Blog do Ailton Amélio

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20/04/2016

Como apressar o desapaixonamento

Atendo no meu consultório muitas pessoas que estão sofrendo desesperadamente por amor. São pessoas que se apaixonaram e não foram correspondidas, pessoas que eram correspondidas anteriormente e o amor do parceiro terminou ou, ainda, pessoas que foram traídas ou muito magoadas por outros motivos e que, por isso, não podem permanecer amando a parceira.
O sofrimento por amor pode ser terrível: tira a motivação para tudo, provoca a perda do sono, provoca a desregulação de todos os setores da vida, abaixa a autoestima, etc.
O sofrimento pode ser tão atroz que o paciente tem que ser encaminhado para receber medicação.
Venho desenvolvendo procedimentos para ajudar a aliviar esses sofrimentos e para ajudar essas pessoas a retomarem suas vidas. (Veja outras informações no video, postado no meu blog, em 11/04/2011, “Terapia do Desapaixonamento: www.ailtonamelio.blog.uol.com.br).
Esses procedimentos parecem simples, mas geralmente são bastante complexos e trabalhosos e exigem a assistência de um psicólogo para serem implementados com eficiência.
Os resultados geralmente são bons, mas nada mágicos. O grau de eficiência varia de acordo com o caso.
Apresentarei aqui alguns dos procedimentos que utilizo para combater o apaixonamento que produz o sofrimento. No consultório, além desses e de outros procedimentos, também procuro ajudar o paciente em outros setores como recuperar a autoestima, interessar-se amorosamente por outra pessoa, reprogramar sua vida.

ALGUNS PROCEDIMENTOS PARA COMBATER O AMOR QUE PRODUZ SOFRIMENTOS

Fortalecendo variações negativas naturais da percepção
Quando levamos um fora, a nossa mente e as nossas emoções entram em uma espécie montanha russa: em certos momentos, amamos perdidamente a parceira. Em outros momentos, sentimos pena dela, a odiamos, a desprezamos…
O desapaixonamento acontece quando a visão negativa da amada que aparece nesses momentos vai se tornando mais frequente, mais duradoura e mais intensa e a visão positiva dela vai se tornando mais rara, menos duradoura e menos intensa.
O terapeuta tenta descobrir as imagens, pensamentos e sensações que ficam presentes nesses momentos negativos e ajuda a fortalecê-los e a torná-los disponíveis para serem recuperados naquelas horas que a paixonite aguda toma conta.
Por exemplo, o terapeuta sugere que, nas horas que a paixonite ataca, o apaixonado procure pensar vividamente nas cenas e fatos mais poderosos que o levam a sentir raiva ou a desprezar a amada.
Combatendo a idealização da amada
O apaixonado rejeitado chega ao consultório. Eu lhe peço para enumerar as qualidades da amada. Ele, mais que depressa, descarrega uma lista enorme de qualidades.
Em seguida, peço a ele que enumere os seus defeitos. Tarefa muito difícil para ele: ela é perfeita! Nada de defeitos. Alguns defeitinhos que ele consegue achar, após muito esforço, até que são bonitinhos e contribuem para o charme que ela tem!
Essa cena é a padrão: no começo da terapia o “programa” “mulher maravilhosa” está funcionando a todo vapor. O programa “mulher defeituosa” está muito minguado.
Durante a terapia, vou usando vários recursos para “abrir os olhos” do amante e ajudá-lo a ver a amada de uma forma mais realística. Não se trata, obviamente de denegri-la ou distorcer a sua imagem, mas sim, de desidealizá-la.
Para ajudá-lo nessa tarefa, por exemplo, peço a ele para dizer o nome de alguém que conheça bem o casal. Dai para frente, peço ao paciente para assumir a identidade da pessoa que ele mencionou e a passar a falar dos aspectos negativos da amada e do relacionamento do casal. Se necessário, peço ao paciente para apontar alguém que antipatiza com a amada. Em seguida, peço a ele passa a fazer o papel dessa pessoa e a apontar e discorrer sobre seus defeitos. Também ajuda muito pedir para o amante funcionar como advogado de acusação e tentar convencer jurados imaginários sobre as más qualidades da amada.
Diminuição da esperança
Segundo Stendhal, sem esperança o amor não sobrevive. Quem foi rejeitado acha um jeito de manter as esperanças: “Ela vai se arrepender”, “Ela estava em um mau momento quando terminou o relacionamento”, “Isso já aconteceu outras vezes e, em seguida, o relacionamento foi retomado”.
Para corrigir as esperanças infundadas, o terapeuta ajuda o amante a repassar os sinais de que indicam o desamor e a desistência da amada.
Quando, de fato existem sinais que autorizam a esperança, o terapeuta pode incentivar o amante a fazer uma tentativa de reconciliação para testar a veracidade e a força desses sinais. Caso tais sinais sejam reais, a reconciliação pode acontecer e o amor é retomado.
Condicionamento clássico: associar estímulos neutros com estímulos evocadores de reações fisiológicas.
O experimentador toca um sino na presença do cão. O cão não apresenta nenhuma reação notável. Então, ele começa a tocar o sino e, em seguida, oferece comida apetitosa para esse cão, que está esfomeado. Algumas associações depois entre esses acontecimentos, o cão começa a salivar assim que ouve o sino. Ou seja, o som do sino adquiriu a propriedade de eliciar a salivação. Isso aconteceu porque esse som foi temporalmente associado com a comida.
Associação da imagem do parceiro com mal-estares

