Blog do Ailton Amélio

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24/11/2013

Ações equivocadas guiadas por estados confusos

As ações motivadas e guiadas por estados psicológicos difusos e obscuros, cujas nuances percebidas são apenas sensações positivas ou negativas, geralmente não são sábias. Elas não são sábias porque não são baseadas no conhecimento daquilo que está causando os estados e, muito menos, nos conhecimentos sobre as melhores formas de desarmar as suas causas.

Por exemplo, um rapaz está se sentindo desconfortável com o namoro. Para ele, a origem desse desconforto não é clara. Ela não sabe se está deixando de gostar da namorada, se está com medo de que ela não goste muito dele, se o ritmo e durações dos encontros que está tendo com ela estão ocupando muito do seu tempo, se ele está gastando dinheiro além da conta. Como ele não conhece as causas do que está ocorrendo, mas apenas sente o desconforto, ele pode terminar o namoro ao invés de resolver o motivo específico daquilo que está causando o seu desconforto.


Mecanismos de defesa do ego

Mecanismos de defesa do ego (apresentado no livro Motivação e Emoção de Johmarshal Reeve, quarta edição, Editora LTC. Contribuições de vários autores).

Quando algo ameaça o nosso ego, existem vários mecanismos para lidar com o que está ocorrendo.

O ego possui mecanismos de defesa para proteger a consciência contra níveis excessivamente grandes de ansiedade gerados pelos conflitos entre os impulsos do id, as exigências do superego e os perigos ambientais.

Esses mecanismos variam desde os mais infantis, pouco elaborados e ineficientes para lidar com a realidade até os mais adultos, sofisticados e eficazes para lidar com a realidade. Estes últimos mecanismos são apresentados por pessoas que atingiram a maturidade psicológica. Onze desses mecanismos, apresentados abaixo em ordem crescente de elaboração, são os seguintes:

1- Negação

            Não tomar conhecimento da realidade externa.

2- Fantasia

            Satisfação imaginária e onipotente de desejos frustrados através de fantasias. Por exemplo, imaginar-se como um super-herói conquistando a pessoa amada

3- Projeção

            Atribuir à outra pessoa o próprio desejo inaceitável

4- Deslocamento

            Liberar a ansiedade contra um objeto substituto daquele que, de fato, a está causando.

5- Identificação

            Assumir características de alguém bem sucedido. Por exemplo, passar a se vestir e a agir como se fosse alguém famoso.

6- Regressão

            Regredir a uma fase anterior do desenvolvimento como reação a uma frustração.

7- Formação reativa

            Adotar ou exprimir uma forma de pensar que é oposta aos próprios sentimentos ou crenças.

8- Racionalização

            Encontrar argumentos lógicos para justificar pensamentos perturbadores ou inaceitáveis.

9 - Antecipação

            Prever perigos futuros e lidar com eles de forma gradual.

10- Humor

            Encarar de forma bem humorada os próprios erros e imperfeiçoes

11- Sublimação

            Transformar uma ansiedade socialmente inaceitável em uma motivação para fazer algo social e pessoalmente valorizado.

Quanto menos evoluído é o mecanismo que uma pessoa usa para defender o seu ego, menos eficaz é a sua ação para lidar com a realidade.


Outros mecanismos que dão margem à confusão

Nem sempre a confusão tem origem na pouca elaboração dos mecanismos de defesa do ego. Muitas vezes, não é claro o que está causando a ansiedade, os temores e o desconforto para quem está sentindo essas coisas. Outras vezes, a pessoa que está confusa não confia na própria eficácia para lidar com a situação ou ainda, muitas vezes todas as vias de enfrentamento da situação terão consequências desagradáveis (existem apenas situações ruins e menos ruins). O protelar é uma forma de ficar em um estado desconfortável, mas que posterga o enfrentamento de algo ainda mais desconfortável que seria decorrente do enfrentamento da situação.


Teoria da atribuição

Muitas vezes, os sentimentos também não são claros. Por exemplo, quando alguém passa na nossa frente em uma fila geralmente sentimos raiva de quem cometeu esse desrespeito. No entanto, ao mesmo tempo, também sentimos medo de reclamar e culpa por não tomar uma atitude. Os ingredientes dessa mistura de sentimentos nem sempre são facilmente identificáveis por quem esta experimentando essa mistura.

