Blog do Ailton Amélio

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23/02/2014

Cuidado com aquilo que você comunica: conteúdo das mensagens e mensagens relacionais

Muita gente pensa que para mostrar consideração pela outra pessoa basta cuidar do seu bem estar físico e material. Aquelas pessoas que pensam assim podem até serem generosas e altruístas com seus parceiros. Por exemplo, elas podem ser ótimas provedoras e protetoras: proporcionam viagens, cooperam com os afazeres domésticos, administram a economia do lar, vão ao supermercado, cuidam dos filhos, cuidam da saúde da família, nunca têm preguiça para participar dos programas de lazer, etc.

Tudo isso é muito bom, mas ser gentil com a outra pessoa nestes setores não substitui a demonstração de interesse e o acolhimento dos seus sentimentos e pensamentos. Esse acolhimento pode ser manifestado mesmo quando quem acolhe não está de acordo com a forma de pensar e sentir que está sendo acolhida. Boa parte destas demonstrações de interesse e o acolhimento acontecem através das mensagens relacionais.

Conteúdo e dimensão relacional das mensagens

Cada mensagem tem um conteúdo e uma dimensão relacional. Geralmente, a maior parte do conteúdo é passada por aquilo que é dito e a dimensão relacional, pela comunicação não verbal (tom de voz, modulação da fala, velocidade da fala, pausas, forma de olhar, movimentos do corpo que acompanham a mensagem, expressões faciais que acompanham a mensagem, etc.). As mensagens relacionais são aquelas que têm significados do tipo: tenho carinho, consideração, respeito, boa vontade por você ou, por outro lado, estou comunicando o estritamente necessário através do conteúdo do que estou dizendo, falo com você por obrigação, não gosto de você, não tenho tempo para você, etc.

Como a comunicação influencia o clima psicológico do casamento

Segundo Ronald B. Adler e colaboradores, autores de um dos melhores livros sobre a comunicação (ver a citação deste livro na Nota que está no final deste artigo), o clima psicológico diz respeito ao tom social da comunicação. Esse tom pode ser positivo ou negativo, amistoso ou hostil, receptivo ou rejeitador.

O clima psicológico diz menos respeito ao que uma pessoa faz com a outra do que com aquilo que a pessoa sente pela outra. Esse clima é determinado, em grande parte, pela valorização ou desvalorização que os interlocutores demonstram um pelo outro através da comunicação. A valorização depende, em grande parte, das mensagens de confirmação ou desconfirmação que são trocadas entre eles.

A comunicação confirmadora tem os seguintes sentidos: “Você existe”, você importa, você é importante”.  A comunicação desconfirmadora tem os seguintes sentidos: “Não me preocupo com você”. “Não gosto de você” e “Você não é importante para mim” (Adler e colaboradores)

Você está anulando ou sendo anulado pelo seu parceiro através da comunicação? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Adler, R. B, Rosenfeld, L. B. & Proctor II, R. F (2010) Interplay: The Process of Interpersonal Communication (11th ed.). New York:  Oxford University Press.

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Por Ailton Amélio às 08h26

15/02/2014

Homens que se casam com mulheres mais jovens vivem mais!

Você namoraria ou se casaria com alguém que tivesse uma grande diferença de idade em relação à sua? Você já se encontra nesta situação? Quais as vantagens e desvantagens desse tipo de relacionamento amoroso para cada uma das partes?

Recentemente a mídia vem noticiando vários casamentos de famosos nos quais há uma grande diferença de idade entre os cônjuges como, por exemplo,  as uniões conjugais do ex-presidente Fernando Henrique, do ator Francisco Cuoco e da Madonna.

Até agora se acreditava que casar com alguém mais jovem trazia vários benefícios para o mais velho, fosse este homem ou mulher. No entanto, uma pesquisa recente, realizada com mais de dois milhões de casais dinamarqueses, apresentou evidências de que apenas o homem é favorecido por este tipo de união. Essa pesquisa foi realizada por Sven Drefahl, (Max Planck Institute for Demographic Research (MPIDR), Rostock, Alemanha)e foi publicada na revista alemã Demography1. (Leia um resumo dessa pesquisa, publicado por esta revista - o link para este resumo está na Nota 1, no final desse artigo).

