Blog do Ailton Amélio

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25/01/2015

Quando o seu cônjuge é seu melhor amigo, suas chances de felicidade são maiores

Um artigo científico publicado recentemente apresentou evidências que confirmam que o bom casamento contribui duradouramente para a felicidade e evidências que indicam que um dos principais aspectos do casamento que contribui para a felicidade é a amizade entre os cônjuges. Este é o tema que vamos abordar nesta publicação.


Amizade é diferente de dedicação e amor romântico

As duas seguintes histórias ajudam e entender melhor o conceito de amizade. (Essas histórias foram apresentadas anteriormente no meu artigo: “Relacionamento sem intimidade é saco vazio que não para em pé”).

Sofia e Arlindo: alto grau de amizade entre o casal

Sofia e Arlindo estão morando juntos. Sempre que alguém pergunta para qualquer um dos dois “Quem é o seu melhor amigo?”, cada um deles, invariavelmente e sem pestanejar, responde que é o outro cônjuge.

Sofia e Arlindo gostam muito um do outro, confiam totalmente no outro, colocam em primeiro lugar o relacionamento que existe entre eles, são compreensivos entre si, validam o modo de pensar e sentir do outro, interessam-se muito sobre o que está se passando com o outro, compartilham bastante com o outro aquilo que é importante para si e sabem que podem contar com o outro tanto na área psicológica quanto na área material.

Sofia e Arlindo adoram conversar entre si e não têm medo de compartilharem entre si o que estão sentindo e pensando. Sabem que não precisam se defender do outro porque este será compreensivo e continuará gostando e admirando após o compartilhando. 


Guilherme é apaixonado e dedicado a Helena, mas não é seu melhor amigo.

Guilherme fala para Helena:

Sou apaixonado por você. Penso em você frequentemente e sou muito romântico com você: adoro olhar nos seus olhos e, quando faço isso, perco a noção do tempo e quase entro em êxtase.

Tenho o maior orgulho de ser seu marido. Você é linda e carismática. Onde quer que eu apareça na sua companhia, sou invejado.

Tenho a maior atração sexual por você.

Eu faço tudo por você: ajudo em casa, você tem o melhor carro da família, faço questão que você se vista muito bem, more bem e coma do bom e do melhor. Faço todas as suas vontades: vou buscar você onde quer que esteja e a qualquer hora; sempre viajamos para onde você quer...

Helena responde para Guilherme:

- Você realmente me ama, tem orgulho de estar casada comigo e faz por mim tudo isso que você disse! No entanto, você não gosta de conversar comigo, não se interessa pelo que penso, não sabe o que me realiza e o que me preocupa na vida.  Acho que você não gosta dos meus assuntos, não valoriza o que penso e não se interessa pelos meus sentimentos.

Sempre que estamos juntos, você está com a atenção e outra coisa: mexendo no computador, assistindo TV, dando mais atenção para os seus amigos do que para mim...

Você não me conhece mais. Só cuida do meu bem estar físico e do meu conforto material, e isso não é suficiente. Para você, sou como um carro de luxo: você adora o seu brinquedinho, tem orgulho dele, cuida muito bem dele, mas, por motivos óbvios, não conversa com ele.

Quero alguém que me valorize como pessoa e não que cuide de mim como cuidaria de um objeto de luxo.

Essas duas histórias sugerem que a conversa é a forma mais nobre de mostrar amizade, valorizar e considerar uma pessoa. Claro que não é qualquer tipo de conversa que tem esse efeito. Para mostrar essas atitudes positivas por uma pessoa, é necessário dar-lhe atenção, mostrar que sente prazer com a sua companhia, ouvir ativamente o que ela diz e se interessar pelo que ela sente e pensa.  


Sempre houve e sempre haverá alguma forma de casamento

Os antropólogos nunca encontram nenhuma sociedade onde não houvesse algum tipo de casamento. A universalidade dessa instituição se deve às diversas funções que ela oferece para a sociedade e para os indivíduos.

Até pouco tempo atrás, os críticos do casamento afirmavam que ele era uma instituição falida e ultrapassada e, por isso, fadada a desaparecer. Segundo esses críticos, muitos fatos atestavam a inadequação do casamento: as crescentes taxas de divórcio; as percentagens de jovens que estavam adiando o início do casamento ou deixando de casar-se; as percentagens de traição cresciam a cada nova pesquisa.