A teoria da atribuição afirma que é muito comum sentirmos coisas sem saber os seus motivos. Tanto o que sentimos como os motivos podem necessitar de explicações para que possam ser precisados. Por exemplo, um sentimento ambíguo pode ser definido como apreensão ou alegria dependo das percepções das suas causas ou de outras emoções que estejam associadas (por exemplo, podemos sentir culpa por nos alegrarmos).

O que geralmente fazemos é buscar explicações ou evidências que nos ajudem a entender as causas daquilo que estamos sentindo.

Até aquilo que sentimos pode ser ambíguo e a natureza desses sentimentos depende daquilo que acreditamos que são as suas causas. Isso acontece porque muitos sentimentos têm a mesma base fisiológica e só são diferenciados através de cognições que ajudam a precisar seus significados. Por exemplo, a aplicação de adrenalina em uma pessoa pode produzir um estado psicofisiológico que pode ser interpretado como raiva ou alegria. Outro exemplo, para as mulheres, as reações fisiológicas produzidas por um filme pornô podem ser interpretadas como desconforto ou como excitação dependendo da validade que elas atribuam ao contexto onde isso aconteça.

A teoria de atribuição deixa implícito que “a versão é mais importante do que o fato”: basta encontrarmos uma explicação convincente para aquilo sentimos. Não é tão importante encontrar a versão “verdadeira” que explica os fatos.

Essa explicação tem várias propriedades positivas e negativas:

Positivas: pode motivar uma pessoa para agir ou faze-la sentir-se menos culpada,

Negativas: A pessoa que faz atribuições erradas pode combater causas erradas daquilo que está se passando com ela.

Você costuma agir tendo por base estados confusos? Sim? Procure a ajuda de um psicólogo

 Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações.

Por Ailton Amélio às 11h24

17/11/2013

Estratégia do bem: vale a pena semear o bem para melhorar os relacionamentos e para fazer sucesso profissional

Você é do tipo que “Quer levar vantagem em tudo” (egoísta), do tipo “Toma lá, dá cá” (comercial), do tipo “É dando que se recebe” (calculadamente generoso) ou do tipo “Faz o bem sem saber a quem” (generoso)? Semear o bem mesmo para quem você não vê possibilidade de retorno é o que distingue o toma lá da cá do verdadeiro altruísmo.

Provavelmente você segue um pouco de cada uma dessas estratégias: dependendo da pessoa que você está se relacionando e da situação, você pode usar qualquer uma delas. No entanto, as pessoas tendem a adotar mais frequentemente uma dessas estratégias para se relacionarem.

Creio eu que na nossa sociedade individualista e impessoal, a quarta dessas estratégias - "generoso"- é a menos frequente das três e só costuma ser usada entre parentes ou entre amigos muito especiais.

Todos nós conhecemos pessoas generosas. Muita gente acha que essas pessoas são bobas e permitem que os outros se aproveitem delas. Pode ser que realmente isso aconteça, em certos casos. No entanto, conheço algumas pessoas que investem pesadamente na criação de relacionamentos baseados no altruísmo e que encontram muita satisfação nesta forma de agir. Essas pessoas formam ótimos relacionamentos profissionais e sociais e têm sucesso profissional. Estou convencido que a “estratégia do bem” é uma ótima forma de agir.

Semear o bem é uma ótima estratégia de relacionamento que pode ser usada entre amigos, conhecidos, colegas, parentes e cônjuges, etc. Alguns estudos científicos encontraram evidências sobre as profundas transformações que a adoção dessa estratégia pode provocar na vida pessoal social e profissional daqueles que a adotam.

Virtuoses na estratégia do bem

Uso a palavra virtuose para me referir a aquelas pessoas que têm alguma habilidade excepcional ou é muito boa naquilo que faz.

