Blog do Ailton Amélio

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22/02/2015

Como escolhemos nossos parceiros amorosos

No campo amoroso, a seleção de parceiros segue um conjunto de normas ou princípios. As pessoas usam estes princípios para escolher parceiro que têm as qualidades que elas querem e que não tenham os defeitos que elas não querem.

As pessoas têm pouca consciência do que estão usando esses princípios. Se perguntarmos para elas, quais as regras que estão seguindo para escolher um parceiro amoroso, a maioria delas terá muita dificuldade para falar sobre isso e poderá, inclusive, negar que siga qualquer regra com esta finalidade.

Os princípios que têm mais influência na maioria das seleções de parceiros são os seguintes: princípio da admiração, princípio da homogamia, princípio da heterogamia, princípio das médias ponderadas das qualidades e defeitos e o princípio dos defeitos graves. Vamos examinar agora esses princípios (O meu livro “O Mapa do Amor”, Editora Gente, apresenta mais detalhadamente esse assunto).

 

O Princípio da Admiração

“A admiração é um requisito para o amor.” (Stendhal)

Para nos apaixonarmos por uma pessoa é necessário que a admiremos. Segundo o escritor Stendhal, a admiração é um dos requisitos essenciais para o nascimento do amor (Stendhal, 1999).

Quando uma pessoa é admirada, isto significa que possui qualidades que o admirador valoriza e gostaria de ter em si ou para si. Segundo a teoria da expansão do ego, ter um relacionamento amoroso com uma pessoa admirada é uma forma de incorporá-la, juntamente com as suas qualidades desejadas, ao ego do admirador.  Ou seja, esta é uma forma de o amante adquirir as qualidades admiradas do amado (Aron e Aron, 1996).

Em geral, preferimos um parceiro amoroso que tenha o maior número possível de qualidades e a intensidade máxima de cada uma destas qualidades.  Suponhamos que vamos escolher um dentre dois pretendentes, os quais diferem apenas quanto ao grau que possuem de uma determinada qualidade como, por exemplo, a beleza. Qual deles seria o escolhido? Quase todo mundo escolheria, sem pestanejar, o mais bonito.

Algumas vezes, o atributo que é considerado “o melhor possível” independe de quem está fazendo a escolha (por exemplo, uma pessoa gentil e atenciosa é valorizada por quase todo mundo) e, outras vezes, depende de quem está fazendo a escolha (por exemplo, a altura ideal de uma mulher depende, pelo menos em parte, da altura do parceiro).


O Princípio da Homogamia

“Temos algo em comum.” (Frase popular)

Este princípio afirma que os relacionamentos amorosos têm mais chance de dar certo quando os parceiros são semelhantes entre si.

Este talvez seja o princípio mais importante que rege a seleção de parceiros. Os estudos científicos vêm mostrando, cada vez mais claramente, que nos relacionamentos amorosos que dão certo (são iniciados mais facilmente, têm um grau maior de satisfação, duram mais etc.), os parceiros são semelhantes entre si em um número muito grande de características.

            A história de André, que vamos relatar agora, é uma história real que ilustra bem algumas das razões que levam uma pessoa a optar por um parceiro que lhe seja semelhante.

 As consequências negativas de arranjar uma namorada de outro nível econômico

(Caso real. Os nomes e alguns detalhes foram trocados para não permitir a identificação dos personagens).

André apresentou a sua nova namorada, Anne, para os amigos. No outro dia, quando André voltou a encontrar os amigos, sem a presença da namorada, recebeu pesadas críticas. Os amigos lhe disseram coisas do tipo:

“Esta moça não é para você. Ela está acostumada com as coisas boas da vida e você não vai ter dinheiro para fornecer tais coisas para ela.”

“Você vai gastar todo o seu dinheiro em restaurantes, boates e locais de férias, e depois, ela vai abandonar você.”

“Ela não é do nosso meio. Ela vai te fazer sofrer.”

“Ela só tem amigos que moram em mansões e que têm Mercedes e BMWs. Estes caras não vão se entrosar com a gente.”

André ficou bastante abalado com esta reação dos amigos. Afinal, a namorada havia sido tão simpática com eles. Surgiu a dúvida na sua cabeça: “Será que vou conseguir ser feliz com Anne?”.

