Blog do Ailton Amélio

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29/07/2013

A afinidade produz a mimetização da aparência e comportamentos

“A imitação é a forma mais profunda de elogio”

“Eles são farinha do mesmo saco”

“Eles estão na mesma vibração”

(Ditados populares)

 

Pessoas que estabelecem boas ligações pessoais entre si são similares em muitas coisas, como valores, cultura, nível econômico e atitudes. Por exemplo, a similaridade nesses quesitos é a base do relacionamento amoroso (homogamia) e da amizade (homofilia).

Além disso, em um dado momento, pessoas que estão solidárias, sentindo empatia ou concordando entre si mostrarão vários tipos de comportamentos e posturas semelhantes. Este é o tema deste artigo.

 “Temos algo em comum”

Quando duas pessoas começam a se conhecer e estão interessadas em estabelecer um bom relacionamento pessoal entre si, cada uma delas começa a contar a sua história de vida e se interessar pela história da vida da outra e ficam muito felizes quando encontram coincidências ou pontos em comum.

As seguintes frases ilustram as reações verbais a esse tipo de constatação:

“Ah, você também é mineiro!”

“Que interessante, você também é amiga do fulano”

“Eu também estudei nesta escola!”

“Somos da mesma profissão!”

“Eu também sou vegetariano!”

“Que coincidência! Também adoro rock dos anos setenta!”

Segundo Desmond Morris, famoso etólogo inglês e autor de vários livros traduzidos para o português, as pessoas que querem estabelecer vínculo com um novo conhecido procuram similaridades entre fatos importantes que ocorreram em suas vidas porque a constatação dessas similaridades funciona como substituto para uma história em comum que não houve. A história de vida em comum aproxima e liga as pessoas (amigos de infância, colegas de colégio, etc.).

 

Similaridade na produção

A palavra “produção” tal como é usada neste artigo, é o nome do conjunto de medidas que uma pessoa pode tomar para mudar rapidamente a sua aparência. Essas medidas são tomadas principalmente nas seguintes áreas: vestuário (vestido, saia, calça, camisa), adornos (colares, pulseiras, etc.), artefatos (cinto, sapato, etc.) e tratamento da pilosidade (intervenções na pilosidade de todo o corpo: cabelo, barba, pernas braços, púbis, etc.).

A produção é uma espécie de outdoor ambulante onde cada um anuncia uma porção de coisas: traços de personalidade, afiliação a grupos (militares, punks, religiosos), gênero (roupa de homem e de mulher). Ela também é uma ótima ferramenta para produzir efeitos nas outras pessoas: atrair, provocar admiração, impor distância, etc.

A produção, portanto, é uma ótima forma de mostrar similaridade ou dissimilaridade com outra pessoa em várias áreas. Duas pessoas que compartilham estilos de vida tendem a produzir-se de forma semelhante. Por exemplo, elas apresentam similaridade em seus vestuários, cortes de cabelo e  adornos.

 

Similaridades de comportamentos, posturas e vocalizações

Os comportamentos podem ser alterados em uma fração de segundo. Por exemplo, a voz e a face podem mostrar emoções que duram poucos segundos; você pode dirigir a sua face e os seus olhos para uma pessoa que está falando algo interessante e, logo em seguida, desviá-los para outra pessoa ou para outro acontecimento que atraia a sua atenção; você pode se inclinar para frente e apoiar o seu queixo na palma de uma mão quando está pensativo e, em seguida, aprumar o tronco e levantar os braços para preparar-se para gesticular porque vai começar a falar.

Pois bem, quando estamos sentindo algo parecido como o que outra pessoa está sentindo, quando temos atitudes similares as dela ou simpatizamos e concordamos com o que ela está dizendo, tendemos a mostrar comportamentos similares aos dela. Isso acontece porque sentimentos e atitudes similares geralmente são expressos de forma similar.

A similaridade de comportamentos, posturas e vocalizações ocorrem por três motivos: (1) a exposição de duas pessoas às mesmas situações podem evocar sentimentos, pensamentos e atitudes similares, os quais, por sua vez, tenderão a evocar comportamentos similares. (2) tendemos a copiar os comportamentos daquelas pessoas com as quais simpatizamos ou estamos em sintonia. Essa cópia pode acontecer involuntária e inconscientemente ou deliberadamente e (3) aquilo que outras pessoas estão sentindo nos contagia: podemos experimentar “por tabela” aquilo que outras pessoas estão sentido (experiências vicariantes). Por exemplo, ao assistirmos um filme ou lermos um livro, podemos nos comover até as lágrimas com o sofrimento de um personagem que está passando por uma situação muito difícil.

