Blog do Ailton Amélio

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27/10/2013

Não deixe o seu amor morrer

Uma estatística inglesa recente (2011 - ver a citação na nota que está no final deste artigo) sobre os motivos da separação chamou a minha atenção. Segundo essa estatística, o “Afastamento / deixar de amar o parceiro” foi o motivo mais frequentemente citado (27%) para a separação, superando os casos de traição (25%). Até então, a traição vinha sendo identificada por muitas pesquisas internacionais como a principal causa das separações.

Aqui estão os cinco motivos mais frequentes encontrados por esta pesquisa inglesa e as respectivas percentagens de pessoas que citaram cada um dos motivos:

1- Afastamento / Deixar de amar (Growing apart / falling out of love): 27%

2- Traição (Extra marital affair): 25%

3- Comportamento irrazoável (Unreasonable behaviour): 17%

4- Crise da meia idade (Mid-life crisis): 10%

5- Abuso emocional / físico (Emotional / physical abuse):  6%

A soma desses cinco motivos perfaz um total 85% das causas das separações citadas nesta pesquisa.

O objetivo desse artigo é apresentar os principais fatores que levam ao esfriamento do amor (“Afastamento / Deixar de amar”). Esses fatores foram identificados por diversos estudiosos e autores desta área. Também observei no meu consultório vários desses fatores e a forma como eles operam.


Como matar o seu amor

Para matar o seu amor:

a- Faça o contrário do que você fazia quando quis conquistá-lo:

- Despreocupe-se em se fazer admirar (deixe de agir de forma admirável)

- Deixe de fornecer esperanças para o seu parceiro de que o que ama romanticamente. Por exemplo:

            - Deixe de se cuidar

Descuide do seu físico

            Descuide da sua produção (vestuário, pilosidade, adornos, etc.). 

b- Deixe de apresentar comportamentos românticos e sensuais para o seu parceiro.

Exemplos: deixe de olhá-lo romanticamente nos olhos; deixe de dizer "te amo"; deixe de ligar para ele e dizer: "Liguei só porque me deu vontade de ouvir a sua voz".

c- Torne-se totalmente previsível (“Todo o dia, ela faz tudo sempre igual”). (Este item será expandido logo abaixo).

d-  Deixe de expandir o eu do seu parceiro (este item será expandido mais abaixo).

e- Deixe de ser agradável

Deixe de apresentar cinco unidades de coisas boas para cada unidade de coisa ruim (o famoso 5x1 de John Gottman). Além disso, torne-se severo com o seu parceiro: deixe de aceita-lo incondicionalmente. Aceitamos alguém incondicionalmente quando a nossa prioridade não é a razão, ou a lógica, mas, sim, o bem estar desse alguém.

f- Deixe de mostrar quão comprometida com ele você é.


Como transformar o seu relacionamento amoroso em amizade

Deixe de acentuar os seus sinais de gênero quando estiver na presença do parceiro. Todos nós podemos calibrar, até certo ponto, a nossa feminilidade ou masculinidade (por exemplo, falar mais grosso ou mais fino, mostrar-se mais decidido ou mais tateante, acentuar movimentos de ombros ou de quadris, etc.). Você quer virar apenas um amigo do seu parceiro? Então deixe de acentuar seus sinais de gênero e assuma atitudes e comportamentos de quem não vê o outro como alguém atraente para fins amorosos, mas apenas para conversar sobre coisas práticas ou teóricas.

Deixe de flertar com o parceiro. Não fique olhando nos seus olhos e na sua boca. Não se mostre afetada e derretida. Preste atenção apenas nos assuntos que estão sendo tratados e no ambiente.


Como tornar-se um parceiro amorosos desvitalizado

Uma maneira segura de você ficar chato e perder a atenção do parceiro é a adoção seguintes medidas:

- Faça sempre o que deu certo nas outras vezes que você lidou com ele e não se arrisque a agir de forma diferente

- Só aja para agradar o parceiro. Fique atenta para o que ele quer e prontifique-se a atendê-lo. Viva só em função do parceiro.

- Deixe de mostrar variação. Padronize os seus comportamentos.   

- Não tome iniciativas. Siga o que o seu parceiro indicar. Não discorde dele, deixe que ele tome todas as iniciativas e proponha todos os programas.

- Na dúvida, aja como sempre agiu e deu certo.

O nosso cérebro é programado para tirar do foco da atenção e colocar no automático tudo aquilo que é repetitivo, conhecido e seguro. Mesmo as coisas importantes vão para o automático. Portanto, repita, repita, repita.......e faça que ele deixe de prestar atenção em você!

Não gostamos de assistir o mesmo filme ou de ler o mesmo livro muitas vezes. Não gostamos de ouvir pela enésima vez a mesma história. Porque gostaríamos, então, de uma pessoa que é repetitiva, previsível, rotineira?


A variabilidade é natural do ser humano

Você não precisa dar tratos a bola para introduzir variações na sua vida e na forma de se comportar. Não é necessário ir a motéis, transar em locais diferentes da casa, contratar uma garota de programa ou convidar um casal de amigos para apimentar o sexo. Se qualquer dessas coisas lhe agrada, tudo bem, mas elas não são necessárias para que a sua vida tenha um bom grau de variabilidade. Para variar, basta expressar um pouco mais as suas varições naturais!

Somos naturalmente variáveis. As nossas motivações mudam continuamente. Durante um único dia variamo muito: em alguns momentos estamos com fome e só pensamos em comida. Em certos momentos nos sentimos românticos e, em outros, as coisas práticas da vida tomam conta da nossa atenção. 

O que é necessário é que você fique atento para os seus estados de espírito, emoções e motivações que estão continuamente mudando e deixe o seu parceiro conhecer um pouco o que se passa com você. Pronto! Você já está variando e ficando interessante!