Tempos depois, André e Anne começaram a ter atritos, geralmente relacionados com os hábitos caros de Anne, e se separaram.

Esta história de André e Anne mostra bem algumas das razões pelas quais o relacionamento amoroso entre duas pessoas muito diferentes tem pouca chance de dar certo.

O Princípio da Heterogamia

“Os opostos se atraem.” (Frase popular)

Este princípio afirma que certas diferenças entre os parceiros contribuem para que um relacionamento amoroso entre eles dê certo.

Realmente, existem certas diferenças entre os parceiros amorosos que são bem-vindas. Por exemplo, as diferenças físicas entre os homens e as mulheres são consideradas ingredientes fundamentais da beleza feminina e masculina.

Muitas vezes, a direção e a intensidade da diferença desejável são especificadas. Por exemplo, geralmente é desejável que o homem seja mais alto e mais velho do que a mulher e não o contrário. Estas diferenças de altura e idade, no entanto, não devem exceder certo limite: é indesejável ou até mesmo ridículo que um homem seja muito mais alto ou muito mais velho do que a sua parceira amorosa.

Mesmo quando uma diferença não é desejável, ela pode ser mais tolerável quando ocorre num determinado sentido. Por exemplo, na nossa cultura, é mais tolerado que o homem seja mais rico e tenha um status social um pouco mais alto do que o da sua parceira do que vice-versa.

Todas as diferenças em atributos importantes entre os membros de um casal podem ser considerados débitos que terão que ser saldados em algum momento. Por exemplo, se a aparência de um cônjuge é muito melhor do que a do outro, esta discrepância fica registrada como um crédito que deverá ser compensado, de alguma forma, pelo parceiro de pior aparência (o Princípio das Médias Ponderadas de Defeitos e Qualidades, apresentado mais à frente, vai explicar como se realiza esta compensação).

 

O Princípio da Complementaridade

 “Quem é tímido geralmente arranja uma namorada extrovertida.” (Frase popular)

Este princípio afirma que a complementaridade entre certas características dos parceiros contribui para que o relacionamento amoroso entre eles se inicie mais facilmente e seja mais satisfatório e duradouro.

A complementaridade em certas características realmente propicia as condições para que os parceiros possam funcionar como uma equipe, o que aumenta as suas eficácias para atingir objetivos em comum.

A teoria da complementaridade foi apresentada formalmente por Winch (1955). Segundo esta teoria, as pessoas procuram satisfazer as suas necessidades casando-se com parceiros que as preencham, com os quais não entrem em conflito ou que as “complementem”. Quando dois parceiros se complementam em vários aspectos, eles satisfazem várias necessidades mútuas.

Embora esta teoria seja muito atraente, sua comprovação empírica é pequena: as pesquisas realizadas para testá-la não conseguiram mostrar que ela realmente funciona nas escolhas de parceiros. Por exemplo, Sinderber e outros (1972) realizaram um estudo para verificar que tipos de complementaridade nos traços de personalidade e nos interesses contribuíam para o sucesso da formação de casais em agências de casamento. Este estudo só encontrou num único traço de personalidade que contribuía neste sentido: “espirituoso-plácido”. A complementaridade em outros traços de personalidade incluídos neste estudo (por exemplo, submissão-domínio, sensato-irrefletido, confiante-apreensivo, indisciplinado-disciplinado, calmo-nervoso etc.) não contribuía para a formação de casais. No caso de alguns destes traços, o que realmente predispunha ao casamento eram as semelhanças entre os membros do casal. Para muito outros traços, era irrelevante o fato de dos membros do casal serem semelhantes, diferentes ou complementares entre si: isto não afetava as chances de casamento.

O Princípio das Médias Ponderadas dos Defeitos e Qualidades

 “Este cara feio deve ser muito rico para conseguir namorar uma bela mulher como aquela.”(Frase popular)

 Este princípio afirma que as pessoas avaliam o grau de atração dos seus parceiros amorosos levando em conta as suas qualidades e defeitos. Nesta avaliação, as pessoas também levam em conta as importâncias de cada um destes defeitos e qualidades.