Essa similaridade de pensamentos, sentimentos e atitudes entre pessoas pode transparecer nos seus comportamentos, posturas corporais e vocalizações. Quando isso acontece, elas mostram comportamentos semelhantes, comportamentos sincronizados, posturas corporais similares e diversos aspectos de suas vocalizações se tornam muito parecidos ou idênticos.

 

Uso da similaridade para avaliar acordo entre pessoas

O grau de similaridade ou diferença entre esses tipos de comunicação podem ser usados para avaliar o grau de acordo, simpatia e identificação que estão acontecendo entre duas pessoas em um dado momento.

Em uma reunião onde está havendo uma divergência entre duas pessoas, Mariana e André, é possível saber quais dos presentes estão tomando partido de cada uma delas. Basta observar quais dessas pessoas estão assumindo posturas corporais similares as de Mariana e quais estão assumindo posturas corporais semelhantes às eu estão sendo mostradas por André. Também é possível que alguns dos presentes estejam assumindo simultaneamente parte das posturas de Mariana e parte de André. Por exemplo, um deles está de braços cruzados como Mariana e com o tronco inclinado para trás como Mariana. Essas pessoas provavelmente não estão concordando inteiramente com nenhum dos dois contentores.

Claro, a similaridade postural não é um critério suficiente para tirar conclusões sobre a similaridade emocional ou de atitudes entre duas pessoas. Por exemplo, ambos podem estar de braços cruzados porque estão com frio e não porque estejam de acordo sobre o assunto que está sendo tratado. Outras pistas podem reforçar ou enfraquecer essa confiança: sorrisos, acenos de cabeça, vocalizações de aprovação, falta de reação quando um deles fala, etc. são outras pistas que devem ser levadas em conta.

 

Estão ou são semelhantes?

Se duas pessoas mostram várias semelhanças comportamentais em um dado momento, dizemos que elas estão sintonizadas ou afinadas naquilo que está sendo tratado ou está acontecendo. Se esses momentos perduram ou são muito frequentes entre duas pessoas, dizemos que elas são semelhantes.

Se além dessas semelhanças comportamentais e posturais também verificamos que elas são semelhantes em outros aspectos (aparência física, produção, valores, nível econômico, etc.) dizemos, então, que elas são “farinhas do mesmo saco”.


Vamos examinar agora, mais sistematicamente, alguns tipos de similaridades comportamentais entre pessoas que, em um dado momento, provavelmente estão em boa sintonia ou estão receptivas ao que a outra está comunicando.

 

Fontes comportamentais de similaridade ou dissimilaridade

As pessoas que estão em harmonia, estão se entendendo ou compartilham a mesma visão das coisas, muitas vezes apresentam vários tipos de similaridades entre si. As principais dessas similaridades acontecem nos seguintes tipos e comportamento:

- Similaridade postural (“ecopostura”, “par de jarros”). Por exemplo, postura das pernas e dos braços, inclinação do tronco e inclinação da cabeça semelhantes as do interlocutor. 

- Isopraxias. Fazer a mesma coisa que a pessoa está fazendo: pedir o mesmo prato, ler, caminhar, etc. enquanto o outro faz o mesmo

- Sincronias de movimentos: mover-se ao mesmo tempo que a outra pessoa: dançar, levar a colher a boca, dizer a mesma palavra, etc. simultaneamente com a outra pessoa. 

- Sincronia voz / movimento. Uma pessoa movimenta-se no ritmo da fala da outra pessoa. Parece, portanto, que uma parte do corpo do ouvinte está dançando no ritmo do som da fala do falante.

- Posição espacial. Duas pessoas adotam disposições espaciais semelhantes: sentado / sentado, em pé / em pé, ambos encostados em uma parede, etc.