Sempre aprendo muito com meus pacientes. Claro, eles têm alguns problemas e que é por causa deles que eles me procuram. Vários desses pacientes, no entanto, possuem talentos psicológicos admiráveis e, em certos casos, são verdadeiras virtuoses em algum campo psicológico. Por exemplo, já atendi pessoas que eram verdadeiras mestras na arte de definir objetivos na área profissional, planejar um caminho para conseguir atingi-los e percorrer esse caminho por anos a fio até obter o sucesso almejado. Tudo isso sem esmorecer. Outro paciente era um mestre na arte de enfrentar desafios. Segundo ele, não existia desafios impossíveis. Aqueles que pareciam impossíveis podiam ser quebrados em pequenas partes fáceis. Também tive um paciente que era um grande mestre na arte de proporcionar o bem para outras pessoas nas áreas profissional e pessoal. Ele realmente acreditava nesta forma de ser e agir. Tinha prazer em ajudar outras pessoas, nunca alardeava os seus feitos nesta área e nunca cobrava nenhuma retribuição. Ele era muito querido, tinha fortes ligações com muita gente do seu meio profissional e era disputado para participar das iniciativas profissionais dessas pessoas!

Vou apresentar aqui um sumário da maestria de uma paciente no uso da estratégia do bem na área do casamento. Vamos examinar agora um exemplo do uso dessa estratégia para melhorar o relacionamento de um casal.

Estratégia do bem no casamento

Geraldo e Marina estavam brigando muito. Cada briga deixava cicatrizes e mágoas e solidificava uma atitude negativa entre o casal. Esses efeitos cumulativos dos conflitos tornava mais provável que qualquer novo incidente fosse interpretado negativamente por cada um dos cônjuges e desse margem a uma nova briga.

Eles estavam casados há três anos. No começo, o relacionamento entre eles era maravilhoso. Nos últimos dois anos, no entanto, começaram a brigar muito. Agora estavam em pé de guerra. Tudo que um deles fazia ou falava era interpretado negativamente pelo outro que, por sua vez, não deixava de responder agressivamente às discordâncias e críticas. Essas brigas constantes já haviam produzido um grande desgaste no relacionamento.

Depois de um bom tempo neste clima de guerra, Mariana havia concluído que esse relacionamento não valia a pena. Ela temia a agressividade de Geraldo e havia perdido a esperança que ele pudesse mudar. Geraldo também havia chegado à conclusão que eles estavam vivendo no inferno, mas, ao contrário da esposa, queria e precisava continuar aquele relacionamento. Não conseguia se imaginar vivendo sem Marina.

Ele resolveu, então, usar a “estratégia do bem” para tentar recuperar o relacionamento: Esta estratégica consistia em:

- Estacar as brigas:

- Evitar afirmações e temas que pudessem iniciar discussões

- Ignorar os pequenos atos hostis apresentados por ela.

- Melhorar a intensidade dos eventos positivos do relacionamento:

- Ouvi-la com toda a atenção

- Elogiar as suas boas ideias

- Aceitar que ela poderia ter a sua própria forma de pensar. Quando a sua forma de pensar fosse diferente e até oposta a sua, ao invés de discordar ou combater, tentar entender o seu ponto de vista.

Os dois princípios gerais que regem a estratégia do bem são os seguintes :

1- o mais importante é o bem estar do cônjuge e o bom clima do relacionamento e não quem tem razão ou a opinião que vai prevalecer após uma discordância.

2- Colocar o bem estar do parceiro acima de outras considerações não significa anular nem ultrapassar os próprios limites

Claro que os efeitos dessa nova forma de agir de Geraldo não se fizeram sentir instantaneamente. No entanto, Geraldo estava preparado para persistir na nova estratégia por muito tempo sem obter resultados. Dois meses depois, havia acontecido uma espécie de milagre: Mariana havia se rendido às atitudes positivas de Geraldo e agora estava cheia de boas maneiras, carinhosa e amorosa!

Motivos do funcionamento da estratégia do bem

A estratégia do bem produz bons resultados devido a vários motivos.

A prática do bem:

- Cria um clima positivo entre as pessoas

- Cria ou reforça uma atitude positiva daquele que recebe o benefício em relação àquele que o ofereceu.