Quando há discrepância muito grande entre os valores médios de atração de duas pessoas, é menos provável que elas iniciem um relacionamento amoroso entre si e, naqueles casos onde elas iniciam, é menos provável que esse relacionamento seja satisfatório e que dure muito tempo.

O escore de atração de uma pessoa depende dos critérios de cada avaliador: diferentes avaliadores podem atribuir diferentes pesos para cada uma das qualidades e defeitos de uma pessoa que está sendo avaliada.

Os critérios levados em conta para selecionar um parceiro amoroso também podem variar de acordo com o estágio do relacionamento. Por exemplo, a beleza pode pesar mais nos primeiros encontros do que na hora de tomar a decisão a decisão de casar com a pessoa.

 

O princípio dos defeitos graves

Para que um parceiro amoroso seja considerado atraente e adequado deve, além de possuir as qualidades que enumeramos anteriormente, não ter muito defeito e estar livre de defeitos graves.

Muitos dos defeitos graves são os inversos das qualidades desejáveis. Isto pode ser facilmente constatado colocando-se as locuções negativas “Não ter” ou “Não ser” na nossa lista das qualidades valorizadas em parceiros amorosos. Os inversos dessas qualidades geralmente são considerados defeitos muito sérios. Quanto mais importante for uma qualidade, maior é a gravidade do defeito decorrente da sua ausência ou da presença de um atributo que é o seu oposto. 

Tal como no caso das qualidades, o que é considerado um defeito é determinado por fatores universais, culturais e individuais.

Em relação aos defeitos graves, não funciona o Princípio das Médias Ponderadas dos Defeitos e Qualidades, apresentado acima. Ou seja, estes defeitos não são compensáveis por qualidades. Por exemplo, mesmo que uma pessoa seja gentil, atenciosa, bonita, rica e afetuosa, ainda assim, ela não despertará o amor da grande maioria dos seus pares, caso tenha uma inteligência muito limitada. Não há qualidade ou grupo de qualidades que compense este tipo de defeito.

NOTA

Este artigo foi baseado no capítulo 4 do meu livro "Relacionamento Amoroso", Editora Gente. As referências completas das bibliografias citadas acima são fornecidas neste livro.

Você escolhe parceiros amorosos errados? Procure a ajuda de um psicólogo

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Por Ailton Amélio às 09h28

15/02/2015

Como verificar se alguém tem interesse amoroso por você

Você é eficiente para verificar se aquelas pessoas pelas quais você se interessa amorosamente também têm esse tipo de interesse por você?

Muitos relacionamentos amorosos não são iniciados simplesmente porque ambas as partes não verificam eficientemente se seus interesses são correspondidos.

Um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso para iniciar namoros é a disposição, a coragem e a habilidade para verificar se aquelas pessoas por quem nós temos interesse amoroso também têm esse tipo de interesse por nós.

 

Teste da capacidade para verificar se há reciprocidade do interesse amoroso

Responda ao seguinte teste para fazer uma ideia da sua capacidade para verificar se as pessoas sentem atração amorosa por você.

Para responder, assinale com um X sobre a linha de cada escala.

Quanto mais para a direita você coloca o X mais você concorda com a afirmação. Quanto mais para a esquerda você coloca o X menos você concorda com a afirmação. Quando você coloca o X no meio da escala você nem  concorda nem discorda da  afirmação.

 

1- As pessoas não percebem quando sinto atração amorosa por elas.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

2- Quando sinto atração amorosa por uma pessoa, tenho muita dificuldade para verificar se ela também sente atração por mim.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

3- Não sei como agir para verificar quais são as minhas chances de iniciar um relacionamento amoroso com as pessoas que me interessam.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

4- Eu tenho muito medo de mostrar o meu interesse amoroso pelas pessoas.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

5- Geralmente só namoro as pessoas que tomam a iniciativa de iniciar relacionamentos amorosos comigo.

Discordo totalmente |------|------|------|------|------|------| Concordo totalmente

                             1     2     3      4     5     6     7

Se você assinalou um número maior do que 4 em todas estas questões, você provavelmente tem dificuldades para verificar se o seu interesse amoroso por um parceiro é correspondido. Este artigo ajudará você a entender o que está acontecendo.


