Blog do Ailton Amélio

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28/04/2014

Quão feminino ou masculino é o seu corpo?

A avaliação da beleza corporal é influenciada pelas características isoladas de partes do corpo, pelas proporções entre áreas do corpo e pelo conjunto de todos esses fatores. Os estudos desta área procuraram determinar quais são as partes mais valorizadas do corpo, como são essas partes, quais são as proporções entre parte do corpo são atraentes e quais conjuntos de características são mais valorizados. Cada um desses enfoques apresenta valiosas contribuições: a atração corporal de uma pessoa é fruto tanto da beleza de cada um dos componentes do seu corpo como da harmonia entre esses componentes e do conjunto desses atributos (efeito gestaltico).

Segundo esses estudos, a avaliação da beleza corporal é influenciada pelos seguintes elementos:

- Simetria corporal: quanto o lado direito do corpo é semelhante ao lado esquerdo.

- Boa proporção entre as partes do corpo: proporção cintura/quadril; proporção ombros/ quadril; proporção entre as dimensões do tronco, das pernas, dos pés, dos braços, das mãos e da cabeça.

- Comprimento e formato de pernas (pernas longas, musculatura razoavelmente desenvolvida, etc.).

- Proporção e distribuição da gordura e musculatura: desenvolvimento da musculatura, quantidade e localização de gorduras. Homens e mulheres são diferentes entre si na quantidade e distribuição de gordura, na morfologia do esqueleto, na quantidade de massa muscular e no formato do corpo.

- Estado da pele. A pele deve ter um aspecto juvenil (por exemplo, ausência de manchas, celulite, secura, estrias, etc.).

- Sinais adequados de gênero: aqueles que distinguem os homens das mulheres (seios, proporção ombro/cintura para os homens e cintura/quadril para as mulheres; quantidade e distribuição de gordura, proporção e definição de musculatura adequada para cada sexo).

- Pilosidade adequada. A pilosidade e o seu tratamento  devem ser adequados para cada gênero, de acordo com as expectativas sociais de cada época (depilações, clareamento de pelos, comprimento de cabelos, uso de barba, etc.).

A beleza dos seios, por exemplo, depende do quão semelhantes entre si eles são (simetria), dos seus tamanhos, da proporção entre seus tamanhos e o tamanho da pessoa, das suas formas, das suas firmezas (devem ser firmes quando tocados e não devem ser "caídos"), das características da pele que os recobre (sem manchas ou cicatrizes, pele macia, etc.)e das características das suas aréolas e mamilos( tamanho das aréolas, tamanho e formato dos mamilos, etc.). Alguns critérios de beleza variam de uma cultura para outra (algumas preferem seios muito grandes e outras, seios médios) e pessoais (o formato mais admirado varia de uma pessoa para outra).

Fontes de variação dos critérios de beleza

O que é considerado atraente pode variar entre culturas e entre pessoas de uma mesma cultura. Por exemplo,  os homens diferem quanto as partes que mais valorizam no corpo feminino: uns valorizam mais os seios, outros as pernas e outros as nádegas femininas.

Proporções desejáveis entre cintura e quadril e entre ombro e quadril

A proporção entre cintura e quadril das mulheres

Pegue uma fita métrica e meça a sua cintura e, em seguida, meça o seu quadril (para tomar a medida da cintura relaxe e expire o ar dos pulmões). Agora, divida a medida da sua cintura pela medida do seu quadril. Se você é uma mulher adulta, o resultado desta divisão deve algo entre 0,67 e 0,80.

Se você é um homem adulto, meça a circunferência do seu tórax na altura do seu ombro e a circunferência do seu quadril. Divida a primeira dessas medidas pela o que deu na segunda media. Esta proporção deve variar de 1,0 a 1,40 aproximadamente.

As proporções entre a cintura e o quadril das mulheres e entre os ombros e o quadril dos homens são sinais de gênero e indicadoras dos seus funcionamentos hormonais e maturidades físicas (essas proporções não diferenciam os meninos das meninas antes da puberdade e são diferentes para homens e mulheres).

Homens que têm altos escores na relação ombro / quadril (circunferência do ombro é bem maior do que circunferência do quadril) e mulheres com baixo escore na relação cintura / quadril (a circunferência da cintura é bem mais fina do que a dos quadris) geralmente relatam que iniciaram a vida sexual mais cedo, tiveram mais parceiros sexuais, traíram mais e tiveram mais relacionamentos sexuais com parceiros envolvidos em outros relacionamentos.

As mulheres com uma proporção cintura/quadril em torno de 0,70 (a circunferência da cintura é 70% da do quadril) são consideradas mais atraentes pelos homens, independentemente da cultura. Embora o índice de massa corporal que é considerado belo varie bastante de uma época para outra e de uma cultura para outra, a proporção cintura quadril que é considera bela é bem parecida em todas as épocas e culturas. Um estudioso mediu essa proporção em pinturas e estátuas de mulheres de diversas épocas. Embora a gordura dessas mulheres tenha variado de uma época para outra, a proporção da cintura/quadril era muito parecida. Este é o caso, por exemplo, da famosa estátua da Vênus de Milo.

Isso acontece também com aquelas mulheres consideras belas nas culturas ocidentais. Essa proporção é constatada mesmo modelos muito magros como a Cher. Outros exemplos de mulheres famosas por suas belezas que também apresentavam essas proporções: Marilyn Monroe, Sophia Loren e Kate Moss.

Os concursos de beleza mais recentes tendem a escolher mulheres com medidas 90 de busto, 60 de quadril e 90 de cintura.  O que dá uma relação de 0,67 entre a cintura e o quadril.

Alguns dos sinais de gênero não são bons sinalizadores da fertilidade feminina (como o tamanho dos peitos, por exemplo) e outros sim, como a relação cintura / quadril e ombros / quadril.  