- Gera a necessidade de retribuir. Por exemplo, algumas entidades beneficentes doam um presentinho e, em seguida, solicitam uma doação. Receber um benefício aumenta a propensão para retribuir.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações.

Por Ailton Amélio às 10h22

10/11/2013

Expansão do eu: escolha de parceiros, conquista amorosa e relacionamento feliz

CONVITE

Você está convidado para a minha palestra gratuita em Campinas: "Amores Atuais e Romances Casuais". Próxima segunda feira, 18 de novembro, Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. Compareça! Para se increver, click no link: http://www.anggulo.com.br/gea/eventos.asp

 

Algo “expande o nosso eu” quando leva ao nosso crescimento psicológico: amplia a nossa capacidade de percepção; permite que compreendamos de forma diferente algo importante; amplia a nossa coragem para enfrentar situações relevantes; modifica a nossa autoimagem, etc.

A teoria da expansão do eu foi proposta por Elaine N. Aron e Arthur Aron (veja a citação na Nota 1, no final deste artigo). Muitas teorias sobre o amor afirmam que nos apaixonamos por aquelas pessoas que admiramos. Admirar significa reconhecer qualidades excepcionais na pessoa. A teoria da expansão do eu afirma que é uma necessidade humana expandir o eu. Uma forma de conseguir essa expansão é nos vincularmos amorosamente à uma pessoa que possua qualidades que admiramos. Amá-la e ser amado por ela significa, em grande parte, integrar as suas qualidades admiradas ao nosso eu. O fato de os casais serem considerados e se considerarem como uma unidade — unidade econômica, unidade de objetivos, unidade emocional, unidade de prestígio (ou desprestígio) social etc. — é um indício de que esta integração realmente aconteceu.

Esta teoria também afirma que para acontecer o apaixonamento é necessário  perceber que é viável a formação e a manutenção de uma unidade amorosa com o parceiro. Ou seja, deve haver a percepção que existe uma chance razoável de poder conquistá-lo e de que é possível desenvolver e manter um relacionamento amoroso com ele. .

As proposições desta teoria são muito semelhantes às de Stendhal (veja a Nota 2 no final desse artigo), no que diz respeito aos requisitos necessários para o nascimento de um amor romântico. A teoria da expansão do eu, no entanto, dá uma importância especial para o fato de que a pessoa amada ter qualidades especiais que o apaixonado não possui, mas que gostaria de incorporar.

Esta teoria aponta um caminho para conquistar a outra pessoa: quando a associação amorosa com alguém oferece possibilidades de crescimento psicológico e/ou ampliação dos horizontes pessoais, isto aumenta a probabilidade de que a pessoa cujos horizontes serão expandidos se apaixone por este alguém.

A teoria da expansão do eu se apoia em duas premissas:

1- Os seres humanos são motivados para se expandirem

2- A expansão do eu pode ser alcançada através da associação com pessoas que possuem as qualidades desejadas.

Pessoas e situações sociais que expandem o nosso eu

Quando conhecemos uma pessoa, ou quando entramos em um novo grupo social (nova escola, novo trabalho, novo clube, etc.) tomamos conhecimento de novas maneiras de ser, pensar e agir. Por exemplo, quando namoramos uma pessoa que gosta de fotografia, aprendemos algo sobre essa arte. Quando temos um amigo que gosta de cozinhar, aprendemos algo sobre culinária e sabores. Quando viajamos para outro país, imergimos em uma profusão de novidades que nos ajudam a tomar consciência das peculiaridades da nossa cultura que, até em tão, não percebíamos ou considerávamos “naturais”.


Quando a expansão do eu leva ao apaixonamento

Algumas pessoas estimulam a expansão do nosso eu. Quando, além disso, essas pessoas apresentam outros requisitos (atração romântica, atração sexual e uma boa dose de compatibilidade conosco) tendemos a nos apaixonar por elas. Em seguida, se elas continuarem a expandir o nosso eu, tendemos a permanecer apaixonados por elas: os expansores do eu contribuem para o nascimento e fortalecimento do amor.

