostam de ser tímidas e se julgam piores do que as outras quando não conseguem agir com desenvoltura. A nossa sociedade valoriza muito as pessoas desenvoltas, socialmente proativas e carismáticas. Por isso, os tímidos que não possuem essas características e que absorveram esses valores podem se sentir desvalorizados e se desvalorizarem.

Área acadêmica. O tímido pode sofrer sérios prejuízos acadêmicos porque ele não consegue apresentar satisfatoriamente trabalhos escolares na frente da classe, apresentar perguntas para o professor durante as aulas e participar de trabalhos em grupo.

Área profissional. A timidez pode ser um sério obstáculo para conseguir emprego: a timidez atrapalha seriamente o desempenho durante os processos seletivos que envolvem dinâmica de grupo, entrevistas e apresentações para bancas examinadoras. Nesta área, a timidez também pode ser um sério obstáculo para a ocupação de cargos que coloquem o tímido no centro das atenções, como chefiar equipes e participar ativamente de reuniões de chefes, gerentes e diretores.

Área amorosa. A timidez pode impedir o início de relacionamentos amorosos e prejudicar o desenvolvimento e manutenção desses relacionamentos. A timidez é fortemente ativada pela presença de pessoas que despertam grandes interesses amorosos. Muitos tímidos só namoram pessoas que tomam iniciativas amorosas com eles. Uma das coisas que desperta mais medo no tímido é abordar um desconhecido em local público, como nas baladas, com a finalidade de iniciar um relacionamento amoroso. Quando estão interessados em pessoas conhecidas, muitos tímidos são ineficientes para mostrar interesse amoroso durante os vários tipos de relacionamento que vão acontecendo com essas pessoas.

Tratamento da timidez

Existem tratamentos eficazes para combater a timidez. Alguns deles são a reestruturação cognitiva, a dessensibilização sistemática e o treinamento de habilidades sociais. Vamos examinar agora, brevemente, esses tratamentos.

Reestruturação cognitiva

Uma das abordagens mais eficientes para lidar com a timidez excessiva é a abordagem cognitivista. Essa abordagem parte do princípio que o principal motivo da timidez é a percepção distorcida e superdimensionada das ameaças apresentadas nos relacionamentos. 

O psicólogo pode ajudar o tímido a reestruturar as suas percepções das situações intimidantes e de suas condições para enfrentá-las. Algumas das técnicas utilizadas pelos psicólogos com esta finalidade são as seguintes:

Desidealização moderada da pessoa que será abordada. Um dos fatos que causa grande tensão durante os inícios de relacionamentos amorosos é achar que a pessoa que vai ser o alvo da abordagem é maravilhosa e insubstituível. Se esta pessoa é realmente tudo isso que o tímido está pensando, então a rejeição por parte dessa pessoa significaria mesmo uma perda irreparável. Sob essa concepção, a possibilidade de rejeição causa muita apreensão. Assim sendo, não errar e ser rejeitado se torna decisivo para não incorrer em tão grande perda.

Uma maneira produzir essa desidealização é pedir para o tímido convencer o terapeuta que a pessoa que o fascina é realmente maravilhosa. Em seguida, o terapeuta pede para o tímido convencê-lo de que tal pessoa tem muitos defeitos. Este tipo de exercício ajuda o tímido a entrar em contato com os defeitos e qualidades da pessoa admirada, tornando-a mais real. Obviamente o terapeuta não vai tentar desmerecer a pessoa que o cliente teme abordar.  O seu papel é ajudar o paciente a avaliar o seu possível parceiro de uma forma mais realística e correta.

Avaliação correta das consequências de fracassar na iniciativa amorosa. O tímido necessita avaliar corretamente as consequências de ser rejeitado em uma iniciativa amorosa. O terapeuta pode ajudá-lo a questionar se tais consequências são prováveis, se elas têm a gravidade que ele está imaginando e se ele teria condições de superá-las. Em geral é útil fazer com que o tímido imagine que ele já tomou a iniciativa amorosa e fracassou e que agora está sofrendo as consequências do fracasso. O terapeuta pode pedir que ele exagere a magnitude e os significados destas consequências para torná-las absurdas e divertidas.

Correção de erros de raciocínio. O tímido geralmente exagera o perigo da situação que ele se encontra através de várias distorções de raciocínio. Por exemplo, ele pode tirar conclusões a partir de evidências insuficientes, generalizar demais, ignorar evidências em contrário ao que ele está concluindo. A restruturação cognitiva deste tipo de erro é muito parecida com o trabalho de criticar as bases de um trabalho científico: apontar os erros, pedir provas, pedir para o cliente se basear nos mesmos dados para criar uma outra versão diferente daquela que ele está defendendo, etc.

Dessensibilização sistemática

Esse tipo de técnica é implementada através dos seguintes passos:

a- Ordenar os elementos da situação intimidante de acordo com seus poderes para evocar a timidez. Por exemplo, um paciente tem medo de abordar uma pessoa desconhecida que a atrai muito na área amorosa fez o seguinte detalhamento desta situação em ordem crescente de timidez que ele sentiria em cada uma delas:

1º.  Abordar uma pessoa que me atrai pouco e que está só no local

2º. Abordar uma pessoa que me atrai medianamente e que está só no local

3º. Abordar uma pessoa que me atrai muito e que está só no local

b- Relaxamento e exposição gradual ás situações causadoras de timidez. O terapeuta combina com o paciente que vão começar o tratamento pela situação que evoca a menor intensidade de timidez. Assim que esta situação deixar de evocar timidez, eles passarão a trabalhar com a situação seguinte, e assim por diante.