No filme Laranja Mecânica, de Kubrick, o jovem criminoso recebe uma injeção que provoca náuseas. As suas pálpebras são mantidas abertas por um fixador para impedir que ele feche os olhos. Ele, então, é obrigado a assistir um filme que mostra aquelas coisas criminosas que lhe davam tanto prazer: ultraviolência e sexo promíscuo. Ao mesmo tempo, ele é obrigado a ouvir músicas do seu amado Beethoven (linda por sinal, principalmente a Ode a Alegria). Essa associação com a música foi programada por pura maldade e sadismo das autoridades.
O mal-estar que ele está sentindo devido à injeção vai se associando com as imagens prazerosas e com a música tão querida. Depois de algum tempo essas imagens e a música passam a evocar sensações ruins. O condicionamento clássico foi bem sucedido.
Da mesma forma, para fins de desapaixonamento, ajuda muito quando o amante aprende a evocar em si mesmo sensações desconfortáveis e, enquanto experimenta tais sensações, lembra-se da amada. Tais sensações ruins acabarão sendo associadas com as imagens da amada que, antes, evocavam a paixonite.

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Por Ailton Amélio às 11h43

Sentimentos poderosos estão paralisando sua vida?

"Não adianta chorar o leite derramado!" (Ditado popular)

Um risco que corremos frequentemente é a paralisia ou a prática de ações inadequadas provocadas por sentimentos muito intensos e negativos.

Nestes casos, os sentimentos, que deveriam servir como alertas contra danos e servir como motivadores para ações eficientes para lidar com as situações, tomam toda a atenção e desmobilizam ações efetivas.

Por exemplo, o medo intenso pode nos congelar e impedir que reajamos a uma agressão ou a um carro desgovernado que vem na nossa direção.

Outro exemplo: quem está deprimido fica tão impregnado pela desesperança que não consegue fazer mais nada.

Alguns sentimentos intensos fazem que a pessoa que está tomada por eles só pense naquilo que sente e não nas medidas que poderia tomar para resolver a situação. Por exemplo, quem foi abandonado pela amada, muitas vezes, perde a vontade e as forças para fazer qualquer coisa que ajudaria a parar de pensar nela e a se ligar em outras pessoas.

A saída de muitas situações doloridas, amedrontadoras ou enfurecedoras exige que não nos deixemos guiar pelos sentimentos, mas sim que vejamos as formas de lidar com elas e, apesar dos sentimentos, aplicar as medidas para sair delas.

Deixar-se controlar por sentimentos que são maus conselheiros

Os sentimentos geralmente são úteis e adaptativos: eles existem porque melhoraram as chances de sobrevivência individual e da nossa espécie. Eles, no entanto, podem se voltar contra o próprio organismo, tal como acontece com o sistema imunológico: geralmente este sistema protege o organismo, mas pode se tornar disfuncional e passar a atacá-lo ou atacar alguns dos seus órgãos (doenças “autoimunes”). Da mesma forma, as emoções podem se tornarem disfuncionais, tal como acontece nos casos de fobias e de timidez. Nestes casos, o medo se torna desproporcional ao risco e a pessoa pode ser altamente prejudicada porque deixa de fazer coisas que lhes seriam benéficas nessas situações.

As disfunções emocionais e perceptuais são muito mais frequentes do que imaginamos. A todo o momento, deixamos de fazer muitas coisas úteis e fazemos muitas coisas inúteis porque estamos sendo guiados por sentimentos, percepções e expectativas distorcidas ou totalmente erradas.

Muitas vezes, estamos vendo tudo negro, ficamos pessimistas. Pode ser que até tenhamos algumas boas razoes para isso, para estarmos desanimados ou tristes, mas não para desistirmos. Quando há boas razões para os sentimentos ruins, temos que admiti-los. Eles são legítimos. Mas quando a nossa parte racional indica claramente que existe uma boa chance que as coisas deem certo, apesar de tudo que estamos sentindo de mau, temos que colocar a faca nos dentes e seguir em frente.