Embora as percentagens daqueles que adiam ou recusam-se a casar continuem crescendo e as taxas de traição estejam mais altas do que nunca, alguns sinais que atestam as funções positivas do casamento começam a aparecer nas novas pesquisas: as taxas de divórcio pararam de crescer e estão cada vez mais claras as contribuições dos bons casamentos para a saúde física e psicológica.

Mais recentemente, as pesquisas vêm constatando que os bons casamentos estão fortemente associados à felicidade. Por exemplo, segundo uma delas, o aumento do grau de felicidade que é produzido por um bom casamento equivale ao aumento de quatro vezes no valor do salário.

Outra pesquisa recente, publicada no mês passado (dezembro de 2014), além de confirmar as contribuições do casamento para felicidade, também indica que um dos principais ingredientes do casamento que afeta o grau de felicidade é a amizade entre os cônjuges.


O casamento contribui para a felicidade

Recentemente Shawn Glover (Department of Finance Canada) e John F. Helliwel (University of British Columbia) publicaram recentemente um artigo que apresenta evidências que indicam que o casamento contribui para a felicidade. Este artigo também apresenta evidências de que não é fato de estar formalmente casado que contribui para a felicidade, mas sim o grau de amizade que existe entre os cônjuges: a felicidade é maior para aquelas pessoas que afirmam que o cônjuge é o seu melhor amigo do que para aquelas pessoas que citam outra pessoa como o melhor amigo. (O link para a versão online dessa publicação é fornecida na Nota, no final deste artigo).

Os dois autores dessa pesquisa analisaram os dados de outras três outras pesquisas que foram realizadas com milhares de ingleses e pessoas de outros países.

Neste artigo, vamos comentar alguns desses achados sobre o papel da amizade para a felicidade.

O casamento tem efeitos duradouros na felicidade

Existem evidências que indicam que os acontecimentos afetam apenas temporariamente o nível de felicidade: quando algo positivo ou negativo acontece para uma pessoa, geralmente ela fica temporariamente mais feliz ou infeliz, respectivamente. Depois de algum tempo, o seu grau de felicidade volta ao nível anterior ao acontecimento. Essas evidências fortaleceram a crença de que o nível de felicidade ou é determinado geneticamente ou é fixado muito cedo na vida (fatores disposicionais) ou é determinado por uma combinação desses dois fatores

Os efeitos de um bom casamento, no entanto, parecem alterar duradouramente o nível de felicidade. Na pesquisa de Glover e Helliwell, as comparações, em diversas faixas etárias, dos níveis de felicidade dos solteiros com os níveis de felicidade dos casados mostraram que os casados são mais felizes do que os solteiros durante quase toda a vida, e não apenas na ocasião do casamento.

Quando o cônjuge é o melhor amigo, a felicidade é maior

“Quem é o seu melhor amigo?” Essa pergunta foi apresentada para todos os participantes da pesquisa. Os efeitos positivos do casamento para a felicidade eram maiores para aquelas pessoas que responderam que o melhor amigo era o cônjuge. Esse efeito era duas vezes maior quando o melhor amigo era o cônjuge do que quando o maior amigo era outra pessoa. Esse efeito foi verificado tanto para as pessoas que tinham uniões consensuais como para aquelas que eram formalmente casadas.

As contribuições positivas para a felicidade verificadas quando o cônjuge era também o melhor amigo eram maiores para as mulheres do que para os homens. No entanto, menos mulheres do que homens apontaram o cônjuge como melhor amigo.

As múltiplas funções positivas do cônjuge que é bom amigo

Não é difícil entender porque uma boa amizade com o cônjuge tem efeitos fortíssimos na felicidade: cada cônjuge participa de muitas áreas da vida do outro. Por isso, quando eles são os melhores amigos recíprocos, eles podem produzir benefícios mútuos em muitas áreas. Por exemplo, uma boa amizade com o cônjuge têm os seguintes efeitos positivos:

- Fortalece a aliança conjugal: aumenta as chances que os votos proferidos na cerimônia de casamento sejam cumpridos: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza”....

- Facilita o compartilhamento de benefícios e encargos econômicos

- Proporciona companhia constante e de boa qualidade para o outro: alivia a solidão, entretém e protege.