- Similaridades vocais. As vocalizações possuem diversos tipos de propriedades. Os seguintes três tipos de similaridades vocais entre dois interlocutores estão entre os mais importantes para indicar afinidades entre eles:

- (1) Similaridade formal: comprimentos de frases, de parágrafos similares ou de pausa são similares; entonações de voz e precisões de articulações similares; etc.

- (2) Vocabulário e construções de frases similares

- (3) Assuntos: gostar dos mesmos temas 

Os graus de semelhança ou diferença na aparência e nos comportamentos de duas pessoas ajudam a avaliar quanto elas compartilham as mesmas atitudes e valores.

NOTA

Este artigo foi postado originalmente com o nome: "Vocês são farinha do mesmo saco ou água e óleo?" Esse título foi alterado para refletir melhor o seu conteúdo.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 07h54

21/07/2013

É fácil e natural iniciar relacionamentos amorosos

Um dos estudos mais convincentes que mostrou que não é necessário fazer nenhuma ginástica mirabolante, conhecer truques infalíveis para conquistar ou possuir qualidades excepcionais para conseguir iniciar relacionamentos amorosos foi realizado, há algum tempo, em uma universidade americana. Este estudo mostrou que simples convites para um encontro, apresentados por pessoas medianas para outras pessoas que elas achavam atraentes, tiveram uma ótima taxa de aceitação!

Esse estudo foi realizado por Russell D. Clark e Elaine Hatfield1, em duas ocasiões, na Universidade Estadual da Flórida. Neste estudo, nove estudantes (cinco mulheres e quatro homens), que eram medianamente atraentes, abordavam estranhos do sexo oposto, que lhes pareciam atraentes e, após uma breve introdução, os convidavam para um encontro amoroso. O sucesso do convite dependeu do tipo de encontro proposto e podia depender do sexo de quem convidava: cerca de 50% das mulheres e homens aceitaram o convite para um encontro (“date”); cerca de 3% das mulheres e 69% dos homens aceitaram o convite ir ao apartamento de quem os convidava e 0% das mulheres e 72% dos homens aceitaram o convite para dormir juntos.

Se os resultados desta pesquisa forem confirmados aqui no Brasil, só ficará desacompanhado quem não apresentar convites para possíveis parceiros amorosos.

Perguntei para meus alunos de uma faculdade aqui de São Paulo se eles aceitariam um convite para um encontro, apresentado por um desconhecido que parecia ter características semelhantes as deles próprios e que não aparentasse ser perigosos. Quase todos os alunos que estavam amorosamente disponíveis disseram que aceitariam tal convite. Ou seja, não é necessário ser excepcionalmente atraente ou dominar técnicas de conquista para conseguir encontros amorosos.

Essa taxa de aceitação ocorre porque as pessoas sentem necessidade de um relacionamento amoroso e tudo que necessitam para aceitar um encontro que possa dar início a este tipo de relacionamento é que o parceiro tenha características semelhantes a elas próprias e mostre interesse(neste caso, o convite)!


Medidas que ajudam e medidas que atrapalham inícios de relacionamentos amorosos

Apesar dessa facilidade natural para iniciar relacionamentos amorosos, algumas pessoas ainda sentem muita dificuldade neste empreendimento. Vou apresentar agora algumas medidas que facilitam ainda mais o sucesso para iniciar este tipo de relacionamento e alguns erros que podem dificultar esse tipo acontecimento.


Duas medidas que aumentam as chances de sucesso para iniciar relacionamentos amorosos

Depois de muitos anos estudando a literatura científica dessa área e ajudando pessoas a iniciar relacionamentos amorosos, cheguei à conclusão que dois dos principais ingredientes aumentam as chances de sucesso para iniciar esse tipo de relacionamento são os seguintes:

1- Relaxa-se e relaxar o parceiro. As chances de sucesso são naturalmente grandes, como mostrou a pesquisa acima. Se ela não está acontecendo com uma pessoa é porque ela está estragando o que teria tudo para dar certo.

Os estudiosos da sexualidade acreditam que o sexo funciona muito bem quando não é atrapalhado. Os problemas sexuais, na sua maioria, seriam causados por uma interferência no funcionamento normal da sexualidade. Na área de relacionamento amoroso acontece algo semelhante: este tipo de relacionamento pode ser facilmente iniciado entre as pessoas. Quando complica, é porque houve alguma interferência que atrapalhou esse evento.