Com a idade, a cintura das mulheres engrossa e suas fertilidades declinam.

Os números menores do que o limite inferior desta faixa (0,67) indicam que a mulher é magra demais (só está medindo os limites do seu esqueleto) . Os números maiores do que o limite superior dessa faixa (0,80) indicam mau funcionamento hormonal daqueles hormônios que fazem com o corpo feminino assuma as formas ideais para o seu sexo.

Os homens que excedem 0,90 na proporção cintura/quadril são barrigudos. Isso  aumenta a probabilidade que eles tenham altos índices de colesterol.

Um estudo verificou que essas proporções estavam relacionadas com as dosagens hormonais de homens e mulheres. Este estudo verificou que aquelas pessoas que estavam fora destas proporções tinham desvios hormonais. Os corpos de meninas e meninos têm formatos semelhantes até antes do início da puberdade. Nessa época que os hormônios sexuais passam a atuar e têm como um dos seus resultados a diferenciação dos corpos femininos e masculinos.

Como a proporção cintura /quadril é um sinal de gênero, as mulheres procuraram ampliá-la artificialmente para parecerem mais femininas. Em certa época, por exemplo, as mulheres recorriam a espartilhos para diminuir a cintura e a crinolina para aumentar os quadris. Ambas esses artifícios davam a impressão de diminuir da proporção cintura / quadril. Após muitos anos de uso do espartilho, as mulheres apresentavam deformações nas vísceras e nas costelas devido à compressão. Algumas delas chegaram a tirar algumas costelas para acentuar diminuir a cintura.

A proporção ombros/quadril dos homens

Nos homens, diversas medidas de sucesso amoroso estão relacionadas com a proporção ombro/ quadril, mas não com a proporção cintura / quadril.

É esperado que os homens tenham uma proporção ombros/quadris maior do que a das mulheres. Ombros largos e quadris estreitos são sinais de masculinidade e estão relacionados com os níveis de testosterona.

As consequências sociais e a relação com a saúde da proporção entre os ombros e os quadris são menos estudadas do que a da proporção cintura/quadril. A proporção ombro/quadril, embora importante, parece ser menos importante do que a da cintura/quadril para a percepção de beleza corporal. Isso talvez aconteça porque o físico masculino é menos importante para as mulheres do que o físico feminino para os homens.

 Homens com grandes índices de proporção entre ombros e quadris e mulheres com baixos índices de proporção entre cintura e quadris relatam sexo o início da vida sexual com menor idade, mais parceiros sexuais, mais traições sexuais e mais sexo com pessoas envolvidas em outras relações.

Riscos para a saúde devido à gordura acumulada na cintura

Aqueles que têm muita gordura acumulada na região abdominal ao redor da cintura estarão mais propensos a desenvolver problemas de saúde do que aqueles que têm a maior parte da gordura nas coxas e quadris. Isso acontece mesmo quando o índice de massa corporal está dentro da faixa  normal. As mulheres com mais de 88 centímetros de cintura e homens com mais de 100 centímetros de cintura têm mais chance podem de ter problemas de saúde do que  aqueles com menor medida de cintura.

Tipos físicos

Alguns autores classificaram os tipos físicos como endomórficos, mesomórficos e ectormórficos e combinações duas as duas dessas três classificações (endomórfico/ mesomórfico, endomórfico/ectormórfico, etc.).

O tipo físico a que este tipo de estudo se refere é aquele mostrado apenas através da silhueta. Os estudos mais conhecidos apresentam três silhuetas para serem avaliadas: de frente, de costas e de lado. 

Traços de personalidade associados com os tipos de corpos endomórfico, mesomórfico e ectormórfico.

Um estudo verificou que as pessoas têm expectativas sobre os tipos de traços de personalidade que são característicos das pessoas que têm cada um desses três tipos físicos. Algumas dessas expectativas são as seguintes:

Endomorfo (obeso): dependente, calmo, relaxado, complacente, plácido, cooperativo, afável, tolerante e caloroso.

Mesomorfo (atlético): dominante, alegre, confiante, energético, impetuoso, eficiente, entusiástico, competitivo, determinado, extrovertido, falante, ativo, dominador.

Ectomorfo (magro): retirado, tenso, ansioso, reticente, autoconsciente, meticuloso, reflexivo, preciso, tímido, desajeitado, e desconfiado.

NOTA

Boa parte deste artigo foi baseada nos capítulos sobre a aparência dos dois excelentes livros citados abaixo:

(1) Knapp, Mark L; Hall, Judith A. Comunicação não-verbal na interação humanaSão Paulo: JSN, 1999.

(2) Hickson, M., Stacks, D. and Moore, N. (2003). Nonverbal communication studies and applications (fourth edition). London: Roxbury

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Por Ailton Amélio às 08h24

22/04/2014

Assertividade, passividade ou agressividade: como você expressa seus sentimentos e pensamentos?

O grau de atenção e consideração que uma pessoa recebe depende de vários fatores como, por exemplo, seu status social, sua aparência física e o seu estilo de afirmação social. Neste artigo vamos examinar os estilos de afirmação social passivo, agressivo e assertivo.

Estilos de expressão dos sentimentos e pensamentos

Em uma situação social, quando somos contrariados, podemos omitir (passividade), reagir agressivamente (agressividade), apresentar disfarçadamente (alusões, sarcasmo, tropo comunicacional, lítotes, etc. - mistura de passividade com agressividade) ou apresentar assertivamente (assertividade) aquilo que sentimos e pensamos. Da mesma forma, quando sentimos e pensamos coisas positivas, os nossos estilos de ação podem ser passivos ou assertivos. Por exemplo, podemos omitir ou expressar adequadamente a nossa apreciação quando gostamos das ações do nosso interlocutor.