Certas pessoas deixaram, durante muito tempo, de se guiar pelo que sentiam e pensavam e isso fez que elas "desligassem" os sensores para saber o que pensam e sentem agora. Estes são os casos mais graves daquelas pessoas que ficaram monótonas e que afirmam coisas como “Não me importo muito com os programas. Quase tudo me interessa!”, “O que ele decide está bom para mim”, “Não sou atraído por muitas coisas na vida”!


Expansão do eu

Algo “expande o nosso eu” quando nos leva ao crescimento psicológico: amplia a nossa capacidade de percepção; permite que compreendamos de forma diferente algo importante; amplia a nossa coragem para enfrentar situações relevantes; faz que modifiquemos a nossa autoimagem, etc.

Algumas pessoas estimulam a expansão do nosso eu. Quando, além disso, essas pessoas apresentam outros requisitos (atração romântica e sexual e uma boa dose de compatibilidade conosco) tendemos a nos apaixonar por elas. Se elas continuarem a expandir o nosso eu, tendemos a permanecer apaixonados por elas: os expansores do eu contribuem para o nascimento e fortalecimento do amor.

Um estudo nesta área verificou que casais que faziam programas que contribuíam para a expansão do eu se sentiram mais unidos e amorosos do que aqueles que simplesmente faziam o que gostavam e já conheciam. Ou seja, tendemos a nos ligar de uma forma especial a pessoas cuja companhia e apoio incentivam a nossa exposição a situações que provocam a expansão dos nossos limites e fronteiras psicológicas.

O seu amor está morrendo? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA: Artigo onde foram publicadas as estatísticas sobre os motivos da separação dos inglêses: 

http://www.grant-thornton.co.uk/en/Publications/2011/For-richer-for-poorer-Matrimonial-survey-2011/ (acessado em 26/10/2013)

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações.

Por Ailton Amélio às 08h42

20/10/2013

A face é uma central de emissão e recepção de informações

A face é parte do corpo que recebe as maiores atenções. Geralmente quando uma pessoa é mostrada pela mídia (TV, cinema, jornais, revistas, etc.) a sua face sempre aparece em destaque. Para se ter uma ideia disso, basta ligar a televisão e ver os enquadres: quando só uma parte do corpo aparece no vídeo, esta parte geralmente é a face: ela quase sempre é a última coisa a ser cortada. Muitas vezes até um pedaço do couro cabeludo ou do queixo não é mostrado no vídeo, o que representa um esforço para mostrar o máximo possível da região da face, que vai da boca até a testa.  O mesmo pode ser observado nas fotos, sejam elas tiradas pelas pessoas comuns ou por profissionais, como aquelas que aparecem nas revistas e nos jornais: a face geralmente é mostrada. A omissão de outras partes do corpo ocorre exatamente para que a face seja vista melhor. A face só não é prioridade quando o tema trata exatamente de outras partes do corpo como, por exemplo, os novos seios siliconados de uma modelo ou os músculos de um ídolo do cinema. Mesmo nestes casos, raramente a foto deixa de mostrar a face daquele que está sendo citado.

 

A face se destaca do fundo e atrai as atenções

A face pode ser percebida mesmo quando está inserida no meio de uma grande quantidade de outros objetos. Naqueles jogos do tipo “encontre o objeto perdido”, a face geralmente pode ser facilmente encontrada, mesmo quando está disfarçada dentro de um emaranhado de outros objetos. Vários estudos mostraram que uma pessoa pode ser reconhecida pela face mesmo quando poucas informações sobre ela são exibidas. Estes estudos reduzem as informações através da diminuição do contraste entre ela e o fundo ou através de programas de computador que controlam a quantidade de informações apresentadas. Uma pessoa também pode ser reconhecida pela sua face mesmo quando distorções são introduzidas, como acontece nas caricaturas.

Existem vários motivos para orientar a própria face para a face do interlocutor durante uma conversa. O emissor das comunicações dirige a sua face para o receptor para que este possa captar melhores os sinais que ele está emitindo. O receptor dirige a sua face na direção do emissor para posicionar melhor os seus órgãos captadores para receber as informações que estão sendo apresentadas pelo emissor. Durante as conversas, olhamos uma boa parte do tempo para a face do interlocutor. O ouvinte olha a face do falante para entender melhor o que ele está dizendo (pode ver os seus movimentos labiais e os seus ouvidos ficam dirigidos da melhor forma possível para captar os sons que estão sendo emitidos pelo outro) e captar os seus marcadores faciais, as expressões de emoções, os emblemas faciais, os sinais faciais que indicam como está se sentindo momento a momento em relação ao tema, se quer continuar com a palavra, etc.  Boa parte desses tipos de informações vai aparecer no rosto de quem está falando.

Outro motivo para fixar a face é o tabu que existe sobre a fixação de outras partes do corpo. Durante as conversas, geralmente olhamos para a face do interlocutor. É tabu fixarmos outra parte do seu corpo, como um decote ou entre as suas pernas. Só olhamos para estas outras partes quando existe um motivo especial (por exemplo, mostrar um ferimento ou os efeitos de um xampu nos cabelos) e, assim mesmo, se não for uma região tabu.

 

A face é uma central de emissão e recepção de informações

A face funciona como uma espécie de central multimídia, tanto para a emissão como para a captação de informações. (Veja o livro citado na nota, no final desse artigo). Na face estão localizados vários tipos de recursos que podem ser usados para emitir informações: conformação óssea da cabeça e rosto, cor e estado da pele, expressões faciais, olhar, dilatação e contração de pupila, produção de sons. Na face e adjacências também estão situados vários órgãos especializados em captar esses tipos de informações: orgãos especialisados na visão, audição, olfação, tato, paladar, recepção de calor, etc. Os olhos, além servirem para a recepção de informações, também comunicam muito!