Com a faca nos dentes

Recentemente assisti a um filme na TV a cabo sobre a história de sobreviventes de um acidente de avião no Alaska (“A Perseguição”. Um filme de Joe Carnahan com Liam Neeson, Dallas Roberts). Mais no final desse filme, três deles saem à procura de ajuda. O que interessa aqui é a persistência deles para lutar contra aquela situação bastante desesperadora: continuam a caminhar embora sintam fome, dor, cansaço, sono e medo. Todos esses sentimentos e sensações pressionam para que desistam da caminhada. A área racional de seus cérebros, no entanto, concluiu clara e acertadamente, que se fizessem isso morreriam em pouco tempo porque, como já se afastaram do local da queda do avião, provavelmente não seriam localizados com vida: sobreviveriam por pouco tempo naquelas condições hostis.

Esta maneira agir em face de sentimentos e sensações negativas não ocorre apenas em situações dramáticas como esta dramatizada no filme. Ela também está presente no nosso dia a dia: levantamos da cama quando o sono ainda nos diz para ficar; enfrentamos o trânsito para encarar um trabalho pouco atraente, mesmo quando gostaríamos de ficar em casa ou de passear; comemos aquela saladinha meio sem sabor quando o nosso apetite nos faz sonhar com aquela comida gordurosa e altamente calórica; corremos em uma esteira para ficar no mesmo lugar para fazer ginástica, etc.

Muitas vezes, no entanto, nos rendemos e abandonamos muitas batalhas que poderiam, perfeitamente, serem ganhas. Alguns dos motivos desse abandono são os seguintes:

- Os sentimentos negativos são muito fortes: desânimo, revolta, raiva pelas coisas não darem certo.

- Os frutos da batalha só podem ser colhidos após muitos esforços.

- É necessário um bom tempo de persistência para colher os frutos dos esforços.

- As recompensas pelos maus comportamentos são imediatas e certas (mas danosas em médio e longo prazo) e as recompensas pelos bons comportamentos são apenas prováveis e só virão em médio e longo prazo.

Por esse e outros motivos, muita gente já desistiu do controle do peso, de encontrar um trabalho prazeroso e desafiador, de viver um grande amor...

Cada vez que desistimos de algo que é significativo para nós e que tem uma boa chance de ser realizado morremos um pouco (a depressão é a sensação que perdemos o controle sobre áreas importantes de nossas vidas). Cada vez que não nos livramos de algo que já ficou no passado, de algo que não pode ser refeito ou que realmente não pode ser feito, colocamos uma pedra naquele saco que está nas nossas costas.

Áreas importantes da sua vida estão paralisadas porque seus sentimentos tomaram toda a sua atenção e não ficou espaço para lidar com eles eficientemente? Procure a ajuda de um psicólogo.

Por Ailton Amélio às 11h36

02/04/2016

Hedonismo ou asceticismo: você sabe aproveitar a vida?

Levando-se em conta suas tendências para se entregarem ou para se absterem do prazer imediato, as pessoas podem ser classificas em algum ponto do contínuo que vai do hedonismo ao asceticismo.
Aquelas tipicamente hedonistas não resistem à boa comida, praticam muito sexo, estão sempre viajando, não têm dó de gastar dinheiro, desfrutam do relacionamento social, etc.
Aquelas tipicamente ascetas são poupadoras, só adquirem o essencial, levam uma vida simples, são regradas na comida e na bebida, etc.

Causas do hedonismo e do ascetismo

Algumas das principais causas do hedonismo e do ascetismo são: (1) a maior força de controle das consequências imediatas em relação a menor força de controle das consequências distantes e (2) a capacidade de resistência à frustração.

As consequências imediatas controlam mais do que as consequências distantes
Quando outras condições são semelhantes, as consequências imediatas controlam mais nossos comportamentos do que as consequências mais distantes. Por exemplo, o prazer de comer é imediato e, por isso, controla mais nossos comportamentos do que o prazer de ficar magro e de ter uma boa saúde, que só acontecem em médio ou longo prazo, através do controle da comida.
Outro exemplo: o prazer de navegar na internet é imediato. O prazer de concluir um bom trabalho e ser recompensado por isso demora mais tempo. Por isso, podemos perder muito tempo na internet ao invés de trabalhar.
O desprazer de fazer ginástica é imediato para algumas pessoas. Os prazeres de ter um corpo bonito e uma boa saúde só acontecem após um bom tempo de boa ginástica. Por isso, muitas pessoas não conseguem fazer ginástica!