Cada um destes estilos de ação pode ser o mais apropriado dependendo das circunstâncias. No entanto, a forma assertiva de agir geralmente é a mais apropriada e a que produz mais resultados.

Passividade

A pessoa passiva omite aquilo que está sentindo e pensando, tanto nas suas comunicações quanto na sua forma de agir. É a “engolidora de sapos”.

Quando age passivamente, a pessoa se anula e se inutiliza como interlocutora. Esse estilo só é bem vindo quando o outro interlocutor é um falante compulsivo e desrespeitoso, que é capaz de falar até com a mensagem automática de uma secretária eletrônica.

Muitas vezes, o passivo não consegue ser assertivo porque teme perder pontos na sua imagem pessoal, ser grosseiro, pressionar ou constranger os seus interlocutores. Na maioria das vezes, a resposta socialmente esperada contém certo grau de passividade cooperativa ou a disfarçada. Uma resposta muita assertiva pode ser menos preferida por ser considerada muito direta ou rude.

Agressividade

Uma ação agressiva é aquela que tem como objetivo, consciente ou inconsciente,  provocar ferimento psicológico ou físico no interlocutor.

A agressão pode acontecer de diversas formas: (1) através do conteúdo daquilo que é dito (por exemplo, dizer ou escrever coisas ofensivas), (2) através da comunicação não verbal (por exemplo, apresentar expressões faciais e vocais de raiva, desprezo, nojo) e (3) através de ações físicas (por exemplo, bater, morder, atirar coisas, agir grosseiramente).

As agressões psicológicas mais graves são as seguintes: fazer acusações à personalidade, mostrar nojo ou desprezo pelo interlocutor. A expressão da raiva e críticas dirigidas a comportamentos específicos são formas mais amenas de expressar agressividade.

Um dos motivos da agressão é o revide à outra agressão. Neste caso, o agressor segue o ditado “Olho por olho, dente por dente”. A agressão motivada pela raiva  geralmente é considerada menos grave do que a agressão que é perpetrada fria e premeditadamente.

Embora a raiva seja um dos principais motivos da agressão, existem outras motivações para esta forma de agir. Por exemplo, o boxeador, o soldado que está travando uma batalha e o assaltante iniciam as suas agressões devido às consequências decorrentes de suas ações e não porque estejam, necessariamente, com raiva do adversário.

A agressividade muitas vezes é multicausada. Por exemplo, um mesmo ato agressivo pode ser provocado pela forma de agir do interlocutor ou por uma irritação acumulada que foi provocada por outros acontecimentos. Neste último caso, a agressividade e a sua intensidade não podem ser entendidas apenas pelo exame direto da situação que a disparou.

Assertividade

 Uma ação assertiva é aquela expressa os sentimentos e os pensamentos do seu autor de forma adequada e na situação adequada.

As principais motivações das nossas comunicações e ações assertivas são aquilo que estamos sentindo e pensando e não os medos de ser rejeitado, de ser considerado inadequado, de perder o respeito das outras pessoas, de estar sendo inconveniente, de estar sendo aturado ou de estar usurpando um lugar ou um tempo que não é nosso.

A assertividade também acontece quando uma pessoa não se submete a um interlocutor manipulativo. Quando deseja, a pessoa assertiva limita as revelações de seus sentimentos e pensamentos (não revela só porque o interlocutor deseja que ele faça isso; só revela aquilo que deseja ou só revela na dose que deseja), não se resigna ao papel de ouvinte passivo (inerte) e se recusa a agir de maneira que não concorda só para atender o desejo do interlocutor.

Assertividade comunicativa verbal e não verbal

A comunicação não verbal é muito importante no exercício da assertividade. Por exemplo, a assertividade é mais intensa e eficaz quando a voz é firme, audível e normalmente pausada; a impressão de firmeza é ampliada quando quem está sendo assertivo orienta a parte dianteira do seu corpo na direção do interlocutor e o olha diretamente para o seu rosto enquanto fala. A impressão que passa através desses comportamentos não verbais é que a pessoa assertiva está tranquila, segura, quer ser ouvida e não hesita em ocupar o espaço psicológico que tem direito.

Expressões não comunicativas da assertividade

A assertividade pode ser manifestada através da comunicação (por exemplo, dizer firmemente que queremos uma solução rápida para uma reclamação que apresentamos anteriormente) ou através de ações não comunicativas. Por exemplo: uma pessoa diz que não está disposta a continuar uma conversa no tom agressivo que o interlocutor está usando (comunica assertivamente essa disposição). Como o interlocutor continua a usar o tom agressivo, a pessoa se levanta e se retira (a ação de retirar-se é assertiva, mas não é primariamente comunicativa).

Nos desentendimentos, além da assertividade, ainda temos a opção de tomar medidas fatuais: impor penalidades, despedir do emprego, fazer greve, etc. Isto acontece quando as duas partes querem coisas diferentes e não há acordo através da negociação. Este acordo não ocorre quando (1) o interlocutor está disposto a impor as suas preferências e acha que tem poder para isso, (2) está disposto a usar recursos que a pessoa assertiva não usaria, (3) quando uma pessoa acha não pode pagar o preço de ser assertiva (por exemplo, não pode dizer o que pensa do chefe porque precisa muito do emprego).

A comunicação apropriada na circunstância apropriada

A pessoa assertiva procura ser polida com o interlocutor. Procura não ofendê-lo ou ameaçá-lo desnecessariamente. Pelo contrário, procura fazer que ele se sinta o melhor possível para as circunstâncias presentes.

Assertividade positiva e a defensiva

As ações assertivas podem ser classificadas em dois grupos: positiva e defensiva. A assertividade positiva consiste na manifestação de coisas boas para o interlocutor. A assertividade negativa consiste em manifestações que limitam, frustram ou contrariam aquelas ações do interlocutor que colidem com os  sentimentos e pensamentos do assertivo.