- Proporciona apoio incondicional. Os cônjuges amistosos são aliados e apoiadores entre si naquelas ocasiões que estão enfrentando dificuldades ou quando estão iniciando empreendimentos.

- Funciona como interlocutor empático e solidário: o cônjuge amistoso mostra empatia e solidariedade quando ouve aquilo que está se passando na vida emocional do outro cônjuge

- Proporciona segurança recíproca nos momentos difíceis. Cada cônjuge funciona como uma espécie de seguro do outro para enfrentar momentos difíceis.

- Melhora o funcionamento como equipe para a realização de tarefas necessária para a vida conjugal. Por exemplo, um administra as contas e o outro, leva os filhos para a escola; um cozinha, o ou outro lava, etc.


Só a amizade é insuficiente para a felicidade do casamento

A amizade entre os cônjuges certamente contribui muito para o sucesso do casamento e para a felicidade de cada um deles. No entanto, a satisfação no casamento também depende de outros fatores como romantismo, satisfação sexual e sucesso econômico.

Você e seu cônjuge não são bons amigos? Procure a ajuda de um psicólogo!

NOTA

Um resumo e o link para o PDF completo do artigo "HOW'S LIFE AT HOME? NEW EVIDENCE ON MARRIAGE AND THE SET POINT FOR HAPPINESS", de Shawn Grover e John F. Helliwell, Dezembro de 2014, podem ser obtidos emhttp://www.nber.org/papers/w20794

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Por Ailton Amélio às 09h44

18/01/2015

Medidas para abreviar e atenuar o sofrimento após a separação

Há bastante tempo, venho desenvolvendo técnicas terapêuticas para diminuir o sofrimento e abreviar o tempo de recuperação daqueles que sofrem por amor não correspondido ou que romperam um relacionamento amoroso.

Recentemente foi publicado um artigo que oferece evidências experimentais de que o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos pode ser atenuado e abreviado. Na pesquisa realizada, jovens adultos que estavam sofrendo os efeitos do rompimento participaram de atividades que os ajudam a separar suas identidades das identidades dos ex-parceiros e das identidades vinculadas ao relacionamento que terminou.

Neste artigo vou resumir os achados desta pesquisa e enumerar algumas outras medidas que uso no meu consultório para ajudar a diminuir e a abreviar o  sofrimento causado pelo rompimento.


Evidências experimentais que indicam que o sofrimento pode ser atenuado e abreviado

A reformulação do autoconceito ajuda a recuperação

Dois pesquisadores americanos, Grace M. Larson (Department of Psychology, Northwestern University) e David A. Sbarra (Department of Psychology, University of Arizona) publicaram recentemente um artigo que fornece evidências de que o sofrimento causado pela separação amorosa pode ser atenuado e abreviado pelo tratamento psicológico. (veja a citação desta publicação na Nota, no final deste artigo).

Nesta pesquisa, 210 jovens adultos que haviam terminado recentemente seus relacionamentos amorosos foram separadas em dois grupos. Os participantes de um desses grupos (120 jovens) foram submetidos a quatro sessões de testes e entrevistas psicológicas intensivas com o objetivo de avaliar quão bem estavam se recuperando de suas separações. Essas quatro sessões foram realizadas dentro do tempo de 9 semanas.

Os participantes do outro grupo (90 jovens) foram submetidos a apenas dois testes para verificar quanto haviam se recuperado da separação durante essas nove semanas. Esses dois testes foram realizados nas mesmas épocas que também foram aplicados no primeiro grupo (início e final das nove semanas).

 Os resultados dessa pesquisa mostraram que houve um grau maior de recuperação no grupo que passou pelas medidas e entrevistas intensivas do que no grupo que foi submetido apenas aos testes iniciais e finais: os participantes do grupo submetido às entrevistas intensivas relataram mais decréscimo nos distúrbios psicológicos intrusões emocionais, solidão e uso de palavras na primeira pessoa do plural (“nós”) quando descreviam a separação do que aqueles relatados pelos participantes do grupo que foram submetidos apenas ao teste inicial e ao teste final.

Esses autores atribuem a maior dose da recuperação dos problemas psicológicos observada no grupo submetido a testes e a entrevistas intensivas ao fato dos participantes desse grupo terem falado sobre o rompimento do relacionamento: falar sobre o rompimento e sobre os efeitos que esse rompimento estava produzindo nos entrevistados ajudava a reorganizar o autoconceito e a separá-lo do autoconceito desenvolvido em função do relacionamento e do ex-parceiro.