Esta pesquisa verificou que os homens casados com mulheres mais novas vivem mais. Quanto maior esse tipo de diferença de idade entre o casal, mais tempo os homens vivem. Por exemplo: O risco de mortalidade de um marido que é de sete a nove anos mais velho que sua esposa é reduzido em onze por cento, em comparação com casais em que ambos os parceiros têm a mesma idade. Por outro lado, os homens morrem mais cedo quando são mais jovens do que suas esposas.

As mulheres vivem menos quando há diferença de idade, para mais ou para menos, entre elas e seus cônjuges: “O risco de mortalidade de uma mulher casada com um parceiro entre sete e nove anos mais jovem aumenta 20%. Se a mulher for casada com um homem entre sete e nove anos mais velho, as chances de mortalidade também aumentam, mas em grau menor – menos de 10%.”

Este estudo ajuda a entender os resultados de várias pesquisas interculturais e históricas que verificaram que os homens preferem se casar com mulheres mais jovens do que eles próprios e as mulheres preferem se casar com homens que tenham idade semelhante às delas (veja na Nota 2,no final desse artigo, o link para uma publicação que trata desse assunto)

Aqui no Brasil, os homens são em média, aproximadamente, três anos mais velhos do que suas noivas por ocasião do primeiro casamento. Quando eles se recasam, essa diferença vai para cerca de nove anos, em média. Essas diferenças de idade ficam dentro de um limite que favorece um pouco os homens e não desfavorece demais as mulheres.

Possíveis motivos dos efeitos positivos para os homens da parceira mais jovem

Essa pesquisa com os dinamarqueses precisa ser replicada em outros países para que nos sintamos seguros de que os seus resultados não são peculiares a este país. Além disso, como se trata de uma pesquisa correlacional, não é possível atribuir, com segurança, os efeitos da maior expectativa de vida à diferença de idade.

No entanto, caso haja relação de causa e efeito entre sobrevida e diferença de idade dos cônjuges, alguns dos seus possíveis motivos são os seguintes:  

(1) Homens que se casam com mulheres mais jovens já são mais saudáveis do que os outros homens que não fazem isso. As mulheres se casam com estes homens mais velhos exatamente porque eles são mais saudáveis e atraentes. Neste caso, não foi o casamento que produziu a sobrevida: aqueles que conseguiram se casar com mulheres mais jovens já teriam mais tempo de vida, mesmo que não se casassem com essas mulheres.

(2) Os homens que se casam com mulheres mais jovens passam a se cuidar mais do que os outros que não fizeram isso. O casamento com uma mulher mais jovem faz o homem se cuidar mais para conseguir mantê-la interessada e para não “fazer feio” quando sai com ela.

(3) Casar com uma mulher mais jovem melhora a autoestima e o prazer de viver. Isso tem reflexos na saúde.

(4) Os homens se beneficiam quando têm uma esposa mais jovem para cuidar deles.

(5) Eles vivem mais porque já viveram antes de se casarem: eram bem mais velhos quando se casaram do que a média dos outros homens na época que se casam. Por exemplo, se homens de 80 anos se casam com mulheres mais jovens, nas estatísticas vai aparecer que eles viveram mais que os outros homens. Esta sobrevida, no entanto, aconteceu antes do casamento.

(6)Muitos desses homens que atraem mulheres mais jovens têm posses. Essas posses também permitem que eles se cuidem mais e, por isso, vivam mais.

Algumas dessas razões não parecem se aplicar às mulheres que se casam com homens mais jovens porque as elas precisam menos deles. As mulheres contam mais com as amigas do que com eles e, além disso, elas sofrem mais sanções sociais por se casarem com homens mais jovens. Essas sanções têm diversos tipos de efeitos negativos para elas, o que acaba comprometendo suas saúdes.