O uso da assertividade positiva pode ser tão ou mais difícil do que o uso da defensiva. A maioria das pessoas tem mais dificuldade para reconhecer méritos alheios e elogiar do que para criticar e se defender.

Assertividade positiva

Uma contribuição muito importante das ações assertivas para os relacionamentos é a manifestação de pensamentos e sentimentos positivos em relação ao interlocutor e às suas ações. Estas manifestações têm a função de estimular a conversa e também influenciam positivamente os relacionamentos. Esse tipo de ação assertiva é um poderoso instrumento de validação do interlocutor e é sugerido para aqueles que querem passar a agir mais assertivamente.

Assertividade negativa

Este tipo de assertividade acontece quando estamos desconfortáveis com alguma ação de outras pessoas. A assertividade, neste caso, tem o objetivo de reconstituir nossos direitos, preservar o nosso espaço e deter a ação de pessoas inconvenientes e invasivas.

Existem várias técnicas verbais desenvolvidas para lidar com esses tipos de situações, tais como nevoeiro (não resistir aos argumentos de uma pessoa manipuladora), disco quebrado (repetir aquilo que sente e pensa), afirmação negativa (reconhecer tranquilamente os próprios erros).

Quando não vale a pena justificar os seus atos

Em certas circunstâncias, justificar os próprios comportamentos pode ser visto como um sinal de fraqueza. Isto acontece, principalmente, quando quem justifica não se sente seguro por ter agido daquela forma ou acha que não só tem direito a agir da forma como agiu se tiver outros motivos além da sua vontade.

Muitas pessoas justificam seus comportamentos porque acreditam que devem explicações para qualquer um que lhes pedir satisfações pelos seus atos.  A pessoa assertiva não se sente obrigada a justificar. Só justifica quando acha que é isso é benéfico. Ela sente que tem direito de agir como bem entender, contanto que assuma as consequências das suas ações. Se a outra pessoa discordar da sua forma de agir, isto pode ser encarado com tranquilidade.  Ela não precisa agradar incondicionalmente a todo mundo.

É natural não ter consciência das próprias motivações

Não se sinta culpado por não saber explicar as razões dos seus comportamentos. Na maioria das vezes, ninguém sabe explicar direito os motivos de suas ações. Não saber por que agimos de uma determinada forma não invalida essa forma de agir. Pelo contrario, a nossa vontade frequentemente é o resumo de uma quantidade enorme de boas motivações inconscientes.

A justificativa tem um inconveniente: ela facilita tentativas de manipulação porque abre espaço para a contra argumentação: quem ouve um argumento pode não aceitá-lo ou levantar novas objeções baseadas naquilo que ouviu. Algumas destas contra argumentações são manipulativas e infindáveis e visam apenas a derrota daquele que continua a se justificar.

Você tem dificuldades para expressar seus sentimentos e pensamentos? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 08h12

15/04/2014

O seu relacionamento é desvitalizador?

Veja como Letícia foi desvitalizada por Felipe

Letícia era muito alegre e expansiva. Tinha muita facilidade para fazer amigos, adorava encontros sociais, ia a muitos shows, estava sempre em festas e participava de muitos happy hours com os colegas da sua firma.

Ai, ela conheceu Felipe. Felipe foi atraído pela vitalidade social e alegria de viver de Letícia. No entanto, ele era mais retraído do que ela, muito ciumento e possessivo. Assim que passou aquela fase inicial na qual o novo parceiro faz de tudo para agradar e conquistar aquela que parecer ser a sua cara metade, ele foi manifestando seu desconforto com as amizades e os programas sociais de Letícia. Ficava amuado quando ela dizia que ia sair como com os amigos, odiava quando ela dizia que ia a um happy hour com os colegas de trabalho e ficava muito enciumado quando observava que ela estava se divertindo muito durante uma conversa com amigos.

Felipe também não era nutritivo para Letícia. Ele sempre queria ser o cento das atenções. As conversas entre eles tinham que tratar, quase que exclusivamente, dos assuntos de Felipe. Era ele quem tomava as principais decisões do casal.

Quando contrariado, ele era muito crítico, atacava a personalidade de Letícia e passava um longo tempo sem falar com ela. Além disso, ele quase nunca a elogiava. Ele agia assim porque se sentia ameaçado pelo sucesso profissional dela.

Depois de um período de resistência, Letícia foi gradualmente deixando de comparecer às reuniões sociais, foi restringindo suas amizades e deixando de comentar com Felipe sobre suas realizações profissionais. Ela foi se desvitalizando e, por isso, Felipe foi deixando de achá-la interessante e de admirá-la. Agora ele estava começando a se interessar por outras mulheres.


Pessoas que contribuem para a expansão dos nossos limites psicológicos

Segundo a teoria da expansão do eu, nos apaixonamos por aquela pessoa que tem alguma característica que admiramos e que não temos, (leia mais sobre esta teoria – veja o artigo citado na Nota 1, no final desta postagem). A associação com essa pessoa geraria uma oportunidade para recebermos a sua influência e, assim, desenvolvemos a característica admirada ou, simplesmente, adquirimos essa característica quando formamos uma unidade com a pessoa que a possui.

Algumas pessoas ajudam a expandir os nossos limites psicológicos: quando nos associamos a elas, crescemos e expandimos os nossos horizontes psicológicos: descobrimos que somos mais capazes do que imaginávamos, vamos até onde imaginávamos que não tínhamos condições de ir, progredimos na carreira, aprendemos a aproveitar melhor a vida, diminuímos as nossas inibições, melhoramos a nossa autoestima, ampliamos nossos círculos sociais, etc. Em resumo, nos tornamos pessoas mais evoluídas do éramos antes dessa associação. Quem não se apaixonaria por uma pessoa assim?