Para trabalhar com a timidez em cada uma dessas situações, o terapeuta ensina o paciente a relaxar e pede a ele que se imagine, o mais realisticamente possível, na situação que está sendo trabalhada. Por exemplo, ele pede ao paciente que imagine que está agindo de forma eficaz para iniciar o relacionamento amoroso e que o sucesso está acontecendo. O terapeuta também pode pedir para o paciente executar essas ações em situações reais, após as sessões terapêuticas.

Treinamento de Habilidades

Geralmente o paciente se beneficia de um treinamento de habilidades para iniciar um relacionamento amoroso. Esse benefício ocorre tanto quando existem déficits de habilidades nesta área e mesmo quando esses déficits não existem.  Os tímidos podem apresentar déficit de habilidades sociais porque geralmente eles evitam aquelas situações que provocam timidez. Por este motivo, eles acabam tendo menos oportunidades para desenvolver e fortalecer essas habilidades. As evidências indicam que a maioria dos tímidos não apresentam déficits de  habilidades sociais. Por exemplo, quando os tímidos estão interagindo com pessoas que não despertam a timidez, eles se comportam de forma normal, o que atesta que eles possuem essas habilidades.

Os tímidos que não apresentam déficits sociais também podem se beneficiar de um treinamento dessas habilidades pelas seguintes razões:

- Durante o treinamento dessas habilidades, o terapeuta confirma que o tímido possui essas habilidades. Essa confirmação aumenta a autoconfiança do tímido e diminui o medo que ele tem de fracassar.

- Aquelas habilidades que estão supertreinadas têm menor probabilidade de serem inibidas em situações sociais tensas. Este fenômeno pode ser observado em outras habilidades como tocar piano. Um bom treinamento automatiza o desempenho e faz com que o pianista toque com maior fluência na frente da audiência. Quando uma habilidade está firmemente instalada, a excitação e a tensão provocadas pela audiência melhoram o desempenho. Quando a habilidade não está firmemente instalada, o desempenho fica prejudicado em situações de tensão e inibição.

- Durante este treinamento, o tímido se exporá à situação social que evoca a sua timidez. A presença do terapeuta ou do grupo terapêutico funciona como audiência benigna e compreensiva durante os ensaios do tímido para enfrentar as situações intimidantes. Esta exposição, na qual não ocorrem as consequências temidas, é uma das formas mais eficazes de extinguir os temores.

A timidez está atrapalhando a sua vida? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 15h27

23/06/2013

Se você não se valoriza, quem vai lhe valorizar?

A autoestima é o resultado da autoavaliação dos próprios méritos e deméritos. As pessoas que têm boa autoestima são aquelas que se avaliam de uma forma positiva. As pessoas que têm baixa autoestima são aquelas que se avaliam de uma forma neutra ou negativa.

A autoestima positiva é mais do que um mero reconhecimento das próprias qualidades. É uma atitude de aceitação e de não julgamento de si e do outros. Julgar e rejeitar a si próprio causa uma enorme dor. Por isso, as pessoas que têm baixa autoestima podem fugir de qualquer coisa que possa agravar a dor da autorrejeição. Elas, por exemplo, procuram assumir menos riscos sociais, acadêmicos e profissionais. Agindo dessa forma, elas recebem menos ajuda para resolver seus problemas, restringem a expressão das suas sexualidades, têm mais dificuldades para ouvir críticas, etc.

A autoestima tem um impacto profundo no nosso bem estar físico e psicológico e afeta as chances de sucesso em diversas áreas de nossas vidas. Por exemplo, uma pesquisa realizada por Bernard I. Murstein, da Universidade Connecticut, na década de setenta, com 99 casais de estudantes que estavam namorando ou eram noivos, constatou que aquelas pessoas que tinham baixo grau de autoaceitação tinham mais chances de estarem envolvidas com parceiros que elas próprias consideravam mais indesejáveis do que aquelas pessoas que tinham maior grau de autoaceitação.  Outro exemplo: existem evidências que indicam que a avaliação da própria aparência é mais relacionada com o sucesso social do que a avaliação realizada por outras pessoas. Ou seja, é mais importante aquilo que você próprio acha da sua aparência do que aquilo que outras pessoas acham. A autoavaliação positiva produz autoconfiança. Esta autoconfiança afeta os comportamentos positivamente e esses comportamentos produzirão efeitos positivos nas outras pessoas!

Quem tem boa autoestima é moderadamente otimista nas autoavaliações

Muitos daqueles que têm baixa autoestima se consideram “realistas”, “pessoas comuns” ou “pessoas médias”. A autoavaliação negativa é mais rara entre aqueles que têm baixa autoestima e, quando acontece, ela indica um quadro grave de autodepreciação que pode estar associado a algum distúrbio psicológico mais grave (depressão, por exemplo).   As pessoas que têm boa autoestima são moderadamente otimistas quando avaliam seus méritos e deméritos. Por exemplo, elas veem os próprios defeitos como temporários (“Estou com este problema agora, mas já vou melhorar.”) e restritos a uma área ou habilidade ( “Apenas cometi um erro. Não sou incompetente”) e os próprios méritos como duradouros e amplos (“Sempre me sai bem nos assuntos acadêmicos”).

No outro extremo da escala de autoestima estão aqueles que são exageradamente otimistas sobre os próprios méritos e que subestimam os seus limitações. Este tipo de otimismo exagerado também trás problemas porque quem se vê desta forma provavelmente não suporta entrar em contato com as próprias limitações e, por isso, não é capaz de se aperfeiçoar e é mal visto pelas outras pessoas. Na área amorosa, por exemplo, aqueles que são otimistas demais sobre seus próprios méritos podem se interessar apenas por pessoas que são muito mais atraentes que eles próprios e, por isso, correm os riscos de sofrer muitas rejeições e de não conseguir estabelecer este tipo de relacionamento. Este otimismo exagerado muitas vezes esconde fragilidades e a falta de confiança em si próprio.