Vantagens da verificação eficiente da reciprocidade do interesse amoroso

Existem três grandes vantagens de verificar logo no início se há reciprocidade no interesse amoroso:

1- Verificar logo no início faz com que nos apaixonemos apenas por aquelas pessoas que também poderão se apaixonar por nós. Quando uma pessoa, à medida que vai se apaixonando por outra, também vai verificando se este sentimento está sendo correspondido, ela condiciona a continuidade e o crescimento da sua paixão à reciprocidade da outra pessoa. Quando uma pessoa está se apaixonando por outra e verifica que este interesse não é recíproco, isto a impede de continuar se apaixonando.

2- Verificar aumenta as chances de que a outra pessoa se apaixone. O processo de verificação é também um processo de conquista. As ações que são eficientes para verificar se há interesse amoroso por parte de uma pessoa são igualmente eficientes para despertar e fazer o interesse desta pessoa crescer. Este tipo de efeito colateral é observado principalmente quando a verificação inclui a manifestação de interesse do próprio verificador ou quando o verificador começa a tratar o verificando de uma forma especialmente agradável e positiva (olhar para ele, tocá-lo, ser gentil com ele etc.).

3- Verificar logo no início poupa tempo. Quando uma pessoa descobre rapidamente que a outra não está interessada por ela, ao invés de prolongar o caso, ela pode “fazer a fila andar” e começar a se interessar por outra pessoa.


Maneiras de verificar se há reciprocidade do interesse amoroso

“Quem não arrisca não petisca.”(Ditado popular)

 

A verificação amorosa é constituída por aquelas ações do verificador que o ajudam a esclarecer se um possível parceiro está amorosamente interessado por ele. Estas ações ajudam o verificador a interpretar melhor as razões pelas quais o parceiro está agindo da forma como age. Por exemplo, a verificação ajuda a entender se o parceiro está sendo tão gentil porque ele é assim com todo mundo, porque deseja obter um favor ou porque tem algum interesse amoroso. Ou seja, a verificação diminui a ambiguidade quanto às causas da ação do parceiro.

Dizemos que um comportamento é amorosamente ambíguo quando existem pelo menos duas hipóteses diferentes para explicar a sua causa, sendo que uma destas possíveis hipóteses é que a sua causa é de natureza amorosa.

Esta ambiguidade acontece porque alguns tipos de comportamentos amorosos também aparecem em vários outros tipos de relacionamento. Por exemplo, ser atencioso, cordial e prestar pequenos favores são comportamentos que aparecem nos relacionamentos profissional, amistoso e amoroso. Por este motivo é difícil interpretar o motivo pelo qual uma pessoa está sendo gentil.

Outro exemplo ainda mais concreto: uma oferta de carona pode ter uma motivação amorosa (quem oferece a carona está interessado em iniciar um relacionamento amoroso com o carona), amistosa (quem oferece a carona está querendo reforçar a sua ligação amistosa com o carona) ou comercial (quem oferece a carona vai pedir um empréstimo durante o trajeto), ou se trata simplesmente de uma gentileza (“É o jeito dele. Ele faria isso para qualquer um”).


Estratégias de Verificação

Existem dois tipos básicos de estratégias de verificação da reciprocidade do interesse amoroso: (1) A estratégia da minimização de riscos e (2) a estratégia da troca de informações por riscos.


Estratégia da minimização de riscos,

Nesta estratégia o verificador procura saber se há interesse amoroso por parte do parceiro sem revelar o seu próprio interesse.

Este tipo de estratégia é usado, por exemplo, quando uma pessoa tenta obter informações sobre os interesses amorosos de alguém através de um amigo em comum.

Outro exemplo do uso desta estratégia: o verificador não emite nenhum sinal de interesse amoroso pelo parceiro, mas tenta ler os sinais deste interesse que emite na sua direção.

As pessoas que querem adotar esta tática geralmente são as mais interessadas em aprender quais os sinais verbais e não verbais que indicam que alguém está amorosamente interessado por elas.

