Blog do Ailton Amélio

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24/08/2013

Você se sente como um ET no campo social e amoroso?

Muitas pessoas não confiam nos seus próprios sentimentos, pensamentos e percepções nas áreas social e amorosa. Essas pessoas perdem a espontaneidade para agir, ficam muito tensas e diminuem suas chances de sucesso nestas áreas. Este é o tema deste artigo.


Não confiar naquilo que sente e pensa 

Certas pessoas acham que aquilo elas sentem e pensam são coisas muito discrepantes daquilo que acontece com as outras pessoas e que seriam rejeitadas caso expressassem seus sentimentos e pensamentos. A história de Jordão, que vamos apresentar agora, ilustra muito bem este tipo de autopercepção.

Jordão, o ET social e amoroso

Jordão se sentia muito desconfortável quando estava com outras pessoas. Parecia que ele tinha vindo de outro planeta! Ele imaginava que se mostrasse para essas pessoas como realmente era, como se sentia e pensava, imediatamente seria identificado como um ET e, por isso, seria preso e recolhido em um laboratório ultrassecreto dedicado ao estudo de alienígenas!

Ele observava, com inveja e com sentimentos de inferioridade, como todo mundo parecia sentir prazer ao durante os relacionamentos. Na sua percepção distorcida, todas as outras pessoas agiam espontânea e naturalmente: riam, pareciam sentir prazer com o convívio social e se permitiam dizer coisas que não eram exatamente aquilo que os seus interlocutores desejariam ouvir. Por incrível que pudesse parecer, essa forma de agir das outras pessoas não provocava os desastres que Jordão temia que lhe ocorressem caso agisse da mesma forma. Ele estava sempre tentando adivinhar ou se informar sobre as mil e uma maneiras de agradar as outras pessoas ou, pelo menos, de não desagradá-las.

Para ele, interagir socialmente era uma tarefa das mais árduas. Parecia que ele estava sempre caminhando em um campo minado: tinha que ficar muito atento ao que estava ocorrendo e medir cada um dos seus atos e palavras. Esse esforço para parecer normal o deixava muito tenso e exausto. Por isso, ele procurava evitar reuniões sociais e encontros amorosos. Por outro lado, sentia-se muito solitário, adoraria ter amigos e o seu grande sonho era ter uma namorada.


Não confiar nas próprias percepções


Um estudo conduzido por Charlene L. Muehlenhard, professora da Universidade do Texas, e colaboradores mostrou que os tímidos percebem perfeitamente os sinais amorosos que são apresentados por aqueles que se interessam por eles. O que difere os tímidos dos não tímidos é o grau de confiança nessas percepções sociais: os não tímidos confiam muito mais nas sua próprias percepções desses sinais do que  os tímidos.

É horrível não confiar nas próprias percepções sobre os acontecimentos sociais. Muitas pessoas perderam tanto a confiança nestas percepções ao ponto de invalidá-las como critério para direcionar as próprias ações. Quem chegou a esse ponto acredita que se agisse de acordo com aquilo que percebe seria considerado inadequado e rejeitado. Na imaginação dessas pessoas, se deixassem suas percepções guiar suas ações, elas ofenderiam outras pessoas, provocariam a ira de seus interlocutores, não conseguiram iniciar e manter amizades e, muito menos, iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos.

As principais causas da anulação das próprias percepções como base para agir são as seguintes: baixa autoestima, timidez, inassertividade e a sensação que é mais incapaz do que as outras pessoas para conviver social e amorosamente. Também pode ser, é claro, que essas percepções realmente sejam distorcidas.

 

Psicólogos por necessidade de sobrevivência

As pessoas que acham que aquilo que sentem e pensam não é aceito socialmente e que suspeitam que percebem tudo errado nas áreas social e amorosa tentam aprender conscientemente as regras de conduta e procuram segui-las. Essas pessoas tentam entender como devem se portar para agradar outras pessoas e o que devem fazer para serem bem sucedidas. Ou seja, elas lutam arduamente para se tornarem verdadeiras psicólogas, por motivos de sobrevivência social.

Essas são aquelas pessoas ávidas por conselhos e que são fanáticas por livros, cursos e gurus que vendem produtos que prometem ensinar como criar e manter um bom network, como fazer amigos e influenciar pessoas, como conquistar qualquer um em qualquer lugar e como enlouquecer seus parceiro na cama.