Outras medidas para atenuar e abreviar o sofrimento produzido pelo rompimento psicológico

O rompimento de relacionamentos amorosos bem estabelecidos provoca sofrimento intenso e duradouro. (Existem estimativas de que, em média, leva cerca de três anos para que os separados se desfaçam de suas identidades de casados e recuperem suas identidades de solteiros). Esse sofrimento acontece porque as uniões amorosas bem estabelecidas são alicerçadas na intimidade, no amor, no compromisso e na fusão de diversos aspectos da vida psicológica, social e prática dos envolvidos.

Por exemplo, nos relacionamentos bem estabelecidos, os parceiros integraram seus planos para a vida, passaram a contar com a companhia mútua para o lazer, unificaram boa parte de suas identidades (“Deixamos de sermos eu e tu e nos tornamos “nós”“.), constituíram uma unidade social e econômica, são os principais parceiros sexuais, tornaram-se uma unidade reprodutiva, etc.

Outros danos produzidos pelo término de relacionamentos plenamente estabelecidos são os seguintes: dores de amor, rebaixamento da autoestima, solidão provocada pela perda da companhia do parceiro, perda da identidade de casado, prejuízos nas ligações sociais, invalidação de planos de vida e perdas econômicas. Para aqueles que têm filhos pequenos, há também sofrimentos e culpa pelos possíveis danos causados a eles e a diminuição do convívio com eles.

O rompimento de todas essas áreas provoca sofrimentos mais intensos e prolongados quando ele se deu por “morte súbita” (rompimento repentino causado por fatos graves como a descoberta de traição, agressão física, etc.). O sofrimento também é mais intenso para a pessoa que ainda ama a outra que teve a iniciativa do rompimento.


Áreas que precisam ser separadas e recompostas após a separação

No meu consultório venho desenvolvendo procedimentos para atenuar e abreviar o sofrimento provocado pelo rompimento de relacionamentos amorosos. Alguns desses procedimentos são os seguintes:

Reprogramar o lado prático da vida

Muitas pessoas ficam perdidas e desamparadas com o lado prático de suas vidas assim que se separam. Esses aspectos práticos de suas vidas antes da separação eram cuidados pelo parceiro ou foram perdidos com a separação. Exemplos: como fazer o imposto de renda, onde morar, onde comer, o que fazer nos fins de semana, quem vai levar e buscar os filhos na escola.

Desapaixonar

Procedimento para desidealizar o ex-parceiro; procedimento para perder as esperanças que ele vá voltar ou que ele ainda sente amor pelo ex-cônjuge; associar lembranças do ex-parceiro com coisas ruins.

Recuperar a autoestima

Reprogramar os danos à autoestima provocados pelas brigas durante a separação. Reprogramar os significados da rejeição ou da traição pelo ex-cônjuge.

A recuperação da autoestima é especialmente importante para aquelas pessoas que foram desrespeitadas pelo parceiro, que deixaram de ser amadas pelo parceiro, foram traídas ou trocadas por rivais.

Livrar-se da sensação de fracasso

Sensação de fracasso e de culpa pelo fato do relacionamento ter terminado.

Perguntas típicas que revelam culpa e arrependimento: “Onde errei?”, “O que poderia ter feito para evitar o fracasso o fracasso do relacionamento?”.

Projetar a vida futura

Reprogramar os planos e objetivos para a vida que, antes da separação, incluíam o ex-cônjuge. “Os planos de vida com o parceiro foram desfeitos. E agora, como vejo a minha vida no futuro?”

 Recompor o círculo de relações

Boa parte do círculo de amigos pode ser desfeita com o fim do relacionamento. Perguntas típicas de quem teve prejuízos no círculo de relacionamento: “Como fazer novas amizades?”, “Com quem posso desabafar com o que está acontecendo comigo?”, “Se eu precisar de ajuda, com quem posso contar?”. 