A união conjugal entre pessoas com muita diferença de idade também traz problemas. Quando essa diferença é grande, os cônjuges estarão em diferentes fases da vida. Isso pode provocar divergências entre eles como, por exemplo, a maneira de viver, tipos preferidos de lazer, compreensão plena do que está se passando com o outro, desejo sexual e objetivos de vida. O princípio mais importante que rege as escolhas de parceiros conjugais e a satisfação com o relacionamento é o princípio da homogamia(semelhanças entre o casal). Por exemplo, um casal que difira muito no nível educacional, valores e objetivos na vida provavelmente terá mais divergências e atritos do que um casal que se assemelha nestes setores.


A diferença de idade vai diminuindo à medida que o tempo passa!

Quando ela nasceu, eu tinha dez anos e, portanto, eu tinha dez vezes mais anos que ela. Quando fiz vinte, ela fez dez e, ai, eu tinha o dobro da idade dela. Quando fiz trinta, ela fez vinte. Nesta altura, eu tinha um terço a mais de idade do que ela. Quando fiz quarenta, ela fez trinta. Ai, eu só tinha um quarto de idade a mais que ela.

Se continuar assim, ela vai me alcançar e vai ter que me esperar, porque eu a esperei até agora!

(Piada atribuída ao Groucho Marks) 


"Você não se casou ainda? Não se preocupe. Talvez ela ainda não tenha nascido" (Piada de autoria desconhecida que está sendo veiculada na internet).


Problemas no relacionamento? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTAS

1- Link para o resumo da pesquisa de Sven Drefahl, publicado na revista Demography com o nome "Marriage and life expectancy"

http://www.demogr.mpg.de/en/news_press/press_releases_1916/marriage_and_life_expectancy_1813.htm (consultado em 12/02/2014)

2- Considering the evolutionary point of view: why it’s entirely rational for older men to date younger women.

http://whywereason.com/tag/douglas-kenrich/ (Consultado em 13/02/2014).

3- Quero agradecer a várias pessoas que gentilmente se voluntariam para serem entrevistadas sobre esse tema. Essas pessoas eram ou foram casadas com parceiros que tinham grande diferença de idade em relação a elas.

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Por Ailton Amélio às 09h26

09/02/2014

Você tem boa noção da imagem que as outras pessoas têm de você?

Uma das experiências sociais mais interessantes que já tive foi a de tentar descobrir como eu era percebido por outras pessoas que me conheciam há pouco tempo.

Para obter essa imagem, no início da primeira aula de um curso que eu estava mininstrando, pedi para meus alunos que escrevessem cinco atributos positivos e cinco negativos que eu parecia ter. Desta forma, obtive uma lista de atributos positivos e negativos que eu inspirava nas pessoas após poucos contatos, na condição de professor.

Fiz uma lista daqueles atributos que foram citados por pelo menos dois alunos. Em seguida, procurei registrar cada um deles de uma forma neutra (por exemplo, de diziam que eu era “Muito sério” ou "Pouco sério" eu registrava o atributo “Seriedade”). Foram identificados 32 atributos através desse procedimento. Em baixo de cada um desses atributos adicionei uma escala que ia de – 3 (“Discordo totalmente”) até +3 (“Concordo totalmente”) e pedi para todos os alunos que me avaliassem novamente, só que, desta vez, deviam usar esta escala nas suas avaliações. Por exemplo, quando avaliavam o atributo “Seriedade”  podiam julgar que eu era neutro (ponto zero na escala) ou que eu não era sério (notas negativas da escala) ou que era sério (notas positivas da escala) e indicar a intensidade (por exemplo, +2). Todas as partipações dos alunos foram realizadas de uma forma anônima (nunca identificavam suas respostas).