Uma forma de prejudicar o início do relacionamento é causar muita tensão ou não saber atenuar as tensões naturais que já existem nesta circunstância. É natural que existam tensões durante as tentativas para iniciar relacionamentos amorosos. Os principais causadores desta tensão são os seguintes:

- Desconfianças sobre as intenções do desconhecido

- Medo de não impressionar bem a outra pessoa

- Medo de incomodar a outra pessoa

- Medo da rejeição

- Timidez

- Medo da humilhação

- Medo de não conseguir conversar agradável e inteligentemente com a outra pessoa

2- Manter o clima romântico durante o encontro.

No encontro, você não está ali para falar de negócios, discutir política ou se mostrar um experto em nenhum assunto e, muito menos, contar toda a sua vida e falar dos ex-namorados. Você até pode tocar em todos esses assuntos, contanto que não esqueça que quem está ali na sua frente é uma pessoa atraente do sexo oposto. Mantendo isso na sua consciência, o seu cérebro já sabe o que fazer: olhar demoradamente para a pessoa, orientar a frente do corpo na sua direção, inclinar o tronco na sua direção, sorrir, prestar muita atenção no que ela diz. Quando você mantem isso em mente, ao mesmo tempo que você trata de qualquer assunto, a sua comunicação não-verbal continua a enviar mensagens do tipo: estou reagindo a você como a alguém que me atrai. “I can’t take my eyes off you!”


Cinco erros mais comuns que atrapalham inícios de relacionamentos amorosos

1- Escolher parceiros incompatíveis. Escolher um parceiro que tenha um grau médio de atração muito diferente do seu ou que tenha diferenças irreconciliáveis com as suas em algumas características (nível de escolaridade, cultura, valores, etc.)pode inviabilizar o início e o desenvolvimento de um relacionamento amoroso.

2- Escolher parceiros que tenham objetivos diferentes dos seus próprios objetivos. Por exemplo, você quer iniciar um namoro e o parceiro só quer sexo. Esse tipo de diferença pode impossibilitar o início do relacionamento!

3- Pressionar demais o parceiro. Por exemplo, querer beijar o parceiro antes que ele esteja pronto para isso ou pressioná-lo para obter intimidades sexuais.

4- Não conseguir reduzir a tensão do encontro. Ficar muito tenso ou proceder de forma que induza ou não reduza a tensão do encontro pode torná-lo muito desagradável e precipitar o seu fim.

5- Não saber conversar e, por isso, não conseguir estabelecer uma conversa fluente e envolvente.

Você tem muita dificuldade para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos? Procure a ajuda de um psicólogo.

Nota

1- Clark, R. D., & Hatfield, E.  (1989).  Gender differences in receptivity to sexual offers.  Journal of Psychology & Human Sexuality, 2, 39-55.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 09h49

14/07/2013

O apoio psicológico é mais importante do que o apoio material

Claro que o apoio material é importante. No entanto, o apoio psicológico é imprescindível para o desenvolvimento saudável da crinça e do adolescente e a para a satisfação e realização do adulto. Este é o assunto que vamos abordar neste artigo.

Ah, se eu pudesse voltar no tempo...

Está passando uma propaganda na televisão que mostra algo mais ou menos assim: um senhor já avançado em anos, que parece ser muito distinto e abastado, se lastima porque participou pouco do dia a dia dos filhos, quando eles eram crianças e adolescentes. Esse senhor alega que participou pouco porque passava todos os dias fora de casa, trabalhando duro para poder proporcionar uma excelente condição econômica para a família: boa casa, ótimos colégios, viagens, etc. Mas, agora, parece arrependido. Se pudesse voltar no tempo, ele trabalharia um pouco menos e conviveria pouco mais com os filhos!

Recebo no meu consultório muitas pessoas que reclamam que um ou ambos os pais eram ótimos para proporcionar cuidados físicos (pronto atendimento nas doenças, boa comida, proteção contra as oscilações de temperatura, evitação de perigos, etc.) e materiais (excelentes brinquedos, viagens, ótimos colégios, etc.), mas que tomavam pouco conhecimento dos seus sentimentos e pensamentos não eram carinhosos. Os filhos de pais assim geralmente apresentam problemas psicológicos como dificuldade para se envolver afetivamente e são inseguros.