Um estudo nesta área verificou que casais que faziam programas que contribuíam para a expansão do eu se sentiram mais unidos e amorosos do que aqueles que simplesmente faziam o que gostavam e já conheciam. Ou seja, tendemos a nos ligar de uma forma especial às pessoas cujas companhias e apoio incentivam a nossa exposição a situações que provocam a expansão dos nossos limites e fronteiras psicológicas.

Afirmações sobre pessoas expansoras e restritoras do eu

“Com ela, eu era o melhor de mim”

“A sua maneira de ver as coisas, as suas atitudes faziam que eu saísse do meu padrão usual de perceber a vida”.

“Ele tinha sede pela vida: queria conhecer lugares, experimentar coisas, tentar coisas novas”

“Ela dava a sensação que os obstáculos que eu enfrentava na vida eram bem menores do que eu pensava”

“Ele me podava. Com ele, fui encolhendo. Ele não gostava de fazer nada. Via problemas em tudo que eu propunha”.

“Com ele, eu não podia ser eu mesma. Tinha muito medo de expressar minha opinião. Ele criticava tudo que eu pensava e queria”.

Diferentes contribuições da expansão do eu para o relacionamento amoroso

A seguinte história (baseada em fatos reais) ilustra como uma pessoa pode contribuir para a expansão do eu da outra:

O mundo de Guilherme era fascinante para Fernanda. Graças a ele, Fernanda estava tendo acesso a um estilo de vida bem mais atraente do que levava antes de conhecê-lo. Antes, ela morava numa pequena cidade, perto de São Paulo, onde tinha um emprego burocrático. Levava uma vida bem monótona. As condições econômicas de Guilherme eram um pouco melhor do que as dela. Ele morava em São Paulo e estava bem estabelecido profissionalmente. Ele queria que ela viesse para São Paulo, para que pudessem conviver no dia a dia.  Passou, então, a incentivá-la a continuar os seus estudos numa faculdade em São Paulo e prometeu que a ajudaria a conseguir um emprego nesta cidade, que fosse compatível com o seu horário de aulas na faculdade.

Mesmo morando em São Paulo, ele costumava surpreendê-la com flores, que eram entregues pela floricultura da cidade onde ela morava. De tempos em tempos, ele a surpreendia com convites para programas que poderiam realizados imediatamente: propostas para passar um dia na casa de praia da sua família, idas relâmpago a São Paulo para assistir ao show de uma banda famosa, etc. A vida com ele apresentava muitos fatos novos e inesperados. É verdade que Guilherme não era muito atraente fisicamente, mas o mundo que ele abria para ela era fascinante. Ela estava cada vez mais apaixonada por ele.

 (Essa história foi apresentada originalmente no meu livro, O Mapa do Amor. O caso é real. Os nomes e alguns detalhes da história foram modificados para não permitir a identificação dos personagens).

De acordo com a teoria da expansão do eu, na história relatada acima, Fernanda está se apaixonando por Guilherme porque, ao se associar amorosamente a ele, ela está expandindo os seus horizontes: a sua vida ficou mais agitada e atraente, ela começa a vislumbrar uma nova perspectiva de crescimento acadêmico e profissional em São Paulo. Além disso, ela o admira porque ele sabe aproveitar a vida. Definitivamente, ela gostaria de incorporar ao seu eu e à sua vida a forma de ser e de viver de Guilherme.

Guilherme soube conquistá-la. Ela era linda, meiga e aberta a novas experiências. Ele sabia que a forma de conquistá-la era colocar ao seu alcance um mundo mais vivo e cheio de opções e encorajá-la a superar os seus próprios limites. Estava dando certo!

O papel da expansão do eu para diferentes aspectos do relacionamento amoroso

A expansão do eu tem um papel importante em diferentes fases de um relacionamento amoroso. Ela, por exemplo, é um critério para:

- Selecionar alguém como parceiro: avaliamos amoroso quanto um possível parceiro pode expandir vários setores importantes de nossas vidas

- Conquistar uma pessoa. Para conquistar procuramos maravilhá-la com o nosso potencial para expandir seu espaço de vida e o seu mundo psicológico

- Deixá-la feliz: proporcionar-lhe experiências que expandam o seu eu em áreas importantes da sua vida

- Manter o relacionamento é viver de tal forma que inclua para si e para o parceiro uma boa dose de expansão dos próprios limites materiais e psicológicos

- Esvaziar o relacionamento é deixar de ser uma fonte de expansão na vida do parceiro e fazer que a vida ao seu lado seja rotineira e sem desafios.