Estes sinais, no entanto, não são totalmente claros, nem mesmo para quem tem prática na leitura dos sinais verbais e não verbais de interesse amoroso. Uma das razões desta falta de clareza é que as pessoas muitas vezes omitem, pelo menos parcialmente, o que estão sentindo. Raramente as pessoas emitem sinais inequívocos dos seus interesses no início de um relacionamento amoroso.  Muitos destes sinais inequívocos são extremamente inadequados e podem, inclusive, ofender o parceiro. Alguns destes sinais inequívocos são os seguintes:

- Dizer:

“Eu te amo.”

“Quero namorar com você”

- Ficar conversando com a outra pessoa frente a frente e com o rosto a menos que um palmo do rosto dela e olhar fixamente para os seus olhos.


Estratégia da troca de informações por riscos

Nesta estratégia, o verificador dá sinais do seu próprio interesse amoroso pelo parceiro e observa as suas reações para verificar se há reciprocidade da sua parte, ou seja, o verificador assume os riscos decorrentes deste tipo de revelação.

Este tipo de verificação pode acontecer de uma forma abrupta e direta ou de uma forma sutil e gradual. A forma abrupta e direta ocorre, por exemplo, naqueles casos onde o verificador comunica verbalmente o seu interesse amoroso pelo parceiro e pergunta se ele sente a mesma coisa. A forma sutil e gradual dessa estratégia ocorre quando o verificador vai revelando cautelosamente os seus sentimentos e intenções amorosas, através da comunicação não verbal e/ou da comunicação verbal, e, ao mesmo tempo, vai observando como o parceiro está reagindo às suas revelações. Por exemplo, o verificador vai tocando cada vez mais frequente e demoradamente a mão do parceiro cujo interesse amoroso ele quer verificar e vai observando se este reage positiva ou negativamente aos seus toques. 

Você tem dificuldades para verificar quem está amorosamente interessado em você? Procure a ajuda de um psicólogo.

NOTA

Este artigo foi baseado em um capítulo do meu livro "O Mapa do Amor", Editora Gente.

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Por Ailton Amélio às 09h22

08/02/2015

Ouvir de verdade: uma dádiva!

Pense na última conversa que você teve com três pessoas próximas (parente, amigo, cônjuge, etc.) e responda a seguinte pergunta (responda três vezes, uma para cada pessoa).

No último encontro com cada uma dessas pessoas, quanto tempo você realmente prestou atenção no que se passava com ela e conversou com ela a esse respeito?

Ao responder essa pergunta, temo que a maioria das pessoas afirme que passou pouco tempo atento para o que estava acontecendo com cada um dos três interlocutores e conversando a esse respeito com cada um deles.

Nos nossos encontros pessoais, geralmente não gastamos muito tempo procurando saber como nossos interlocutores estão se sentindo, quais assuntos estão presentes nas suas cabeças, quais acontecimentos importantes estão ocorrendo com eles, o que eles andam planejando, com o que andam preocupados, etc.

Na melhor das hipóteses, passamos rapidamente por esses temas e, quando nada de muito óbvio é constatado, logo começamos a falar sobre outras pessoas, atualidades, etc. e a nos esforçar para projetar uma imagem lisonjeira da nossa pessoa para nossos interlocutores. Cada um dos participantes da conversa está tão preocupando consigo próprio e com aquilo que o afeta que nem presta atenção ou dedica muito esforço para tomar conhecimento do que se passa com o interlocutor.

 

Ouvir de verdade: uma dádiva!

Ouvir sem esforço, sem resistência, com total interesse, muita disponibilidade para compreender e sem nenhum desejo de modificar o interlocutor. Essas são algumas das características de um ouvinte totalmente disponível, solidário e interessado.

Ouvir dessa forma é a principal maneira de validar a existência e modo de ser da outra pessoa. Essa pessoa é aceita como única. Quem ouve desse modo acredita que existe muita beleza, arte e sabedoria nessa unicidade. É a maneira mais profunda de fazermos contato com outro ser humano.

Essa forma de ouvir é extremamente acolhedora e ajuda o interlocutor a ver a si próprio, a se desenvolver e a se aperfeiçoar. Essa forma de ouvir tem propriedades curativas e estabelece e fortalece os vínculos entre o ouvinte e quem o ouve.