O apoio psicológico na infância e na adolescência é um dos principais fatores que contribuem para uma visão das outras  pessoas como agradáveis, confiáveis, benignas e capazes de oferecer conforto em situações difíceis. Este tipo de apoio também é um dos principais determinantes da percepção de si mesmo como digno de receber essas atenções positivas por parte das outras pessoas.


As crenças e atitudes de um bom apoiador

Um bom apoiador tem atitudes, crenças e valores que guiam os seus comportamentos de apoio.  o bom apoiador acredita no seguinte:

- Existem várias maneiras de sentir, pensar ou de ser que podem ser igualmente boas ou meritórias.

- Cada um tem o direito de optar pela maneira de ser e agir que mais lhe agrada e responsabilizar-se por ela.

- Confiança na capacidade de autogerenciamento das pessoas. Elas têm a capacidade de gerir suas próprias percepções e ações e se responsabilizarem por elas. Por isso, não preciso tentar impedi-las de agir de forma errada ou que vá lhes trazer sofrimento.

- É benéfico para as pessoas que elas desenvolvam suas percepções, sentimentos e pensamentos sobre elas próprias e sobre as situações que têm que lidar. Durante esse desenvolvimento, muitas vezes, elas cometerão erros. O preço desses erros é menor do que aquele que seria pago por não desenvolver essas capacidades. Por isso, as pessoas têm que usar seus próprios critérios de decisão, agir, sofrer as consequências e aperfeiçoar os critérios de decisão que usaram.

Os pais devem estimular os filhos para desenvolverem suas próprias análises e testes da realidade. O objetivo final é torná-los independentes e responsáveis pelas suas próprias análises, critérios e ações.  “É melhor ser um mau original do que uma ótima cópia”. (Afirmação atribuída a Raul Seixas).

- O apoiador tem que acreditar que o interlocutor tem direito ao seu modo de pensar, sentir e reagir e que é melhor para este desenvolver esse tipo de autonomia.

- O apoiador tem que gostar mais do apoiado do que aquilo que ele próprio acredita que seria mais “correto”, “mais racional” ou “mais eficaz”. Quando o apoiador avalia que aquilo que o apoiado quer fazer não é a melhor opção, ele deve calcular se este vai ficar mais feliz se agir da forma que este pretende ou se agir e errar vai ser útil para o seu aperfeiçoamento ou ainda, se este quer agir daquela forma apesar de todas as considerações em contrário. Neste caso o apoiador deve oferecer o seu apoio para as decisões do apoiado e não cobrá-lo por não ter seguido seus conselhos quando as coisas derem errado. Ou seja, importa mais o bem estar do apoiado. Se aquilo que ele pensa, quer ou o deixa magoado é correto, razoável ou racional é desejável, mas não imprescindível para receber o apoio.

- O apoiador também tem o direito de não assumir consequências por decisões do apoiado.


Ouvir sem dirigir o interlocutor é um excelente tipo de apoio

Ouvir interessadamente, sem dirigir o que o interlocutor está relatando, sem aconselhar e sem dar palpites pode produzir excelentes benefícios para pessoas que estão passando por momentos difíceis. Ao mesmo tempo em que ouve a queixa, o apoiador deve mostrar empatia e envolvimento com o está sendo relatado. As principais medidas para ouvir dessa forma as seguintes:

- Apresentar ecos emocionais ao que o relator está expressando: apresentar emoções, expressões faciais e pequenos comentais verbais que reflitam as emoções do relator e não interrompam ou dirijam o seu relato (“Quer horrível”, “Nossa!”, “Puxa!).

- Deixar de fazer e prestar atenção em outras coisas.

- Assumir uma posição que indique que tem tempo para ouvi-lo: convidá-lo para sentar-se, fechar a porta, encostar-se em uma parede, etc.

- Mostrar interesse pelo que aconteceu, pelo que o interlocutor pretende fazer diante do acontecido, pela forma como se sentiu, pela forma como pretende reagir.

- Se necessário, apresentar feedback sobre a forma como agiria ou sobre percepções do ocorrido que difiram das percepções de quem está sendo apoiado.


Exemplo de diálogo contendo um desabafo e sua recepção apoiadora

D – Apresenta o desabafo.