Fiquei surpreso com muitas das avaliações: alguns dos atributos da lista eram avaliados de forma muito semelhantes pelos alunos e outros de uma forma diversificada. Alguns dos atributos avaliados uniformemente me surpreenderam tanto muito, tanto agradável quando desagradavelmente. Não imaginava que eu passasse aquelas impressões ruins em algumas áreas e boas em outras. Boa parte da imagem que eu acreditava que passava para as outras pessoas não foi confirmada! (Não façam isso em casa. Você pode se machucar ou morrer de alegria! rs, rs).

 

Coincidências e discrepâncias entre auto e heteroimagem

Em uma outra pesquisa que realizei, obtive avaliações de cinco pessoas por parte de três tipos de avaliadores: (1) as próprias pessoas se autoavaliaram, (2) as avaliações foram realizadas pelos colegas de classe e (3) as avaliações foram realizadas por desconhecidos que assistiram a vídeos com três minutos de duração, cada um dos quais mostrando uma das cinco pessoas durante um teste de memória que foi gravado sem elas saberem.

Todas as avaliações foram realizadas através de um questionário contendo vinte e sete afirmações que as pessoas costumam fazem quando comentam sobre outras pessoas (segurança, simpatia, inteligência, etc.).

Este estudo mostrou que há muita variação entre as avaliações provenientes destas três fontes: elas podem variar desde extremamente diferentes até extremamente similares. Por exemplo, em certos casos a autoavaliação era semelhante à avaliação realizada pelos colegas de classe e por desconhecidos. Outras vezes a autoavaliação era bem diferente aos dois outros tipos de avaliação.

Existem evidências de que a semelhança entre a auto e a heteroavaliação, quanto à imagem projetada, é um sinal de saúde psicológica: a pessoa não tem uma imagem distorcida de si, nem para melhor nem para pior.

Complô do silêncio

A nossa autoavaliação muitas vezes não é muito boa porque existe uma regra social que, na ausência de fortes razoes em contrário, manda nossos interlocutores fingirem que acreditam naquela imagem que estamos tentando projetar. Por isso, nunca sabemos direito que tipo de imagem estamos realmente projetando.

O que é percebido pode ser mais importante do que é real

Vários estudos mostraram que aquilo que é percebido tem mais efeitos práticos do que o “real”. Por exemplo, quão bela uma pessoa acredita que ela é, dentro de certos limites, está mais relacionado com o seu sucesso amoroso do que a avaliação da sua beleza “real” realizada por terceiros. A crença na própria beleza produz mais segurança e motivação positiva para agir em situações sociais, o que acaba aumentando as chances de sucesso.

Outro estudo verificou que aqueles que têm melhor autoestima também têm parceiros mais qualificados do que aqueles que têm pior autoestima.

Quando a fantasia é melhor do que a realidade

A autoestima é um fenômeno que ilustra bem o princípio de que a visão correta da realidade nem sempre é a melhor opção: as pessoas que são muito realistas a respeito de si próprias geralmente têm baixa autoestima. Quem tem boa autoestima geralmente é otimista sobre si próprio. Tende a exagerar um pouco os próprios méritos. No entanto, quando há muito exagero nas autoavaliações não é típico das pessoas que têm boa autoestima.

Outro fenômeno onde certa distorção na percepção é um bom sinal é na área amorosa: aqueles que amam tendem a ver a pessoa amada como melhor do que ela é vista pelos amigos.

Você avalia bem a imagem que outras pessoas têm de você? Caso você tenha problemas nesta área, procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 11h41

05/02/2014

Não existem pessoas "preguiçosas"

"Preguiçoso" é um adjetivo depreciativo que é usado por pessoas que não se dão ao trabalho de tentar entender o que se passa com quem elas estão recriminando. O objetivo dessas pessoas é apenas expressar seus sentimentos negativos e controlar quem foi adjetivado.

Aquelas pessoas que são denominadas preguiçosas, na realidade, podem estar doentes fisicamente (anemia, hipotireoidismo, etc.), ser pouco resistentes à frustração, não visualizar o caminho para chegar aos seus objetivos, subestimar suas forças e habilidades para chegar lá. Todas essas causas são tratáveis e não "defeitos" condenáveis.