 

Unidades de ação

Os sinais rápidos são produzidos principalmente através da ação muscular. A ação muscular produz alterações em áreas faciais. Paul Ekman e seus colaboradores procuraram determinar quantas áreas faciais podiam se mover independentemente ("unidades de ação"). Estes autores verificaram que algumas ações musculares podem produzir mais que uma unidade de ação e vários músculos podem produzir apenas uma destas unidades. Todas as expressões faciais podem ser descritas através destes movimentos constituintes. Foram determinadas 46 Unidades de ação: vinte e três de cada lado do rosto.

 

Duração dos sinais faciais

Os sinais faciais podem ser classificados de acordo com suas durações, em fixos, lentos, rápidos e artificiais.

Fixos – aqueles que se alteram muito pouco durante a vida (a aparência da pessoa nos informa sobre sua identidade, raça, sexo – ver o capítulo sobre a aparência). Muitos destes sinais são de origem genética: formato das sobrancelhas, tamanho dos olhos, espessura dos lábios. Cada um destes tipos de sinais é informativo sobre certos tipos de informações (raça, idade, personalidade, etc.)

Lentos – aqueles que se modificam com a idade (rugas, flacidez, etc.).

Rápidos – aqueles que podem ser alteradas frações de segundo através da produção ou da ação muscular, (movimentos musculares, ruborização, empalidecimento, sudação).

Artificiais- Aqueles produzidos por alterações de sinais através da maquilagem, ou de intervenções que produzem alterações duradouras ou permanentes como as cirurgias.

Os sinais fixos, lentos e artificiais não produzem as expressões faciais. No entanto, existe o risco desses sinais serem confundidos com expressões. Por exemplo, uma ruga na testa que surgiu devido à idade, pode ser confundida com uma parte da expressão de surpresa produzida pela ação muscular rápida. Por este motivo, para julgar o que uma pessoa está expressando é necessário saber quais sinais fazem parte da face quando esta está em posição usual (esta não deve ser confundida com a sua posição relaxada).

 

A face é multimensageira

 A face contém ou pode apresentar diversos tipos de informações como, por exemplo: identidade pessoal, informação demográfica (raça, gênero, idade, etc.), emoções, emblemas (expressões que podem ser substituídas por uma palavra ou uma frase. Por exemplo, dar uma piscadela para significar “Estou mentindo”). Marcadores: expressões que acompanham a fala e que funcionam para marcar o seu ritmo e sublinhar ou ilustrar o que está sendo dito (Por exemplo, usar movimentos de sobrancelhas para acompanhar o ritmo da fala). Reguladores: expressões e gestos usados para regular o fluxo da fala entre os interlocutores.  (Por exemplo: fazer uma cara de interrogação quando o interlocutor fala algo duvidosos para leva-lo a fornecer mais explicações).

A face é multirreceptora

Em nenhum outro lugar do corpo existe uma concentração tão grande de órgãos receptores especializados em diferentes sentidos como na face humana: visão, audição, olfato, paladar, tato, calor, etc. Esses diferentes “órgãos dos sentidos” são usados para captar informações.

 

Pistas contextuais que ajudam a interpretar expressões faciais

Pistas do contexto ajudam a interpretar as expressões faciais de emoções. Estas pistas contextuais são tudo aquilo que veio antes ou está presente no momento que a expressão está sendo exibida. Por exemplo, fotos tiradas de pessoas que estão em uma montanha russa podem ser julgadas facilmente como mostrando sinais de alegria e medo. O julgador usa as informações que possui sobre o que as pessoas sentem neste tipo de situação e as suas expressões faciais para julgar as emoções que elas estariam sentindo.

Certas expressões faciais não necessitam destas pistas contextuais para que seus sinais sejam decifrados. Este é o caso, por exemplo, das expressões das sete emoções básicas e de vários emblemas faciais (descrença, ficar boquiaberto ou de queixo caído, etc.).

 

Expressões faciais de emoções

A face e a voz são os melhores expressores de emoções. As sutilezas dos sentimentos podem ser detectadas através da face. Através do corpo é possível detectar apenas a intensidade da emoção e alguns outros tipos de informações. A face e a voz, no entanto, possibilitam determinar qual emoção ou combinação de emoções uma pessoa está sentindo.

A importância das expressões de emoções

Porque é importante saber o que o interlocutor está sentindo e porque é importante expressar as nossas próprias emoções? Saber que emoção nós mesmos e nossos interlocutores estamos sentindo é muito importante em um relacionamento. Perceber o que uma pessoa está sentindo ajuda prever o que ela vai fazer como, por exemplo, os temas de conversa que vai tratar e como agirá em relação ao interlocutor ou em relação a outras situações. Também é importante entender aqueles casos onde as emoções do nosso interlocutor estão sendo provocadas pela nossa ação para que possamos nos guiar, se for o caso, por estes efeitos.

Emoções puras e emoções mistas

Os estudiosos deste tema costumam distinguir emoções puras de emoções mistas. As emoções puras possuem um mesmo padrão fisiológico, comportamental e emocional toda vez que são provocadas.  As emoções mistas são aquelas constituídas por duas ou mais emoções puras. Existe uma grande polêmica sobre quantas e quais seriam as emoções puras e quais seriam as emoções mistas. No entanto os maiores estudiosos desta área concordam que pelos menos as seguintes sete emoções são puras: alegria, tristeza, raiva, nojo, desprezo, surpresa e medo.