Essas pessoas que duvidam das suas percepções acabam editando tudo aquilo que fazem e dizem para que suas ações estejam de acordo com as regras que aprenderam e que funcionariam melhor do que aquilo que sentem, pensam e gostariam de fazer. Agir assim anula a espontaneidade e acaba produzindo mais danos do que benefícios. A espontaneidade implica em colocar em ação direta e imediatamente aquilo que queremos fazer. Quando perdemos a espontaneidade, os critérios para agir ou deixar de agir são as regras. Para consultá-las, refreamos a ação espontânea e só agimos depois de conferir tais regras. As ações geradas dessa forma têm menos vitalidade e seus coloridos emocionais são atenuados e embaçados.

A base motivacional para agir guiado por regras é outra: não é a expressão do que queremos, mas sim, as ações que as regras afirmam produzirão as melhores consequências ou evitarão as piores.

Aquele cujas ações não são lastreadas em seus próprios sentimentos e pensamentos não se sente como uma pessoa real, mas sim como um ator que age de acordo com um script que não coincide com o seu modo de ser e que foi escrito por outras pessoas.

As pessoas que acham que aquilo que pensam e sentem são coisas inadequados ou insuficientes para que outras pessoas gostem delas ou que as suas percepções sociais não são confiáveis vivem em um inferno psicológico. Esse inferno é ainda mais desagradável quando essas pessoas sentem muita falta de contato social e muita necessidade de relacionamento amoroso.

Depois de muito tempo, de muito sofrimento e de muitos fracassos, uma parte dessas pessoas desenvolve mecanismos para tornar mais suportável a vida apartada do convívio social e amoroso. Muitas vezes elas desenvolvem racionalizações sobre as vantagens da baixa sociabilidade e da vida celibatária ("As uvas estão verdes").

Você se acha um ET no campo social e amoroso? Procure a ajuda de um psicólogo.


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CURSO DE EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE TUIUTI, CURITIBA, PARANÁ, 28 DE SETEMBRO

TERAPIA DE PROBLEMAS AMOROSOS

(Teorias e ferramentas para o tratamento de problemas amorosos)

http://www.utp.br/extensao/busca.asp?txtExpressao=problemas+amorosos&Action=OK


Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 11h37

18/08/2013

Muitos desejos sexuais não convencionais são normais

O que as pessoas fazem na cama é objeto de muita curiosidade, excitação e culpa. Muitas pessoas têm desejos que mantêm ocultos e não realizados porque temem que eles sejam anormais (“parafílicos”), porque sentirão vergonha e culpa caso os coloquem em prática e porque calculam que serão rejeitadas e condenadas por outras pessoas que fiquem sabendo dessas suas predileções. A boa notícia para essas pessoas é que muitas das parafilias agora são consideradas normais.

Neste artigo vamos examinar um pouco da lógica daqueles que tentam classificar como anormais ou anormais as práticas sexuais convencionais e não convencionais. 

O desejo por práticas sexuais procriativas

As práticas sexuais mais excitantes para homens e mulheres são aquelas que podem levar à procriação. Vejamos algumas evidências que confirmam essa afirmação.


Práticas sexuais mais excitantes para homens e mulheres americanos

O livro “Sex in America” (ver a nota 1, no final do artigo) apresenta os resultados e de um estudo realizado com uma amostra representativa da população americana. Esse estudo apontou as seguintes práticas sexuais como as mais excitantes, tanto para homens como para mulheres (havia algumas diferenças nas percentagens entre os sexos):

- Intercurso vaginal

- Ver o parceiro tirar a roupa

- Receber sexo oral

- Prover sexo oral

 

Fantasias sexuais de pós-graduandos brasileiros

Realizamos um estudo sobre as percentagens de incidência de 57 práticas sexuais nas fantasias de 50 pós-graduandos (25 homens e 25 mulheres) de uma universidade da cidade de São Paulo (ver a nota 2 no final deste artigo). Essa pesquisa identificou as seguintes práticas sexuais como as mais presentes nas fantasias tanto dos estudantes homens como das mulheres:

- Tocar/beijar sensualmente

- Ser sensualmente tocado/beijado

- Beijar/acariciar o peito nu do parceiro

- Abraçar e acariciar o pescoço

- Seduzir o parceiro

- Ser seduzido pelo parceiro

- Ver o parceiro despir-se/despir-se diante do parceiro/ despir-se mutuamente

- Masturbar o parceiro

- Ser masturbado pelo parceiro

- Ter os seus genitais oralmente estimulados pelo parceiro (sexo oral).

Mais do que 90% dos universitários, homens e mulheres, relataram que tiveram cada uma das práticas sexuais acima, pelo menos uma vez na vida.