Erros de avaliação daqueles que têm baixa autoestima

Muitos casos de baixa autoestima são resultados de autoavaliações errôneas e pessimistas. Quando uma pessoa se acha incapaz de realizar uma tarefa e ela realmente tem esta incapacidade, isto é realismo e não o resultado de  distorções provocadas pela baixa autoestima. No entanto, quando uma pessoa subestima a sua capacidade de realização de uma tarefa que ela pode perfeitamente realizar, isso é uma distorção negativa da percepção das suas próprias habilidades que é causada pela baixa autoestima.

Mecanismos que distorcem a autoavaliação

Geralmente a baixa autoestima é provocada por vários tipos de distorções na autopercepção e erros nos raciocínios utilizados para tirar conclusões sobre os próprios méritos e deméritos. Os principais erros de raciocino deste tipo são os seguintes:

Concluir sem provas ou contra as provas. Neste tipo de distorção a pessoa conclui sem provas e até contra as provas que dispõe. Por exemplo, um rapaz que atendi em meu consultório acreditava que não iria conseguir namorar porque tinha o pênis pequeno. Perguntei a ele se já tinha ouvido comentários a este respeito das mulheres com as quais ele tinha tido intimidades. Ele respondeu que os poucos comentários que tinha ouvido eram de que o seu pênis tinha o tamanho normal. Isto não o tinha convencido. Pedi então a ele que fosse a um urologista. Os três urologistas que ele consultou afirmaram que o tamanho do seu pênis era perfeitamente normal. No entanto, depois de obter todas estas informações, ele ainda não estava seguro. Só as informações muitas vezes não são suficientes para diminuir significativamente a insegurança. Neste caso, só a terapia e  experiências bem sucedidas são eficazes para combater este tipo de problema.

Generalizar indevidamente as conclusões. Este tipo de erro acontece, por exemplo, quando a partir de poucos casos de fracasso, a pessoa conclui que tudo aquilo que fizer naquela área terá resultado negativo. Por exemplo, uma paciente que atendi era muito desconfiada. Ela relatou que era desconfiada porque foi traída pelos dois namorados que teve anteriormente. Daí para frente, ela passou a desconfiar de todos os homens.

Superestimar a importância das próprias desvantagens e subestimar as vantagens. Por exemplo, um paciente que atendi acreditava que nenhuma mulher interessante iria gostar dele porque era magro e tinha baixa estatura (pesava cinquenta e sete quilos e tinha um metro e sessenta e seis centímetros de altura). Ele, por outro lado, era inteligente, bem sucedido economicamente, elegante, gentil e afetivo. O seu principal erro, que provocava um rebaixamento na sua autoestima, era ter concluído que todas as mulheres atribuiriam uma importância suprema para a sua estatura e pouco peso. Para fins de seleção de parceiros amorosos, as pessoas levam em conta mais de cem atributos.

Dois ingredientes da autoestima

Roy F. Baumeister, professor de psicologia da Universidade Estadual da Flórida, publicou um livro muito interessante sobre a autoestima2. Neste livro, Baumeister afirma que a autoestima é composta por dois tipos de ingredientes: o disposicional e o situacional.

Ingrediente disposicional da autoestima

Quando uma pessoa tem sucesso nas principais áreas da sua vida e, mesmo assim, está insatisfeita consigo mesma, é provável que ela esteja com baixa autoestima causada pelo ingrediente “disposicional”. Este tipo de problema é causado por acontecimentos que ocorreram em outras épocas da sua vida, geralmente durante a infância, e têm raízes profundas. Quem tem este tipo de problema são aquelas pessoas que foram criadas por pais exigentes, que eram insatisfeitos com eles próprios, que eram ágeis para criticar e lentos para elogiar e que nunca estavam totalmente satisfeitos com aquilo que seus filhos faziam. Este conjunto de condições pode produzir problemas crônicos de autoestima. Este tipo de problema é muito arraigado e difícil de ser combatido. O seu tratamento exige um bom tempo de terapia.

Quando a baixa autoestima tem esse tipo de causa, a insatisfação que a pessoa sente não tem um foco definido - ela é difusa: a pessoa não sabe dizer qual é o motivo da sua insatisfação consigo própria. Todos os motivos que ela cita não parecem ser suficientes, nem para ela própria nem para quem a está ouvindo, para explicar a sua insatisfação com ela própria. Os seus sucessos em diversas áreas da vida só produzem alguma satisfação por pouco tempo. Logo reaparece a insatisfação.

Ingrediente situacional da autoestima

Quando o nosso desempenho produz maus resultados em áreas importantes da nossa vida, é razoável que fiquemos temporariamente insatisfeitos com nós mesmos e que tenhamos a nossa autoconfiança abalada. Esta insatisfação e diminuição da autoconfiança são desconfortáveis. Esta insatisfação e desconforto, se bem canalizados, podem contribuir para aumentar a nossa motivação, melhorar o nosso desempenho e, assim, contribuir para a  superação dos obstáculos que estão sendo enfrentados. Por outro lado, quando o desconforto causado pela baixa da autoestima é mal canalizado, a pessoa perde a confiança em si mesma e passa a ter cada vez piores resultados e, assim, acaba entrando em uma espiral descendente.