NOTAS

1- Aron, E. N. & Aron, A. (1996). Love and expansion of self: the state of model. Personal Relationships3, pp. 45 – 58.

2- Stendhal (1999). Do Amor. (Tradução do original em francês). 2ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes.

Grupos de estudo e supervisão de atendimentos sobre relacionamento amoroso e comunicação. Escreva para o meu e-mail ailtonamelio@uol.com.br ou ligue para o meu consultório (11) 3021 5833) para obter mais informações.

Por Ailton Amélio às 08h18

03/11/2013

Atração física: o que você pensa é mais importante do que a forma como você é!

Quais são as propriedades ou atributos corporais que contribuem para a beleza física? Qual a importância relativa de cada um destas propriedades ou atributos? Temos mais respostas para a primeira destas perguntas do que para a segunda. Existem evidências de que os seguintes atributos estão fortemente associados com a beleza física: índice de massa corporal (peso dividido pela altura ao quadrado), sinais de juventude (índice de infantilização da face, quantidade e cor natural dos cabelos etc.), estado da pele e do tecido subcutâneo cujos efeitos são observáveis (rugas, flacidez, manchas, estrias, varizes e outras), simetria corporal (quanto o lado direito do corpo se parece com o lado esquerdo), sinais de gênero (tamanho dos seios, proporção cintura/quadril, proporção ombro/quadril, características faciais típicas de cada gênero, pilosidade etc.) e quanto os atributos físicos possuem formatos e dimensões que se aproximam da média da população (por exemplo, alguns estudos mostraram que rostos criados pelo computador cujos componentes eram médios em relação a vários rostos reais eram julgados mais bonitos do que cada um destes rostos).

A autoavaliação da atratividade física é pouco relacionada com a heteroavaliação

A correlação entre autoavaliação e a avaliação realizada por outras pessoas da atratividade física é pequena. Bernard Murstein, da Universidade de Connecticut, verificou que havia uma correlação de 0,33 para os homens e 0,24 para as mulheres entre os autojulgamentos e heterojulgamentos de atratividade física. Ou seja, quando uma pessoa se autoavalia e é avaliada por outras pessoas, existe apenas uma pequena relação positiva entre estes dois tipos de avaliação: existem pessoas que se veem mais atraentes do que são para os outros, pessoas que se veem como mais feias do que são para os outros e pessoas que têm uma avaliação da própria atração que é similar às avaliações de outras pessoas sobre à sua atração. 

A autoavaliação da atratividade física é mais positivamente correlacionada com uma grande variedade de atributos pessoais do que a atratividade física real. Isto indica que a forma como a pessoa percebe a própria aparência afeta mais o seu desempenho e autoatribuições de qualidades psicológicas e sociais do que a própria aparência em si.

Relação entre atratividade física, atributos psicológicos e reações sociais

As características dos atributos físicos em si podem produzir efeitos em uma grande quantidade de percepções: atração, credibilidade, julgamentos de personalidade, etc. Estas percepções podem ser influenciadas diretamente pela aparência ou serem mediadas por outros julgamentos (por exemplo: o que é belo é bom). A credibilidade de uma pessoa pode ser influenciada pelos sinais de raça, sinais de idade, índices de infantilização (que podem afetar em diferentes graus a percepção da idade: “Ele é velho, mas tem alguns traços infantilizados”.).