A nossa pesquisa confirmou a tendência das pessoas fantasiarem coisas que preparam ou são atos sexuais procriativos. Nesta pesquisa que realizamos, foram incluídas como opções de respostas várias práticas sexuais que são consideradas como “preliminares” do sexo propriamente dito. Essas preliminares não foram incluídas na pesquisa americana. A nossa pesquisa não incluiu o intercurso vaginal como opção de resposta na lista das possíveis fantasias.

Ambas essas pesquisas, e tantas outras que cujos resultados vêm sendo publicados, mostram que as práticas mais excitantes para a grande maiorias das pessoas são aquelas direta ou indiretamente relacionadas com a procriação.

Outros tipos de prática como, por exemplo, humilhar o parceiro, sexo com animais e vestir-se com roupas do sexo oposto raramente foram consideradas excitantes ou objeto de fantasia.


A bagagem genética favorece o sexo procriativo

A nossa bagagem genética nos predispõem para práticas sexuais que antecedem, preparam e efetivam o sexo procriativo. Ou seja, aquilo que é excitante para grande parte das pessoas geralmente são atos que propiciam o clima adequado para a cópula (beijos, carinhos, carícias), antecedem a cópula (despir-se para o parceiro, ver o parceiro despir-se), estimulam as zonas erógenas para aumentar a excitação (masturbação e sexo oral) e o sexo vaginal.

A simples existência da humanidade é uma prova que o sexo procriativo foi praticado pelos nossos ancestrais. O fato da população do mundo ter crescido é uma evidência que indica que este tipo de prática acontece mais frequentemete do que seria necessário para a manutenção da população. Vários estudos, como os dois resumidos acima, apresentam esse tipo evidência que confirma a preferência pelo sexo procriativo.

Algumas práticas não procriativas funcionam como prato de entrada para o prato principal. Provavelmente, elas também são adaptativas porque preparam os envolvidos para a prática sexual principal, o sexo vaginal.


Diversas funções não reprodutivas do sexo também são normais: recreação, prazer e vincular

O motivo imediato para praticar sexo não é a procriação. Esta é apenas a sua consequência mais remota (causa distal). A causa imediata (“proximal”) mais importante da prática sexual é o prazer que ele proporciona. Aliás, se o sexo não for prazeroso, os órgãos sexuais não funcionam direito (lubrificação, dilatação da vagina, intumescimento, ereção, etc.). Outra consequência mais imediata da prática sexual é a promoção do vínculo entre aqueles que praticaram o sexo. A prática sexual ainda possui muitas outras funções como relaxar, melhorar a saúde e recreacional.

Todos os animais que têm reprodução sexuada não praticam a fecundação com o obtivo explícito de se reproduzirem. Aliás, não é possível imaginar que os animais não humanos tenham consciência da ligação entre sexo e reprodução, queiram gerar filhotes e pratiquem o sexo com esta finalidade. A única exceção a este respeito é o ser humano que eventualmente pode ter a reprodução como a sua principal motivação para iniciar o sexo.

Parece que os animais, principalmente nós humanos, geralmente transamos por prazer. No entanto, a possibilidade de prazer está tão vinculada à fecundação que a maioria dos animais não humanos, ao que tudo indica, só têm desejo e copulam quando estão em seus períodos férteis.

No caso humano, o sexo também serve para solidificar e manter o vínculo. A natureza nos preparou para acharmos o sexo atraente mesmo quando ele não serve para fins procriativos. Por exemplo, a fêmea humana não apresenta transformações corporais, comportamentais e odoríficas quando estão no período fértil que podem ser notadas com facilidade. Elas não apresentam esses sinais no período fértil e somem com eles quando saem deste período, quando o sexo não serve mais para procriar, tal como ocorre em outras espécies de animais. Pelo contrário, os atributos e comportamentos que atraem sexualmente os parceiros foram perenizados na fêmea humana– elas são sexualmente atraentes o tempo todo, durante boa parte de suas vidas, independentemente do fato delas estarem ou não aptas para a fecundação.

A grande maioria das pessoas não saberia dizer se uma mulher está ou não no seu período fértil. A maioria das mulheres também não sabe dizer se elas próprias estão no perído fértil. Para saber isso, geralmente elas têm que calcular quanto tempo já se passou desde o início da última menstruaçao.

Esses fatos indicam que a natureza preparou a nossa espécie para fazer sexo o tempo todo e não só na época do período fértil. Essa perinização dos atributos atrativos é uma forte indicação de que também é natural e funcional fazer sexo por outros motivos, além da procriação.