Você está sofrendo demais com o rompimento do seu relacionamento amoroso? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

1- Larson, G. M and Sbarra, D. A. Participating in research on romantic breakups promotes emotional recovery via changes in self-concept clarity. Social Psychological and Personality Science online on January 6, 2015 http://spp.sagepub.com/content/early/2014/12/18/1948550614563085.full  (Consultado em 17/01/2015)

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Por Ailton Amélio às 08h30

12/01/2015

Como a timidez atrapalha a vida amorosa

Uma grande dose de timidez prejudica o tímido nas áreas social, profissional e amorosa. Neste artigo vamos examinar as principais consequências negativas da timidez nos inícios de relacionamentos amorosos.

Timidez é o medo de ser rejeitado pelas outras pessoas: medo do que elas possam pensar a meu respeito; medo que elas deixem de me considerar e respeitar, caso as decepcione.

O tímido é aquele que sente inibição e tensão exageradas em situações sociais.

A timidez tem manifestações fisiológicas (o coração acelera, ruborização, suor), emocionais (medo, vergonha, ansiedade, etc.), comportamentais (comportar-se de forma mais pobre do que é capaz, olhar menos nos olhos, propor poucos assuntos durante a conversa, etc.) e cognitivas (fica preocupado antes, durante e depois de eventos intimidantes, ficar monitorando demais os próprios comportamentos, ficar consciente da própria aparência ou dos próprios comportamentos, etc.).

Timidez específica e timidez generalizada

A timidez específica é aquela que é disparada em apenas uma ou em poucas situações sociais. A timidez generalizada é aquela que é disparada em muitas situações sociais.

Mecanismos da timidez que atrapalham os inícios de relacionamentos amorosos

Uma grande atração pela parceira amorosa provoca muita timidez, atrapalha o desempenho do tímido e diminui as suas chances de sucesso para iniciar e desenvolver relacionamentos amorosos.

Como a timidez prejudica os inícios de namoro de André

André tem muitas qualidades: é inteligente, tem boa escolaridade, boa cultura, boa situação econômica e uma boa aparência.

Ele, no entanto, faz pouco sucesso com as mulheres. Embora já tenha mais de trinta anos, praticamente nunca namorou e só conseguiu ficar com algumas mulheres cujos níveis socioeconômicos eram bem mais baixo que o seu. Quando surge uma chance de envolvimento com mulheres do seu nível, ele fica muito tímido e, por isso, perde muito da sua desenvoltura e atração pessoal.

As mulheres dizem que ele “não tem pegada”. Quando está conversando com uma mulher que o atrai, ele “afina” ou “amarela”: não mantem a postura de pretendente amoroso e o clima de flerte. Por exemplo, ele tenta puxar um assunto que domina, para ganhar tempo e ficar esperando que a mulher apresente sinais que ele seria aceito como parceiro amoroso. Ele não tem coragem para tomar iniciativas e fazer avanços na direção amorosa. Ele não se habilita a manter o clima amoroso e apresentar sinais de interesse para ir esquentando o clima. Ele precisa estar seguro do interesse dela antes de tomar iniciativas desse tipo.

Durante a sua vida, André teve muito poucas experiências amorosas. Por isso, ele não sabe como criar e manter um clima de flerte. Ele também não consegue avaliar o seu grau de atração como parceiro amoroso para as mulheres. Ele não sabe como conduzir um clima amoroso. Ele acha que é ele que tem que fazer todo o trabalho para estabelecer o clima amoroso e se der qualquer passo em falso, ela lhe dará o fora.

Para ele, as mulheres têm pouco interesse em estabelecer um relacionamento amoroso e, por isso, têm que ser conquistadas. Para o tímido, elas são, na melhor das hipóteses, neutras nesta área. Não querem nada. Ele é que vai fazer todo o trabalho.

Dois componentes da timidez

A timidez tem um componente disposicional e um componente situacional. 

Componente disposicional

O componente disposicional é aquele que faz com que diferentes pessoas tímidas apresentem diferentes graus timidez quando expostas a uma mesma situação intimidante. Por exemplo, diferentes pessoas sentem diferentes intensidades de inibição para abordar uma pessoa desconhecida muito atraente.

Causas herdadas da timidez

Existem evidências de o surgimento da timidez pode se influenciado tanto por fatores genéticos como por fatores aprendidos.  De fato, o que parece ser herdado é o temperamento, o qual, por sua vez, pode predispor para a timidez (as crianças com temperamento “reativo” têm mais chances de se tornarem tímidas). No entanto, certas ocorrências durante o desenvolvimento da criança e do adolescente são os determinantes mais poderosos da timidez. Crianças cujos pais são muito severos ou muito protetores têm mais chances de tornarem tímidas (Henderson e Zimbardo, 1998). Certos traumas sociais como o bullying também podem contribuir para o surgimento da timidez.