Uma meta-análise sobre a formação de impressão (estereótipos), realizada por Feingold (Ver a citação na primeira Nota, no final desse artigo), constatou que as pessoas fisicamente atraentes de ambos os sexos são percebidas como mais sociáveis, dominantes, sexualmente calorosas, mentalmente saudáveis e socialmente habilidosas - mas não como possuidoras de melhores caracteres. Estas pessoas também eram vistas como menos modestas do que pessoas fisicamente menos atraentes. Esta análise não apontou nenhuma relação notável entre atratividade física e os traços básicos de personalidade (por exemplo, sociabilidade e dominância e saúde mental), para ambos os sexos; os traços de caráter (por exemplo, autoabsorção e tendência para a manipulação) também não foram relacionados com a atratividade física. No entanto, traços de personalidade relacionados com comportamentos sociais - solidão, ansiedade social, autoconsciência - eram correlacionados com a atratividade física. As pessoas de ambos os sexos com boas aparências eram percebidas como menos solitárias e com menores graus de ansiedades sociais, tanto no geral e mais ainda quando estavam se relacionado com o sexo oposto, mas tinham um maior grau de autoconsciência pública.

A aparência física estava positivamente correlacionada com medidas sociais (habilidades sociais, popularidade com o sexo oposto, número de amigos do mesmo sexo), mas eram apenas trivialmente relacionados com habilidades cognitivas. Mulheres atraentes eram mais permissivas nas atitudes, mas não nas escalas comportamentais.  Homens e mulheres atraentes tinham uma tendência para participar de uma maior variedade de atividades sexuais.

A atratividade autoavaliada estava mais relacionada com mais atributos examinados (extroversão, saúde mental, autoestima, conforto social, popularidade, com o sexo oposto e experiência social) do a atratividade hetero avaliada ambos os sexos. A autoconsciência pública, caráter, habilidades sociais e habilidades acadêmicas não eram relacionadas com os autojulgamentos de atratividade.

 Crenças infundadas sobre a relação entre tipos físicos e características psicológicas

De uma forma simplificada, os endomórficos seriam os gordos, os ectormórficos os magros e os mesomórficos, as pessoas que têm peso “normal”.

As pessoas que podem ser enquadradas em um desses três tipos físicos são vistas como possuidoras de características de personalidade típicas. Um estudo verificou que havia um grande grau de acordos entre pessoas que avaliaram os atributos de pessoas cujas silhuetas eram típicas de cada um desses estilos. Os adjetivos atribuídos por essas pessoas para os possuidores dessas silhuetas foram os seguintes:

Endomorfo: dependente, calmo, relaxado, complacente, contente, lento, plácido, vagaroso, cooperativo, afável, tolerante, afetado, complacente.

Mesoformo: dominante, alegre, confiante, enérgico, impetuoso, eficiente, entusiástico, competitivo, determinado, extrovertido, argumentativo, falante, ativo, dominador.

Ectomorfo: afastado, tenso, ansioso, reticente, autoconsciente, meticuloso, reflexivo, preciso, pensativo, atencioso, tímido, desajeitado, cool e desconfiado.

(Hickson e outros,2004, pag. 156. Veja a citação na segunda Nota, no final desse artigo).

Embora exista um bom grau de acordo entre os avaliadores, isso não significa que esses três tipos de físico é tem as características psicológicas que as pessoas imaginam. Geralmente não há relação entre as características atribuídas a cada um desses três tipos físicos e as maneiras como essas pessoas são na vida real. Ou seja, tais avaliações são baseadas em estereótipos e crenças infundadas sobre a relação entre o tipo físico e os traços de personalidade.

Em certa época era moda medir as conformações cranianas e tentar verificar se elas estavam associadas a tipos de personalidade. Por exemplo, Lombroso e certos pesquisadores nazistas desenvolveram esse tipo de estudo. Também foram realizados estudos para verificar se certas características faciais estavam associadas a características de personalidade como, por exemplo, se havia relação entre queixo quadrado e personalidade forte e determinada, ou entre a largura da testa e a inteligência. Nenhum desses estudos conseguiu encontrar evidências científicas muito fortes que indicassem que as características cranianas ou faciais prediziam características psicológicas.

1- Feingold, A. (1992). Good-looking people are not what we think. Psychological Bulletin, 111, 304-341.

2- Hickson, M. L. Stacks, D. W. Moore N J. (1994, 4th edition) Nonverbal Communication: Studies and Applications. NY, Paperback

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Por Ailton Amélio às 10h59

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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