As parafilias são atrações sexuais por práticas, objetos e pessoas que, se forem exclusivas, não terão a função reprodutiva. No entanto, como elas podem ter outras funções que agora não são mais consideradas anormais, quando acontecem dentro de certos limites. Vamos examiná-las brevemente, agora.


Parafilias 

A parafilia acontece quando o desejo sexual mudou de endereço,

Recentemente a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, de Erika Leonard James, fez o maior sucesso, vendendo milhões de cópias. Essa trilogia apresenta a história de uma estudante de literatura que vai entrevistar um milionário (Christian Grey – cujo sobrenome inspirou o nome da trilogia) para o jornal da faculdade e acaba se tornando sua escrava sexual. Essa trilogia relata as práticas de bondage, sadismo e masoquismo desenvolvidas entre os personagens. Essas práticas sexuais são algumas daquelas que são classificadas como “parafilias”. Já foram classificados mais de 500 tipos de parafilias. Os principais tipos de parafilia catalogados no DSM-IV são as seguintes: exibicionismo, fetichismo, flotteurismo, pedofilia, masoquismo, sadismo, fetichismo transvéstico e voyerismo.

A palavra “parafilia” significa “amor pelo diferente (em grego,  παρά = ao lado e -philia φιλία = amizade). Essa palavra é usada para descrever a excitação sexual intensa por objetos, situações ou indivíduos atípicos.

O que é considerado “atípico” depende da cultura. Por exemplo, na nossa cultura, há algum tempo, a masturbação era considera uma parafilia.

O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) é uma espécie de catálogo internacional de transtornos mentais e de critérios para os seus diagnósticos, A última versão do DSM, a V, considera que as parafilias são práticas sexuais normais. Apenas quando elas causam sofrimento ou prejuízos para o praticante ou para terceiros é que elas são classificadas como “disfunções parafílicas” e exigem intervenções terapêuticas.

As parafilias podem ser classificadas como opcionais (uma maneira alternativa de obter excitação para o sexo convencional), preferidas (a pessoa prefere a parafilia ao sexo convencional) e exclusivas (a pessoa só se engaja na atividade parafílica e não na convencional). Quase todo mundo pratica algum tipo de parafilia opcional e isso é perfeitamente saudável.

Os parafílicos são aqueles que erotizaram objetos, áreas do corpo e atividades que, para a maioria das pessoas, não são nada eróticos ou até aversivos. Como esses objetos e práticas se tornaram excitantes para eles? O que é mais surpreendente é que, em certos casos, essas práticas podem se tornar mais atraentes do que o sexo vaginal e até excluir completamente este tipo de prática!

Se conhecêssemos melhor os mecanismos que tornam algo atraente, poderíamos erotizar a vontade muita coisa. Se conhecêssemos os mecanismos que deserotizam ou que combatem a motivação para certas coisas, poderíamos atenuar ou eliminar a atração por certas coisas que nos prejudicam ou prejudicam a terceiros como a pedofilia.

A sua vida sexual está insatisfatória? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTAS

1- Michael, R. T., Gagnon, J. H., Laumann, E. O, and Kolata,G. (1995). Sex in America. New York: Warner Books. 

2- Chiapetti, N., Silva, A.A., Serbena, C.A. e Hasse, M. (2002). Fantasias sexuais de acadêmicos de pós-graduação. Psico UTPonlinen. 01 (revista eletrônica de psicologia);  www.utp.br/psico.utp.online(acessado em 17/08/2013)

Você tem alguma parafilia e gostaria de ser entrevistado? Mande uma mensagem para o meu e-mail: ailtonamélio@uol.com.br

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 09h43

11/08/2013

O olhar é o sinal romântico mais confiável

"Olhos nos olhos / Quero ver o que você diz (Chico Buarque)

"Can´t take my eyes off you" (Damien Rice)

Você fica mais seguro do amor de uma pessoa quando ela lhe diz “Eu te amo” ou quando ela olha nos seus olhos daquela maneira tipicamente apaixonada? A grande maioria das pessoas diria que este último tipo de demonstração é a mais confiável. Neste artigo vamos apresentar o grande papel que o olhar desempenha no desencadeamento, nas demonstrações e na manutenção dos relacionamentos amorosos.