Componente situacional da timidez

O componente situacional é aquele que faz com que uma mesma pessoa tenha diferentes graus de inibição em diferentes situações. Por exemplo, uma pessoa pode experimentar uma maior inibição para abordar, com intenções amorosas, uma pessoa muito atraente do que para abordar uma pessoa medianamente atraente.

Alguns estudos têm mostrado que é possível ordenar situações sociais com base nos seus poderes para provocar a inibição. A ordem desta lista de situações é muito semelhante para grande maioria das pessoas.

Vamos examinar no tópico seguinte os resultados de um estudo que realizei para verificar o poder intimidador de 14 situações sociais.

O poder de quatorze situações sociais para provocar a timidez

Em primeiro lugar foi compilada uma lista de situações evocadoras da timidez. Esta compilação foi realizada a partir da literatura internacional sobre a timidez. Esta compilação resultou em uma lista com 16 situações sociais mais citadas como evocadoras de timidez pelos estudiosos desta área. Em seguida, pedimos para 20 estudantes do primeiro ano de uma faculdade da cidade de São Paulo que ordenassem decrescentemente estas 16 situações sociais, tendo como base os poderes para evocar a timidez de cada uma dessas situações. Após esta ordenação, foi pedido a estes estudantes que atribuíssem uma nota de 0 a 100 ao poder evocador de timidez de cada uma destas situações: a maior nota devia ser atribuída para a situação que produzisse a maior intensidade de timidez; a segundo maior nota para a situação que tivesse a segunda maior intensidade de timidez, e assim por diante.

Os resultados dessa pesquisa são mostrados abaixo. A situação que, em média, foi considerada pelos estudantes como a mais poderosa para evocar a timidez foi “Pretender iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa muito admirada” (nota 60). A situação menos poderosa para evocar a timidez foi “Estar só com uma pessoa do mesmo sexo que o meu” (nota 11).

GRAUS DE EFICIÊNCIA DE DEZESSEIS SITUAÇOES PARA PROVOCAR A TIMIDEZ

Dê uma nota de 0 a 100. Quanto maior a nota, mais intensa é a timidez evocada.

Eu fico tímido quando:      

1- Eu pretendo iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa que admiro muito. Nota 60

2- Eu sou foco da atenção de um grande grupo (por exemplo, quando estou fazendo uma palestra). Nota 49

3- Eu estou em um grande grupo. Nota 47

4- Eu estou vulnerável (por exemplo, necessitando de ajuda). Nota 46

5- Eu estou sendo avaliado. Nota 44

6- Eu estou em situações novas em geral. Nota 42

7- Eu estou em uma situação que exige que eu seja afirmativo (reclamar meus direitos, dizer o que penso, não ceder a um pedido, etc.). Nota 39

8- Eu estou em situações sociais em geral. Nota 30

9- Eu estou em um grande grupo onde as pessoas têm menor status do que o meu. Nota 25

10 – Eu estou sendo foco da atenção (pequenos grupos). Nota 24

13- Eu estou em um pequeno grupo social. Nota 23

14- Eu estou só com uma pessoa do sexo oposto. Nota 21

15- Eu estou em um pequeno grupo organizado para a realização de tarefas. Nota 12

16- Eu estou só com uma pessoa do mesmo sexo que o meu. Nota 11

Os resultados dessa pesquisa mostraram que existem situações que evocam muito mais timidez do que outras. As pessoas em geral tendem a concordar entre si sobre o poder relativo dessas situações para evocar a timidez. As intensidades da timidez geradas por essas situações, no entanto, variam muito entre as pessoas. Por exemplo, a situação “Pretender iniciar um relacionamento amoroso com uma pessoa que admiro muito” recebeu 40 pontos de timidez para uma pessoa não tímida e 90 pontos para uma pessoa tímida.O alto grau de timidez causado pela intenção de iniciar um relacionamento amoroso com pessoas muito admiradas causa sérios problemas para os tímidos porque essa situação é a que tem o mais alto poder de evocar a  timidez.