Quem ouve assim também se beneficia: ouvir dessa forma ensina muito porque permite ao ouvinte entrar em contato real com outro ser humano e descobrir a sua forma de lidar com a realidade. Isto é benéfico para o ouvinte porque o que ele aprendendo enquanto ouve dessa forma permite que ele reflita pensar sobre a sua própria maneira de ver as coisas, que também é peculiar.

Quem consegue ouvir assim o outro, também consegue ouvir a si próprio!

O seguinte exemplo ilustra a importância que tem ouvir plenamente outra pessoa.


Nenhum outro benefício compensa não ser ouvido

Guilherme fala para Helena:

Sou apaixonado por você. Penso em você frequentemente e sou muito romântico com você: adoro olhar nos seus olhos e, quando faço isso, perco a noção do tempo e quase entro em êxtase.

Tenho o maior orgulho de ser seu marido. Você é linda e carismática. Onde quer que eu apareça na sua companhia, sou invejado.

Tenho a maior atração sexual por você.

Eu faço tudo por você: ajudo em casa, você tem o melhor carro da família, faço questão que você se vista muito bem, more bem e coma do bom e do melhor. Faço todas as suas vontades: vou buscar você onde quer que esteja e a qualquer hora; sempre viajamos para onde você quer...

Helena responde para Guilherme:

- Você realmente me ama, tem orgulho de estar casada comigo e faz por mim tudo isso que você disse!

No entanto, você não gosta de conversar comigo, não se interessa pelo que penso, não sabe o que me realiza e o que me preocupa na vida.  Acho que você não gosta dos meus assuntos, não valoriza o que penso e não se interessa pelos meus sentimentos.

Sempre que estamos juntos, você está com a atenção e outra coisa: mexendo no computador, assistindo TV, dando mais atenção para os seus amigos do que para mim...

Você não me conhece mais. Só cuida do meu bem estar físico e do meu conforto material, e isso não é suficiente. Para você, sou como um carro de luxo: você adora o seu brinquedinho, tem orgulho dele, cuida muito bem dele, mas, por motivos óbvios neste caso, não conversa com ele.

Quero alguém que me valorize como pessoa e não, apenas, que cuide de mim como cuidaria de um objeto de luxo.

[Essa história foi publicada originalmente no seguinte artigo deste blog: “Relacionamento sem intimidade é como saco vazio que não para em pé” em 01/11/2014].

Você tem dificuldade para ouvir de verdade as outras pessoas? Procure a ajuda de um psicólogo.

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Por Ailton Amélio às 08h35

01/02/2015

O olhar pode despertar o amor

O relacionamento amoroso pode ser iniciado de muitas formas (convites, conversas telefônicas, um beijo durante uma dança, etc.). No entanto, quando no início deste relacionamento há flerte através de trocas de olhares, isto aumenta a segurança de que há uma atração romântica genuína entre o par e enfraquece a hipótese de que este namoro está sendo iniciado por outras razões (carência, oportunidade, provocar ciúmes em outras pessoas, etc.).

O olhar é importante em todos os estágios do relacionamento amoroso. Por exemplo, ele é importante para: (1) chamar a atenção do possível parceiro amoroso (tendemos a prestar atenção em quem está olhando para nós), (2) mostrar os primeiros sinais de interesse amoroso, (3) confirmar este interesse, (4) dar permissão para que um desconhecido faça uma abordagem e inicie uma conversa, (5) negociar a passagem de um relacionamento extra-amoroso para um para um relacionamento amoroso, (5) manifestar e despertar afeto no parceiro durante o namoro e (7) sinalizar para o parceiro que ele, ou aquilo que ele está dizendo, é muito importante.

Neste artigo, vamos examinar alguns desses efeitos do olhar no início e no desenvolvimento de relacionamentos amorosos.

O olhar aprofunda os sentimentos

Olhar silenciosamente

Exercício:

Duas pessoas ficam frente a frente e recebem instruções para ficarem em silêncio e se olharem nos olhos durante alguns minutos.

Durante esse exercício, elas acabam “vendo” uma à outra. Vendo sem os estereótipos usuais. É um contato profundo. Cada uma viu a outra como um ser humano. Elas deixaram de usar os filtros, as imagens que tinham sobre as pessoas em geral e sobre aquela pessoa que está ali na sua frente, em particular.