Pessoas que contribuem para a retração dos nossos limites psicológicos

A associação com certas pessoas contribui para a retração dos nossos horizontes e provoca um retrocesso no nosso crescimento psicológico. Geralmente evitamos essas pessoas e não nos associamos com elas.

Mas as coisas não são tão simples assim. Geralmente as pessoas não mostram como são assim que as conhecemos. Pelo contrário: no início dos relacionamentos, as pessoas se esforçam para serem legais, mostram apenas suas melhores qualidades e escondem seus defeitos. Por esses motivos, podemos iniciar um relacionamento com alguém que parecer ser nutritivo para nós e, realmente, no começo do relacionamento tal pessoa é assim. Depois que o relacionamento já está estabelecido e vários tipos de vínculos já foram formados (econômicos, sociais, planos de vida, etc.), essas pessoas mostram como realmente são ou se transformam em pessoas bem diferentes daquelas que incialmente conhecíamos.

Para ser justo, em muitos casos não foram os nossos parceiros que mostraram outro jeito de ser ou se transformaram sozinhos em outras pessoas assim que o relacionamento se estabilizou. O que acontece muitas vezes é que a combinação das características dos nossos parceiros com as nossas ou a ocorrência de fatos graves (falecimentos, doenças, insucesso econômico, sérios problemas psicológicos, etc.) faz que tanto eles como nós mudemos e tais mudanças tornaram tal combinação nada nutritiva. Ou seja, ambos os parceiros contribuem para que um relacionamento se torne vitalizador ou desvitalizador.


Pessoas que foram desvitalizadas pelos seus parceiros

Atendo no meu consultório muitas pessoas desvitalizadas. Verdadeiras zumbis ou  mortas-vivas. São pessoas sem energia, apáticas, que perderam a alegria de viver, que perderam a ousadia, que mais reagem do que agem. Isso faz que elas se tornem chatas e sem novidades.

Existem muitos motivos para este tipo de desvitalização: doenças físicas (hipotireoidismo, anemia, etc.), doenças psicológicas (depressão, timidez excessiva, baixa autoestima, etc.) e um relacionamento desvitalizador. Este relacionamento pode ter acontecido ou estar acontecendo com os pais, com os amigos e com o parceiro amoroso.

Essa desvitalização é mais grave, ou está em um estágio mais avançado, quando o desvitalizado já não sabe mais o que quer ou o que sente e acha errado tentar se firmar. Quando isso acontece, a sua autopercepção já está atrofiada e ele já se rendeu aos desejos do desvitalizador! Neste caso, um bom trabalho terapêutico pode ser necessário para reverter esse estado.


Pessoas frágeis se desvitalizaram sozinhas

A desvitalização de certas pessoas não foi provocada por seus parceiros, mas sim por elas próprias. Essas pessoas já eram muito frágeis quando o relacionamento começou e, por isso, acabaram se desnutrindo psicologicamente, apesar de seus parceiros serem razoavelmente nutritivos. Essas pessoas são exageradamente inseguras e sensíveis à rejeição, precisam de aprovação do parceiro para tudo. Pior ainda, são aquelas pessoas que imaginam as reações negativas que o parceiro poderia ter a tudo que elas fazem ou deixam de fazer. Imaginam e imediatamente tentam evitar ações que supostamente seriam condenadas, mesmo antes que o parceiro se manifeste negativamente, o que talvez nunca aconteça. Neste caso, o parceiro não é o desvitalizador, mas sim, as imaginações dessas pessoas frágeis. Estas pessoas só não se desvitalizam gravemente quando encontram parceiros muito maternais que vivem sempre tentando colocá-las para cima.

Você está em um relacionamento desvitalizador? Você é desvitalizador para o seu parceiro? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

1 - Amelio, A.  Expansão do eu: escolha de parceiros, consquista amorosa e relacionamento feliz. 

http://ailtonamelio.blog.uol.com.br/arch2013-11-01_2013-11-30.html

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Por Ailton Amélio às 08h25

07/04/2014

Erotofilia ou erotofobia: você gosta ou teme o sexo?

O sexo pode provocar reações que variam desde um grau extremo de aversão (grau extremo de “erotofobia”) passando por um ponto neutro e chegando até um grau extremo de atração (grau extremo de “erotofilia”).

Os diversos graus de erotofilia e erotofobia de uma pessoa podem ser identificados através de várias das suas atitudes, valores e comportamentos. Por exemplo, os erotofóbicos têm maior propensão para o autoritarismo, apresentam papéis sexuais mais tradicionais, sentem mais culpa quando se envolvem em certas práticas sexuais e têm mais preconceito contra os homossexuais do que os erotófilos. Os erotófilos tendem a se masturbar, a desenvolver fantasias sexuais e a pensar em sexo com mais frequência do que os erotofóbicos. Os erotófilos também iniciam a vida sexual cedo e têm um maior número de parceiros sexuais do que os erotofóbicos. Os erotófilos também tomam mais cuidados com a saúde na área sexual (fazem mais exames preventivos, por exemplo). (Veja mais detalhes no artigo de William A. Fisher e colaboradores – a citação completa é fornecida na Nota 1, no final deste artigo).

O grau de erotofilia pode ser aumentado

William A. Fisher e colaboradores também afirmam que as atitudes quanto ao sexo são em grande parte aprendidas: aqueles indivíduos que foram criados por pessoas que tinham uma atitude positiva e natural quanto ao sexo são aquelas que mais gostam de sexo. Por outro lado, pessoas que foram criadas em um meio repressor, que tiveram uma forte educação religiosa ou que sofreram traumas na área sexual têm mais chance de terem se tornado  erotofóbicos (por exemplo, estas pessoas podem evitar o sexo, falar de sexo e encontros amorosos que aumentem a probabilidade de atividades sexuais) ou, pelo menos, um baixo grau de erotofilia.