As pessoas tímidas se portam de forma mais pobre do que são capazes nas situações propícias para iniciar relacionamentos amorosos: elas perdem oportunidades para apresentar convites, se comportam de forma desastrada, agem de forma pouco interessante, ficam “sem pegada”, etc. As pessoas muito tímidas também evitam ou fogem de situações muito inibidoras como a presença de uma parceira muito admirada. Por estes motivos, os tímidos têm muitas dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos.

Devido às suas dificuldades para iniciar relacionamentos amorosos, os tímidos, muitas vezes, acabam aceitando parceiros amorosos menos qualificados do que eles teriam condições de conseguir. Uma evidência desse tipo de dificuldade foi apresentada por Caspi et al. (1988) Estes autores localizaram um grupo de pessoas que haviam sido examinadas quanto ao grau de timidez há 30 anos atrás e constataram que aquelas pessoas que haviam sido classificadas como tímidas naquela época haviam se casado cerca de três anos mais tarde do que aquelas que foram classificadas como não tímidas na mesma época.

Porque os tímidos não conseguem manter o clima amoroso durante um encontro

Durante o encontro amoroso o tímido “esquece” que tem alguém atraente ali na sua frente. Isso faz que o encontro perca o clima romântico e se torne frustante e chato. Quando os parceiros se mantêm “ligados” nas atrações mútuas, seus cérebros ordenam que seus corpos assumam postura de flerte (“prontidão para o cortejamento”) e apresentem comportamentos que comunicam interesse amoroso, que acentuam os seus sinais de gênero e ajudam a seduzir os parceiros.

A boa conversa é aquela que não desvia muito as atenções do principal: a atração pelo parceiro. Em um encontro amoroso é possível conversar e, ao mesmo tempo, manter foco da atenção nas atrações da parceira amorosa. É como conversar e dirigir: dá para manter a atenção na direção e, ao mesmo tempo, conversar algo leve. Não é aconselhável conversar sobre algo profundo ou perturbador quando um dos interlocutores está dirigindo. O tímido tem dificuldade em manter o clima amoroso porque ele fica tão preocupado com o seu desempenho e isso não lhe dá espaço para manter em mente a atração da parceira e deixar seus comportamentos serem controlados por isso!

A terapia geralmente é muito eficiente para combater a timidez excessiva. Se você é muito tímido, procure um psicólogo!

Notas

Carducci, Bernardo J. & Zimbardo, Philip G. (1995). Are You Shy? In C. Randell (Ed.) Selected Readings in Psychology Sixth Edition (pp. 14-20). New York, NY: McGraw-Hill.

Caspi, A., Elder, G. H.& Ben D. J. (1988). Moving away from the world: life course of shy children. Developmental Psychology24, 824 - 831.

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Por Ailton Amélio às 09h11

04/01/2015

O elixir da juventude: seja jovem em 2015

Nós temos uma idade cronológica, uma idade física e uma idade psicológica. Para a maioria das pessoas, essas idades são semelhantes entre si, mas existem belas exceções. Por exemplo, certas pessoas são bem mais jovens física e psicologicamente do que seria esperado pelas suas idades cronológicas. Com outras acontece o contrário: são bens mais velhas física e psicologicamente do que seria esperado para suas idades cronológicas.

Psicologicamente falando, é possível ser velho aos 20 e novo aos 60!

Na nossa sociedade, grande quantidade de energia e dinheiro é despendida na tentativa de manter ou diminuir a idade física aparente. Muito pouco esforço é devotado para a manutenção ou recuperação da jovialidade psicológica.

Psicologicamente falando, ser velho é achar que a vida já está definida, que não é possível iniciar grandes empreendimentos ou mudar muito a estrutura e estilo já estabelecidos (casar de novo, vender tudo e começar um novo negócio, aprender a falar em público, iniciar um movimento social, começar a cantar, etc.).

Ficar psicologicamente velho é perder a coragem e a ousadia para tentar coisas novas na vida!


Se a sua vida está chata é porque você acredita demais na sua versão pobre da realidade

A perda da desenvoltura para tentar coisas novas e para ver as coisas como elas são a cada momento desvitalizam e tornam a vida desinteressante.