Ser é visto desta forma é tocante: a outra pessoa olhou para mim de verdade. Ela abriu mão de estereótipos, imposições, expectativas a meu respeito e permitiu que “aquilo que sou de verdade” chegasse até ela. Ser visto desta forma é ser visto de verdade e sem reservas.  

Muitas pessoas choram durante esse exercício. Muitas pessoas se abraçam e se afagam.

Somos altamente sensíveis a este tipo de olhar. Quando acontece, ele nos atinge profundamente. Infelizmente é muito raro as pessoas se olharem desta forma no dia a dia.

Como desencadear um relacionamento amoroso através do modo de olhar

Uma forma relativamente eficaz, mas muito pouco usada, de desencadear um relacionamento amoroso é olhar demoradamente para a região dos olhos da outra pessoa, ou seja, encarar tal pessoa. Quando encaramos uma pessoa, olhamos para a região dos seus olhos e deixamos que ela perceba isso.

Quando começamos a fazer isso com uma pessoa, ela geralmente olha de volta, pelo menos para certificar-se de que está sendo encarada.

Quando ela lança este olhar certificador e quem a está encarando continua a olhar para os seus olhos, ela interpreta isso como sinal de interesse por parte de quem está encarando, possivelmente um interesse amoroso. Quando uma pessoa é encarada, ela pode corresponder e também encarar de volta a pessoa que a está encarando.

Olhar entre as sobrancelhas.

Quando uma pessoa tem dificuldade para olhar diretamente nos olhos de quem ela está interessada, como geralmente acontece com os tímidos, ela pode olhar na região próxima aos olhos da outra pessoa, como entre as suas sobrancelhas ou na raiz do seu nariz. Olhar nesta região pode ser mais confortável do que olhar diretamente nos olhos da outra pessoa e é igualmente eficiente. (Quando a distância entre as duas pessoa é de pelo menos um metro quem está sendo olhado não sabe distinguir se a outra pessoa está olhando nos seus olhos ou nestas regiões próximas aos olhos).

Olhar demoradamente nos olhos pode disparar paixão instantânea

Recentemente Arthur Aron, um grande pesquisador e teórico do amor, propôs um método para provocar o apaixonamento instantâneo (Veja um link para esta publicação no final deste artigo). Este método consiste em dois procedimentos:

1- Compartilhar pensamentos e sentimentos íntimos: cada pessoa apresenta 36 perguntas para a outra. Essas perguntas têm o objetivo de produzir rapidamente o compartilhamento da intimidade.

2- Olhar nos olhos da outra pessoa por quatro minutos, sem falar nada. Olhar demoradamente e em silêncio nos olhos da outra pessoa geralmente produz uma grande dose de proximidade psicológica.

Existem algumas evidências que indicam que essa maneira de despertar o amor pode ser bem sucedida. Claro que o seu sucesso depende do grau de compatibilidade entre os parceiros em vários outros setores (faixa etária, nível socioeconômico, beleza, etc.).

Costumo usar esse tipo de olhar no meu consultório para tentar reavivar o amor entre casais.

O olhar ajuda a localizar desconhecidos interessados em flertar com você

Monica Moore, uma pesquisadora americana do flerte em locais públicos, identificou três tipos de olhar que eram lançados por interessados em começar um flerte:

1- Olhar de varredura. Quando existem diversas pessoas em um ambiente percorrem o olhar pelo ambiente repetida vezes e verificam aqueles que também estão olhando de volta.

2- Olhar dardo. Fazer contato de olhos por menos que três segundos. Olhar para os olhos da pessoa um tempo um pouquinho maior do usual - aquele esperado para cruzamentos casuais de olhares.

Se a pessoa olhada desviar o olhar no tempo regulamentar (tempo usual para este tipo de evento), isto funciona como se ela dissesse: “Só olhei para ver quem era você ou se você estava olhando para mim” (esta já é certa manifestação de interesse).

3- Fixação do olhar. Se, nesta ocasião, a outra pessoa faz contato de olho com você, o tempo suficiente para que ambos verifiquem que o outro está olhando e deixando ver que está olhando isto significa que ela está aberta para um relacionamento.