Segundo Baumeister, o sucesso ou fracasso nas seguintes áreas geralmente afetam a autoestima da maioria das pessoas:

Aparência física.  Quem está insatisfeito com o próprio corpo pode sofrer um rebaixamento da autoestima. No entanto, muita gente que tem uma ótima aparência continua insatisfeita consigo mesma. Estas pessoas se apegam a detalhes (por exemplo, se torturam por pequenas estrias ou por um quadril ligeiramente mais volumoso do que o médio). Neste caso, trata-se de uma distorção da autoavaliação.

Relacionamento social. Aquelas pessoas que mantêm bons relacionamentos sociais geralmente têm autoestima mais alta do que as pessoas que não têm bons relacionamentos sociais.

Personalidade. Vários traços de personalidade estão relacionados com a autoestima. Por exemplo, as pessoas que são otimistas geralmente têm autoestima melhor do que as que são pessimistas.

Imagem socialmente projetada. A opinião das outras pessoas afeta aquilo que pensamos a nosso próprio respeito. Quando a característica que está sendo avaliada é subjetiva, a importância da opinião alheia é ainda maior. Por exemplo, a avaliação da nossa altura está menos sujeito à opinião alheia do que a avaliação da nossa simpatia.

- Sucesso na escola e no trabalho.  Aquelas pessoas que têm sucesso nas atividades acadêmicas e nas atividades profissionais geralmente têm melhor autoestima do que as pessoas que não têm sucesso nestas áreas. Por exemplo, uma reprovação na escola, apesar do esforço para ser bem sucedido, ou ser despedido de um emprego abaixam temporariamente a autoestima.

Sucesso na execução de tarefas da vida diária.  Quem executa com facilidade e sucesso aquelas atividades do dia a dia geralmente tem melhor autoestima do que aqueles que sempre deixando para trás as suas obrigações.

Funcionamento mental.  Aqueles que acreditam nas suas próprias percepções e na própria inteligência geralmente têm melhor autoestima do que aqueles que não confiam nestas suas capacidades.

Sucesso no relacionamento amoroso. Quando uma pessoa é amorosamente correspondida por alguém que ela valoriza e admira, a sua autoestima vai lá para cima. Quando uma pessoa é rejeitada por um parceiro valorizado ou, pior ainda, quando ela é trocada por uma rival, a sua autoestima vai lá para baixo.

Problemas com a autoestima? Procure a ajuda de um psicólogo.

Notas

1- Murstein, B. I (1971). Self-ideal-self discrepancy and the choice of marital partner. Journal of Consulting and Clinical Psychology, Vol 37(1), Aug , 47-52.

2- Baumeister, R. (Ed.) (1993). Self-Esteem: The puzzle of low self-regard. New York: Plenum Press.

Uma versão deste artigo foi apresentada anteriormente no meu livro “Relacionamento Amoroso”, publicado pela Publifolha.

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Por Ailton Amélio às 08h43

15/06/2013

Não basta ouvir. Tem que mostrar que está ouvindo!

"Você ouviu o que eu disse? Então repita!"

Ouvir e mostrar que ouviu são duas coisas distintas, embora relacionadas. Uma pessoa pode ouvir muito bem o que está sendo dito pelo seu interlocutor sem mostrar nenhum sinal que isso está acontecendo. Por exemplo, ela pode ouvir enquanto finge que está dormindo, enquanto está oculta ou enquanto está atrás de quem está falando, como fazia Freud durante as suas sessões de terapia.

O contrário também é possível: uma pessoa pode apresentar sinais que está ouvindo o que está sendo dito quando, de fato, não está prestando atenção em nada. Isto ocorre, por exemplo, quando o ouvinte orienta a frente do seu corpo na direção do falante, inclina o tronco na sua direção e anui com a cabeça quando este faz pausas ou produz certas inflexões na voz, tudo isso sem ouvir nada do que está sendo dito.

Todas as ações praticadas pelo ouvinte, que podem ser interpretadas como reações ao que foi dito pelo interlocutor, são indicativas de que ele ouviu, da forma como aquilo que ouviu o afetou e da forma como ele gostaria que o falante procedesse. Por exemplo, quando o ouvinte relata um caso que ilustra muito bem aquilo uma afirmação anterior do seu interlocutor, isso significa que ele entendeu tal afirmação, lembrou do caso e se deu ao trabalho de relatá-lo.

 

Mostrar que está ouvindo é uma das tarefas do ouvinte ativo

Para ser um bom ouvinte não basta captar as mensagens do falante. Também é preciso ser ativo e mostrar que está captando e entendendo essas mensagens e como está reagindo a elas (interesse, espanto, revolta, etc.). Também é necessário ajudar o falante a gerenciar aquilo que ele está apresentando. Para isso, o ouvinte deve apresentar mensagens do tipo: fale mais, fale menos, apresente mais detalhes, explique melhor, etc. Todas as ações ou inações do ouvinte, que acontecem após uma comunicação  apresentada pelo seu interlocutor, são indicativas de que ele recebeu tal comunicação e do como reagiu a ela.

 

Dialogar exige bem mais do que “falar” e “ouvir”

Os termos “falante” e “ouvinte” dão uma ideia muito parcial das atividades que são desempenhadas pelos interlocutores de uma conversa. Esses termos dizem respeito apenas às mensagens sonoras que são trocadas durante a comunicação cara a cara. Durante esse tipo de comunicação, os interlocutores também apresentam muitas informações que podem ser captadas através de outros órgãos dos sentidos como, por exemplo, a visão (gestos, expressões faciais, posturas, etc.), o olfato (odores corporais e perfumes, etc.) e o tato (contato físico durante os cumprimentos, como expressão de afetos e para chamar a atenção).