Diferentes graus de resistência à frustração
Certas pessoas têm mais “resistência à frustração” do que outras. Aquelas que têm maior grau desse tipo de resistência toleram melhor o desconforto provocado pela frustração do que aquelas que têm menor grau de resistência à frustração. Em outras palavras, aquelas pessoas que têm mais resistência à frustração conseguem tolerar melhor o desconforto provocado por atividades desagradáveis que geram benefícios futuros (trabalhar duro, fazer ginástica, estudar arduamente, etc.) e conseguem se abster de atividades que geram benefícios imediatos, para obter uma quantidade maior de benefícios no futuro (por exemplo, se abstêm do prazer imediato de fumar para terem mais saúde no futuro; renunciam ao prazer imediato do descanso para fazer ginástica e ficarem mais saudáveis e bonitas no futuro).
Um estudo americano mostrou que, aos quatro anos de idade, as crianças já são bastante diferentes entre si na capacidade para adiar um prazer imediato para ganhar outro maior, mais tarde. Neste estudo, os experimentadores colocaram crianças sentadas em cadeiras em frente a uma mesa. Na mesa, na frente de cada criança, havia um marshmallow dentro de um prato. Os experimentadores informaram essas crianças que, se não comessem aquele marshmallow até eles voltarem, elas ganhariam mais um e, ai, poderiam comer os dois. Em seguida eles saiam da sala. As crianças eram filmadas o tempo todo. Esse estudo mostrou que algumas crianças conseguiram adiar o prazer imediato de comer o marshmallow que já estava ali na sua frente para conseguir ganhar dois algum tempo depois.
Vários aspectos dos desempenhos dessas crianças foram monitorados durante muitos anos após esse experimento inicial. Esse monitoramento mostrou que aquelas crianças que conseguiram adiar a gratificação tendiam a ser mais eficientes em diversas tarefas como nos seus desempenhos acadêmicos e sucesso na vida adulta.

Vantagens e desvantagens do hedonismo e do asceticismo

Tanto o hedonismo quanto o ascetismo apresentam vantagens e desvantagens. Os exageros em qualquer uma dessas duas formas de se entregar ou de se abster do prazer é que causam problemas.

Vantagens e desvantagens do hedonismo
Invejamos aquelas pessoas que sabem aproveitar a vida. Existem vários ditados que mostram a o reconhecimento por pessoas que aproveitam os prazeres da vida. Por exemplo:
“Não vale nada ter dinheiro guardado no banco e levar uma vida chata e pobre”.
“Para ser rico não basta ter dinheiro, também é preciso saber gastá-lo”.

Por outro lado, recriminamos as pessoas que não pensam no futuro. Sabemos que aqueles que se entregam demais aos prazeres imediatos colocam-se em risco e comprometem seus futuros. A seguinte anedota ilustra bem a visão negativa que as pessoas têm daqueles que são regidos apenas pelos prazeres imediatos:
Um entrevistador estava visitando asilos para descobrir as causas da longevidade. Em certa ocasião estava entrevistando uma senhora que parecia ser muito idosa: cabelos ralos e brancos, pele enrugada e emaciada, dentes mal conservados, costas encurvada, pouca energia, etc. O entrevistado perguntou para essa senhora: como foi a sua vida? Ela começou a contar: “Bebi tudo que podia, tomei drogas, fiz sexo sem proteção, não fiz ginástica”... O entrevistador então lhe perguntou: quantos anos a senhora tem? Ela respondeu: "Trinta e dois!”

Vantagens e desvantagens do asceticismo
Por outro lado, a abstenção exagerada dos prazeres imediatos em prol de condições melhores no futuro também apresenta seus riscos. A seguinte anedota, de autoria desconhecida, ilustra bem esse ponto de vista:
“Ele passou a vida toda economizando”. Absteve-se de tudo que não era necessário e acabou acumulando um grande patrimônio. Quando já estava velho e caiu em si e percebeu que era muito tarde para começar a aproveitar muitas coisas boas da vida: não tinha disposição para viajar, não atraia mais as mulheres, seus filhos eram ressentidos porque ele não facilitou suas vidas tanto quanto podia. E o pior de tudo, tinha que andar com aquelas canícula enfiada no nariz para receber mais oxigênio.

Qual a sua propensão, hedonismo ou asceticismo?

Problemas para se entregar ou para se abster do prazer imediato? Procure a ajuda de um psicólogo.

Por Ailton Amélio às 14h24

Sobre o autor

Ailton
Amélio

é psicólogo
clínico,

doutor em Psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP. Autor dos livros "Relacionamento amoroso" (Publifolha), "Para viver um grande amor" (Editora Gente) e "O mapa do amor" (Editora Gente).

Sobre o blog

Um blog sobre relacionamento amoroso e comunicação interpessoal.

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