O gosto de sexo por sexo pode ser desenvolvido e até superdesenvolvido posteriormente, na idade adulta, como acontece, por exemplo, com aquelas pessoas que se viciaram em sexo. Já entrevistei e atendi muitas pessoas que até certa idade não gostavam de sexo e ai aconteceu algo que despertou seus gostos neste setor. Por exemplo, algumas delas começaram a namorar um parceiro que tinha uma ótima atitude e muito gosto por sexo e que lhes serviu de modelo, incentivador e professor neste setor. A terapia sexual pode ser necessária para aqueles que desenvolveram erotofobia ou para aqueles que têm fortes inibições sexuais e querem aumentar seus graus de erotofilia. Vamos examinar agora um pouco a resposta sexual humana e o desejo sexual para que possamos entender melhor a erotofilia e a erotofobia.

A resposta sexual humana

Um episódio sexual completo e bem sucedido passa por quatro fases: desejo (fantasias acerca da atividade sexual e desejo de ter atividade sexual), excitação (sentimento de prazer e alterações fisiológicas concomitantes. A excitação consiste, por exemplo, na ereção peniana e na lubrificação e na expansão da vagina), orgasmo (clímax sexual, com liberação da tensão sexual e contração rítmica dos músculos do períneo) e resolução (sensação de relaxamento muscular e bem-estar geral). (Manual de Diagnóstico Estatístico de Transtornos Sexuais – 4a. Edição, pp. 467 - 468).Em seguida vamos abordar mais detalhadamente a primeira destas fases – o desejo sexual.

Determinantes do desejo sexual

Stephen B. Levine, professor da Case Western Reserve University School of Medicine, apresentou uma teoria que ajuda muito a entender o desejo sexual. Segundo este autor, o desejo tem três componentes positivos (aumentam o desejo) -  o impulso, a motivação e o querer - e um negativo (diminui o desejo), os inibidores sexuais . Vamos apresentar agora um resumo desta teoria.

O impulso sexual

O impulso é o componente biológico do desejo. A sua intensidade aumenta à medida que vai passando o tempo desde o último orgasmo. Funciona de forma semelhante à fome: no momento em que há ingestão suficiente de comida, ela é saciada. À medida que vai passando o tempo desde a última refeição, ela vai aumentando novamente. Outros fatores também afetam a fome: a energia gasta (por exemplo, atividades físicas e das tensões psicológicas queimam mais energia e aumentam a fome), a velocidade do metabolismo e o tipo de alimento ingerido na última refeição. Algo semelhante ocorre com o impulso sexual: quando acontece um bom encontro sexual, ele fica temporariamente saciado. À medida que vai passando o tempo após este encontro, a intensidade do desejo vai aumentando novamente.

A intensidade do impulso sexual está relacionada com a quantidade de hormônios sexuais que é produzida pelo organismo. A produção de hormônios sexuais é mínima na infância, atinge o ápice na adolescência, permanece alta até mais ou menos aos quarenta anos e, então, começa a diminuir lentamente. Devido à saturação destes hormônios, os adolescentes, principalmente os homens, são tomados por uma espécie de furor sexual: eles pensam muito em sexo, masturbam-se frequentemente, interessam por pornografia, querem transar com quase tudo que lembre os objetos sexuais de seus interesses. A partir desta idade, a quantidade de hormônios sexuais começa a diminuir. No entanto, felizmente, o desempenho sexual não decresce proporcionalmente à idade ou ao nível hormonal. Esta ausência de proporção acontece devido às contribuições independentes dos outros três componentes do desejo sexual – a motivação, o querer e as inibições.

A motivação

A motivação pode ser comparada ao apetite pela comida. Quando a comida é boa, atraente e gostosa, aumenta a nossa vontade de comer e tendemos a comer mais do que comeríamos caso a comida fosse menos atraente. No caso do apetite sexual, contribui muito o fato de amarmos o parceiro, dele ser bonito e se comportar de uma forma sensual. Diversos outros fatores também ajudam a aumentar o desejo. Por exemplo, estar livre de preocupações e se encontrar com o parceiro em um ambiente apropriado e seguro para sexo pode contribuir para que o desejo se manifeste mais livre e intensamente. Uma das coisas que mais provoca o desejo é a manifestação de desejo por parte do parceiro.

Muitas pessoas também aprendem a “pegar carona” em excitações produzidas por outros acontecimentos que, em si, nada têm de sexual ou erótico. Várias das alterações fisiológicas que são produzidas por estes fenômenos são do mesmo tipo produzido pela excitação sexual e, por isso, podem ser capitalizados para aumentar esta excitação. Por exemplo, transar em locais onde haja o risco de ser flagrado por outras pessoas (elevadores, vestiários de lojas, praia) pode aumentar o ritmo cardíaco e a adrenalina no sangue. Essas alterações também são produzidas pela atividade sexual. Como não dá para distinguir as origens destas alterações, fica mais fácil atribuir tudo à excitação sexual. Por este motivo, algumas pessoas procuram fazer ou dizer coisas “proibidas” ou arriscadas para aumentar seus desejos e excitações.

O querer

O querer é a parte racional do desejo. A analogia com a ingestão de alimentos continua útil aqui: podemos comer algo porque sabemos que faz bem, mesmo quando não estamos com fome e não gostemos daquele alimento. No caso do sexo, podemos transar porque queremos contentar a parceira, porque achamos que é nosso dever conjugal ou para que a parceira “não procure em outro lugar o que está faltando em casa”.