O falante competente também não se limita a enviar mensagens. Ele também fica atento às reações do ouvinte. O ouvinte eficiente, ao mesmo tempo em que recebe as mensagens do falante, atua firmemente para orientá-lo, para incentivá-lo ou para desincentivá-lo e para mostrar suas reações às mensagens que está recebendo.

Para ser um bom ouvinte não basta captar as mensagens do falante. É preciso mostrar que está captando-as e entendendo-as. Também é necessário ajudar o falante a dosar aquilo que ele está apresentando (apresentar mensagens que indiquem: fale mais, fale menos, detalhe, explique, etc.) e apresentar informações sobre os efeitos que ele está provocando com a sua comunicação (interesse, espanto, revolta, etc.),

Todas as ações praticadas pelo ouvinte como reação ao que foi dito são indicativas de que ele ouviu e como isso o afetou e como ele quer que o falante proceda.

 

Sinais que ouviu e elaborou o que foi ouvido

Quando o ouvinte faz algum tipo de intervenção que só poderia ser apresentada quando a comunicação do seu interlocutor foi captada, entendida e elaborada, essa intervenção mostra, de maneira convincente, que o seu autor realmente captou a mensagem apresentada pelo seu interlocutor.

Exemplos que indicam que o ouvinte captou a comunicação e foi influenciada por ela: o ouvinte apresenta um comentário pertinente, resume o que o interlocutor disse ou age exatamente da forma que sugerida pelo interlocutor momentos antes (por exemplo, uma pessoa que está dirigindo vira toma a rua da  direita e para o carro, após ouvir esse tipo de orientação por parte do seu instrutor). 

 

Ouvir sem reagir pode não ser útil para o emissor das mensagens

Se o ouvinte não mostra que está ouvindo e os efeitos que as mensagens estão provocando nele, como o emissor vai adivinhar se as suas mensagens foram recebidas, compreendidas e os efeitos que elas provocaram no receptor? Além disso, a falta de reações do receptor pode fazer o emissor sentir-se desestimulado e até mesmo desrespeitado pela falta de atenção.

 

Exibição simulada dos sinais que está ouvindo

Diversos sinais relacionados com o ouvir podem ser apresentados sem que aquele que os apresenta realmente tenha ouvido. Isto ocorre, por exemplo, com a orientação do corpo na direção do falante, com a inclinação do tronco para frente, na direção de quem fala, e com o anuir com a cabeça para indicar que está acompanhando o que está sendo dito (tudo que é necessário para agir dessa forma é anuir com a cabeça quando o falante apresenta certos tipos de pausas e inflexões).

O exemplo mais típico disso ocorre na sala de aula, quando certos alunos inclinam o tronco para frente, na direção do professor, apoiam o queixo em uma palma da mão e olham na direção do professor. Todos esses comportamentos podem indicar que ele está prestando atenção na aula. No entanto, muitos que agem assim estão pensando em outras coisas ou devaneando.

A sua comunicação está insatisfatória? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 16h46

09/06/2013

Não complique: iniciar um namoro é muito fácil

Neste artigo vamos examinar o namoro, as principais facilidades e dificuldades para iniciar esse tipo de relacionamento e a ausência do namoro nos relacionamentos amorosos mais antigos.


Você não consegue namorar porque se convenceu que isso é muito difícil?

Profecia autorrealizadora: como o medo de não conseguir namorar fazia Marina fracassar nas suas tentativas amorosas

Marina estava com trinta e quatro anos. Não havia se casado e há um bom tempo estava sem namorado. Um resumo da sua história de namoros era o seguinte: ela namorou um rapaz dos dezoito aos vinte e um anos. Em seguida, ficou com várias pessoas. Depois teve outro namoro que durou dos vinte e três aos vinte e cinco anos. De lá para cá, “ficou” com varias pessoas e transou com outras tantas.

Assim que ela terminou o segundo namoro, resolveu que iria passar um bom tempo sem namorar. Queria se dedicar à carreira e aproveitar a vida e, para isso, não podia estar comprometida. Foi o que fez. Quando se aproximou dos trinta anos resolveu namorar “sério” e casar. Para sua surpresa, constatou que estava com muita dificuldade para arranjar um namorado. Atraia facilmente pretendentes, mas eles só queriam sexo. Os seus relacionamentos nunca passavam do terceiro encontro. Depois de várias tentativas mal sucedidas para iniciar um namoro, começou a achar que havia algo errado com ela. Começou a achar também que os homens não queriam nada sério.

Foi ai que ela começou a ficar com medo de não conseguir namorar, casar e ter filhos. Esse medo só piorou as coisas. Assim que aparecia um pretendente que a atraia, ela tentava segurá-lo com unhas e dentes. Ela alternava momentos de muita desconfiança (“Você realmente quer algo sério? Não tenho tempo a perder”) e momentos nos quais se mostrava muito boazinha com o pretendente: tentava adivinhar e fazer tudo que pudesse agradá-lo (evitava mostrar suas verdadeiras opiniões, evitava propor programas e tinha medo de não transar logo nos primeiros encontros porque isso poderia fazê-lo desistir). Quando mostrava desconfiança, isso a tornava desagradável e até ofensiva. Quando se mostrava boazinha demais, isso a tornava muito previsível, insípida e chata. Essas duas formas de agir geralmente precipitavam o fim dos seus relacionamentos que mal haviam começado. O medo de Marina era o maior determinante dos seus fracassos: ela "complicava" relacionamentos que tinham tudo para dar certo!