 

Expressões faciais de emoções programadas geneticamente

Outra polêmica é sobre o papel desempenhado pela genética e pela aprendizagem sobre as capacidades de emissão e recepção destas expressões. Existem evidências de que as expressões faciais características destas emoções puras são pré-programadas inatamente e que, portanto, elas são expressas sem a necessidade de muita aprendizagem. Estas evidências são as seguintes: pessoas de todas as culturas estudadas, inclusive de culturas isoladas reconhecem tais expressões; (2) estas expressões são mostradas por recém-nascidos mesmo quando estes nascem cegos e (3) existem semelhanças entre as expressões de certas espécies de macaco e as expressões humanas.

As provas de que os reconhecimentos destas expressões não necessitam de aprendizagem existem, mas são mais fracas do que aquelas sobre as suas manifestações. Por exemplo, os recém-nascidos imitam estas expressões (o que indica que eles têm uma grande sensibilidade para elas e que possuem uma pré-programação para percebê-las e expressá-las).

 

Regras culturais que controlam as expressões de emoções

Raramente expressamos tudo o que estamos sentindo. As nossas expressões são controladas pelo que sentimos e pelo que aprendemos sobre suas expressões e pelos possíveis efeitos que calculamos que tais expressões terão sobre as outras pessoas. Este aprendizado é muitas vezes é padronizado culturalmente. Por exemplo, na nossa cultura existem normas tais como: “homem não chora”, “homem não tem medo”, “as mulheres devem ser dóceis”. Estas normas fazem com que os homens da nossa cultura não se sintam bem quando sentem medo ou vontade de chorar e que se contenham em expressar tais sentimentos principalmente na presença de outras pessoas. De fato controlamos as nossas expressões quase que o tempo todo. Talvez este controle, originado dos possíveis efeitos sobre os outros, seja o maior causador das nossas expressões faciais e não as emoções que sentimos.

NOTA Ekman, P. & Friesen, W. V (1975. Unmasking the Face: A Guide to Recognizing Emotions from Facial Expressions. NY: Barnes & Noble

Por Ailton Amélio às 11h23

13/10/2013

A timidez é uma espécie de pessimismo sobre si, os outros e a tarefa

A timidez moderada é um mecanismo saudável que possibilita o convívio social: fazemos ou deixamos de fazer muita coisa porque somos afetados por aquilo que achamos que as outras pessoas vão pensar a respeito a nosso respeito e a respeito de nossas ações.

Por outro lado, o excesso ou a carência de timidez produzem consequências negativas para o excessivamente desinibido (“cara de pau”, “inconveniente”) e, principalmente para o excessivamente tímido. Este pode ter sérios prejuízos em diversas áreas como a profissional, social e amorosa.


As características da timidez

Uma das definições mais aceitas da timidez foi apresentada por  Jonathan M Cheek  e Arnold H. Buss (veja a referência no final deste artigo), dois famosos pesquisadores desta área. Segundo esses autores, a timidez é a tensão e inibição que aparecem em situações sociais.

Tensão. A sensação de tensão acontece devido às reações fisiológicas (contração muscular, suor, enrubescimento, etc.), emocionais (medo, apreensão, etc.) e cognitivas (pensamentos pessimistas, autoconsciência, etc.) que ocorrem nas situações intimidantes.

Inibição. A inibição prejudica o desempenho do tímido. Ele se comporta de uma forma mais pobre do que é capaz: fala menos, gesticula menos, olha menos nos olhos de outras pessoas, deixa de dar boas respostas, gagueja, etc.

Situações sociais. A tensão e a inibição são provocadas pela presença de certos tipos de pessoas e de situações sociais que têm o poder de evocá-las. A timidez é o medo de gente. Medo não no sentido físico, mas o medo de ser rejeitado, humilhado ou simplesmente de não fazer uma boa figura na presença de certas pessoas.


Ingredientes da timidez

A timidez é composta de quatro ingredientes: fisiológico (aceleração do ritmo cardíaco, aumento de pressão arterial, ruborização), emocional (medo, vergonha, preocupação), comportamental (olhar menos nos olhos, fala monótona, propor menos assuntos) e cognitivo (preocupação com o que o interlocutor está pensando, pensamentos pessimistas sobre o próprio desempenho, pensamentos pessimistas sobre as consequências sociais dos próprios atos).


Quando a timidez deve ser tratada

O uma pessoa deve procurar a ajuda de um psicólogo quando a sua timidez está provocando danos em alguma área da sua vida e ele não está conseguindo superar sozinho a sua inibição. Dentre essas áreas, aquelas onde ela causa mais prejuízo são as seguintes:

Prejuízos para a autoestima. Geralmente as pessoas não gostam de ser tímidas e se julgam piores do que as outras quando não conseguem agir com desenvoltura. A nossa sociedade valoriza muito as pessoas desenvoltas, socialmente proativas e carismáticas. Por isso, os tímidos que não possuem essas características e que absorveram esses valores podem se sentir desvalorizados e se desvalorizarem.

Prejuízos na área acadêmica. O tímido pode sofrer sérios prejuízos acadêmicos porque ele não consegue apresentar satisfatoriamente trabalhos escolares na frente da classe, apresentar perguntas para o professor durante as aulas e participar de trabalhos em grupo.

Prejuízos na área profissional. A timidez pode ser um sério obstáculo para conseguir emprego: ela atrapalha seriamente o desempenho durante os processos seletivos que envolvem dinâmica de grupo, entrevistas e apresentações para bancas examinadoras. Nesta área, a timidez também pode ser um sério obstáculo para a ocupação de cargos que coloquem o tímido no centro das atenções, como chefiar equipes e participar ativamente de reuniões de chefes, gerentes e diretores.