“Pegar no tranco”

Muitas vezes o sexo é iniciado sem desejo ou com pouco desejo, mas o desejo surge durante as práticas sexuais. Este desejo surge ou é aumentado tanto pela estimulação das zonas erógenas como pelas propriedades excitatórias das práticas sexuais (por exemplo, ver os sinais de excitação do parceiro e provocá-lo pode excitar muito certas pessoas). Uma pessoa que conheço deu o nome para o desejo que só depois que as atividades sexuais já começaram “pegar no tranco”. Esta expressão é mais comumente usada quando um carro não pega pelo acionamento da partida, mas só quando é empurrado. Neste caso, o condutor engata uma segunda, o carro é empurrado e quando ganha velocidade, o condutor tira abruptamente o pé da embreagem. Nesta hora o carro dá um tranco e pode pegar. No sexo, esta via para o nascimento do desejo pode ser utilizada de vez em quando como, por exemplo, quando um dos parceiros está dormindo e o outro começa a estimulá-lo sexualmente. No entanto, nunca sentir desejo pelo parceiro sem este tipo de provocação sensorial é um sinal de que ele não é um bom objeto de desejo.

A inibição Sexual

O sexo é carregado de significados em todas as culturas. A sua prática é regulada por normas determinadas principalmente pela religião e pela moral e, muitas vezes pela legislação. Por exemplo, existem leis que determinam quais são as práticas ou tipos de parceiros que são “legais” ou “ilegais” (sedução de menores, assédio, etc.) e passíveis de sanções penais. As pessoas são educadas para sentir culpa, vergonha e outros tipos de desconforto quando o sexo não é praticado segundo as normas aceitáveis pela sociedade.

Poucas pessoas podem afirmar que não têm nenhuma inibição para falar de sexo e para expressar o que sentem, desejam ou não desejam durante a prática sexual. Essas normas também são uma das razões pelas quais muitas pessoas só ficam à vontade para praticar sexo no escuro.

Aumentando o grau de erotofilia

O grau de erotofilia varia muito entre as pessoas. Algumas das causas dessa variação não são psicológicas como, por exemplo, a idade, as doenças crônicas e certos medicamentos.  Outro grupo de causas do baixo grau de erotofilia também não é de origem psicológica, mas depende de motivações psicológicas para que possa ser alterado como, por exemplo, o estresse a exaustão pelo trabalho excessivo e tenso.

Embora os dois grupos de causas acima possam eventualmente ser os mais importantes, geralmente eles não são os principais determinantes da erotofilia ou erotofobia. Os maiores determinantes da erotofilia ou da erotofobia são as atitudes e valores diante das práticas sexuais e as experiências que propiciam o autoconhecimento na área sexual e as habilidades para obter e fornecer prazer.

 Você gosta pouco de sexo? Você teme o sexo? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTAS

1- Fisher, WA, Byrne, D., White, LA, & Kelley, K. (1988). Erotofobia-erotofilia como uma dimensão da personalidade. Journal of Sex Research, 25, 123-151. Link para um resumo desse artigo: http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00224498809551448#.U0Fo9fldVMQ

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Por Ailton Amélio às 08h43

01/04/2014

Maneiras de identificar a mentira

A mentira pode ser identifica através de tecnologias como o polígrafo (“detector de mentiras”) e aparelhos para medir a frequência da voz, através de comportamentos, através do conteúdo da fala (por exemplo, contradições entre o que uma pessoa diz em um dado momento e outras fontes de comparação sobre o que ela disse), através da forma como as coisas são ditas (alterações nas pausas, na frequência da sua voz, etc.)  e através de rastros que o mentiroso deixa (contas telefônicas, gastos no cartão de crédito, etc.).

O polígrafo mede alterações fisiológicas que geralmente acontecem quando as pessoas mentem: alterações em ondas cerebrais, ritmo cardíaco, pressão sanguínea, resistência da pele à passagem de corrente elétrica.

Quatro maneiras de mentir

Segundo Paul Ekman, o maior estudioso da atualidade das expressões faciais, a verdade pode ser falseada de quatro maneiras:

- Omitir:  Deixar de relatar informações comprometedoras. Uma alegação costumeira para justificar essas omissões é afirmar: “Você não perguntou. Por isso, eu não disse nada”.

- Acentuar. Por exemplo, cumprimentar alguém mais efusivamente do que faria se agisse verdadeiramente. Outro exemplo: dar um belo presente para a esposa, por ocasião da data de início de namoro, para fingir que está muito envolvido com ela, com a finalidade de evitar que ela desconfie que o marido presenteador a está traindo.

- Atenuar. Por exemplo, segurar boa parte da irritação e indignação que sentiu pelo chefe quando ele escalou você para trabalhar entre o Natal e o dia de ano.

- Simular: Por exemplo, simular alegria com a promoção de um colega que foi promovido sem merecer e de quem você não gosta.


Pistas que indicam a mentira

Conteúdo da fala

O conteúdo da fala pode apresentar muitas pistas que indicam que uma mentira está ocorrendo. As principais dessas pistas são as seguintes:

- Contradições.

Existem três tipos de contradições que são indícios de mentira: (1) contradição com os fatos (por exemplo, você passa em frente a casa do seu namorado e verifica que o seu carro não está na garagem. O seu namorado, no entanto, afirma que ficou o tempo todo em casa). Muita gente guarda uma informação confiável sobre um fato e questiona o suspeito para ver se ele fará afirmações que contrariam tal informação, ou seja, se ele mente sobre o fato. Se ele for pego em uma mentira, isso é um indício que está escondendo mais coisas. No caso do namorado que nega que saiu de casa, a sua mentira pode indicar que ele fez coisas que não quer confessar no tempo que esteve fora; (2) contradição com declarações de outras pessoas. Por exemplo, o seu funcionário afirma que fez uma entrega, mas o seu cliente afirma que não a recebeu e (3) contradição com o que a própria pessoa disse antes. Por exemplo, o seu marido afirmou no começo da conversa que havia almoçado com um amigo que você conhece. Quando você lhe disse que ia conferir com o amigo, ele afirmou que, de fato, almoçou com um cliente que também é amigo dele e que foi isso que ele quis dizer.