Definições de "namorar" e "namoro"

Neste artigo, vou usar a palavra “namoro” para nomear as manifestações de amor que são típicas de um relacionamento amoroso romântico. Esse termo, “namoro”, também é usado para nomear uma fase do relacionamento amoroso que geralmente aparece entre o “ficar” e o noivado. Neste segundo sentido, esse termo é também é bem aplicado porque, nesta fase, as pessoas apresentam frequente e intensamente os comportamentos de namorar.


Manifestações diretas e indiretas de namoro

As manifestações do namoro podem ser diretas ou indiretas.

Manifestações diretas: segurar carinhosamente as mãos, olhar longamente nos olhos, abraçar romanticamente, só ter olhos para o parceiro, usar a voz típica de quem está se sentindo romântico, falar palavras de amor, beijar romanticamente, etc.

Ações indiretas: oferecer flores, enviar mensagens românticas, oferecer presentes, levar para jantar, convidar para sair, etc.

Ambos esses dois tipos de ações são positivas e contribuem para que um relacionamento amoroso se estabeleça e progrida. No entanto, as ações diretas são mais convincentes. Elas são mais difíceis de serem simuladas ou racionalmente programadas. Por isso, as ações diretas têm efeitos muito positivos quando são executadas de forma convincente. Muita gente que manda flores e mensagens não consegue emitir ações diretas como ficar olhando longamente nos olhos do parceiro e ficar beijando-o romanticamente por horas e horas.


O namoro deve estar presente em todas as fases de um relacionamento amoroso


O namoro é um dos pilares do relacionamento amoroso

As ações típicas do namoro devem ser apresentadas pelos parceiros durante todas as fases do relacionamento amoroso (“ficadas”, namoro, noivado, morar juntos e casamento) e não apenas durante a fase do namoro.

Quando os casais deixam de namorar, seus relacionamentos perdem a natureza amorosa e se tornam, na melhor das hipóteses, relacionamentos amistosos ou relacionamentos de conveniência ou não definham e terminam.


Geralmente é fácil arranjar um namorado

Nada mais fácil do que iniciar um namoro com alguém que quer namorar:

- Quase todo mundo que não tem namorado quer namorar.

- Quase todo mundo casa. Existem estimativas que cerca de 92% dos seres humanos se casam pelo menos uma vez.  Essa alta percentagem indica que quase todo mundo consegue iniciar relacionamentos amorosos e fazê-los progredir até o casamento. 

- Não é preciso ter qualidades excepcionais, saber conquistar ou ser perito em abordagem para conseguir marcar um encontro amoroso e iniciar um namoro.

Eu acredito que a maioria das pessoas que tem dificuldades para iniciar namoros, ao invés tentar aprender como flertar e namorar, tem mesmo é que aprender a parar de ter medo e deixar de evitar as inúmeras oportunidades que aparecem para iniciar esse tipo de relacionamento.


Duas evidências sobre a facilidade para marcar um encontro amoroso

Primeira evidência. Certa vez perguntei para meus alunos universitários se eles topariam sair com uma pessoa que tivesse um grau de atração semelhante aos deles. Quase todos que estavam disponíveis na ocasião disseram que sim. Não era necessário, portanto, que o parceiro tivesse qualidades excepcionais para ser aceito para um encontro. Neste mesmo sentido, uma pesquisa americana verificou que para atrair um parceiro, é mais importante não ter características indesejáveis do que ter qualidades excepcionais.

Segunda evidência. Pesquisadores americanos pediram para estudantes que abordassem colegas atraentes que passavam por um local, dentro do campus de uma universidade, e os convidassem para sair. Cerca de 50% dos convidados aceitaram o convite. Essa percentagem de aceitação foi observada tanto para os homens como para as mulheres que apresentaram os convites. Ou seja, é surpreendentemente fácil marcar um encontro com alguém atraente. (Aqui no Brasil, acredito que essa percentagem de aceitação seria menor devido aos problemas de segurança).

Afinal, praticamente todo mundo que está disponível quer ter um namorado. Além disso, as pessoas geralmente não são exigentes: basta que o pretendente seja do mesmo nível e que lhe desperte um bom grau de atração romântica e sexual.

Estas e outras evidências sobre a facilidade para iniciar relacionamentos amorosos confirmam que não é necessário nenhuma técnica apurada para abordar parceiros e conquistá-los. Na maioria das vezes, tudo que é necessário é agir segura e calmante e manifestar o interesse pela pessoa.


Principais dificuldades para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos

Certas pessoas têm muita dificuldade para iniciar relacionamentos amorosos. Outras pessoas iniciam facilmente este tipo de relacionamento, mas têm muita dificuldade para fazê-los progredirem para níveis mais avançados de compromisso. Vamos examinar agora, brevemente, alguns dos principais motivos desses dois tipos de dificuldades.


Principais causas das dificuldades para verificar se o interesse amoroso é correspondido

Muitas pessoas têm dificuldades para iniciar namoros. As principais causas desse tipo de dificuldade são as seguintes:

- Escassez de possíveis parceiros compatíveis nos locais e atividades frequentados (“Onde está Wally?”)

- Excesso de exigências para aceitar um parceiro (“Ninguém é suficientemente bom para mim”).

- Possuir problemas psicológicos que atrapalham o início e o progresso dos namoros. Principais problemas desse tipo:

            - Timidez (“Que medo de não ser hábil para iniciar o relacionamento  e, por isso, ser rejeitado e humilhado”)

            - Baixa autoestima (“Muita areia para o meu caminhãozinho”)

            - Dificuldade para se envolver amorosamente (“Tenho muita dificuldade para me interessar, apaixonar a amar”)

             - Dificuldade para se comprometer amorosamente (“Posso até gostar da pessoa e ter um relacionamento com ela, mas não quero me amarrar”).