Se a outra pessoa olhar de volta, não desvie o olho imediatamente. Também não fique olhando fixamente um tempo exageradamente grande. Olhe até ela perceber o seu olhar. Se ela corresponder, o seu flerte foi bem sucedido. Pode se aproximar para conversar com ela.

Mesmo estando longe, só tenho olhos para você

A seguinte história mostra a importância do olhar na manifestação do interesse amoroso.

O apaixonado tenta manter a pessoa amada dentro do seu campo de visão

 Mariana era a convidada especial da festa de André. André era muito tímido. Na festa, todos sabiam do seu interesse por Mariana. No entanto, a sua timidez impedia-o de tirá-la para dançar ou ficar conversando com ela. Ele não queria conversar ou dançar com mais ninguém. Toda vez que Mariana se aproximava dele, ele ficava praticamente mudo ou falava coisas que eram irrelevantes para expressar o que realmente ele estava sentido e gostaria de dizer. A única pista que denuncia claramente o seu forte interesse por Mariana era o seu olhar: a qualquer instante que ela olhava na sua direção, lá estava ele estava olhando para ela. Onde quer que ela estivesse, a face dele sempre estava voltada na sua direção. Ele só tinha olhos para ela. (História real. Certos detalhes que permitiriam a identificação dos personagens foram alterados).

Esta história mostra como é difícil tirar os olhos da pessoa por quem sentimos muito interesse amoroso. Para o enamorado, esta pessoa é o que existe de mais atraente no local onde ambos se encontram.

A paixão ou o amor romântico por alguém é um dos fenômenos mais importantes que podem existir para um ser humano. Por este motivo, é natural que olhemos para quem nos atrai amorosamente e deixemos de olhar para outras pessoas, objetos ou eventos que também estão presentes no mesmo ambiente. Assim sendo, a maneira de olhar é uma pista muito importante sobre a existência ou não de um interesse amoroso por parte de quem olha ou deixa de olhar.

Flerte durante a conversa: só tenho olhos para você

“Traz mais uma, por favor,” diz o enamorado, apontando para a garrafa vazia de cerveja, sem tirar os olhos da companheira, sem olhar para o garçom.

“Ela era filha do dono de uma farmácia e, naquele dia, estava substituindo um caixa que faltou. Passei lá para comprar uma loção de barba. Na hora que fui pagar, notei que ela queria conversar. Começamos a conversa. Ela só olhava para mim. Ela não notava a presença outros clientes que chegavam para efetuar seus pagamentos. Eu é que tinha que chamar a sua atenção para a chegada desses clientes. Ela também não estava prestando atenção nos trocos: errou várias vezes! Eu tive que alertá-la ou os clientes reclamavam (sempre que eles recebiam a menos, é claro!!)”.

(História real. As características pessoais e profissionais dos personagens foram alteradas para não permitir suas identificações). [história real, dados identificadores fictícios].

Durante a conversa, deixar de olhar para o ambiente ao redor é um poderoso sinal de interesse amoroso

Uma das melhores pistas que indicam o interesse amoroso de uma pessoa por outra é “só tem olhos” para esta pessoa. A história da filha do dono da farmácia apresentada acima ilustra bem isso. Quando o rapaz em quem ela estava interessada chegou à farmácia, ela só tinha olhos para ele: não conseguia olhar nem mesmo os clientes que vinham efetuar os seus pagamentos. Na hora de fazer o troco, ela cometeu muitos erros grosseiros. Toda a sua atenção estava canalizada para o rapaz que estava ali na sua frente.

Quando se trata de alguém em quem temos interesse amoroso, olhamos quase que continuamente para a pessoa esteja ou não ela fazendo algo interessante. Ela é interessante de qualquer forma. Ela é mais interessante do que os outros fatos que estão ocorrendo.

Você não consegue usar o olhar para iniciar e fazer progredir relacionamentos amorosos? Consulte um psicólogo.

NOTA

Aron, A et al. The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings. http://psp.sagepub.com/content/23/4/363.full.pdf+html 

(Consultado em 31/01/2015)

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Por Ailton Amélio às 09h12

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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