Muitas coisas podem ser ditas através de um simples olhar ou de um desvio de olhos. Quais são os elementos que fazem que o olhar seja tão expressivo? É interessante notar que o olho em si é uma estrutura relativamente rígida. A única parte do olho que sofre alterações que podem ser conscientemente perceptíveis pelo interlocutor é o diâmetro da pupila. A expressividade do olho, portanto, não acontece porque ele muda notavelmente de formato, de tamanho ou de cor. Boa parte da expressividade do olhar pode ser atribuída aos seguintes fatores:

- Contexto onde ocorre o olhar. Por exemplo, olhar para uma pessoa que está falando tem um significado bem diferente de olhar para uma pessoa que está calada; olhar para uma pessoa que está nos encarando é bem diferente de olhar para um conferencista; fazer contato de olho com uma pessoa cujo olhar está percorrendo todo o ambiente tem um significado bem diferente de fazer contato de olho com uma pessoa que está olhando diretamente na nossa direção.

- Tipo de expressão facial que acompanha o olhar. Por exemplo, fixar o olhar durante uma expressão de alegria é bem diferente do que fixar o olhar durante uma expressão de raiva. O olhar geralmente intensifica a percepção da emoção que está sendo expressa na face de quem olha. Por exemplo, a alegria ou raiva que estão sendo expressas na face são percebidas como mais intensas quando o expressor olha para a face do receptor dessas expressões do que quando ele não olha.

Duração do olhar. Por exemplo, durante um flerte, um olhar que dura mais que três segundos (“fixação do olhar”) tem um significado bem diferente do que um olhar que dura menos que isso. Acima de três segundo significa: “Estou olhando para você por um tempo suficiente para que você perceba o meu interesse amoroso em você”. Abaixo de três segundos tem o significado: "Só estou olhando para ver o que está acontecendo".

Quem interrompe o contato de olhos. Em geral, interromper o contato de olhos é uma espécie de recusa para encarar um assunto, para aumentar a intimidade, para corresponder a um flerte ou um sinal de submissão (quem abaixa os olhos se deixou dominar) ou um sinal de mentira. (Só o corte de contato de olhos geralmente não é uma prova segura de nenhum desses fenômenos).


O contexto ajuda a determinar o significado olhar

Por contexto do olhar deve-se entender tudo aquilo que aconteceu antes, que está acontecendo no momento e que acontece em seguida ao olhar. Estes acontecimentos tanto podem ser eventos sociais (por exemplo, olhar demorado após a receber um toque na mão) como não sociais (por exemplo, um carro que passa).

Olhar durante uma conversa.

É normal olhemos para o rosto de outra pessoa  durante a conversa. Estas olhadas acontecem de acordo com um padrão predefinido que especifica quem olha quem, olha onde e olha quando. Os estudos sobre o olhar duramente uma conversa de natureza não amorosa (amistosa, profissional, etc.) mostraram que o ouvinte geralmente olha mais tempo para o rosto do falante do que vice-versa. Dois destes estudos encontraram resultados similares: o ouvinte olha, aproximadamente, durante 70% do tempo para o rosto do falante e este olha, aproximadamente, durante 40% do tempo enquanto fala (Knapp e Hall 1999). Este tempo que uma pessoa olha na face da outra não é contínuo, mas sim constituído por pequenas fixações que geralmente duram menos que três segundos. Provavelmente essas pequenas durações do olhar seguidas de breves interrupções que fazem com que a pessoa olhada não se sinta encarada.

O falante olha para o rosto do ouvinte com a finalidade de captar as suas reações ao que ele está dizendo, expressar emoções, enfatizar certas informações, etc. Ouvir de acordo com esse padrão é percebido como atenção e interesse no que está sendo dito e não como interesse amoroso.

Quando há interesse amoroso, a pessoa interessada aumenta a percentagem de tempo que fica olhando para o rosto de seu interlocutor, principalmente quando ela está no papel de falante e aumenta a duração de cada olhada (olha por mais que três segundos cada vez), o que faz o seu interlocutor sentir que ela o está encarando. Quando há interesse amoroso, as pessoas também podem captar o olhar da outra (olhar para os olhos do interlocutor por um tempo que é suficiente para que este perceba que a pessoa está fixando os seus olhos).


O olhar aprofunda os relacionamentos

O olhar serve para você manifestar o seu interesse em iniciar novas relações, para esquentar relações que já existem, para manifestar emoções e afetividade e para responder as iniciativas de contato das outras pessoas.

Olhar um pouco mais frequentemente ou um pouco mais demoradamente, do que você costuma fazer, para a outra pessoa durante a conversa contribui para que o relacionamento entre vocês se torne mais calorosos.