O – Ouve o desabafo

Meus comentários estão entre colchetes  [  ]

Diálogo

D - Estou furiosa.

O - O que aconteceu? [Pergunta induzida pela frase anterior. O ouvinte, por exemplo, não se sente à vontade para dizer “Que bonito brinco!” Mesmo que o diga (se o brinco for excepcionalmente bonito), ele se sentirá compelido a dizer em seguida, “Porque você está furiosa?”]

D- Meu ex-marido tratou pegar a filha para passar o fim de semana com ele e deu cano!

O - Deu cano? [Pede para expandir uma afirmação]

D- Sim. Ele sempre faz isso. Ele cria este tipo de expectativa para ela, não cumpre e depois ela fica chorando.

O - que chato! [“Empatiza” – mostra um sentimento similar ao de quem desabafa] E você como está se sentindo? [Mostra interesse pelos sentimentos para ajudar a pessoa a continuar a desabafar]

D- Revoltada! Eu ainda vou aprontar com ele.

O - É? O que você pensa em fazer? [Incentiva D a apresentar a sua raiva e planos para dar vazão a ela]

D- Da próxima vez que ele se atrasar, vou sair com ela. Ele sempre foi assim, irresponsável. Ele também está com a pensão atrasada. Vou processá-lo.["O" apresenta cara de pesar  e lábios comprimidos - empatia ]. A pensão também está atrasada? [Incentivo para que D fale mais sobre esse assunto].

D - Sim. É um canalha. Dá vontade de matar aquele desgraçado. [De não responde à pergunta. Prefere continuar a expressar a sua raiva]

O - Entendo a sua raiva. Eu também pensaria coisas assim [Empatiza: apóia o sentimento raiva. Diz que reagiria da mesma forma - Informação gratuita]. 

D – Não dá nenhuma satisfação. [D apresenta resposta mínima. Pode indicar que não está interessada neste tópico]

O - E a filha, como reage quando ele se atrasa? [Mesmo comentários sobre a atuação de O, na pergunta anterior]

D- Fica muito triste e frustrada. [D apresenta resposta mínima. Pode indicar que não está interessada neste tópico]

O - O que pega mais você, o atraso ou os efeito na filha?

Quem está desabafando exagera, promete o inferno, xinga, ameaça, faz planos terríveis de vingança. Depois que ele se acalma, as suas reações retomam proporções mais realistas. Se a pessoa transtornada é acolhida adequadamente, o transtorno passa mais rápido. 

 Um dos maiores ganhos proporcionados pelos relacionamentos íntimos é o apoio psicológico. Eu me arriscaria a dizer que, dentro de certos limites, este tipo de apoio é mais importante do que o apoio material. As pessoas podem desenvolver um bom equilíbrio psicológico em diversas situações econômicas, mas dificilmente serão equilibradas em qualquer uma delas se não receberem um mínimo de apoio psicológico. 

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 08h29

06/07/2013

A escolha do parceiro adequado é um passo crucial na relação amorosa

A escolha de um parceiro amoroso adequado vai facilitar o início e o desenvolvimento do relacionamento, contribuir para ele que seja mais satisfatório e dure mais tempo.

As pessoas possuem certas características que são muito difíceis de mudar. Por isso, a escolha de um parceiro inadequado poderá produzir uma fonte contínua de insatisfação enquanto o relacionamento durar — e ele pode durar uma vida toda.


O amor é míope

O amor é míope, e o casamento, um bom par de óculos

Muita gente acredita que o amor é cego. Esta é uma crença errônea. Se o amor fosse cego, ele nasceria indiscriminadamente entre pessoas que possuem todos os tipos de características e, assim sendo, ele seria observado frequentemente entre ricos e pobres, universitários e analfabetos, bonitos e feios, moços e velhos etc.

Muitas vezes não conseguimos enxergar claramente defeitos graves das pessoas que nos atraem, mesmo quando tais defeitos são bastante óbvios para outras pessoas. Muitas vezes até enxergamos tais defeitos, mas subestimamos as suas importâncias, o que também é um tipo de miopia. Tal miopia é registrada em ditados populares do tipo: “O amor supera todos os obstáculos”, “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Esta miopia pode fazer com que nos apaixonemos por pessoas altamente inconvenientes para nós.