A pessoa vista como preguiçosa, também pode, simplesmente, ter uma filosofia de vida que não valorize o acúmulo de dinheiro, a conquista do poder ou fama e, por isso, não se esforça para atingir esses objetivos.

Adjetivação ou explicação científica

As pessoas costumam usar adjetivos pejorativos para taxar, punir e controlar os comportamentos indesejáveis delas próprias e de outras pessoas. Também existem muitos adjetivos que são usados para elogiar, aprovar e premiar os comportamentos considerados desejáveis.

Muitos desses adjetivos negativos e positivos sugerem, implicitamente, causas para os comportamentos aos quais eles são aplicados, como preguiçoso, incansável, generoso, egoísta. De fato, esses adjetivos não apontam causas válidas para esses comportamentos, mas servem apenas para aprovar ou desaprovar e orientar a aplicação de consequências positivas e negativas para as pessoas que foram adjetivadas.

As explicações científicas não são valorativas. Elas apenas apontam as causas dos comportamentos. De acordo com este tipo de explicação, por exemplo, o comportamento de uma pessoa “altruísta” é tão explicável como o comportamento de um “egoísta”. Ambas essas pessoas não são “boas” ou “más”: as suas características foram causadas por uma combinação de influências da genética, da cultura e de acontecimentos específicos que ocorreram na vida de cada uma delas. Essas causas não estavam sob controle dessas pessoas e, por isso, elas não pode ser julgadas como culpadas ou virtuosas por possuir essas características.

Os pais e amigos usam o sistema cientifico para compreender os filhos e amigos, respectivamente, e a adjetivação para lidar com aqueles que lhes são  indiferentes ou desagradáveis: “Para os parentes e amigos, tudo. Para os outros, a lei”

Sistema valorativo e sistema científico

Os comportamentos podem ser explicados de acordo com o sistema valorativo ou de acordo com o sistema científico.

O sistema valorativo é pseudoexplicativo e taxativo. Esse sistema, no entanto, é útil para tentar moldar o mundo social de acordo com aquilo que nos afeta. Essa moldagem acontece através da imposição de consequências negativas e positivas para aqueles comportamentos que queremos eliminar e promover, respectivamente.

Os adjetivos valorativos não fornecem explicações válidas das causas dos comportamentos aos quais são aplicados porque eles não apontam as causas reais desses comportamentos, mas, apenas, criam uma base cognitiva que justifica a aplicação de consequências para esses comportamentos e para as pessoas que os exibem. Essas consequências, sim, são verdadeiras causas que modificarão as probabilidades de ocorrências futuras desses comportamentos: aqueles comportamentos punidos ou ignorados tenderão a serem apresentados menos frequentemente. Aqueles comportamentos gratificados tenderão a aparecer mais vezes.

Ao usar adjetivos valorativos para explicar os comportamentos as pessoas também geralmente comentem dois erros:

 - Generalizam excessivamente: usam adjetivos que sugerem formas constantes de comportamentos para pessoas que tem formas variadas de se comportar. Uma pessoa pode ser “preguiçosa” para certas coisas ou em alguns momentos e “sacudida” para outras ou em outros momentos.

- Os adjetivos usados sugerem características imutáveis para pessoas. Isso é errado porque elas se comportaram de uma determinada forma em uma determinada época ou circunstância, mas podem mudar dai a algum tempo ou quando as circunstâncias são outras. características sempre presentes e duradouras.

Adjetivação pode ser funcional

Na vida real, é útil atribuir adjetivos negativos e positivos para comportamentos e pessoas que consideramos indesejáveis e desejáveis, respectivamente, porque, ao fazermos isso, isso, ai sim, introduzimos uma justificativa para atribuirmos consequências que são capazes de os controlar: aquilo que é indesejável é punido ou ignorado e aquilo que é desejável é premiado.

Só explicar cientificamente é uma forma de aceitar ou, pelo menos, não rejeitar os comportamentos explicados.