Prejuízos na área amorosa. A timidez pode impedir o início de relacionamentos amorosos e prejudicar o desenvolvimento e manutenção desses relacionamentos. A timidez é fortemente ativada pela presença de pessoas que despertam grandes interesses amorosos. Muitos tímidos só namoram pessoas que tomam iniciativas amorosas com eles. 

Percepções pessimistas dos tímidos

A grande maioria dos temores dos tímidos não é provocada por fatos reais, mas sim, por distorções de suas percepções sobre os perigos decorrentes das suas atuações na área social.

O tímido é um pessimista porque:

- Exagera e interpreta mal as consequências das suas iniciativas sociais. Por exemplo, o tímido imagina que:

- Se abordar amorosamente uma pessoa que está o paquerando tal pessoa poderá ficar ofendida. O tímido deve saber que, de fato, uma abordagem bem feita é muito lisonjeira para quase todo mundo que a recebe– melhora muito a nossa autoestima. Assim sendo é mais provável que  a outra pessoa fique agradecida e não zangada com ele.

- Ser rejeitado é uma prova de que ele não tem valor. Esse é um erro porque outra pessoa pode rejeitá-lo porque ele não é o seu tipo, porque ela já está amando outra pessoa, porque ela tem dificuldades para sentir atração amorosa, etc.

-Exagera as qualificações da pessoa com a qual ele gostaria de iniciar um relacionamento amoroso. O tímido imagina que a pessoa que ele está interessado é maravilhosa, extremamente segura, que ela tem mil admiradores, etc. Por este motivo, para ele, ser aceito por tal pessoa é um feito gigantesco. Não ser aceito é um golpe mortal, é a perda de uma oportunidade única.

-Subestima as suas próprias habilidades para iniciar um relacionamento  amoroso.

- O tímido fica imaginando que vai falhar, que ele não é muito qualificado, que ele não conhece o ritual da paquera, que ele não vai saber manter uma conversa interessante, etc. (geralmente o tímido tem baixa autoestima).

Corrigindo erros de raciocínio e percepção do tímido

Erro de raciocínio: "Dois pesos e duas medidas"

Um pesquisador fez duas perguntas sobre “iniciativas amorosas” para um grupo de pessoas tímidas. A primeira destas perguntas foi: “Porque você não toma iniciativas amorosas com quem lhe atrai?”. A grande maioria dos tímidos respondeu que não fazia isto porque era inibido. A segunda pergunta era: “Porque muitas pessoas não tomam iniciativas amorosas com você?” A grande maioria deles respondeu: “ Porque elas não estão interessadas em mim”.

            Esta forma de racionar, “dois pesos e duas medidas”, é um dos grandes empecilhos à verificação da reciprocidade de interesse amoroso. Se julgássemos que as outras pessoas são como nós – elas também podem ser inibidas para tomar iniciativas amorosas - teríamos muito mais coragem e motivação para mostrar o nosso interesse amoroso para quem nos atrai.

Correção dos erros de percepção de um tímido que o impediam de abordar uma mulher

Este é o caso real de um rapaz muito vistoso, sociável e resolvido que tinha uma tremenda timidez específica – só era tímido para paquerar - e, principalmente para abordar mulheres em "paqueródromos". No restante da sua vida social e profissional, este rapaz não era nada tímido. Pelo contrário, era muito desenvolto.

Situação: A mulher se encontra em um grupo de amigas e flertou com ele.

Crenças do rapaz: Não conheço o protocolo de abordagem (por exemplo, não sei se cumprimento todo mundo, se pergunto primeiro o nome dela, se me apresento, se declaro a minha atração por ela, etc.); acredito que todo mundo conheça este protocolo.

Temores: Pode acontecer que: eu lhe dirija a palavra e ela não responda; que toque no ombro dela e ela não me dê atenção; que o papo com ela não role (por exemplo, talvez ela só apresente respostas monossilábicas; que passemos o tempo todo conversando sobre um assunto que não interesse aos dois).

- Terapeuta: Imagine que você vá a uma empresa para falar com um diretor. Ao chegar lá, você pergunta por ele e alguém aponte para um grupo de pessoas e diga: é aquele lá, de terno preto. Você teria algum problema em se aproximar do grupo, se dirigir ao diretor e se apresentar?

- Paciente: não (ele não tem este tipo de timidez)

- Terapeuta: imagine que você está em um grupo de amigos. Uma moça muito bonita se aproxima e quer falar com você. Você se importaria muito se:

- Ela cumprimentasse (ou não) todo o mundo?

- Se ela perguntasse (ou não) o seu nome em primeiro lugar?

- Se ela fosse informal e pulasse os cumprimentos e apenas tentasse puxar conversa com você?

Paciente: Não me importaria com estes detalhes e sim com o fato dessa mulher linda estar ali querendo falar comigo.

O terapeuta ressalta, então, que o mais importante era o fato da mulher ter tomado a iniciativa de iniciar uma conversa com ele e não os detalhes específicos da forma como esta conversa foi iniciada. Este mesmo princípio também era válido quando era ele que abordava uma moça.

NOTA: Cheek, J.M., & Buss, A.H. (1981). Shyness and sociability. Journal of Personality and Social Psychology, 41, 330-339.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações.

Por Ailton Amélio às 07h44

06/10/2013

A sua forma de conversa é rude ou suave? Confira!

A imagem pessoal que você projeta para os seus interlocutores depende principalmente da forma e do conteúdo da sua conversa. Neste artigo, vamos abordar alguns aspectos importantes da forma de conversar que podem causar um profundo impacto na projeção desse tipo de imagem.

Para que uma conversa entre interlocutores que tenham status semelhantes seja bem sucedida é necessário que eles: (1) controlem com eficiência o fluxo da conversa; (2) alternem suavemente os papéis de ouvinte e falante; (3) desempenhem com eficiência os papéis de ouvinte e falante.