O grau de miopia amorosa varia muito. Algumas pessoas são quase cegas, outras têm um grau moderado de visão e outras, ainda, enxergam perfeitamente nesta área. A miopia amorosa pode ser consideravelmente corrigida. As pessoas podem aprender a escolher melhor os seus parceiros.

Se a cegueira não é a regra que rege a escolha de parceiros, quais seriam as regras? Neste artigo, vamos ver algumas das melhores respostas que as pesquisas científicas oferecem para esta pergunta.


PRINCÍPIOS QUE REGEM A SELEÇÃO DE PARCEIROS

A seleção de parceiros segue um conjunto de princípios gerais. As pessoas usam estes princípios para deduzir as qualidades que querem e os defeitos que não querem num parceiro amoroso. Vamos examinar agora alguns desses princípios.

O Princípio da Admiração

“A admiração é um requisito para o amor.” (Stendhal)

Segundo Stendhal (Henri Marie Beyle), famoso romancista francês e autor de uma das teorias mais respeitadas sobre o apaixonamento, a admiração é um dos requisitos essenciais para o nascimento do amor. Quando uma pessoa é admirada, isto significa que possui qualidades que o admirador valoriza e gostaria de ter em si ou para si. Segundo a Teoria da expansão do Ego, ter um relacionamento amoroso com uma pessoa admirada é uma forma de incorporá-la, juntamente com as suas qualidades desejadas, ao ego do admirador.  Ou seja, esta é uma forma de o amante adquirir as qualidades admiradas do amado.

Em geral, preferimos um parceiro amoroso que tenha o maior número possível de qualidades e a intensidade máxima de cada uma delas.  Por exemplo, suponhamos que vamos escolher um dentre dois pretendentes, os quais diferem apenas quanto ao grau que possuem de uma determinada qualidade como, por exemplo, grau de beleza. Qual deles seria o escolhido? Quase todo mundo escolheria, sem pestanejar, o mais bonito.

Existem duas restrições que impedem que este princípio seja seguido ao pé da letra por todo mundo:

(1) Tenho que escolher um parceiro que corresponda ao meu interesse amoroso (senão ele não vai topar um relacionamento amoroso comigo).

(2) Tenho que escolher um parceiro cujas características sejam compatíveis com as minhas (para que o relacionamento tenha uma boa chance de dar certo).

Pelo que foi dito acima, poderíamos concluir que aquelas pessoas que não conseguem um parceiro excelente para um relacionamento amoroso ficariam frustradas e que, nos casos em que estas pessoas viessem a se relacionar amorosamente com outro parceiro menos qualificado, este relacionamento não seria baseado na atração, no amor, mas, sim, no conformismo e na resignação por "não ter conseguido nada melhor" ou que "é melhor um pássaro na mão do que dois voando".

Esta conclusão é equivocada: para o nascimento do amor é suficiente que haja semelhanças entre os  parceiros nos atributos mais relevantes para um relacionamento  amoroso. Basta que eles possuam qualidades que sejam mutuamente admiradas e que eles se interessem amorosamente um pelo outro. Em geral, nos apaixonamos por quem é apenas um pouco melhor do que nós em algum atributo que achamos importante. Tais condições são perfeitamente preenchidas por pessoas que estão longe de serem “superparceiras” amorosas.

O Princípio da Homogamia

“Temos algo em comum.” / “Eles são farinha do mesmo saco.”/ “Ela é muita areia para o meu caminhãozinho.”  (Frases populares)

Este princípio afirma que os relacionamentos amorosos têm mais chance de serem iniciados e de darem certo quando os parceiros são semelhantes entre si.

Este é o princípio mais importante da seleção de parceiros. Os estudos científicos vêm mostrando, cada vez mais claramente, que nos relacionamentos amorosos que dão certo (são iniciados mais facilmente, têm um grau maior de satisfação, duram mais etc.) os parceiros são semelhantes entre si em um número muito grande de características.

É relativamente raro encontrarmos casais onde um dos cônjuges seja analfabeto e o outro universitário, um cônjuge com 18 anos e o outro com 70 anos, um cônjuge de 2m de altura e o outro de 1,50m, um cônjuge milionário e o outro paupérrimo etc. Esta raridade de parcerias tão discrepantes indica que na vida real a homogamia é o princípio mais adotado na seleção de parceiros amorosos.