Principais dificuldades para iniciar o namoro.

Os principais motivos desse tipo de dificuldade são os seguintes:

 (1) Atrair pessoas erradas. Duas causas desse problema: (a) sentir atração por pessoas erradas (por exemplo, algumas mulheres sentem muita atração por “cafajestes”) e (b) usar “iscas” erradas para atrair parceiros. Por exemplo, algumas mulheres usam roupas muito sensuais e, por isso, atraem parceiros que só estão interessados em sexo.

 (2) Agir de forma errada. Por exemplo, quem tem muita dificuldade para arranjar namorados pode ficar muito “bonzinho” com o pretendente porque tem medo de desagradá-lo. Quem é “bonzinho demais” geralmente não toma iniciativas e concorda com tudo: é uma pessoa supercautelosa e chata. 

Você tem dificuldade para iniciar, fazer progredir ou manter o clima de namoro durante o relacionamento? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 08h34

01/06/2013

Por que as mulheres temem o sexo no primeiro encontro?

A seguinte charge (autoria desconhecida) ilustra bem o que se passa na cabeça da maioria dos homens e mulheres durante o primeiro encontro amoroso:

Charge

Cenário: mesa de um bar. Personagens: um homem e uma mulher estão iniciando o primeiro encontro amoroso. Os balões acima das suas cabeças registram o que estão pensando. No balão do homem está escrito: “Será que vou conseguir transar com ela hoje?” No balão da mulher está escrito: “Será que ele é um bom parceiro para namorar?”

Muitas mulheres se deparam com o seguinte dilema no início dos relacionamentos: se for logo para a cama como o parceiro (como está com vontade), o que ele vai pensar dela? Se não for, será que ele vai desistir do relacionamento porque ela está sendo muito difícil?

Neste artigo vamos examinar algumas das principais causas da preocupação da maioria das mulheres com as consequências de transar nos primeiros encontros de um relacionamento amoroso.


Perspectiva masculina sobre o sexo nos primeiros encontros

É interessante perguntar por que são raros os artigos que tratam das preocupações dos homens sobre o sexo no primeiro encontro. Os artigos que existem sobre esse tema geralmente dão conselhos sobre como seduzir a mulher e levá-la rapidamente para a cama. A resposta parece ser simples: esses artigos são raros porque os homens não estão preocupados com isso e já sabem o que farão quando houver oportunidade: irão para a cama o mais rapidamente possível.

A grande maioria dos homens está disposta a fazer sexo logo no início de um relacionamento amoroso. O que difere esses homens uns dos outros não é, portanto, a disposição para transar o quanto antes. É possível diferenciar apenas aqueles que só querem sexo daqueles que, além de quer sexo, também estão dispostos e disponíveis para um relacionamento amoroso pleno e duradouro.


Motivos gerais das diferenças entre homens e mulheres em relação ao sexo nos primeiros encontros

Existem dois motivos gerais para essas diferenças: um social e outro biológico.

Motivo social: essa forma de agir por parte dos homens é socialmente aprovada: a imagem do homem perante a sociedade e perante a companheira de relacionamento não sofre prejuízos, e pode até ser beneficiada, quando ele transa nos primeiros encontros. A predisposição do homem para aceitar sexo nos primeiros encontros está tão instituída em nossa sociedade que as mulheres se sentirão pouco atraentes e levantarão dúvidas sobre a masculinidade do parceiro caso ele não faça tentativas de avançar sexualmente logo nos primeiros encontros.

Motivo biológico: os homens, durante a evolução da nossa espécia, podiam ser menos cuidadosos com a prática do sexo porque, nesta época, eles tinham grandes vantagens quando praticavam sexo com o maior número possível de parceiras. Essa forma de agir  aumentava muito as suas chances de produzir descendência e tinha um baixo custo (“Tinham muito a ganhar e tudo que se arriscavam a perder era o tempo necessário para seduzir as mulheres e uns míseros espermatozoides”). As mulheres tinham muito a perder e pouco a ganhar com o sexo casual: elas tinham menos chances de gerar filhos (só ovulavam uma vez por mês e, quando grávidas, passavam pelo menos nove meses sem poder gerar novos filhos). Por isso, elas tinham que escolher muito bem as características genéticas daqueles que poderiam ser o pai de cada um dos seus poucos filhos. Além disso, a gravidez exigia altíssimos investimentos. Os cuidados com o filho exigia outros investimentos ainda maiores. O sexo casual geralmente diminuia as chances de que o parceiro que gerou o filho ficasse com ela e cooperasse todos esses custos (afinal, ele não gostava dela, "só queria sexo". Além disso, não ficava seguro de que ele era o pai, já que ela também fazia facilmente sexo casual com outros homens).


Motivos específicos do temor feminino de transar nos primeiros encontros

Certos pseudopsicólogos libertários de plantão responderão prontamente que as mulheres temem transar nos primeiros encontros devido ao preconceito social e às ideias retrógradas daqueles que condenam essa forma de agir. Os tradicionalistas dirão que transar logo nos primeiros encontros é errado porque é uma forma promíscua e imoral de se comportar.

Os fatos não sustentam nem a posição dos pseudopsicólogos, nem a dos tradicionalistas. Não existem motivos tão fortes para não transar nos primeiros encontros, como afirmam os tradicionalistas, e esses motivos não são tão desprezíveis como pregam esses pseudopsicólogos. De fato, existem algumas vantagens reais para que as mulheres, mais do que os homens, evitem transar logo nos primeiros encontros e algumas vantagens para elas transarem nessa ocasião. Dois dos principais motivos para transar nos primeiros encontros são os seguintes: (1) transar é gostoso e (2) transar bem pode contribuir para fazer o relacionamento dar certo.