 

O controle do fluxo da conversa

O fluxo da conversa pode ser comparado com o fluxo do trânsito. Tanto na conversa como no trânsito tem que haver uma boa sinalização para que tudo corra bem.  Na conversa, os interlocutores devem apresentar e obedecer a uma boa sinalização para que ela flua suavemente e sem atropelos (falas simultâneas, interrupções, falar sem que o outro escute ou entenda, falar sem que o ouvinte queira ouvir, etc.).

Algumas das normas que regem uma boa conversa são as seguintes:

- Deve haver alternância entre os interlocutores na ocupação dos papéis de falante e ouvinte.

- O tema da conversa deverá ser decidido através de acordo. Uma das partes não deve monopolizá-lo

- O ouvinte deverá sinalizar para o falante como ele está percebendo o que está ouvindo. O falante deve ser sensível a esses sinais e sinalizar para o ouvinte os seus desejos e planos sobre o que está falando.

Boa parte desses sinais é apresentada através da comunicação não verbal. É relativamente raro que as pessoas digam “Câmbio”, para passar a palavra; “Agora sou eu que falo”, para tomar a palavra; “Não me interrompa”, para negar a passagem da palavra, ou “Continue falando”, quando não quiser assumir o papel de falante. Essas verbalizações geralmente só são usadas em situações extremas, quando os recursos não verbais falham. Tanto a emissão como a recepção da maior parte desses sinais acontece com um baixo grau de consciência.

 

Alternância dos papéis de ouvinte e falante

Um encontro onde não há essa alternância, ou onde ela é muito rara, não pode ser classificado como uma conversa, mas sim, como um monólogo, uma conferência ou uma declaração.

 

Sinais apresentados pelo ouvinte para solicitar o turno

Quando for o caso, o ouvinte deve sinalizar o seu desejo de assumir o papel de falante. Para solicitar esse papel ele pode:

- Inspirar o ar de forma audível, com se estivesse tomando fôlego para falar;

- Quando sentado, assumir uma postura de tronco ereto ou inclinado para a frente e levantar os braços como se fosse apresentar a gesticulação característica de quem fala;

- Começar a falar no momento que o falante completa a exposição de uma ideia ou faz uma pausa silenciosa;

- Levantar um dedo ou a mão, para solicitar a palavra;

- Começar a falar ao mesmo tempo em que o falante.

 

Sinais apresentados pelo falante que quer ceder o turno

O falante possui diversas formas de sinalizar que terminou o seu turno e quer que o ouvinte assuma a palavra:

- Faz uma pergunta, olha interrogativamente para o ouvinte e fica esperando uma resposta;

- Abandona a postura corporal de falante: abaixa os antebraços, para sinalizar que vai deixar de apresentar a gesticulação característica que acompanha a fala, relaxa o tronco e o inclina para trás, encostando-se  no assento.

- Termina uma frase abaixando o volume da voz e olha mais prolongadamente para o ouvinte, para ver como ele vai reagir ao que foi dito, e para prestar atenção ao que ele vai dizer.

 

Sinais apresentados pelo falante que indicam que ele quer manter o turno

As principais formas de manter o turno são as seguintes:

- Manter a postura típica de falante: antebraços levantados para apresentar gesticulações que acompanhem as palavras; tronco desencostado do espaldar do assento para facilitar movimentação típica do falante e a respiração, etc.

- Preencher as pausas da sua fala para não permitir que o interlocutor comece a falar durante seus períodos de silêncio.

- Não apresentar perguntas retóricas para não permitir que o falante as considere uma pergunta real e a responda, assumindo a palavra.

 

Sinais apresentados pelo falante para recusar pedidos do ouvinte para ceder o turno

O falante pode querer permanecer neste papel. Ele pode fazer isso não oferecendo espontaneamente o turno ao seu ouvinte ou pode recusando o pedido de palavra quando este lhe solicitar. Para se recusar ceder o turno o falante pode:

- Desviar o olhar do ouvinte quando este emitir sinais que quer falar;

- Evitar fazer pausas silenciosas para não dar oportunidade para o ouvinte começar a falar;

- Quando percebe que o ouvinte quer falar, começa a falar mais alto, do que vinha falando, para mostrar que não quer ceder a palavra;

- Dizer coisas como: “Por favor, me deixa terminar de expor esta ideia”, “Só um minuto, já vou terminar”.

(Estas recusas não devem acontecer muito frequentemente em um diálogo informal entre pessoas do mesmo status).

 

Alternância turbulenta de turnos

Nem sempre a alternância de turno é pacífica. Muitas vezes o falante não quer passar a palavra para o ouvinte. Outras vezes, o ouvinte não quer assumir o papel de falante e, outras vezes ainda, o ouvinte não solicita a palavra. Vamos examinar estes casos.

Tanto o falante como o ouvinte podem se recusar a deixar o seu papel.

- O falante se recusa ceder o turno. Para recusar ceder o turno ele pode:

 - Desviar o olhar do ouvinte quando este emitir sinais que quer falar;

 - Evitar fazer pausas silenciosas para não dar oportunidade para o ouvinte começar a falar. Quando percebe que o ouvinte  quer falar, o falante começa a falar mais alto do que vinha falando, para mostrar que não quer ceder a palavra;

 - Dizer coisas como: “Por favor, me deixa terminar de expor esta ideia”, “Só um minuto, já vou terminar”.