A polícia usa muito esses três tipos de contradições como evidências que indicam que as declarações de um suspeito são falsas. Por exemplo, um policial interroga o suspeito por muito tempo sobre um acontecimento. Depois refaz o interrogatório. Quando a pessoa inventou muita coisa no primeiro interrogatório, é muito difícil que ela relembre de tudo que falou anteriormente quando é reinterrogada. Ai ela cai em contradição. Outro tipo de contradição é aquele que acontece entre aquilo que a pessoa diz e as declarações de outras pessoas. Por exemplo, o suspeito diz que estava trabalhando na hora do crime, mas os colegas testemunham que ele estava ausente nesse horário. Neste caso, os interrogadores podem realizar uma "acareação": promover um debate face a face entre aqueles que estão se contradizendo).Outro exemplo: contradição entre as declarações do suspeito de que ele estava em um determinado local e as gravações de vídeo do estacionamento do prédio mostram que ele saiu antes daquele horário e só voltou muito tempo depois.

Gastar tempo demais pensando para responder quando deveria ter a resposta pronta.

Por exemplo, você pergunta para o seu filho se ele foi à aula ontem. Ele dá uma enrolada antes de responder. Ele age como se estivesse pensando: “Se fui à aula ontem?” (Repetir a pergunta é uma maneira de ganhar tempo). “Por que você está perguntando?”

- Oferecimento exagerado de detalhes.

Quem está mentindo geralmente exagera na apresentação de detalhes. A finalidade deste tipo de exagero é tentar dar um ar de veracidade para o que está relatando.

Sinais não verbais de mentira

Existem dois tipos de sinais não verbais que podem indicar a mentira:

(1) Sinais produzidos pelo medo de ser pego e pelo desconforto provocado por estar mentindo (muita gente mente sem sentir esse tipo de desconforto) e (2) vazamentos de sinais que indicam qual seria a verdade que está sendo escondida.

Geralmente esses dois tipos de sinais são mais facilmente identificados através da paralinguagem (pode ser definida aqui, grosso modo, como a forma como a pessoa diz algo) e das expressões faciais.

A identificação da mentira através desses dois tipos de sinais, quando é realizada por pessoas treinadas para esta finalidade, atinge maiores índices de acerto do que aqueles que são obtidos através do uso do polígrafo.

Alguns sinais não verbais de mentira são os seguintes:

- A voz se torna mais fina e menos modulada.

- A face mostra sinais de tensão e medo.

- A face mostra expressões micromomentâneas (expressões que duram frações de segundos e que mostram as verdadeiras emoções que estão sendo escondidas).

- A gesticulação que acompanha a fala diminui de frequência e amplitude em relação a aquela que acompanha a fala quando a mesma pessoa está dizendo a verdade.

- Olhar mais tempo ou olhar menos tempo nos olhos do que quando está falando a verdade (os “maquiavélicos” olham mais nos olhos quando mentem. As pessoas comuns olham menos).

Vamos apresentar agora, como exemplo, algumas pistas que indicam que está havendo traição amorosa.

Mentiras para ocultar a traição amorosa

 No meu consultório, um dos tipos de mentira que mais afeta a vida dos pacientes é aquele que visa esconder  a traição amorosa.

A traição é uma das três principais causas da dissolução do relacionamento amoroso (as outras duas são o esvaziamento e as brigas frequentes e intensas). Quem está traindo geralmente lança mão de diversos tipos de mentira como, por exemplo: (1) omitir que está tendo outro relacionamento, (2) explicações mentirosas sobre onde esteve e com quem esteve; (3) mentiras sobre as causas das alterações nos próprios comportamentos (por exemplo, alegar que está muito tenso devido a problemas no trabalho para justificar as alterações na frequência e na qualidade das relações sexuais e as alterações na afetividade demonstradas para companheira que está traindo); (4) quando descoberta a traição mentir para diminuir sua gravidade. Por exemplo, mentir sobre a natureza do relacionamento com a amante. Dizer que as traições ocorreram menos vezes do que de fato aconteceu e que “era só sexo”, quando, de fato, havia envolvimento amoroso.

A identificação de mentiras para ocultar traições amorosas envolve o exame de diversos tipos de pistas. Algumas delas são as seguintes:

Comportamentais

            Além das expressões faciais e das vocalizações, outros tipos de alterações nos comportamentos não verbais podem ser evidências de mentiras relativas à traição. As principais dessas alterações são as seguintes:

- Deixar de mencionar ou mencionar demais alguém

- Ouvir o parceiro usando voz de flerte no telefone

- Alterações na afetividade. Por exemplo, ficar mais ou menos carinhoso do que o usual

- Alterações na sexualidade. Por exemplo, diminuir ou aumentar significativamente as manifestações de desejo sexual.

Rastros

Quem trai geralmente deixa rastros. Quem deixou esses rastros vai ter que explicá-los quando eles são encontrados e poderão tentar mentir quando eles forem evidência de traição. Esses rastros também poderão contradizer alguma mentira do traidor (uma conta de motel, por exemplo, contradiz a sua explicação anterior de que naquelas horas ele estava no trabalho). Alguns desses rastros são os seguintes:

- Bilhetes comprometedores recebidos

- Odores diferentes na roupa

- Contas de restaurantes e motéis

- Horas desaparecidas

- Mudanças nos horários que fica fora de casa ou no trabalho

Nenhuma das pistas acima é suficiente para afirmar que está havendo mentira. Sempre pode haver outra explicação para a presença da pista. Muitas vezes, a mentira que está ocorrendo pode ter um motivo que você não imagina (por exemplo, muitos homens omitem que foram almoçar com uma amiga, não porque esteja havendo traição, mas sim porque suas esposas têm muito ciúmes dessa amiga). Quanto mais pistas, maior a probabilidade que a mentira esteja ocorrendo.

Problemas com mentiras? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 08h08

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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