É porque você acredita demais na sua versão restritiva e amedrontadora da realidade que o seu mundo se torna desinteressante. Aquele que tem essa visão empobrecedora vê a si próprio, o mundo social e mundo material à sua volta como sólidos, óbvios, indiscutíveis e impenetráveis. Essa forma de ver as coisas é apenas uma versão dentre outras possíveis. Boa parte das diferenças entre pessoas mais criativas e vibrantes e pessoas não criativas e apagadas é a forma como esses dois tipos de pessoas veem a elas próprias e o mundo que as rodeia. 

Impressionante como conseguimos deixar de ver tudo que há de tão colorido e fantástico neste mundo e passamos a vê-lo como desinteressante, cinza e opaco.

Grande parte das barreiras que nos prendem à mesmice desvitalizada faz que vejamos o mundo como chato e nos comportemos de forma envelhecida são construções psicológicas. No entanto, encaramos tais construções como se fossem estruturas físicas, sólidas e invioláveis, tal como um peru que não pula um circulo de giz que é desenhado ao seu redor.


O peru não pula o círculo de giz desenhado ao seu redor

Ele age como se tal círculo fosse um muro intransponível ou uma cobra temível.

Muita gente também se porta assim: encontra-se enclausurada dentro de círculos de giz, por achar que eles são muralhas intransponíveis ou inimigos perigosos.

Em torno de cada pessoa existem vários “círculos de giz". Estes círculos de giz são traçados por diversos vários fatores como crenças infundadas, preconceitos, temores de eventos irreais.

Muitas áreas de nossas vidas ficam estagnadas porque desenvolvemos crenças errôneas e pessimistas sobre os graus de dificuldades para lidar com elas, sobre nossa capacidade para encará-las de frente e sobre as consequências que ocorrerão caso fracassemos ao tentar enfrentá-las.

Barreiras psicológicas. Somos prisioneiros de diversos tipos de barreiras psicológicas: timidez, inassertividade, baixa autoestima. Devido a essas barreiras, não agimos como gostaríamos, por mais que saibamos que aquilo que nos amedronta tem grande chance de ser fictício e irrazoável.

Campo psicológico. Temos medo de rever e mudar a nossa autoimagem e a imagem das pessoas que nos cercam.  Temos pouca flexibilidade para rever nossas metas e redefinir as nossas prioridades. Agimos como se preferíssemos ter um objetivo qualquer na vida, por mais irreal e restrito que seja, do que nos darmos ao trabalho corrigir as nossas aspirações.

Relacionamento amoroso. No campo amoroso, vivemos em relacionamentos insatisfatórios que perduram como são porque temos medo de tomar medidas para alterar ou para alterá-los ou abandoná-los.


Copiar os jovens não nos torna mais jovens

Ser jovem não é copiar o que as pessoas de pouca idade fazem: frequentar os programas que elas frequentam, adotar seus estilos de vestuário e modos de falar. Essa cópia é o tipo de “jovialidade” mais superficial que existe.

Ser jovem não é procurar coisas emocionantes para fazer. Isso não passa da procura de adrenalina. Ser jovem é um conjunto de atitudes e não um estado emocional autoinduzido ou induzido por situações e substâncias químicas. 

Ser jovem não é procurar ou criar desafios a serem enfrentados, mas sim encarar aqueles desafios naturais que a vida apresenta a cada momento.

Se você tem procurar coisas emocionantes e interessantes para fazer na vida isso é um sinal que você não está vendo aquelas coisas emocionantes e naturais que já estão à sua frente ou que atravessam seu caminho a todo instante. Ou seja, algo está errado com você.

A vida apresenta milhares de desafios. Por exemplo, a cada momento temos que escolher o grau de autenticidade que vamos adotar na nossa fala ou nas nossas reações ao que o nosso interlocutor está dizendo. A cada momento temos que decidir se vamos usar uma fórmula pronta para agradar nosso interlocutor ou se vamos lhe comunicar um pouco mais do que realmente sentimos e pensamos. Um pouco mais de autenticidade nesta área pode tornar a vida muito emocionante e interessante!

Quem deixou de perceber as maravilhas ao seu redor, para recuperar essa percepção deve entender o que saiu dos trilhos e não lançar mão de paliativos e pseudossoluções como o uso de estimulantes químicos, a busca de aventuras, a prática de esportes radicais ou o vício em games ou em novelas. 

Você perdeu a jovialidade? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 09h50

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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