Já nascemos com a capacidade para rejeitar, sentir raiva e gostar daquilo que ocorre conosco. Essa forma de agir e reagir permite que atuemos para aumentar a frequência daquilo que nos agrada e para diminuir a frequência daquilo que nos desagrada. Ou seja, somos capazes de tomar medidas que funcionam como causas dos comportamentos alheios e dos nossos próprios comportamentos.

As explicações científicas apenas entendem o que está acontecendo, mas não autorizam nem validam a aplicação de sansões.  Essas explicações, no entanto, permitem intervenções mais eficazes para mudar o nosso mundo social e para mudarmos a nós mesmos. A direção dessas mudanças, no entanto, é determinada pelo outro sistema, o valorativo.

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Por Ailton Amélio às 13h56

01/02/2014

Felicidade: um bom casamento equivale a quadruplicar os rendimentos

Você é feliz? Cerca de 9 em 10 pessoas de diversos países ocidentais respondem “Sim” a esta pergunta. Uma pesquisa americana verificou que a média de felicidade dos participantes era 7, em uma escala que variava de zero a dez, onde cinco era o ponto neutro.

Recentemente, nesta última semana de janeiro de 2014, pedi para aqueles que estavam assistindo a uma palestrada que eu estava apresentando sobre esse assunto, que levantassem a mão caso se julgavam felizes. Fiquei muito surpreso com o resultado: praticamente todo mundo levantou a mão!

A felicidade tem muitas causas

Pois bem, embora quase todos digam que são felizes e a média de felicidade seja alta, sabemos que algumas pessoas são mais felizes do que outras. Quais são os fatores que afetam o grau de felicidade que sentimos? São muitos esses fatores. Alguns dos mais importantes são os seguintes:

- Traços de personalidade: extroversão, autoestima, etc.

- Estilos de apego: estilo seguro, ansioso ambivalente e evitativo.

- Fatores dialógicos: qualidade do relacionamento entre marido e mulher – Por exemplo, ter um cônjuge fácil de conviver.

- Fatores situacionais: perder o emprego, ter uma boa notícia, morar muito longe do trabalho, etc.

Os principais determinantes da felicidade são os relacionamentos sociais

Vários estudos vêm mostrando que a felicidade só está fortemente relacionada com os rendimentos quando as necessidades básicas não estão satisfeitas. Depois que elas estão satisfeitas, a felicidade depende mais de outros fatores. Por exemplo, uma pesquisa mostrou que nas últimas décadas a capacidade dos americanos para comprar bens matérias triplicou. Os resultados das medidas de felicidade, no entanto, não se alteraram neste mesmo período!

Robert Putnam, professor da Universidade de Harvard (leia uma entrevista com este autor. Veja o link para essa entrevista na Nota, no final deste artigo), após examinar os principais estudos sobre a felicidade, chegou às seguintes conclusões:

- Casar produz um aumento na felicidade equivalente a quadruplicar o salário.

- Iniciar uma boa amizade produz um aumento equivalente a triplicar o salário.

- Pertencer a um clube produz um aumento equivalente a duplicar o salário.

Ou seja: boa parte da felicidade vem dos relacionamentos sociais

Porque um bom casamento contribui fortemente para a felicidade

O casamento é capaz de produzir um alto grau de felicidade ou de infelicidade. Como a vida de casado nos afeta de muitas formas, o casamento pode trazer inúmeras satisfações e também, infelizmente, pode fazer da nossa vida um inferno. Os consultórios dos psicólogos estão cheios de pessoas que estão sofrendo muito porque estão em maus casamentos. A felicidade ou infelicidade produzida pelo casamento afeta não só aos cônjuges, mas também os filhos e outras pessoas que são ligadas ao casal.

Funções de um bom casamento para os cônjuges

Talvez a maior adaptação que fazemos na vida são aquelas que acontecem quando casamos: mudar de casa, assumir uma parceria jurídica, econômica, social e procriativa com o cônjuge, mudar parcialmente de identidade civil e social, ocupar novas funções, etc.