A importância do olhar nos relacionamentos amorosos

O olhar é tão poderoso que ele é um dos poucos sinais que indicam interesse amoroso dos quais somos conscientes.

O olhar é importante em todos os estágios de um relacionamento amoroso. Ele é importante para: (1) chamar a atenção de um possível parceiro amoroso, (2) mostrar os primeiros sinais de interesse amoroso, (3) confirmar esse tipo de interesse, (4) negociar a passagem de um relacionamento extra-amoroso para um para um relacionamento amoroso, (5) manifestar e despertar afetos no parceiro durante o namoro e (7) dizer para o parceiro que ele, ou o que ele está dizendo, é muito interessante.


O olhar comunica à distância o interesse amoroso entre desconhecidos

Uma forma muito eficaz de desencadear um relacionamento amoroso é olhar demoradamente para a região dos olhos de uma pessoa, ou seja, encarar tal pessoa. Quando encaramos uma pessoa olhamos para a região dos seus olhos e deixamos que ela perceba isso. Neste caso, a pessoa olhada geralmente olha de volta, pelo menos para certificar-se se está sendo encarada. Quando ela lança este olhar certificador, quem está flertando continua a olhar para os seus olhos.  Este tipo de olhar faz com que a outra pessoa perceba que há algum tipo de interesse por parte de quem está encarando, possivelmente um interesse amoroso. Quando uma pessoa é encarada ela pode corresponder e também encarar a pessoa que a está encarando.


Seguir uma pessoa com os olhos é sinal de interesse amoroso

“Traga mais uma, por favor”, pede o enamorado, apontando para a garrafa vazia de cerveja, com os olhos fixos na companheira, sem sequer olhar para o garçom.

A seguinte história mostra a importância do olhar na manifestação do interesse amoroso.

André programou uma festa na sua casa e Maria era a sua convidada especial. André era muito tímido. Na festa todos sabiam do seu interesse por Maria. Ele não queria dançar com ninguém e ninguém tirava Maria para dançar. No entanto, toda vez que Maria se aproximava dele, ele ficava praticamente mudo ou falava coisas irrelevantes. A única pista que denuncia claramente o seu interesse por Maria era o seu olhar: a qualquer instante que ela olhava na sua direção, lá estava ele estava olhando para ela. Onde quer que ela estivesse, a face dele sempre estava voltada na direção dela. Ele só tinha olhos para ela. (História real. Certos detalhes foram alterados para não permitir a identificação dos personagens).

 

"Só ter olhos para o interlocutor" é um sinal de interesse amoroso

A importância do olhar para indicar o interesse amoroso foi corroborada através de uma pesquisa realizada por Charlene L. Muehlenhard (Universidade do Texas) e colaboradores (1986). Estes autores fizeram uma pesquisa que indicou que as pessoas levam em conta o quanto um parceiro está prestando atenção no outro para julgar se há interesse amoroso. Estes autores filmaram duas cenas nas apareciam uma moça conversando com um rapaz. A cena filmada mostrava também que, durante esta conversa, próximo deles passava um homem ou uma mulher caminhando. O que diferia entre estas cenas era o fato da moça que estava conversando com o rapaz olhar ou não olhar na direção do homem que passava. Cada uma destas duas cenas foi mostrada para um grupo de estudantes universitários. Cada um destes grupos recebeu a incumbência de avaliar as chances da moça que participava da conversa aceitar um convite para um encontro que seria apresentado pelo o rapaz, seu interlocutor. Apenas os  estudantes que viram a cena onde a moça deixava de olhar para o homem que passava avaliaram que tal convite teria grandes chances de ser aceito.


O interesse amoroso demonstrado através do olhar é mais convincente

Um relacionamento amoroso pode se iniciar de muitas formas (convites, declarações de interesse, um beijo durante uma dança, etc.). No entanto, um namoro que é iniciado através de trocas de olhares dá segurança de que há uma atração romântica genuína entre o par e que não se trata apenas de um relacionamento motivado pela conveniência (carência, oportunidade, etc.). Este maior grau de segurança aparece porque é difícil simular um bom flerte através do olhar com alguém que não nos atraia. É muito mais difícil simular um flerte através do olhar do que dizer “Te amo” ou “Quero namorar com você”. O olhar amoroso é um dos sinais mais claros e mais inequívocos de interesse amoroso.

Uma das melhores pistas que indicam o interesse amoroso de uma pessoa A por uma pessoa B é quando a pessoa A “só tem olhos para a pessoa” B.