Alguns dos principais para  motivos para não transar nos primeiros encontros são os seguintes:

As mulheres, mais do que os homens, precisam relaxar, sentir uma boa dose de atração e algum envolvimento emocional com o parceiro para se sentirem seguras e prontas para o sexo nos primeiros encontros.

Quem é mais motivado pelo sexo sem envolvimento são os homens. Exemplos:

- Muito mais homens do que mulheres compram sexo. Os homens, quando compram sexo, em minutos já vão para cama com as vendedoras.

- Os filmes pornôs voltados para o público masculino apresentam diretamente as práticas sexuais e passam a maior parte do tempo mostrando closes dos atos sexuais, posições sexuais, falas eróticas e gemidos. Os pornôs femininos geralmente começam com  uma história que dá contexto para os atos sexuais. Algo similar se verifica na vida real: mesmo as mulheres que são liberadas e transam no primeiro encontro precisam conversar um bom tempo com o parceiro antes de irem para a cama.

A relação entre excitação e desejo sexual é mais forte para os homens do que para as mulheres.

As medidas de excitação física da mulher (intumescimento, lubrificação, alargamento e alongamento da vagina, etc.) são bem menos relacionadas com a intensidade do desejo que elas relatam do que as relações entre as medidas de excitação dos homens (relação entre ereção e desejo) e a intensidade do desejo que eles relatam. O desejo da mulher, portanto, é mais complexo e depende de vários fatores psicológicos e não apenas de excitação física.

Transar nos primeiros encontros diminue as chances de namoro

O sexo, quando acontece nos primeiros encontros, tanto pode melhorar quanto pode prejudicar as chances de o relacionamento ir em frente. Melhora quando os parceiros não são preconceituosos e a química sexual foi muito  boa. Neste caso, o sexo serve para ligar os parceiros. No entanto, existem evidências de que, na maioria dos casos, o sexo nos primeiros encontros diminui as chances de namoro. O adiamento do sexo aumenta a motivação para realizar vários tipos de atos que aumentam as chances do envolimento e comprometimento entre o casal. Esses efeitos geralmente são mais fortes nos homens já que são eles que estão mais motivados para o sexo desde o início. Alguns dos efeitos positivos do adiamento do sexo no início do relacionamento são os seguintes:

- Faz que eles prestem muita atenção nelas (“Ele só tem olhos para ela”). Essa atenção proporciona uma grande oportunidade para que eles exibam suas qualidades em diversa áreas, o que pode gerar a admiração mútua. A admiração é um dos ingredientes do apaixonamento.

- Faz que eles invistam muito tempo no relacionamento. Esse tempo proporciona as oportunidades para que se instale a afetividade entre os parceiros.

- Esses encontros frequentes aumentam as chances do desarme hábitos incompatíveis com o relacionamento. Por exemplo, os parceiros terão que recusar muitos convites individuais para programas que seriam incompatíveis com o relacionamento (frequentar baladas, sair com outros pretendentes, etc.).

- Esses encontros frequentes geram oportunidades para atos que levam ao comprometimento (apresentação para amigos, parentes, etc.).

Os teóricos da teoria psicobiológica afirmam que os homens temem mulheres que aceitam sexo com facilidade porque elas têm mais chances de trair e ter filhos de outros homens.

Neste caso, os homens que assumem um relacionamento com essas mulheres poderiam investir seus esforços na criação de filhos de outros homens e, por isso, não deixariam descendência.

O grande desejo sexual dos homens pela primeira vez dá poder para as mulheres que não fazem sexo logo de cara

O desejo inicial não satisfeito, turbinado pela novidade do sexo com a nova parceira, dá poder para as mulheres são desejadas, mas ainda não transaram a primeira vez.

Quando um homem sente desejo por uma mulher com a qual ele ainda não transou, isso intensifica várias das suas motivações para outros atos em relação a ela: atenção, gentilezas, admiração. O homem se torna gentil, cortejador, generoso e a cobre de atenções. Mais que isso, esse se derrete por ela: flerta, faz graças, se exibe, tenta agradá-la de todas as formas. Tudo esses atos podem estar sendo motivados porque ele realmente a admira e sente-se romântico com ela ou porque é o seu desejo sexual por ela que está alterando suas percepções e motivando outros comportamentos que são eficientes para seduzi-la. Geralmente a motivação total para esses atos é uma combinação desses dois fatores.

Transar prematuramente produz o medo de perder o poder sobre o parceiro

Quando uma pessoa quer muito algo de outra, esta adquire uma boa dose de poder sobre aquela.

Perder uma boa parte do poder de atração sem antes ter instalado outra base para o relacionamento pode gerar uma situação empobrecida ou o fim do relacionamento. É como contar o fim da historia antes de assistir o filme. Boa parte da sua motivação para assisti-lo fica perdida.

A sociedade é preconceituosa e, por isso, atribui vários tipos de consequências negativas para as mulheres que transam logo no primeiro encontro.

Por exemplo, essa mulher poderá ser rotulada como promíscua e ser considerada perigosa por outras mulheres que temem que ela poderá seduzir seus parceiros.

Muitas mulheres introjetaram as normas sociais e, por isso, sentem-se inseguras e culpadas quando transam no primeiro encontro.

Essas mulheres, quando transam logo nos primeiros encontros, poderão se sentir com alguém que fez algo muito inadequado e vergonhoso, tal como revelar segredos de amigos ou humilhar pessoas que gosta.

Problemas sexuais no relacionamento? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h43

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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