O casamento é muito mais do que uma entidade religiosa (quase todas as religiões opinam sobre o casamento), jurídica (direitos e obrigações legais) e social (o casamento é uma instituição universal: todas as sociedades possuem normas sobre o casamento e sancionam os seus cumprimentos e desvios).

O casamento está fortemente relacionado com a felicidade. Essa relação  provavelmente não é produzida pelo simples fato de ser casado legal e / ou religiosamente. Ela é produzida pelas múltiplas funções que ele desempenha na vida dos cônjuges. Muitos daqueles que combatem o casamento, de fato, estão combatendo aspectos formais dessa instituição e não as suas funções reais – aquelas que afetam profundamente as nossas vidas.

O casamento tem funções a curto (“proximais”) e a longo prazo (“distais”). As principais funções distais são geração e a criação de filhos, ou seja, as famosas “finalidades reprodutivas”. Para a nossa espécie, é mais eficiente criar filhos através dos esforços combinados de duas ou mais pessoas (casamento monogâmico e poligâmico, respectivamente) do eles serem criados por uma pessoa.

Claro que muito pouca gente se casa intencionalmente para gerar e criar filhos com eficiência. Existem outros razões mais imediatas (“proximais”) que levam as pessoas a querer se casar e a permanecer no casamento. Na nossa consciência, essas razões estão mais relacionadas com a satisfação imediata dos cônjuges do que com a perpetuação da nossa espécie.

Os cônjuges, em um bom casamento, desempenham, um para o outro, funções de pai e mãe, irmão, amigo e sócio. Algumas dessas funções específicas são as seguintes:

- Amizade

            Validação da forma de ser e pensar do cônjuge

            Proporcionas apoio psicológico, físico e material proporcionados para o cônjuge

- Entretenimento

            Companhia para lazer

    conversas interessantes, instrutivas, divertidas e acolhedoras

- Romance

- Sexo

- Companhia

- Sociedade em vários empreendimentos econômicos

Economia de tempo e dinheiro

- Inclusão em um grupo. Um bom casamento preenche, em parte, a nossa necessidade de nos sentirmos incluídos em um grupo.

Ligações com família estendida do cônjuge

Inclusão no grupo de amigos do cônjuge

 Uma pesquisa verificou que aquelas pessoas que não são casadas, mas têm essas funções preenchidas por várias pessoas, têm menos satisfação do que aquelas pessoas que têm boa parte dessas funções preenchidas pelo cônjuge. Neste caso, o relacionamento atinge uma espécie de ponto de fusão e passa por uma mudança qualitativa: há um profundo envolvimento com a pessoa que desempenha todas essas funções.

Só para dar um exemplo, vamos examinar agora algumas vantagens econômicas do casamento.

Funções econômicas do casamento

É mais econômico viver com um parceiro do que viver só. Os cônjuges funcionam como uma equipe onde cada membro economiza esforço e gasto em várias atividades. Por exemplo, fazer comida para dois não dá o dobro de trabalho do que fazer para um. Fazer compras no supermercado para dois não dá o dobro de trabalho do que fazer para um. Assim, quando um cônjuge faz a comida para dois e o outro vai ao supermercado comprar comida para dois, cada um deles só tem um pouquinho mais de trabalho no que está fazendo e economizando muito trabalho ao fazer uma dessas atividade pelos dois e ou outro fazer a atividade também pelos dois.

Morar dois em uma casa sai bem menos do que a metade do que quando mora só um. Por exemplo, os utensílios domésticos não necessitam ser duplicados, não é necessário pagar duas televisões a cabo e nem duas empregadas domésticas e nem dois condomínios.

Aumente a sua felicidade: case e cuide bem do seu casamento. Problemas nesta área? Consulte um psicólogo.

NOTA

Entrevista de Robert Putnan para Jess Miller da revista Chautauquan Daily: 

http://chqdaily.com/2013/07/23/putnam-strongest-predictors-of-happiness-are-social-relationships/  (Acessado em 01/02/2014).

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Por Ailton Amélio às 09h28

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

Histórico