- O ouvinte se recusa a assumir a palavra. O ouvinte poderá se recusar a assumir o turno, quando o falante faz uma tentativa de passar-lhe a palavra. Para recusar o ouvinte pode:

 - Ficar em silêncio e desviar os olhos do falante;

 - Manter a sua postura corporal de ouvinte;

 - Fazer uma pergunta sobre o que acabou de ouvir ou repetir a última frase que acabou de ouvir e ficar esperando que o  falante retome a palavra e acrescente algo ao que já disse.

(Estas pequenas intervenções verbais não são consideradas como posse do turno)

Eficiência para desempenhar o papel de falante e de ouvinte

Eficiência para desempenhar o papel de falante

Para que um falante desempenhe o seu papel de forma eficiente é necessário que ele:

- Fique atento aos comportamentos que o ouvinte está apresentando em reação ao que ele está dizendo. Estas reações indicam se o assunto está chato, se o ouvinte está querendo a palavra, se o que foi dito surpreendeu, agradou, amedrontou o ouvinte, etc. Geralmente o falante olha, de tempo em tempo, para o ouvinte, para captar as suas reações.

- Oriente a sua comunicação pelas reações do ouvinte. A sensibilidade a estas reações e deixar-se guiar por elas é um dos fatores que mais contribuem para o sucesso do falante.

Eficiência para desempenhar o papel de ouvinte

A principal norma que rege os comportamentos do bom ouvinte pode ser resumida pela frase “Seja ativo”. O ouvinte ativo é aquele que apresenta comportamentos verbais e não verbais que informam o falante sobre como ele está sendo afetado pelo que está ouvindo e o que deseja fazer quanto ao assunto que está sendo tratado e quanto à conversa. O ouvinte deve informar o falante se ele:

- Está entendendo ou não está entendendo o que está sendo dito. Se fingir que está acompanhando o que está sendo dito, mas, de fato, não está, o ouvinte vai perder o envolvimento com a conversa e vai apresentar sinais que indicam que está fingindo ou que está desconfortável.

- Quer esclarecimentos sobre algum tópico ou quer ouvir mais a seu respeito.

- Como está se sentindo em relação ao que está sendo dito: gostando, admirado, solidário com o falante, etc.

- Quer deixar a condição de ouvinte e passar a ser o falante ou quer permanecer na condição de ouvinte.

A sua forma de conversar é rude? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 10h46

05/10/2013

A sua forma de conversar é rude ou suave? Confira!

A imagem pessoal que você projeta depende principalmente da forma e do conteúdo da sua conversa. Neste artigo vamos abordar alguns aspectos importantes da forma da conversa que podem causar um profundo impacto na imagem que você projeta para os seus interlocutores.

 

Para que uma conversa entre interlocutores que tenham status semelhantes seja bem sucedida é necessário que eles: (1) controlem com eficiência o fluxo da conversa; (2) alternem suavemente os papéis ouvinte e falante; (3) desempenhem com eficiência os papéis de ouvinte e falante.

O controle do fluxo da conversa

O fluxo da conversa pode ser comparado com o fluxo do trânsito. Tanto na conversa como no trânsito tem que haver uma boa sinalização para que tudo corra bem.  Na conversa os interlocutores devem seguir algumas normas básicas e apresentar e obedecer a uma boa sinalização para que ela flua suavemente e sem atropelos (falas simultâneas, interrupções, falar sem que o outro escute ou entenda, falar sem que o ouvinte queira continuar ouvindo, etc.).

Algumas das normas que regem uma boa conversa são as seguintes:

-Em uma conversa vai haver alternância de papéis entre falantes e ouvintes.

- O tema da conversa deverá ser decidido através de acordo. Uma das partes Não deve monopolizá-lo

- O ouvinte deverá sinalizar para o falante como ele está percebendo o que ele está ouvindo.

Cada interlocutor, por exemplo, deve apresentar sinais que informem para o outro os seus desejos e reações. Por exemplo, ele deve apresentar informações do tipo: “Continue a falar”, “Estou interessando no que você está dizendo”, “Quero lhe passar a palavra”, “Quero continuar a falar”, “Estou entendendo”.

Boa parte desses sinais é apresentada através da comunicação não verbal. É relativamente raro que as pessoas digam “Câmbio”, para passar a palavra; “Agora sou eu que falo”, para tomar a palavra; “Não me interrompa”, para negar a passagem da palavra, ou “Continue falando”, quando não quiser assumir o papel de falante. Essas verbalizações geralmente só são usadas em situações extremas, quando os recursos não verbais falham.

Tanto a emissão como a recepção da maior parte desses sinais acontece com um baixo grau de consciência.

Vejamos agora alguns recursos que são usados para que uma conversa aconteça de forma suave e sem atropelos.

Alternância dos papéis de ouvinte e falante

Uma das características fundamentais da conversa é a alternância de turnos: os interlocutores deverão funcionar, alternadamente, como falantes e como ouvintes.  Caso não haja esse tipo de alternância ou ela seja muito rara, não se trata de uma conversa, mas sim de um monólogo, uma conferência ou uma declaração.

A alternância de turnos pode ser suave ou turbulenta.

A alternância suave de turnos exige as seguintes motivações e habilidades:

Sinais emitidos pelo ouvinte para solicitar o turno

O ouvinte sinaliza que deseja assumir o papel de falante. Para solicitar o turno ele pode:

- Inspirar o ar, de forma audível, com se estivesse tomando fôlego para falar;

- Quando sentado, assumir uma postura de tronco ereto e levantar os braços como se fosse apresentar a gesticulação característica de quem fala;

- Levantar um dedo ou a mão, para solicitar a palavra;

- Começar a falar ao mesmo tempo em que o falante;

- Começar a falar no momento que o falante completa a exposição de uma ideia e faz uma pausa não preenchida.