Este princípio vem sendo amplamente confirmado por muitas pesquisas científicas. Por exemplo, algumas destas pesquisas procuram medir o grau de semelhanças entre os parceiros de relacionamentos amorosos que dão certo e de relacionamentos amorosos que não dão certo. Uma das melhores pesquisas deste tipo, que confirma o princípio da homogamia, foi realizada Michael e outros (1994)com uma amostra da população americana que estava começando um relacionamento, já tinha iniciado, mas não moravam juntos, moravam juntos ou eram casado.

O Princípio da Complementaridade

“Os complementares se atraem.” / “Quem é tímido geralmente arranja uma namorada extrovertida.” (Frases populares)

Este princípio afirma que a complementaridade entre certas características dos parceiros contribui para que o relacionamento amoroso entre eles se inicie mais facilmente e seja mais satisfatório e duradouro.

A complementaridade em certas características realmente propicia as condições para que os parceiros possam funcionar como uma equipe, o que aumenta as suas eficácias para atingir objetivos em comum.

A teoria da complementaridade foi apresentada formalmente por Winch (1955). Segundo esta teoria, as pessoas procuram satisfazer as suas necessidades casando-se com parceiros que tenham características que as “complementem”. Quando dois parceiros se complementam em vários aspectos, eles satisfazem várias necessidades mútuas.

Embora esta teoria seja muito atraente, sua comprovação empírica é pequena: as pesquisas realizadas para testá-la não conseguiram mostrar que ela realmente funcionava nas escolhas de parceiros.     

Uma versão mais recente da teoria da complementaridade, formulada por  Robert J. Sternberg, autor de várias teorias sobre o amor e professor da Universidade de Yale está sendo comprovada pelas pesquisas. Segundo esta teoria, as experiências afetivas fazem com que as pessoas desenvolvam histórias a respeito do que é o amor, como o amor deve nascer, como o amor deve se desenvolver e quais os papéis complementares que os amantes devem desempenhar nesta história. Em seguida, as pessoas tentam realizar as suas histórias de amor associando-se com um parceiro que desempenhe os papéis complementares aos seus próprios, previstos em suas histórias de amor. Em outras palavras, geralmente nos apaixonamos por aquelas pessoas que poderão desempenhar papéis complementares aos nossos.

O Princípio das Médias Ponderadas dos Defeitos e Qualidades

“Ninguém é perfeito.” / “Este cara feio deve ser muito rico para conseguir namorar uma mulher como aquela.” (Frases populares)

Este princípio afirma que as pessoas avaliam o grau de atração dos seus parceiros amorosos levando em conta as suas qualidades e defeitos. Nesta avaliação, as pessoas também levam em conta a importância que cada um destes defeitos e qualidades tem para elas.

Se houver uma discrepância muito grande entre os valores médios de atração de duas pessoas, é menos provável que elas iniciem um relacionamento amoroso entre si e, naqueles casos onde este relacionamento é iniciado e progride para um casamento, é menos provável que este seja satisfatório e que dure muito tempo.

O escore de atração de uma pessoa depende dos critérios de cada avaliador: diferentes avaliadores podem atribuir diferentes pesos para cada uma das qualidades e defeitos de um parceiro que está sendo avaliado.

Os critérios levados em conta para selecionar um parceiro amoroso também podem variar de acordo com o estágio do relacionamento. Por exemplo, a beleza pode pesar mais nos primeiros encontros (por exemplo, para tomar a decisão de namorar com uma pessoa ) do que em estágios mais avançados do relacionamento (por exemplo, na hora de tomar a decisão a decisão de casar com a pessoa).

As pessoas não têm muita consciência de que usam tais princípios. Se perguntarmos para as pessoas quais as regras que elas seguem para escolher um parceiro amoroso, a maioria delas terá muita dificuldade para falar sobre isso e poderá, inclusive, negar que siga qualquer regra com esta finalidade.

Problemas graves e duradouros com o parceiro? Procure a ajuda de um psicólogo.

Nota: Este artigo foi baseado no Capítulo 4 do meu livro "O Mapa do Amor", Editora Gente. Este capítulo inclui a bibliografia que embasa as afirmações deste capítulo.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 11h48

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

Histórico