NOTAS

1- Knapp, M. L. & Hall, A. J. (1999) Comunicação não-verbal na interação humana. (Traduzido do original em inglês por Mary Amazonas de Barros). São Paulo: JSN Editora.

2 Muehlenhard, C. L. e outros (1986). Verbal and nonverbal cues that convey interest in dating: Two studies. Behavior Therapy, 17, 404-419.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 08h27

03/08/2013

Como empurrar o seu parceiro para a traição

A incidência da traição vem aumentando muito. Algumas pesquisas recentes verificaram que mais de 70% das pessoas já traíram pelo menos uma vez na vida. As mulheres, que antigamente traíram menos do que os homens, agora estão se igualando a eles e, talvez, até superando-os nesta atividade.


Causas da Traição

Existem diversos motivos para a traição e para o aumento da sua incidência. Os principais deles são os seguintes:

1- Enfraquecimento das barreiras externas que dificultavam a traição

Atualmente, a sociedade condena muito menos a traição do que há uns trinta anos. Por exemplo, a opinião pública não condena tanto aqueles que perdoam uma traição. A lei não considera mais a traição como crime. A religião perdeu muito da sua influência para regular a sexualidade. As mulheres estão se firmando profissional e economicamente e, por isso, conseguem arcar muito melhor com as consequências da interrupção de um relacionamento provocadas pela traição. Ou seja, as consequências da traição são bem menores agora para homens e mulheres.

2- É natural sentir atração por várias pessoas.

Quando nos comprometemos com alguém não ficamos cegos, surdos, anósmicos e insensíveis ao tato em relação ao charme, sex appeal e carisma de outras pessoas. Só nos comprometemos a não nos deixarmos guiar por esses atrativos. Mas a tentação está lá a todo o momento.

3- Gostar muito de sexo (alto grau de erotofilia).

Esse grande apetite traz muitos benefícios para o relacionamento. Por outro lado, ele também favorece as fantasias e o desejo por outras pessoas.

4- Gostar muito da variação de parceiros.

O desejo por novidade também é conhecido como “Efeito carne fresca” ou “Efeito Coolidge”. Esse tipo de efeito é captado por ditados populares como “A grama do vizinho sempre é mais verde”.

Esse efeito já foi constatado também em outras espécies de animais. Por exemplo, uma nova fêmea revigora uma boa parte do desempenho sexual de um rato que acabou de transar com outra fêmea até a saciedade.

5- Possuir barreiras internas muito fracas contra a traição

Por exemplo, não possuir valores que impeçam o engano do parceiro; não ter consciência das consequências da traição.

6- Estar muito exposto a tentações.

Por exemplo, ter contato continuado com possíveis parceiros atraentes no ambiente de trabalho. Outro exemplo: possuir muitos atrativos que provoquem o assédio por parte de possíveis parceiros atraentes.

7- Ter um relacionamento insatisfatório com o parceiro

Muitas pessoas têm um relacionamento altamente insatisfatório com o parceiro: acontecem muitas brigas, recebem pouca consideração, pouca amizade e cumplicidade, quase nada de romance e quase não há atração sexual mútua. Quando isso acontece, não é nada surpreendente que apareçam as traições. Essas pessoas perderam boa parte dos motivos para permanecerem leais aos parceiros e se tornam muito vulneráveis quando são bem tratadas por outros possíveis parceiros.

8- Ter um relacionamento sexual insatisfatório com o parceiro

Esse tipo de insatisfação produz motivação direta para a busca da satisfação sexual em outro lugar.

Um único desses oito motivos pode ser suficiente para que ocorra a traição. No entanto, o mais comum é que vários motivos contribuam para sua ocorrência. Neste artigo, vamos examinar essas duas últimas causas da traição porque elas dependem de quem vai ser traído! 


Como o mau relacionamento e o sexo insatisfatório empurram o parceiro para a traição

Vamos apresentar aqui algumas das principais maneiras de desenvolver um mau relacionamento com o parceiro e de deixá-lo bastante carente na área sexual.

1- Trate mal o parceiro.

Um relacionamento é agradável quando segue a regra 5 X 1: leve cinco unidades de coisas boas para o parceiro para cada unidade de coisa ruim (John Gottman). Para empurrar o seu parceiro para a traição inverta essa regra: leve mais coisas ruins do que boas para ele. Por exemplo, deixe de admirá-lo. Desinteresse-se do que ele anda sentindo e pensando. Deixe de mostrar que se orgulha dele.

2- Deixe de tratar o seu parceiro como alguém que desperta o seu romantismo e desejo sexual e passe a tratá-lo como um amigo assexuado.