Sinais apresentados pelo falante que quer ceder o turno

O falante possui diversas formas de sinalizar que terminou o seu turno e quer que o ouvinte assuma a palavra:

- Faz uma pergunta, olha interrogativamente para o ouvinte e fica esperando uma resposta;

- Abandona a postura corporal de falante: abaixa os antebraços, para sinalizar que vai deixar de apresentar a gesticulação característica que acompanha a fala, relaxa o tronco e o inclina para trás, encostando-se  no assento.

- Termina uma frase abaixando o volume da voz e olha mais prolongadamente para o ouvinte, para ver como ele vai reagir ao que foi dito, e para prestar atenção ao que ele vai dizer.

Sinais apresentados pelo falante que quer manter o turno

As principais formas de manter o turno são as seguintes:

- Manter a postura típica de falante: antebraços levantados para apresentar gesticulações que acompanhem as palavras; tronco desencostado do espaldar do assento para facilitar movimentação típica do falante e a respiração, etc.

- Preencher as pausas da sua fala para não permitir que o interlocutor comece a falar durante seus períodos de silêncio.

- Não apresentar perguntas retóricas para não permitir que o falante as considere uma pergunta real e a responda, assumindo a palavra.

Sinais apresentados pelo falante para recusar pedidos do ouvinte para ceder o turno.

O falante pode querer permanecer neste papel. Ele pode fazer isso não oferecendo espontaneamente o turno ao seu ouvinte ou pode recusando o pedido de palavra quando este lhe solicitar. Para se recusar ceder o turno o falante pode:

- Desviar o olhar do ouvinte quando este emitir sinais que quer falar;

- Evitar fazer pausas silenciosas para não dar oportunidade para o ouvinte começar a falar;

- Quando percebe que o ouvinte quer falar, começa a falar mais alto, do que vinha falando, para mostrar que não quer ceder a palavra;

- Dizer coisas como: “Por favor, me deixa terminar de expor esta ideia”, “Só um minuto, já vou terminar”.

Estas recusas não devem acontecer muito frequentemente em um diálogo informal entre pessoas do mesmo status.

Alternância turbulenta de turnos

Nem sempre a alternância de turno é pacífica. Muitas vezes quem está falando não quer passar a palavra para o ouvinte. Outras vezes, quem está ouvindo não quer assumir o papel de falante e, outras vezes ainda, o ouvinte não solicita a palavra. Vamos examinar estes casos.

Recusar a alternância de turno.

Tanto o falante como o ouvinte podem se recusar a deixarem seus papéis.

- O falante se recusa ceder o turno. Em um determinado momento o falante pode recusar o pedido de palavra que é  apresentado pelo ouvinte. Para recusar ceder o turno ele pode:

- Desviar o olhar do ouvinte quando este emitir sinais que quer falar;

- Evitar fazer pausas silenciosas para não dar oportunidade para o ouvinte começar a falar. Quando percebe que o ouvinte quer falar, o falante começa a falar mais alto do que vinha falando, para mostrar que não quer ceder a palavra;

- Dizer coisas como: “Por favor, me deixa terminar de expor esta ideia”, “Só um minuto, já vou terminar”.

- O ouvinte se recusa a assumir o turno. O ouvinte poderá se recusar a assumir o turno, quando o falante faz uma tentativa de passar-lhe a palavra. Para recusar, quando o falante tentar passar-lhe a palavra, o ouvinte pode:

- Ficar em silêncio e desviar os olhos do falante;

- Manter a sua postura corporal de ouvinte;

- Fazer uma pergunta sobre o que acabou de ouvir;

- Repetir a última frase que acabou de ouvir e ficar esperando que o falante retome a palavra e acrescente algo ao que já disse.

(Estas pequenas intervenções verbais não são consideradas como posse do turno)

Eficiência para desempenhar o papel de falante e de ouvinte

Eficiência para desempenhar o papel de falante

Normas que regem os comportamentos do falante. Para que um falante desempenhe o seu papel de forma eficiente é necessário que ele:

- Fique atento aos comportamentos que o ouvinte está apresentando em reação ao que ele está dizendo. Estas reações indicam se o assunto está chato, se o ouvinte está querendo a palavra, se o que foi dito surpreendeu, agradou, amedrontou o ouvinte, etc. Geralmente o falante olha, de tempo em tempo, para o ouvinte, para captar as suas reações. O falante olha mais atentamente para o ouvinte quando quer captar a sua reação para algo importante que vai dizer, está dizendo ou acabou de dizer.

- Oriente a sua comunicação pelas reações do ouvinte. A sensibilidade a estas reações e deixar-se guiar por elas é um dos fatores que mais contribuem para o sucesso de uma conversa.

Eficiência para desempenhar o papel de ouvinte

A principal norma que rege os comportamentos do bom ouvinte pode ser resumida pela frase “Seja ativo”. O ouvinte ativo é aquele que apresenta comportamentos verbais e não verbais que informam o falante sobre como ele está sendo afetado pelo que está ouvindo e o que deseja fazer quanto ao assunto que está sendo tratado e quanto à conversa. O ouvinte deve informar o falante se ele:

- Está entendendo ou não está entendendo o que está sendo dito. Se fingir que está acompanhando o que está sendo dito, mas, de fato, não está, o ouvinte vai perder o envolvimento com a conversa e se portar de uma forma estranha aos olhos do falante: vai apresentar sinais que indicam que está fingindo ou que está desconfortável.

- Quer esclarecimentos sobre algum tópico ou quer ouvir mais a seu respeito.

- Como está se sentindo em relação ao que está sendo dito: gostando, admirado, solidário com o falante, etc.

 

- Quer deixar a condição de ouvinte e passar a ser o falante ou quer permanecer na condição de ouvinte.

Por Ailton Amélio às 10h35

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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