Só mostre desejo sexual por ele na hora de transar. Só mostre aquele tipo de desejo que vem da necessidade sexual e não aquele desejo que é provocado pelos atributos do parceiro. Este tipo de tratamento vai fazer que o seu parceiro também só a veja como uma colega ou amiga, mas aquela colega de trabalho....

3 - Deixe seu parceiro sem sexo por muito tempo.

Esse procedimento vai ter duas consequências no parceiro: (1) vai fazer que ele fique subindo pelas paredes de tanto desejo e (2) vai fazer que ele tente conquistar outras pessoas para testar e melhorar sua autoestima e afastar as duvidas sobre o próprio desempenho sexual.

Ele vai começar a pensar em sexo o tempo todo, vai começar a investir o seu tempo para agradar e atrair pessoas sexualmente atraentes e vai começar a considerar que não é tão grave assim uma traiçãozinha sem consequência.

Além disso, ele vai concluir que você não gosta dele, não tem atração por ele, que ele não é atraente e que deve ser muito mau de cama. Uma maneira de checar se tudo isso que ele está pensando é verdade é tentar conquistar outra pessoa para testar sua competência sexual e melhorar sua autoestima.

É incrível como muita gente passa um tempão sem transar com o parceiro e espera que, mesmo assim, ele se mantenha fiel.

4- Não traga nenhuma novidade para a cama.

Você faz todo o dia tudo sempre igual? Pois bem, o cônjuge pode ir buscar lá fora a novidade que está faltando em casa.

Em parte, esse efeito é inevitável. Transar com o mesmo parceiro por anos em seguida tira boa parte da novidade.

Boa parte das reações de um desconhecido é vista como novidade. Por exemplo, a sua satisfação, admiração e prazer são com aquilo que você está dizendo são novidades. Conquistar e seduzir um novo parceiro é excitante e melhora a autoestima.

Por outro lado, creio que um mesmo casal pode estar sempre experimentando novidades em diversas áreas do relacionamento, inclusive na área sexual. O maior segredo para conseguir isso é deixar que as nossas variações naturais de motivação, emoção e objetivos sejam trazidas para o relacionamento. Só isso já introduz um ótimo grau de imprevisibilidade no relacionamento. Não é necessário programar variações, ler livros sobre como enlouquecer o parceiro na cama ou ir frequentemente ao motel.

A boa regra a ser seguida é: “Prefiro errar um pouco do que corre o risco de abafar o que sinto e penso”.

5- Nunca frequente alguns dos círculos de relacionamento do seu parceiro.

Muita gente nunca compareceu a certos círculos de relacionamento do parceiro. Por exemplo, certas pessoas nunca foram ao local de trabalho do parceiro e não conhecem pessoalmente os seus colegas. Quando há um isolamento desse tipo, o parceiro pode desenvolver uma identidade que não inclui o fato de estar comprometido. Essa ausência também poupa os colegas de ter que mentir para acobertá-lo quando o parceiro traido está presente.

O comparecimento a estes locais de relacionamento do parceiro ajuda a “queimar o filme” do parceiro diante de outros possíveis interessados. Abraçar e beijar o parceiro na frente de outras pessoas faz que os interessados fiquem em uma posição humilhante e nas sombras. Eles terão que disfarçar o que sentem e engolir em seco. Isso estraga o clima que tinham com o parceiro mesmo quando o cônjuge que seria traído não está mais presente.

6- Traia e aumente as chances de ser traído.

“Fez comigo, vou fazer de volta”. “Se ele tem direito, também tenho". "Sinto-me muito mal em uma situação onde tenho menos direito que a outra parte". "Sinto-me bobo e submisso aceitando isso.”

Uma enquete recente com pessoas traídas revelou que uma quatro das mulheres que traem são motivadas pela vingança e pelo princípio da justiça. Um dos princípios que rege os relacionamentos é o dos direitos iguais. Se uma pessoa se dá ao direito de fazer algo o seu cônjuge sentir-se-á lesado e bobo se não se der o direito de fazer o mesmo. Não reparar esse tipo de situação manterá aquela sensação de estar tolerando algo que não devia. Uma situação assimétrica no campo dos direitos e deveres dos parceiros geralmente baixa a autoestima daqueles que se sentem diminuídos com essa assimetria ou que estão tolerando este tipo de situação.

Você está empurrando o seu parceiro para a traição e não consegue parar? Procure a ajuda de um psicólogo.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações e reservar a sua vaga.

Por Ailton Amélio às 11h42

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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